ANGELA MARIA [2014]

Rainha do Rádio em 1954 e ídolo de Elis Regina e Gal Costa, ela é até hoje uma das cantoras de maior sucesso no Brasil.

Angela Maria: “Vou morrer famosa”. Foto: Thais Taverna/Gafieiras

O porteiro bem que desconfiou. Acompanhada do marido, ela entrou no condomínio e seguiu até o elevador. Uma das cantoras mais populares do Brasil, Angela Maria se dirigia para mais uma entrevista. Poder repetir sua história com o frescor de quem a conta pela primeira vez fazia parte do pacote que havia aceitado décadas atrás: o de ser artista. E assim, prestes a estrear um novo espetáculo aos 84 anos de idade, um enxuto “voz e violão”, inédito em sua trajetória, Angela Maria comentou suas lembranças e cedeu ao silêncio as respostas que não vieram.

Admiradora de Dalva de Oliveira (1917–1972), a quem imitava no começo da vida profissional, Angela Maria não se cansa de afirmar que o seu estilo é o romântico. Seu extenso patrimônio musical de sambas-canções, tangos, boleros e baladas sempre foi alvo de diferentes avaliações. Sua fase de ouro foi a década de 1950 e início da seguinte. No auge de sua voz potente e delicada, a intérprete nascida em Conceição de Macabu (RJ), em 1929, acumulou todos os louros que uma artista poderia sonhar: sucesso já no primeiro disco (1951), adorada pelo público e crítica, rica e bonita. Um período em que era imbatível, com registros tão diversos que incluíam Dorival Caymmi, Lupicínio Rodrigues, Vinicius e Tom Jobim, de quem foi uma das primeiras a gravar, como também Othon Russo, Waldir Rocha e Chocolate. Naquele tempo, não havia espaço para Elizeth Cardoso, Dalva ou Marlene, a voz era a de Angela Maria. Foi a última grande intérprete popularizada exclusivamente pelo rádio.

Já a partir dos anos 1960, a música brasileira deu uma pirueta com a bossa nova, o rock e os festivais, valorizaram-se outros cantos, gêneros e ídolos. Angela continuou sua trilha romântica, exacerbada por meio de autores vitoriosos, como Adelino Moreira. Sua música passou a ser considerada cafona. Salvaram-se gravações de “Gente humilde” (Garoto, Vinicius de Moraes e Chico Buarque) e “Tango pra Teresa” (Evaldo Gouveia e Jair Amorim), além de seus primeiros discos em duo, um com o discípulo e seu ex-chofer Agnaldo Timóteo, e outro com o amigo Cauby Peixoto.

Mas para chegar ao sucesso, Angela pagou caro por seu pioneirismo profissional. Filha de pastor batista e dona de casa, acumulou surras ao fugir da escola e da igreja para ir às rádios cantar em programas de calouros. Buscando sua independência, tentou se manter com ofícios diversos, como o de tecelã e inspetora de lâmpadas em uma fábrica da General Electric. Já consagrada, Angela Maria também recebeu outros crediários: enfrentou uma série de casamentos frustrados e se viu enganada por empresários e produtores. Somente no início da década de 1980, ao conhecer Daniel D’Angelo, um rapaz 30 anos mais novo, sua vida sentimental e financeira se aprumaram.

Sessenta anos depois de ser coroada Rainha do Rádio, Angela Maria vencia mais um dia de trabalho: na Zona Oeste paulistana, encarou um bate-papo com a equipe do Gafieiras, que incluía a radialista Lia Machado Alvim, o jornalista Alexandre Pavan e a fotógrafa Thais Taverna. O ponto final dessa entrevista foi dado pelo porteiro logo após o táxi partir para a Zona Sul. “Era a Angela Maria?”. Para manter a coroa, a menina que fascinou Ary Barroso tem de sambar todo dia.


{…} expediente

entrevistadores Alexandre Pavan, Lia Machado Alvim, Max Eluard e Ricardo Tacioli
transcrição, produção, edição e texto de abertura Ricardo Tacioli
fotos Thais Taverna
agradecimentos Daniel D’Angelo, Casa de Francisca e Thiago Marques Luiz
apoio Avoa Filmes

Entrevista realizada na tarde de 24 de março de 2014, uma segunda-feira
São Paulo/SP, residência de Ricardo Tacioli


ANGELA MARIA — Tenho que ficar aqui, né?

RICARDO TACIOLI — Por causa da câmera. Você ganhou uma poltrona!

ANGELA MARIA — Ah! Não quero poltrona, não! [ri]

RICARDO TACIOLI — Melhor assim, Angela?

ANGELA MARIA — Está ótimo.

RICARDO TACIOLI — Aceita água, café, suco light…?

ANGELA MARIA — Tem suco?

RICARDO TACIOLI — Tem suco light de laranja, tem Coca diet…

ANGELA MARIA — Não, não. Suco!

THIAGO MARQUES LUIZ — Ricardo, você pode me dar mais uma aguinha, por favor?

LIA MACHADO ALVIM — Mais duas!

(…)

ANGELA MARIA — Falando eu não gosto, não.

LIA MACHADO ALVIM — É? Você tem uma voz bem doce.

(…)

THIAGO MARQUES LUIZ — O (Rodrigo) Fauor está quase terminando o livro, Angela?

DANIEL D’ANGELO — Ele já terminou.

THIAGO MARQUES LUIZ — Falei com ele na semana passada…

DANIEL D’ANGELO — Ele ligou, ele ligou.

THIAGO MARQUES LUIZ — Para dizer que já terminou? Ele está aparovado com a quantidade de material.

DANIEL D’ANGELO — Disse que é (um livro) de 500 páginas. Disse que vai enxugar.

ANGELA MARIA — Disse que são 500 páginas.

DANIEL D’ANGELO — O dia em que ele ligou e falou com você.

ANGELA MARIA — Pois é, disse que são 500 e que está terminando.

THIAGO MARQUES LUIZ — Ele disse que a casa dele era só Angela Maria pelo tanto de coisa que tinha de revista, de jornal. Eu quero ver que nome que vai arrumar para esse livro!

LIA MACHADO ALVIM — Quem está escrevendo?

THIAGO MARQUES LUIZ — Rodrigo Faour.

LIA MACHADO ALVIM — Humn!

THIAGO MARQUES LUIZ — Ele fez do Cauby, Dolores Duran e da Claudette Soares. E agora está fazendo da Angela. Ele é bom, é dedicado, pesquisa a sério.

RICARDO TACIOLI — Vou deixar aqui uma goiabinha.

[Toca a campainha]

RICARDO TACIOLI — Agora o time está completo.

[Chega a fotógrafa Thais Taverna]

RICARDO TACIOLI — Olá, tudo bem?

THAIS TAVERNA — Tudo!

RICARDO TACIOLI — Minha gente, Thais!

(…)

THIAGO MARQUES LUIZ — Ricardo, explica pra ela mais ou menos como vai funcionar.

RICARDO TACIOLI — Tá. Vou falar um pouquinho do Gafieiras. Ele é um site que trabalha com entrevistas de música brasileira, entrevistas longas. O papo nosso aqui é uma conversa, não tem uma linha, como “começa quando nasceu e vai seguindo”. Não! É um bate-papo.

ANGELA MARIA — Sem compromisso.

RICARDO TACIOLI — Sem compromisso. Então, fica à vontade para falar. Essa entrevista toda é transcrita e vai para o site em texto; a gente grava o áudio, filma e fotografa para compor esse material todo de arquivo.

ANGELA MARIA — Ah, tá.

RICARDO TACIOLI — É um bate-papo, muito informal. Tem esse protocolo todo…

ANGELA MARIA — Só para me assustar! [risos]

MAX ELUARD — Só para intimidar!

LIA MACHADO ALVIM — Não fique com medo, não! Para quem subia em árvore aos quatro anos de idade, nada te assusta, né?

RICARDO TACIOLI — Então é isso. Já está valendo!

ANGELA MARIA — Já está valendo?

RICARDO TACIOLI — á está valendo!

LIA MACHADO ALVIM — Esse copo é seu, se você quiser.

RICARDO TACIOLI — Se quiser parar um pouquinho, fazer um alongamento, pode ficar à vontade. (…) Angela, vou te mostrar uma coisa antes de começarmos. Ontem eu achei esse disco aqui…

ANGELA MARIA — Humn, com o Waldir Calmon!

RICARDO TACIOLI — Isso!

ANGELA MARIA — Pois é, Feito pra dançar. Esse disco é muito bom. Foi muito interessante como aconteceu essa gravação com o Waldir. A gente estava tirando o tom na Copacabana para fazer um disco. E ele estava gravando. Ele soube que eu estava na gravadora e pediu se eu podia participar de umas duas faixas… “Não sei, tem de falar com o chefão.” “Não, a Angela pode, se ela quiser participar, ela pode participar.” Então, eu entrei no disco dele fazendo duas músicas.

ANGELA MARIA — (…) E foi um arraso!

THIAGO MARQUES LUIZ — “Babalu” é daí, Angela?

ANGELA MARIA — É! (…) Ele perguntou: “Você sabe a letra de ‘Babalu’, como começa? Eu conheço ‘Babalu’, mas não sei a letra.” Ele disse: “Eu vou tirar pra você. Você grava pra mim?” “Gravo.” Ele tirou a letra na hora e fomos para o estúdio ensaiar. Começamos a ensaiar, ensaiar, ensaiar, e no fim ele disse “Agora vamos gravar?”. “Vamos.””Então vamos fazer um último ensaio.” “Que tal se eu fizesse um vocalise enquanto vocês fazem o coro de ‘Babalu’?” [repete o vocalise] Aí ficou bonitinho e ele disse: “Que ótimo! Vamos fazer assim!”. Aí ensaiamos assim. “Agora vamos gravar!” Aí o técnico lá em cima disse: “Não precisa, não. Já foi gravado o ensaio! Saiu maravilhoso!” [risos]

ALEXANDRE PAVAN — Quantas vezes você já cantou “Babalu”, Angela?

