CLEMENTE [2006]

editor do gafieiras
May 16 · 73 min read

Mais punk do que nunca, continua fazendo, cantando e falando ele próprio tudo o que quer.

Clemente ri bastante. E olha, é um riso gostoso, daqueles que contagiam. Pode ser a lembrança de uma bobagem de moleque ou uma piadinha com alguém do meio musical. Difícil imaginá-lo de cara fechada, sisudo; mas foi esse garoto de 45 anos, nascido e criado na Zona Norte de São Paulo, que escreveu há pouco mais de 20 anos que “nós estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira, pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer”. Pânico em São Paulo, aliás, no Brasil inteiro.

Ele devia rir na época, claro. Talvez tenha dado até boas gargalhadas depois de chegar ao fim desta sentença bombástica e seminal para o movimento punk brasileiro. Mas ele, e os amigos que o acompanham/acompanharam na saga da banda Inocentes, levou o negócio todo muito a sério. Gritou, em alto e furioso som, “É que a justiça sempre tarda / E ainda pode falhar / Não posso acreditar na sorte / Não tenho tempo pra esperar / Os olhos não vêm / Mas a carne sente / Que a raiva vai nos salvar”. Não engoliu seu descontentamento com os rumos caóticos que o movimento tomou durante a década de 1980. Enfrentou com sangue nos olhos as acusações de ser traidor dos punks e a dureza do início da década de 1990 para o rock brasileiro. Seguiu sério, mas sempre com bom humor.

Extremamente articulado, independente e agregador, Clemente deixou claro durante a conversa com o Gafieiras que sua curiosidade por tudo, principalmente pela música, o transformou e o fez ser quem é. Há anos trabalha no site Showlivre, apresentando programas e fazendo entrevistas sobre os mais variados gêneros/artistas, enquanto continua produzindo com o Inocentes e, mais recentemente, com a Plebe Rude (uma união dos sonhos do rock nacional). E mais punk do que nunca, afinal continua fazendo, cantando e falando ele próprio tudo o que quer.

A entrevista acabou e em seu lugar surgiu uma sede e uma fome daquelas ferozes e noturnas. Decidimos, Clemente inclusive, ir até o Lapinha, bar daqueles honestos na Lapa paulistana, para matar o que estava nos matando. Dito e feito. Clemente continuou rindo, a gente também, mas aí não era coisa de gravar.


{…} expediente

entrevistadores Dafne Sampaio, Daniel Almeida e Ricardo Tacioli produção Ricardo Tacioli fotos Fernando Angulo transcrição Marllon Chaves edição de texto Ricardo Tacioli texto de abertura Dafne Sampaio

Entrevista realizada em São Paulo/SP em 30 de novembro de 2006 nos estúdios da Showlivre.


Ricardo Tacioli — Clemente, quais perguntas você não agüenta mais responder? Clemente — [ afina a voz e diz… ] “Você ainda é punk?” Ou aquela famosa: “Por que Inocentes, hein?” Ai, ai, ai. Tem água aqui e copo ali.

Tacioli — Clemente, você já tem uma curta, mas bacana relação com o Gafieiras, graças ao Matinê. [ n.e. Especial infantil para adultos promovido pelo site em todo mês de outubro. Clemente participou da versão 2006, que teve como tema “Monstros, medos e angústias que a gente nunca esquece” ]

Clemente — Que foi bem bacana.

Tacioli — Bom, a proposta do site é colocar os vários protagonistas da música brasileira no mesmo espaço e com o mesmo tratamento editorial. E sempre por meio de um bate-papo e não de uma entrevista por conta de um lançamento de disco ou de sua entrada na Plebe.

Clemente — Tá legal!

Tacioli — Que lembranças você tem da sua infância? Onde você passou? E como era a sua relação com a casa onde morou?

Clemente — Eu tive uma infância boa. Sou paulistano. Quando nasci fui viver na Aclimação, do lado do Hospital Modelo. Era uma casa, uma curtição. A gente morava lá — era eu e as minhas duas irmãs. Era legal, porque era perto do Teatro Record, onde se filmava um monte de coisas. Com três, quatro anos de idade, vi programa de auditório com Os Incríveis tocando; as minhas irmãs me levavam. “Vamos lá!” Elas não tinham saco de ficar em casa comigo. Então, a primeira banda de rock que vi tocar foram Os Incríveis. Havia um cinema perto de casa, onde ia ver os filmes da Jovem Guarda. Eu lembro de’u chorando. A minha Xuxa foi a Jovem Guarda. [ risos ] Assim, tive o privilégio de ter o bonequinho do Tremendão e o bonequinho do Robertão. E aí, com seis, sete anos, eu mudei pro bairro do Limão. Aí, sim, fui pra periferia mesmo; meu pai comprou uma casa do BNH… Uma infância legal, aquela molecada de rua… Era uma rua com um conjunto habitacional e tal. Uma coisa super saudável, de jogar bola em terreno baldio e apertar a campainha da casa do vizinho e sair todo mundo correndo. [ risos ]

Dafne Sampaio — Ouvi há pouco tempo uma versão mais sofisticada desse negócio de apertar campainha e sair correndo. Apertava, colocava chiclete e saía correndo.

Clemente — Ôrra, que sacanagem. Fica grudado, né?

Dafne — Fica grudado. Se você tivesse pensado nisso.

Clemente — É oportunidade. [ risos ] Eu só saia correndo.

Tacioli — O que motivou a mudança da Aclimação foi a compra da casa?

Clemente — A compra da casa, né? Meu pai entrou no famoso plano do BHN. Era década de 1970. Quem era presidente? O Médici? Estava fazendo a Transamazônica. Brasil grande, não-sei-o-quê, e “Vamos investir no BNH, casa pro povo!”. [ risos ] Aí meu pai entrou na roubadona e nós fomos morar no bairro do Limão: Conjunto Habitacional Novo Pacaembu, olha que lindo.

Dafne — E como foi essa mudança de bairro?

Clemente — Foi legal pra mim. Eu era muito pivete. E tinha um monte de gente mudando pra lá, um monte de gente chegando de vários lugares. Então eu perdi aquela facilidade urbana de estar no Centro, de ir ao Teatro Record, de ir ao cinema pertinho. Era tudo busão, era tudo longe. Se meu pai não levava de carro — tinha um fusquinha, setentão -, ia de busão. Era uma outra relação: a gente ficava mais no bairro. E aí, foi super saudável porque havia aquela garotada do bairro que cresceu junto. Tanto que o baterista do Inocentes na época do Pânico em SP, da época da Warner, é meu amigo dessa época, dos seis anos de idade. Foi um dos primeiros amigos que conheci no bairro do Limão. E o baixista era o irmão dele. [ri ] Foi legal, porque vi a Copa de 70 lá, foi a primeira Copa transmitida. E a lembrança que eu tenho é boa. Quando saía um gol, a molecada toda saía na rua pra se abraçar. Perdia metade do jogo se abraçando, comemorando. E aí voltava cada um pra sua casa e continuava vendo o jogo. Aí saía outro gol. “Ahhhh!” E saía aquela molecada toda, uns dez moleques. Era bem divertido.

