ALAÍDE COSTA [2012]

Da bossa nova ao Clube da Esquina, ela é da geração que deu voz e letra à mulher na música brasileira.

editor do gafieiras
May 2 · 74 min read
Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Alaíde cresceu ouvindo vozeirões, sambas, baiões e boleros. Cresceu sonhando ser professora e virou cantora que não cantava o que queriam, “coisas mais animadas e com agudo”. Trincou a moldura “artista negro é para cantar sambão”. Gostava de uma “música esquisita”, como afirma, e que naquele Rio de Janeiro dos anos 1950 estava para ganhar forma, nome e fama.

De sua estreia profissional em 1954 como crooner da orquestra do Dancing Avenida, onde marmanjos pagavam para dançar e beber, até seu primeiro LP, Gosto de você (1959), a jovem carioca forjou seu estilo musical: sambas-canções, bossas e jazz de temática romântica. Sua interpretação macia, seu timbre e sua precisão a tornaram uma cantora de câmara, a “cantora dos músicos”. Basta ouvir seu álbum de 1995 com o pianista João Carlos Assis Brasil. Mínimo e máximo.

A moça tímida que saiu do Rio de Janeiro em 1962 para se casar em São Paulo não ficou somente na música popular: nessa mesma década dividiu o palco com o violonista Turíbio Santos e protagonizou no Teatro Municipal de São Paulo o show de canções renascentistas Alaíde alaúde, dirigido pelo maestro Diogo Pacheco. No entanto, viu o sucesso de perto apenas em dois momentos: quando calou o Teatro Paramount (SP) com “Onde está você” no show O fino da bossa — que lhe garantiu espaço no rádio e contrato de dois anos com a TV Record — e ao dividir o microfone com Milton Nascimento em “Me deixa em paz”, faixa do LP Clube da esquina (1972).

Fitando sua pequena e emblemática discografia, nota-se a coerência musical e de interpretação. Saltam registros valiosos, como o álbum de 1965, homônimo, e Coração (1976), produzido por Milton Nascimento e instrumental com figuras como João Donato, Toninho Horta e Robertinho Silva.

Os anos 2000 foram mais generosos, pelo menos no que se refere ao número de discos gravados. De todos, o mais recente, Canções de Alaíde (2014), é motivo de orgulho por se tratar do primeiro que traz exclusivamente suas músicas solo ou em parceria com Vinicius, Jobim, Geraldo Vandré e Herminio Bello de Carvalho.

Então com 76 anos de idade, a fã de Dalva de Oliveira reencontrou o Gafieiras na noite de 23 de julho de 2012. A primeira vez havia sido em 2009, quando posou para João Correia, um dos sete fotógrafos da exposição Pioneiras, organizada por este site. Alaíde chegou sozinha, e depois de escanear o ambiente, esparramou gargalhadas, frases curtas e um pouco de sua história. Em três horas e meia não hesitou em falar da infância, racismo, Vandré e do amigo e parceiro Johnny Alf, também negro, precursor da bossa nova e pouco celebrado.

Ao lado de suas contemporâneas Dolores Duran e Maysa, Alaíde é uma das responsáveis em dar letra feminina — e não somente voz — à música brasileira. Tarefa que nunca deixou de cumprir.


{…} expediente

entrevistadores Alexandre Pavan, Max Eluard, Ricardo Tacioli e Roberta Valente transcrição Marllon Chaves produção, edição de texto e texto de apresentação Ricardo Tacioli fotos Thaís Taverna registro audiovisual Max Eluard agradecimentos Nelson Valencia

Entrevista realizada em São Paulo/SP em 23 de julho de 2012.


Alaíde Costa — Tem que falar muito? Eu não sou muito… Ricardo Tacioli — As entrevistas são com vários entrevistadores batendo papo, tomando cerveja… Alaíde — É nessa mesa? Tacioli — É nesta mesa! Fico aqui, a Roberta (Valente) fica ali, o Alexandre (Pavan); o Max (Eluard) participa também da entrevista, e o Jeff vai fotografando… A entrevista leva umas duas horas; é uma conversa. Alaíde — Por que Gafieira? Tacioli — Gafieiras porque… Alaíde — Gafieiras? Tacioli — Quando a gente colocou esse nome a intenção era o de entrevistar diversas pessoas que produzem música no Brasil independentemente do estilo. Colocar todo mundo num mesmo salão, num mesmo espaço, como se fosse uma gafieira. A gente quer ver a história de cada um relacionada à música… Alaíde — Eu já cantei em gafieira! [risos] Crooner… Tacioli — Sim, no Dancing Avenida… Alaíde — É! Tacioli — Vamos falar disso. Alaíde, você toma uísque, cerveja? Alaíde — Um uísquinho. Tacioli — Com gelo ou sem gelo? Alaíde — Deixa eu ver: sem gelo.

[silêncio]

Max Eluard — Você mora no Bonfiglioli? Alaíde — Moro. Max Eluard — Perto de onde? Alaíde — Você conhece por ali? Max Eluard — Conheço um pouco… Alaíde — Sabe onde é o ponto final do ônibus Belém? Max Eluard — Não. Alaíde — Na Otacílio Tomanik… Max Eluard — Ah, sei, sei… Alaíde — Não tem o ponto final de ônibus ali? Em frente ao ponto de ônibus tem um prédio, eu moro na ruazinha ao lado do prédio. Moro numa rua que eu acho o nome muito bonito… Max Eluard — Como que é? Alaíde — Se chama Acalanto de Bartira. Bonito, né? Max Eluard — Você sabe a origem desse nome? Alaíde — Não, porque Bartira foi uma índia, né? Max Eluard — É. Alaíde — Então deve ser alguém que cantava pra índia, qualquer coisa assim. Max Eluard — Ou o canto dela. Alaíde — Ou o canto dela. Max Eluard — Nome de rua costuma ser tão feio… Alaíde — Eu morava na Capital Federal. Quando voltei do Rio, quis comprar a minha casa por aqui, mas não teve como, muito caro. Eu morava numa casa alugada. Mas como não teve como comprar por aqui, fui para o Jardim Bonfiglioli. Max Eluard — Mas aqui está mudando muito, verticalizando, estão construindo muito prédio. [n.e. A entrevista foi realizada no Sumarezinho, bairro da zona oeste paulistana] Alaíde — Até a casa que eu morei virou qualquer coisa de comércio. Max Eluard — Quando você mudou pra cá a primeira vez, você morava aqui na Capital Federal? Alaíde — Não, a primeira vez que eu vim, em 1961, morei ali na Martins Fontes. Não, Martins Fontes, não, na Martim Francisco, Santa Cecília. Fiquei lá alguns anos. Depois fui pro Alto de Pinheiros. Max Eluard — Nessa época mesmo, anos 1960? Alaíde — Década de 1960. Max Eluard — Alto de Pinheiros devia ser uma chácara, né? Alaíde — Era. Max Eluard — A estrada da boiada. Alaíde — A estrada da boiada, de terra ainda… Max Eluard — Nossa! E era a Diógenes… Alaíde — De terra… Max Eluard — E ia até Sorocaba, né? Alaíde — É? Eu não sei. Max Eluard — É. Ia até Sorocaba, o pessoal levava os bois para Sorocaba ou de lá pra cá. Alaíde — Depois de lá, eu mudei muito viu! Max Eluard — Alma de cigano. Alaíde — É, depois da Estrada da Boiada eu vim morar aqui no Sumaré de novo, na Apinajés, lá embaixo. Um prédio quase de esquina, pequenininho, eu acho que ainda existe. Depois eu me mudei pro Rio. Fui pro Rio Comprido. Olha como eu mudei! Do Rio Comprido eu voltei pra São Paulo e morei na Rua Augusta. [risos] Não, primeiro eu morei uns meses ali na Aclimação, na José Getúlio. Morei com o Zé Luiz. Conhece o José Luiz Mazziotti? [n.e. Cantor e compositor nascido em Rio Claro, 1948, parceiro de Sérgio Natureza] Tacioli — Sei, sei… Alaíde — Então, ele me hospedou lá. Eu estava procurando casa, né? Fiquei uns meses lá. Aí achei esse apartamento na frente do Auditório Augusta, em um prediozinho pequenininho também. Tacioli — Quando que foi isso, Alaíde? Alaíde — Foi em 1973. Max Eluard Alaíde, a primeira vez que você mudou para cá foi em 1961, naquele boom da bossa nova, né? Alaíde — Mas eu fiquei até 1969. Max Eluard O cenário da bossa nova não era mais forte no Rio nessa época? Alaíde — Era, mas aqui acontecia muito também. Max Eluard — Você veio pra cá em 1961 por qual motivo? Alaíde — Porque eu casei com um paulistano. [risos] Max Eluard Ah, sim! Alaíde — Aí tive que vir. Tacioli — E ele aceitava a sua carreira? Alaíde — Ele era locutor da Eldorado, era jornalista. Max Eluard Então ele entendia… Tacioli — Esse foi o motivo da vinda… Pensei que já tivesse alguma coisa arquitetada, porque a Claudette (Soares) veio (antes)… Alaíde — Não! Ela veio e daí eu vim. Vim mais porque ela ficou na minha cabeça “Vem, vem, vem!”. Aí um belo dia eu vim e conheci a peça! [risos] E acabei ficando! Mas ela vivia me chamando “Vem, está bom aqui!”. E realmente estava bom. Tacioli — Você frequentou o Jogral? Alaíde — Frequentei, mas não por muito tempo, foi antes de eu voltar para o Rio, em 1968, 69, por aí. Max Eluard — Era ali na Avanhandava ainda? Alaíde — Na Avanhandava. Max Eluard O Luiz Carlos Paraná estava vivo ainda… [n.e. 1932–1970. Nascido em Ribeirão Claro, PR, o cantor e compositor foi o idealizador e dono do Jogral, importante boate paulistana dos anos 1960 e 1970. É autor de “Maria, Carnaval e cinzas”, gravada por Roberto Carlos, “De amor e paz” (com Adauto Santos), por Elza Soares, e “Flor do Cafezal”, por Cascatinha & Inhana] Alaíde — Estava. Tacioli — Você lembra do Paraná? Como ele era? Alaíde — Ele vivia lá. Ele morava no prédio ao lado (do Jogral) e vivia lá… Tacioli — Foi um bar importante. Alaíde — Mas o mais importante pra nós foi o João Sebastião Bar. O João Sebastião foi o máximo, sabe? [n.e. De propriedade do jornalista Paulo Cotrim e localizada na Rua Major Sertório, na Vila Buarque, a casa foi um dos quartéis-generais da bossa nova em São Paulo nos anos 1960] Tacioli — E o que é que ele tinha? Alaíde — O Jogral era assim: não tem rodízio de comida, de churrasco? [risos] Lá era rodízio de… Max Eluard — De cantor… Alaíde — De cantores, né? Já no João, não. Pra mim, pra Claudette, pra Ana Lúcia e para outros mais. O Jogral misturava muito. Tacioli — Quem que eram os donos do João Sebastião Bar? Alaíde — Paulo Cotrim. Era jornalista também, já faleceu há muitos anos. Tacioli — Ficava ali na Veridiana? Alaíde — Quase esquina. Major Sertório.

[Toca o interfone]

Tacioli — Alô! Fale para subir, por favor! (…) É a Roberta! (…) Quando a gente fez a exposiçãoPioneiras, aquela em que o João Correia foi fotografá-la no salão de beleza, o Jeff foi para o Rio fotografar a Dóris Monteiro, a Claudette também foi fotografada e ela falou também bastante do João… Alaíde — A Claudette cantava sentada em cima do piano… [risos] Era muito engraçada… Max Eluard — Femme fatale. Alaíde — Hein? Max Eluard — Fazendo o papel da femme fatale. Alaíde — É! Um piano de cauda e ela sentada em cima. [risos] Tacioli — Tem saudade desse período? Alaíde — Ah, a gente sempre tem, né? Ah, mudou muito, né? Tudo! [silencia] Tinha coisas boas naquela época… Tacioli — E hoje está mais difícil ter espaço para cantar? Alaíde — Ah, eu acho. Eu digo, casas noturnas, né? Ou tem as grandes casas ou não tem! [ri] E naquela época tinham muitas. Tacioli — Tinha vida noturna. Max Eluard — Havia muitas casas, não era somente um ou dois lugares, casas de show, né? Todos os lugares… Alaíde — É! Igrejinha, Ela, Cravo e Canela, tinha muita coisa. [n.e. Duas importantes boates paulistanas dos anos 1960 e 1970, ao lado de outras casas de música como O Jogral, Cambridge, João Sebastião Bar, Catedral do Samba e Baiúca. Ela, Cravo e Canela foi inaugurada por Claudette Soares e Pedrinho Mattar em 1967] E tinha bastante programas de televisão. [Roberta Valente entra no apartamento]

Roberta Valente — Com licença! Oi, boa noite, tudo bem? Alaíde — Oi, tudo bom, e você? Roberta — A gente se conheceu quando te dei uma carona. Alaíde — Ah foi?! Roberta — Foi. Do (bar) Genésio, Vou Vivendo, um desses aí. Alaíde — Ah! Eu vi que te conhecia. Vou Vivendo com certeza não foi. Deve ter sido o Genésio ou Filial, um deles. Tacioli — Rô, cerveja, uísque… Roberta — Eu não bebo! [risos] Alaíde — Ah, é?! Deixa eu fazer uma brincadeira que uma moça fez uma vez comigo. Eu cheguei na casa dela, toda cheia de cerimônia e não-sei-o-quê. Era a primeira vez que eu ia lá, né? Uma vizinha minha. Aí ela: “Quer uma cervejinha?”. E eu toda sem jeito: “Ah, não, não quero, não!” Aí ela fez assim: “Graças a Deus! Eu quero mais é que sobre pra mim!” [risos] Roberta — Acabou a cerimônia ali. Alaíde — Aí eu fiquei tão sem graça e ela começou a rir de mim, né? Roberta — Você teve que aceitar. Tacioli — Alaíde, aqui não tem nove horas, não! Roberta — Eu quero uma cerveja! Só faltava eu? Tacioli — Falta o Pavan. Roberta — Pavan! Tacioli — Alaíde, você fala com o Herminio de vez em quando? [n.e. Referência ao poeta, compositor e provocador cultural carioca Herminio Bello de Carvalho] Alaíde — Falo. Tacioli — Falei do Pavan e você na hora, “Eu conheço!”. Mas o conhece pelo Herminio? Alaíde — Pelo Herminio. Tacioli — Acho que a gente pode começar, né? O Pavan já conhece o ritmo e aí se enquadra… Roberta Trouxe uma colinha de perguntas malígnas. [risos] Alaíde — Ah, é? Não vem, não, hein! Tacioli — Eu também sempre tenho a minha colinha, mas nunca uso. Roberta — Eu também não, mas em todo o caso. Tacioli Não está nervosa, não, né, Alaíde? Alaíde — Não! [risos]

[Toca o interfone]

Tacioli — Fale para ele subir, por favor. Pronto, o Alexandre Pavan chegou. Alaíde, tudo o que a gente vai perguntar, você já respondeu. Alaíde — Olha lá, hein! [risos] Roberta — As perguntas mais íntimas vamos deixar para mais tarde. [risos] Alaíde — Mas eu não conto! Tacioli — São 50 anos de carreira, né? Você começou em 1954. Alaíde — Não! Eu começo a contar a minha carreira a partir de 1956, quando foi o meu primeiro trabalho profissional. Até então eu cantava em programas de calouros. Em 1956 eu tive convite pra cantar no Dancing Avenida. Esse foi meu primeiro trabalho profissional [n.e. A casa noturna Dancing Avenida funcionava nos anos 1940 e 1950 como táxi-dancing, em que os frequentadores pagavam para dançar com as bailarinas da casa ao som das orquestras. O tempo da dança era anotado em uma ficha ou cartão. Essa espécie de casa foi comum não somente no Brasil, mas em países como o México, onde ficaram conhecidas como Las Ficheras. Localizado na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, o Dancing Avenida foi responsável pelo início profissional de cantoras como Elizeth Cardoso, Ângela Maria e Alaíde Costa, todas como crooner de orquestras] Tacioli — Foi o tiro de largada. Alaíde — Humn, humn! E eu sou meio surda, sabia, né? [risos] Roberta — Nós também somos. Alaíde — Não, mas eu sou mesmo! Roberta — Ah, é? Alaíde — Já operei os dois ouvidos. Um operei duas vezes. Max Eluard — Mas qual é a causa, Alaíde? Alaíde — Otosclerose. Roberta — E eu li que você deu um tempo na carreira antes do Clube da esquina. Foi por causa disso?

