ANTÔNIO VIEIRA E RIACHÃO [2004]

Um maranhense e outro baiano; um tem formação erudita, outro, boêmio convertido.

editor do gafieiras
Apr 21 · 77 min read

Dois entrevistados de uma vez. Refém não da circunstância, mas da oportunidade, o Gafieiras propôs a entrevista conjunta, realizada primeiro com Mestre Antônio Vieira e depois com Riachão, terminando-a com os dois em volta da mesma mesa. Tal como aconteceria no show do projeto Sotaques do samba, tendo como anfitrião Zeca Baleiro, logo mais à noite daquele remoto 14 de fevereiro (de 2004).

Unidos pela raiz musical comum, apresentaram-se na mesma ordem e encerraram o encontro, no segundo bis, com duas empolgantes marchas carnavalescas, que, enfim, levantaram o público — disciplinado a permanecer sentado e inquieto nas poltronas do Teatro do Sesc Vila Mariana. Inseridas no show porque relembradas durante a entrevista, alegrou-nos ver no palco — e na reação da plateia — nossa pequena interferência.

Marchinhas de temáticas distintas, as destes dois senhores de formação diversa, mas de um sem número de pontos comuns. Se um é erudito e o outro, boêmio convertido, ambos começaram a compor aos 15 anos sem saber ler ou escrever música. Riachão compõe sem instrumento até hoje e Vieira começou a fazer uso do violão apenas perto dos 60 anos. O primeiro se vira com o pandeiro, o segundo domina o afoxé. A origem é apenas parecida: nordestina, sim; mas baiana e maranhense, respectivamente.

Ambos driblaram os muitos anos sem gravar a própria produção — que, no caso de Vieira, só foi acontecer após os 70 anos (ano passado, aos 83, registrou com voz e violão 327 músicas, reunidas em uma caixa com 18 CDs!). Riachão não esperou tanto, mas sua voz conheceu o LP somente na década de 1970, com seus quarenta e tantos.

A diferença de idade entre eles é de apenas um ano, sendo Riachão o mais menino. “Um dínamo”, como o definiu Vieira após passar com ele os poucos dias anteriores à entrevista e ao show. Complementares no temperamento, a seguir, um e outro relembram suas peculiares trajetórias como autores da música popular, vividas fora do eixo Rio-São Paulo.

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{…} expediente

produção Ricardo Tacioli entrevistadores Dafne Sampaio, Ricardo Tacioli e Sérgio Seabra fotos Dafne Sampaio, Ricardo Tacioli e Sérgio Seabra transcrição Marllon Chaves edição de texto Ricardo Tacioli texto de abertura Sérgio Seabra agradecimentos Filipe Cavalieri e Luiz Paulo Lima

Entrevista realizada em São Paulo/SP em 14 de fevereiro de 2004. ___________________________________________________________________

[Dafne Sampaio e Sérgio Seabra conversam com Seu Vieira à beira-piscina do hotel, enquanto Ricardo Tacioli procura uma extensão para o gravador]

antônio vieira | (…) Teve um concurso de folclore em Santos há uns três ou quatro anos, com todos os estados do Brasil. E nesse concurso tiramos o primeiro lugar com esse trabalho. (…) O pessoal não acredita em trabalho cultural. Foi uma luta pra fazer isso. Mas antes de fazer os discos, fizemos primeiro o livro, Pregões de São Luís, muito embora para as autoridades governamentais quase tem que se pedir esmola, mas o povo respondeu comprando. No dia em que lançamos o disco numa praça pública, vendemos perto de 80 livros. Só quem vendeu mais que nós foi o Ferreira Gullar, outro maranhense.

dafne sampaio | Esse disco foi gravado antes de O samba é bom mas foi lançado depois?

antônio vieira | É, foi lançado depois porque a empresa que lançou, que foi a Eldorado, fez depois. E isso aqui foi apanhado de uma gravação nossa mais antiga. E o outro, O samba é bom, que foi produzido pelo Zeca Baleiro, foi gravado ao vivo em teatro. Você conhece O samba é bom?

Capa do álbum O samba é bom. Foto: reprodução

Eu ainda não ouvi. Tenho apenas esse.

antônio vieira | Você tem amizade com o Zeca Baleiro? Pode ser que ele ainda tenha alguns. Não se encontra mais à venda; já esgotou. O pessoal compra por curiosidade. Agora vou lançar outro, esse que eu trouxe, que é o mais recente. Estará à venda no show.

Qual é o nome?

antônio vieira | O nome é Os sucessos de Antônio Vieira, tá bom? Eu já fiz quatro discos. Esse foi patrocinado pela Vale do Rio Doce.

Está saindo como independente?

antônio vieira | É. Eu trouxe alguns porque eles me deram poucos, mas eu mandei fazer 5 mil pra eu distribuir e vender. E está saindo bem. Agora a Vale fez um estojo com a minha vida toda. Eu gravei 327 músicas. Talvez nunca ninguém tenha gravado numa paulada tanta música como eu. Então, o estojo é uma caixa grande que tem todas as letras, todas as crônicas das pessoas que conhecem o meu trabalho e falaram a meu respeito, além de 18 CDs, com 327 músicas. Ninguém fez isso no Brasil, nem os mais famosos!

Isso de uma tacada só.

antônio vieira | De uma tacada só. Patrocinado pela Vale do Rio Doce.

ricardo tacioli | E quantos exemplares foram feitos?

antônio vieira |Fizeram uns setenta, oitenta para serem distribuídos pelas bibliotecas e para outras as fontes de divulgação. E eu, fora compositor, culturalmente sou isso aí.

sérgio seabra | Tesoureiro?

antônio vieira | Da Ordem dos Músicos do Brasil. Se vocês quiserem se comunicar com a Ordem dos Músicos, setor do Maranhão, vão falar com o diretor, que é o produtor desse disco da Vale.

E quando foi feito esse trabalho para a Vale?

antônio vieira | No fim de 2003. Foi lançado com show.

seabra | Olha, estou lembrando o trabalho da reunião das músicas do Chico Buarque em oito CDs. Foram cento e poucas músicas.

antônio vieira | Eu gravei 327. Eu com um violão simples. Estão lá todas as letras. O álbum foi bem feito. Se você quer letra A, tem todas as músicas que começam com a letra A. Todas as que começam com a letra B; com a letra C. Agora, por exemplo, a letra “Amor de caboclo”, está no CD número tal. Você vai lá e a encontra.

tacioli | Chegou a extensão! Vamos parar um pouco. A gente já começa.

[Riachão chega cantarolando]

vieira | Isso aí é um dínamo. Isso não pára!

tacioli | Seu Vieira, o senhor pode colocar o microfone, por favor?

Fica mais perto, né?

O senhor prefere Seu Vieira ou Seu Antônio?

Eu sou Vieira mesmo. E, como pouca gente sabe, o Vieira é um marisco, né?

seabra | Eu não sabia, não.

luiz paulo lima | [explicando para Riachão] Vai começar pela banda de lá, passando pelo Maranhão, aí vem pro lado de cá. É isso?

riachão | Os técnicos são quem mandam, os catedráticos deste ambiente que engrandecem o artista. [risos]

tacioli | Então, Riachão, a gente vai começar com o Vieira, e daqui a pouco a gente chega a você, está bem?

riachão | Certo! Cada macaco no seu galho. [risos]

tacioli | Vocês já estavam conversando…

seabra | Ele estava contando que gravou de uma batelada só 327 músicas dele, num trabalho patrocinado pela Vale, né?

tacioli | Quando foi gravado, Seu Vieira?

vieira | Foi gravado agora, no fim do ano. E foi lançado lá no Maranhão. O projeto foi feito e enviado para a Vale. Ela julgou o projeto, não foi validado e aí foi transferido pro Rio de Janeiro. A diretoria submeteu o projeto aos técnicos, que o aprovaram. Aí o trabalho foi feito. Ele está em uns estojos grandes que serão distribuídos para as bibliotecas e para as entidades em todo o Brasil. Um estojo grande, composto por 18 CDs, por um livro grande, tudo em material especial, na qual você tem, por ordem alfabética, todos os nomes das músicas gravadas no CD; e noutro livro todas as letras.

Seu Vieira, o senhor tinha tudo isso guardado?

Não. Eu comecei a compor com 16 anos de idade. Então eu tinha, como chamamos lá, de brincadeira, um cofo com as músicas esperando a oportunidade. Porque eu não sabia se vinha dar nisso que deu. Mas eu tinha a esperança. “Um dia, talvez, o Brasil vai conhecer o meu trabalho!” Fui guardando, guardando, guardando… Teve uma escolha de uma nova diretoria para a Ordem dos Músicos do Brasil, e eu fui escolhido para fazer parte dessa diretoria. Sou o tesoureiro da Ordem dos Músicos do Brasil, seção do Maranhão. E o presidente da Ordem é dono de uma gravadora do Maranhão, que é a Fox Publicidade. Então, ele vendo meu trabalho, ofereceu, “Ô, Vieira, como gravar custa dinheiro, custa hora de estúdio, tudo é caro, eu ponho o estúdio a sua disposição… Na hora em que não tiver trabalho nenhum, tu pega o teu violão, entra no estúdio e vai gravando as músicas”. Levei uns sete meses gravando. “Olha, hoje não tem ninguém pra gravar. Antônio Vieira é o dono do estúdio.” “Amanhã não pode, tem gravação. Mas depois de amanhã tem só a tarde.” E eu, ripa na xulipa, gravava. E assim se fez a obra, né? Eu escolhi as 327 que eu achei melhores, e deixei um resto de lixo pra lá.

seabra | E nesse cofo havia músicas com as letras e partituras?

Não, as partituras não tem. Tem somente a parte musical. Agora, tem as letras e as entrevistas das pessoas que conheceram meu trabalho, que prestaram depoimento, né? Um livro grosso. Agora, esse livro é interessante porque as letras estão por ordem alfabética. Você quer ouvir assim: “Balaio de Guarimã”. Letra B, está no CD tal, número tal.

tacioli | E dessas músicas todas, Seu Vieira, quantas foram gravadas anteriormente?

Olha, fizemos um CD chamado Antoniologia Vieira que foi gravado por 16 cantores do Maranhão. Eu não cantei pra dar a oportunidade a essas pessoas gravarem. Foi produzido por um rapaz que é pianista e engenheiro, mas é invocado com música. O nome dele é Adelino Valente. Ótimo pianista, bandolinista, violonista, mas é também professor de Matemática da Universidade do Maranhão e da escola que, antigamente, se chamava Escola Técnica Federal. Ele não tem tempo pra se dedicar à sua música. Mas é louco por música.

seabra | Mas antes da década de 90 teve alguma gravação do senhor?

Não, não, praticamente não, porque os compositores e os intérpretes radicados no sul do Maranhão nunca deram valor pra música maranhense. Essa é a verdade! Tivemos numa época passada o Nonato Buzar, que foi diretor musical de novela. Foi feita aquela novela Irmãos Coragem. As músicas que estavam lá eram do Nonato Buzar, que é maranhense. Esse pessoal cuidava do deles, nunca cuidou do Maranhão. Mesmo a própria Alcione, que é um nome nacional, gravou pouca música do Maranhão. Gravou mais música do Rio de Janeiro. Agora, o Maranhão está tomando iniciativa de…

Capa do CD Antoniologia Vieira. Foto: reprodução

seabra | E aí você vê a importância do trabalho do Zeca Baleiro, da Rita Ribeiro?

Ah, foram essas duas personalidades que trouxeram a música do Maranhão, Zeca Baleiro e Rita. E tivemos a felicidade, há três anos, do maior prêmio de música, que você sabe que é o Sharp, ser dado ao Maranhão, por intermédio de duas pessoas: primeiro lugar, Zeca Baleiro, e em segundo lugar, Antônio Vieira. Aí eu disse: “Vocês estão vendo? A música do Maranhão pode não prestar, mas nós fizemos barba e bigode na música nacional”.

tacioli | Seu Vieira, e qual é o som do Maranhão? Ele tem um?

Tem um som especial. E eu convido a vocês para que visitem o Maranhão na época de junho, de 20 a 30 de junho. Música falada não adianta, tem que ser ouvida. Pra vocês chegarem e ouvir as músicas do Maranhão nas ruas. Aí você vê que a música é diferente, o ritmo. Só de bumba-meu-boi nós temos quatro ritmos diferentes. E tudinho nós exportamos lá pra Amazônia. Lá tem Boi-Bumbá, o Parintins. Então, um estudioso radicado aqui, o Ubiratan Souza, diz que já coletou 45 ritmos diferentes no Maranhão. Isso ele é quem pode esclarecer com mais minúcias pra vocês.

tacioli | E esses sons do Maranhão ainda são ouvidos lá?

Ah! Muito embora, em uma entrevista com uma paulista, ela disse assim: “Seu Vieira, como é que vai a música do Maranhão, um tal de reggae que vocês têm lá?” Eu disse: “Minha filha, você está mal informada. Reggae não é música do Maranhão, não. Reggae é música da Jamaica. Há alguns seguidores no Maranhão. A música do Maranhão tem muitos ritmos, mas esse não é nosso. Tem gente que gosta de fox, tem gente que gosta de bolero, tem gente que gosta de reggae, tem gente que gosta de canções inglesas, italianas. Mas não é música do Maranhão. Música do Maranhão é outra coisa. É preciso se ouvir!”. Se vocês comprarem esse disco de hoje, vocês vão ouvir uma música que só tem lá, chamada tambor-de-crioula. Lá vocês vão ouvir uma música, a “Mina do Maranhão”, está inserida na música que fala do Maranhão. Lá vocês vão ouvir o samba maranhense, lá vocês vão ouvir os ritmos do Carnaval de lá. Nós temos um grupo que tem quase 70 anos de fundado, e é só velho. Quem é novo tem 60 anos. E eles estão no meu disco. O nome desses velhinhos é Os Fuzileiros da Fuzarca. [risos] Só velho bom de cana e bom de batuque. Mas é bom mesmo vocês ouvirem a gravação. São 18 músicas escolhidas com os principais ritmos do Maranhão.

tacioli | Seu Vieira, o senhor acha que demorou muito tempo pra sua obra ser conhecida?

Não, eu acho é o seguinte: nós morarmos no extremo Nordeste, que é muito mais longe do que a Bahia, que está bem aí. O Maranhão está no extremo Nordeste. Aí é difícil, com pouco recurso técnico e sonoro que nós temos. Por isso demorou. Não foi falta de qualidade musical. Distância. Foi mais numa época em que praticamente a minha música estava no apogeu, com 20, 30 anos, não existiam recursos sonoros e eletrônicos que tem hoje. Então era difícil. Ou o sujeito fazia um LP, 78, aquela agonia, e lá não tinha estúdio pra isso. Então se tornava difícil, né?

seabra | Mas quando o senhor tinha 30 anos, isso na década de 50, o senhor chegou a correr atrás de fazer virar uma carreira musical?