Tacioli — Qual era a profissão de seu pai?

Clemente — Meu pai teve loja, mas o lance dele era estar na rua; ele era comerciante. No começo ele era o famoso ambulante, que nem o Silvio Santos. Depois abriu uma loja; teve umas duas lojas grandes.

Tacioli — Loja do quê?

Clemente — Ah, de tudo, guarda-chuva, essas coisas.

Dafne — No bairro mesmo?

Clemente — Não, no Centrão (de São Paulo). Meu pai vivia no Centrão. Ele nunca parava na loja, porque vivia atrás da mulherada, né? [ risos ] Meu pai era uma figura. Tinha carteira de imprensa pra entrar de graça em tudo quanto era lugar. O cara cursou até o segundo ano primário, né? Aí ele viajava de avião pra Porto Alegre, uma coisa assim, e os caras o confundiam com o Lupicínio Rodrigues [ n.e. 1914–1974 | Cantor e compositor gaúcho autor de clássicos como “Nervos de aço”, “Felicidade”, “Esses moços” e “Se acaso você chegasse” ]. Ele ficava quietinho. “Senhor, venha na área vip!” “Humn? Sim!” Tinha um grupo regional em que tocava cavaquinho.

Dafne — Ele tocava cavaquinho?

Clemente — Tocava. Meu pai era uma figura, mas não parava em casa…

Dafne — Mas tocava choro?

Clemente — Ah, cara, nem sei o que ele tocava, porque eu não ia. Só vi as fotos dele com o grupinho. Acho que tocava choro, samba, seresta. Nunca vi esse grupo, somente a foto. [ riso ] Eu era o mais novo dos três (filhos).

Tacioli — Eram três filhos?

Clemente — É, naquela época, sim. Aí quando a gente mudou pro Limão, nasceram as duas mais novas.

Tacioli — Somente você de homem, Clemente?

Clemente — Só eu de homem e do meio. Aí tem o meu primo que foi criado com a gente. Um dia, com aquela coisa de baiano, o meu tio chegou na casa da minha mãe e falou: “Olha, eu vou pra Bahia. Você pode ficar com ele só um pouco? Volto daqui uns dois, três meses”. Até hoje ele não voltou. [ risos ] Ele chamava o meu pai de pai e o pai dele de tio-pai. E tenho dois meios-irmãos: um menino que fui conhecer quando tinha 28 anos e uma menina, lá do Rio Grande do Sul, quando meu pai ia pra lá disfarçado de Lupicínio Rodrigues. [ risos ] Meu pai era meio danado. Mas a família era grande.

Tacioli — E que tipo de música você ouvia na sua casa?

Clemente — Cara, ouvia muita música black, ouvia muito samba, ouvia samba-rock pra caramba. Aquela coisa no começo, minhas irmãs. Eu lembro até de um cara que namorava a minha irmã, a Márcia. O nome do cara era Didi. O cara era um black e ficava ensinando samba-rock pra elas. E eu lá, pivete, só olhando, o cara saindo de carro, todo de branco, aquele sapatão plataforma. A garagem do carro era daquelas descidinhas, sabe? Imagina o cara, “Uuh!”, escorregou e levantou, aquele bundão todo preto. [ risos ] Cara, eu rolava de rir. Mas o Didi era figura. Só ouvia isso aí. Mas a gente vivia numa época, no começo da década de 70, em que todo mundo ouvia rock. Ouvia-se muito Jackson 5. E a rádio tocava rock, tocava Black Sabbath, tocava Sweet, e a gente ouvia isso. Acho que com 11 anos eu ganhei o meu primeiro disco do Focus. “Porra, Focus! Legal!” Aí fui conhecer o Black Sabbath pelos amigos do bairro, Jimi Hendrix… E havia aquele programa na TV Globo, o Sábado Som, que o Nelson Motta apresentava. E havia o programa do Big John, eu não lembro o nome do programa dele, mas lembro até hoje ele mostrando o disco do Alice Cooper, um importado, que vinha com a calcinha dentro, e ele tirando. “Ê, calcinha!” Era rock and roll. E na escola todo mundo era rocker, não existia o pop propriamente dito. O rock era pop, mas não havia essa diferença de uma Madonna para um Metallica; todo mundo era mais ou menos a mesma coisa. Comecei a fazer rock por causa do Chuck Berry.

Tacioli — Isso com que idade?

Clemente — Eu tinha 11, 12 anos.

Tacioli — Mas a música já chamava sua atenção desse jeito?

Clemente — Ah, sim, né?! Havia os bailinhos e todo mundo ia dançar. “Nossa, que barulheira!”

Dafne — E o que chamava mais atenção no rock pra você: o som ou a atitude?

Clemente — Era tudo que o envolvia. Na verdade, eu gostava muito do rock in roll do anos 50, James Dean, aquela coisa toda, né? Eu gostava do Chuck Berry pra caramba. Na verdade, quando comecei a tocar eu queria ser o Chuck Berry.

Tacioli — E de que maneira você via essa turma?

Clemente — Toda a garotada via, era uma herança da Jovem Guarda. A gente cresceu ouvindo o rock da Jovem Guarda. Então, na famosa Sessão da Tarde tinha a Turma da Praia com Eric von Zipper [ n.e. líder da gangue de motoqueiros, interpretado por Harvey Lembeck, da séries de filmes A praia dos biquinis, Folias na praia e mais outros quatro filmes, protagonizados por Frankie Avalon e Annette Funicello ], depois os filmes do James Dean que passava de madrugada… Todo mundo queria ser James Dean. Eu queria ser o Chuck Berry. Little Richard, não! [ risos ] Havia aquela coisa do rock and roll, dos anos 50, principalmente. E na escola, lembro quando conheci o Douglas, que depois fundou comigo o Restos de Nada, que foi umas das primeiras bandas punks de São Paulo. Eu o conheci na escola. A gente se identificou em 76, porque eu estava com a famosa bolsa de couro comprada na feira hippie da Praça da República [ risos ]. Eu entrei na sala de aula com uma calça boca-de-sino gigantesca, um tamanco de madeira, um óculos escuro redondo, cabelão, bolsa a tiracolo e uma daquelas camisetas curtinhas, listrada, baby look. Ele olhou pra mim, eu olhei pra ele. Ele também tinha uma camiseta. “Você é roqueiro?” “Oh, sim, eu sou.” “Oh, que legal. Oi, amigo.” “Oi, amigo.” [ risos ] Eu lembro que ele foi assistir o Tommy [ n.e. filme de 1975 dirigido por Ken Russell baseado na ópera rock homônima do The Who ] no cinema e eu não podia entrar porque eu tinha 14 e ele 16. Ele foi ver e eu “Ah, queria ver o Tommy!”. Não, ele tinha 15, o filho-da-puta falsificou a carteira de identidade. Ele nasceu exatamente um ano depois de mim. Nasceu no mesmo dia em que nasci, 12 de maio, exatamente um ano antes. Era a vida de um rocker. Toda a molecada era assim. Havia os caretas, é claro.