[Chega Alexandre Pavan]

Alaíde — Oi, Pavan! Alexandre Pavan — Há quanto tempo! Alaíde — Tudo bem? Pavan — Tudo bom! Alaíde — Não é bem que eu dei uma parada, deram uma parada em mim, porque sem gravar, você quase não aparece, né? E naquela época o disco era muito importante, né? Agora é mais fácil gravar, tem as produções independentes, aquela coisa toda… Roberta — É, hoje você grava um disco em casa. Alaíde — É, mas aquela época era… Roberta — Era bem mais complicado. Alaíde — A cada movimento (musical) era um convite maluco, né? E eu não aceitava. Então ficava fora… Roberta — Entendi. Em algumas matérias que eu li atribuem essa pausa de uns três, quatro anos ao seu problema auditivo. Alaíde — Não, mas eu operei os ouvidos depois do Clube da esquina, que está completando 40 anos agora. Tacioli A Alaíde está nervosa, ela falou! [risos] Roberta — Mas são perguntas fáceis. Você sabe responder todas! Tacioli — Você tem resposta pra todas! Alaíde — Certo. [risos] Tacioli Alaíde, você vem do Meyer, né? Alaíde — Nasci no Meyer mas fui criada na Água Santa. Eu não tenho nenhuma lembrança do Meyer. Fui pequena pra Água Santa. Tacioli — E como era Água Santa? Alaíde — Água Santa era um lugar bem tranquilo, bem mato mesmo. Foi muito legal pra mim. Tive várias amiguinhas por lá e conheci uma moça que, depois de muitos anos que virei cantora, e ela também, eu passava por lá e ela dava varadas da minha perna! [risos] Não sei o porquê, ela dava varadas na minha perna. Acredita em um negócio desse? Pavan — Você disse que você virou cantora e ela também… Alaíde — E ela também! Mas eu não vou falar o nome dela… Pavan — Fala! [risos] Alaíde — Ela mesma conta essa história, a Elza Soares! Roberta — Nossa, na mesma época vocês se tornam cantoras? Alaíde — É. Tacioli — Você passava e ela só com a varinha de marmelo… Max Eluard — Vocês não eram amigas? Alaíde — Não, éramos conhecidas… Aliás, eu conheci a Elza quando comecei a cantar mesmo, que eu ia lá pra Rádio Nacional e ela ia também. Tinha um grupinho de meninas amigas dela, eu passava, elas me vaiavam. [risos] Já tinha essa coisa. Roberta — De torcida? Alaíde — Tinha essa coisa da torcida. Eu não tinha torcida, mas ela tinha… Aí eu passava e uma delas falava “Eu sou Alaíde Costa!”, e as outras “Uuuuuuuh!” [risos] Aí a outra falava “Eu sou a Elza Soares!”, daí todas (aplaudiam). [risos] E eu, coitadinha, passava ouvindo aquilo… Muito engraçado, muito engraçado! Eu me lembro até o nome da mãe delas: Durvalina. As filhas de Durvalina! Vocês me devem! [risos] Roberta — Olha só! E você lembrou essa história com a Elza muitos anos depois? Alaíde — Ah, sim, ela conta pras pessoas que me batia, batia na minha (perna)… Eu era magrinha, muito magra, sabe?! Eu passava e “pá!”. Ela com as filhas de Durvalina. Roberta — Mas você não batia também? Alaíde — Não! [risos] Tacioli — E o que mais você lembra de Água Santa? Alaíde — De Água Santa? Ah! Eu lembro que primeiro morei numa rua chamada Leandro Pinto que é perto da rua em que moravam as filhas de Durvalina e a Elza morava um pouquinho mais pra cima, num largo que eu não me lembro do nome. Largo da Água Santa! Acho que sou andarilha por causa da minha mãe, a minha mãe adorava mudar (de casa). Ela mudou para a rua Bórgia Reis. Foi ali que eu conheci as meninas, né? Eram cinco irmãs e eram minhas amigas. Ou foi o contrário? Não, primeiro foi na Bórgia Reis e depois foi na Leandro Pinto, onde eu me tornei cantora. Também é tanta coisa pra lembrar, né? Você esquece… Tacioli — Mas você tem uma memória boa… Alaíde — É? Tacioli — É, você fala nome de rua, agora há pouco você estava lembrando um monte de números… Roberta — O nome das meninas! Pavan — E os seus pais eram do Rio? Como era a sua família? Alaíde — A minha mãe nasceu em Vassouras. Pavan — Interior… Alaíde — É, e o meu pai era gaúcho. Pavan — E eles se conheceram no Rio? Alaíde — Acho que sim, né? Eles devem ter se conhecido no Rio. Tacioli — E eles faziam o quê? Alaíde — O meu pai era forneiro, que cuida dos fornos grandes. E minha mãe cuidava da casa, lavava uma roupinha pra ajudar… Pavan — Gostavam ou tinham alguma relação com música? Alaíde — Não muito, né? Depois que os meus pais se separaram, minha mãe casou de novo. O meu padrasto era ligado em música. Aí já tinha um rádio em casa. Tacioli — Antes não tinha rádio? Alaíde — Não tinha rádio. Eu era bem menina, né? Roberta — Você tinha quantos anos quando eles se separaram? Alaíde — Nove. E daí eu comecei a ouvir rádio e comecei a gostar de música. Mas eu sei lá, acho que sou meio doida: desde aquela época eu já gostava de uma música diferente, sabe? E foi bem difícil pra mim… Tacioli — E o que era uma música diferente ali, Alaíde? Alaíde — Isso foi de 11 para 12 anos. O meu irmão, mais moço que eu, me inscreveu num programa de calouros num circo, porque eu vivia cantarolando em casa. “Ah, você vai, porque todo mundo fala que você canta bem, e eu te inscrevi”. “Mas eu não vou!” Eu era muito tímida. “Se você não for, a polícia vem te prender!” [risos] “Então eu vou!” Daí eu fui, mas era adulto misturado com criança, não-sei-o-quê, e eu acabei ganhando o prêmio. Tacioli — Você lembra o que você cantou? Alaíde — Eu cantei uma música que Vicente Celestino cantava, que era o que tocava, né? Uma música até muito bonita, chamada “Minha terra”, que não era aquele dramalhão e tal. [n.e. Um dos artistas mais populares do país na primeira metade do século XX, conhecido como A Voz Orgulho do Brasil, o tenor, compositor e ator Vicente Celestino (1894–1968) eternizou temas autorais como “Coração materno”, “Pensando em ti”, “Mia Gioconda”e “O ébrio”] Daí eu cantei a “Minha terra” e ganhei o prêmio. E lá no bairro mesmo, na rua onde eu morava, na Bórgia Reis, um senhor resolveu montar um palco, um palanque no quintal da casa dele e fazer o programa de calouros lá. Aí toda semana eu ia e ganhava! [risos] Tacioli — Tinha prêmio, Alaíde? Alaíde — Tinha prêmio, mas era bobagem, né? Eram prendas! Dinheiro mesmo que era bom, (nada)… [risos] Só no circo eu ganhei um dinheirinho. Que mais? Eu estava falando do Seu Álvaro, do palanque do Seu Álvaro… Eu ia toda semana, toda semana, até que aos meus 13 anos, uma mulher que era vizinha da minha mãe resolveu me inscrever na Rádio Tupi. “Mas o que eu vou fazer na Rádio Tupi?” Era um concurso que o Paulo Gracindo fez pra escolher uma menina pra cantar com um menino. E o nome do menino? Chuvisco! [risos] Aí era a dupla Chuvisco e Chuvisca! [risos] E eu ganhei o concurso. Eu me lembro que eu cantei uma música que era sucesso de Carnaval da Linda Batista: “Confesse”. [n.e. Na verdade, o samba de Sátiro de Melo e Nelson Trigueiro chama-se “Confesso”. Foi lançado por Linda Batista em 1949 em um disco de 78 rotações que ainda trazia outro samba, “Se me der na cabeça”, de Jorge Tavares e Nestor de Hollanda] É bonita! Naquela época era a chance que os compositores tinham através do Carnaval. Então eu cantei essa música “Confesse” e acabei ganhando o concurso. Aí fui várias vezes (à Rádio), disputei com outras meninas, e cantei outras músicas… Tacioli — Você tinha um ídolo nessa época? Você, tão menina, 12, 13 anos, gostava de algum cantor, alguma cantora? Alaíde — Eu gostava muito… Peraí, com 12, 13 anos? Não, ainda não. Roberta — O Vicente Celestino era uma referência? Alaíde — Não, não era. Era o que eu ouvia. Tacioli — E o que você não gostava, Alaíde? Alaíde — Ah, não digo! [risos] Tacioli — Começa com qual letra? [risos] Alaíde — Ah, não digo. Tinha muita gente que eu não gostava… Tacioli — Mas eles já se foram. Alaíde — Não, é por isso mesmo. Roberta — Eles, os filhos… Alaíde — É por isso mesmo. Tacioli — Então vamos falar dos vivos. [risos] Alaíde — Já com os meus 15, 16 anos comecei a ouvir a Rádio Clube do Brasil. O Silvio Caldas tinha um programa semanal na Rádio Clube. Um dia ele cantou uma música chamada “Noturno (Em tempo de samba)” e eu falei “É essa música que eu quero pra mim! Noturno (Em tempo de samba)”… [n.e. Samba de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy lançado por Sílvio Caldas (1908–1998) em 1944 e regravada por Elizeth Cardoso, Jamelão, Áurea Martins e pela própria Alaíde em 1973 no disco Alaíde Costa & Oscar Castro-Neves] Daí, toda vez que ele cantava — ele não cantava sempre, né? — eu escrevia a letra, escrevia um trecho da letra, porque não dava tempo também de escrever tudo, e ia memorizando a música. Aí aquela ficou (sendo) a minha música predileta, “Noturno (Em tempo de samba)”. Eu já havia começado a cantar em programas de rádio porque a tal da dupla não deu certo. Roberta — Chuvisco e Chuvisca? Alaíde — Não, não deu… Aliás, fizeram até uma música ridícula para a dupla! [risos] A letra era do Paulo Gracindo e a música do Claudionor Cruz. Roberta — Oh! Alaíde — Veja bem como era, eu não vou cantar, vou dizer a letra do Paulo Gracindo: “De onde vem essa pretinha / Parece que levou chuva / Não gosto de preta feia / Mas esta preta é uma uva”. [risos] Roberta — Meu Deus! Alaíde — Isso ele cantava pra mim! [risos] Tacioli — Nossa! Alaíde — Eu respondia uma coisa doida, sabe? Muito louco, muito louco, mas não deu certo a dupla. Aí eu comecei a cantar em tudo que era programa de calouros. Cheguei a cantar no Arraiá mineiroque era um programa que a Claudette (Soares) também cantou. Cantei no Papel carbono com o Baden (Powell), no Pescando estrelas… O Baden também participava. “Na hora do papo, pescando estrelas…” e não-sei-o-quê… Aí, de repente, resolvi que não ia mais cantar. [n.e. O programa de calouros Papel carbono foi criado e conduzido por Renato Murce (1900–1987) e revelou nomes como Dóris Monteiro, Ângela Maria, Roberto Carlos, Ivon Cury, Agnaldo Rayol e Ellen de Lima] Pavan — Por que? Alaíde — Ah, sei lá, sei lá, não quis mais cantar… Max Eluard — Mas isso menina ainda. Alaíde — Isso com os meus 15 para 16 anos. Tacioli — A sua mãe aprovava você… Alaíde — Ah, todo mundo queria que eu cantasse, menos eu. Era sempre empurrada. Depois que eu ganhei esse programa que eu vou contar cantando “Noturno (Em tempo de samba)”, eu me animei. Roberta — Tomou gosto! Alaíde — Eu fui no (programa do) Ary Barroso, ele era crítico! Foi assim a história: a minha mãe lavava roupa para uma professora. Um dia essa senhora falou “Ah, Manuela — era o nome da minha mãe — por que você não traz a Alaíde pra ficar com as meninas e ir pra escola. Eu dou uma ajuda e não-sei-o-quê, ajudo nos estudos, ela fica com as meninas à tarde, e quando eu voltar ela vai pra casa”. Longe pra caramba da escola que eu estudava. Eu estudava no Encantado. Ia do Encantado para a Praça da Bandeira. Longe, muito longe, só tinha bonde, né? Um dia eu comecei a cantar, cantarolar, ela estava em casa e ouviu. “Por que você não vai ao Ary Barroso? Você canta bem!”. “Ah, Dona Vanda, eu tenho medo do Ary Barroso”. “Que medo o quê? Vai lá!” Eu já sabia o “Noturno (Em tempo de samba)” e de tanto a mulher falar eu fui. Aí eu fui no Bandolim de Ouro, comprei a partitura e me inscrevi. Aí me chamaram. Eu cheguei lá e não pude cantar no dia que eu fui chamada porque a partitura estava em outro tom. É uma música muito elaborada. Roberta — Tinha que levar a partitura para os músicos lerem lá, é isso? Alaíde — Para um pianista, né? Ele falou assim: “Não vai dar! Vou falar com o Ary e você volta na próxima semana porque vou passar para o seu tom”. E ele fez isso… Roberta — Você lembra o nome do pianista? Alaíde — Lauro Paiva. E aí eu voltei na semana seguinte com aquele medo, né? Eu tinha medo mesmo dele! [n.e. Pianista, organista e compositor baiano, Lauro Paiva radicou-se no Rio de Janeiro nos anos 1950 e lançou diversos discos até meados dos anos 1960] Roberta — Claro, ele era uma fera, né? Alaíde — Ele: “O que você vai cantar?”