Não. A primeira viagem que eu fiz ao sul do Brasil foi com o Chico Maranhão, que é um grande compositor no Maranhão, que tomou parte em festivais aqui no sul. E ele me trouxe. Nós passamos 15 dias em São Paulo, 15 dias no Rio, com um show chamado Escravo do coração. Eu me lembro que, na época, era o Governo Maluf. O Maluf era o governador e candidato a Presidente da República e trouxe gente do Amazonas até o Rio Grande do Sul para São Paulo. E eu vim nessa leva. Já era velho, mas eu vim porque eu era percussionista, toco um bocadinho de violão, cantava o que eu canto hoje. Então, o Chico me inseriu. “Ô, Vieira, tu é útil, tu vai como percussionista.” E eu vim como percussionista. E nessa época, eu fiz amizade no Rio de Janeiro, com o maestro Roberto Nascimento, que ainda deve estar vivo. E ele ouviu uma música chamada “Cocada”, que é um sucesso meu, e ele então disse: “Você vem morar aqui no Rio?”. Eu digo: “Não, porque sou funcionário público, e não posso abandonar o cargo, porque se amanhã eu fico velho, vou tirar esmola. Se eu não me aposentar, eu vou morrer de fome, porque o velho que perde a capacidade de trabalho é considerado lixo, lixo social. Essa que é a verdade!”. E eu não fiquei. Mas ele me disse: “Vem ao Rio que eu quero ser o seu padrinho.” Eu encontrei o Monarco, da escola de samba do Rio, num trabalho que eu fiz para Adelzon Alves. [n.e. Jornalista, radialista e produtor paranaense nascido em 1939] Monarco viu e disse: “Você vai ficar no Rio?” Eu disse: “Por quê?” “Se você quiser, eu te levo lá pra minha escola de samba.” Se não me engano é a Portela. “Não, eu não vou ficar no Rio. Sou funcionário público do Estado.” Quero dizer, tive essas duas oportunidades de vir, mas, se aventurasse, eu poderia ser um vencedor ou um derrotado, e eu não gosto de jogar no escuro, né?! Eu jogo no claro.

tacioli | O senhor não se arrepende, Seu Vieira?

Não, eu acho que eu cheguei no tempo. Meu tempo era esse mesmo. Agora eu digo uma coisa sem a vaidade: eu sempre acreditei no meu trabalho, porque as pessoas que entendiam de música, diziam, “Tem talento”. O maestro Copinha, que já morreu, flautista, uma vez olhou meu trabalho, uma composição chamada “Poema para o azul”, disse: “Meu filho, pare aí que eu quero te acompanhar!”. Pegou a flauta. Fui cantando e ele fazendo contracanto. Ele disse: “De quem é essa letra, meu filho?” Eu digo: “É minha”. “De quem é essa música?” “É minha.” “Você é um compositor do Brasil. O Brasil ainda vai conhecer o seu trabalho.” Copinha é um grande músico, né?

Quando foi isso?

Há uns oito a 10 anos. Nesse tempo o Raphael [Rabello, 1962–1995] estava com 17 anos. Quando foi para o Maranhão foi com Copinha, João Pedro Borges, Turíbio Santos, um baterista negão chamado Chaplin. Quem foi mais? E uma cantora que eu não me lembro o nome. Eles ouviram o meu trabalho e todos acharam que o trabalho era bom. Raphael no violão; estava novo, mas já com uns 18 a 19 anos.

seabra | O senhor não gravou, mas a música estava muito presente no seu dia a dia. Como era isso?

A música é a minha distração. Chego do meu trabalho, pego meu violãozinho e vou para meu quarto.

Mas sempre foi uma coisa mais solitária ou o senhor era um músico que era conhecido ali?

Não, quero dizer, o meio musical me conhecia, mas sempre fui solitário. Tanto prova que eu tive poucos parceiros, né? O parceiro que eu tenho, o melhor que tenho, quero dizer, o maior que eu tenho é um moço chamado Pedro Giusto, que é descendente de italianos.

E ele fazia letra?

Ele é mais letrista. Sempre trabalhei só.

Mas mesmo para apresentar essas músicas, vocês não se reuniam em casa pra tocar? Não havia esse tipo de coisa?

Não, não. Eu fazia um trabalho com aqueles grupos musicais, né? Nós tínhamos um grupo de chorinho. Tocamos sete anos juntos. Eu era um dos percussionistas. Éramos em dois percussionistas. Esse Ubiratan Souza, que vocês vão entrevistar, era o diretor artístico desse grupo.

tacioli | Como se chamava esse grupo?

O grupo se chamava Tira-Teima. [risos] Era bom. E tanto que quando toca um choro, eu digo, “Olha, não tem um choro no Brasil que eu não conheça, que eu não tenha tocado”. Porque nós tocávamos todos, fora os da terra mesmo.

No Maranhão tem muito choro?

Muito, tem 12 grupos de choro. Um é o que eu não faço parte mais, é o Tira-Teima, e o outro é o Grupo Pixinguinha, especializado só em choro.

E o grupo Tira-Teima tocava música do senhor?

Tocava alguma coisa.

Tem uma diferença do choro do Maranhão pro choro carioca, para o choro paulista?

Não, não tem diferença, não.

Não tem um sotaque?

Não, não. A gente segue a linha dos velhos.

Mas o samba produzido lá pelo senhor possui algo diferente? O senhor nota isso?

Tem, tem diferença.

E qual é?

Vocês vão ao show? É só ouvindo, não dá pra falar. Tem um diferença, que quem é músico sente. Não é melhor, nem pior do que a música baiana, nem a paulista, nem a carioca, nem mineira, mas tem sua linha, né?

seabra | Mas tem uma utilização de outros instrumentos? Não, em grupos musicais, não. Utiliza-se o que todo mundo usa aqui. Agora, no Carnaval, nós temos diferença. Temos os blocos chamados Bloco de Índio, que são uns tambores grandões pendurados no pescoço que o pessoal toca. E todo mundo batendo diferente. Quem vai lá é quem sente; quem já esteve lá é quem sente isso.

tacioli | Mudou muito o Maranhão da juventude do senhor pra hoje?

Como todo, tudo tem progresso, né? Na natureza nada estaciona, tudo é progressivo. Mas muita coisa que nós ainda conservamos, aquele tradicionalismo, principalmente a minha geração, a mais velha, né? Agora a geração mais nova é fazer rock, samba-rock, samba-reggae, samba-rap, samba não-sei-o-que, que eu acho que não é essa balada. Tem um ali que gosta pelo menos de samba-reggae; eu não gosto. Esse também acho que não gosta. [rindo e apontando para o Riachão]

riachão | Não, não gosto.

vieira | Eu só admito a música moderna se ficar melhor do que aquela de antigamente. “Não, mas é preciso mudar! Modernizar a música!” Pra pior, eu não admito. Tem que ser pra melhor. Não sei se o Riachão pensa como eu.

riachão | Ah, penso. [ri]

vieira | É moderno? É. É melhor do que o antigo? Vocês são melhores que um Pixinguinha, melhores que um Ary Barroso, melhores que um Noel Rosa, melhores que um Assis Valente? São? Não são. Então não presta. Tem que ser melhor do que esses pra prestar.

Mas, Seu Vieira, a música tem uma função na vida das pessoas?

Tem, eu acho.

Qual é essa função?

Tornar a pessoa melhor. É difícil se encontrar um músico criminoso, é difícil. Músico mesmo é sempre uma pessoa melhor, porque a música tempera a alma do indivíduo, torna ele mais manso, mais acessível, mais humano. É o meu ponto de vista, né? Podem não concordar, mas cada um de nós é um mundo diferente, né?

Mas para o ouvinte, qual função que a música exerce?

Vou dizer uma frase interessante pra vocês. O pobre quer ser rico. O rico que ser nobre. O nobre quer ser rei. O rei quer ser artista. O artista quer ser deus. Então, depois de Deus são os artistas, o resto é o resto. [risos] Sem ofender ninguém que esteja aqui, né? É um ponto de vista meu, né? [risos] Todos vocês acharam graça! Eu tenho uma visão meio chocante, mas é da minha formação. [risos]

Seu Vieira, nos anos 40 o senhor participou dos Anjos do Samba, um quinteto?

Eu fui sargento do Exército na época da Guerra. Fui convocado. E lá eu fiz ligações com alguns músicos desse grupo, os Anjos do Samba. Aí eles vendo a minha habilidade como compositor, não como músico, como compositor, me convidaram pra participar desse grupo. E eu estive com eles vários anos. E foi uma época muito boa. Eram cinco rapazes muito bons. Lamentavelmente nós não gravamos nada na época. Agora, trinta anos depois, fiz parte de um trio. Com ele eu consegui gravar. O JB Trio. Dois já morreram. Os mais novos já morreram e eu, o mais velho, estou vivo, estou teimando em viver. [risos] Grandes músicos. O Jorge Barros, que era o diretor, violonista e arranjador; e Oton Santos, que era o percurssionista. Foi muito bom o trabalho. Disso eu ainda tenho um disquetezinho. A gente pode ver o nível. O nível nosso era o nível do Trio Los Panchos, aquela história. Era um trio daquele estilo.

Vocês cantavam o quê?

Música brasileira, música maranhense, mas naquele estilo de vocalizar, né?

seabra | E alguma coisa sua já?

Sim, muitas. Eu ainda consegui sete músicas, das quais há uma ou duas músicas instrumentais. Para a abertura botamos, por ser maranhense, a música de Nonato Buzar, que era: [canta] “Manhã despontando lá fora / Manhã já é sol, já é hora”. Da novela Irmãos Coragem, era a abertura musical desse trio. Naquele tempo chamava-se de característica, “A característica do grupo etc. e tal”.

tacioli | Seu Vieira, do quinteto Anjos do Samba, nos anos 40…

42.

(…) tem alguma história interessante dessa época?

Olha, eu tenho a história de como fui colocado lá. Era um quinteto que trabalhava já na rádio Timbira do Maranhão, a primeira rádio que o Maranhão teve, rádio governamental. E um deles precisou se mudar para o Rio de Janeiro, porque vinha com a família. Então ficaram quatro. Precisava de um elemento. Um dos rapazes do grupo, chamado Luís Sampaio, violonista, hoje falecido, vendo a minha capacidade de como compositor e como percussionista me convidou pra participar do conjunto. “Rapaz, não quer fazer parte do conjunto?” Eu disse: “Rapaz, isso dá muito trabalho, muito ensaio”. “Não, mas isso é assim mesmo, não é demais. Tu vai encontrar já a comida temperada, vai só entrar.” Tanto chatearam que eu entrei. Aí fui pro teste musical, porque o diretor artístico do conjunto era um grande cantor do Maranhão, um grande pianista, chamado Nilzinho Santos. Aí me botaram lá e escolheram uma música, senão me engano era: [canta] “Por que bebes tanto assim rapaz?” Aí: “Vamos ver se seu ouvido é bom. Conhece essa música? ‘Por que bebe…’” Eu disse: “Eu não conheço a música, mas uma ou duas linhas eu conheço. [canta] “Por que bebes tanto assim rapaz / Chega já é demais.” Ele tchan no violão e eu pá. Aí foram mudando de tom, né? Depois começaram a meter meios tons e eu tã tã. Aí meteram tom menor. E eu digo: “Não dá, essa melodia não tem letra, não entra tom menor”. Aí foram ver que eu tinha ouvido pra música. “É, pode tomar parte.” Aí disseram: “Toca um instrumento?”. Eu não tocava nem berimbau. “Eu não toco instrumento nenhum.” “Ah, rapaz, então não pode. Para o conjunto vocal tem que cantar e tocar.” “Vamos começar com um instrumento fácil.” E me deram um afoxé. “Leva o afoxé pra casa, vai cantando e tocando.” Aí em casa eu fiquei como um louco, né? Tan tin tan tin [risos] O Riachão está achando graça porque sabe que o mal do principiante é sofrer, né? Minha irmã dizia em casa, “Rapaz, está ficando louco?” E eu tin tin tin tin. Mas dentro de uns quatro dias eu dominei o instrumento. Eu fiquei tão bom nesse instrumento que o melhor do conjunto era pior que eu. Eu tocava bolero, samba, rumba e música americana… O que botava no afoxé eu tocava. Fiquei craque no instrumento! A persistência, né? Dizem que a persistência, faz a perfeição. Eu fiquei perfeito no instrumento. Fiquei sendo respeitado como músico de afoxé.

seabra | Isso com vinte e tantos?

Eu tinha 23 anos quando comecei a tocar. O violão aprendi depois de velho. Vou contar a história do violão. O que eu sei de violão é muito pouco. O violão só pra me acompanhar. Aí, eu pedia pros outros: “Me acompanha em música tal?”. O camarada dizia, “Ah, rapaz, só se tu me der tanto. Pague ao menos uma cerveja aí”. ” Ah, muito bonita sua música.” Outros diziam: “Ah, rapaz, mas tu é chato. Hoje não dá. Somente amanhã”. Teve um dia em que eu disse: “Rapaz, vou aprender a tocar isso.” Eu já estava com 50, quase 60 anos. “Burro velho não aprende a marchar, rapaz, é difícil”, disse um músico do regional da rádio. “Mas não um burro da minha marca, rapaz. Sou um bocado teimoso.” Aí arrumei um violão velho e sentei e comecei. Tin nin nin. Hoje toco alguma coisa. Meu violão é muito simples, eu não toco arranhando como os cabeludos tocam [risos], toco arpejando, compreendeu? Hoje cabeludo toca dando pancada no instrumento. Eu gosto de ver o arpejo.

A música que você compunha era sempre acompanhando uma letra que você estava fazendo?

Não, é o seguinte: primeiro escolho um tema. Depois de escolher o tema, vou à letra. Depois de fazer a letra, vou para a música. Eu sempre escolho um tema. Por exemplo: a música que é a melhor música que eu já fiz é “Poema para o azul”. A história dela é: eu era moleque, neguinho moleque, e ficava pro céu olhando, minutos olhando. Fui criado por uma família que veio do estrangeiro. Se hoje eu sou formado, tenho curso superior, devo a essa gente, que me obrigou a estudar. “Preto tem que saber alguma coisa pra não ser carreiro, carregador. Tem que estudar!” Eu estudei a ferro e a fogo no tempo em que o Maranhão não tinha universidade. Era só faculdade e olhe lá, porque era difícil chegar até lá. Mas eu cheguei, porque eles me impuseram isso, a ponto que quando me formei — me formei novo, com 20 anos — na hora em que eu trouxe o diploma pro meu padrinho, que era o chefe da família, e minha madrinha, o velho olhou o diploma… Nesse tempo o diploma era um jornal, assinado pelo Getúlio Vargas, Presidente da República — eu me lembro bem! –, ministro não-sei-de-quê, Gustavo Capanema; ministro não-sei-de-quê, Salgado Filho. O diploma de curso superior ia para o Rio, no tempo em que era a Capital, pra eles assinarem. Eu levei pro velho aquele jornal enrolado e ele olhou, leu e disse “Isso aqui é a sua ferramenta pra não precisar morrer de fome.” Me devolveu o diploma e disse “É a sua ferramenta!”. Nunca me esqueço disso.

tacioli | Formado em quê?