Tacioli — Mas nessa época, antes de formar a banda, a música dividia atenção com quê?

Clemente — Futebol, né. O meu sonho era jogar bola, era ser zagueiro.

Tacioli — Zagueiro? Zagueiro do Corinthians?

Clemente — Zagueiro do Corinthians. Mas do Corinthians comecei a gostar mesmo em 77 quando foi campeão. Antes, em 76, bateu aquela dor quando eu vi (o Corinthians) rachando o Maracanã com o Fluminense na semifinal do Brasileirão… “Pô, isso que é time! A torcida foi até lá! A invasão, todo mundo de preto!” [ risos ] Em 77 quando surgiu o punk, eu falei “Esses caras são punk! [ ri ] É o meu time!”.

Tacioli — Mas antes qual era a adoração? Era o Santos?

Clemente — Eu gostava de futebol bem jogado. Gostava do Santos por causa do Pelé, tinha a Academia, do Palmeiras, “Pô, esse time joga pra caramba, apesar de ser um bando de boiola”. [ risos ]

Tacioli — Mas você ia em estádio, Clemente?

Clemente — Não, não, mas eu jogava muito. Nessa época fui ao estádio uma vez ver o Corinthians contra o América do Rio. Acho que o Geraldão era o centroavante. “Geraldão driblou um, driblou dois, driblou três… Na trave!” “A bola?!” “Não, o Geraldão!”. [ risos ] Uma piada, o Geraldão era uma figura. Mas eu jogava de fim de semana, era goleiro. E aí, quando tinha uns 13 anos, fui fazer um teste na escolinha de futebol da Aclimação, não passei porque tinha que usar óculos. “Pô, jogo bola todo dia, enxergo a bola, e os caras me falam que não posso jogar porque tenho que usar óculos.” Fiquei revoltado e comecei a tocar.

Tacioli — E o que motivou seu primeiro contato com um instrumento musical?

Clemente — Na verdade, quando eu conheci o Douglas — ele tinha 14 e eu 13 -, ele já vivia numa cena rocker mais ampla. Eu vivia com a molecada do meu bairro, do conjunto habitacional. E a irmã do Douglas Viscaíno, que era mais velha, namorava com um cara que, por coincidência, morava no final da minha rua. Ele também era bem mais velho que a gente, tinha uns vinte e poucos anos. E esse cara, o Valtinho, tinha uma coleção gigantesca de discos, tinha uma grana, não trabalhava, não fazia nada, ficava só colecionando com discos; acho que era DJ na época da discoteca. Ele tinha uma porrada de disco raro, coisa que pouca gente tinha. Hoje em dia a gente baixa da internet, é tudo mais fácil. Ele tinha Stooges, Cactus, umas coisas bem casca grossa mesmo. E esses discos todos ficavam na casa do Douglas, porque o cara namorava com a irmão dele. Quando eles estavam namorando, ouviam os discos; quando eles não estavam lá, a molecada fazia a festa. Então, todo sábado eu ia pra lá e ficávamos ouvindo disco, eu e o Douglas. Ouvindo MC5, “Olha que legal!”. “Você sabe o que é isso?!” “Não!” Conhecia Led Zepellin, Kiss, aquela coisa normal da garotada. E aí a gente teve contato com um mundo de música. E eu saía do conjunto habitacional e ia para a Vila Carolina, Vila Palmeira, Freguesia, Pirituba. Saí do Bairro do Limão e comecei ir mais para lá. E comecei a conhecer rockers, as gangues. Havia uma chamada “Os Marinheiros”. Quando eu morava no conjunto habitacional tinha os bailes, com fitas-cassetes e vinil, ou em outros bairros, e os caras passavam pelo meu bairro. Eram uns 50 caras bebendo vinho na rua. “Nossa, cara, o que é isso?! Vou ser assim!” [ risos ] E todos com aquela jaqueta de marinheiro do Exército Americano, aquela jaqueta preta de inverno. Tinha uma loja no centro da cidade, o Lixão, que vendia uniformes de soldados americanos no Vietnã. E os caras iam todos bonitinhos; às vezes tinha um furo. [ risos ] E todo mundo comprava lá. As jaquetas do Exército Brasileiro você não podia usar. Apanhava nas ruas; os milicos batiam e tomavam (a jaqueta). E eles todos tinham a jaqueta de marinheiro. Era um bando de marinheiro passando. E aí comecei a tomar contato com esse povo. E quando viram aqueles dois pivetes na escola — porque eles também estavam na escola — e nos bailes, falaram “Vocês conhecem Stooges?!”. [ com voz fina ] “Sim, por quê?” E aí aceitaram a gente. Eles não acreditavam na gente que falava dos discos e das músicas como se fosse a coisa mais natural do mundo. E a gente mesmo não sabia que era tão raro assim. Virei um rocker bebedor de vinho largado no mundo.

Tacioli — E como era a relação com a sua casa a partir do momento em que começou a conviver com isso?

Clemente — Ah, todo mundo ia em casa. Eu ia na casa do Douglas; o Douglas ia em casa, como todos os moleques. Aí o Douglas começou tocar guitarra e comecei a aprender com ele.

Tacioli — Mas bronca da família não teve?

Clemente — Não. Não teve encheção de saco. Enchei o saco pelas calças todas rasgadas, “Nunca mais vou costurar suas calças”, “Essa calça eu não lavo!”. “Tudo bem!” [ risos ] E gostava de andar com a calça rasgada, toda remendada… Era horrível, mas era rock’n’roll. Não havia nada “Não seja assim, não seja assado”. Nunca encheu o saco.

Tacioli — Sua mãe era dona de casa?

Clemente — Dona de casa. E o meu pai não vivia em casa, então, era só alegria. Era uma coisa de todos irem na casa do outro. As mães conheciam todos. Em casa chegavam o Douglas, Marcelino… e todos os caras que depois montaram banda. Galinha, Cavalo, Callegari… Comiam e passavam o dia lá. “Vamos para o som!”, saía e voltava de madrugada. “Pô, onde você estava?”, mas sabia com quem a gente estava. Era toda uma comunidade de bairro.

Tacioli — Clemente, você falou uma coisa bacana: você e o Douglas pegavam os discos e ouviam. Havia esse deslumbre com as novidades. Parece-me que nos anos 70 e 80 ouvir música era curtir um som com os amigos. Hoje, curtir um som é algo individualizado.

Clemente — Até pensei num negócio: vou dar uma festa e falar para cada um levar o seu iPod. [ risos ] E cada um ouve o que quiser. Será a festa mais louca, porque cada um vai dançar de um jeito. Pô, cada um com a sua trilha sonora. É chato isso, né, cara? Havia uma coisa de você dividir, sentar com os amigos e “Ouçam isso comigo!”, de se discutir uma música; cada um tinha uma impressão. Isso era legal e é uma perda dos tempos modernos. E o mais legal era que sempre alguém tinha algo pra falar da letra, “Pô, não tinha pensado nisso!” [ ri ], “Por que essa capa?!”.