. “Noturno (Em tempo de samba)!” “De quem é?” “Custódio de Mesquita e Evaldo Ruy”. “Vai cantar?” “Vou!””Vamos ver!” Eu cantei e ele me deu a nota máxima, que era cinco. Aí eu tomei gostinho… Na semana seguinte, já me inscrevi no Papel carbono. Aí entra a pessoa que eu admirava, uma cantora chamada Neuza Maria. Ela cantava assim, bem diferente das cantoras da época. Eu gostava de todas, mas ela, nossa! Eu aprendi muito com Dalva de Oliveira. Embora eu cante assim, de uma forma bem diferente da dela, aprendi muito com ela, mas não tinha muito a ver com a Dalva. Roberta — Você gostava da Carmen Miranda? Alaíde — Eu era muito menina. Eu gostava, gostava, mas não cheguei a acompanhar muito né? Roberta — E a Aracy de Almeida? Alaíde — Gostava. Quando eu estudava no Encantado, muitas vezes eu ia até o Meyer porque a minha mãe já tinha separado do meu pai e eu ia visitá-lo. Ele morava no Caxambi, aí eu descia no Meyer. Eu passava pela porta dela na rua Dias da Cruz… Roberta — Você passava de propósito pra encontrá-lo? Alaíde — Não, eu passava porque pegava o ônibus ali. Eu parava pra ver se a via, né? [risos] E muitas vezes eu a vi. Tacioli — E você chegou a ter alguma história com ela, de cantar junto, encontro de bastidores ou de programa? Alaíde — Não, de cantar junto, não. A primeira vez que eu falei com a Aracy, ela me apresentou a quem? Ao Herminio Bello de Carvalho! Roberta — Foi ela que te apresentou ao Herminio? Alaíde — No Jogral, ali da Avanhandava. Ela levou o Herminio lá e foi ali que a gente se conheceu. Pavan — E nesse começo de carreira de cantora, Alaíde, você não havia tido nem uma aula de música? Na escola você tinha aprendido alguma coisa de música ou era somente de ouvir o rádio? Alaíde — Não, tudo de ouvido. Pavan — Em algum momento você estudou música, pegou algum professor? Alaíde — Muito tempo depois. Eu não sei, mas eu não tinha piano em casa, mas eu chegava nos estúdios, sentava lá e mexia no piano e saia alguma coisa. Foi uma coisa de intuição mesmo. E depois na Rádio Clube do Brasil tinha um grande compositor e pianista que sempre me dava umas dicas, o José Maria de Abreu. Ele falava “Faz assim!”, me dava umas dicas. Vim estudar um pouquinho muitos anos depois, porque (antes) eu não tinha condições, né? [n.e. Compositor paulista de Jacareí, José Maria de Abreu (1911–1966) é autor de clássicos da era de ouro do rádio, como “Boa noite, amor” (com Francisco Matoso), “Você” e “Alguém como tu” (ambas com Jair Amorim)] Roberta — Considero uma audácia você ir ao Ary Barroso cantar “Noturno (Em tempo de samba)”, que é a música difícil para qualquer cantor. É linda essa música! Alaíde — É linda, né? Fiquei anos pra conseguir gravar essa música, mas muito tempo, muito tempo, ninguém aceitava… Roberta — Pois é, e pouca gente a conhece. Eu a conheci num tributo ao Custódio Mesquita, com a Rosana Toledo. Depois, pesquisando, descobri que você a tinha gravado também. Fui atrás da sua gravação e fiquei ouvindo, ouvindo, ouvindo… Alaíde — Com o Oscar Castro-Neves. Arranjo bonito, né? [n.e. O violonista e compositor carioca Oscar Castro-Neves (1940–2013) é um dos nomes importantes da primeira geração bossa-novista. Participou do famoso Festival de Bossa Nova do Carnegie Hall, em Nova York, 1962, e radicou-se a partir de 1966 nos Estados Unidos, onde tocou com Sérgio Mendes, Flora Purim e Quincy Jones] Roberta — Lindo! Tacioli — Alaíde, você falou que nessa época você não tinha muito a ver com o jeito que as cantoras da época cantavam… Alaíde — É, por isso que eu cantava… Tacioli — Como elas cantavam? Alaíde — Elas cantavam bem, mas era assim, aqueles vozeirões. Era isso que o povo, os produtores queriam e eu não tinha pra dar. Então me davam a nota máxima. Eu ganhava os programas de calouro, mas não tinha chance profissional. Max Eluard — Pra gravar ninguém queria… Alaíde — E daí em 1956 um músico da Rádio Clube do Brasil, não, já era Mundial — a Rádio Clube fechou, pegou fogo, alguma coisa assim, e abriu como Mundial — me convidou pra fazer um teste no Dancing Avenida. Fui fazer o teste. Ele ainda falou assim: “Ó, é um teste, eu não sei se vão te aprovar!”. Fui e me aprovaram, mas aí eu tinha que cantar de tudo, tudo o que você pode imaginar, porque ia trocando de ritmo o tempo todo, né? Max Eluard — E nesse momento qual foi a coisa mais estranha que você cantou, mais fora daquilo que você gostaria de cantar? Alaíde — Eu não cantava, tive que aprender muita coisa… Roberta — Bolero, por exemplo? Alaíde — Meu primeiro 78 rotações tem um bolero de um lado. [n.e. O primeiro disco de Alaíde Costa é um 78 rotações lançado em 1956 pelo selo Mocambo. Trazia dois sambas-canções, “Tens que pagar”, de Airton Amorim e da própria Alaíde, e “Nosso dilema”, de Hélio Costa e Anita Andrade. Em 1957, já pela Odeon, em outro 78 rotações, gravou o bolero “Tarde demais”, de Hélio Costa e Raul Sampaio] Na época era o auge dos boleros. E acho que o do tango também, né, porque tive que aprender muito tango e não versões, né? Tinha as versões, mas cada versão esquisita… [risos] Eu sempre preferi o original. Roberta — Você cantava foxtrote? Alaíde — Tudo, minha filha! Baião e tudo mais! [risos] Pavan — Qual era a orquestra do Avenida nessa época, Alaíde? Alaíde — Era um quinteto: Quincas e seu quinteto, que se chamava Os Cariocas, não… Tacioli — Os Copacabanas. Alaíde — É isso mesmo, Os Copacabanas! [n.e. Trata-se do grupo Quincas e Os Copacabanas, liderado pelo saxofonista e maestro Quincas] E depois eu saí de lá, fui para o (Dancing) Brasil, aí cantei com o Ubirajara Silva, o pai do Taiguara. [n.e. Maestro de orquestras de dancing e bandoneonista morto em 2012] Depois voltei pro Brasil e fui lá que eu já cantava com outro grupo, que era d’O Gaúcho do Acordeom. Foi lá que surgiu a minha chance de gravação. Pavan — A gente está falando da época do Dancing Avenida? Alaíde — Finalzinho de 1956 ou começo de 1957, por aí. Pavan — É nessa época que você começa a circular mais entre os músicos, porque até entãovocê era muito nova, né? Tacioli — Você já tinha 20 anos? Alaíde — É, espera aí: em 1952 eu tinha 16, então 20, né? Tacioli — É, em 1956. Alaíde — Vinte. Pavan — Quem você conhece de músicos na noite? Alaíde — Havia os intervalos, tinha o descanso, aí saía pra fazer um lanche ali na Cinelândia, onde se podia andar à vontade, né? Era bem light. Aí eu conversava muito com Ataulfo Alves, ele tinha um ponto de encontro de compositores na Cinelândia, embaixo daquele hotel que pegou fogo, Serrador. Hotel Serrador! Não tem o Rival? Era lá na esquina… Pavan — Do outro lado? Alaíde — Não, saindo do Rival, indo sentido daquele parque… Pavan — Sentido Aterro? Alaíde — Isso! Na esquina, não faz uma curva assim? Ali era um hotel chamado Hotel Serrador. Tinha, não lembro bem o nome, uma a boate que o Grande Otelo trabalhava lá. Tinha a Norma Bengell… Muita gente passou por aquela boate do Serrador… [n.e. Boate Night and Day] E embaixo era um ponto de encontro de músicos, de compositores… Ali eu conheci o Erasmo Silva. [n.e. Cantor e compositor baiano (1911–1985) radicado no Rio de Janeiro onde fez a dupla Verde e Amarelo com Wilson Batista. É autor do samba-canção “Dá-me tuas mãos”, gravado por Elizeth Cardoso e Nelson Gonçalves. Trabalhou no departamento de divulgação da gravadora Odeon] A gente conversava, porque eles também iam lá no Dancing, dançavam de vez em quando. Aí conversava muito, né? Mas o Ataulfo eu já conhecia, ele morava próximo à Água Santa, né? E eu sempre passava na rua que ele morava. Tacioli — Elegante? Alaíde — Muito elegante. Roberta — Era gente boa? Alaíde — Gente finíssima! Aliás há pouco tempo a Lua Music fez uma homenagem a ele. Roberta — Um álbum triplo. Alaíde — Por sugestão minha: “Vamos fazer Ataulfo!”. Roberta — Que maravilha! Eu gravei. Alaíde — Foi sugestão minha, pode perguntar para o Thiago. [n.e. O jornalista e produtor musical Thiago Marques Luiz] Roberta — Que maravilha! Alaíde — Aliás, eu cantei uma música dele que as pessoas não conhecem. O Thiago ficou doido! É muito linda! E aí, ali no Dancing, um técnico de som da Odeon mandou um cartãozinho que queria falar comigo. Fui falar com ele. Ele falou assim: “Olha, gostei muito da sua voz, você tem um jeito de cantar bem diferente e o diretor da Odeon é um moço assim muito avançado e tal. Eu vou pedir um teste pra você. Quem está gravando lá é a Sylvinha Telles. [n.e. Uma das pioneiras da bossa nova, a cantora e compositora carioca (1934–1966) lançou em 1956 a canção “Foi a noite”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, um dos marcos do novo estilo] Ele tem a cabeça aberta pra todos os tipos de música.”. Que bom, pensei. Aí eu fui lá, fiz o teste e fui aceita. E esse diretor era o Aloysio de Oliveira, né? E daí fui aceita e comecei na luta. [n.e. Um dos mais importantes produtores musicais brasileiros, o cantor e compositor carioca (1914–1995) integrou o Bando da Lua — grupo de apoio de Carmen Miranda –, e foi parceiro de Tom Jobim. Criou a gravadora Elenco nos anos 1960, época em que foi casado com a cantora Sylvia Telles] Tacioli — Mas antes teve o disco da Mocambo? Alaíde — Pois é, esse disco da Mocambo foi em 1956 enquanto eu ainda no (Dancing) Brasil, no Dancing Avenida. Gravei e falaram pra mim que o disco não ia sair, que a gravadora ia fechar, que não-sei-o-quê. Só tomei conhecimento desse disco anos depois. Não tinha (o disco), aliás, não tenho. Pavan — Faliu? [n.e. Mocambo foi um selo da fábrica pernambucana de discos Rozenblit, inaugurada em Recife em 1953] Alaíde — É, falaram que ia fechar mas continuou lá em Recife, né? E eu fiquei sem saber. Tacioli — E, Alaíde, como foi a primeira vez que você entrou em um estúdio para gravar? Você cantava no Dancing, em rádio. Tinha alguma diferença ou expectativa entrar no estúdio? Havia glamour? O que tinha? Alaíde — Era muito esquisito. Sabe por que? Era muito diferente do que é hoje. Era assim: aqui ficava o grupo que tocava e ali o cantor; só tinha um biombo separando e se errasse (a música) parava tudo. Tinha que recomeçar e não tinha aquela coisa de arrumar e não-sei-o-quê. Era tudo ao vivo, não tinha essa coisa de colocar a voz depois. Aliás, eu acho muito melhor, eu não gosto de colocar a voz em nada, eu gosto de já gravar, fui acostumada assim, fica mais autêntico. Roberta — Respira junto… Alaíde — É. Então, achei esquisito, né? Fiquei muito tensa, ainda não tomava calmante naquela época… [risos] Roberta — Uisquinho nem pensar. Alaíde — Não, não tomava calmante… [risos] Roberta — Ah, esse calmante! Alaíde — Aí, nervosa pra caramba… Tacioli — Você tinha algum ritual para espantar esse nervosismo? Alaíde — Não, não tinha nada, inexperiente mesmo. Tacioli — Mas você chegou a pensar que sua timidez pudesse ser um obstáculo na sua carreira nesse momento em que você estava começando a vida profissional? Alaíde — Não, eu não pensei, não, mas as pessoas diziam: “Ah, você precisa ser menos tímida”. Mas é uma coisa que até hoje (eu tenho). Eu estou descontraída aqui, mas me põe em um lugar assim… Max Eluard — Cheio de gente desconhecida… Alaíde — É, eita! Eu fico muito inibida mesmo. E quando eu vou cantar? Ah, é um suplício até hoje! Max Eluard — Você sofre? Alaíde — É sério! Eu entro lá e aí meu Deus! É uma coisa! Max Eluard — Mas o que é? Alaíde — Eu não sei o que é, é timidez mesmo… Quando eu estou sozinha, eu só me solto depois da segunda, terceira música, mas é difícil. Max Eluard — Só voltando um pouco, Alaíde, quando você falou que sentiu o gosto de cantar logo no começo, você era levada, era empurrada… Alaíde — Era empurrada mesmo. Max Eluard — Mas qual foi o sentimento de pegar o gosto? Você lembra o que bateu na hora? Alaíde — Foi quando eu fui ao Ary (Barroso), que ele me deu (a nota máxima). Ele era muito crítico. Max Eluard — Mas foi somente por ele ter gostado ou teve alguma outra coisa? Alaíde — Ah, acho que foi porque eu escolhi uma música difícil e era aquilo que eu queria pra mim. Roberta — Um desafio. Alaíde — É, isso, era aquilo que eu queria pra mim. E daí, lá na Rádio Clube do Brasil, eu conheci uma pessoa incrível: Johnny Alf. Olha como eu sou louca: uma cantora chamada Mary Gonçalves gravou um LP de 10 polegadas com algumas músicas dele. Eu aprendi e ia cantar em programas de calouros. [risos] Sério mesmo! [n.e. Convite ao romance, disco lançado pela gravadora Sinter em 1953, com oito faixas, sendo quatro sambas-canções de Johnny Alf. Com acompanhamento instrumental de Quincas (sax), Zé Menezes (guitarra), Ari Ferreira (flauta) e Irany Pinto (violino); direção musical e arranjos do maestro Lyrio Panicali] Pavan — Já era uma divulgadora do Johnny. Alaíde — Isso! Mas falavam assim: “Mas, menina, essa música?! Por que você não canta aquela que está fazendo sucesso, você tem mais chance?”. Roberta — Claro, ninguém sabia acompanhar! [risos] Imagino o pianista com “Noturno (Em tempo de samba)”. Alaíde — Não, mas naquela época você ia às lojas e comprava as partituras. Era mais fácil.