Eu sou formado em Ciências Contábeis, compreendeu? Era difícil pra mim, até porque a primeira faculdadezinha pequena, paga. Era difícil! Não tinha universidade. Hoje, não, tem a universidade pública. Ou tu tinha o dinheirinho ou tu não estudava. Nunca estudei em colégio de governo desde o primário. Eles faziam questão, pagavam para o neto e pagavam pra mim, a mesma coisa, não discriminavam. Eu era afilhado deles. A roupa que um usava, o outro usava. Fazia quase 60 anos que eu não via esse moço. Quando ele soube desse meu sucesso, ele pegou um avião e foi me visitar. Ele é coronel do Exército e psicólogo no Paraná. Levei a televisão para a Base Área. Foi aquele auê danado.

Como é que ele se chama?

Durval Alves Lomba, coronel do Exército nacional.

Foi criado com o senhor.

Fomos criados juntos.

seabra | Só retomando, o senhor ia contar a história do “Poema para o azul”…

Pois bem, então a minha madrinha disse assim, “Rapaz, por que tu fica só olhando para o céu azul?” Eu a chamava de tia, porque ela me tratava como sobrinho. “Titia, porque a noite negra é muito feia. Acho que o universo deveria ser azul, para ser uma coisa mais bonita, mais suave.” E ela ficava ouvindo. “Ah, meu filho, não é a sua vontade que vai fazer o mundo, não.” “Você vai entender isso depois.” Garoto, eu disse: “Mas vou fazer um poema para esse azul”. E é a melhor música que eu já fiz. Uns versinhos desse tamanhozinho assim.

Mas que você fez muito depois.

Ah, eu fiz depois, já adulto, mas eu fiz um poema para o azul.

Então, surgiu esse tema, aí o senhor fez a letra…

Tudo que eu faço é em cima de tema. Posso te dar outro exemplo. Não fazem dois, três anos que eu fui à praia levar um amigo meu — sou motorista profissional, né? Ele era diretor de uma companhia telefônica no Maranhão. Ele tinha tido um derrame, ficou meio paralítico, né? Nem podia se levantar. Levou meses tomando remédio, mas aquilo estacionou. E eu disse: “Vamos tomar uns banhos salgados. Eles farão bem para os seus nervos”. Eu sou também enfermeiro do Exército nacional. [risos] Sou mecânico de automóvel. Tenho uma porção de profissões, que eu fui aprendendo…

dafne | Essa é a próxima pergunta que eu quero fazer.

E eu disse pra ele, “Vamos tomar uns banhos salgados”. A família não queria. “Ele não pode nem andar.” “Mas eu levo ele pra praia.” “Seu Vieira, ele vai morrer alagado!” “Não morre, gente! Então, eu morro com ele.” Eu insisti com ele. Tomou uns 15 banhos salgados. E começou a andar. Aí a agonia era comigo, pois ele dizia: “Vamos tomar um banho salgado hoje?!”. Ele melhorou, não andava. E um dia eu estava lá na praia com ele — a maré no Maranhão é muito alta, cresce cinco a sete metros. Quando a maré é alta, bota água no caís. Quando a maré baixa, seca, dá quase um quilômetro de profundidade de distância da praia. E ele estava lá na beira da praia. Eu estava perto dele, tomando um banho salgado. E o vento soprando, né? Quando o vento sopra lá no Maranhão, vem com aquela força da areia tão forte que pinica a perna da gente. A areia pinicando, né? Faz aquela fumaça de areia. Na Bahia deve ter isso, né? O vento da areia sopra a areia que pinica a perna da gente.

riachão | No tempo passado teve.

vieira | Aí aquilo pinicando a minha perna, virei, fui olhando, e aquela fumaça feita pela areia e levada pelo vento, formando umas dunas. Pronto, aquilo foi inspiração. Tanto que eu tenho uma canção chamada “Dunas”, que eu criei um amor da onda com o vento, que chega na beira da praia, sopra areia e a areia vai formar as dunas. Uma história bonita! Bom, o que vocês querem saber mais? [risos]

seabra | Então, para terminar essa história da letra da música. O senhor faz a letra, mas a música o senhor faz na cabeça e sai cantando, não é ao violão?

Antigamente eu não fazia ao violão. Hoje eu pego o violão pra fazer, porque já sei tocar um bocadinho.

Mas antigamente…

Era na mente. Isso é inspiração musical mesmo. Olha, rapaz, o músico já nasce. Ele pode aprender música, pode se tornar um grande músico, mas o poeta, o compositor — esse aqui deve fazer música sem saber música. [apontando para Riachão] Sabe música?

riachão | Nada.

vieira | Pronto, está aí! E assim como ele, milhares e milhares no mundo inteiro. Minha avó dizia pra mim — minha avó era uma mulata, filha de escravo –, “Ó, meu filho, quem é bom já nasce feito. Quem quer se fazer, não pode. Quando o ruim quer se apurar, vem a natureza e descobre”. [risos] Filosofia de crioulo. Quem é bom já nasce feito…

tacioli | Mas, Seu Vieira, como o senhor guardava essas melodias antes de aprender a música?

Isso até hoje causa admiração. Se pego esse álbum com 327 músicas, se pego qualquer uma daquelas letras, pego o violão e toco pra ti. Está tudo aqui, nesse computador humano.

seabra | Não tinha nem acorde?

Não, eu não sei escrever. Eu sei o que é Lá Menor, o que é Si Menor, o que é Dó, Ré Maior. Isso sei tudinho. Nunca tive tempo de aprender. Eu encontrei quem quisesse me ensinar, mas não tinha tempo.

tacioli | Com tanta profissão também não dava, né?

É. Na minha vida fui muita coisa. Fui diretor administrativo de hospital, sargento do Exército, mecânico de automóvel. Rapaz, eu sou meio danado! Eu não paro. Se você telefonar todo dia na minha casa, você não me encontra em casa. Eu estou sempre em casa, mas a partir das oito, nove horas da noite, porque não ando muito pela madrugada, já que a violência está na rua. O ladrão ataca você, “Bota tudo o que tu tem!”. Se não tem dinheiro, “Ah, tu não tem dinheiro?”. Dá um tiro, pá.

Falamos bastante sobre os temas para as composições, mas há um dele em que o senhor mais privilegiou, um tema mais recorrente?

De que eu goste mais?

Qual é?

São as músicas românticas que vocês não conhecem ainda. Todo mundo acha que eu sou um grande sambista. Eu acho que não, não sou um grande sambista. Eu tenho muito samba, que é música do Brasil, mas eu gosto das músicas românticas. Tem muita coisa de romantismo. Ainda agora eu estava falando com o menino ali, ele estava falando de música romântica, quando eu disse: “Tenho muita coisa de romantismo. Umas da últimas que eu fiz, agora há pouco tempo, chama-se ‘Mágoa’”. [canta] “Mágoa de ser viver insatisfeito / Mágoa de tanto amar quem não nos quer / Mágoa de sepultar no próprio peito / Todo um amor que foi desfeito / Por um capricho de mulher / Mágoa, és o motivo dessa dor / Mágoa, és a razão do meu sofrer / Mágoa de quem me deu tão grande amor/ (…) / Mágoa que só me faz sofrer”. Pequenininha, mas está condensada.

riachão | Maravilha.

vieira | Gostou da letra?

tacioli | É recente?

É, coisa de uns cinco ou seis anos.

Como surgiu esse tema?

Você sabe como eu fiz esse tema? Me contaram uma história que um sujeito gostava de uma pessoa, e aquela pessoa que ele gostava, não gostava dele. Aí apareceu um outro que gostava daquela pessoa e ela não gostava. Então, eu uni os dois dramas num samba só. Aí é mágoa, né, a mágoa. Eu fiz um show em Brasília com um grupo de moças chamada Toque de Sal. Muito bom. Eu fiz um show com elas. E uma delas quando viu isso começou a botar lágrimas, né? “Seu Vieira, o senhor cantou o meu drama.” [risos] “Eu sou louca pelo fulano de tal, mas ele não que nada comigo. E agora tem um que é louco por mim e só quero chutar o bicho, porque o homem é chato. Se você tivesse nascido na minha época (…)” — ela é moça de 20 e poucos anos — “(…) eu dizia que o senhor tinha copiado a minha história.” Eu digo: “Não, minha filha, a humanidade é que sofre dessas coisas”. [risos] Então, tudo que eu tenho, todas as composições minhas, posso dizer que mais de 80% tem uma história. Tenho uma facilidade de olhar as coisas, perceber as coisas. Sou capaz de ver uma música, uma palma dessa cair e dela fazer um trabalho. Eu vou oferecer pra vocês que estão aí em casa um poema que eu fiz, pretensioso. Vocês vão ouvir o tamanho dessa pretensão. O homem faz prece a Deus, né? Todos nós que aqui estamos fazemos prece a Deus. Eu fiz uma prece de Deus criando uma prece de Deus ao homem. Está aí impresso. Vou oferecer a vocês. Posso subir até agora, apanhar e distribuir pra vocês. Aí vocês vão ver aonde quero chegar. Deus fazendo prece para o homem, não é mole. Não é todo poeta que… Eu ofereci para a menina que cantou contigo lá no Rio. [n.e. Sopram Dona Ivone Lara ] Eu ofereci para Ivone Lara. Ela ficou emocionada. Eu te dei esse poema? Ivone Lara disse: “Vou mandar botar num quadro para guardar lá na minha sala, seu Vieira.” “É, Deus também faz prece ao homem pra puder o homem entendê-lo.” O homem é bicho terrível, o homem talvez seja o pior do animais. É o único animal que mata o outro sem precisar comer. Um leão mata uma caça pra comer; um pássaro ataca um outro pra comer, pela fome. O homem mata o outro por brincadeira, à toa, pra roubar, por causa de mulher. Então é um predador terrível. O homem é o pior dos predadores.

Seu Vieira, o senhor compõe há muito tempo. Qual foi período mais produtivo? E por quê?

Não, eu não tenho período criativo, porque eu venho compondo… Olha, a minha distração é compor.

Mas houve uma época em que o senhor compôs mais?

Estou com um borrão aqui pra… porque vem ideia, eu anoto pra não esquecê-la. “Bom, depois eu vou desenvolver esse tema.” Pode demorar um dia, um mês, um ano, sete anos. Tem música velha que eu olho assim, “Rapaz, fiz uma burrice aqui!”, aí substituo frases, comprendeu? Porque eu procuro fazer uma coisa de uma maneira mais simples possível pra que o povo, que tem pouca instrução, me entenda. Eu não procuro dicionário pra botar palavra. Só tem uma palavra que eu empreguei numa composição minha chamada “Igara velha”. Igara é canoa na linguagem indígena. Eu cheguei na beira da praia, tomando banho, olhei uma canoa apodrecendo, depois de usada, na praia. Eu pensei “O pescador usou essa canoa. De tanto usar a canoa, abandonou como uma coisa imprestável. Está esquecida. Vem a onda, fica uma areia”. Aí eu fiz uma música camada “Igara velha”. Vocês vão ouvir a letra. [canta] “Igara velha / Atirada lá na praia / Carcomida pelo tempo / O salitre e o mar / Abandonada num montículo de areia / E só pela maré alta / Que a onda vem lhe beijar / E se acabando do sol / Sente a inclemência / E do vento a violência em tempos de tempestade / E a tardinha, quando vem a lua cheia / Na sua cama de areia / Vai morrendo de saudade / E o vento sopra areia / Que na igara cai / E a igara lentamente se enterrando, vai / E o vento sopra areia que na igara cai / E a igara lentamente se enterrando, vai.” De uma canoa velha podre que eu vi, isso é motivo.

E o que tem nesse borrão? Qual a ideia que o senhor anotou nesse papel?

Não sei, eu me esqueci. Isso é muito perto, vamos pra longe. Às vezes eu pego um tema e vou colecionando numa boa. Compor é dom, viu? O sujeito pode ser bom violonista, mas se ele não tiver o dom… é difícil. Às vezes escuto na rua uma frase curiosa, e ela já é uma fonte para compor.

O senhor anda muito em São Luís?

Fui nascido e criado na cidade. Eu conheço, assim como outras pessoas conhecem São Paulo, eu conheço São Luís toda.

O senhor gosta de andar na cidade?

Gosto de andar na cidade. Nós somos beira de oceano, né? Temos quilômetros e quilômetros de praia. Então tudo aquilo é fonte de inspiração.

E onde o senhor anda ali?

Rapaz, a cidade começa da Ponta da Areia e vai até um lugar chamado Raposa. Dá uns vinte e tantos quilômetros só de praia. Hoje já está — eu chamo de espigões, os arranha-céus pela beira da praia. No tempo em que eu andava por lá o que tinha era mata, e nessa mata guajuru, fruta que se comia, murici, maria-pretinha, se encontrava muita caça, aquela jaçanã… Quem tinha espingarda levava pra caçar. Hoje, não, hoje é arranha-céu. Aqui deveria ser uma porção de colinas. Eu vi uma porção de ladeira aqui. Isso, na época do descobrimento, devia ser uma mata… Hoje é só fura-céu, espigão de concreto, né?

Seu Vieira, já vamos conversar com o Riachão, mas antes gostaria de fazer mais duas perguntas.

dafne | Três. Quero fazer a minha.

tacioli | O senhor foi criado com essa família, né?

Família dos Lomba.

O que o senhor ouvia lá, já que era uma família mais abastada, né? Tinha rádio?

Não, olha quando eu me entendi ainda não tinha rádio. Quando eu me entendi era vitrola. Tocava uma corda, enchia [dava corda] e botava o disco. Eu fui criado ouvindo música clássica. O velho gostava de ouvir os grandes clássicos, Strauss, Ravel, de forma que eu aceito a música clássica como aceito a música popular. Uma vez, quando estreou o Canal 4, que foi a primeira televisão no Maranhão, eu fui um dois convidados pra fazer parte daquilo. Eu era diretor do telecine dessa companhia. Eu era ligado à música e era intelectual. Então, fui diretor do telecine.

Quando foi isso?

Isso foi em 40.

Em TV?

Quarenta, não, 50 e pouco. A primeira televisão do Maranhão foi o canal 4, que ainda existe lá. E eu fui o diretor do telecine. Tem um fato curioso dessa época, né? Esse moço famoso chamado Roberto Carlos foi prá lá e ninguém ligou pra ele. Era um ilustre desconhecido.

seabra | Ele foi cantar lá?