ANGELA MARIA — Uns 10 milhões. [risos] Dez milhões de vezes, acho.

ALEXANDRE PAVAN — E não cansa, não?

ANGELA MARIA — Eu gravei em 1955 e canto até hoje.

ALEXANDRE PAVAN — E não cansa?

ANGELA MARIA — Cansar, cansa. Eu já mudei várias vezes a minha interpretação de “Babalu” para não cansar, mas já cansou.

RICARDO TACIOLI — Tem outras (músicas) que cansam também?

ANGELA MARIA — Tem. “Gente humilde” eu não aguento mais cantar. “Ave Maria no morro” também. “Tango para Teresa”, “Garota solitária”, “Lábios de mel”. É que o povo pede, né?

LIA MACHADO ALVIM — “Cinderela”.

ANGELA MARIA — Aí eu tenho de cantar, e cantar bem.

MAX ELUARD — Angela, você estava falando da gravação desse disco que, quase de uma maneira incidental, surgiu uma coisa que foi incorporada ao disco, com o técnico ali gravando. Você sente diferença como artista do processo de gravação analógico para o digital nas últimas gravações que você fez em estúdio?

ANGELA MARIA — A diferença? É bem diferente, né? Antigamente a gente gravava assim: um microfone para o cantor e um microfone para a orquestra. É bem diferente, né? Hoje em dia tem um microfone para a cantora, aí toca um instrumento, por exemplo, grava um violino e aí vem depois e grava outro instrumento. É tudo diferente. Cada um tem a sua vez de gravar e não todo junto como era antigamente. Eu acho que a qualidade melhorou muito.

LIA MACHADO ALVIM — Mas o fato de você estar no estúdio com os músicos, a sua emoção muda ou você consegue manter a mesma?

ANGELA MARIA — Eu consigo manter a mesma, consigo. Aliás, eu acho até melhor, eu sozinha ali, somente com uma guitarra, um piano.

LIA MACHADO ALVIM — Uma guia, né?

ANGELA MARIA — É.

ALEXANDRE PAVAN — Você tem uma discografia muito extensa, centenas de discos. Teve ano em que você gravou dezenas deles.

ANGELA MARIA — Cento e dezesseis, né, Thiago?

THIAGO MARQUES LUIZ — Por aí.

ALEXANDRE PAVAN — A sua discografia (completa)?

ANGELA MARIA — É.

ALEXANDRE PAVAN — Como era a sua rotina? Numa semana em um determinado dia você ia para o estúdio gravar, tinha uma agenda, um cronograma de gravação…? Como era?

ANGELA MARIA — Eles marcavam: “Tal dia tem gravação!”. Era pra fazer quatro, cinco faixas, só que eu nunca quis gravar três ou quatro faixas, eu quero gravar o disco inteiro. Eu tinha compromisso fora da Copacabana, mas tinha que terminar (o contrato) com a Copacabana. Eu devia para a Copacabana dois LPs: um de bolero e outro de fados e tangos. Eu tive de conseguir esses tangos, boleros e fados em poucos dias, letra e música, e gravar em uma semana esses dois LPs. E eu gravei.

LIA MACHADO ALVIM — Quem escolhe o repertório numa hora dessa?

ANGELA MARIA — Eu mesma.

LIA MACHADO ALVIM — Você?

ANGELA MARIA — Eu mesma. Às vezes, é claro, pego opinião do meu produtor ou do meu diretor, marido e produtor Daniel. Eles sempre me dão uma opinião, “Essa vai ser boa, essa vai ser sucesso, essa não vai!”. Como aconteceu nesse último disco que nós fizemos agora, nesse último CD com o Cauby Peixoto, demos um pouco de trabalho ao Thiago, porque ele escolheu uma porção de músicas, aí fomos ouvir as músicas, eu e o Cauby, algumas músicas eu gostei, outras mais ou menos, e outras, não, e ele (Cauby) achou que estava tudo certo para gravar. [risos] Depois eu disse que não gostei e ele ficou louco! [ri] Mas, mesmo assim, eu gravei e deu certo, as músicas geralmente depois de gravadas e interpretadas pelo Cauby ficam muito bonitas, com arranjos do Daniel, muito bem feito, muito bonito, e o disco está fazendo sucesso. Às vezes é bom a gente ouvir a opinião de outros, nem sempre a gente está certo. Eu aprendi isso: tem de ouvir a opinião de outros também, que são ouvintes.

RICARDO TACIOLI — Que outros momentos você lembra na sua trajetória que a opinião dos outros tinha razão confirmada pelo tempo?

ANGELA MARIA — Até então a minha opinião sempre prevaleceu. Eu sempre tive razão, porque esses sucessos que eu fiz foram todos sucessos escolhidos por mim. Fui na gravadora e disse “Vou gravar isso” e eles não falavam nada, “se você acha que ai dar certo, quem somos, vamos gravar”, como “Lábios de mel”, “Orgulho”, “Vida de bailarina” e “Babalu”, e “Babalu” foi um acontecimento raro. Eu fui atender a um pedido de um colega, de um amigo, e pra mim se fizesse sucesso ou não não tinha problema porque o disco não era meu, era dele, mas arrebentou, tanto que depois eu tive que passar para uma disco meu. “Ave Maria no morro”, todas essas músicas foram eu que escolhi.

MAX ELUARD — E para essas escolhas você era guiada pelo o quê, pelo feeling, pelo desejo de cantar, por uma questão técnica? O que você levava em consideração?

ANGELA MARIA — Eu escuto a música, gosto da letra, sinto muito a letra e a melodia como se fossem uma coisa feita pra mim, como aconteceu com “Gente humilde”. Eu estava escolhendo o repertório pra fazer um LP e fui ouvir umas gravações do Chico (Buarque). Estava ouvindo na própria gravadora, na Copacabana. E eu ouvi a última gravação dele, que era “Gente humilde”. “Nossa, essa música é minha! É linda demais! A letra parece comigo, é quase a minha história, vou gravá-la!” Gravei e foi aquele sucesso! E até hoje!

RICARDO TACIOLI — Que é do Garoto, com letra do Vinicius e do Chico, né?

ANGELA MARIA — É, Garoto, Chico e Vinicius.

RICARDO TACIOLI — Você conheceu o Garoto?

ANGELA MARIA — Conheci na Rádio Nacional.

RICARDO TACIOLI — Como ele era?

ANGELA MARIA — Uma pessoa muito tímida; ele era muito educado, muito triste. Mas, assim, nos corredores, na hora do programa, ele não falava muito, era quietão.

RICARDO TACIOLI — Tocava bem?

ANGELA MARIA — Muito! [risos]

ALEXANDRE PAVAN — Vocês trabalharam juntos?

ANGELA MARIA — Não, somente na Rádio Nacional.

LIA MACHADO ALVIM — Angela, a gente gosta muito de falar em gravação definitiva. A gravação definitiva de “Gente humilde”, acho que é consenso, é sua. Você já deixou de gravar alguma música que você gostasse porque você achou em algum momento que ela já teria uma gravação definitiva na voz de outra cantora?

ANGELA MARIA — Eu já fiz isso. Eu já gravei música gravada pela Dalva. Era uma música definitiva gravada por ela, sucesso absoluto, mas eu gostei da música e gravei. Gravei o “Errei sim”, uma música dela, de muito sucesso, mas eu gostei de cantar a música, gostei da letra, da melodia. “Carinhoso” também é uma música que eu amo, eu adoro, que é do Pixinguinha; eu regravei também. Eu não tenho isso de dizer que não gravo música de ciclano ou beltrano porque ele já gravou, fez sucesso. Não interessa! Eu gravo o que eu gosto. E muita gente gosta daquela música gravada por mim. E aí acabo agradando gregos e troianos.

RICARDO TACIOLI — Angela, você recebe composições em casa de autores novos? Como isso funciona?

ANGELA MARIA — Geralmente eu pego as músicas da gravadora, nem adianta. Ele (Thiago) pega as músicas pra mim, escuta, vou para a gravadora e escuto lá. Tem tudo gravadinho lá. Assim que é. Eles levam diretamente para a gravadora.

RICARDO TACIOLI — E qual é o espaço da música em sua casa quando você não está trabalhando, cantando?

ANGELA MARIA — Eu escuto sempre. Eu tenho uma discoteca razoável, não é somente minha, não, mas de todos os colegas e, às vezes, de cantores que ninguém conhece, que ninguém sabe quem é, de músicos também tem gravações que eles me dão em shows, eu levo pra casa e escuto. Eu gosto de ouvir música.

ALEXANDRE PAVAN — Ultimamente você tem ouvido o quê?

ANGELA MARIA — Angela Maria. [risos] Porque eu tenho que decorar as músicas que eu gravei. [risos]

ALEXANDRE PAVAN — Angela, qual é a lembrança musical mais remota que você tem?

ANGELA MARIA — Lembrança musical mais remota?

ALEXANDRE PAVAN — Sua mãe cantando, um rádio tocando uma música…

ANGELA MARIA — Eu tenho da Elis! A Elis cantando “Vida de bailarina” comigo na TV lá do Rio, na TV Globo. Às vezes eles jogam isso no ar. Eu e a Elis. Uma lembrança gostava, uma lembrança muito boa.

RICARDO TACIOLI — E da infância, Angela, que lembrança musical da infância você guarda?

ANGELA MARIA — Lembrança musical da infância eu não tenho não.