Tacioli — Nesse período dos anos 1950 tinha muito samba-canção, né? Alaíde — Muito samba-canção. Eu cantei muito samba-canção, lógico. Muita Dalva de Oliveira, que eu adoro! Dalva de Oliveira, Dircinha Batista, Linda Batista, todas elas, eu cantava o repertório delas. Ângela Maria… Eu não tinha um repertório próprio, e por mais que eu tivesse, como crooner não dava, tinha que cantar tudo. Pavan — Você falou que sempre gostou de coisas diferentes e citou o episódio do “Noturno…”, do Custódio Mesquita. E o Custódio hoje é um compositor que hoje ninguém sabe quem é. Além dele, e mais pra frente, Johnny Alf, quais eram os compositores diferentes? Alaíde — Ah, tinham vários. Valzinho, José Maria de Abreu, que eu cantava muito também, ele gostava muito de mim, me ensinava as músicas, eu ia no programa de calouros e cantava. Tinha o Ismael Neto, que tinha umas coisas muito lindas. Ah, tinha muita gente, mas esses foram os que tive mais contato. Garoto também tinha umas coisas lindas… Tacioli — Você chegou a conhecê-lo? Alaíde — Não. Tacioli — Ele morreu em 1955. Alaíde — Não, não cheguei a conhecê-lo. Roberta — E o Herivelto, você o conheceu? Alaíde — Conheci. Roberta — Acompanhou o momento de sua separação com a Dalva? Alaíde — Acompanhei. Tenho uma foto belíssima com a Dalva. Depois eu vou mostrar pra vocês. Tacioli — Alaíde, o Pavan perguntou sobre os compositores que tinham a mesma preocupação estética que você tinha. Havia outras cantoras e cantores que tinham essa preocupação pelo gosto do diferente, do que era diferente naquela época? Alaíde — A Neuza Maria. Eu gostava mais da intérprete do que das escolhas. Ela cantava, mas fazia uma confusão lá no repertório. Cheguei a gravar uma música que ela gravou, que é muito bonita, “Murmúrios”, que era bem diferente para as coisas da época. [n.e. Cantora paulistana, 1928–2011, Neuza Maria começou a carreira nos anos 1940 e fez sucesso na década seguinte. Gravou de tudo: samba, bolero, fox-trote, baião e jingles] Tinha a Mary Gonçalves com quem aprendi as músicas do Johnny. Quem mais, hein? Pavan — Você ouvia a Zezé Gonzaga? Alaíde — Ah, tinha a Zezé também. Roberta — Dolores (Duran)? Alaíde — Mas a Dolores, a Sylvinha, vieram depois dessas aí que eu estou falando. E tinha o Dick (Farney), o Lúcio (Alves), o Johnny… Tinha uma turminha que fazia uma coisa diferente. Tinha Os Cariocas também, né? Os Cariocas eram demais já naquela época. Tacioli — Você lembra do primeiro disco que você comprou? Alaíde — O primeiro disco que eu comprei, por incrível que pareça… Tacioli — Vicente Celestino! Roberta — Foi o seu! [risos] Alaíde — Por incrível que pareça, o primeiro disco que eu comprei foi do Astor Piazzolla. Roberta — Olha! Max Eluard — Falou que tinha que aprender cantar tango… [risos] Alaíde — Não, não, não, não foi por isso, não! Foi porque eu ouvi no rádio, não sei por que milagre, Astor Piazzolla cantando um tango, já em 1956, um tango muito diferente. Max Eluard — Já era o “tango novo”? Alaíde — Já. Aí eu fui e comprei. Ele se chama Piazzolla… o no?, não era tão moderno quanto foram os outros, mas já era moderníssimo. Foi o primeiro que eu comprei. Pavan — Gostava de uma coisa diferente mesmo. Tacioli — Dentro desse período, anos 1950, tiveram alguns fatos marcantes. Onde você estava quando soube da morte do Francisco Alves? Alaíde — Parou o Rio de Janeiro inteiro. Tacioli — Você lembra onde você estava? Alaíde — Em casa. Max Eluard — Foi uma comoção nacional. Alaíde — Foi, eu estava em casa. O Francisco Alves até cantava umas músicas bem bonitas. Tinha muita coisa bonita. Tacioli — E da Carmen? Alaíde — Da Carmen? Também foi outra que parou o Rio, aqui eu não sei (como foi), mas foi em 1949? Tacioli — 1955. Alaíde — 1955? Em 1949 foi o… Roberta — 1952 foi a morte do Francisco Alves… Não sei se teve alguma marcante em 1949. Alaíde — Teve alguma coisa em 1949 que eu também não lembro, eu não lembro. Tacioli — Eu não lembro. Alaíde — Mas eu vou lembrar. Tacioli Antes de pensar em ser artista, quais eram as opções (profissionais) que você vislumbrava? Alaíde — Com toda a minha timidez eu queria ser professora. Adoro ler e escrever até hoje. E era uma coisa que eu pensava. Eu tinha uma senhora que dava aula particular, né? Aí eu arrumei um caderno e um lápis e fui pra lá. Aí minha mãe me procurando, me procurando, me procurando, até que alguém tinha me visto entrar na casa e falou pra ela: “Ela tá lá na Dona França”. Ela foi lá. E a Dona França: “Não, deixa a menina, deixa a menina!”. “Mas eu não posso pagar, Dona França!” Aí a Dona França começou a me ensinar. Eu tinha uns seis pra sete anos. Pavan — A Dona França foi sua primeira professora? Alaíde — Minha primeira professora. Max Eluard — Então você não ia na escola nessa época ainda? (A Dona França) foi antes de começar a escola? Roberta — Ela te ensinou a ler? Alaíde — É, é uma história muito longa, essa história da minha alfabetização, porque eu queria estudar, mas deixa pra lá… Max Eluard — Conta! Tacioli — Fala, Alaíde, faz parte. Alaíde — Eu falei que não ia contar nada. Roberta — Conta. Alaíde — Só essa. O meu pai fez o favor de não me registrar, não registrou nenhum dos filhos. Eu só fui ser registrada pelo meu padrasto. Já tinha nove anos quando eu entrei no colégio municipal, estadual, não sei. Acho que na época também mulher não podia ir sozinha registrar (o filho). Então foi isso que aconteceu… Pavan — Então você não podia estudar porque você não tinha registro (de nascimento) para ser matriculada. Mas quando você entrou no colégio as noções básicas você já tinha… Alaíde — Era a primeira da turma, era a primeira! Pavan — Você já sabia ler? Alaíde — Sabia, mas eu não fiquei tanto tempo com a Dona França, porque a coitada morreu, né? Não fiquei muito tempo, mas fui alfabetizada por ela. Tacioli — E esse gosto pelo magistério também se deve à Dona França? Alaíde — Ah, sim. Eu tinha vontade mesmo, achava bonito ser professora. Hoje eu não acho bonito, não, porque é tanta luta. É muito difícil! Roberta — Acho até mais difícil do que ser cantor. Alaíde — É, mas naquela época os professores eram bem… Pavan — Respeitados. Alaíde — E ganhavam bem. Roberta — Eram tão respeitados quanto um advogado ou um médico. Alaíde — É. Max Eluard — Esse gosto pelo diferente era consciente? Você pensava “Eu quero diferente!”? Ou não, era o seu gosto que não coincidia com o gosto da maioria? Alaíde — Acho que era o meu gosto que não coincidia. Não é que eu quisesse o diferente, eu só achava que eu não queria aquilo que acontecia. Então em casa era uma luta, “Canta isso, canta aquilo, canta uma coisa mais animadinha!”. [risos] Roberta — Uma marchinha de Carnaval! Alaíde — “Canta uma coisa mais animadinha, canta uma música que tenha agudo!” Tinha que ter agudo para mostrar que tinha voz, aquelas coisas, né? E eu “Não, não vou, não quero!”. Era muito engraçado. A minha mãe me infernizava. Ela falava: “Você só fica cantando essas músicas. Canta uma música que tenha agudo, que você mostre a sua voz!”. “Mãe, eu não tenho voz!”, falava pra ela. Tacioli — Mas a sua mãe tinha um gosto por um tipo de artista ou por uma música que você pensa e lembra dela? Alaíde — Não, ela gostava de qualquer coisa que tivesse muita alegria ou muito agudo! [risos] Tacioli — Ou os dois juntos! Alaíde — Ou os dois juntos. Não, sério mesmo. Na realidade, da família quem me curtia era o meu irmão mais moço. Ele sempre me apoiou. A família queria que eu cantasse o que ela gostava. Tacioli — Esse irmão é o Adilson? Alaíde — Isso. Tacioli — Se não me engano, esse primeiro disco, da Mocambo, já tinha música sua? Alaíde — Isso, chama “Tens que pagar”. Desde cedo eu mexia no piano, compunha as minhas músicas e tal, e daí, agora eu posso falar, né? [risos] Agora eu posso falar, mas é verdade mesmo, antigamente se dava parceria. A gente dava parceria pra radialista, discotecário, pra música entrar (na programação). Ainda mais euzinha que vinha no comecinho (de carreira). Eu fiz letra e música. Uma letra boba, mas foi eu que fiz. Roberta — Você lembra de ter dado parceria para quem? Alaíde — Um discotecário chamando Airton Amorim. Roberta — Ele não é parceiro do Monsueto (de Menezes) em “Me deixa em paz”? [n.e. Samba lançado em 1951 por Linda Batista e regravado 20 anos depois por Alaíde e Milton Nascimento em compacto simples do cantor e, no ano seguinte, como faixa do disco Clube da esquina] Max Eluard — Deve ter sido nesse esquema também. Roberta — Também? Eu não sabia! Max Eluard — “Põe meu nome aí senão não toco a sua música!” [risos] Alaíde — Os próprios autores ofereciam a parceria,. E foi o que me aconselharam. Eu cheguei com a música que era minha e aí falaram: “Dá a parceria para alguém, dá pro Airton Amorim”… Tacioli — Qual foi a motivação para esse título “Tens que pagar”? Alaíde — Uma bobagem. [risos] Max Eluard — Era acerto de contas… Alaíde — Vingança! [risos] Max Eluard — E ele pagou? Alaíde — Sei lá! Tacioli — Como você vê sua trajetória como compositora, dessa primeira música até hoje? Pavan — E, complementando, como é esse processo de criação? Você falou que brincava no piano mais com a cabeça… Alaíde — Ah, a cabeça, né? Vem a intuição, aí eu sento lá, vou procurando os acordes, não-sei-o-quê, aí faz… Pavan — E aí você decora a música na sua cabeça ou grava tudo num gravador? Alaíde — Não, eu vou decorando, eu escrevo pra não esquecer. Roberta — Mas você compunha sem instrumento? Alaíde — Não, desde sempre mexendo no piano. Tacioli — Você vê uma evolução, um caminho, desse momento pra hoje? Você acha que amadureceu como compositora? Alaíde — Ah, com certeza. Tacioli — Tem momentos mais importantes? Alaíde — Com muita certeza. Eu acho que eu gostaria de conseguir, antes de partir daqui, fazer um CD só com as minhas composições. Eu sou muito crítica, então pra eu querer fazer isso é porque eu sei que as coisas são legais, são bonitas… [n.e. Nos dias 20 e 21 de abril de 2013, a cantora apresentou o show Canções de Alaíde no teatro do Sesc Santana, em São Paulo. No ano seguinte, lançou finalmente seu primeiro disco de autora, de mesmo nome do show, com produção de Thiago Marques Luiz] Pavan — E você tem alguns bons parceiros? Alaíde — Tenho. Tacioli — Tem outros do quilate do Airton Amorim que não fizeram nada? Alaíde — Não. Tacioli — Só ele? Alaíde — Só ele. Tacioli — Foi o primeiro… Alaíde — Primeiro e único! Roberta — Mas ele divulgou bastante. Alaíde — Mas essa música não, porque eu não falei que o disco… Tacioli — Falou que o disco não saiu… Alaíde — Anos depois que eu fui tomar conhecimento dele. Roberta — Entendi. Tacioli — Como o Pavan mencionou, quais são os parceiros com quem você tem uma construção mais profícua? Alaíde — Ah, tenho uma composição com o Herminio (Bello de Carvalho) que eu renego hoje. Sabe por que? Assim, inconscientemente, fiz um plágio e, meu Deus do céu, meu Deus do céu, um dia ouvindo, acho que a (rádio) Eldorado, que tem ou tinha um programa de músicas clássicas às seis da tarde, tocou o início (da música) igualzinho, igual, igual… Falei: “Meu Deus!” É um prelúdio! Não sei se é do Chopin, eu não sei, mas é igual, mas somente o comecinho… Assim, logo de cara! Se fosse lá pelo meio… [risos] Tacioli — Põe ele na parceria também: Chopin, Alaíde e Herminio. [risos] Max Eluard — Depois que você ouviu essa música, que você a identificou, você adquiriu consciência de que já tinha a ouvido antes de compor a sua música? Alaíde — Não, não. Max Eluard — Foi coincidência? Alaíde — Isso! Olha, como eu acho também que foi coincidência com uma música do Piazzolla, que é daquele LP Maria de Buenos Aires. [n.e. Com música de Piazzolla e libreto de Horacio Ferrer, este tango-ópera estreou na capital argentina em 1968] Eu sou fanzoca do Piazzolla! Tem poesias e músicas cantadas e instrumentais. Enquanto o parceiro dele, não lembro o sobrenome, falava, ele ficava ao fundo com a orquestra… Sabe “Folhas secas”, do Nelson do Cavaquinho? O comecinho é igual. Eu não acredito que o Nelson tenha chegado lá no Piazzolla para fazer isso, né? Tacioli — E isso tirou o seu sono… Roberta — Ela renegou a música… [ri] Alaíde — Cada vez que falam: “A sua música com o Herminio…” me dá uma vontade de sumir! Roberta — Como chama a música? Pavan — “Cadarços”? Alaíde — “Cadarços”. E o Herminio falou: “O Maurício Carrilho é doido por essa música! Ele ainda não ouviu o prelúdio!” [risos] [n.e. Composição de Alaíde Costa com Herminio Bello de Carvalho, “Cadarços” é a faixa 10 do LP Águas vivas — Alaíde Costa canta Herminio Bello de Carvalho, de 1982] Pavan — Você tem uma parceria com o Tom Jobim também, não é? Alaíde — Eu tenho uma com o Tom Jobim, duas com o Vinicius… Roberta — Com o João Gilberto também? Alaíde — Não! Ah, mas foi o João que me levou para conhecer os meninos da bossa nova. Me levou, não, me deu o bolo, mas eu fui. [risos] Roberta — Deu o caminho. Alaíde — É, me deu o caminho. A última parceria que eu tive foi com o Johnny. Mas foi ao contrário: o Johnny só faz música, né, aí eu estava fazendo um show com ele no Sesc Pompeia e no segundo dia ele chegou com um papelzinho assim, dobrado. Ele era tão tímido quanto eu. Até que hoje eu estou bem solta, né? Pavan — Os dois juntos não conversavam… [risos] Faziam músicas e eram tão tímidos que… Alaíde — Aí ele chegou com um papelzinho dobrado e colocou na minha mão. “O que é Johnny?” “Leva e leia!” “O que será? Leva e leia?!” [risos] Aí no trajeto eu fui lendo. Era uma letra bonita, não tinha título, nada. No dia seguinte, no domingo, eu falei assim: “Johnny, que poesia bonita!” “É pra você musicar!”. “Johnny, para eu musicar pra você?” “É, pra você musicar!” Eu falei de novo: “Mas, Johnny, para eu musicar pra você?” “É, vire-se!” [risos] Aí eu me virei. Nessa época eu estava tendo aulas lá no CLAM com o Giba Estebez, que é o meu pianista. [n.e. Criado em São Paulo em 1973 pelo pianista e ex-Zimbo Trio Amilton Godoy, o Centro Livre de Aprendizagem Musical, CLAM, é uma escola de música popular e de jazz] Eu cheguei lá e “Giba, me ajuda aqui nesse acorde. Giba me ajuda aqui!”. Aí eu acabei musicando e ele (Johnny) adorou. Como não tinha nome, eu coloquei “Meu sonho”, que a letra vai por esse caminho de sonhos, né? Pavan — Quando foi isso? Alaíde — Foi há uns sete anos, mais ou menos. Pavan — E você sempre manteve contato com o Johnny? Alaíde — Não, eu não sei se você lembra de um show comigo, o Johnny e a Nana? Foi um final de semana, acho que há uns sete anos, por aí… Pavan — Você falou que sempre estiveram juntos. Vocês vieram pra São Paulo na mesma época ou ele veio um pouquinho antes? Alaíde — Eu acho que ele veio antes, mas até então eu não tinha me aproximado dele. Tacioli — Você divulgava as músicas dele, mas… Alaíde — É… Pavan — Mas não tinha uma amizade. Alaíde — Não. Aí um dia eu fiz um programa chamado Brasil 60 e não-sei-o-quê, nos anos 50, 58 ou 59. Eu vim fazer esse programa que era apresentado pela Bibi Ferreira e daí a Ana Lúcia, lembra da Ana Lúcia…? [n.e. O programa Brasil 60, da atriz e cantora Bibi Ferreira (1922), inaugurou em 1960 a TV Excelsior e foi inovador por utilizar pela primeira vez o videotape. O sucesso do musical televisivo foi responsável pelas edições em anos posteriores, como Brasil 61, Brasil 62] Roberta — Que gravou com o Geraldo Vandré? Alaíde — É! A Ana Lúcia falou assim: “Sabe quem é que está cantando no Lancaster? O Johnny! Vamos lá?”