É, foi cantar, mas não foi ninguém. Quem fez sucesso lá foi o Quinteto Farroupilha, do Rio Grande do Sul, que já existia. Foi uma mulata, cantora da Rádio Nacional, esqueço o nome dela. Mas como eu era o diretor de telecine, eu ficava ouvindo lá sossegado. O presidente Juscelino Kubitscheck esteve lá. Eu me lembro bem. Sou um camarada inimigo do formalismo, inimigo de gravata, e tiveram que colocar em mim uma gravata. Eu estava todo engravatado, foi uma gozação pra turma. Eu digo, “Nós estamos virando gente. Nêgo de gravata, virou gente”. [risos] Porque chamam nêgo de macaco. Na época, até um governador do Maranhão que era escuro, era negro, chamado Nunes Freire [n.e. Considerado herdeiro político de Vitorino Freire, cacique político maranhanse nos anos 1940, 1950 e 1060, Oswaldo Nunes Freire governou o estado maranhense entre 1975 e 1978 indicado pelo presidente militar Ernesto Geisel], grande médico. E teve o hospital que eu trabalhei, que é o maior hospital do estado, chamado Hospital Geral, em que fui o diretor administrativo, o diretor-geral era um médico negro. Então os racistas diziam: “O Maranhão vai mal, está governado por negro. Esse hospital é pior, a administração geral e administrativa é de negro.” E eu dizia: “Os macacos são quem estão certos”. Pegavam corda. “Ah, sou macaco, é?” “Então, os macacos são quem estão certos. Estão mandando agora.” E foi um governador do Maranhão que os políticos não governaram, porque quando ele veio a assumir, não sei se foi o Médici ou se foi outro presidente que era ditador, o convidou pra ser governador do Maranhão. Aí ele disse: “Só vou governar o Maranhão, se os políticos não se meterem no meu governo. Eu não preciso ser governador do Maranhão”. Ele era de família rica do interior do Maranhão. Médico de fama. Aí o presidente, “Nós temos a informação sua. Nós queremos é o senhor mesmo”. Na véspera dele sair, um dos secretários dele não cumpriu o que tinha que ser feito, ele mandou botar na cadeia. Disse: “Até a manhã meia-noite sou o governador. O senhor vai pra cadeia!”. Chamou o guarda e “Prende esse cara!”. Pra você ver que o nêgo não era brincadeira, mas era um sangue bom. Como eu era sargento, ele brincava comigo, me chamando de tenente. “Eu sou ex-sargento!” “Você é tenente, no meu ponto de vista.” Era um sujeito bom. Político não mandava nada. Foi um dos grandes governos que o Maranhão teve; não se soube se o secretário roubou, que ele roubou. Ninguém dizia isso, porque ele não roubou mesmo.

dafne | Todo mundo sabe, agora nem tanto, mas sempre foi difícil viver exclusivamente de música no Brasil. Na época do senhor era ainda mais. Então pra sobreviver…

É, você tinha de aprender muita coisa.

Eu queria que o senhor contasse um pouquinho das atividades profissionais que mais te marcaram.

Eu vou relatar. Com 16 anos tive meu primeiro emprego, empregado de comércio, no Maranhão. No tempo em que o Maranhão não tinha o porto de Itaqui. Era o porto na cidade de São Luís. Então lá é que saltavam, não existia estação rodoviária. Havia simplesmente a ferroviária São Luís-Teresina. Então toda a produção do estado vinha para o porto de São Luís, que era na cidade de São Luís, que hoje já não existe mais porque foi aterrado, depois que aumentaram a beira-mar da cidade. Ia se criar o porto de Itaqui, que é noutra parte da ilha. Fui empregado de comércio lá, onde trabalhei por uns anos. Quando eu me formei, aí eu fui para o comércio no centro da cidade, porque tinha a capacidade de trabalhar no escritório. Fui balconista, mas com três ou quatro meses, um rapaz que trabalhava na Contabilidade se afastou. Aí eu tive que passar a ser auxiliar de contabilidade, porque eu já era formado em Ciências Contábeis. Dentro de pouco tempo eu fui gerente dessa firma. Essa firma, que era da família dos Max, nem existe mais. Naquele tempo no Maranhão, as famílias abastadas pegavam os filhos e mandavam pra Europa. Quem era mais pobre ia para Portugal, e quem podia ia pra França. De forma que havia muita gente formada na França. Falava o francês. Você sabe que na civilização do Maranhão nós tivemos holandeses, franceses, os portugueses, os índios e os negros. Então, você vê que o Maranhão é uma cultura diversificada, porque nós tivemos essa civilização lá. Você vê no Maranhão muita gente loura, porque vieram dos franceses, que dizem que passaram 20 anos lá. Tem lugar no Maranhão, no interior do estado, que toda gente é loura. De onde eles tiraram esses louros? Foi do fundo da terra? Pois bem, depois do comércio, fui militar durante três anos, porque era época da guerra contra a Alemanha. Fui convocado em 42 e saí em 45. Daí foi que eu entrei na arte musical. Trabalhava no comércio e trabalhava para ganhar o que se chama cachê hoje, não sei, ganhava por show que se fazia. A Rádio Timbira tinha show ao vivo todo dia. Tinha o palco-auditório, que era pago, e esse dinheiro era passado para os artistas da Rádio Timbira. Nesse tempo, essa Alcione Nazaré foi cantora da Rádio Timbira, que eu vi agora com uma outra que deixei no Rio chamada Célia Maria, também cantora da Rádio Timbira. Agora muitos músicos vieram para o Sul. Saxofonistas, clarinetistas, flautistas. Muitos vieram para o Rio de Janeiro, onde tocaram em grandes orquestras. Viver de música lá era difícil. Lá tinha orquestra mas a festa era semanal. Toco mundo embarcava para o Rio de Janeiro, que era onde se podia viver profissionalmente. Aí, nesse ínterim, e eu sempre curioso, fui trabalhar numa firma de peças de automóvel. De forma que hoje não tem uma peça de automóvel — só não conheço as peças modernas que são eletrônicas –, mas se tu desmontar um carro, eu te digo o nome da cada peça. Fui vendedor de peça de automóvel. Eu sei o nome e o apelido de cada peça de automóvel. [risos] Vou te dar um exemplo: virabrequim, que é o que faz a força, as bielas, virabrequim. O nome daquilo se chama virabrequim, ave-motora, ave-de-máquina. Eu era obrigado a saber porque ia vender essas coisas. O nêgo dizia “Eu quero ave-de-máquina”. Se eu não soubesse, eu não vendia, né? Como eu era vendedor de peças, “Agora vou tirar carta de motorista”. Estudei, motorista. Trabalhei muitos anos como motorista. Meu pai era tipógrafo, por isso entendo um bocado de tipografia, que eu aprendi com ele. Ele me levava para a tipografia, pra não ficar na rua, na molecagem. Hoje você vê essa rua cheia de meninos, meninos de rua. Os pais não botam os filhos pra lhes acompanharem; meu pai me levava. Era o que minha avó dizia “Menino, aproveite a força dele. Sem querer vai aprendendo uma profissão. E quando ficar adulto, no mínimo, sabe a profissão que aprendeu na infância”. A lei proíbe que se bote numa oficina uma criança hoje. Tem que tirar carta, documento, ser responsável, não-sei-o-quê, então não se aprende o ofício. Aprende as loucuras da rua. É difícil entender esse Brasil.

luiz paulo lima | Posso fazer uma pergunta? Falamos de Deus aqui, mas lá no Maranhão Jesus é rosa, né? Conta essa história da Cola Jesus.

Lá nós temos um farmacêutico-químico que criou várias coisas. E uma das coisas que ele criou foi um refrigerante que hoje é chamado Guaraná Jesus. Naquele tempo era Cola Guaraná Jesus, que ainda se vende por lá. Por muitos anos foi a preferência das crianças, porque era bonito, cor-de-rosa, tem um sabor adocicado, não sei se leva canela, não sei o que é. Foi ele quem inventou. Eu o conheci. O nome dele é Jesus não-sei-do-quê Gomes. Houve uma época de grande florescimento da industria dele, porque a família era abastada. Depois o velho morreu, e foram chegando essas empresas, como a Coca-Cola, que viu que Jesus tinha preferência local. Então comprou a empresa da mão dos filhos por não sei por quantos milhares de cruzeiros. Aí eu fiz o primeiro jingle para essa coca-cola.

Cantaí, cantaí!

[canta] “Com o tempo quente ou frio / Tem bebida que faz bem / Para o adulto ou pra criança / Isto é sempre o que convêm / Então ouça o meu conselho / Que só bondade traduz / Sempre beba e ofereça / Cola Guaraná Jesus / Sempre beba e ofereça / Cola Guaraná Jesus!”. E as crianças: “iiii” [risos] Eu também sou bom de jingles. Fiz uma para a cerveja Antárctica. [canta] “Antárctica, Antárctica / Onde você esteja / Antárctica, Antárctica / No descanso ou peleja / Antárctica, Antárctica / Não lhe deixem hora e veja, / Antárctica, Antárctica / É a melhor cerveja”. [risos] Sou bom de jingles!

seabra | Pagavam bem pelos jingles naquela época?

Para teu governo, com o que ganhei com o primeiro jingle, que foi do Guaraná Jesus, deu para pagar médico para uma família que estava com seu chefe numa cama, a velha numa outra e o filho doente. Foi um dinherozinho. Deu pra pagar médico e a internação em hospital. Eu tenho a mania de ajudar aos outros. É uma das qualidades que eu tenho, ajudar aos outros.

dafne | O senhor fez muitos jingles então?

Não, não. No Maranhão pedia-se jingles pra São Paulo, pro Rio.

Mas o senhor fez para outros produtos de lá?

Não, porque o pessoal mandava fazer tudo fora. Você recebe a pampa. Eu fiz esses dois pra ver se eu tinha talento pra fazer jingles. Costumo experimentar as coisas. Acho que esses dons, deu pra vocês perceberem, têm algum valor.

seabra | Agora, Seu Vieira, a gente vai pegar o Riachão, que está quietinho, louco pra falar.

Que é um dínamo, um dínamo. Isso não pára!

Então, apresenta o Riachão pra gente. Quem a gente vai entrevistar agora?

Olha, fui conhecer o Riachão em pessoa agora, mas eu tinha visto algumas gravações dele. Ele tem talento. É bom. E tem uma coisa: passa toda uma simplicidade que deve caracterizar o bom compositor. O bom compositor não se mede pelas palavras difíceis que ele bota. Eu meço pela simplicidade de sua obra. E ele é um dos que admiro por causa disso.

Nasceu feito também?

Quem é bom já nasce feito! Quem quer se fazer não pode. Ele já nasceu feito. Acho que ele faz música desde meninice, né?

riachão | É, com sua idade, 15 anos também.

tacioli | Seu Vieira, o senhor pode passar o microfone para o Riachão?

seabra | O senhor fica aqui com a gente?

vieira | Vou ouvir o que o Riachão vai dizer. O sujeito que tem essa idade sabe muita coisa.

riachão | E o mais interessante é que eu não tenho tanta coisa. É, isso é que é o mais interessante.

[Tacioli arruma o microfone junto à lapela de Riachão]

seabra | Tá quietinho aí, Riachão?

riachão | Como sempre quieto, aprendendo as coisas boas que Jesus comanda pra terra. Como agora, eu aprendi tanta coisa. Estou aqui realmente emocionado com o que eu ouvi. Se vocês que estão me ouvindo acreditarem na palavra da pessoa, eu quase que não tenho o que falar sobre mim, porque o que eu ouvi dessa grande figura agora, eu vi o meu retrato, de sofrimento, de desenvolvimento artístico pela própria natureza deste grande homem que acabou de falar os dados da sua vida. Enquanto ele falava, eu estava vendo ele em mim, os próprios sofrimentos, os momentos de felicidade e, felizmente, nós estamos com a idade junta. Só podia acontecer isso. Tudo que ele falou ali eu estava vendo em mim. Só uma coisa diferente: é que eu não tive escola e ele teve. Mas para o lado da natureza criada por Jesus, eu vi nele o que eu vejo em mim.

tacioli | Logo que nós chegamos, vocês estavam tomando café. O que vocês conversavam ali, você pode falar pra gente? Essa é a primeira vez que vocês vão tocar no mesmo palco, né?

É, naturalmente para mim vai ser um grande prazer. Aqui em São Paulo tive momentos outros, mas a vida é sempre assim, aumentar, desenvolver. E dessa vez eu vim encontrar essa figura maravilhosa, o grande artista, sambista, de outras composições também, outros gêneros, o famoso Vieira. É para mim o máximo de felicidade essas duas crianças se encontrarem em São Paulo, um com 82 e outro com 84, se eu não estou enganado. [ri] E isso pra mim está sendo um grande momento. Ó, meu deus, eu gostaria de ter palavras carinhosas para dizer sobre esse encontro… Vocês, repórteres, que são a vida pura dos artistas, me perdoem, porque eu não tenho palavras pra dizer da satisfação que eu estou sentindo aqui nesta reunião de amigos, cantores, repórteres, produtores, empresários. Enfim, tudo de bom que existe na terra, artisticamente falando.

seabra | Me diz uma coisa, Riachão, como a música entrava em seu dia a dia? Era mais clima de festa, era uma coisa como o Vieira falou, mais só pra você, como foi isso?

Menino, não é à toa que eu disse pra vocês que eu estava vendo no Vieira a minha pessoa. É a mesma coisa. Riachão não pega um lápis para escrever nada. A música vem em mim através de um tema de uma coisa que eu vejo. Ela aparece assim. Vem de vez no meu juízo, como eu estava conversando ainda agora com um grande amigo, um cantor, que estava ali na sala, esqueço o nome dele agora.

tacioli | O Otto?

Otto? Otto. E assim eu digo a todos os meus amigos: em toda a vida, a música veio assim. Eu não me preocupo. Uma das músicas mais difíceis, maiorzinha, é a da Rainha Elizabeth, quando ela veio ao Brasil, mas as outras todas são simples. É “Cada macaco no seu galho”, “Pitada de tabaco”, “Fofu”, “Ousado é mosquito”, essas músicas são todas simples. Mas vocês encontram o princípio, o meado e o fim. Foi como o meu grande amigo Vieira falou, a simplicidade, as músicas simples ficam melhores pra nós, para alguém que não “altos conhecimentos” entender. Primeiro, eu não tenho condições de fazer música com palavras difíceis. Então, essas mesmas palavras simples o meu povo entende. É por isso que eu fiquei bastante feliz de ouvir a mensagem dele, de reportagem. Eu vi nele a minha pessoa.

Logo que nós chegamos, vocês estavam tomando café. O que vocês conversavam ali, você pode falar pra gente? Essa é a primeira vez que vocês vão tocar no mesmo palco, né?

É, naturalmente para mim vai ser um grande prazer. Aqui em São Paulo tive momentos outros, mas a vida é sempre assim, aumentar, desenvolver. E dessa vez eu vim encontrar essa figura maravilhosa, o grande artista, sambista, de outras composições também, outros gêneros, o famoso Vieira. É para mim o máximo de felicidade essas duas crianças se encontrarem em São Paulo, um com 82 e outro com 84, se eu não estou enganado. [ri] E isso pra mim está sendo um grande momento. Ó, meu deus, eu gostaria de ter palavras carinhosas para dizer sobre esse encontro… Vocês, repórteres, que são a vida pura dos artistas, me perdoem, porque eu não tenho palavras pra dizer da satisfação que eu estou sentindo aqui nesta reunião de amigos, cantores, repórteres, produtores, empresários. Enfim, tudo de bom que existe na terra, artisticamente falando.

seabra | Me diz uma coisa, Riachão, como a música entrava em seu dia a dia? Era mais clima de festa, era uma coisa como o Vieira falou, mais só pra você, como foi isso?