RICARDO TACIOLI — Não? E de sons da infância, você lembra?

ANGELA MARIA — [com voz baixa] A minha infância não foi muito boa.

LIA MACHADO ALVIM — Mesmo brincadeiras de rua?

ANGELA MARIA — Não. [silencia]

LIA MACHADO ALVIM — Angela, você falou da Elis. A Elis frequentou shows seus, ela tinha você como ídolo, e ela gravou coisas do seu repertório.

ANGELA MARIA — Ela gravou “Vida de bailarina”. Foi essa música que ela gravou.

LIA MACHADO ALVIM — Você gravou algo do repertório dela?

ANGELA MARIA — Da Elis?

THIAGO MARQUES LUIZ — “Atrás da porta”.

ANGELA MARIA — Da Elis eu gravei “Atrás da porta” e aquela música “Dois pra lá, dois pra cá”.

THIAGO MARQUES LUIZ — Ela cantou em um especial da Globo.

ANGELA MARIA — É isso mesmo. Não foi só “Atrás da porta”, tem também “Adeus”, né? [canta] “Adeus / Vou para não voltar / E onde quer que eu vá / Sei que vou / Sozinha.”

THIAGO MARQUES LUIZ — “Pra dizer adeus”, do Edu Lobo. [n.e. Música de Edu Lobo e Torquato Neto lançada e gravada por Elis Regina em 1966. Angela Maria a gravou em 1970 no LP Angela de todos os temas, disco que tinha como faixa de abertura “Gente humilde”, além de contar com “Os argonautas”, de Caetano Veloso, e “Viola enluarada”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle]

LIA MACHADO ALVIM — Você é tão romântica quanto suas músicas?

ANGELA MARIA — Acho que eu sou mais. [risos] Eu sou mais! Deve ser por isso que as minhas músicas falam muito de amor.

RICARDO TACIOLI — Esse é um tema que predomina em seu repertório, né, Angela?

ANGELA MARIA — É, amores vitoriosos, amores fracassados. [ri]

RICARDO TACIOLI — E você se lembra de outras músicas que fugiam desse repertório?

ANGELA MARIA — Somente música de Carnaval. Eu gravei também muita música de Carnaval. Aí já mudava um pouco (o repertório), já era a Angela mais jovem, era a Angela foliona. [ri]

RICARDO TACIOLI — E a Angela foliana brincava o Carnaval?

ANGELA MARIA — Não! Somente cantava! [ri]

LIA MACHADO ALVIM — Na época, além das gravações, onde você cantava as músicas de Carnaval?

ANGELA MARIA — No rádio, em clubes do Rio. Aqui em São Paulo eu nunca fiz Carnaval, somente no Rio. Todos aqueles clubes do Rio eu fiz Carnaval. E ganhei alguns carnavais também.

LIA MACHADO ALVIM — Aqui, no Carnaval de São Paulo, você foi homenageada, né?

ANGELA MARIA — Isso. Fui homenageada pela escola. A música que eles fizeram, com os temas das minhas músicas, com as letras dos meus sucessos, bom, eu coloquei a minha vida na avenida, e eles ganharam o Carnaval com isso. Com música, com enredo, com tudo.

MAX ELUARD — E como a música entrou na sua vida, como você começou a cantar?

ANGELA MARIA — Eu comecei a cantar na igreja. Na igreja eu era convidada para cantar em todas as festas que tinham. Eu ouvia muitos programas de rádio na época, porque não tinha televisão. Programa de Marlene, Emilinha, Dalva, Dircinha, Linda Batista, essas estrelas todas da época em programas do Paulo Gracindo e do César Alencar. Então eu ficava com aquilo na igreja, olha que pecado! [risos] Eu ficava na igreja pensando lá fora. Eu queria estar na rádio cantando e recebendo aqueles aplausos daquele público. Na igreja não podia aplaudir.

MAX ELUARD — Isso com qual idade?

ANGELA MARIA — Tinha uns 14 anos, mas eu estava louca para cantar na rádio, mas eu era muito vigiada. A família toda — meu pai, minha mãe, meus irmãos — ia para a igreja. E lá tinham as salas para jovens, para crianças, para a adultos. E lá tinham as salas para jovens, para crianças, pra adultos, pra rapazes e tal, e aquilo era o dia inteiro. Aí eu combinei com uma coleguinha: “Vamos à Rádio Nacional assistir a um programa de calouros?”. Ela disse assim: “Vamos! Mas como?”. Eu disse: “A gente finge que entra na igreja e sai pelos fundos e vamos para a rádio!”. Pegamos o bonde naquele dia e fomos para à Rádio Nacional. A família toda na igreja, orando, cantando, e a gente no mundo, perdida. Aí fomos à Rádio Nacional. Chegamos lá. Perguntei: “Como eu faço para cantar nesse programa ‘Hora do Pato’?”. “É só se inscrever.” “Tá bom, então quero me inscrever.” E me inscrevi na Hora do Pato. “Mas o que você vai cantar?” “Eu vou cantar ‘Estrellita’, de Manuel Ponce.” “O quê?! Você canta isso?” “Eu canto!”. O Amilton Farinha era um pianista cego. “Amilton, ensaia com essa menina aí ‘Estrellita’, de Manuel Ponce.” Ele deu a introdução e eu comecei a cantar. Aí ele parou de tocar e todo mundo ficou olhando pra mim. Eu era uma coisinha, ninguém dava um tostão pra mim, muito menos que eu cantasse. “Começa novamente.” “Por quê? Eu cantei errado?” “Não, não, canta de novo, queremos ouvir!” Aí deu a introdução e comecei a cantar. “Você vai cantar amanhã!” Domingo era o dia do programa. Eu digo: “E agora? Como vou fazer para vir cantar?”. O programa começava ao meio-dia, justamente às 9h todo mundo saía para a igreja. “Acho que vou fazer isso de novo, vou fugir.” E combinei com a minha colega, a Marlene. Ela disse: “Vamos embora!”, ela também gostou. E no domingo, quando todo mundo foi para a igreja, quando todo mundo entrou nas salas, nós demos uma volta e saíamos correndo. Tomamos o bonde e fomos lá pra Rádio Nacional. Aí o Jorge Cury, que era o dono do programa, me anunciou. Primeiro cantou um pessoal, levou o pato, “qua-qua-qua”, quando o pessoal cantava mal, o pato entrava, aí já fiquei nervosa. “Será que o pato vai cantar em cima de mim?” E o pessoal me acalmando, “Vai dar tudo certo! Você vai ganhar!”. O prêmio estava acumulado. Entrei para cantar “Estrellita”, de Manuel Ponce. Quando terminei de cantar, foi uma tremenda ovação. Um negócio fora de série. Nunca tinham pedido bis no programa “Hora do Pato” pra calouros. Aí eu tive que bisar. Terminou. Tive de ficar esperando se eu teria ganho ou não. Ganhei o primeiro lugar e me chamaram novamente para eu ir com uma outra música. Aí eu ganhei aquele dinheiro, mas era muito, porque estava acumulado. [risos] “O que eu vou fazer com esse dinheiro quando chegar em casa?” Deu tempo de voltar, entrar na igreja e ficar esperando até terminar. Eu estava nervossíssima. E a minha mãe: “Como é, foi bem na hora dominicial, como se saiu?”. “Foi lindo, maravilhoso!” Aí eu comecei a fugir da escola para ir para à Rádio. Eu estudava à noite. Eu fugia da escola para ir para as rádios e cantar nos programas de calouros. Ganhei em todos os programas de calouros. Todos! Só que o dinheiro eu não podia apresentar. E eu estava juntando aquele dinheirinho. Estava ficando um dinheirão! [risos]

Com o sucesso e viagens ao exterior, Angela compra uma casa para os pais Albertino e Julita. Foto: reprodução

RICARDO TACIOLI — Onde você guardava esse dinheiro?

ANGELA MARIA — Em uma caixa de sapato debaixo da cama.

LIA MACHADO ALVIM — Como era o ambiente na rádio? Hoje, rádio é um estúdio, somente. Como era esse primeiro palco que você entrou para cantar, como ele era?

ANGELA MARIA — O pessoal era maravilhoso, muito simpático, ajudava-se, entende, principalmente quando se tratava de uma pessoa humilde, que não sabia de nada, que estava fora de tudo, então eles ensinavam, acalmavam, davam conselho. Era muito bom!

LIA MACHADO ALVIM — Tinha público?

ANGELA MARIA — Tinha.

Antes e depois — O compositor, radialista e apresentador Ary Barroso com seu temido gongo e ao lado de Angela Maria no tricampeonato estadual do Flamengo. Fotos: reprodução

MAX ELUARD — E como foi o momento em que você revelou para a sua família que você estava cantando, que você tinha juntado aquele dinheiro…?