Fernando Ângulo — O formato do disco em vinil ajudava nessa socialização?

Clemente — Ah, sim! Só o fato de você ter de levantar da cadeira para virar o bolachão [ ri ] já era uma interação. Não sou muito saudosista, não; acho que o CD também cumpre o seu papel, como um dia vão inventar uma pílula que a gente vai tomar e ouvir um som, mas o bolachão era legal. Era mais fácil você trabalhar uma arte no bolachão. Como o disco do Rolling Stones que tinha um zíper, ou do Alice Cooper que vinha uma calcinha, havia uns que você abria e era um puta poster… Tinha um do Sha Na Na ao vivo, aquilo era lindo! Abria o disco e tinha os 25 caras da banda, que era gigante. Estavam todos. “Pô, que banda! É a minha preferida!” Mas eu sinto falta dessa troca. Cada um chegava com o seu disco. Como os discos eram raros, às vezes o cara era conhecido pelo disco que tinha. “Pô, olhe lá o Zé que tem o PurpleMade in Japan!” “Oh! O cara tem?!” E o cara era recebido… Até mesmo quando começou o punk havia umas bandas raras, como o Stiff Little Fingers. Há uma perda com esse lance da música cada vez mais individualizada…

Dafne — Você falou que o Douglas foi aprendendo a tocar guitarra e você com ele. Era aprender ouvindo a música e tentando repetir ou… Havia algum método?

Clemente — Ouvir e tentar repetir no começo. O Douglas era muito bom nisso. Tirava as músicas do Black Sabbath perfeitamente, inclusive com os solos. Eu era mais tosco, aprendia somente a base. [ risos ] Aí fazia a base pra ele solar maravilhosamente. Tanto é que o cara é um puta guitarrista. E a banda começou com aquele lance do sofá, de ler na capa do disco “O cara tocou acordeom, guitarra, baixo, gaita…”. “O que você vai tocar, Clemente?” “Eu vou tocar baixo, guitarra, acordeom.” [ risos ] Ninguém imaginava… Eu era pra ser guitarrista-base, porque o Douglas era o solista. Mas como a gente nunca achava baixista, acabou sobrando o baixo na minha mão. Lembro até hoje do dia do primeiro ensaio: olhava e via as cordas mais grossas e “como vou tocar isso, não sei onde ficam as notas!”. [ risos ] Aí o baterista, que tocava tudo, explicou. “Ah, é igual!”

Tacioli — O aprendizado do baixo foi mais fácil?

Clemente — Pra mim, na época, foi, porque a guitarra tinha muita corda e eu bebia muito. [ ri ]

Tacioli — E o número só aumentava, né?

Clemente — Só. [ ri ] Mas a gente queria fazer rock. Lembro que o Douglas foi trabalhar de office boy para comprar a primeira guitarra dele. Comprou uma guitarra reformada da Del Vecchio. Depois comprou uns captadores Gibson. E o Valtinho, o cunhado dele, o cara dos discos, tinha um puta amplificador. “Vamos ouvir a primeira guitarra de verdade plugada num alto-falante! Vamos na casa do Douglas, vamos lá!” Acabou a luz. [ risos ] Ficamos a tarde inteira…

Dafne — Aquela expectativa de plugar e escutar…

Clemente — Fomos ouvir depois, mas aí perdeu a mística. Eu e o Douglas fizemos a 7ª série juntos. E a professora da aula de música falou: “Vocês terão de entrevistar um artista”. “Pô, vamos entrevistar quem?” E ele: “Vamos entrevistar a Rita Lee.” “Então, vamos.” Aí saímos. Pegamos com o Valtinho uns contatos.

Tacioli — O Valtinho era o cara.

Clemente — Ele era o cara. [ ri ] Achamos o escritório da Rita Lee. O pessoal olhou para a nossa cara, dois pivetinhos: “Viemos entrevistar a Rita Lee”. “Levem uns brindes da Rita Lee, uns balangandãs…” E tchau. “Rita Lee filha-da-puta! [ risos ] Aí fomos entrevistar a nossa banda preferida, o Made in Brazil. Fomos a Pompéia e o Oswaldo e o Celso, “arf”, nem tchum. Mas a gente queria o endereço do segundo vocalista do Made, o Perci Weiss. Eles deram o endereço, acho que era na Faria Lima. Fomos lá. “Viemos fazer uma entrevista com você.” “Ah, entra aí!” “Pô, cara legal!” [ ri ] Entramos, começamos a conversar sobre música… “Vocês conhecem isso?” “Sim, claro, temos o disco, que tem aquela música.” E o cara “Pô, do caralho!”. Ficamos super amigos do Perci por causa do conhecimento musical que a gente tinha. Fizemos a entrevista e levamos para a professora. Ele (Perci) chamou a gente para ir a um show do Made in Brazil no Teatro Záccaro, um show famoso onde o Made colocou um tanque de guerra no palco. A bateria ficava em cima de um tanque de guerra cenográfico, claro. Pisava no bumbo, “Pá!”, e saia fumaça.

Tacioli — Lá no Bexiga?

Clemente — Lá no Bexiga. Era o Teatro Aquarius na época. 1976. Puta show!! Umas baitas caixas (de som)…“Vamos ficar perto das caixas”. Chegamos e não tinha falante! [ ri ] Tinha um monte de caixa que era só para impressionar. [ risos ] Éramos fãs do Made. A primeira música que aprendi a tocar foi “Anjo da guarda”.

Tacioli — Você tinha um bode ou inveja do Douglas, que solava, e você não?

Clemente — Não, ficava à vontade. Eu tinha alma de baixista sem saber. Eu era guitarrista, fazia base na boa. Quando me deram o baixo, eu me descobri. Adorava tocar baixo.

Tacioli — E quais eram as suas referências?

Clemente — Pra mim era o John Entwistle, do Who. O cara era muito bom. Ouvia o disco Live at Leeds e dizia que era aquilo que queria ser. A guitarra tinha uns acordes, era muito cheio de coisa. Com o baixo eu me sentia à vontade. No primeiro show eu já era baixista.

Tacioli — O primeiro show como Restos de Nada?