Menino, não é à toa que eu disse pra vocês que eu estava vendo no Vieira a minha pessoa. É a mesma coisa. Riachão não pega um lápis para escrever nada. A música vem em mim através de um tema de uma coisa que eu vejo. Ela aparece assim. Vem de vez no meu juízo, como eu estava conversando ainda agora com um grande amigo, um cantor, que estava ali na sala, esqueço o nome dele agora.

tacioli | O Otto?

Otto? Otto. E assim eu digo a todos os meus amigos: em toda a vida, a música veio assim. Eu não me preocupo. Uma das músicas mais difíceis, maiorzinha, é a da Rainha Elizabeth, quando ela veio ao Brasil, mas as outras todas são simples. É “Cada macaco no seu galho”, “Pitada de tabaco”, “Fofu”, “Ousado é mosquito”, essas músicas são todas simples. Mas vocês encontram o princípio, o meado e o fim. Foi como o meu grande amigo Vieira falou, a simplicidade, as músicas simples ficam melhores pra nós, para alguém que não “altos conhecimentos” entender. Primeiro, eu não tenho condições de fazer música com palavras difíceis. Então, essas mesmas palavras simples o meu povo entende. É por isso que eu fiquei bastante feliz de ouvir a mensagem dele, de reportagem. Eu vi nele a minha pessoa.

Você falou que, com exceção das outras músicas, a da Rainha Elizabeth é uma das músicas invocadas. Há alguma palavra diferente…?

Sim, porque ela é um samba-canção e não é uma música assim do va va va, como “Cada macaco no seu galho”, “Pitada de tabaco”. Então ela entra [canta] “Agora sim / Vou cantar / Minha alegria / Vou receber na Bahia / Bonita demonstração… / [silencia]”. “La ri la ra rá!” São coisas tão velhas que a gente esquece. [volta a cantar] “Agora sim vou contar minha alegria / Por assistir na Bahia / Bonita demonstração / De amizade e de fina educação / Deste povo hospitaleiro / E onde nasceu a nação / Da Inglaterra / Veio direto ao Brasil / Sei que você também viu / Em plena Avenida Sete / Foi aplaudida no Palácio da Aclamação / Foi a maior emoção / A Rainha Elizabeth / Da capitania seguiu (…) / [silencia novamente]”. “La ri la ra rá”. Como a gente esquece! Ô, meu Deus, agora é fogo, esqueço!

De quando é essa música, Riachão?

É “Rainha Elizabeth”.

Sim, mas quando você a compôs?

Quando ela veio ao Brasil. [n.e. 1968]

Nos anos 60?

É música aí dos 60, por aí assim, quando ela veio ao Brasil. Foi nessa data. É uma música muito bonita. Eu tive o prazer de ser convidado para a casa das grandes figuras da Bahia, nosso querido diretor… [silencia] O meu mal é esse, sou muito esquecido. Tem coisas muitas na minha vida, mas o esquecimento toma conta. E muitas coisas eu não posso passar para a imprensa diante o esquecimento. Muitas coisas da minha vida eu esqueço totalmente. Até mesmo as músicas eu esqueço. O que eu admirei realmente no meu simpático Vieira, que ele lembra até o meu grande amigo Batatinha, ele não esquece das coisas. Eu tive muita passagem no Rio de Janeiro, mas esqueço delas. Aqui em São Paulo, outras passagens. Mas esqueço. Você vê até as músicas. Hoje eu não sei quantas músicas perdidas eu tenho. Fui um homem que contei quinhentas músicas. Meu Deus, quinhentas músicas eu contei! Hoje eu não sei mais as músicas que eu tenho, porque todas foram embora. Como eu queria agora cantar pra vocês, com tanto prazer, mas eu esqueci a letra da “Rainha Elizabeth”. Foi um momento feliz quando ela esteve no Brasil, pela primeira vez, e logo na nossa terra, a Bahia. São momentos que eu passei na vida cantando para nossa gente, mas infelizmente eu quero que vocês me perdoem e que Jesus está vendo que é o esquecimento da idade já que a gente tem. [ri] Tão garoto… [ri] Mas acontece que têm uns que se lembram mais do que outros, como eu bem me lembro aqui do nosso querido Vieira e do Batatinha, que Deus já levou. Eu o admirava muito porque ele chegava, “O que aconteceu, Riachão?” Eu digo: “Ô, meu Deus!” Aí Batatinha tomava a palavra e dizia: “Não, foi assim, assim, assado, aqui no Rio de Janeiro”. Isso é uma grandeza pra os meus amigos que são bem “lembristas” das coisas, são “memoristas”, e eu infelizmente esqueço. Não sei porque ainda me lembro de cantar algumas músicas. [ri]

Em relação a São Paulo, o que você se lembra, Riachão?

Estive em São Paulo pela primeira vez graças a uma reunião realizada pela Rádio Sociedade da Bahia. Meu caso todo é sempre música. Eu vim em um ônibus. E, no caminho, Jesus mandou um samba. Esse samba homenageando São Paulo, homenageando Pelé. Foi uma felicidade pra mim porque São Paulo nesse tempo não era o São Paulo de hoje, era um São Paulo do trabalho, um São Paulo coisa séria, que não quer saber de orgia, de madrugada, nada. Nós entramos aqui com o samba quente. [canta e batuca] “Pela primeira vez que eu cheguei / Em São Paulo da garoa / Pela primeira vez que eu cheguei / Gostei, constatei / Que a terra é boa / Pela primeira vez que eu cheguei / Em São Paulo da garoa / Pela primeira vez que eu cheguei / Gostei, constatei que a terra é boa / É ou não é? / É [coro] / É ou não é? / É [coro] / Olha a grande São Paulo/ Tem garoa e café / É ou não é? / É [coro] / É ou não é? / É [coro] / Olha a grande São Paulo / Tem garoa e café / E até tem Pelé / Diz aí! / Pela primeira vez…” Isso entrou nessa cidade, numa madrugada quente, um batuque gigante dentro do ônibus… Causou admiração no povo paulista, que não estava acostumado com essa “zoadeira”, com essa falta de sossego. [risos] Então, noutro dia, a imprensa falava sobre essa chegada, dessa zoada aqui em São Paulo. “Quem foi?” Procurou saber. “Era o Riachão que veio nesse meio cantando uma música em homenagem a São Paulo e a Pelé.” Caiu no ouvido de Pelé. Quando nós estávamos no hotel, onde também foi armado um show no jardim, chegou um mensageiro com uma camisa de Pelé, autografada por ele. Eu ainda tenho essa camisa em casa e a guardo com todo carinho. Pelé autografou a camisa e mandou como presente para mim. Eu fiquei muito feliz! Quero dizer, dessa passagenzinha ainda me lembro. E outras coisinhas.

O que te impressionou em São Paulo quando você baixou aqui pela primeira vez? Qual imagem você tinha de São Paulo?

A imagem que eu tinha de São Paulo é que era muito fria. São Paulo não gostava de folia. É o que eu ouvia lá na Bahia. São Paulo era uma terra de trabalho. Paulista só pensava no trabalho, não na folia. Então, quando eu vim pela primeira vez, tive essa pequena confirmação, porque no outro dia a imprensa censurou a zoada e procurou saber quem foram aqueles que chegaram na madrugada fazendo a zoada, perturbando o sossego. Resultado: caiu no ouvido de Pelé, como eu disse a vocês. Pelé ficou satisfeito com a chegada do malandro enaltecendo São Paulo e a ele. Aliás, eu não o conheço. Teria o maior prazer em conhecê-lo. E outras vezes em que estive em São Paulo foram somente pra shows e apresentações, sempre me sentindo bem. A impressão daqui é a melhor possível: gosto muito dos paulistas, são educados, são gentis. Como também no Rio de Janeiro. Enfim, eu não me sinto mal nesses lugares onde eu chego. Gostaria de lembrar de todos os momentos de felicidade pra dizer pra vocês.

Riachão, como era o Batatinha?

Batatinha foi um grande amigo, companheiro lá da Bahia. Ele trabalhava como datilógrafo na imprensa, e eu como cantor. Eu fui cantor primeiro que Batata. Batata entrou pra ser artista na chegada de Antônio Maria. Antônio Maria foi quem descobriu Batatinha. Mas eu já era o malandro do rádio desde 44. Eu entrei com um diretor, que eu até gostaria que vocês me dessem notícia dele, se ele está vivo ou morto, o Mota Neto, não sei se vocês conheceram. O grande Mota Neto foi o diretor da Rádio Sociedade da Bahia e foi quem me empregou, em 1944. Eu entrei cantando música sertaneja e naquelas idas e vindas, o nosso querido diretor, o Mota Neto, que gostou muito de minha pessoa cantando música sertaneja, procurou saber se era baiano. Eu disse que eu era baiano, e ele não acreditou. “Não é possível que você seja baiano. Eu já fiz pesquisa aqui. Não tem um só sambista aqui que tenha esse jeito seu. Você nasceu aqui mesmo?” “Nasci no Garcia.” Ele ficou encantado com as minhas composições sertanejas. Eu entrei cantando [canta e batuca] “Oi minha linda morena / Eu tenho pena de te deixar / Tu és minha companheira / Eu não posso desprezar / Se algum dia eu ir pra riba / Linda morena / Vou te levar / Se algum dia eu ir pra riba / Linda morena / Vou te levar / Quando nós chega lá / Vou arranjar / Onde fazer a morada / É uma palhoça bonitinha na beira da estrada / Ô, que coisa linda / Nós dois trabalhando na enxada / Ô, que coisa linda / Nós dois trabalhando na enxada / Quando nós tiver um filho / Nós bota ele pra estudar / Depois que tiver crescido / Nós ensina ele a tocar / E quando nós tiver velhinho / Sentar na porta, mode apreciar / E quando nós tiver velhinho / Sentar na porta, mode apreciar.” Então, o Mota Neto ficou encantado com isso e disse: “Não é possível que você tenha nascido aqui”. Aí mandou eu cantar outra. E cantei outra música sertaneja: “ “Segunda-feira eu brinco / Terça-feira eu descanso / Quarta-feira vou à missa / Beijar o pezinho do santo / Quinta, sexta vou trabalhar / No sábado vender tamanco / Ô, compadre / Domingo é dia de branco / Ô, compadre / Domingo é dia de branco.” E assim eu fui cantando essas modinhas pra ele. Ele ficou encantadíssimo e me empregou na Rádio Sociedade da Bahia, em 1944.

O sambista Batatinha fotografado em 1983 pela húngara Madalena Schwartz. Foto: reprodução

seabra | Esses dois temas tinham a ver com sua vida? De onde veio essa pegada?

Não. A minha vida mesmo não é essa. Eu saia com meu pai. A vida nossa era a vida dentro do nosso quintalzinho, sempre trabalhando nessas coisas. E me parece que eu tenho o sangue ou a natureza de sertanejo, porque eu gosto muito do povo sertanejo, eu amo o pessoal do interior. E é por isso que Jesus colocou essa parte sertaneja em mim.

tacioli | E o que você fazia no rádio quando começou, Riachão?

Eram somente esses programas para abrir o rádio de manhã. O Mota Neto me colocou pra abrir o rádio de manhã. Cinco horas da manhã eu abria o rádio cantando essas músicas. “Linda morena”, “Preto ou branco é pecador”, “Beijo molhado”, que é uma das músicas que eu gosto muito.

luiz paulo lima | Como é “Beijo molhado”?

“Beijo molhado” é uma modinha que, se não me foge à memória, diz… [silêncio] Vou cantar uma outra. É o esquecimento! Vou contar uma história dessa outra toada que vou cantar. Eu trabalhava no rádio, como estou dizendo a vocês, colocado por Mota Neto. Depois nosso Mota Neto foi embora. Aí veio um outro diretor, que não ia com a minha cara. E me perseguiu muito. Não deixava eu trabalhar nos programas. Ele me cortava. Eu ficava mais parado — já empregado no rádio — que cantando. Então eu senti que era uma perseguição. Mas como eu tenho essa natureza, de tudo que se passa comigo, Jesus manda uma música, então eu tirei uma música pra cantar com meus companheiros. O dia em que tive oportunidade de fazer o programa, eu joguei essa música no ar. Sertaneja. “Eu trabalhava numa fazenda / Oi, que coisa pra fazer dor / Teve lá nessa tal fazenda / Teve outro administrador / Mas quando o burro chegou / Oi, meu trabalho não prestava / Eu trabalhava numa fazenda / Oi, que coisa pra fazer dor / Pois o patrão lá da fazenda / Não gostava de homem de cor / Mas quando o burro chegou / Oi, meu trabalho não prestava / Eu sei que eu sou meio pretinho / Mas tenho ideia de artista / Eu saí daquela fazenda / Mode não zangar a policia / O burro era racista / Por isso eu fiz minha pista / Ê”. Então eu cantei essa música contra o diretor que não gostava de mim. Eu esqueço o nome dele agora. E assim por diante, dentro da Rádio Sociedade da Bahia, foi toda a minha vida cantando música sertaneja.

tacioli | Trinta anos ali, Riachão, sempre cantando música sertaneja?

Não. Fui cantando no começo. Em dado tempo, eu cantava também meu chorinho sertanejo, umas músicas que eu fazia, uns ranchozinhos, “Linda Morena”. [canta] “Ô minha linda morena / Eu tenho pena de te…” E assim por diante… No decorrer do tempo veio o nosso querido Antônio Maria para ser o diretor. Eu ainda estava cantando música sertaneja. Mas com um caso, que eu sempre conto, meus companheiros tomavam muita cachaça. Eu bebia também, mas cumpria com a minha obrigação do horário. A gente abria o rádio de manhã cedo, cinco horas da manhã.

Você ia direto da noite pra rádio, Riachão?

Cinco da manhã. Não, aquele era o horário de iniciar o programa, mas os meus companheiros, que a gente fazia muita farra, na hora do programa de manhã, eles faltavam. Eu tinha que ir buscar eles, porque quando eu chegava no rádio que não via eles, eu já ficava com medo. E muitas vezes eu fui buscar eles. Estavam cheios de cachaça, mas tocavam bem comigo. Mas a coisa não deu mais, porque teve um outro programa, e eu cheguei com Antônio Maria, “Eu não pude trazer o companheiro, porque está lá ruim.” Ele aí sentiu com isso, gostava muito de mim, disse, “A partir de hoje você não vai mais trabalhar de dupla. Você vai trabalhar sozinho. Você tem capacidade pra isso”. E aí eu entrei, continuei cantando. Aí saíram os sambas que eu tinha e fui jogando no ar. “Cada macaco no galho”, …

Capa do LP Samba da Bahia (1973), que reuniu Riachão, Batatinha e Panela. Foto: reprodução

É dessa época?

É. Essa música é velha. “Cada macaco no seu galho”, “Pitada de tabaco”, “Fofu”, “Ousado é mosquito”.

É tudo dessa época?

Tudo isso.

Década de 50?

Cinquenta, essas músicas são baseadas nessa época.