ANGELA MARIA — Não, quem descobriu foi a minha mãe, porque ela gostava muito de ouvir o programa de calouros do Ary Barroso. E eu fui ao programa do Ary Barroso cantar essa mesma música, porque essa música me deu sorte. Em todos os programas em que eu ia cantar, eu ganhava. Era uma música difícil para cantar. E no Ary Barroso, que era o pior programa que tinha para calouro, porque ele não perdoava ninguém, ele era demais. A gente estava cantando e ele botava o ouvido dele quase na boca da gente pra ver se estava pronunciando bem as palavras. E a pessoa ficava nervosa e acabava levando um gongo. “Bow!”, aquele gongo. E como eu já sabia dos macetes, digo “Não vou me entregar, eu não vou ficar nervosa. Deixa ele botar o ouvido na minha boca, mas eu vou cantar até o fim!”. E quando ele me anunciou, já tirou um sarro da minha cara: “Você canta?”. “Claro que eu canto! Por isso que estou aqui!” “Eu não estou acreditando muito, não! Você vai cantar essa música?” “Vou cantar essa música!” “Tá bom!”. Aí o pianista deu a introdução e comecei a cantar. Me deu mais força. E ele foi chegando pra perto de mim, só que ele não fez o que fazia com os outros cantores, de botar o ouvido perto da boca, ele ficou perto de mim me olhando. E eu cantando. Quando terminei de cantar que o auditório levantou e começou a aplaudir, pedindo bis, bis, ele também aplaudiu. E pela primeira vez. “Eu não botava um pingo de fé em você. Você não tem jeito nenhum de uma grande cantora. Você não tem nada de cantora!”. Falou assim, porque era um estúpido, um grosso. “Mas eu sou obrigado a dar a mão à palmatória: você é uma grande cantora! Você será futuramente a maior cantora do Brasil!”. O Ary Barroso falou isso. “Vá, menina, vá estudar, que você será a maior cantora do Brasil. E apareça mais vezes em meu programa, porque em meu programa eu quero ouvir cantoras como você.

MAX ELUARD — E isso tudo com a sua mãe ouvindo (o programa) em casa?

ANGELA MARIA — A minha mãe ouvindo em casa. Só que eu não dei o nome (correto), no Ary Barroso eu dei um outro nome. No Ary Barroso eu dei o nome de Marina Cunha. Mas sou tão inteligente que o meu sobrenome é Cunha. [risos] Eu dei Marina Cunha. Quando eu cheguei em casa, a minha mãe disse: “Muito bem!”. “Muito bem o quê?” “Acabei de ouvir. Você cantou no programa do Ary Barroso, né? “ “Eu?! Não, mãe, eu estava na escola!” “Que escola? Eu mandei o seu primo na escola e você nem apareceu lá. Você não tem aparecido na escola! Onde você tem andado?”Aí o couro comeu, o negócio foi feio para o meu lado.

LIA MACHADO ALVIM — Você mostrou o dinheiro?

ANGELA MARIA — Aí eu tive de mostrar o dinheiro. Pagaram-se todas as contas do armazém, do açougue, da quitanda, o dinheiro foi pra tudo e ainda sobrou. [risos]

ALEXANDRE PAVAN — O Ary disse que você deveria estudar porque seria a maior cantora do país.

ANGELA MARIA — Porque ele pensou que eu você seguir o lírico, porque eu cantava o clássico, mas eu não. Eu ia em outro programa de calouro da Rádio Nacional e o apresentador, que vou me lembrar do nome, dizia que eu não devia cantar clássico. “Você é brejeira, você é bem brasileira, você tem de cantar música brasileira, samba.” Aí eu fui ouvir um disco da Dalva. Aprendi “Olhos verdes”. E ele disse: “Quando você aprender bem a música, você venha aqui no meu programa e você vai ver, fará sucesso, porque o seu tipo é bem brejeiro, é mais para a música brasileira”. Eu decorei a música, ensaiei e à noite eu fiz o programa dele. Não me lembro do nome dele. Casado com uma atriz, a Eliana, que já morreu também.

DANIEL D’ANGELO — Renato Murce?

ANGELA MARIA — Renato Murce! Foi ele que me aconselhou a não cantar mais clássico. E eu cantei “Olhos verdes” e ganhei. [n.e. O radialista carioca Renato Floriano Murce (1900–1987), criador e apresentador do programa de calouros Papel carbono. Foi casado com a atriz Eliana Macedo (1926–1990)]

ALEXANDRE PAVAN — Angela, você cantava o clássico pelo seu gosto pessoal…

ANGELA MARIA — Eu cantava porque eu gostava, porque a minha irmã estudava o clássico e ela cantava música clássica, cantava na igreja. Antigamente na igreja tinha muito disso, de cantar aqueles hinos, com voz empostada. Então, eu cantava muito clássico.

RICARDO TACIOLI — Você chegou a gravar o repertório dessa época?

ANGELA MARIA — Não, não, não. Depois de muitos anos, a pedido de um padre que eu esqueci o nome, que já morreu, eu gravei essas quatro “Ave-Marias”. Não foi nem para o Brasil, foi para a Espanha. Depois não gravei mais nada que tivesse a ver com o clássico, só música brasileira mesmo. [n.e. A pedido de Dom Helder Câmara, Angela Maria gravou com Os Canarinhos de Petrópolis, sob regência do Professor Antônio Silva, um EP de 45 rpm com as “Ave-Marias” de Bonaventura Somma, Dunshee de Abranches, Franz Schubert e Charles Gounod]

RICARDO TACIOLI — Angela, o que dessa época em que você participava dos programas de calouro, o que era ser artista?

ANGELA MARIA — Ser artista é ser famosa, ser conhecida, ser falada, ser comentada, ser querida, ser amada. Isso é ser artista.

RICARDO TACIOLI — E ser mulher artista naquela época?

ANGELA MARIA — (silêncio)

RICARDO TACIOLI — Havia preconceito na família…?

ANGELA MARIA — Na minha família, sim. A minha família tinha muito preconceito, tanto que eu tive que me afastar dela por causa disso. Eu queria ser artista e a minha família não aceitava de jeito nenhum. Porque homem não prestava, mulher também não prestava. Eles não queriam que eu fosse uma artista. E eu tive de sair da minha família. Depois eles aceitaram, depois viram que não era nada daquilo que eles pensavam, que era um preconceito idiota, preconceito besta… Aí aceitaram.

MAX ELUARD — Mas demorou muito?

ANGELA MARIA — (com voz baixa) Demorou um pouco, demorou um pouco.

LIA MACHADO ALVIM — Como você, sozinha e sem o apoio da família, escolhia o figurino, a roupa que você ia usar, porque isso era muito importante, não?

ANGELA MARIA — Imediatamente, muitas pessoas maravilhosas, como o Dener e o Clodovil, que logo se acercaram de mim. Não pensa que eles me cobravam, não me cobravam nada. Faziam tudo de graça pra mim.

LIA MACHADO ALVIM — Mas a escolha era sua? Porque havia um estilo. Olhando os discos, você não é uma a cada trabalho. Você tem um estilo que se mantém.

ANGELA MARIA — Inclusive o cabelo da época eu cortei, que depois a Elis imitou, que era aquele bem curtinho. Aquilo lá ela tirou de Angela! [ri] Roupas também, tudo o que eu inventava.

LIA MACHADO ALVIM — Uma vez, conversando com uma outra cantora que morou com a Dolores Duran, a Julie Joy, não sei se você a conheceu na época…

ANGELA MARIA — A Julie Joy? Conheci, maravilhosa. [n.e. A cantora, atriz e apresentadora Beatriz da Silva Araújo (1930–2011) teve sua carreira entre os anos 1950 e 1960 e foi a última Rainha do Rádio, eleita em 1958. Foi casada com João Roberto Kelly, pianista e compositor de sucessos carnavalescos como “Mulata yê yê yê” e “Cabeleira do Zezé”]

LIA MACHADO ALVIM — Ela me contou que, como vocês se apresentavam toda a noite, ora num clube, ora em outro, de vez em quando trocavam de vestido umas com as outras, e com algum detalhe mudavam (o vestido) para não parecer o mesmo. Acontecia tudo isso mesmo?

ANGELA MARIA — Comigo, não. Pode ser que elas fizessem isso, comigo, não! Eu tinha a minha modista que trabalhava com o Dener. O Dener era uma criança ainda, tinha 14 anos. E ele fazia os desenhos das minhas roupas, entregava para a Ernestina, e ela confeccionava. E depois tinha a Ruth Silveira que era uma mulher da sociedade que viajava muito para Paris e ela arrematava aqueles restos de desfiles que ninguém comprava, mas que era chique, e trazia para o Brasil. [ri] “Angela, trouxe um monte. Venha ver!” Eu ia lá e escolhia algumas roupas que ela trazia de lá desses grandes costureiros de Paris. Era assim.

LIA MACHADO ALVIM — Era muito mais chique que hoje, né?

ANGELA MARIA — Ah, muito, muito, muito melhor mesmo. Antigamente tudo era melhor. O rádio era melhor, as pessoas de rádio eram maravilhosas também. Todos já foram embora! Não existia ciúme, inveja, nada disso. Cada um fazia sucesso e todos adoravam, todos achavam maravilhoso, todos ajudavam. Se você estava começando a sua carreira, tinha um monte de colega em volta ajudando para você subir, pra você fazer sucesso, não puxando você pra baixo. Os compositores oferecendo música linda e maravilhosa pra você gravar, pra você fazer sucesso… Era assim! Era um ambiente maravilhoso o ambiente de rádio. Era muito bom!

RICARDO TACIOLI — Isso foi até quando, Angela?

ANGELA MARIA — Até os anos 60. Sessenta e sete eu vim embora pra cá e não voltei mais para o Rio, fiquei morando aqui.

RICARDO TACIOLI — Voltava para o Rio somente a trabalho?

ANGELA MARIA — Só a trabalho.

RICARDO TACIOLI — E hoje sua relação com o Rio de Janeiro como é?

ANGELA MARIA — Continua igual. É só anunciar Angela Maria no teatro que esgota tudo.

RICARDO TACIOLI — Mas como é a sua relação com quando você vai pra lá…

ANGELA MARIA — Com a minha família, com os meus amigos, com os meus fãs, tudo continua igual.

RICARDO TACIOLI — Somente a residência que mudou.

ANGELA MARIA — Só a residência. O coração está dividido.