. Eu já tinha gravado (o programa) e ele já tinha me visto em televisão. Aí eu fui lá no Lancaster. Tinha que subir umas escadas lá em cima na Augusta e eu me sentei com a Ana. Aí, de repente, ele anunciou a minha presença. “Ai, meu Deus do céu!” [risos] “Ai meu Deus do céu!” Ele me chamou para dar canja! Ele pediu pra eu cantar “Dindi”, que havia acabado de gravar. “Mas meu tom, Johnny, é complicado! Eu canto em Si maior!” Agora, de tanto falarem que o tom era difícil, passei pra Dó!” [risos] Não, passei porque eu tinha dificuldade porque Si maior é um tom difícil para piano. Tem uns tons que são complicados. Aí ele: “Não, vamos lá” e me acompanhou! E saiu bonitinho, saiu direito. É por isso que eu comecei a amizade com ele… Pavan — Ó, e que começo, hein?! Alaíde — É. Pavan — Essa sua vinda pra São Paulo foi sua primeira saída do Rio pra trabalhar fora? Alaíde — Não, eu já tinha vindo várias vezes nesse (programa) Brasil. Era em que ano? Eu acho que era em 1958. Pavan — Nessa época a bossa nova estava começando… Alaíde — Tava começando… Tacioli — Mas já se chamava de bossa nova? Alaíde — Em 1958 já era bossa nova. Tacioli — Mas se falava bossa nova como um estilo? Como se identificava? Alaíde — Quando começou essa história de bossa nova, que eu comecei a frequentar as reuniões de bossa nova nos apartamentos, que não eram só o apartamento da Nara Leão, era o da mãe do Nelson Motta… Por exemplo, a primeira reunião que eu fui foi na casa do Bené Nunes, pianista. Eram em vários lugares. Tinha um compositor chamado Nilo Queiroz que dava reuniões na casa dele. Roberta — Ele foi do Trio de Ouro? Alaíde — Não. Tacioli — Não, aquele era o Nilo Chagas. Roberta — Nilo Chagas era Trio de Ouro. Alaíde — Onde nós estávamos? Tacioli — Nas reuniões… Roberta — Nos apartamentos… Alaíde — Não, isso eu sei, a perguntar anterior. Roberta — Se já era chamada de bossa nova… Alaíde — Não, pois é, não era, não tinha nome quando começaram essas reuniões que o João falou que tinha uns meninos fazendo uma música diferente, que achava que eu tinha tudo haver com aquilo. Tacioli — Mas o João frequentava essas reuniões? Alaíde — De vez em quando, muito de vez em quando ele aparecia, mas era muito raro. Tacioli — Falou “Vá lá!” mas ele não foi. Alaíde — É, eu fui e não conhecia ninguém. Roberta — E como você foi recebida? Alaíde — Muito bem porque inclusive o Bené já tinha cruzado comigo na Rádio Nacional. Ele era casado com a Dulce Nunes. Ela me tratou bem, ela muito simpática e foi ali que eu conheci a turma toda: Oscar Castro-Neves, Carlinhos Lyra, Menescal, Ronaldo Bôscoli, Nara, que ainda não cantava, só era namoradinha… Mas não tinha nome, não. Aí, um belo dia, surgiu esse nome aí: bossa nova! Esquisito! Max Eluard — Você lembra a primeira vez que você ouviu esse nome? Alaíde — É, eu ouvi: “Bossa nova não-sei-o-quê!”; “Festival de bossa nova”,vai ter um show de bossa nova. O primeiro show mesmo que houve foi na Escola Naval em 1959… Teve um aqui também, em São Paulo, no Teatro Record, quando veio uma turma grande do Rio. Vieram a Silvinha, eu, o Carlos Lyra, a Nara, quem mais? Uma menina chamada Laís Bezerra… Pavan — Esse (programa) que você está falando é do Walter Silva? Alaíde — Não, não, não. Roberta — Foi na Record… Alaíde — Um show no Teatro Record só de bossa nova. Participaram o Juca Chaves, a Elza Soares, o Geraldo Vandré… Tacioli — Sérgio Ricardo participou também? Alaíde — Não, nesse não! E quem mais que estava ali que eu me lembre? Não me lembro de mais ninguém… Acho que a Norma Bengell estava. Tacioli — Alaíde, se não me engano, o LP Canção do amor demais foi lançado em 1958 com a Elizeth Cardoso. Você lembra da sua impressão quando você ouviu aquele disco? Alaíde — Nossa, fiquei louca! Tacioli — Louca de raiva ou de… [risos] Alaíde — Nossa, louca pelas composições, por tudo, né? Muito lindo, nossa! Fiquei apaixonada! Tacioli — Você chegou a acompanhar o processo (do disco graças à) proximidade com alguém? Alaíde — Não. Roberta — Você já conhecia a Elizeth? Alaíde — Já. Roberta — Como vocês se conheceram? Alaíde — Na Rádio Nacional. A Rádio Nacional era praticamente o ponto de encontro de todos, de todas. E Canção do amor demais é muito lindo. Pavan — E o João Gilberto, como que vocês se conheceram? Você falou que ele pediu para que você fosse até (o apartamento) mas ele não foi. Então vocês já se conheciam? Alaíde — Não, não conhecia. Foi assim: conheci (o João) por telefone. Eu estava lá fazendo meu segundo 78 rotações na Odeon e não sei porque o João estava lá. Mas eu não vi João. Aí ele mandou o Aloysio (de Oliveira) falar comigo, que tinha os meninos fazendo uma música diferente, que achava que meu jeito de cantar tinha tudo a ver e tal; que a música que eu havia escolhido era bem assim, não era bossa nova, mas estava ali próxima, né? Aí ele gostou e o Aloysio falou assim: “Tem um moço, o João Gilberto, aquele que tocou no disco da Elizeth…”. Não, foi antes do disco da Elizeth! É, foi antes, foi antes do disco da Elizeth. “É um moço assim, assim…”. Ele citou o violonista do disco, até então os outros não tinham aparecido, não é isso mesmo? Carlos Lyra, Oscar Castro-Neves. Foi depois, sim… E daí um belo dia ele ligou lá, eu nem tinha telefone em casa, foi uma vizinha que deu o telefone, aí eu fui atender e era ele. “É o João! Tem um lugarzinho assim…”; e “pa-pa-pá”, eu anotei num papelzinho e fui da Água Santa para o Jardim Botânico. Pensa bem, é longe pra caramba. Naquela época era tudo muito longe, né? E aí chego lá e nada de João. Eu também não tinha visto o João. Falei assim: “O João está?”. Achei engraçado que todo mundo riu, não, não deu risada, não, um olhou pro outro assim e riu. Roberta — Será que ele já tinha aquela fama? Alaíde — Já. [ri] Tacioli — E como foi o primeiro encontro mesmo? Alaíde — Com o João? Tacioli — É. Alaíde — O primeiro encontro já foi assim: eu estava pra fazer o meu primeiro LP na RCA e o João estava numa dessas reuniões que foi na casa de um fotógrafo chamado Chico Pereira. Ele adorava música, sabe? E recebia gente sempre. E eu tinha um amigo que conhecia bem o João e falou assim: “Ah, você podia ir dar uma força e fazer um violão pra ela”. Aí ele se animou e foi pra fazer esse tal de violão, né? Chegou lá, a gravadora não aceitou, porque não acreditava ainda na bossa. Tinha lá um violonista, aliás, um fantástico violonista, mas que não sabia aquela coisa da bossa nova, não sabia mesmo, somente aqueles meninos lá. Tacioli — Quem que era esse violinista? Alaíde — O Zé Menezes! [n.e. O multi-instrumentista das cordas José Menezes de França (1921–2014), cearense de Jardim, trabalhou na Rádio Nacional, onde teve um programa com Garoto, foi integrante do Sexteto Radamés Gnattali, fundou nos anos 1960 o grupo Os Velhinhos Transviados, e a partir de 1970 assumiu a direção musical da TV Globo. Assinou a trilha sonora de programas como Os Trapalhões, Chico City e Viva o Gordo] Roberta — Ah, o Zé Menezes! Alaíde — Fantástico, né? Mas ele não sabia, na época não sabia. Aí, o João, milagre, mas milagre, milagre, às dez horas da manhã estava lá na RCA, mas não deixaram (ele gravar). Conclusão: a minha bossa nova parece rumba. [risos] Sério! Põe lá pra vocês ouvirem. Tacioli — E com o João você nunca gravou? Alaíde — Não. Pavan — Graças a RCA. Alaíde — E depois encontrei com ele na Nacional. Tem uma foto histórica, né? Pavan — É, tem uma série de fotos em que vocês estão na praia. Tem um banco… Alaíde — Não, ali é a Praça Mauá. Pavan — Ah, é a Praça Mauá. Alaíde — A Praça Mauá, em frente a Rádio Nacional. Então, nunca mais, nunca mais encontrei o João. Pavan — Mas essas fotos em que vocês estão juntos foram (produzidas) por quê? Alaíde — Porque a gente saiu junto da Rádio e tinha um fotógrafo da Radiolândia, qualquer uma daquelas (revistas), fotografou e acabei tendo a foto. Pavan — O registro que a RCA não fez o fotógrafo fez, né? Roberta — E você não o viu mais desde quando? Alaíde — Aí, não vi mais. Uma vez, ou melhor, eu o vi uma vez em que ele já morava nos Estados Unidos e veio fazer uma apresentação aqui na Record, no Teatro Record. Aí eu fui assisti-lo… Isso tem muito tempo! Tacioli — E nos últimos 20 anos… Alaíde — Não, nunca mais, 40 anos… Roberta — Nem ver e se nem falar? Alaíde — Nem falar, nada, nada. E ele fala?! [risos] Tacioli — E eu sempre achei que vocês fossem amigos… Alaíde — Não, não! Assim como o técnico de som da Odeon, ele também foi um anjo na minha vida, né? Roberta — E você também nunca mais o viu? Alaíde — Quem? O técnico? Eu o vi no dia do teste, no dia da gravação; quando eu voltei ele havia sumido, sumiu, nem a Odeon soube me explicar o que que aconteceu com o moço. Alguns anos atrás um dos filhos dele ligou pra mim, alguém deu o telefone. Ele ligou, disse que gostaria muito de me conhecer, de conversar, que ele havia lido uma entrevista minha em que eu falava do pai deles, nem eles sabiam do pai. Tacioli — Como ele chamava mesmo? Alaíde — Stênio. Nem eles sabiam do pai, sumiu assim… Roberta — Que loucura! E aí você o conheceu, você o recebeu. Alaíde — O menino? Ele ficou de me ligar de volta pra gente se encontrar, mas acabou… Tacioli — Alaíde, além do Stênio e do João Gilberto, tiveram outros anjos, nomes importantes que abriram portas pra você? Alaíde — Ah, sim, sim. Por exemplo, o Moacyr Machado, que era diretor da Odeon aqui em São Paulo. Ele me viu cantando com o Milton (Nascimento). O Milton fez o lançamento de um desses discos dele no Teatro Municipal e sabia que eu estava lá e me chamou para dar canja, né? Eu já havia gravado com ele no Clube da esquina e estava sem gravar havia muitos anos. Daí fui assistir ao show do Milton e ele me convidou pra cantar. Eu estava lá na plateia. Ele sabia que eu estava. Aí fui lá e cantei o “Me deixa em paz” com ele. E pediram bis, aquela coisa toda. Ele falou: “Agora é com você!”. Aí eu cantei “Primavera” com o Wagner Tiso. [n.e. Música de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes gravada por Alaíde pela primeira vez em 1974] E esse Moacyr estava lá e falou assim: “Passa lá um dia desses pra gente conversar” e aí eu voltei a gravar. Pavan — O Milton falou “Vamos gravar o ‘Me deixa em paz’” ou foi sua a sugestão da música? Quem a escolheu? [n.e. Samba de Monsueto de Menezes e Airton Amorim lançado em 1951 por Linda Batista] Alaíde — Não. Foi assim: eu estava num programa chamado Almoço com as estrelas e ele estava também. Ele se apresentou antes de mim e daí o Airton, como é…? Tacioli — Airton Rodrigues. Alaíde — O Airton Rodrigues falou assim: “Milton, agora você fica aí que eu vou chamar uma pessoa que eu gosto muito e eu sei que você gosta muito também. Fica aí que você vai tocar com ela.” Mas eu não havia ensaiado com ele. Eu cantei com o trio com quem eu estava me apresentando em um lugar chamado Casa Forte, que era o Luiz Mello e seu trio. E lá no Casa Forte eu cantava o “Me deixe em paz” e fazia o maior sucesso. Roberta — Mas em ritmo de samba ou já lento? Alaíde — Não, já daquele jeito que foi gravado. Daí, quando terminou, o Milton ficou lá, ele não conhecia essa música. Depois ele falou: “Desculpa, eu não conhecia (a música). Olha, nós vamos gravar essa música”. Falei assim: “Ah, é? Que bom!”. Aí passou o tempo, passou, passou: “Esqueceu!”. [risos] Um belo dia eu recebi uma ligação da Odeon. Não era o Moacyr Machado, era uma outra pessoa me convidando pra ir até o Rio pra gravar com o Milton “Me deixa em paz”. Roberta — Você considera o Milton um desses anjos? Alaíde — Sim, porque foi ele que praticamente me fez voltar ao disco. Antes foi um período de muita mudança. Tive até proposta para gravar “Serenata do adeus” em ritmo de iê-iê-iê. [risos] Juro, juro mesmo! Sabe essas coisas que estavam acontecendo. E música de protesto, que não é a minha praia. Tacioli — Pelo que vi, esse período sem gravar foi de 1966 a 72. Foi isso mesmo? Alaíde — Foi de 1965. A última vez que eu gravei foi em 1965. [n.e. Neste ano, a cantora lançou Alaíde Costa, álbum de 12 faixas que reunia “Sonho de um Carnaval”, de Chico Buarque, “Estou só”, de Johnny Alf, “Terra de ninguém”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, “Diz”, de Walter Santos e Teresa Sousa, além da autoral “Tudo o que é meu”, parceria com Vinicius de Moraes. O disco contou com orquestrações dos maestros Erlon Chaves e Oscar Castro-Neves] Tacioli — Então nesse período de sete anos ficou recebendo propostas que não tinham a ver… Alaíde — Indecorosas. Roberta — E não teve nada a ver com seu problema de audição… Alaíde — Não! Eu só operei depois do Clube da esquina, depois do meu LP com Oscar Castro-Neves. [n.e. O disco Alaíde Costa & Oscar Castro-Neves, lançado pela Odeon em 1973, marcou o retorno da cantora aos estúdios para trabalhos individuais] Pavan — E que problema de audição foi esse? Alaíde — Eu tive um problema chamado otoesclerose. O otorrino falou que a pessoa já nasce com o problema e quando atinge uma certa idade é que começa a aparecer. E apareceu justamente numa época muito difícil de trabalho, de tudo… E sem gravação a coisa ficava mais difícil. Pavan — E quais são sintomas da doença? Doía o ouvido? Alaíde — Dor nenhuma. Pavan — Mas o que é? Alaíde — É um zumbido. Quando eu deitava parecia que tinha uma pessoa cansada no meu ouvido, sabe? E quando tinha lugar muito silencioso, eu também sentia muito (isso). Tacioli — O fato de viver na noite, de viver cantando, da amplificação sonora, isso prejudicava mais ainda, intensificava o problema? Alaíde — Humn, humn. Pavan — Agora nesse período de sete anos o que você fez? Alaíde — Cantei! Pavan — E sem gravar… Alaíde — Continuei cantando por aí afora mesmo sem gravar, né? Roberta — Você já estava em São Paulo, né? Alaíde — Já. Aí, cantei no Igrejinha, no Jogral, esses lugares assim. Max Eluard — E nesse período teve o AI-5, época em que a ditadura recrudesceu, e você falou que essa música de protesto não te atraía, não era a sua praia. Alaíde — Não. Max Eluard — Mas como que era a sua relação, Alaíde? Você era cobrada? Tinha um policiamento por parte dos músicos? Alaíde — Não, não. Max Eluard — Tinha espaço para você fazer a sua música… Alaíde — Ah, claro, claro! Eu me lembro que, acho que foi em 70, a situação mais complicada que eu passei na vida artística. Foi em 71 em que eu fui convidada para cantar no Festival Internacional da Canção uma música do Hermeto Pascoal. O Hermeto Pascoal, sabe como é que é, né? [risos] Daí ele fez um arranjo, a música bonita, sabe? Roberta — Qual era a música, você lembra? Alaíde — Chama-se “Serearei”. É toda com umas palavras, uns dialetos, umas coisas assim, mas a música era muito bonita. Ele fez um arranjo todo cheio de coisas, aí, pá e pá, quase dez minutos só de introdução. [risos] E eu lá parada e o povo “Uuuuuh!” [risos] O Maracanãzinho inteiro… Roberta — Nossa, que situação! [risos] Alaíde — O Maracanãzinho em peso me vaiando… [risos] Max Eluard — E você não tinha ainda aberto a boca… Alaíde — E eu lá paradona! Dez minutos também é exagero, mas uns cinco… Mas um arranjo, aliás, dificílimo para entrar na música… Ai meu Deus, que sufoco! E ainda com aquele povo todo vaiando… Meu Deus!