Mas até então, Riachão, você não havia gravado nada em disco?

Não, não. Eu comecei a gravar muito tarde, já velho. Foi o primeiro disco foi Samba da Bahia, não me lembro nem a data. Ele está aí gravado, Samba da Bahia foi o primeiro. Década de 70, né? A turma conhece mais, está mais por dentro do que eu. Aí comecei a cantar. “Cada macaco no seu galho”, “Retrato da Bahia”, tudo isso eu cantava no rádio. Eram as minhas músicas. Eu era muito querido por causa dessas músicas, “Ousado é mosquito”. Eram umas músicas que o povo gostava quando eu cantava. Deixei de cantar toada e comecei a cantar essas músicas.

seabra | Isso, na verdade, foi uma transformação da sua vida…?

Da minha vida, de sertanejo para o samba.

Nessa época você estava mais boêmio?

Não, a boemia sempre foi comigo, desde nove aninhos de idade que eu canto. Tomar cachaça comecei com nove aninhos de idade. [Antônio Vieira ri] E até cantar era comigo. E uma passagem muito triste também… Eu era levador de nossos irmãos para o cemitério. Eu fazia muita sentinela. Tudo por causa da cachaça. Eu era conhecido! Eu tinha parceiros de música e tinha parceiros de sentinela. Já tinha dois companheiros que eram bons pra amanhecer o dia contando caso e corpo aí, pra poder amanhecer o dia, porque muita gente não agüentava porque ia embora. Antigamente não tinha esse negócio de velório. A gente ficava com o corpo até de manhã. E tinha muita gente que não agüentava e ia pra casa. Mas eu tinha meu parceiro que agüentava a sentinela até de manhã. Aí contando caso, e haja cachaça! Mas eu tinha uma sabedoria: em casa eu fazia um embrulho de farofa e carne-do-sertão assada que é pra agüentar a cachaça da madrugada.

Mas você tinha quantos anos?

Nessa época já era mais velho, já estava com meus 18 anos. O couro comia nessa base aí. Então o que eu fazia? O café da sentinela era meia-noite, mas só saía café e bolacha, e pra quem estava tomando cachaça como um bonde… Mas o meu embrulho já estava guardado, pra mim e para dois companheiros. E na hora desse café, a gente dava uma saidazinha, deixava o corpo, e saía, nós três. Mas distante da casa do defunto a gente pá pá pá pá, comia aquela farofa, se preparava e voltava. E aí amanhecia o dia tomando cachaça nessa sentinela. [risos] Essa é uma passagem da minha vida. E na base da música desde nove aninhos, quando era convidado para as festas de aniversário. E o malandro ia, mas cantava as músicas do Rio de Janeiro, né?

tacioli | O que cantava?

Nem me lembro, aquelas músicas que eu disse que a parte da minha vida, esse grande Vieira, se armava aquela vitrola e se cantava aquelas músicas lá do Rio. Se não engano [canta], “Dizem que a mulher é parte fraca / lá ra ra lá / Isso é que eu não posso acreditar / lá ra ra lá / Entre beijos e abraços / lá ra ra lá”… Essas músicas que havia no fonógrafo. Então, eu aprendia aquilo e cantava nos aniversários. Aniversarinho de criança, isso na idadezinha de 10, 11 anos. E aos 12 anos também fui convidado pra dançar em terno, existia muito terno naquele tempo, as festas de Reis. Aí havia o estandarte, que era o rapaz, e a criança que dançava com o boneco. Eu fui convidado pra sair no terno, porque eu era um menino muito fagueiro, jogava capoeira, tinha aquela coisa toda e tal, me levaram pra ir pro terno. Eu pegava o boneco, dançava, fazia “gatimonha” com o boneco, então era aquela beleza os ternos, Noite de Reis. Bom isso foi a vidazinha que foi levando, do malandro aqui nessa idade 12, 13, 14 anos. Com 12 anos fui aprender o ofício de alfaiate. Entrei na Alfaiataria Cardin, meu pai me levava, eu ia na carroça e ele me deixava na porta da oficina. Aí trabalhava o dia todo aprendendo o ofício. Depois fui crescendo… Com uns 15 anos, mais ou menos, já estava trabalhando na Baixa do Sapateiro numa outra alfaiataria, na Rua das Flores. Depois fui trabalhar com o Spinelli. Vocês são de São Paulo, mas já ouviram falar do Spinelli lá na Bahia. E eu fui trabalhar com o pai dele. Havia o Spinelli Filho, com os slogans no rádio: “Adão não se vestia porque Spinelli Filho não existia!”. Isso era o que se falava no rádio. Mas eu fui trabalhar com o pai dele, Spinelli Pai. O pai dele tocava violão. A minha vida sempre cantando, ou cantando ou assoviando. E um dia, eu estou sentado, costurando e cantando, quando ele foi passando e me viu cantando um samba… Ele aí parou e disse: “Neguinho, que música é essa que você está cantando?” “É uma música minha.” “Venha cá.” Deixei a costura e fui. Ele pegou o violão. “Cante aí pra mim.” Eu aí cantei a música que foi. [canta] “Alguém me disse que viu você na esquina lendo uma cartinha? / E cuja carta continha palavras dolentes de muita alegria / Também me disse que viu você fazer juras do amor não se acabar / Mas se ele é inocente / Eu passei este golpe / Ele pode passar, meu Deus? / Alguém me disse que viu você na esquina lendo uma cartinha / E cuja carta continha palavras dolentes de muita alegria / Também me disse que viu você fazer juras do amor não se acabar / Mas se ele é inocente / Eu passei este golpe / Ele pode passar / Eu que sempre tenho a dizer que conversa de amor nem toda se crer / Pois se Jesus foi traído, nós, um com o outro, também pode ser / Também conheci alguém que teve amizade, só com a morte acabou / Mas se eu sou infeliz / Estou resolvido a viver / Sem amor.” [ri] Ele viu eu cantando isso. Aí ele me chamou e cantei pra ele. Ficou encantadíssimo e passou essa música para o papel, porque ele escrevia a música. Foi um dos momentos na Alfaiataria Spinelli Pai.

seabra | E instrumento você não tocava?

Nada, nunca toquei instrumento nenhum. Minha vida era tocar pandeiro. Pandeiro eu tocava, mas instrumento nenhum. Pelejei muito, comprei não sei quantos cavaquinhos, não sei quantos violões, e não deu jeito de tocar, de aprender. Foi uma vida feliz que eu passei nesse tempo. E outras passagenzinhas que o seu amigo esquece. Ainda me lembro… tem uma passagenzinha… coisinhas da vida nossa… Eu tinha um parceiro, voltando à vida sertaneja…

tacioli | Riachão, desculpe-me interromper, mas vamos subir ao 27º andar onde fecharemos a entrevista e fotografaremos você junto ao Vieira. Pode ser? Vamos subir?

Vamos, vamos, vamos. Estamos sob o comando de vocês.

O comando é seu, Riachão.

[Começa a chover. Todos sobem para uma das salas do hotel] [Riachão segue cantando]

[Já no 27º andar]

riachão | Nós estávamos…

tacioli | Vamos esperar eles encerrarem ali.

Mas foi emocionante esse dia da Rainha Elizabeth.

tacioli | Qual foi a repercussão?

Havia muita gente pra ver a chegada dela, muita alegria. Mas mais emocionante foi eu ter feito essa modinha e as autoridades terem me chamado para cantar. Eu fiz em casa. Nunca tive muita sorte em ter alguém para me produzir. Eu estava pelejando agora para me lembrar a modinha. Isso é coisa de tantos anos que a gente esquece, a da Rainha Elizabeth. Então o nosso querido, ele, até o nome das minha autoridades eu estou esquecendo. Pessoal de Antônio Carlos Magalhães. Nós estávamos onde? Mas era uma modinha, foi emocionante, a Rainha Elizabeth, a realidade. Veio muita gente pra ver a chegada dela. Muita alegria. E o mais emocionante foram as autoridades que me chamavam pra cantar. Por exemplo, eu nunca tive muita sorte para encontrar alguém que me produzisse, entendeu? Nunca tive sorte pra isso, não! Agora que eu encontrei uma grande figura, já depois de velho, esse famoso amigo que está me trazendo assim pra esses outros cantos. A minha vida foi mais ali mesmo, cantando e brincando. Quando encontrei uma oportunidade pra vir ao Rio, não pude por causa da família. Eu fiz um show, não sei se vocês se lembram, quando teve “Ouro para o Brasil”, que teve esse corre-corre no nosso país, “Ouro para o Brasil”. Então, a Rádio Sociedade da Bahia armou um show dentro do palácio e veio uma menina do Rio, que era Dilu Melo [n.e. Maria de Lourdes Argollo Oliver, 1913–2000, cantora, compositora e instrumentista maranhense], se não me engano. Essa garota foi cantar comigo no Palácio. Ela queria me levar pro Rio de Janeiro, porque quando cantei, ela ficou muito empolgada… Cantando “Ousado é mosquito”, cantando “Cada macaco no seu galho”, essa modinhas. E quando terminou, ela falou pro diretor, que era Paulo Nassif. Aí ele veio a mim e disse: “Riachão, esta mulher quer te levar para o Rio”. Eu disse: “Como? E meus filhos, minha nêga? Aí não dá, doutor.” Aí pronto, perdi essa chance de estar na famosa Rio de Janeiro e encontrar as figuras pra me botarem pra frente. Aí fiquei nessa aí, na Bahia, até quando tive a felicidade de estar num programa que a rádio criou, Vai queimar um Judas, porque foi aí que se iniciou o primeiro passo da minha felicidade artística. Aí o Jackson do Pandeiro foi prá lá, porque a Rádio Sociedade da Bahia convidava todos esses artistas do Rio de Janeiro. Eu tive conhecimento deles todos por causa desses programas. Um Vicente Celestino, com Augusto Calheiros, com Ataulfo Alves, Orlando Silva, toda essa turma do Rio de Janeiro eu tive a felicidade de conversar e abrir o programa do rádio, porque quem abria o programa era eu, não é, pra depois os visitantes entrarem no ar. Então tive essa felicidade no rádio. Mas para negócio de gravação, só nasceu depois do conhecimento do meu querido Jackson do Pandeiro. Eu estava em Campo Grande fazendo uma chamada para a turma se juntar e fazer a passeata até a Praça da Sé. Eu cantava [canta e batuca] “Vamos ver queimar Judas traidor / Vamos gargalhar na hora da dor / Saindo do Campo Grande / Desfilando a pé / Quero ver bem menino / Quero ver bem mulher / Todo mundo sambando na Praça da Sé”. E aí, enquanto eu cantava, eu só ouvia voz de dueto sair do lado, que ele estava assim na minha esquerda, eles dois, ele e Almira [Castilho]. Eu e o meu parceiro cantando o “Judas Traidor”, daqui a pouco sai um dueto do meu lado esquerdo… Menino, que coisa bonita! Meu Deus! Eles dois cantando a mesma música em dueto! Eu tomei aquele susto assim, cantando, vi aquela beleza sair assim do lado, eu fiquei empolgado, cantando, e eles dois, ela com aquela voz feminina, aquilo engrossou mais o negócio, ficou mais bonito… Ah! Quando terminou, que alegria, meu Deus, que alegria! Aí que eu vim conhecer o Jackson do Pandeiro nesse dia, porque eu não conhecia. Eu sabia do sucesso, mas não conhecia o Jackson do Pandeiro. Aí passamos a ser amigos, essa coisa toda e tal. E dali fomos pra Praça da Sé, eu sempre cantando essa música, porque era o dia da festa pra queimar o Judas, eu continuei e a avenida toda cantando o “Judas Traidor” até chegar na Praça da Sé, que era o lugar do show. E quando chegamos lá, o Jackson do Pandeiro apresentou a música dele e eu continuei cantando o “Judas Traidor”, e dali nasceu nossa amizade. Por isso eu tive minha primeira música gravada, que era sucesso lá na Bahia, que era “Meu patrão”, “Judas Traidor”, “Saia Rôta”, “Retrato da Bahia”, essas músicas já eram sucesso! Eu tinha o maior cartaz na Rádio Sociedade da Bahia. O povo ia somente pra ver este malandro, porque eu tinha uma mania de cantar… Havia umas meninas, que eram do Rio de Janeiro, que se chamavam — não sei se vocês sabem — as Cabrochas da Jupira. [n.e. Na verdade era Jupira e suas Cabrochas] Havia essas meninas que iam daqui pra lá, e eu na hora da minha apresentação, eu levantava, suspendia a calça, fazia um bocado de bagaçaria no palco. Eu suspendia e arregaçava a calça pra cantar. Era um negócio certo… [canta e batuca] “Todo mundo espiou / Quando a saia dela voou / Meu Deus / Todo mundo espiou / Quando a saia dela voou / O batuque estava bom / Sinhazinha só sambando / A saia cheia de ouro / E o neginho só espiando / Meu Deus / Todo mundo espiou / Quando a saia dela voou…”. E eu pra cantar isso aí era um negócio, jogava uma capoeira, pegava a saia da menina do Rio de Janeiro e fazia que ia levantar, a raça gritava… Era um inferno! [risos] E assim eu conheci essa turma toda do Rio de Janeiro quando ia lá pra Bahia. Eu tinha a maior felicidade com os meus programas, com essa gente toda. Um dia eu cantei um samba para o Ataulfo Alves, com aquelas cabrochas dele… [canta] “Ela / Não tem pudor / Não tem vergonha / Não tem valor / Ó, Senhor / Vós não errou / Mas o nome de mulher ela manchou / Ó, Deus! / Ela / Não tem pudor / Não tem vergonha / Não tem valor / Ó, Senhor / Vós não errou / Mas o nome de mulher ela manchou / Abusou de minha bondade / Lhe dei confiança / Foi o que eu mais senti / Foi minha amante / Não sinto saudade / Porque meu lar / Ela quis destruir”. Então, ó, rapaz, o Ataulfo Alves com suas cabrochas, ouviu e, naquele sentimento, me abraçou. Então, são os momentos na nossa vida que a gente passa, né, na vida artística. Naquele tempo não havia ainda o Teatro Castro Alves. Todos os sambistas, todos os artistas iam para Barbalho, que se chamava Instituto Normal. Era onde os artistas iam cantar. Instituto Normal, né, lá no Barbalho.

seabra | E sua história com o Carnaval de Salvador? Você participava? E como foi com a chegada dos trios elétricos?

É, a beleza do Carnaval da Bahia se acabou, porque no Carnaval da Bahia daquele tempo o povo ficava na avenida, em toda a avenida, a família sentada na porta. Todos tinham suas cadeiras numeradas, não-sei-o-quê, e o pessoal ficava sentado para assistir ao desfile do Carnaval. Existiam os Fantoches, os Vermelhos e os Inocentes; são os clubes maravilhosos. E os Malandros. Grupos de Carnaval, micaretas, essa coisa toda. Nesse tempo ainda estava a felicidade das serpentinas, o lança-perfume, havia batalhas. Era um Carnaval maravilhoso. Era o tempo das músicas lindas do Rio de Janeiro, “Teu cabelo não nega” e tantas outras do Rio de Janeiro que a gente esquece agora. E nesse tempo a coisa era maravilhosa o Carnaval. Eu, por exemplo, saía na batucada — o nome aqui era batucada, no Rio de Janeiro era escola de samba. Então fazia aquela batucada os malandros e eu saía na batucada que tinha o nome de Malandro do Amor.

tacioli | [risos] Malandro do Amor?