ALEXANDRE PAVAN — Angela, depois dos programas de calouro você foi cantar no Dancing Avenida e de lá conseguiu um contrato tanto com gravadora quanto com a rádio, né? E foi uma ascensão muito rápida, porque era comecinho dos anos 1950…

ANGELA MARIA — Não! O meu contrato com o Dancing Avenida foi assim: eu fui rejeitada por todos os programas de calouro porque eu ganhava todos. Os calouros estavam se rebelando, estavam achando ruim, não queriam participar mais. Quando eles me viam, eles diziam “Ela vai ganhar! Vamos embora!”. E ninguém queria mais cantar em programa de calouro. Aí o pessoal — os diretores, produtores — chegaram pra mim e disseram “Angela, infelizmente você não vai poder participar mais, porque os calouros não querem, se você estiver, eles não querem cantar”. Aí um produtor da Rádio Nacional falou pra mim: “Angela, você é ótima cantora, está tudo bem, mas a gente não pode mais aceitar você aqui. Faz o seguinte: tem night clubs na cidade que precisam de cantoras. Por que você não vai lá? Você já está pronta. É só chegar e cantar.” “Mas é difícil, eu não conheço ninguém.” “Não precisa, chega lá, bata na porta, pergunta (se precisa de cantora), porque você não vai poder cantar em programa de calouro mais. Aí saí e bati lá no Avenida. O rapaz que me atendeu era diretor da casa. “Vocês não estão precisando de cantora aqui?” Ele me olhou de baixo para cima. “E você canta?” “Claro que canto! Eu sou Angela Maria!” Eu já pensava que era famosa por causa dos programas de calouros. “Mas quem é Angela Maria?” “Poxa, eu canto aí nos programas da Rádio Nacional, Tupi, da Rádio Mundial. Já ganhei todos os programas.” “Mas você canta mesmo?!” “Canto.” “Vamos fazer o seguinte: quando for às nove horas você passa aqui e vai ensaiar com o maestro”, que era a Orquestra dos Copacabanas. “Vai ensaiar com ele. Se der certo, se as moças te aplaudirem, se o público gostar de você, aí você fica cantando aqui em casa.” Se eu estivesse bem vestidinha…

RICARDO TACIOLI — Como você estava?

ANGELA MARIA — Adivinha! De chinelo, uma roupinha muito surradinha, era muito pobre, duas trancinhas. E a minha sobrancelha juntava assim. Você imagina como eu era! E ele disse: “Do jeito que você está ninguém vai querer te ver cantar.” “Mas por que nos outros lugares todo mundo me aplaude, gosta da minha voz?” “Isso é lá na rádio, aqui é outro lugar, é diferente!” Cheguei (em casa) e falei para minha irmã: “Será que você consegue arrumar uma roupa pra mim?” “Não dá!” “O que é que vou fazer?” Ela me emprestou um dinheiro, fui a um armarinho e comprei um metro e meio de cetim, aquele cetim verde, e ela cortou e fez uma espécie de camisola. Um negócio horrível! [risos]

RICARDO TACIOLI — Não ficou bom?!

ANGELA MARIA — Não ficou bom, mas tudo bem, cheguei lá à noite. E ele me disse: “Mas você veio igual como você estava à tarde!” [risos] “Mas a roupa está aqui num saquinho.” Foi chegando uma senhora de uns 40 anos, Helena de Maio, nunca mais esqueço o nome dessa mulher, ela foi a minha salvação. Ela chegou e disse: “O que está acontecendo?”. “Essa menina quer cantar, mas não dá.” “Ah, coitadinha!” “Ela tem que mudar tudo nela, tudo nela tem que ser mudado!” “Me dá ela aqui. Vamos lá pra camarim.” E me levou para dentro. Chegou lá, olhei o camarim da mulher e era tudo roupa, fiquei alucinada. “Vou escolher uma roupa pra você.” Eu pesava 49 quilos; ela devia pesar uns 70, era forte e alta. Ela foi lá e pegou — era a moda do rabo de peixe — um vestido preto, me enrolou no vestido, que era enorme, ajustou todo no meu corpo e disse: “Agora vem cá”. Arrumou o cabelo, pegou umas bananas, que antigamente era umas bananas que se usavam, tipo Carmen Miranda, suspendeu meus cabelos, fez aquela banana, fez a sobrancelha, bom, me transformou, botou aquelas bijuterias dela bonitas, aquele brilho, pulseira, botou um sapato dela — eu calçava 33, ela calçava 37 ou 38, botou algodão… Daqui a pouco o Ribeiro entra, ele era o gerente, e diz: “Cadê a moça, a menina, que você disse que ia transformá-la?”. “E o que você está fazendo aqui?”, disse pra mim. “Ué, o senhor não mandou…” “Vá para o salão!” Ela estava pensando que eu era uma bailarina. “Não, eu sou a Angela!” “Ah, é você! Nossa, mudou demais! Vá logo, vá logo!” Eu fui tropeçando, porque o sapato era grande, não sabia andar de sapato de salto alto, a Helena me ajudou até chegar ao palco, subi e dei o tom para o maestro e comecei a cantar. Eu estava cantando somente o repertório da Dalva, que era o maior sucesso da época. Comecei a cantar e o público parou de dançar. Todo mundo parado me ouvindo cantar. Quando acabei de cantar, todo mundo aplaudiu. Aí o Ribeiro subiu e me disse: “Você acabou de me dar um grande prejuízo”. “Eu?!” “É! Porque enquanto você cantava, elas pararam de dançar e deixaram de furar o cartão”. E aquele cartão era 50 centavos, né? “Você me deu um grande prejuízo. Se você continuar cantando assim, e elas continuarem paradas para ouvir você, eu vou mandar você embora!” [risos] Puxa vida! E a mulherada, “Não, não! Deixa ela cantar que nós vamos dançar!”. Cantei a noite toda e a pista lotada, todo mundo dançando enquanto eu cantava. Aí, quando eu cantava, enchia, e quando entrava o outro cantava, a pista esvaziava. Aí eu era obrigada a cantar a noite toda. Conclusão: foi ali que começou o meu grande sucesso literalmente, porque foi numa noite dessa que entrou o Chico Alves, que estava trabalhando música de Carnaval, e eu estava cantando uma música dele. Ele pegou o microfone e fez um elogio à minha pessoa. Ele falou assim: “Olha, vocês estão vendo aqui essa baixinha? Ela será a maior cantora do Brasil!”. Sei lá, ele falou assim, desceu e foi embora. Logo em seguida, uma semana depois, apareceram o Lúcio Alves, o Jayme Moreira Filho, que era diretor de broadcasting da Mayrink Veiga, o Cyro Monteiro, todos foram chamados pra assistir Angela Maria. O pessoal da Cinelândia que ia lá me assistir, chegava na Cinelândia e espalhava. “Tem uma cantora assim e assado no Dancing que canta maravilhosamente, parece que está ouvindo a Dalva de Oliveira!” Aí o pessoal ia correndo pra lá me ouvir.

Rainha do Rádio em 1951 e apelidada de “O Rouxinol do Brasil”, a paulista de Rio Claro Dalva de Oliveira (1917–1972) influenciou diversas cantoras nos anos 1940 e 1950, como Angela Maria e Alaíde Costa. Foto: reprodução

RICARDO TACIOLI — Eles não dançavam, ficavam assistindo…

ANGELA MARIA — Esses convidados iam lá pra me ouvir. O pessoal do disco, o pessoal de rádio, iam pra me ouvir.

RICARDO TACIOLI — No Dancing o repertório era somente o da Dalva?

ANGELA MARIA — Eu cantava mais músicas da Dalva. Na época a Dalva era um estouro, era um sucesso absoluto no Brasil inteiro. E o pessoal só queria ouvir músicas da Dalva. Então, como não podia ter a Dalva, tinha eu, que cantava igual à ela.

LIA MACHADO ALVIM — Essas cantoras nessa época eram todas mais velhas que você — Dalva, Nora Ney, Linda Batista.

ANGELA MARIA — Mais velhas? Eram, eu era brotinho, mocinha.

LIA MACHADO ALVIM — Como você foi recebida por elas?

ANGELA MARIA — Com muito carinho, não pela Dalva, mas principalmente pela Nora Ney. Ela foi muito minha amiga, muito, muito, muito. A Linda, Dircinha… A Dalva era cantora da Tupi.

LIA MACHADO ALVIM — A Dalva se incomodou…

ANGELA MARIA — Não. A Dalva era mais afastada.

LIA MACHADO ALVIM — Alguma vez você chegou a conversar com o Herivelto Martins sobre o repertório da Dalva…?

ANGELA MARIA — Não, ele adorava, ele achava maravilhoso, ele gostava. Chegou até a me dar músicas. Me deu “Mamãe”, me deu um bolero (“Recusa”), enfim, me deu muitas músicas. Ele e David Nasser, que era parceiro dele e um grande jornalista.

RICARDO TACIOLI — Você contato com a Aracy de Almeida nesse período dos anos 50?

ANGELA MARIA — Mais aqui no Programa do Silvio (Santos).

RICARDO TACIOLI — Em São Paulo.

ANGELA MARIA — Isso, no Programa no Silvio. Gozado, a minha mãe disse quando eu tinha uns três anos de idade que eu cantava música da Aracy. A música era (canta): “Samba no morro / Não é samba / É batucada / É batucada, é batucada, oi”. A minha mãe disse que eu cantava isso. Quero dizer, eu já tinha isso na cabeça, de querer ser cantora, eu não seria da igreja. [risos]

RICARDO TACIOLI — Mas você tinha uma outra expectativa profissional fora o de ser cantora?

ANGELA MARIA — Quando mocinha? Eu queria ser médica, eu queria ser…

THIAGO MARQUES LUIZ — Pediatra!

ANGELA MARIA — Eu queria ser pediatra, mas depois eu vi que não me dava bem e que o meu negócio era cantar.