Roberta — Mas você conseguiu?! Alaíde — Aí eu entrei e o povo vaiava… E o povo vaiava! Mas era o Festival Internacional da Canção e tinha um júri bem selecionado, e a música foi classificada! [risos] Aí lá fui eu para a final. Pavan — Garantia de mais vaias. Alaíde — Eu acho que era a segunda. Aí eu entrei, começou a vaia, aquela vaia toda… E daí cortaram o meu som. Falaram que teve um problema técnico, que não-sei-o-quê, que eu tinha que sair, os músicos saíram… Aí foi todo mundo preso lá pra dentro do Maracanãzinho, não tinha camarim, eram aqueles lavatórios. Todo mundo preso. Roberta — E aí? Alaíde — Ouviram que no meio da música o Hermeto ia colocar uns porcos… [risos] “Vai colocar uns porcos lá no palco!” [risos] Foram pesquisar e não tinha porco nenhum. E eu tinha que voltar no final da música, no final, porque, se eu não entrasse, o Hermeto teria que pagar uma multa de não-sei-quanto. E eu não queria. “Não entro mais! Não vou, não vou!” E o Hermeto: “Ah, eu vou pagar multa!”. Aí tá, lá fui eu. Vaia de novo! [risos] Aí menino, chegou uma hora que me deu um nervoso tão grande que eu peguei e falei assim: “Gente!”, no que eu falei “Gente!” cortaram o som. Aí eu joguei o microfone longe… Pavan — Baixou o Sérgio Ricardo… Alaíde — Hã? Pavan — Baixou o Sérgio Ricardo. Alaíde — É! Joguei o microfone longe! Max Eluard — Pra cima da plateia? Alaíde — Joguei longe… Não, era distante da plateia, joguei o microfone… Aí o povo, bah! [risos] Tacioli — Me dá mais microfone! Alaíde — Aí começaram a me aplaudir! [risos] Daí sim, quando voltamos tinha mais polícia, gente presa, o Roberto Freire, lembra do Roberto Freire, né? Pavan — Ele estava como jurado. Alaíde — Estava. Ele foi lá saber o que estava acontecendo e foi preso! Sabe, foi um auê! Inventaram que eu ia ler um manifesto subversivo [risos] só porque eu falei “Gente!”. Ó, deu pancadaria e tudo! Eu não apanhei, não, mas pelo amor de Deus! Tacioli — Alaíde, você é ou era amiga do Geraldo Vandré? Alaíde — Sou. Tacioli — E desde quando? Alaíde — Ah, desde os programas de calouros, como o Pescando estrelas. Ele cantava com o nome de Carlos Dias, depois ele mudou para Geraldo Vandré, que não sei se é o nome verdadeiro, né? Tacioli — E como você acompanhou esse percurso dele: primeiro nos programas de calouros, depois para o “Caminhando e cantando”? Alaíde — O “Caminhando e cantando” veio depois, porque ele chegou a participar de algumas reuniões de bossa nova, chegou a compor com o Carlos Lyra. Daí o “Caminhando e cantando” veio depois, sei lá o que deu nele, na cabeça dele, que ele resolveu mudar o perfil… Tacioli — Acho que há uns dois anos ele voltou a dar uma entrevista, ele reapareceu. Você tem contato com ele ainda? [n.e. Em 2010, Geraldo Vandré foi entrevistado pelo jornalista Geneton Moraes Neto, da GloboNews] Alaíde — De vez em quando, né? Mas ele faz umas propostas assim: “Vamos fazer um show?!”; “Vamos, Geraldo, vamos sim!”; “Mas não aqui no Brasil!”; “E aí, fazer show onde, hein?” [risos] “Aqui no Brasil eu não canto!” Aí teve uma história do Geraldo: houve um show ali no Pacaembu na posse da (Luíza) Erundina como prefeita (1o de janeiro de 1989), estava o Suplicy, não-sei-quem… Aí o Sérgio Ricardo ligou pra mim: “Alaíde, estamos com um problema aqui: o Geraldo Vandré disse que só vai se você for buscá-lo”. Lá fui eu buscar o Geraldo. Ele tinha, não sei se tem ainda, um apartamento na Martins Fontes. Roberta — Tem ainda. Alaíde — Aí lá fui eu buscar o Geraldo. E lá foi ele. Chegou lá e já deu um problema: um segurança não queria deixá-lo entrar. Veio o Suplicy: “Não, pode deixar entrar!”. Ele estava injuriado por causa disso. E cheguei lá e cantei. A atrevida aqui cantou as “Bachianas n° 5”, de Villa-Lobos. Eu não tinha quem me acompanhasse, aí cantei a capella. [risos] Foi tudo muito bem. Aí eu anunciei o Geraldo Vandré. Todo mundo feliz, nossa, Geraldo Vandré! Aquela praça veio abaixo, sabe? Aí ele falou assim: “Eu vou apresentar a vocês a última composição minha, que se chama ‘Fabiana’, para a Força Aérea Brasileira”. Aí recitou a tal da “Fabiana”. Ai meu Deus, não tinha nada a ver, né? Todo mundo ficou decepcionado, sabe? Tacioli — Mas não foi vaiado? Alaíde — Não, não foi mas… Tacioli — Foi um constrangimento geral. Alaíde — É. Daí, de vez em quando, a gente se fala, mas ele com aquelas manias de cantar fora do Brasil estragou tudo. Roberta — Você o conheceu no comecinho da carreira. Há quem diga que ele não foi torturado. Ele mesmo deu um depoimento negando tudo, né? Alaíde — Ah, eu não sei, porque ele ficou muito tempo fora do país. Eu não sei, mas ele tem uma cicatriz que ele não tinha antes… Não sei, de repente tem os acordos… Roberta — Mudando de assunto, você conheceu o Mário Reis? Alaíde — Ah, tá me tirando? [risos] Não, não tinha como, eu era muito criança. Roberta — Mas o Mário Reis viveu no Copacabana Palace até a década de 1970, né? Alaíde — 1970? Ah é? Tacioli — E gravou Chico Buarque. Alaíde — Ah, é mesmo? Desculpe a vergonha que eu passei… [risos] Pavan — Pensei que você não gostava dele… Alaíde — Ah, não, eu entendi a pergunta se eu conheci pessoalmente, foi isso. Roberta — Foi isso… Alaíde — Foi isso? Roberta — Mas você gostava? Alaíde — Gostava, gostava… Ele cantava bem diferente também. Roberta — Por isso que eu perguntei. Tacioli — E quem canta diferente hoje? Ou quem compõe que você gosta? Alaíde — Ah, meu Deus! Tem tanta gente legal, mas eu prefiro não citar quando me fazem esse tipo de pergunta porque, como diz a gíria, é uma saia muito justa pra nós. Cita uma, aí você encontra a pessoa: “Ah, você falou de fulano e não falou de mim”. “E as cantoras da nova geração, o que você acha?” Eu não acho porque é uma situação muito complicada. Prefiro não falar. Roberta — Você só vai falar depois que desligarem a câmera? Alaíde — Não! [risos] Mas não é? Aí fala de uma, tem uma que é tanto sua amiga e você gosta mais da outra que não é tão sua amiga e aí fica aquela situação. Ou amigo mesmo, né? Tacioli — Olha, a gente está caminhando para o finalmente, somente pra não estender demais… Alaíde — Então deixa eu molhar a palavra. Roberta — Ouvi em uma entrevista que você falou que em um desses festivais que você ganhou, o prêmio era um programa na TV Tupi. Alaíde — É, foi esse da Record. Era assim: o público entrava e votava no cantor ou cantora que queria. Aí eu me lembro que o Geraldo Vandré e o Carlos Lyra ficaram empatados e eu ganhei sozinha. Era um programa chamado No balanço do samba, mas ficou somente três meses no ar. Foi uma coisa assim, relâmpago. Roberta — Ah, entendi… Tacioli — E com a sua timidez, como é que você lidava com a câmera, Alaíde? Alaíde — Humn… Tacioli — Programa mudo? Alaíde — Não, falar mesmo eu não falava, hoje eu até que falo muito. Tacioli — Alaíde, você se acha uma artista reconhecida por tudo o que você fez? Como é que você lida com o reconhecimento? Alaíde — Ah, eu nem sei, não sei avaliar isso não. Uma coisa eu sei: as pessoas respeitam o meu trabalho, respeitam a forma como conduzo a minha carreira, de não entrar nessa de concessões. Mas eu não faço isso de não entrar nas concessões pra ser diferente, é porque o que me atrai é o que eu faço, então sigo meu caminho e pronto. Pavan — E você tem bastante trabalho? Você consegue fazer os seus shows ou você poderia fazer mais? Alaíde — Ah, poderia, de certo, acontece de eu ficar meses sem fazer uma… Pavan — Sem fazer uma apresentação? Alaíde — É. Pavan — Para a classe artística é uma música tão rica, que deu tanta coisa pra economia brasileira e pra sociedade e ainda hoje não se tem um plano de aposentadoria decente para o músico. Se você tivesse seguido a carreira de professora sua situação não seria diferente. Você vê alguma evolução? Você tem uma carreira tão extensa, conhece tanta gente, acompanhou e tem amizades com todas as gerações, como você vê a sua geração em relação às anteriores? Alaíde — Da minha geração tem poucas sobreviventes. Da minha geração somente a Claudette Soares, Dóris Monteiro… Acho que não tem mais ninguém, todas já se foram… Pavan — E o reconhecimento da Claudette é maior do que o seu, não estou falando em relação…? Alaíde — Eu sei, sei, mas isso eu não sei responder. Pavan — Mas a sua geração, pela importância que teve, ela foi bastante reconhecida? Tem o reconhecimento que merece? Alaíde — Bom, eu sei que, que quando faço as minhas apresentações, sou muito bem recebida e sempre tenho público. Então, o reconhecimento do público eu tenho. Acho que o (reconhecimento) da mídia é que eu não tenho, não falo de um modo geral, porque tem várias pessoas da mídia que me apoiam, mas de um modo geral a mídia está voltada para o modismo, para quem está aparecendo, e com isso, os outros, não estou falando somente de mim e da Claudette, muitos outros vão ficando para trás, quando há espaço para tudo, né? Roberta — Você tem um empresário? Alaíde — Eu tenho. [n.e. O produtor Nelson Valencia, que também empresariava Johnny Alf] Tacioli — Quando se fala de bossa nova, algumas figuras que foram tão importantes quanto você e o Johnny Alf ficam a margem desse reconhecimento para a bossa, né? Como é isso? É difícil isso pra você isso, Alaíde? Alaíde — Sabe o que eu acho? Quando eu cheguei ali naquelas reuniões, eu já era uma profissional. Então eu vi um pouco de interesse que eu levasse a coisa mais, sabe, como eu quis gravar e gravei muitos deles antes mesmo do João, entendeu? E aí depois esquecem, esquecem… Eu já era profissional, mas vivi aquilo tudo… Tacioli — Você foi uma ponte quando interessava… Alaíde — Humn, humn. Tacioli E quais são os seus planos? Alaíde — Ah, planos eu tenho… Um deles é gravar as minhas composições. Pavan — E você continua compondo? Roberta — Quantas músicas você tem? Alaíde — Ah, eu nem sei, não tenho muitas, mas um pouquinho; trinta eu tenho, né? Roberta — Estão registradas? Alaíde — Não. Roberta — Não?! Alaíde — Não, mas algumas estão em uma editora. É a mesma coisa, né? Pavan — Mas estão na sua cabeça? Roberta — Ou no papel? Alaíde — Ah, sim, sim, uma vez eu fiz uma apresentação na UMES, aqui em São Paulo cantando só as minhas composições. Roberta — Eles gravavam? Você não tem esse registro gravado? Alaíde — Não. Ou melhor, eu tenho sim, mas aquela coisa que não chegou a ser um CD, sabe? Depois dessa minha apresentação é que começaram a fazer os CDs… Pavan — Você continua tendo aula de música no CLAM? Alaíde — Não. Eu tive bolsa, mas aí cortaram a minha bolsa… [risos] Contenção de despesas. Tacioli — Cortaram a bolsa da Alaíde! Pavan — Você que tem uma história que é inegável, que a gente só tem que aplaudir, você continua tendo aula de música ou continua querendo aprender, fazer coisa nova… Alaíde — Ah, eu aprendo todo dia. Cada vez que eu vou cantar, eu aprendo um pouquinho, comigo mesma mas eu aprendo… Roberta — Lembrei de uma coisa: um amigo meu alagoano que é violonista e mora em Brasília me contou que uma vez estava no camarim com o Raphael Rabello, com você e com um grupo, e que aí o Raphael falou assim: “Alaíde, dá um Lá!”. E aí você deu um Lá e o grupo inteiro afinou em cima do seu Lá. [risos] Você lembra disso? Alaíde — Não, não lembro. Ah, acho que foi em um daqueles projetos do Herminio, Projeto Pixinguinha, que fiz com o Raphael Rabello, Turíbio Santos e Copinha. Tacioli — Alaíde, se deixar a gente vai madrugada afora… Roberta — Tem mais alguma coisa que você quer contar pra gente que não foi perguntada? Alaíde — Não. Roberta — Às vezes o entrevistador peca, né? Pavan — O Herminio passa muito trote em você? Alaíde — Passa. [risos] Tacioli — Qual foi o último? Alaíde — Ah, tem um tempinho que ele não passa. Tacioli — Mas teve um clássico? Um que você não esquece, que você lembra e fala “Eu ainda vou pegar esse Herminio!”? Alaíde — Ele passa muitos. Roberta — Como assim, por telefone? Alaíde — É. Roberta — Ele liga falando que é outra pessoa. Alaíde — Não, ele muda a voz. Aí eu caio… [risos] Pavan — E você já deu o troco nele? Alaíde — Não. Pavan — Dá o troco nele, mas com a sua voz vai ser difícil, né? [risos] Alaíde — Num outro dia eu mesma ri, porque liguei para um amigo meu e falei assim: “Sabe quem está falando?”. [risos] Ele falou: “Larga mão de ser boba!” [risos] Uma vez eu fui a uma reunião, num desses programas que tinha na Record que era do Eduardo Moreira, você conheceu o Eduardo Moreira? Tacioli — Não, eu não conheci. [n.e. Adolfo Eduardo Moreira, produtor de programas de música brasileira da TV Record] Alaíde — O Paulinho Nogueira falou assim: “Ah, vai ter uma reunião na casa do Eduardo e ele está te convidando. Vamos lá!”. O Eduardo era o produtor. Aí eu fui. Cheguei lá, uma mulher me olhava, mas ela me olhava com uma cara esquisita do tipo “Ih, quem é essa aí?”. E eu não tinha feito nada pra ela. De repente, alguém me apresentou. Daí eu comecei a conversar com ela e ela falou assim: “Eu não gostava de você!”. “É?” “Não, não você a cantora, você a pessoa.” “Ué? Por que? Eu não te conhecia.” Aí ela falou assim: “Porque o meu marido falava assim pra mim: ‘Isso que é delicadeza! Essa mulher que fala assim, fala assado…’. E eu não gostava mesmo, eu achava que você falava assim para fazer charme!”. [risos] Ai meu Deus! Louca, né? Quem é que consegue fazer charme tantos anos assim? Roberta — Além das suas músicas, tem alguma que você gostaria de ter gravado e não gravou? Alaíde — Tem, tem muitas. Roberta — Sou apaixonada por pelo menos metade da sua obra. Alaíde — Obrigada. Roberta — E eu tenho uma música que imagino que ficaria incrível com você que é a “Obra-prima”, do Lúcio Cardim. Você conhece? “Levar você de mim é mais fácil que trazer / Difícil é fazer você feliz…”. Alaíde — Ah, conheço… Roberta — E fiquei imaginando se você conhecia. Alaíde — Não, nunca me passou pela cabeça. Roberta — Essa é uma que eu gostaria de ouvir você cantar. [risos] Alaíde — Hum, sabe “A dama de vermelho”, do meu disco com o Oscar Castro-Neves? Roberta — Sei… Alaíde — Já ouviu? Roberta — Já, mas não me lembro… Alaíde — Quem cantava era o Chico Alves. Roberta — Do repertório dele? Alaíde — Eu adorava. Roberta — Essas músicas do Oscar, do Luverci, essas que você gravou, considero tudo uma obra-prima. Você conheceu o Bom Motivo, aquele bar que ficava na rua Lacerda Franco em Pinheiros? Alaíde — Fui lá uma vez, mas como júri de um festival. Roberta — De um festival de música que eles fizeram… Eu estava lá! O dono desse bar cantava todas essas músicas que ele conheceu por seu intermédio. Era uma das poucas pessoas na noite que cantava suas músicas, que são dificílimas. Tacioli — Alaíde, foi difícil (a entrevista)? Alaíde — Não. Tacioli — Não, né? Roberta — A gente podia caprichar mais nas perguntas… Tacioli — Agora vai começar a parte difícil… [risos] Pavan — A próxima meia hora vai ser… Tacioli — Alaíde, vou fazer minha pergunta faixa-bônus: qual momento de sua carreira que você considera seu auge artístico? Alaíde — Foi o “Onde está você” no Teatro Paramount, porque foi um festival que teve, mas não um desses competitivos. Roberta — Era uma mostra. Alaíde — É, tinham várias cantoras. Deixa eu ver se eu lembro: Ana Lucia, minha amiga que faleceu há pouco tempo, Paulinho Nogueira, Claudette, Oscar, Nara, Wanda Sá, muita gente, né? O Oscar sempre foi meu companheiro desde a bossa; ele ligou pra mim: “Vou fazer os arranjos pra você. Chego amanhã”. Ele chegava um dia antes do show. “E o que você vai cantar?” Eu havia escolhido “Tristeza de amar”, do Luís Roberto e Geraldo Vandré, e eu nem me lembro da outra música que escolhi. Acho que foi “Lágrima”, que era uma música dele. Aí ele falou assim: “Lalica” — ele me chama de Lalica — “acabei de compor uma música com o Luverci” — o Oscar só teve parceria com o Luverci. “Eu acabei de compor com Luverci e da próxima vez você vai cantar, tá?”. “Ah, é? Tá bom. Deixa eu ver.” Depois que eu havia cantado com ele, falei “Não vai ser da próxima vez, vai ser amanhã!”. Aí aprendi a música, fui lá e cantei. No meio da música, o pessoal ficou em pé e começou a aplaudir uma música inédita! E eu comecei a chorar! Eu chorava tanto, mas eu chorava tanto! Foi um momento… Roberta — O auge. Alaíde — É. E foi dali que começou aquela moda de aplaudir no meio. Começou comigo ali no Paramount. Roberta — O Oscar mora há muitos anos fora do Brasil, né? Alaíde — Em Los Angeles. Roberta — Você já pensou em ir pra lá trabalhar com ele? Você teve convites? Alaíde — Eu tive convites. Dá vontade de bater na minha cara. Sabe quem me convidou? Oscar Peterson! E eu não fui!

