Processo inflacionário na década de 80, metas de inflação, neutralidade da moeda e Regra de Taylor: Análise econométrica

Cconhecida como a década perdida, os anos 80 foi caracterizado por diversos choques exógenos e endógenos ocorridos na economia brasileira. Tudo isso resultou em um processo de decomposição das contas públicas, processo inflacionário e choques heterodoxos para correção da evolução dos preços no decorrer dos anos.
É até extenso tentar colocar todas as medidas que foram tomadas nessa época, assim como suas consequências. A situação foi bem caótica! A inflação tende a fazer isso com uma economia..

Mas, porque a década de 80 é conhecida como a “década perdida”?
A análise do PIB per capita tem seus viés, principalmente regional, mas aqui ele servirá apenas para ver como a inflação decompôs a produção de bens e serviços, assim como a renda nacional na década de 80.

Podemos ver melhor essa relação quando deflacionamos o PIB per capita. O tratamento dos dados foi feito visando o ano base 1980 do IPCA, transformando em índice, e aplicando uma deflação com base em 2017.

No primeiro gráfico podemos ver que o PIB per capita do inicio do período com o final do período é praticamente o mesmo! Logo, não houve qualquer evolução nesse sentido. No segundo gráfico, vemos como a inflação é responsável por esse grave problema.

Nesse gráfico acima, podemos ver a importância do plano Real na economia brasileira. Após 1994, houve certa estabilização do processo inflacionário por meio da URV (Unidade Real de Valor) iniciado 1° de março de 1994.
Também podemos ver essa relação observando o IPCA!

Metas de inflação…
Entre 1994 e 1999 o principal mecanismo utilizado pela economia brasileira para o controle dos preços doméstico era a âncora cambial num regime de câmbio fixo. A partir de 1999, com o pressuposto do tripé macroeconômico, veio a adoção do câmbio flutuante, alterando a preocupação principal na condução de políticas monetárias, que já não seria mais orientada pelo objetivo de minimizar a variação cambial e sim pelo cumprimento das metas inflacionárias.
Essa alteração para as metas de inflação, se dá também pela decomposição das reservas externas, já que para manter a paridade cambial era necessário que o Banco Central brasileiro assumisse a responsabilidade de controlar a saída e entrada de dólar na economia doméstica, e com todos os choques exógenos que ocorriam na época, acabou ficando inviável tal política.