Clemente — Já era o Restos de Nada. Na verdade, a primeira bandinha que montamos em 1976 nunca vingou. Eram os amigos que tentava ensaiar, que tentava fabricar pedal de bumbo. Não tinha guitarra e não tinha amplificador. Aquela coisa de pivetada. No primeiro show do Restos de Nada já no fim de 77 a gente conheceu um batera, o Charles, não o Gavin, dos Titãs. O negão tocava sax, bateria, piano, violão. O que você desse na mão do cara ele tocava. Ele tocava muito bateria. Então, a gente tinha uma base e começamos a ensaiar os três. Aprendi muito tocando com o Charles, a coisa do groove, do baixo, da batera. A gente fez um show na escola com um amigo nosso como vocalista e somente depois chegou o Ariel, que era da mesma turma nossa. Tinha o pessoal que era da Vila Carolina, eu do Limão; havia várias vilinhas por perto, mas cada uma com uma característica. E o Ariel era da Vila da Palmeira, que era bem barra pesada. Tanto ele quanto eu escrevíamos, e aí se formou o Restos de Nada, que nasceu rock e se descobriu punk. Isso porque a gente começou a ler matérias na revista Pop sobre punk, punk, punk… “Quais eram as referências do punk? Stooges, MC5…” Tudo o que a gente já gostava… New York Dolls, Stooges e MC5. É o que seria o roqueiro alternativo hoje: “Eu conheço a banda da Finlândia, da Escandinávia”; era a gente. “Você gosta de Led Zeppelin? É uma bosta. Eu gosto de New York Dolls!” O nosso negócio era dançar, rock and roll dos anos 50, o espírito do rock and roll, que era a rebeldia. Aquele filme do Led Zeppelin fui assistir no cinema, puta coisa chata, não terminava nunca, os caras solando pra caramba. O Iggy Pop, do Stooges, era um deus pra gente, era o cara. A idéia era essa: viver pouco, mas viver intensamente. Isso era o rock and roll.

Dafne — Quando vocês fizeram as primeiras composições do Restos de Nada estavam ainda nesta fase rock-não punk?

Clemente — A primeira música que escrevi, que se chama “Restos de nada”, fala: “Nós somos a verdade do mundo / Somos o restos de nada / À noite nós vagamos por aí / Pra ver o que resta de vocês / Cuidado se você estiver só / Ao encontrar com um de nós”. Sei que tinha uma frase assim: “Nós somos apenas lobos solitários / E o nosso uivo é o rock and roll”. [ risos ] Ainda era da fase de transição, porque quando chegou o punk, eu desconfiava. Você abria a revista Pop e “Festa punk na Hippopotamus”. [n.e. Famosa casa noturna carioca inaugurada em 1977 e freqüentada por celebridades nacionais e internacionais ] Eu lia as matérias gringas e achava do caralho, “Sex Pistols aprontam pra caralho!”, mas ao abrir a Pop…

Dafne — Aparecia mais moda punk?

Clemente — Aparecia mais modinha: “Como você enfiar alfinete na orelha”. Então ficou a metade mais ansiosa e mais ligada nas coisas da turma virou punk. E a outra metade, que era eu, o Douglas… “Parar de ouvir Justin pra ouvir esses caras que saem na revista Pop, festa na Hippopotamus, punk? Isso é moda.” Por incrível que pareça, comecei a levar o punk a sério mesmo quando o irmão do Marcelino, que depois foi o primeiro baterista do Inocentes, traduziu a letra de “Your generation”, do Generation X, que é a banda do Billy Idol. Virei punk por causa do Billy Idol, em suma. [ risos ] “Puta, é isso, é isso, tem a ver.” Eu conhecia as bandas, mas não tinha parado pra prestar atenção nas letras.

Dafne — Mas você já tinha ouvido discos?

Clemente — Já, já. A primeira audição de Sex Pistols para a nossa turma foi hilária. Alguém comprou o compacto de 12 polegadas, 45 rotações, importado — porque a gente só gostava dos importados — e a turma toda “Vamos ouvir esse tal de punk, de Sex Pistols”. Colocaram o disco e ninguém notou [ canta como se estivesse em rotação lenta ]… “Esse tal de punk é diferente mesmo, né?” [ risos ] Até que chegou o Charles que falou que estávamos ouvindo na rotação errada, mas ninguém falou nada. A gente estava acostumado com solos, mas não foi um choque, porque era uma tendência, era para onde estávamos indo. O tipo de roqueiro que gostava de Stooges, New York Dolls, rock dos anos 50, era contra essa boiolice do rock, eram os mesmos caras como oRamones, que ouviam as mesmas coisas, que estavam com as mesmas ansiedades. Aquela foto clássica do Ramones, de camisetas, era o visual da minha turma. Cabelo comprido, porque tudo mundo ainda era roqueiro, black no caso, jeans, tênis, camiseta listrada e jaqueta de couro, esta pensando exatamente nos anos 50. Se não tivessem inventado o punk rock nos Estados Unidos, a gente teria inventado aqui. Então, quando vimos o Ramos, nós nos vimos espelhados. O punk inglês que estourou para o mundo era uma reinvenção do punk americano. O Malcon Mclaren, com a mulher dele, que era estilista, que geram uma outra coisa, muito legal, mas primeiro contato com a coisa autêntica do punk a gente já tinha, que era aquela coisa do Ramones. Tanto é que quando comprei o primeiro disco do Dictators, que é uma banda da época do Ramones, também de Nova York, jaquetas de couro, com um puta black, olhei e falei: “Tem um cover do MC5? Não! Essa banda deve ser legal, não é possível.” [ ri ] E era legal. Mas começaram a falar do punk depois que ele foi para a Inglaterra. Não é porque estou na Plebe, mas eles falam “Estávamos em Londres em 1978 e vimos a coisa toda”, mas a gente estava acompanhando tudo daqui mesmo. Saía alguma novidade, vínhamos na Santos ou na Wob Bop pra comprar. A gente sabia tudo o que acontecia na cena porque esse espírito do Valtinho de colecionar coisas raras passou para a nossa turma, de ir atrás procurar. E sempre alguém trazia alguma informação nova.

Tacioli — No primeiro momento, o punk parece muito musical e comportamental. A partir de que momento as letras começaram a expressar a realidade? Teve isso?

Clemente — O punk nasceu no meio dos proletários. Uma das influências do punk brasileiro é a música estudantil: Paulo Cesar Pinheiro, Geraldo Vandré… [ risos ] (E graças à) maneira de escrever. Eu lembro que, nas festas que a gente fazia não era em uma casa noturna, porque não tinha isso. Era raro. Depois que a gente começou a usar os salões das sociedades de amigos de bairro, mas antes era na casa, no quintalzão ou garagem, com lona, ligava o stroble e o som no máximo, e os vizinhos… fodam-se. E um bando de louco dançando. E quando aparecia um compacto do Geraldo Vandré, era delírio total, todo mundo cantava junto. Não era brega como hoje. [ ri ] Tanto é que o Restos de Nada tocava um cover de “Para não dizer que não falei das flores”. Punk rock total! [ canta ] “Caminhando e cantando / E seguindo a canção / Somos todos iguais / Braços dados ou não.” Era delírio total da galera. A gente gostava de Elis Regina pra caralho. A gente tinha identificação com essa MPB. Quando a gente começou a fazer música, já sentia o peso dessa situação da ditadura militar. Você saia na rua com mais de quatro já era um aparelho comunista. [ ri ] Era foda. Ser parado pela polícia na periferia, ser revistado, era coisa normal. Salão de rock ser invadido pela polícia e levar todo mundo para passar a noite na cadeira era normal. Tanto é que eu lembro de quando mataram os comunistas na Lapa, a gente soube pelo Afanásio Jazadi… Falaram que era uma reunião de uma quadrilha, mas a gente soube que era uma reunião do Partidão, dos guerrilheiros do Araguaia.