Malandro do Amor, compreendeu? E aí vinha aqueles malandros todos cantando, mas o povo estava na avenida, sentado, e assistia aos malandros cantarem. A gente chegava com a nossa batucada, fazia aquela frente no meio do povo e cantava as músicas de alguém. Parece que, na lembrança assim, não sei, uma música que eu tocava. [canta e batuca na mesa] “Quem disse que Quelé não vai sair / Quem falou, faltou com a verdade / Vai, vai sair / Se não sair, vai deixar saudade/ Quem disse que Quelé não vai sair / Quem falou, faltou com a verdade / Vai, vai sair / Se não sair, vai deixar saudade / Todo ano falam, falam como quer / Eu não sei se homem ou se é mulher / Que língua ferina, fala o que não é / Por favor, eu peço / Deixa a vida de Quelé / Deixa minha vida [segunda voz] / Quem disse que Quelé…” Me chamavam de Quelé também. E havia uma turma na Bahia que também tinha esse nome de Quelé. Era um negócio sério! Então o povo ficava no Carnaval ali sentado pra assistir a esses malandros cantarem. Não era como hoje. Depois quando saiu o trio, logo no princípio, o trio cantava sem zoada. Não era, não botava essa força. Era esse menino, o nosso querido, qual é o nome dele, o dono do trio, o criador do trio… Osmar! A gente teve um encontro antes de ter trio. Eu me lembro que, naquele tempo, os malandros da Bahia saíam assim, violão, cavaquinho, e se encontravam um com o outro, e aí tinha aquele debate pra ver quem cantava mais, quem tocava mais, e assim… Mas tudo em amizade, era quem tinha mais movimento, etc. E eu tive um encontro com Osmar, Osmar e Dodô, como são conhecidos — vocês devem saber que Osmar e Dodô foram os nomes principais do trio elétrico. E eu, com pandeiro, outro malandro, com cavaquinho — que hoje está até preso, sinto muito, Deus tome conta dele, porque ele está lá, não sei quando vai sair da cadeia –, e um outro que cantava comigo, que era aleijado, não tocava nada, nos encontramos ali na Praça Castro Alves. Era uma noite, a lua vinha despontando por cima da igreja… Aí começou o duelo com o Osmar e Dodô. Eles em solo e nós em modinha. Resultado: eles solam uma, a gente canta outra modinha. Cantei vários sambas. Aí terminou, Dodô não tinha mais nada pra solar. E eu continuei com meus malandros cantando samba como um bonde que a gente tinha. Aí o resultado: terminei com o samba “Noite enluarada”, que foi a penúltima música; não foi última porque eu não morri. [risos] A penúltima música que cantei no duelo com esses malandros, Dodô e Osmar. [canta e batuca na mesa ] “Foi numa noite enluarada / Quando nós cantava essa toada / A lua com seu manto prateado a nos olhar / Nosso cavaquinho ficou a soluçar / Foi numa noite enluarada / Quando nós cantava essa toada / A lua com seu manto prateado a nos olhar / Nosso cavaquinho ficou a soluçar / A lua veio ali / e a estrela acompanhou / Disse para mim: diga a sua dor / Eis razão que o cavaquinho soluçou”. Ê, menino, que saudade, que encontro com esses malandros. E abraços e etc., etc. Aí nasceu a minha amizade com Dodô e Osmar, nessa noite na Praça Castro Alves, nesse duelo de malandro, como acontecia com diversos na Bahia. Os malandros se encontravam pra tocar um pro outro. Havia essa vida maravilhosa, compreendeu, naquele bom tempo.

E hoje, Riachão, onde você fica, o que você faz no Carnaval?

Só fiz um Carnaval tem aí dois, três anos, por causa do filme. O produtor do filme queria fazer uma passagem, não sei nem se essa passagem não passou no filme, porque eles gravam muitas coisas, mas muitas coisas eles não colocam, porque acho que não dá tempo. O tempo corre. Então, fizemos uma passagem no filme, e esse menino, o filho de Dodô, o Armandinho — ele está até no meu CD — toca e coisa e tal, eu também canto e coisa e tal, e passamos por um edifício em que esse menino, o Gil, estava lá na janela e viu eu cantando, aquele negócio no Carnaval, somente pra fazer um movimento, ele filmando, essa coisa toda… [risos] E depois, se não me engano, foi até “Chô, chuá” que ele passou cantando. [canta] “Chô, chuá / Cada macaco no seu galho / Chô, chuá / Eu não me canso de falar / Chô, chuá / O meu galho é Bahia.” Imagine só, os carnavais de hoje… O Carnaval de hoje, meu Deus, é uma tristeza! Você vê, os homens cantam essa música o ano inteirinho, é essa mesma música que passa no Carnaval. O povo não liga pra nada, só quer pular… Meu Deus, antigamente a gente fazia música mediana, quando chegava uma certa data, largava essa parte da música mediana, começavam os malandros a compor, como você via no Rio de Janeiro, “O teu cabelo não nega”, e tantas músicas que fizeram o sentido carnavalesco; o samba era diferente, com aquele gingado de Carnaval. Hoje não tem mais isso.

dafne | Não fazem mais música para o Carnaval.

É, não fazem mais. Então, eu não abraço o Carnaval de hoje por causa disso.

tacioli | Nesse Carnaval [n.e. 2004] você vai fazer o quê, Riachão?

Não, minha vida está entregue a Jesus e ali, o simpático, meu querido empresário, se arranjar alguma coisa pra gente fazer… Fora disso, o malandro fica em casa. Fico em casa ou na roça trabalhando. Não saio pra fazer nada. E assistir ao desfile daqui do Rio, que é o samba autêntico. Isso aí eu vou ver.

Mas você não vai nem no Pelourinho, que tem blocos com marcha?

Lá estão fazendo uma lembrança do Carnaval antigo. Eu até estou parabenizando o prefeito, os meninos da velha guarda que estão tocando as nossas músicas do passado. Eu estou muito feliz com isso. Mas é a base dos músicos, os cantores que ainda se lembram daquelas músicas antigas e coisa e tal. Mas eu mesmo ainda não tive a felicidade, estou parabenizando, mas ainda não tive a felicidade de ir lá.

dafne | No Rio voltou, há uns cinco anos, a ter blocos na rua.

Na rua? Isso é que interessa, é isso que é o Carnaval! É o que tinha na Bahia e não tem mais.

Há tantos blocos que cantam marchas antigas, como outros que fazem tema pro ano.

felipe | Tem até a Sebastiana [n.e. Associação dos Blocos do Rio de Janeiro, cujo nome refere-se a São Sebastião, dia 20 de Janeiro, aniversário da cidade do Rio de Janeiro]

Você vê… Estou com uma música nova aí, não sei se viram. Como essa música nova dava bem pra Carnaval, mas você não vê mais uma música nesse jeito. Uma música nova do ano passado. [canta] “Quero uma, quero duas, quero três / Quero quatro, quero cinco, quero seis / Não adianta brigar por amor / Amar só uma de cada vez”. [risos] Você vê o sentido da música carnavalesca, não é? Mas você não vê esses rapazes aí que estão com esses grupos, esses negócios, tirar uma coisa assim, que você sinta o Carnaval naquilo que eles cantam. Você vê a diferença com que eles fazem um negócio aí, com não-sei-o-quê, diz que é Olodum, não-sei-o-quê mais… Mas você não vê uma coisa dessa. [canta] “Quero uma, quero duas, quero três / Quero quatro, quero cinco, quero seis / Não adianta brigar por amor, amar só uma de cada vez / Eu só quero uma, basta uma só pra esse mês / Eu só quero uma / Como eu já disse / É uma de cada vez”. [risos]

seabra | Pode ser o hino do Gafieiras, né, Tacioli?

vieira | Uma vez eu fiz uma música de Carnaval no Maranhão, no tempo da eleição. Era mais ou menos assim: [canta em ritmo de marcha] “Lá vem a corriola de puxa-saco, marreteiros e cartola / Lá vem corriola / Quem conhece (…) / Faz o povo não dar bola / Pra ele não tem polícia / Não tem justiça / Não tem mais nada / (…) / Eu nunca vi tanta gente descarada / Lá vem! / Lá vem”. [risos]

riachão | Então, é isso aí, é Carnaval.

vieira | Carnaval é isso, na política, a gozação. No Maranhão tinha um cara que queria ser gaúcho, com um bigode que virava assim, né? E uma vez eu fui passando e ele estava entre a porta, capinando… Esse cara é um gozador. E falei, “Vou fazer um trabalho pra esse velho!”, disse pra turma. “Vou pensar…” E falaram, “Esse velho é metido a conquistador. Só quer menina nova!” [canta] “Lá vem seu bigodudo / Muito sereno, muito sisudo / O homem é tão cabeludo / Que o bigode cobre a boca cobre tudo / Cuidado, menina sapeca, não vá afobar com a jogada / Pois esse tal bigodudo / Quase no fim não é de nada / Ele é só de conversa / E não aguenta a parada / O beijo do bigodudo arranha a cara / Não é beijo é bigodada”. [risos] Isso é gozação, e não somente do Carnaval, mas do samba.

riachão | Mas isso que eu falo… Como aqui no Rio de Janeiro, com essas músicas maravilhosas, de crítica, mas tudo na base do Carnaval. Então é isso que eu não vejo hoje. Eu discordo profundamente dos carnavais de hoje. E aí vou pegar a passagem da escola de samba aqui do Rio de Janeiro pra matar a minha saudade de lá, porque o Carnaval da Bahia já era.

tacioli | Riachão, como perguntamos para o Seu Vieira, você acha que a sua vida teria sido diferente se você tivesse vindo pro Rio?

Eu acredito que estaria diferente. Porque aqui no Rio de Janeiro e em São Paulo — São Paulo naquele tempo não, mas agora é uma boa para quem vem pra esses lados, porque aqui a turma não pára. Eu fiquei encantado no Rio de Janeiro outro dia, quando fiz um trabalho com o Felipe, e vi na rua como é que se brinca… Lá na Bahia é sexta e sábado que se vê mais uma agitação, nêgo bebendo, essa coisa toda e tal, quero dizer, com mais força. Aqui não, é segunda, é terça, o couro come aí na rua… Eu tive a felicidade… os malandros que estavam tocando com a gente — [n.e. Felipe esclarece que era um regional que acompanhou Riachão no Rio de Janeiro], meu irmão, na rua, que maravilha, meu Deus, fiquei empolgado! Eu que estava com um trombone do lado que é outro pedaço de alegria, o grande Fred Dantas, aí o couro comeu na rua também… Eu comecei a cantar e Fred Dantas com o trombone… Taí a beleza do Rio de Janeiro.

felipe | Tanto no Rio como São Paulo está acontecendo um movimento do choro, dos garotos estudarem música a sério, mas para tocar música popular, para resgatar repertório, resgatar os compositores. Há fila de garotos pra fazer prova no Villa-Lobos, pra estudar música séria, mas para tocar samba, chorinho.

riachão | Beleza pura.

Isso já teve há duas décadas. Aí deu aquele hiato, mas agora voltou com força…

Tem que voltar… Eu me lembro que o nosso samba, eu tenho vontade, quero dizer, eu já conheço, mas tinha vontade dele ouvir esse samba, que eu não sei se vocês se recordam, vocês estão meninos jovens, mas a gente viu quando o samba teve uma caída triste. O samba teve uma caída tão triste, que eu vi malandro chorando na televisão, naquele programa de César Alencar, não estou bem certo o nome dele, acho que é César Alencar. O malandro chorando porque o samba estava morrendo. Foi coisa triste! Foi uma passagem triste pro nosso samba. Entrou esse negócio dessas músicas desses meninos aí, desses negócios de rock no inferno aí, uma passagem que teve que o samba, coitado, recebeu uma chutada na canela e mancou e foi descendo, descendo, descendo… Meu Deus, eu vi a coisa triste! Eu assisti ao programa de César Alencar. Teve malandro que morreu — é porque eu esqueço o nome das coisas, não posso contar assim detalhado, essa parte eu me lembro, que vi na televisão o camarada e César de Alencar conversando com o malandro. Mas Jesus tão bom, imediato, jogou na mente de Martinho da Vila, “Pequeno burguês”. Meus amigos, é coisa séria, “Pequeno burguês” trouxe o nosso samba para estar no lugar que está agora, porque a coisa estava triste pro lado do samba. Então chega Martinho com aquele [canta] “Felicidade / Passei no vestibular”, eu não me lembro direito. Meu irmão, eu vi uma revolução neste Brasil, e em toda a juventude, nos colégios, só dava esse samba de Martinho da Vila. [canta] “Felicidade.” Aí eu digo, “Meu Deus, é o ritmo nosso, está chegando, está chegando!”. E aí lá vem, muita alegria nas televisões aqui no Rio, e o couro comendo e aí voltou a partir desse samba, eu estou aqui — não sei se estou mentindo, meu Deus!. A partir desse samba, o nosso samba tomou lugar. Jesus aqui me manda o samba, quando eu senti essa emoção o samba de Martinho da Vila. Aí, eu tinha que vir pro Rio de Janeiro, não sei, havia uma data pra eu vir, não lembro nem mais o que era que eu vinha fazer, aí eu trouxe esse samba: [canta e batuca] “Cadê, cadê Martinho da Vila? / Está na Vila / Cadê, cadê Martinho da Vila? / Está na Vila / Vem cá crioulo, meu sambista bamba / Somente agora venho lhe abraçar/ Chego da Bahia, trago este samba / Para poder lhe homenagear / O nosso samba que estava morrendo / Quem não tem despeito pode afirmar / Chegou Martinho com Pequeno burguês / O samba veio reabilitar / Cadê, cadê Martinho da Vila? / Está na Vila / Cadê, cadê Martinho da Vila? / Está na Vila / Vem cá, crioulo, meu sambista bamba / Somente agora venho lhe abraçar / Chego da Bahia, trago este samba / Para poder lhe homenagear / O nosso samba que estava morrendo / Quem não tem despeito pode afirmar / Chegou Martinho com Pequeno burguês / O samba veio reabilitar”. E daí pra cá, meu irmão, com sinceridade, o samba não morreu mais. Aí vem alegria, e a alegria está aí, o couro está comendo. Agora cheguei no Rio, os meninos estão aí na rua… Está uma maravilha, meu samba está no céu!

seabra | Riachão, quando Jesus lhe manda um samba, ele manda inteirinho? [risos]

Inteirinho.

Você depois não tem que dar uma trabalhadinha?