ALEXANDRE PAVAN — Depois que você conseguiu o contrato com a rádio e com a gravadora, você sobe muito rápido, em três anos já ganha o concurso de Rainha do Rádio. Quando você descobre que “Cheguei lá! Conquistei o maior título de uma cantora no país!”? Como foi esse momento?

ANGELA MARIA — Eu não pensei assim, não. Eu entrei no concurso de rainha graças ao incentivo dos fãs. Eu tinha um programa na rádio toda quarta-feira. E lotava, enchia pra caramba. Daí começou esse negócio de concurso e eles começaram a me incentivar, a pedir para eu entrar. Eu não queria entrar, porque não queria concorrer com Emilinha, que era o maior cartaz do Brasil, muito popular. Eu não queria. “Você tem que ser rainha!” Aí eu entrei e não ganhei. Foi em 53. Fui princesa. Depois da Emilinha, a mais votada foi eu. Ela ganhou e fui a primeira princesa. Agora eu vou entrar em 54. Em 54 entraram outras candidatas bem fraquinhas e eu disse “Nessa eu vou!”, porque a mais forte em matéria de popularidade entre essas sou eu. “Eu vou ganhar!” Eu entrei e consegui ganhar esse concurso de Rainha do Rádio, só que em tudo existe aquela pilantragem, né? E eu pensei que, se eu vendesse votos, como eu fiz na Cinelândia, botava meu banquinho e começava a vender, fosse ganhar, mas uma pessoa do Ministério do Trabalho, com o Jango era meu fã, ele e a mulher dele iam quase toda a noite me assistir lá na boate onde eu fazia um show com Dorival Caymmi. Ele dizia para o que eu precisasse para eu procurá-lo no Ministério. “Tá na hora!” Ele tinha feito a mesma coisa com a Marlene, e a Marlene ganhou o concurso de Rainha do Rádio através dele, da Antarctica, do Guaraná (Antarctica). Ele era amigo do presidente da Antarctica. Aí eu fui lá. Marquei uma audiência com ele e fui ao Ministério. Ele me recebeu e eu falei: “A minha situação é essa, essa e essa. Eu preciso ganhar!”. Tinha a Vera Lúcia, que estava apoiada pelo pessoal da Casa de Portugal, e ela ia ganhar. Os portugueses todos iam votar nela. Ele falou: “Pode deixar que você vai ganhar isso!”. “Ah, vou? Mas eu quero ter certeza.” “Você vai ganhar!”E na minha frente ele ligou para São Paulo, para a Antarctica, e falou com esse amigo dele. “Olha, eu tenho uma candidata e ela vai ter de ganhar esse concurso. É a Angela Maria.” Aí o Paulo disse: “Tudo certo!”. Fez um cheque em branco preenchendo os votos que precisasse. E eu ganhei com dois milhões. Esse dinheiro era para construir um hospital dos radialistas. E foi construído. E o andar do hospital é meu, está lá, “Angela Maria” e os dois milhões de votos. Cada voto era um real, era um…

MAX ELUARD — Um dinheiro da época.

ANGELA MARIA — Não me lembro mais da moeda. Vamos dizer que era um real. E eu consegui dois milhões, mas quem me deu um milhão e meio foi a Antarctica.

Em 1954 chega a vez de Abelim da Cunha, a Angela Maria, ser coroada Rainha do Rádio. Foto: Acervo Angela Maria

RICARDO TACIOLI — Angela, o que representava para a carreira ser uma Rainha do Rádio naquele período? O que mudava na vida?

ANGELA MARIA — Ah, muita coisa, muita coisa. Era muito importante era Rainha do Rádio. O tratamento era outro, era bem diferente. E, graças a Deus, eu contribui bastante para o hospital. Eu fui a única rainha que deu essa quantidade de dinheiro e votos para o hospital. Todas contribuíram bastante, mas eu fui o máximo, porque além do dinheiro da Antarctica, teve o dinheiro das pessoas que votaram.

RICARDO TACIOLI — Nesse ano (2014) faz 60 anos do reinado de Rainha do Rádio. Que balanço você faz? É difícil fazer um balanço de 60 anos, mas… [risos]

ANGELA MARIA — Ah, a gente tem aquelas caídas, aquelas subidas, aquelas mais ou menos, aquelas altíssimas, mas a gente vai levando. Eu sei que não parei. Nunca quis parar. Um dia eu vou parar, é claro, vou para o mesmo lugar que todos foram, mas enquanto eu estiver aqui, vou estar de pé, se Deus quiser.

ALEXANDRE PAVAN — Angela, muita gente diz que o país não tem memória. Muitos artistas não são reconhecidos pelo seu trabalho. Você se acha uma artista brasileira reconhecida?

ANGELA MARIA — Eu me sinto (reconhecida). Tem que ter renovações, né? Eu não posso querer ser sempre a Angela Maria dos 14, 16 anos. Tem outros que vem, que vão aparecendo, mas eu acho legal que alguns não conseguiram se manter, foram derrubados pelo sucesso de outros, pelos acontecimentos de outros, mas eu não, eu continuo aí, eu estou no meio. Tenho certeza que tenho uma força espiritual muito grande, e acho que é com isso que tenho me mantido aqui, firme. Pode vir o sucesso que for, o ritmo que for, as coisas estranhas de fora que vem, mas isso não consegue e não vai me derrubar. Eu vou morrer famosa!

RICARDO TACIOLI — Angela, e o reconhecimento da crítica?

ANGELA MARIA — Eu não tenho nada contra a crítica, ela sempre foi maravilhosa comigo, até hoje. Tem uns “senões” aqui, não posso satisfazer a gregos e troianos, mas no geral sempre foi maravilhosa comigo. Alguns até me aconselham sobre certas coisas que eu não estou fazendo bem, me aconselham “Não faz assim, faz assado”. Quero dizer, é para o meu bem.

RICARDO TACIOLI — Você se lembra de algum conselho?

ANGELA MARIA — Não! [risos] Eu sei que já recebi.

RICARDO TACIOLI — Era isso que ia perguntar, se algum conselho desse já tinha alterado um pouco a sua trajetória artística.

ANGELA MARIA — Não! Conselho de boi, né, então não alterou nada. Sempre tive uma boa relação com a imprensa. Eu sempre tratei muito bem a imprensa, sempre a recebi muito bem. Eu nunca deixei de falar por menor que fosse o jornalista (veículo), vai lá na minha casa, faz a entrevista, se não puder ser na minha casa, vou na gravadora, onde for. Eu sempre fui muito legal com a imprensa. Vocês me chamaram pra vir aqui. Eu poderia dar uma desculpa. Estou gripada — na realidade estou mesmo. Mas eu poderia dizer “Não vou, estou cansada, não tenho mais idade pra isso”. Não, eu vou. E, inclusive, tenho um marido maravilhoso que penso como eu, “Não, Angela, você tem que ir, você tem que fazer, você tem que acontecer!”. Ele me aconselha muito em relação a isso.

RICARDO TACIOLI — Angela, preocupado com a sua gripe, esse ventinho te atrapalha?

ANGELA MARIA — Não, está tudo bem.

RICARDO TACIOLI — Senão, a gente abre (a janela de lá) e fecha a daqui.

LIA MACHADO ALVIM — A sua postura é uma prova que você é aberta desde sempre. E você mostra também que não tem preconceito na escolha de seu repertório.

ANGELA MARIA — Não!

LIA MACHADO ALVIM — Se a música cair bem, é ela que você grava.

ANGELA MARIA — Exatamente!

Capa do LP coletânea de 1967 com obras do compositor Adelino Moreira e, abaixo, Angela Maria ao lado de Elizeth Cardoso. Fotos: reprodução/Acervo Angela Maria

LIA MACHADO ALVIM — Você sofreu por isso em algum momento?

ANGELA MARIA — Por isso aí eu sofri um pouquinho. Por exemplo: eu gravava muito Adelino Moreira. E Adelino Moreira sempre foi muito combatido. Mas ele só me deu sucessos. Ele só deu sucessos para o Nelson Gonçalves. Os grandes sucessos do Nelson Gonçalves são graças a Adelino Moreira. Os grandes sucessos de Angela Maria, graças a Adelino Moreira, com “Garota solitária”, “Beijo roubado”, “Cinderela”. Ele me deu muitos sucessos. Se ele estivesse vivo, eu ia gravar sempre Adelino Moreira, mas alguns críticos achavam que eu não devia gravá-lo. Eram contra as letras dele, mas eu gravava, o público gostava, o público comprava os discos e saía.

LIA MACHADO ALVIM — Do mesmo jeito que você gravou Tom Jobim, Vinicius…

ANGELA MARIA — Vinicius! Eu gravei todos esses grandes compositores: Ary, Vicente Paiva, Caymmi, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, eu gravei esse povo todo.

RICARDO TACIOLI — Mas o retorno como o que você teve com o Adelino nenhum te deu?

ANGELA MARIA — Como o do Adelino, não.

LIA MACHADO ALVIM — Como era cantar com o Dorival?

ANGELA MARIA — Eu fiz um show com ele. Oito meses. “Coisas e graças da Bahia”. Eu era a noiva dele. Ele saía para pescar e eu ficava na beira da praia esperando a volta dele, cantando. Esse show durou oito meses lá naquela casa de show da Praia Vermelha, no Rio. Ele era maravilhoso como colega, ele me ajudava muito. Ele me ensinou muita coisa de palco, de movimentação, de postura.

LIA MACHADO ALVIM — Casavam as vozes muito bem?

ANGELA MARIA — Eu e a do Caymmi?

LIA MACHADO ALVIM — Sim.