Dafne — Foi aqui do lado, né?

Clemente — Foi aqui na Lapa. E a Freguesia, o Limão do lado. A gente vivia na Lapa, porque era meio o centrinho. Em vez de ir para o centro da cidade, víamos para a Lapa comprar as coisas. Foi um choque! O punk gringo nasceu nas escolas de arte. A Patti Smith era poeta. Não tem essa pegada tão política quanto o brasileiro, porque aqui nasceu no proletariado. A relação foi diferente.

Tacioli — No Brasil ou mais em São Paulo?

Clemente — Mais em São Paulo. Em Brasília era mais classe média, Porto Alegre também. No Rio era mais misturado. Quando fomos pela primeira vez ao Rio notamos que tudo era mais misturado. No show tinha um cabeludo, um surfista e um punk um ao lado do outro. Aqui em São Paulo era inadmissível. O cabeludo que entrasse no show apanharia pra caralho. [ ri ] Era uma coisa de gangue no começo, gangue de bairro. Você vai para o bairro debaixo, apanha. Se sobe, apanha. Coisas que acontecem até hoje na periferia.

Tacioli — No começo existia essa vontade de fazer parte de uma gangue.

Clemente — Na verdade, no começo era a nossa turma, que estudava no mesmo colégio, no mesmo bairro, a gente ia nos mesmos lugares. Não tinha isso de “Vamos formar uma gangue”.

Tacioli — Era uma turma. Clemente — Era uma turma que andava junto. Quando chegou a discoteca — que foi a idade média do rock brasileiro -, lembro que o Casa das Máquinas fazia um sucesso estrondoso, aí eles se envolveram naquela briga de trânsito e mataram um cara na porrada… Meu, acabou o rock! Não tinha mais show. O Made não fazia mais show, a Rita Lee não fazia mais show… Uma bosta! Então a molecada ficou “E agora?”. Foi aí que a gente começou a montar as bandas. “Não tem quem faça, a gente faz!”. Aquela coisa do bairro também acabou, assim como o rock, que saiu de moda. E todo mundo ouvia discoteca. Na escola todo mundo era roqueiro. O cara que curtia Peter Framptonera tão roqueiro quanto eu que curtia Stooges. Claro que a gente o chamava de “bundengo”, e a gente era mais barra pesada.

Dafne — “Bundengo”?

Clemente — “Bundengo”. [ risos ] Era todo bonitinho, as menininhas queriam sair com ele, tinha um carrinho, meio hippie, [ canta ] “Liberdade é uma calça velha / Azul e desbotada”. E nós uns puta maloqueiros que compravam roupas no lixão. [ risos ] Roupa do exército americano todo furado à bala. [ ri ] E esses caras começaram a dançar discoteca. “Ah, lá tem mina!” E a discoteca virou uma coisa odiosa pra gente. Uma bosta! Não tinha show, não tinha nada. Então você tinha de atravessar a cidade para ir num som de rock, num show, que não tinha muito, mas era mais “som de fita”, como a gente chamava que, traduzindo, era um grande baile de DJ. Tudo fita-cassete. Fazia a seleção dele e a gente delirava. E quando você começa a atravessar a cidade, você começa a correr perigos. Imagina você parar num trem, descer no Limão, pegar um ônibus e chegar na Vila dos Remédios, um lugar em que nunca foi? E lá um salão com outros caras, outros roqueiros, e chega aqueles 50 caras do bairro do Limão. Entendeu? Aí começou o espírito de guerra. Ou a gente andava, brigava e se defendia junto ou apanhava todo mundo. Mexeu com um, mexeu com todos. Aí é que começou essa história de gangue. Lembro quando a gente chegou um salão, o pessoal da Carolina, o da Vila Palmeira, os Ostrogodos, que eram uns caras mais velhos, nossos ídolos que andavam de jaqueta de couro, como os Hells Angels. Eles chegavam em um lugar e tudo parava: “Os Ostrogodos chegaram!”. Eles jogavam as jaquetas de couro no chão e formava uma pilha. Ficava bem no meio do salão. [ risos ] Vai pisar! [ risos ] Bêbado! E todo mundo ficava assim [ de braços cruzados ]. Dançando. [ de braços cruzados ] Só que a gente cresceu e começou a cruzar com eles. Sei que fomos nesse salão e não teve som, a polícia fechou, alguma coisa assim. E todo mundo voltou. Dois ônibus lotados. Muita gente, todo mundo fumando dentro do ônibus. Aí descemos na Lapa. Meu, tinha uns 70 caras descendo a Doze de Outubro. Aí lembro que o Canal, um cara da gangue, pegou uma lata de lixo, subiu num poste e “Eu sou o Canal!”. E jogou a lata de lixo numa vitrine. Destruímos a Doze de Outubro, todas as vitrines. Noutro dia, no jornal: “Punks destroem a Doze de Outubro”. [ risos ] Sem noção total, mas era o espírito rock and roll!

Tacioli — Mas pergunto porque o punk perdeu muito com as brigas.

Clemente — Sim, mas essas brigas eram no início, com essas coisas de bairro, de atravessar a cidade. Pô, passava perto de bar de nordestinos, viam aquele bando de punks com jaqueta de couro, “Ah! Vamos bater!”. Ou você segurava uma onda, ou apanhava em tudo quanto é lugar que você ia. Havia esse espírito. Com o tempo surgiram as bandas e a consciência de movimento, de ser um movimento punk. Então as gangues começaram a se juntar, começaram os shows. O Restos de Nada começou a fazer show… “Você ouve o mesmo som que eu ouço.” Com o movimento punk, com as bandas, as brigas acabaram, apaziguaram. Já não fazia mais sentido. Só que fui uma mudança de status quo. O cara que era mais fudido na gangue já não era mais; o mais fudido era o da banda, o que tocava. [ ri ] Desse começo mais romântico eu até gosto, era uma coisa de molecada.

Dafne — Mas rolaram outras brigas.

Clemente — As brigas não tinham caráter regional, político, ideológico. Eram brigas de moleque, de uma turma de um bairro contra de outro. Quando o movimento punk começou a tomar forma como movimento mesmo, aí essas brigas prejudicaram. Foi uma bosta!

Dafne — O que deu a liga ao movimento foi a música.

Clemente — Foi a música. A minha segunda banda, Condutores de Cadáver, foi quem deu espírito de movimento. Quando o Restos de Nada ia tocar era foda ter público. “Ah! Gosto mais de banda gringa!”. Com as bandas de fora usavam a bandeira da Inglaterra, a gente — do Condutores — começou a usar a bandeira do Brasil em cima da jaquela. Três caras da banda tinham máquina de fotografia, tiramos fotos com as caras achatadas [ coladas ] e fizemos botom. [ ri ] Os caras: “Pô, que banda é essa? São vocês, né?!” É isso, a gente tem que fazer o nosso, porque chegou uma hora que a música do Sex Pistols não falava da sua realidade. É do caralho, mas alguém precisa falar da sua realidade. Aí eu tinha que escrever “Pânico SP”. Aí, com o Condutores de Cadáver, a gente começou a organizar festivais. Em 1980, organizamos shows nos três dias de Carnaval. Lembro da filipeta: “Torne esse Carnaval sem efeito curtindo o punk rock lá na Gruta.” Tocou o Condutores, o Cólera — que surgiu em um ensaio dos Condutores -, o Vermes e uma banda de roquezão básico, a Cetro. E em três dias de Carnaval. Foi do caralho! E isso virou um tipo de evento legal. Depois o Condutores teve a proeza de fazer um show no Salão Beta da PUC. Aí o Kid Vinil já tinha o programa de rádio e anunciou o show…

Tacioli — Ele já era como Kid Vinil?

