Quatro histórias, um país

Acontecimentos recentes, históricos e algumas leituras sobre um país arrastado pela sua história

Gabriel Pardal
Jul 30, 2017 · 4 min read

Um

Ninguém pode esquecer o relato que a professora Diva Guimarães deu durante a conferência de abertura da FLIP 2017. Intitulada ‘A pele que habito’, a mesa reuniu a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques e o ator Lázaro Ramos, que está lançando o livro “Na minha pele” e falou sobre o racismo no Brasil, dizendo que não se trata de tema de interesse apenas dos negros, mas de pessoas de todas as etnias e elencou aspectos fundamentais para enfrentar situações de desigualdade causadas pelo racismo: uma família estruturada e acesso a educação.


Dois

A passagem de Charles Darwin pelo Brasil pode ter sido muito mais importante para a Teoria da Evolução das Espécies do que é ensinado nos colégios. Muito se fala sobre as observações feitas pelo naturalista britânico nas Ilhas Galápagos e na Patagônia argentina, mas foi em solo brasileiro, há 185 anos, que ele se deparou pela primeira vez com a diversidade da floresta tropical e também se chocou com a escravidão — reforçando suas convicções abolicionistas de que todos os seres humanos compartilham a mesma linhagem sanguínea em razão da ancestralidade comum.


Três

Na biblioteca municipal de Itápolis, um modesto município no Estado de São Paulo, os funcionários começaram a perceber que toda semana estava desaparecendo vários livros. Os próprios funcionários foram os primeiros suspeitos, mas a hipótese caiu pois os livros continuaram sumindo mesmo após serem obrigados a mostrar o que levavam na mochila na saída do trabalho. Eram tantos livros e com tanta velocidade que a direção resolveu instalar câmeras para flagrar os responsáveis pelos furtos. Quando foram ver as gravações ficaram surpresos ao descobrirem que apenas um garoto levava todos os livros. Flávio Fernando de Oliveira, de 18 anos, confessou que pegava dois livros emprestados e levava outros quatro escondidos na mochila. Quando os agentes policiais foram até a sua casa averiguar, encontraram montanhas de livros no quarto do jovem. Centenas de títulos provenientes das cinco bibliotecas da cidade. No total havia 384 livros, todos organizados e muito bem cuidados, um acervo acumulado através de um esquema e tanto dedicado à paixão pela literatura. Flávio disse que gostava mais de ler do que de sair pra rua, “Eu lia todos, sobre tudo”.


Quatro

No livro “Os Meus Romanos — Alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil” a autora Ina Von Binzer conta que veio parar no Brasil na década de 1880, onde se tornou cuidadora dos filhos de uma poderosa família de fazendeiros de café — a família Prado, que hoje batiza diversas ruas em São Paulo. Ela descreveu em seus textos observações curiosas sobre os nossos costumes, manias e rotinas. Ao relatar o pouco gosto dos brasileiros brancos pelo trabalho, ela foi profética: “Todo trabalho é realizado pelos negros, toda a riqueza é adquirida por mãos negras, porque o brasileiro não trabalha (…) gostaria de saber o que fará essa gente, quando for decretada a completa emancipação dos escravos.”


Um país

Essas quatro notícias se complementam e revelam as heranças históricas e as forças cruciais de um Brasil que eu vejo e quero ver crescer ao invés do Brasil tramado nos salões empertigados dos políticos.

Gabriel Pardal

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Escrevendo / Autor: “Canibal Vegetariano” e “Carnavália” — www.gabrielpardal.com

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