ANGELA MARIA — Eu nunca cantei com ele. No show eu cantava pra ele. Depois terminava a minha parte, ele entrava e fazia a parte dele tocando violão, cantando.

RICARDO TACIOLI — O que você cantava eram canções do Caymmi?

ANGELA MARIA — Do Caymmi. Depois entrava o Roberto Inglez e eu fazia um show com o Roberto Inglez. Eram duas shows: Caymmi, passava uns 40 minutos, e aí vinha o Roberto Inglez e eu.

RICARDO TACIOLI — Tinha que ter pulmão, né?

ANGELA MARIA — Ô! Eu era menina, 17, 18 anos, aí dava tudo certo.

RICARDO TACIOLI — Eu vi em uma sua entrevista antiga que dizia sobre um encontro com a Elizeth Cardoso, que ela havia ido à sua casa e dito porque você fazia tanto sucesso e ela, que gravava os artistas que ela gravava, e não fazia (o sucesso). Você via uma diferença clara de repertórios e de estilos?

ANGELA MARIA — Não. Eu só falei pra ela: “Vá até o povo! Você tem que cantar música para o povo! Essas músicas que você está cantando são bonitas, são maravilhosas, também gosto, também gravo, mas você tem de cantar músicas que o povo entenda, que o povo cante com você. Você tem que ir até ele. Aí você vai ser agarrada na rua, vai ser beijada”. “Assim, não!” Não era o gênio dela. [ri]

RICARDO TACIOLI — Angela, você falou da Dalva, que era seu grande ídolo. Na juventude, além dela, você tinha outros ídolos dentro e fora da música? E hoje?

ANGELA MARIA — A Nora Ney e a Dalva eram as cantoras que eu mais gostava.

RICARDO TACIOLI — E fora da música, quem você admirava?

ANGELA MARIA — Fora da música?

RICARDO TACIOLI — No cinema, na literatura, no teatro?

ANGELA MARIA — A Bibi (Ferreira). Eu também gostava muito do Goulart.

RICARDO TACIOLI — Do Paulo Goulart.

ANGELA MARIA — Paulo Goulart. Gostava muito. Cheguei até a trabalhar com o filho dele num show onde ele dançava com a esposa dele e, de vez em quando, o Goulart estava lá com a Nicete. Eu era fã dele, gostava muito dele.

RICARDO TACIOLI — E como essas outras linguagens artísticas, o cinema, o teatro, influenciaram a sua música? Elas chegaram a influenciar a sua música?

ANGELA MARIA — Eu fiz muito cinema. Fiz 23 filmes cantando os meus sucessos.

RICARDO TACIOLI — Mas o cinema na sua música também teve?

ANGELA MARIA — Não.

LIA MACHADO ALVIM — No cinema você sempre foi Angela Maria ou teve algum personagem?

ANGELA MARIA — Sempre Angela Maria.

RICARDO TACIOLI — E como você avalia a sua atuação no cinema?

ANGELA MARIA — Horrível! [risos]

ALEXANDRE PAVAN — Por que?

ANGELA MARIA — Eu não gosto de cinema, de fazer cinema. Eu gosto muito de cinema, mas trabalhar no cinema, não. Eu fiz um filme no México em que eu era a estrela, mas nunca mais na minha vida eu quero saber de fazer cinema. Acho que vocês conhecem o filme, né?

RICARDO TACIOLI — Esse de Brasília?

ANGELA MARIA — É, Rumo a Brasília. Foi o único que eu fiz com estrela. Os outros todos que fiz foram como participação especial cantando. Como estrela foi somente esse. [n.e. Referência ao longa-metragem O caminho da esperança (Rumo a Brasília), lançado em 1960 e dirigido por Mauricio de La Serna. Gravado no Brasil e no México, o filme contava com Angela Maria, Tonico Pereira e Antonio Aguilar]

RICARDO TACIOLI — E no cinema, o que você gosta ou gostava de assistir?

ANGELA MARIA — Musical. Gostava muito de Esther Williams, ela nadava, sempre tinha aqueles shows bonitos. Eu gosto muito de musical.

LIA MACHADO ALVIM — Você fez uma turnê para Portugal e ficou um tempão lá. Havia solidão nos intervalos entre um trabalho e outro? Como era a rotina de uma cantora que sai de seu país para cantar em outro?

ANGELA MARIA — A rotina era: tinham os ensaios, eu tinha que ir à televisão, dar entrevistas, eu quase não parava. Para dar entrevistas às vezes tinha que ir até Angola também. Eu tinha show em Angola. Eu tinha show na Espanha. Eu tinha uma vida muito corrida. Não tinha tempo de solidão, não, minha filha. [ri] E jantares e um monte de coisas.

RICARDO TACIOLI — Foi bom esse período em Portugal?

ANGELA MARIA — Foi muito bom. Fiquei dois anos, depois voltei, fiz oito meses, depois voltei e fiz mais quatro meses, aí dei uma parada. Depois, a última vez que fui foi para receber um prêmio de melhor cantora escolhida por eles, pela imprensa, que me escolheu como a melhor cantora estrangeira. E eu tive que ir lá receber o prêmio.

RICARDO TACIOLI — Quando foi, Angela?

ANGELA MARIA — Quando foi, bem?

DANIEL D’ANGELO — 82.

ANGELA MARIA — 82. E agora estão me chamando de novo, né?

DANIEL D’ANGELO — Coimbra.

RICARDO TACIOLI — O que é essa história de Coimbra?

ANGELA MARIA — Agora é você que fala. [ri]

DANIEL D’ANGELO — Show e homenagem.

RICARDO TACIOLI — Em Portugal você chegou a gravar discos, né?

ANGELA MARIA — Eu tinha que gravar uma música de Carnaval e eu não viria ao Brasil para gravar. Então eles mandaram o playback e eu coloquei voz lá. “Sonho de Juvenal”, você conheceu essa música? (canta) “O sonho de Juvenal / É desfilar no Municipal”. [ri] Tive de colocar a voz lá. [n.e. “Juvenal do Municipal”, de Rutinaldo e Milton de Oliveira é a faixa de abertura do álbum Carnaval Copa 66, lançado pela gravadora Copacabana em 1965. O LP de 18 faixas ainda trazia outra gravação de Angela, “Eu vou sambar”, de Anísio Silva. Entre os intérpretes do disco estavam Chacrinha, Gilberto Alves, Costinha, Virgínia Lane, Roberto Audi, Carequinha e Jorge Goulart]

RICARDO TACIOLI — E você absorvia a música desses lugares por onde você viajava?

ANGELA MARIA — Eu gosto muito da música portuguesa, tanto que eu canto música portuguesa. Lá eu fazia muito sucesso cantando música portuguesa. Não era tanto o meu repertório, era mais música portuguesa. Aliás, no meu repertório tem muita música portuguesa. O meu maior sucesso lá era cantando música portuguesa, fados. E eles são maravilhosos, têm um carinho pelo brasileiro fora de série.

RICARDO TACIOLI — Dos artistas de lá tem algum que você se lembra com quem você chegou a ter algum tipo de relacionamento profissional?

ANGELA MARIA — Eu tive mais com a Amália (Rodrigues), que já morreu, infelizmente, e com a Simone, que é uma grande cantora portuguesa.

ALEXANDRE PAVAN — Você ainda tem algum sonho na música não realizado? Ou algum cantor com quem você gostaria de ter gravado e, infelizmente, não deu tempo, ou um compositor que você gostaria de ter gravado…

ANGELA MARIA — Ah, meu filho, você diz cantar com ele? Já cantei com todo mundo, até com o Roberto. Já cantei com todos eles, menos com os novos de agora que estão aparecendo. Mas, fora isso, já cantei com todos os cantores. Com Altemar, com Roberto, com Timóteo, com Cauby. Tem mais, mas eu não me lembro no momento.

RICARDO TACIOLI — João Bosco também.

ANGELA MARIA — Também. [ri] “Miss Suéter”. [ri] [n.e. Angela divide os vocais com João Bosco na composição dele com Aldir Blanc e integrante do álbum Galos de briga, de 1976]

LIA MACHADO ALVIM — Aliás, o repertório do João Bosco cai como uma luva pra você. Não tem muita coisa dele que tem a ver com você?

ANGELA MARIA — “Miss Suéter”. Foi muito engraçado. Ele pediu para eu fazer esse número com ele. Ele começou tocando violão e eu tenho essas loucuras, aí invento as coisas na hora e, de repente, agrada, a pessoa gosta. Ele começou a cantar e quando passou a solar o violão aí eu entrei com aquela voz. Ele falou: “Que legal!”. “Posso fazer isso?!” “Pode fazer, vai ficar lindo!” Aí nos fizemos. Como em “Babalu” também. Foi a mesma coisa. Seria (canta): “Babalu / Babalu”. Só isso e eu achei chato. “Vou entrar com alguma coisa aí por cima” e aí foi, entrei fazendo vocalise. Ficou bonito, ficou ótimo! Tem que inventar!

ALEXANDRE PAVAN — Essas ideias surgem de repente?

ANGELA MARIA — De repente.

Lia Machado Alvim — Com o Disco de ouro você gravou músicas que nunca tinha gravado mas que já estavam por aí tocando há muito tempo. Foi gostoso tomar pra si esse repertório? Você cantou Djavan, Melodia…

ANGELA MARIA — Foi gostoso, foi muito bom.

RICARDO TACIOLI — Angela, olhando para a sua discografia, quais discos ou momentos você percebe que tem voos mais ousados em relação ao seu estilo, àquilo que você sempre gravou?

ANGELA MARIA — Eu tenho gravações que às vezes não acredito que sou eu (cantando). “Mas eu fiz isso?! Impossível! Eu não acredito, meu Deus, como eu tive coragem de fazer isso?!” Coisa bem feita, tão bem feita, tão perfeita que não acredito que fui eu que fiz. “Será que se eu for fazer isso eu faço exatamente igual? Não!”