Clemente — Já como Kid Vinil o Antônio Carlos do nosso bairro. E quando anunciou o Condutores conseguiu reunir 600 punks de vários no Salão Beta. E reuniu por causa da rádio. “Pô, tem mais punks do que achávamos que tinha!” A gente não cruzava com todo mundo. Isso no fim de 1980. Aí vimos que o movimento punk existia. Aí o Condutores acabou e nasceu o Inocentes, em 81, em uma outra realidade. Quando começaram os famosos Gritos Suburbanos. “Vamos reunir as bandas e fazer shows com todo mundo junto para atrair a rapaziada, percorrer os bairros. Começou lá em São Miguel, na Zona Leste, com todas as bandas lá. Mas a polícia invadiu e acabou todo mundo em cana. Mas o movimento, esta cena alternativa no Brasil começou aí, com as bandas. Aí, sim, neste momento, as brigas atrapalhavam.

Tacioli — Clemente, você falou muito do cara que curtia o Peter Frampton, o bem-cheiroso…

Clemente — O bundengo… [ ri ]

Tacioli — que ele se dava bem com a mulherada… Como era a relação das mulheres com vocês, porque sempre tinha muito homem?

Clemente — Horrível, né? Show punk eram 50 homens e uma mina. Era uma bosta! Por isso que saía briga. [ risos ] Não tinha nada o que fazer, não tinha mulher para xavecar, briga… Aí em 81 começam a aparecer as minas punks. E as bandas com as minas, que era legal, coisa que o punk trouxe isso para o rock and roll. O Brasil, na década de 50, foi um dos poucos países em que havia uma cantora de rock. Nos Estados Unidos era uma coisa muito machista: Elvis Presley, Chuck Berry… Não tinha uma cantora. Todas as minas estavam na platéia. Aqui nós tínhamos a Celly Campelo. E o punk proporcionou a volta das meninas para o rock and roll.

Tacioli — Dá para ver o punk de uma ótica machista?

Clemente — O rock and roll é machista porque nasceu machista. E vai aprendendo a não ser. A gente é machista. [ ri ] Não dá para negar. A gente tenta não ser, mas você já nasce machista.

Tacioli — E a relação…

Clemente — Falei pra caralho. Vocês foram lá no fundo…

Tacioli — Mas é isso. E a cidade de São Paulo, o centro — você que falou bastante da periferia — como pontuava a música?

Clemente — Essa consciência de virar um movimento comportamental, político, social levou a gente para o centro, com punks de todos os bairros. E a gente se encontrava na São Bento. Então mudou a relação. Antes a gente vivia no bairro. A gente saiu do bairro e começou a se encontrar no centro da cidade. Abriu a Punk Rock Discos, então a gente freqüentava a Punk Rock; freqüentava a São Bento porque tinha uns shows de rock, isso em 75 até não sei que ano, mas era o lugar onde os roqueirinhos freqüentavam. Então, sempre tinha show lá. E os punks começaram a freqüentar e a estragar a festa dos caras, claro. E esses dois pontos de encontros que marcaram. E até os sons de fita mudaram para o centro. O templo do rock era no Bariri, no centro, aonde íamos à pé. Tudo ficou mais centralizado. Todas as gangues, de todos os lugares, iam para esses pontos. Elas começaram a conviver mais pacificamente.

Tacioli — E pra você, Clemente, musicalmente o centro de São Paulo lembra o quê, onde?

Clemente — Eu sempre vivi no centro porque meu pai trabalhava no centro. Sempre estava na loja dele, ficava com ele…

Tacioli — Onde ficava a loja dele?

Clemente — A primeira ficava na Praça da Sé/Santa Ifigênia, sempre no centrão. Tinha uma loja dele que era na Capitão Salomão, em frente à Igreja da Santa Ifigênia. Eu vivia ali, estava acostumado com o centro, com os caras as lojas, de conhecer todo mundo, o puteiro. Você tinha uma relação com o centro; não era somente um lugar de passagem. E fui office-boy, e office-boy atravessa a cidade. Você tem uma relação diferente… Quando era criancinha e ia para a cidade era estranho. Não era o seu lugar. O seu lugar era o bairro. A partir de um certo momento, o seu lugar é no centro, porque você conhece as ruas, sabe onde vai comer legal, onde vai beber, onde encontrar os seus amigos, se divertir, os cinemas, tudo… Então, essa relação com o centro da cidade ela foi só crescendo, ficando mais intensa…

Dafne — E essa relação também alimentou a música?

Clemente — Sim.

Dafne — Andar no centro…

Clemente — Sim, andar no centro… Sua música é mais cosmopolista, ela fala de sentimentos… Quando você mora na periferia, você vê a cidade longe. Você está indo embora? [ pergunta para uma das funcionárias da Showlivre ]

Funcionária — Estou.

Clemente — É só encostar a porta. Tá bom?

Funcionária — Falou pra vocês. Tchau!

Clemente — Tchau, tchau! Então comecei a fazer parte da fauna do centro. Então vivia mais no centro que no bairro. A gente ia para o centro e ficava. Voltava para o bairro para dormir. A partir de um certo momento, o centro se tornou o nosso habitat.

Tacioli — E nessa época, nos anos 80, musicalmente havia na cidade não movimentos organizados, mas o que depois se chamou de vanguarda… Como era essa convivência?

Clemente — Em 79, quando a gente ouviu o disco do Arrigo, o Clara Crocodilo, a gente pirou. Do caralho! Um disco que acompanhava a gente nas saídas. Era um disco que a gente adorava. Tudo o que tinha mais porrada, uma linguagem mais forte era com a gente mesmo. A gente não era…

Tacioli — Exclusivista?