O pianista canadense de jazz Oscar Peterson (1925–2007). Foto: Reprodução

Roberta — Por que? Alaíde — Ah, eu estava com dois filhos pequenos, casada, aquelas coisas, né? Ele veio fazer uma apresentação ali no que agora é Cultura Artística. Era a TV Excelsior. Ele veio fazer uma apresentação ali e tinha um moço que o apelido dele é Paulo Dana. Esse Paulo Dana pegava os artistas estrangeiros, americanos, franceses e levava nos lugares que ele sabia que tinha boa música. Eu estava fazendo um show com o Johnny, a Ana Lucia e Paulinho Nogueira em um lugar chamado Canto Terço, que era do lado do João Sebastião Bar. Eu estava cantando “Insensatez”. De repente, eu vi que mudou o som do Johnny. Era o Johnny que me acompanhava e mudou o som. Eu olhei e era o Oscar Peterson! Ele pediu licença pro Johnny! Saiu nos jornais no dia seguinte: eu e ele tocando, me acompanhando. Tenho os recortes de jornais. Já pensou? Não falo inglês, não entendo nada. Ele conversou com o pessoal, (disse) que era pra eu ir no Cultura Artística, que ele ia me convidar para cantar, mas aí o marido não deixou porque era um show, era mesmo, um show montadinho. Um saindo já fazia diferença, mas eu acho que os meus amigos iam entender, né? Mas o meu marido ficou no meu pé. Max Eluard — Ficou morrendo de medo… Alaíde — Ficou morrendo de medo… [risos] Aí (o Oscar Peterson) falou para o Johnny que queria me levar… Roberta — Você acha que o casamento atrapalhou sua carreira? Alaíde — Não, não… Foi somente nessa situação, mas também eu não iria mesmo, porque largar dois filhos pequenos, sei lá, eu não iria mesmo… Mas ele cortou a chance de eu cantar com ele (Oscar Peterson) naquele teatro. Tacioli — Alaíde, são quase 11 horas, senão a gente começa uma outra entrevista. Tem um monte de capítulo que a gente nem passou por cima… Roberta — Nem falamos do Vinicius, da história do piano… Se você foi apaixonada pelo Vinicius ou não… Alaíde — Fiz um Ensaio que vai passar dia 29. Eu te falei, né? Tacioli Falou. Alaíde — Aí o Faro [n.e. Fernando Faro, produtor e diretor do programa Ensaio, da TV Cultura] fica “Fala do Vinicius. E aí…?” [risos] Tacioli — Mas, Alaíde, e o Vinicius? Alaíde — Todo mundo quer saber o que é que o Vinicius fez para me dar o piano. Ah, pelo amor de Deus! O que o Vinicius fez, não, o que eu fiz! Roberta — Não, eu não ia fazer essa pergunta. Alaíde — Não, mas querem saber. Roberta — Eu ia perguntar da música “Amigo amado” que ele fez a letra e te deu. Alaíde — É. Em 1960 eu fui levada pelo Baden à casa do Vinicius que ele queria me conhecer. Me ouviu, gostou muito e não-sei-o-quê… Lá fui eu pra casa do Vinicius. Quase todo dia tinha reunião na casa de Vinicius. E todo mundo ia lá pra casa de Vinicius. E eu sentava lá ao piano e mexia aqui, mexia ali. O Moacir Santos de vez em quando aparecia lá. Ele falou assim: “Por que você não vai estudar com o Moacir?”. “Mas, Vinicius, eu não posso estudar com o Moacir. Como é que vou estudar com o Moacir? Pra começar, eu não tenho piano.” “Ah, você vai estudar com ele. Você sai de lá e vem estudar aqui.” O Moacir morava ali na Glória. Não tem a Taberna, naquela rua que sobe? Então, Moacir morava ali e o Vinicius lá no Parque Guinle. Falei assim: “Eu vou falar com o Moacir, pode deixar por minha conta”. Daí fui estudar com o Moacir. O Moacir tem aquele esquema que o CLAM tem: são dois pianos, um para o aluno e outro do professor. O Moacir já tinha esse método. Comecei mas infelizmente (durou) poucos meses, porque ele já estava para ir para os Estados Unidos. E quando ele já estava com tudo certo para ir, falou assim: “Você não quer comprar o piano?”. “Ah, Moacir, eu não tenho condições de comprar o seu piano.” “Conversa com o Vinicius. Ele é tão seu amigo, conversa com ele. Ele paga o piano pra mim e você vai pagando pra ele.” “Ai, Moacir, eu não vou…” E não falei nada com o Vinicius, mas ele mesmo foi e falou: “Ó, eu estou querendo vender o piano pra Alaíde e ela disse que não tem condições, mas como ela gosta tanto e leva muito jeito, eu achava que este piano devia ficar com ela”. Eu sei que o piano foi pra mim. Antes eu saía e ia pra casa dele para estudar. O Vinicius falou assim: “Você é uma boba mesmo, né? Por que que não falou que o Moacir queria vender o piano e que você não podia comprar? Nós somos amigos ou não somos?”. Todo mundo acha que ele tinha interesse em mim, mas não tinha, ele gostava de mim. Do jeito que ele era, não sairia em tudo quanto era manchete? Todas saíram, não foi? Não é verdade? Tacioli — Não sei. Mas ele tinha uma conversa boa, né? Alaíde — Ah, se tinha! [risos] Roberta — Nossa, devia ser um perigo! Alaíde — Mas ele era uma pessoa muito legal! Daí deu nisso! No piano! O Moacir foi embora e eu comecei a me virar sozinha lá, tentando fazer as minhas composições. Aí um dia eu cheguei na casa dele e falei: “Vinicius, olha a música que eu fiz”. Daí ele sentou do meu lado, na época ainda tinha um daqueles gravadorzinhos… Aí ele falou: “Bonita! Eu vou gravar. Posso gravar?”. “Pode, lógico!” E ele gravou as duas que eu tinha feito. Ele tomava todas, vocês sabem [risos], mas ele se cuidava muito, né? Ele mesmo ia pra clínica. Roberta — Ele se internava. Alaíde — Um dia ele foi para a Clínica São Vicente. Ele ligou: “Alaidinha, vem cá. Vem aqui me fazer uma visita que eu tenho um presente pra dar pra você”. Aí eu cheguei lá. “Abra a gaveta. Tem um presente pra você.” Eu procurei, procurei, não vi embrulho nenhum… [risos] Já pensei num presente. “Vinicius, eu não achei!” “Mulher, não tem um papelzinho dobrado? Pega ele!”. Eu peguei e eram as duas letras das duas músicas que eu tinha feito. Uma se chama “Amigo amado” e a outra “Tudo que é meu”. Presentão, hein? Roberta — Nossa Senhora! Tacioli É isso aí. Alaíde — Aí a história do piano. [risos] Não terminei a história do piano… É o calmante, é o calmante que solta a língua! [risos] Olha a vergonha que eu já passei: cada vez que eu encontrava, não ganhava dinheiro. Naquela época era amor a arte mesmo! Não se ganhava dinheiro não, gente! Fazia, fazia aqueles shows de graça, ia para a televisão de graça, tudo de graça… para aparecer, mas não ganhava dinheiro. Quando ganhava era uma miséria que mal dava pra…

