Como a realidade virtual pode estimular a empatia e transformar o mundo

Por Redação

Para Chris Milk, a VR pode nos tornar mais compassivos, mais compreensivos e mais conectados

Empatia, na definição do historiador Roman Krznaric, é “a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações”.

A empatia envolve pôr-se na pele do outro, no lugar do outro e, com ele, sentir suas dores emocionais.

O ser humano é empático por natureza

Em seu livro Empathy (2014), Krznaric destaca que a capacidade de empatizar é um dos maiores talentos ocultos que quase todo ser humano possui.

Com exceção das pessoas com distúrbio do espectro do autismo e os psicopatas, minúscula proporção (em torno de 2%) de pessoas que exibe zero grau de empatia, 98% da humanidade nasceu para empatizar e foi equipada para estabelecer conexão social.

Embora a empatia esteja no centro de quem somos, o ser humano tem presenciado um declínio empático nas últimas décadas, o que se deve a dois fatores principais.

O primeiro fator se chama “fadiga da compaixão” ou “fadiga da empatia”, um estado de exaustão psicológica produzido pela imensa quantidade de reportagens e imagens deprimentes vindas de todos os cantos do planeta.

Esse fenômeno explica por que olhamos para a foto de uma criança num país distante, ou vítimas inocentes de uma guerra, e temos pouca reação emocional ou empática.

A crítica cultural Susan Sontag, em seu livro On Protograph (1977), enfatizou o fenômeno quando disse que “as imagens anestesiam”. Ao longo de nossas vidas, vimos inúmeras fotos de crianças famintas e raquíticas e, por isso, ficamos confortavelmente entorpecidos.

O segundo fator é o desenvolvimento das redes sociais e da cultura online, que parecem estar nos levando de volta para uma Idade das Trevas da empatia.

Embora a Internet e as redes sociais sejam essenciais para disseminar informação e nos tornar mais conectados e globalmente conscientes, ao menos até agora não está servindo para reverter o declínio empático. Talvez até esteja contribuindo para ele.

Promovendo a empatia por meio da realidade virtual

Ciente de todos estes problemas, alguns pesquisadores vêm se dedicando a promover a empatia de uma forma diferente e inusitada, por meio da realidade virtual (VR). Estes estudiosos acreditam que a VR pode literalmente mostrar como é se pôr no lugar de outra pessoa.

Mas o que é exatamente a VR? Descrevê-la, sem dúvida, não é uma tarefa fácil.

A jornalista imersiva Nonny de la Peña afirma que “ao colocar os óculos de VR, que acompanham onde quer que você olhe, você tem uma sensação corporal total, como se estivesse lá, na verdade”.

Já para o artista visual Chris Milk, “é um meio de muita experiência sensorial. Você vai sentindo as coisas. É uma máquina, mas dentro dela, há uma semelhança com a vida real, há uma sensação de veracidade. Você se sente inserido nesse mundo, e sente a presença das pessoas que estão lá com você”.

Em TED Talk, Milk assinalou que a VR conecta seres humanos a outros seres humanos de modo profundo como nenhum outro meio de comunicação. Essa conexão pode modificar a percepção das pessoas entre si e, por isso, tem o potencial de realmente mudar o mundo.

Em 2015, a empresa de VR de Chris Milk (VRSE), em parceria com a ONU, gravou o documentário Clouds Over Sidra. A equipe de Milk se deslocou até um campo de refugiados na Jordânia, no Sudeste Asiático, e filmou a história de uma garota de 12 anos chamada Sidra. Ela e sua família fugiram da Síria, atravessando o deserto até a Jordânia:

Em janeiro de 2015, Chris Milk e sua equipe apresentaram o documentário no Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum) em Davos, na Suíça, a um grupo de executivos cujas decisões afetam a vida de milhões:

Clouds Over Sidra sendo exibido no World Economic Forum

Estas pessoas não poderiam estar fisicamente em uma barraca num campo de refugiados na Jordânia, mas Milk as levou “até lá” com Clouds Over Sidra, tocando-as profundamente com o documentário em VR.

Quando você está usando o dispositivo virtual (…) você olha ao redor deste mundo. Você verá em 360 graus, em todas as direções. E quando você está lá no quarto dela [de Sidra], olhando para ela, você não está vendo por uma tela de TV, você não está olhando por uma janela, você está sentado lá com ela. Quando você olha para baixo, você está no mesmo chão em que ela está sentada. E por causa disso, você sente a humanidade dela de modo mais profundo. Você se identifica com ela de modo mais profundo. E eu acho que nós podemos mudar concepções com esta máquina. — Chris Milk

Chris Milk continuará sua missão de produzir mais filmes, com a convicção de que a imersão virtual oferecida pelos vídeos poderá transformar o mundo e revolucionar o hábito da empatia.

É neste ponto — acredita — que está o verdadeiro poder da VR, para nos tornarmos compassivos, mais compreensivos e mais conectados.

Haverá um tempo em que olhar o mundo através dos olhos de outras pessoas se tornará tão comum quanto olhar para os dois lados quando atravessamos a rua.

Enquanto essa profunda mudança cultural não acontece, a VR poderá criar laços humanos que fazem valer a pena viver e, ao fim e ao cabo, nos tornar mais humanos.

Fonte: Futuro Exponencial