Não, não, não. Vem logo assim. Todo samba vem logo, como eu cantei o negócio da baleia pra vocês e tantos outros sambas. [canta] “Não me queiras mal meu amor.” Eu não escrevo nada, vem assim [canta] “Não me queiras mal meu amor / Tanto assim / Sua lembrança não foge de mim”. Tudo isso baseado no amor. Vocês amam, todo mundo ama. Tudo é baseado nisso. Como também tem os sambas da tristeza, não é? Agora é mais samba dos acontecimentos, como o rádio me chamava, o Cronista Musical da Cidade, porque tudo o que acontecia saía um samba. Teve um samba foi no tempo do maruí. [n.e. Mosquito comum na região dos manguezais; sua picada é dolorosa] Naquele tempo as mocinhas usavam um vestido que ia até abaixo do joelho. Agora é que estão usando comprido. Então, só ficava esse pedaço da perna daqui pra baixo. Foi a desgraça que a gente viu o que o maruí fez na mulher. Era uma tristeza, meu irmão! Então a coisa foi tamanha que houve um congresso, uma reunião de médicos em Itaparica, e eu fui convidado. [risos] Isso porque no rádio, quando eu vi as pernas das meninas, a mulher sofrendo, eu disse [canta] “Doutor, dê um fim no maruí / Doutor, dê um fim no maruí / Olha, doutor, dê um fim no maruí, bicho ruim /Olha, doutor, dê um fim no maruí / Doutor, dê um fim no maruí / Bicho pequeno, tão danado, tão ferrudo / Nunca vi peste miúdo pra gostar de castigar / Seja na perna, no braço, na cabeça / No lugar onde apareça, ele gosta de ferrar / Não respeita saia / Gosta de criar intriga / Até mesmo na barriga de uma dona foi picar / Doutor, dê um fim no maruí…”. E aí isso no rádio tocando, tocando, tocando, eu aí fui convidado por uma organização da medicina pra ir cantar esse samba lá em Itaparica, num congresso de médico. E eu fui porque a coisa estava triste. Maruí botou pra quebrar nas pernas, bicho desgraçado! Era uma coisa muito era triste mesmo. O maruí é um insetozinho que deu uma epidemia lá em Salvador, que a coisa foi triste. É miudinho! A gente não enxerga o infeliz.

luiz paulo lima | Tem muitos nomes, né?

Cada lugar bota um nome.

vieira | Ele entra no ouvido, na narina, na boca. Pra você ficar num manguezal pra tirar um caranguejo ou ir pescar, você precisa passar querosene, queimar a pele pra espantar, senão você não trabalha.

riachão | É isso, é essa marca do bicho.

vieira | Eu me lembro do meu pai tirar caranguejo. Ele ia com aquele pedaço de madeira, querosene, essas coisas… Ele já te mordeu, Riachão?

riachão | Eu não sinto mordida, não. A Dalva fica admirada porque eu não me queixo desses bichos, não. A Dalva já fica imaginado quando as pessoas chegam em casa, porque o maruí bota pra quebrar. Foi uma repórter lá em casa e foi um sofrimento. Coitada! [risos]

dama | Eles gostam só de mulher?

riachão | É questão de natureza. Tem amigos lá, meu sobrinho mesmo não pode ir lá em casa. Ele vai, mas pra sofrer. [risos] Um negócio sério, eu não sei.

tacioli | Riachão, pra fechar faremos mais uma ou duas perguntas. Vamos falar sobre o show, tudo bem? Você falou bastante sobre a farra e da boemia. Como eram? Você continua no meio?

Hoje eu não continuo, só faço sentir saudade. Não posso ver, olha aí, cheguei aqui, vi os meninos no Rio com cavaquinho, violão, aí mexe no meu coração. Eu continuo com a mesma vontade da farra, mas só que eu não posso fazer mais essas farras hoje, porque tenho uns compromissozinhos, compreendeu, e aí a gente tem que se mancar um bocadinho. Não pode amanhecer como eu amanhecia. A minha vida era amanhecer o dia. Não é à toa que eu tenho um samba [canta e batuca] “Aí vem você/ Aí vem você / Com uma conversa pra rasgar o meu cartaz / Estou no samba / Me deixe em paz / O dia pra mim vale mais.” Mas quando a nêga vinha pra vir me buscar, o nêgo dizia: [canta] “Olha lá / Vem fulana aí e coisa e tal.” Aí o couro comia. [canta] “Aí vem você / Aí vem você / Com uma conversa pra rasgar o meu cartaz / Estou no samba / Mulher, me deixe em paz / O dia pra mim vale mais”. Então, a minha vida era essa, era samba, era orgia a noite inteira, meu Deus! [canta] “Quando a lua aparece do outro lado / Eu de cá dou meu suspiro / E fico bem preparado / Logo vou chamar o meu companheiro / Pra sair de violão e de pandeiro / Ó Deus! / Quando a lua…”. Então era essa a minha vida.

Têm algumas histórias dessa época? Riachão — Não, é isso mesmo, compreendeu? A minha história é essa, samba, orgia, cantar a noite toda, cachaça com rum. E foi uma vida jovem. Não tive outra vida. Música para mim é Deus. Então a minha vida é cantar, quando não estou cantando, estou assobiando, mas contando que a música esteja comigo. E não posso fazer as farras de hoje pra não atrapalhar as diretrizes do meu empresário [risos], porque se eu for pra farra, pode surgir um compromisso e aí já era.

dama | E a Dalvinha?

E a Dalvinha? Hoje também já não posso mais fazer uma certa farra porque… Não é porque ela vai me impedir, mas porque tenho que compreender que tenho que descansar, porque nós, né, parceiro velho [dirigindo-se ao Seu Vieira], não somos mais crianças, estamos com nossos quarentão!

vieira |Quarentão multiplicado por dois.

riachão | Ô, meus Deus, [erguendo os braços] tome conta da imprensa [risos] que é quem faz essa gente ainda reviver, aparecer. Vamos nós, sambistas, nós do morro, capoeiristas, seja lá quem for da malandragem, agradecer à impressa, porque ela vale ouro. Vocês são uns baluartes! Jesus abençoe a imprensa!

tacioli | Riachão, mas não foi a imprensa quem te deixou tanto tempo escondido assim?

Não, toda a vida a imprensa desenvolveu. Eu não quero saber da minha parte, eu quero saber da parte assim, geralmente. A Bahia não desenvolveu, mas desenvolvia no Rio, antes de São Paulo. Depois São Paulo caiu pra dentro. A Bahia também tem a sua grande parte da imprensa desenvolvendo os artistas. Quero dizer, o meu caso é, a imprensa, pouco ou muito, de acordo com o local, ela desenvolve e ajuda o artista. É por isso que eu peço a Deus que abençoe a imprensa. [risos]

Riachão, gostaria de saber a expectativa com relação ao show de hoje. Esse encontro com o Seu Vieira é inédito, vocês no mesmo palco…

Vai ser, sem dúvida nenhuma, uma apoteose para mim. Vai ser uma alegria, um entusiasmo, porque vou estar no palco com um da velha guarda do Maranhão, o grande Vieira. E estar num palco em São Paulo, cantando, brincando, levando alegria pra o nosso povo paulista, é uma grandeza pra mim, eu que sou da Bahia, e isso junto com o nosso simpático, queridíssimo, inteligentíssimo, grande artista, o Antônio Vieira; é Antônio, né? Antônio Vieira. E falando em Antônio Vieira eu me lembrei de lá do meu Garcia, que tem o colégio Antônio Vieira, e nesse Antônio Vieira. A gente fica conversando e vai lembrando de certas coisas alegres e tristes. Agora falando de Antônio Vieira eu me lembrei de quando mataram o meu colega. Foi um samba que foi tristeza, lágrimas, mas são coisas que aparecem na vida artística. Defronte ao colégio Antônio Vieira, a gente tomando cachaça, cá em cima no Garcia, ali na entrada da rua de minha casa. Aí todo mundo no bar bebendo, bebendo… Mas tinha uma fasezinha de escuridão, o blecaute, e aí não podia acender luz, não sei se era por causa de guerra, não sei que diacho era. Ficava tudo no escuro. Havia um pinguinho de luz pra se andar. Aí era todo mundo tomando cachaça. Mas na cachaça o diabo sempre está no meio. [risos] Resultado: nós nos despedimos, cada um pra seu canto. Eu desci pra minha casa, os outros malandros desceram pra rua do Baú, e outros malandros subiram pro Garcia, que é realmente onde tem o colégio Vieira, e eles moravam ali no Sabino. Havia uma tendinha de sapateiro bem defronte ao colégio Antônio Vieira. Um era sapateiro e o outro era alfaiate. Resultado: quando eles chegaram lá em cima, nasceu uma discussão, não sei por quê. Já saíram tudo cheio de cachaça, cada um pra sua casa, mas a cachaça é assim mesmo, o diabo está no meio… E, armada a discussão, não é que ele matou o outro. Ô, Deus, o sapateiro matou o alfaiate! Que tristeza! Um corre-corre. Aí correu o boato, o Garcia soube, meio mundo já tarde da noite, eu saí correndo com outros amigos e fomos lá pro Garcia. Tudo no escuro. O corpo já estava lá. O malandro apeou no mundo. O alfaiate estava lá no chão. Se arranjou um lençol pra cobrir. Aí os comentários porque isso, porque aquilo. São pequenas coisas que acontecem na vida da malandragem, da orgia, de bom e de mal. Agora sabe o que aconteceu? Esse malandro, somente por ouvir um samba, morreu. A Rádio Sociedade da Bahia fazia uns programas em tudo quanto era lugar. Tinha a Rádio visita a sua casa, tinha Carnaval nos bairros, tinha tudo isso. Era quem distraia o povo baiano era a Rádio Sociedade da Bahia. E ela ia pra todo lugar e levava esses malandros pra cantar. E levou a turma do rádio pra cantar na penitenciária lá do Largo do Santo Antônio. E quando eu cheguei lá — eu não sabia que ele estava preso ali, se eu soubesse eu não cantava, não. Aí quando chegou a hora de Riachão — foi um programa para os presos assistirem –, não é que ele estava ali? Vim saber isso depois. E quando chega a hora de Riachão, Riachão que era o Cronista Musical, tudo que acontecia jogava no ar, na base do samba, aí jogou no ar [canta e batuca]: “Mataram meu colega / Companheiro de confecção / Matou, matou sem dó / Sem razão / E deixou no chão / Ô, meu Deus / Misericórdia / Mataram meu colega / Companheiro de confecção / Matou, matou sem dó / Sem razão / E deixou no chão / O passeio da padaria Moderna é testemunha / Porque tomou parte / A escuridão desse local é quem tem culpa / Da morte do alfaiate / Mataram meu colega / Mataram meu colega (…)”. Então eu cantei esse samba (…) e tudo era preso, matador, assassino, compreendeu? [risos] Aí, ele estava ali assistindo ao samba. Oxá! Aí cantei o samba, teve aplauso assim mesmo, galinha assada. [risos] Resultado: o homem morreu com 15 dias. Morreu com 15 dias. Então são essas coisas da vida da gente, né, momentos de alegria, momentos de tristeza. São os acontecimentos.

Seu Vieira, e o que o senhor espera desse show de hoje, desse encontro?

vieira | Acho que vai ser de alto nível. O Riachão tem história, tem música simples e bonita. Eu vou fazer a minha parte, vou fazer o que posso. O meu repertório foi escolhido pelo Zeca Baleiro. Nós ensaiamos ontem. Espero que agrade a todos vocês. O Riachão vocês já conhecem. Eu sou meio desconhecido. Mas por um dedo se conhece o gigante, né? Então vocês vão ver a minha obra pra ver o meu tamanho.

Seu Vieira e Riachão, vou fazer a última pergunta pros dois. Pra vocês que são da mesma geração, existe alguma semelhança entre a música produzida no Maranhão e na Bahia? Em encontros como esse, o que salta?

vieira | Eu não vejo praticamente diferença. Tem estilos diferentes. Samba é samba em toda a parte do Brasil. Só não é a da nova turma que samba-rock, samba-reggae, samba-rap, samba-não-sei-o-quê, que afinal de contas, de samba não tem nada, mas o que estamos fazendo é samba. Quando é samba é samba.

riachão | É isso.

vieira | Vou mais adiante. Está surgindo aqui uma música sertaneja moderna. Isso não é música sertaneja, não.

riachão | Pois é isso.

vieira | A música sertaneja daqui ainda tem uma Inezita Barroso. Ela está no rumo. Como fazia a nossa Milu Melo. Como fazia Xavantinho e o outro menino. Essa é a música sertaneja, como temos a música sertaneja da nossa região, mas como diz o outro, cada um tem um gosto. O culpado disso é o poder público, porque se cada escola tivesse um pequeno sistema de som, e no recreio das crianças, elas ouvissem a música popular brasileira, não tinha essa invasão. Se o sujeito liga o rádio e é só rock; no Maranhão é reggae. É o mal dos erres. O que acontece? A criança não é culpada. Ela vai crescer e aprender a tocar um instrumento, ela toca essas músicas. No Maranhão não se ouve música popular brasileira. Tem apenas uma rádio que é universitária em que se ouve música maranhense, o resto é só música importada. O menino vai crescendo, o que ele vai produzir?

riachão | E aí?

vieira | Se ele aprender a ser jerimum, ele vai ser jerimum, não vai ser cabaça. Mas se ele aprendeu a ser cabaça, ele não vai virar jerimum, é cabaça mesmo! [risos] Gostaram da comparação?!

riachão | Taí.

vieira | Nós fazemos o que nós ouvimos. Somos a nossa própria mente que tomou forma. Tudo o que aprendemos na nossa infância, na nossa educação. Deveriam separar educação da instrução. O que você recebe de educação você passa para seus descendentes… Como eu digo: o homem é o que ele recebeu. Então, a parte musical é a mesma coisa. Se você só ouve música estrangeira, você não vai fazer a sua música que você nem conhece. É preciso que se eduque musicalmente esse país. Nos colégios, por esse sistema de som… E a imprensa. Infeliz do povo que perde a sua cultura.

riachão | Eu fiquei feliz quando soube que em todo Brasil se cantava a música de Riachão, porque o rádio apoiou, vendo na voz do meu grande amigo, que Deus já levou, o Jackson do Pandeiro, na voz do Trio Nordestino, então todo, todo, todo o Brasil tocou. Eu fiquei feliz com isso, porque era uma música sertaneja que se chamava música ”São Joanina”. [canta] “Rosinha vai com João / Chiquinha com Mané / Eu vou com a Buchechuda / Pra dançar o arrasta-pé / Rosinha vai com João / Chiquinha com Mané / Eu vou com a Buchechuda / Pra dançar o arrasta-pé / A moçada vai gritando / Acorda João / E as crianças vão gritando / Acorda João / As veias vão gritando / Acorda João / Quero ver tudo juntinho / Dançando num só rojão / Rosinha vai com João”. Isso eu vi que toda imprensa dizia que o Brasil todo estava tocando, toda escola cantava “Buchechuda”. Quero dizer, é o mesmo que a gente está dizendo: se toda essa gente botasse a música nossa, brasileira, pra tocar as coisas do nosso querido país, as criancinhas não iam pegar uma outra. Todo mundo gostava de “Buchechuda”.

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