Professor e dono do piano — O compositor, instrumentista e maestro pernambucano Moacir Santos (1926–2006). Foto: Reprodução

Roberta — Pagar a condução… Alaíde — Pra suas despesas. E eu cantava na noite, aqui e ali, para sobrevivência mesmo. Como eu já tinha o piano, já não ia mais ao Vinicius. E quando tinha alguma reunião, me convidava, e eu chegava: “Ai, Vinicius, não tenho nenhum dinheiro para te dar, estou envergonhada”. “Ah, deixa isso pra lá!” Passaram-se acho que quase dois anos e eu sem um tostão! [risos] Pavan — Nenhuma parcela! Alaíde — Não! Nenhuma parcela! Eu não ganhava. Ou eu pagava o piano ou morria de fome. Ou pagava o piano e ia para o meio da rua com o piano e tudo. Aí um belo dia, sei lá o que deu nele, eu falei “Vinicius, e aí, não tô podendo pagar o piano!”. Ele falou assim (gritando): “Para de falar nesse diabo deste piano! O piano é seu, fica com esse diabo desse piano!”. [risos] Roberta — Ele ficou bravo? Alaíde — Ficou bravo. E aí eu fiquei com o diabo do piano até hoje. [risos] Tacioli — É aquele que foi fotografado (para a exposição Pioneiras)? Alaíde — É. Roberta — Aquele em que você está ao piano, com as fotos na parede? Alaíde — É. Só que era marfim. Roberta — E agora? Alaíde — Agora escureceu. Houve um tempo em que ele deu cupim, lá no Rio ainda, foi difícil arrumar um lugar para consertar porque ele é de uma marca, Delarue, francesa, e só tem um lugar no Rio, lá em Piedade. Ele foi para lá, mas voltou marfim. Quando eu vim para cá, que eu precisei arrumar, aí eu consegui um moço na Aclimação e escureceu tudo gratuitamente para mim. Ele é bem antigo. Comigo ele está há quantos anos? Sessenta? Tacioli — Uns cinquenta e pouco? Alaíde — Não, não, meu filho, eu estou com 76. Comigo ele está há quanto tempo?Pavan — Uns cinquenta e pouco. Ele te quando em quem ano? Alaíde — Sessenta e um. Pavan — Cinquenta e um anos. Alaíde — Não, não, sessenta. Pavan — Cinquenta e dois anos contigo. Nada mal, um piano que foi do Moacir Santos, dado pelo Vinicius e agora é seu. Pedigree melhor que esse! Roberta — Você falou que tem dois filhos. Alaíde — Três. Três filhos, quatro netos e um bisneto. Roberta — Alguém seguiu a carreira? Alaíde — Tem um filho que é bom, viu? Roberta — É? Alaíde — Você não conhece o Marcelo? Pavan — Conheço. Alaíde — O Marcelo já fez produção até para o George Benson. Roberta — Nossa! [risos] Marcelo Lima. E ele canta? Alaíde — Canta e toca bem. Eu sou crítica, se não fosse bom… Roberta — Mas ele seguiu a carreira de músico ou não? Alaíde — Está seguindo. Roberta — Queria ouvir. Quantos anos ele tem? Alaíde — Que idade o Marcelo tem? [ri] Pavan — Faz tempo que não o vejo. Alaíde — Mas ele não aparenta a idade que tem. Quarenta e… Roberta — Vendo por você, eu imagino, né? [risos] Parece mais nova que eu. [risos] Alaíde — Mas é da raça, né? Quarenta e… Ele é de 1966. Roberta — Quarenta e cinco. Alaíde — Mas não aparenta. Parece um meninão, ele se sente… [ri] O bisneto é dele. Tacioli — Querida, muito obrigado pela entrevista. Não foi dolorida, não? Correu fácil, né? Alaíde — Humn, humn. Tem entrevistas que a gente faz, ai meu Deus, que deixa a gente tão assim, aqui foi fácil. Tacioli — Mas conta aquele segredinho para terminar, que você não falou para ninguém e quer falar pra gente? [risos] Alaíde — Que segredo? Segredo é para quatro paredes! [risos] Tacioli — É isso, obrigado. A gente pode continuar conversando aqui, mas somente para finalizarmos. Alaíde — Não estava gravando, não, né? Tacioli — Esse foi só o treino. Vamos começar agora. Alaíde — Não, essa última parte agora. Tacioli — Tem algum show marcado? Alaíde — No momento, nada. Tacioli — E quando você se apresenta, quem vai contigo, quais são os músicos? Tem um time fixo? Alaíde — Depende da situação. Às vezes posso ir com quatro, às vezes ir com três, às vezes posso ir com dois, às vezes com um. [ri] No Ensaio eu fui com quatro. Giba, Fernando Correia, conhece? Roberta — Conheço, adoro. Alaíde — Conrado Paulino e Vitor Alcântara. Roberta — O Conrado foi quem gravou o outro programa Ensaio com você. Alaíde — É. Roberta — O Vitor também. Alaíde — O Giba começou tocar profissionalmente comigo. E os meninos, também. Eu conheci o Giba, ele ia fazer 22 anos, já está com 45. Muito tempo juntos. E os meninos também, mas na maioria das vezes eu me apresento só com o Giba, porque pedem um. Aí vou com o piano que é mais completo. Ou se pedem um violão, vou com o Conrado ou com o Fernando. É sempre com esse grupo quando é escolha minha, porque eu faço muito shows, apresentações por aí em que eu não tenho escolha. Tacioli — E sobre o racismo, vi em uma entrevista sua ao site Entrecantos. Você mesma citou em diversas oportunidades… Alaíde — Na bossa aconteceu isso. Tacioli — Teve um momento em que o racismo foi muito… Alaíde — Aconteceu isso, não é pessimismo, não! Acho porque eu e o Johnny ficamos discriminados. Acontecia tudo lá, não sei quantos anos de bossa nova, e… Pavan — E ninguém chamava… Alaíde — Os dois fora. E depois eu fiquei sabendo que mesmo no comecinho, na minha ausência, me chamavam de ameixa. “Ameixa não vem hoje, não?”. Roberta — Você contou isso em uma entrevista, mas contou isso rindo. Alaíde — É! Eu contei rindo, mas é uma discriminação. Porque não falar “A Alaíde! A Lalá não vem”, mas “Ameixa!”? Como tinha a Ângela Maria como Sapoti, eu tinha de ser a Ameixa. Max Eluard — E isso te magoava? Alaíde — Não, não! Eu não sabia que me chamavam assim, eu fiquei sabendo muito depois. Roberta — Como você descobriu? Alaíde — Por um livro do Ruy Castro. Roberta — Você descobriu no livro? Alaíde — É! Se bem que ele pegou muito o bonde andando. Fala tantas coisas ali que não são verdadeiras. Tacioli — Teve um outro momento (de racismo) além desse da bossa nova, Alaíde? Alaíde — Não, não, não. Sentia que torciam um pouco o nariz, é chato falar isso, mas eu aparecia mais que eles, gostavam mais de mim, vou fazer o quê?!

Registro do casamento em 1960 da atriz May Britt com o cantor, ator e dançarino Sammy Davis Jr. Foto: Photofest/Running Press

Pavan — Eles ficavam incomodados? Alaíde — Ficavam. Nos 20 anos de bossa nova eu fui convidada. Foi aqui no Teatro Municipal organizado pelo Zuza Homem de Mello. E lá fui eu. Cada um cantava duas ou três músicas. O povo adora “Onde está você”. Bis, bis, bis! Eu saí e o povo não parava de chamar. “Mais um!”. Voltei, dei o bis. E no dia seguinte, o Zuza veio falar comigo: “Vamos ter uma reunião”. [ri] Teve a reunião. “Em hipótese alguma pode ter bis!” Porque o único bis… Fulanas virando a cara pra mim, juro por Deus! Foi engraçado! A carapuça já serviu, né? Não prestou, né? E bis de novo! Aí eu saí. Depois de mim entrava o Trio Tamba. E ele entrou e o povo “Mais um, mais um!”. E o Trio Tamba saiu. Se não fosse o Dick Farney eu não dava esse bis. O Dick Farney falou: “Deixa a mulher entrar, gente! Que palhaçada é essa!”. Daí o Zuza deixou eu entrar para dar o bis, porque o Dick Farney bateu o pé. Barra-pesada! Uma vez, sobre esse negócio de racismo, ninguém falou, eu ouvi: não tinha um tal de Vicente Leporace, que tinha um programa de rádio na Bandeirantes? Aí ouvindo o rádio lá, entrou o programa dele, de vez em quando eu ouvia. No dia seguinte, o “Onde está você” já estava tocando nas rádios; a RGE estava gravando lá (no Teatro). Foi um LP com vários participantes. Alguém levou uma fita, porque não deu tempo de fazer o LP, e ele tocou. “É, uma crioula com mil anos de samba dando uma de May Britt agora!”. May Britt era uma atriz loura, de cabelo comprido, francesa. Falou isso! Eu ouvi! Roberta — Você respondeu? Alaíde — Responder o quê pra ele? O que tem a cor com a música? As grandes cantoras americanas são negras. A maioria, não? Aqui não pode ser cantora negra, ser cantora negra tem que sambar, tem que rebolar, cantar sambão, não pode! Aliás, acho que somente eu canto esse tipo de música, não tem uma outra que cante. Não tem, não! Não pode, é proibido! Pavan — É impressionante. (O racismo) está tão arraigado… Outro dia, alguns anos atrás, um ator de novela no Faustão [n.e. Rodrigo Lombardi que participava como jurado do quadroDança dos famosos], perguntado sobre um ídolo que ele tinha, fala do Sammy Davis Jr. “Quando ele abria a boca ele virava um loiro de olhos azuis!” E você vê o que ele fala e ele não percebe o que falou. “Ele era baixinho e tal, quando ele começava a dançar e abria a boca virava um escandinavo de olhos azuis!” Max Eluard — Aí melhorava. Pavan — É um absurdo, é um absurdo! Alaíde — É complicado. Pavan — Você falou de cantoras americanas. Tem alguma que você gosta? Alaíde — Tem várias. A primeira que eu ouvi e que me tocou foi a Sarah (Vaughan), mas muita gente acha que eu tenho muito da Billie (Holiday). Sei lá, tenho da Billie, ela é a Billie e eu sou a Alaíde. [risos] “Quando eu ouço a Billie eu lembro de você.” Pavan — Você conheceu a Sarah pessoalmente? Alaíde — Não. Conheci a Ella (Fitzgerald). Assisti a um show dela. Tacioli — Alaíde, você assistiu a minissérie sobre a Maysa? Alaíde — Ridícula, injusta! Roberta — Por que? Alaíde — A Maysa não era daquele jeito. Ela gostava da sua birita, mas ela não era depravada do jeito que colocaram lá, não! Não era! Não tive muita convivência, mas ela não era assim. Roberta — Mas se o próprio filho dela fez… Alaíde — Mas o próprio filho tinha raiva da mãe! Pavan — Nem conheceu a mãe direito. Alaíde — Ainda que fosse, jamais ele poderia ter feito o que fez. Eu comecei assistir e larguei pra lá. Pavan — O Lira Neto, que fez a biografia que deu origem à minissérie, criticou a série. Roberta — Está bem diferente do livro. Gostei do livro. [n.e. Maysa — Só numa multidão de amores, 2007, do jornalista Lira Neto] Tacioli — Alaíde, mais uma vez… [risos] Alaíde — Quer que eu vá embora? [risos] Tacioli — Engraçado, Alaíde, porque as entrevistas do Gafieiras já demoram duas, três horas e as pessoas que leem as entrevistas falam “Pô, Ricardo, você sempre fala que está terminando depois de duas horas” e as entrevistas continuam… E é isso… Ficamos preocupado com o entrevistado, com o seu tempo, mas se deixar… É bom falar do passado, do presente? É importante? Alaíde — É gostoso! Tacioli — Mesmo os momentos mais difíceis de lembrar? Alaíde — É bom. Como é aquele ditado, pra mim não tem tempo quente, pra mim está tudo na santa paz. Não estou nem aí com nada. Por isso que ainda vivo, porque se eu fosse me estressar, ih… (silêncio) Eu consigo não revidar, entendeu? Fez pra mim? Ih, eu faço de conta que não aconteceu, faço de conta, mas faço mesmo. Eu consigo fazer isso. Na hora eu falo “Chega!”, mas amanhã já acabou. Isso ajuda a gente a viver. Tacioli — Você chegou a ver as fotos da exposição Pioneiras? Alaíde — Olha, eu recebi uma que ele mandou, com a Solange, a cabelereira. Tacioli — Ah, sim. Na internet você não chegou a ver as fotos? Alaíde — Não, não! Tacioli — Vou mostrá-las pra você! Alaíde — Cadê o João? Tacioli — O João mudou para Leme, teve uma filha. Falei que íamos te entrevistar, ele ficou contente, mandou um abraço. Ele é do time! Depois te mostro as fotos. Tem a do piano… Roberta — A do cabelo é demais! Alaíde — Parei de fazer as tranças, porque estava com muita queda de cabelo. Tenho de ter muito cuidado. Já faz um ano que não uso (tranças). Há dois anos fiz um projeto muito lindo, procurem na internet, em homenagem a Yemanjá. Sete cantoras negras cantando músicas em homenagem a Yemanjá. Aí eu estava lá. Houve um em um ano e outro no ano seguinte: 2009 e 2010. Roberta — Virou CD? Alaíde — Não, eles fizeram um DVD. É da Fundação Palmares, mas não foi comercializado. Procurem que vocês acham. É lindo, lindo. Um espetáculo com uma grande orquestra. Tem a Margareth Menezes, Luciana Mello, Paula Lima, Rosa Maria, eu, Daúde… São sete! É muito bonito! Só com canções de Yemanjá. E nesse primeiro fui ainda com as trancinhas. É esse que aparece no Youtube. Mas no segundo, que foi no ano seguinte, eu fui com esse cabelo. Tacioli — Vou te mostrar as fotos!

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