Com metas a serem cumpridas, com a transparências das medidas do Banco Central, e relevando as expectativas dos agentes econômicos frente as alterações na taxa de juros para o controle da demanda agregada, a economia brasileira conseguiu obter certo controle no processo de evolução dos preços.
Neutralidade da moeda…
Aqui se dá uma das grandes discussões teórica das Ciências Econômicas. Para os ortodoxos, como destaca Mollo (2004), existe uma posição dominante na economia, aceitando a ideia de que a moeda é neutra ao longo prazo e no curto prazo sofre variações. Essa concepção sofre divergência entre autores e sua aceitação desde Hume (1752/1963) e Ricardo (1817/1982), onde o aumento da quantidade de moeda ofertada afeta o mercado real transitoriamente, pelo fato de que há o aumento da renda nominal, e por consequência, há variações positivas no mercado real (produto) e futuramente tende ao equilíbrio. Dessa forma são fatores de curto prazo, tornando-se neutra ao longo prazo.
A ideia de neutralidade da moeda, segundo a ortodoxia, parte do princípio que o combate à inflação é decorrente quando o produto efetivo supera o produto potencial, logo os aumentos na taxa básica de juros causam retrações na demanda agregada (em termos keynesianos IS) impondo pressões deflacionárias, gerando no fim, um aumento nos estoques de produtos. O pressuposto aceitável é de que a moeda a longo prazo é neutra e que as variações na economia real observadas no curto prazo são transitórias. Isso indica que os modelos possuem um equilíbrio geral a longo prazo, fundamentando microeconomicamente tais modelos macroeconômicos
Por outra ótica, os pós-keynesianos criticam a utilização de metas de inflação e o uso da regra de Taylor para determinações futuras da SELIC. O principal fator aqui se dá pelo fato da existência de um custo de oportunidade (trade-off) na relação entre juros e investimento, o que diminui o produto potencial, assumindo a não neutralidade da moeda.
Logo, há divergência entre ortodoxos e heterodoxos nesse sentido.
Regra de Taylor…
Pode-se relacionar a neutralidade da moeda com o mercado real através da Teoria Quantitativa da Moeda (Milton Friedman, 1956) que explica a movimentação da moeda, podendo ser relacionada da seguinte forma:
M.V = P.Y
A Teoria Quantitativa da Moeda indica que existe neutralidade da moeda e que a mesma não possui efeitos duradouros no produto efetivo da economia, apenas nos preços. Logo, a movimentação da moeda (M) não causa impactos em Y (produto efetivo) apenas em P (preço da economia doméstica), gerando inflação.
A regra de Taylor parte do pressuposto do monetarismo friedmaniano, indicando o controle da moeda para o controle dos preços via manutenção da taxa básica de juros nominal. O próprio Taylor (1998, p.9) afirma essa relação com a TQM, quando diz: “The policy rule is, of course, quite different from the quantity equation of money, but it is closely connected to the quantity equation. In fact it can be easily derived from the quantity equation.” Logo, é intrínseca a relação da regra de Taylor com a ortodoxia.
Podemos definir a função de forma linear:
r = p + 5*y + 5*(p-2) + 2
Em suma, existem outras variações da regra de Taylor. A que se encontra acima foi reproduzida fielmente do seu artigo publicado em 1993, onde Taylor ressalta que r é a taxa básica de juros nominal da economia norte americana (Federal funds rate), p é a taxa de inflação, y é o desvio do produto em relação ao seu potencial (hiato do produto) e o termo (p-2) nos mostra o desvio da inflação em relação a meta estipulada. O termo 2 é a taxa de juros real de equilíbrio norte americana.
Segundo Dornbusch et al (2013), a regra de Taylor demonstra caso a inflação suba 1% o Banco Central norte americano deve utilizar de uma política monetária contracionista, fixando sua taxa básica de juros em 1,5 pontos acima da atual. Também nos mostra que caso o PIB aumente em 1%, para evitar possíveis pressões inflacionárias, a taxa básica de juros deve elevar-se em 0,5 pontos.
Os parâmetros descritos na fórmula acima não foram estimados econometricamente por Taylor, mas segundo Lopes et al (2012), eles demonstram capacidade significante de ajuste da curva. Podemos afirmar que, como a economia norte americana demonstra pouca oscilação em seus níveis de juros e de inflação, os parâmetros que Taylor propôs possuem significância explicativa por tratarem-se de médias históricas com dados de pouca variação.
Análise econométrica…
Dando início aos testes, é necessário realizar um procedimento conhecido como “teste de raiz unitária”. Além desses dois métodos apresentados na tabela 1 e 2, será acrescentado como princípio básico de aceitação de estacionariedade das séries, o teste de autocorrelação de Durbin-Watson, como sugerido por Gujarati & Porter (2011). A decisão de ser feito dois testes a mais do que encontrado no artigo de Lopes et al (2012) se dá pelo fato que os testes de raiz unitária podem ser tendenciosos a aceitar que as séries são estacionárias (Gujarati & Porter, 2011).
O teste de autocorrelação mostrou que os resíduos das séries não são autocorrelacionados, apresentando comportamento aceitável. Outro aspecto importante, é de que a variável SELIC apresentou ser não estacionária quando analisada no nível em ambos os testes, sendo necessária a decomposição em primeira diferença de todas as séries como mostrado nas tabelas 1 e 2.


Utilizando o método de causalidade no sentido de Granger, apresentado na tabela 4, focando na variável SELIC, a mesma sofre impactos apenas do IPCA.
Podemos ver na Tabela 4 que a SELIC (taxa de juros) sobre impacto apenas do IPCA pela probabilidade menor que 0,05. Isso reflete apenas o regime de metas inflacionária, que tem como objetivo o controle da mesma.

Os resultados da tabela 5, podemos assimilar com os ideais heterodoxos, não rejeitando a hipótese nula, focando no hiato do produto como variável dependente, de que a SELIC não tem influência. Isso não quer dizer que a SELIC não reduz o produto efetivo, mas que o produto potencial também é reduzido de acordo com os níveis de SELIC ao longo do tempo. Essa característica se enquadra no sentido de trade-off entre taxa de juros e investimento, como colocado pelos pós-keynesianos (Sicsú & Oliveira, 2003; Barcellos et al ,2003; Modenesi, 2008; Curado et al, 2004; Lopes et al, 2012).


Os resultados das funções de impulso-resposta (figura acima) estão de acordo com os resultados apontados por Lopes et al (2012), onde fica evidente que existe uma defasagem na atuação da SELIC no IPCA. Portanto, a resposta não é imediata quando há alterações na SELIC. Essa relação de tempo entre as variáveis, segundo Lopes et al (2012), é de conhecimento do BACEN que o tempo varia de seis a nove meses, e tal efeito é denominado de “lag de transmissão da política monetária”
Já o hiato do produto possui um comportamento mais agressivo nos primeiros períodos. Essa forte variação até os cinco meses em função da SELIC pode ser explicada pelas expectativas racionais.
Algumas considerações finais…
A ideia dessa publicação não é desqualificar o pensamento ortodoxo de controle inflacionário, pelo contrário, como podemos ver nos primeiros gráficos do IPCA e do PIB per capita, funciona muito bem.
Os resultados econométricos encontrados nos indicam que é questionável a neutralidade da moeda por conta da redução do produto potencial devido a não rejeição da hipótese nula no sentido de causalidade de Granger, o que de fato não é contestado pelo pensamento ortodoxo, como também há certa rigidez no processo de equilíbrio de longo prazo, fundamentando aspectos macroeconômicos microeconomicamente.
A discussão aqui parte apenas do âmbito teórico empírico.