RICARDO TACIOLI — Você se lembra de alguma?

ANGELA MARIA — Eu me lembro de uma gravação, de um vídeo, um DVD que está lá em casa que o meu fã clube do Facebook mandou pra mim. Escreveram assim: “Você é uma louca. Olha o que você fazia com a voz!”. O Daniel às vezes ouvindo as minhas músicas, as minhas gravações antigas, ele diz que eu era uma doida pela maneira como eu cantava. “Mas que loucura, como se faz isso com a voz?!” Eu também fico boba como eu fazia tudo aquilo. Ainda bem que era bem feito, pior se não fosse. [risos]

RICARDO TACIOLI — Eu ouvi há pouco uma gravação chamada “Estereofonia”.

ANGELA MARIA — Essa é outra loucura, em que eu faço jazz, né?

RICARDO TACIOLI — É, um samba-jazz.

ANGELA MARIA — Doida, completamente.

RICARDO TACIOLI — Mas essas loucuras não te atraiam para fazer um disco assim?

ANGELA MARIA — Na época, sim, mas agora, não. Essa (“Estereofonia”) foi uma das minhas loucuras, a começar pelo nome, né? Muito louca essa gravação. [n.e. “Estereofonia” é uma versão assinada por Hélio Justo para “Stéréophonie”, de Buck Bentley e Eddy Marnay, e gravada no álbum Angela a maior Maria, de 1964]

RICARDO TACIOLI — Temos mais uns cinco minutinhos pra gente encerrar, pra você tomar um refresco. Angela, você falou dos fãs, do perfil no Facebook, como é essa relação com os fãs hoje em dia?

ANGELA MARIA — Agora eu tenho essa relação com os meus fãs que acho maravilhoso porque posso conversar com eles (por meio da Internet); vou uma invenção do Daniel com o Rodrigo, para eu ter mais intimidade, falar mais com os meus fãs, porque eles vão assistir aos meus shows e naquela loucura em que não tem tempo de receber todo mundo, porque são muitos, mas através do Facebook eu tenho oportunidade de conversar com eles, de contar coisas da minha carreira, dizer o que vou fazer, dos meus projetos. Tudo através do Facebook. Eles estão achando maravilhoso. Às vezes um fã está aniversariando e falo com ele através do Facebook. É lindo isso, né? Eu também estou achando maravilhoso isso. Foi uma invenção do Rodrigo e do Daniel. De vez em quando o Rodrigo vai lá em casa. O Rodrigo é o presidente do fã clube. O Daniel é o conselheiro master. [risos]

RICARDO TACIOLI — Conselheiro master?

ANGELA MARIA — Mas o meu fã clube não vai ficar somente nisso, não. Vai ter também uma coisa social, por exemplo, quando tem uma enchente ou coisa parecida e está precisando de alimentos, produtos de limpeza, de roupas, de tudo, o meu fã clube vai ajudar. Serviço social! Pra isso que quero fã clube, não quero fã clube para “Angela Maria é a maior!”, nada disso. Vamos ajudar aqueles que precisam por meio do fã clube. Então é isso que nós estamos fazendo. De repente fazer uma crechezinha também, essas coisas.

MAX ELUARD — Uma última curiosidade: você chegou a estudar canto, a estudar música formalmente?

ANGELA MARIA — Não, nunca, não conheço uma nota. Não, minto, só a de dinheiro. [risos] Nota musical, nenhuma.

MAX ELUARD — Todo esse virtuosismo é só da prática e do feeling.

ANGELA MARIA — Digo que é tudo coisa de Deus.

RICARDO TACIOLI — Angela, e quem carrega hoje sua herança artística, seu estilo? Você se reconhece em alguém?

ANGELA MARIA — Não, acho que ninguém, ninguém, infelizmente, gostaria, mas ninguém.

ALEXANDRE PAVAN — Mesmo em outros estilos de uma geração mais nova, quem você admira, acha que tem talento ou acha interessante?

ANGELA MARIA — Bom, eu gosto Ana Carolina. Ana Carolina é a minha cantora agora, porque ela me lembra um pouco a Elis Regina e um pouco a Maysa, que é uma cantora que admirava muito. Então, eu gosto da Ana Carolina. Ela está meio lá e meio cá.

LIA MACHADO ALVIM — Você gosta de estilo voz e violão?

ANGELA MARIA — Aliás, é um estilo dele (do produtor Thiago Marques Luiz), ele quer fazer um show de voz e violão, né?

THIAGO MARQUES LUIZ — E vamos fazer, já está agendado. É um novo projeto.

ANGELA MARIA — É coisa do Daniel.

THIAGO MARQUES LUIZ — Não é coisa minha, na verdade, é coisa do Daniel.

ANGELA MARIA — Voz e violão, vamos fazer, né? No Rio?

THIAGO MARQUES LUIZ — No Rio e em Araras.

RICARDO TACIOLI — O violão é de quem? Do Ronaldo? [n.e. Atuante desde fins da década de 1960, o violonista, cantor, arranjador e compositor Ronaldo Rayol foi músico-acompanhante de seu irmão, Agnaldo Rayol, e é instrumentista de Cauby Peixoto, Vânia Bastos e Angela Maria]

THIAGO MARQUES LUIZ — É, do Ronaldo.

ANGELA MARIA — É um grande violão, o cara toca pra caramba.

RICARDO TACIOLI — Na década de 50, nesse período, havia várias compositoras-cantoras — a Maysa, Dolores Duran… Você nunca se interessou em compor? Pelo que vi você tem uma música, não é isso?

ANGELA MARIA — Não.

RICARDO TACIOLI — Nenhuma?!

ANGELA MARIA — Não, eu não tenho nenhuma música.

RICARDO TACIOLI — Mas você já pensou em compor?

ANGELA MARIA — Não, também não. Não é a minha praia compor, eu já quero pronto. [ri]

RICARDO TACIOLI — Acho que é isso. Quero em nome do Gafieiras agradecer a sua atenção e disposição em vir até aqui.

ANGELA MARIA — Que é isso, estou a disposição sempre que precisar.

LIA MACHADO ALVIM — Alguma coisa que você gostaria de falar e que a gente não te perguntou?

ANGELA MARIA — Não, não, vocês já me perguntaram tudo, já entraram na minha vida direto. [risos]

RICARDO TACIOLI — Tudo enxerido!

ANGELA MARIA — Não é? [risos] Eu contei tudo! Tudo, não! [ri] Mas contei um bocado de coisa, né?

LIA MACHADO ALVIM — Contou.

THIAGO MARQUES LUIZ — E tem o DVD que saiu no ano passado pelo Canal Brasil, que é o documentário dela.

RICARDO TACIOLI — Da biografia é a primeira?

THIAGO MARQUES LUIZ — É. E faz tempo que o Rodrigo Faour quer escrever, mas só agora que ela… Não é, Daniel?

DANIEL D’ANGELO — Faz um tempo.

RICARDO TACIOLI — Angela, está quase pronta a biografia. Como é esse processo de você mergulhar a fundo na sua vida por meio do biógrafo, é fácil?

ANGELA MARIA — Não é fácil, não.

RICARDO TACIOLI — Porque vai mexer em umas gavetas.

ANGELA MARIA — Não é fácil nem pra ele, nem pra mim. É difícil porque são coisas que a gente faz todo o possível pra esquecer, pra enterrar, coisas muito ruins, muito feias, da infância, da juventude e, de repente, você tem que colocar tudo num livro, tem que lembrar de tudo. Então, realmente, não é fácil.

Capa da biografia Angela Maria — A eterna cantora do Brasil, de 840 páginas, assinada pelo jornalista Rodrigo Faour e lançada em outubro de 2015. Foto: divulgação

RICARDO TACIOLI — Mas para o livro você acha importante ter isso registrado?

ANGELA MARIA — É muito importante, é importante. (silencia)

RICARDO TACIOLI — É isso. Angela, muito obrigado mais uma vez.

ANGELA MARIA — Muito obrigado pela oportunidade de poder falar com vocês.

MAX ELUARD — Deixa eu te libertar (desse microfone).

THAIS TAVERNA — Posso só fazer umas fotos de perto?

(…)

LIA MACHADO ALVIM — Daniel, nesse (disco de) voz e violão, qual é o repertório?

DANIEL D’ANGELO — Eu tive a ideia, o resto é com ele. Ele é que sabe tudo?

RICARDO TACIOLI — Vocês não comeram o bolo?

LIA MACHADO ALVIM — O que ela vai cantar nesse voz e violão?

THIAGO MARQUES LUIZ — Em voz e violão dá pra ela cantar coisas que ela canta em casa. Não é, Angela, no nosso projeto de voz e violão dá pra abusar, dá pra fazer um repertório de coisas que ela gosta de cantarolar em casa e ficar à vontade. É um show pra ficar à vontade. A gente fez com o Cauby e deu super certo, mas ele já fez esse projeto dois anos atrás. E agora a gente vai fazer com a Angela.

LIA MACHADO ALVIM — É bem bacana.

THIAGO MARQUES LUIZ — É diferente, ela nunca fez nenhum show de voz e violão.

RICARDO TACIOLI — Muito bom. Tem doces…

THIAGO MARQUES LUIZ — Quer um bolinho de fubá, Angela?

ANGELA MARIA — Não, muito obrigado.

(…)

ANGELA MARIA — E aí, bem?

DANIEL D’ANGELO — Vamos?

THIAGO MARQUES LUIZ — O carro já está aí embaixo, se vocês quiserem ir?

ANGELA MARIA — Então, vamos.