A pancada que eu levei do Design Sprint

Estava eu concluindo múltiplos cursos simultaneamente da Interaction Design Foundation (IDF), passando por um verdadeiro intensivão, dos básicos aos intermediários, dos intermediários e já de olho nos avançados. Eu fazia a trajetória para me tornar um mestre-ninja samurai 8º dan (como diz meu professor de Imagem Digital) na metodologia do Design Thinking.

Passei por todos os seus conceitos, as suas técnicas, as ferramentas, os estudos de caso, a filosofia, e principalmente pelos seus cinco estágios não-lineares de execução contínua. Ainda longe de ser um mestre-ninja, mas eu estava me tornando um exemplar jovem padawan na força do Design Thinking.
Tudo uma maravilha… até que eu me deparo com este vídeo no Youtube (em inglês):
O vídeo de uma agência chamada AJ&Smart, com base em Berlim, mostrando na miniatura um carinha meio agitado segurando um iPhone (que eu descubro mais tarde ser Jonathan Courtney, diretor da agência) e com os dizeres em caixa alta: DESIGN THINKING NÃO FUNCIONA!!
Você pode descobrir todos os argumentos dele ao assistir o vídeo. Contudo, o que ele diz em suma é: embora a metodologia do Design Thinking tenha tido a sua grande importância, segundo Jonathan, ela não funciona na prática. Na hora do vamos ver, quando a equipe está na sala de reunião e empresa precisando de resultados. Na realidade, em todas as empresas que ele passou e que usavam Design Thinking acabavam apenas com um Dropbox cheio de PDFs legais e outras ferramentas facilitadoras que nunca usavam.
Isso o levou a descobrir, usar e propagar o chamado Design Sprint, o qual sua agência se tornou a maior evangelista dessa metodologia alternativa criada pelos caras do Google Ventures. Um novo processo que viria para trazer real impacto no desenvolvimento de soluções e sem qualquer mínima enrolação.

O Design Sprint usa da filosofia do Design Thinking, mas com a premissa de tornar todo o blá-blá-blá teórico em um processo de apenas uma semana de total mão na massa e com resultados tangíveis e positivos. Essa foi a menor definição de Design Sprint que você já leu, e esse foi o intuito. Design Sprint receberá outro artigo apenas para o assunto.
Então, por que usar uma metodologia supostamente obsoleta, antiquada, que requer um certo intervalo de tempo, além de outros recursos, quando podemos resolver todo e qualquer problema em apenas 5 dias (a agência de Jonathan já faz em 4) com algumas pessoas dentro de uma sala só com canetas marca-cd, post-its e quadros brancos?
Pois é, imagina essa pancada para o aprendiz-gafanhoto que eu estava sendo em Design Thinking, aquela coisa que agora não passaria de uma buzzword e que quando você joga no Google aparecem apenas hexágonos.

É claro que os argumentos de Jonathan e da AJ&Smart (que fez muito mais conteúdo a respeito em seu canal) não simplesmente arrancaram de mim tudo que eu já havia aprendido sobre o Design Thinking, o mesmo método usado na renomada escola de design de Stanford.
Apesar da AJ&Smart já ser uma agência milionária, que é reconhecida por fazer “o melhor Design Sprint do mundo” pelo próprio criador da metodologia e autor do livro-bíblia: Sprint, o senhor Jake Knapp. Apesar da AJ&Smart mostrar e comprovar a eficácia de seus processos de forma aberta no Youtube em vídeos de caráter didático. Apesar de tudo, eu precisei testar e validar aquilo que estavam vendendo em comparação com o Design Thinking.
Então, nada melhor do que testar enquanto se produz.
Eu escolhi dois cases para o meu portfólio em UX Design/Product Design, o primeiro abordando o processo do Design Thinking e o segundo já pelo Design Sprint. A diferença crucial entre um e outro foi simples: o posicionamento do usuário no processo, mas calma.
Vamos falar mais sobre.
Enquanto no primeiro processo existiu a fase de empatizar com o usuário, isso na prática consistiu em entrevistas semi-estruturadas com potenciais usuários do meu produto… No segundo processo, o usuário só veio ser consultado na última fase, no teste.
É óbvio que existem outras diferenças cruciais entre Design Thinking (DT) e Design Sprint (DS) e que dariam também um novo artigo só para elas:
- Personas, jornadas de usuário e outros entregáveis do DT são ignoráveis e considerados besteira no DS.
- A fase de empatia, que é a antecessora de todas as outras no DT, não tem relevância no DS.
- Investir tempo para descobrir motivações e necessidades do usuário antes de uma solução, como é indicado no DT, não vem ao caso no DS.
- No Design Thinking qualquer suposição da equipe deve ser substituída pela real necessidade do usuário. No Design Sprint, a instrução é de colocar a suposição em votação na equipe, construí-la de forma descartável e testar com o usuário.
- O tempo de execução no DT pode ser maior, pois existe possibilidade de pesquisa com usuários antes, durante e depois do processo. A construção de entregáveis como personas e diagramas de afinidade também requer tempo.
- No DS existe a possibilidade de um dia antes da semana do Sprint para uma “pré-pesquisa” sobre procedimentos atuais realizados pelos usuários.
Entre outras coisas que vão de trabalhar em conjunto, mas de forma individual até a proibição de celulares durante as etapas do processo.

Mas aí está, eu fui ensinado durante todo o tempo a desafiar as minhas suposições, com desafiar entenda como descartá-la em prol do que o usuário realmente precisa, e como descobrimos o que o usuário realmente precisa? Perguntando ao próprio. Então, vem uma galera que passou muito tempo na prática do Product Design, fizeram centenas de Sprints, e me dizem que minhas suposições não são tão descartáveis assim.
Hm.
No fim das contas, eu consegui finalizar os dois cases com uma boa taxa de sucesso em ambos os casos. Tanto usando o processo Design Thinking quanto o processo Design Sprint, eu consegui alcançar soluções para os problemas dos inícios.
Agora, na hora do veredito, eu devo reconhecer: a tangibilidade que o Design Sprint oferece é eficientemente tentadora.
É realmente demorado produzir uma persona que faça sentido para a proposta daquele modelo de negócio, é mais demorado ainda escrever numa linguagem que seja claramente entendível para todas as partes interessadas, e as personas são apenas uma pequena parte de toda a metodologia do Design Thinking. O mapeamento da jornada do usuário levou ainda mais tempo para ser feito no primeiro case, claro, essa jornada me gerou vários insights incríveis de oportunidades, mas eu não precisei me preocupar com nada de entregável (além do protótipo) na metodologia do Design Sprint.
No segundo case, tudo que eu fiz foi me isolar, rabiscar, votar, criticar e pendurar papéis na parede. Ah, como pendurar coisas na parede tem poder.

Falando dessa forma parece que fazer um Sprint é a coisa mais fácil do mundo, pode até ser, mas talvez só depois que cada membro da equipe estiver familiarizado com as atividades que são feitas durante a semana do processo. Aliás, não só os membros selecionados para aquele Sprint em questão, mas toda a cultura da empresa ou agência, em todos os envolvidos e partes interessadas.
Até lá, isolamento, rabiscos, votações, críticas e pendurar coisas na parede pode parecer só um pouco complicado ou não confiável o bastante, mas só um pouco.
Minha dica é: tente um Design Sprint.
Para começar, vá no site da Amazon e compre o livro “Sprint” de Jake Knapp.