Clemente — Pelo contrário, a gente gostava e íamos aos shows. Lembro até hoje do último festival da Tupi o Walter Franco cantou “Canalha”. A gente estava lá tentando entrar. Não conseguimos, mas queríamos ver o Walter Franco cantar “Canalha”. É do caralho essa música! Lembro que lotou e os bombeiros jogaram água, já que muita gente queria entrar. Rolou a maior briga lá fora para entrar no Anhembi. E bem a hora em que a gente estava chegando. “E agora?” E os punks em gangue têm aquele espírito: “Vamos entrar, vamos dar a volta”. “Não nos deixam entrar, vamos invadir!” Fechamos a jaqueta de couro e… Tinha o Alemão, não sei o que ele fez, pulou uma janela (…) Mas a gente sempre teve proximidade, sempre ouviu, gostou. E não era uma coisa repetida, cada um tinha uma praia. E a gente sempre respeitou. Isso era legal no começo do punk. Quando o punk paulistano ficou mundialmente conhecido em 82, na verdade era a segunda geração, que já chegou ouvindo punk para fazer punk. A minha ouvia rock, ouvia um monte de coisa pra fazer punk. Então, se você pegar Cólera, Inocentes, Olho Seco, todas fazem punk rock, mas elas não têm uma coisa a ver com a outra. Cada uma tem uma formação diferente… Depois é que vem o estreitismo e todos os estereótipos. É o que eu chamo de punk burro. “Eu sou punk, punk, punk, porque o punk…” O cara não ouve nada, não gosta de nada, não gosta de punk, então. O punk ficou chato, né? E aí que a gente sai. [ ri ] Tanto que na minha gangue a gente não ouvia somente punk, ouvia muito ska, muito rockabilly, ou seja, ouvia Straycats pra caralho, ouvia psycobilly, ouvia mpb, ouvia Arrigo Barnabé, ouvia tudo que tivesse que fosse legal, que tivesse uma coerência com a gente, independentemente de ser exatamente o mesmo estilo. Foi essa cena punk que propiciou que o rock paulista nascesse. Eles (os roqueiros) não falam isso, mas um dia a gente tem que falar, né? Por exemplo: quando conheci a Sandra, das Mercenárias, ela tocava piano com a Eliete Negreiros. Eu fui no show do Arrigo com ela, quando até xinguei o Arrigo. [ ri ] Estava muito chapado. Foi um show no SESC Pompéia. O cara começa o show tocando uma máquina de escrever. “Tec, tic, tec…” E eu esperando o Clara Crocodilo. “Tec tic tec”. “Que saco! Cadê a banda, cadê todo mundo!” [ risos ] “Esse cara tocando essa porra dessa máquina de escrever!” [ risos ] Chapado e falando alto. Ele olhou do palco… E eu “Vá se fuder, vou quebrar você!” [ risos ] Aí a Sandra: “Não, não, não! Estou tocando com a Eliete, que abriu o show”. “Ah! Então, tá bom.” Quando fui na casa da Sandra e ela me mostrou os seus discos, falei: “Ah, a única que dá para ouvir é essa Patti Smith e essa Ninah Hagen. Porque você não ouve essas coisas aqui e tal…”, e comecei a apresentar (outros sons). Aí, anos depois, ela montou as Mercenárias. Conheci o Miguel Barella, do Agentss, que foi em casa num ensaio. Ele disse: “Pô, do caralho, vocês são tipo Devo. A gente adora Devo!”. [ Toca a campainha do Showlivre, no andar de cima ] A gente sempre teve uma relação muito intensa com música desde o começo, de procurar coisas diferentes, de ir atrás de gente que investia em coisas diferentes. Não no óbvio. Sempre foi uma coisa alternativa, independentemente de vender ou não, a gente gostava da música. E é claro que isso se manteve. Então, lembro do primeiro show do Agentss no Carbono 14. Pra mim foi um dos melhores shows que eu vi. Eu estava lá, o Gordo… Lembro que o povo estava todo no chão, sentado, cabeludinho, Libelu total. [ risos ] Olhando a banda “devóide”! Eu e o Gordo olhamos: “Ô, gente, não é assim que se ouve esse tipo de som. Vamos levantar e dançar!” [ ri ] Aí virou uma puta festa, foi um puta show, entendeu? E o fato de termos lançado o Grito suburbano, que foi um dos primeiros discos. Isso mostrou muita gente o famoso “faça você mesmo do punk”, você também pode fazer, vá e faça! O rock paulista que veio depois deve muito à essa cena punk que começou na periferia. Na verdade, os caras não manjavam nada. Conheci todo mundo antes de virar a “inteligentzia” do rock nacional, de escrever na Bizz [ ri ]… Os caras ouviam Fafá de Belém e eram da Libelu! [ risos ] É sério! Eles: “Conheço todos esses músicos”. Depois que a gente deu a letra, né? “É por aqui”, (dizíamos a eles), aí os caras conheciam um monte de coisa, e com grana é tudo mais fácil.

Tacioli — Esse ecletismo da primeira geração do punk paulista/paulistano é o que motiva essa acusação de traição?

Clemente — Não. Esse lance de traição veio num momento assim: a gente conseguiu construir a cena punk, conseguiu construir um movimento, as gravadoras lançando as bandas e tal. O ápice e a queda foi o festival Começo do fim do mundo. E depois daquilo foi frustrante pra muita gente. (Depois) teve só a invasão do Rio, quando a gente terminou a noite com o Ronald Biggs, escalei o morro da Urca, aquelas histórias punk-rock… Terminar a noite bêbado com o Ronald Biggs foi do caralho! [ risos ] E aí o movimento punk parou porque teve a famosa matéria do Fantástico, que desmontou tudo. Foi a Silvia Popovic quem fez. Sempre era eu, o Ariel e outros caras que sempre falavam. Quando vimos que a Silvia Popovic estava com segundas intenções, falamos: “Meu, não vamos falar com você”. E demos o toque pra todo mundo: “Pô, não falem com essa mulher…”. Só que os caras nunca falavam, né? E você pega um canal pra falar um monte de besteira e dá uma garrafa de pinga pro cara, “Pá, pinga do caralho!”. Foi isso que mostraram no Fantástico, o cara falando bosta. Ali acabou. E voltaram as brigas de gang, voltou tudo. Tudo errado. A gente não conseguia mais produzir, não conseguia mais fazer show. A gente alugava o salão beta da PUC, ia fazer um show e terminava a PUC em chamas, gang brigando, se matando. “Meu, quero tocar! Sou músico antes de mais nada. Quero tocar!” Então falei: “Não ando mais com esses caras”. E fui andar com o rock paulista. Fui fazer show com Mercenárias, com Ira!, com todo mundo. Aí o Inocentes acabou. Mas a gente voltou pós-punk, quero dizer, quando a gente chegou na Warner, todo mundo (disse): “Ah, banda punk”, que era o rótulo, mas o disco é pós-punk.

Dafne — Esse momento da ruptura, da queda e da quebra do punk deve quanto às bandas da capital e do ABC?

Clemente — (As bandas) não se bicavam; havia uma divisão mesmo. A gente conseguiu juntar as bandas de São Paulo. As do ABC foi um trabalho. Pra fazer oComeço do fim do mundo tiveram que ser dois dias com dez bandas de São Paulo e dez bandas do ABC. Foi difícil. Tive que convencer cada gangue de São Paulo, falar “Meu, os caras do ABC são punks como você. O cara mora na puta que pariu, é fodido como você, entendeu?” E eu ia pra lá, pro ABC, e falava: “Meu, eu quero que vocês venham pra cá, mas venham aqui pra tocar, tocar com a gente, porque a gente é igual a vocês”. Os caras achavam que a gente era playboy porque morava na cidade, usava jaqueta de couro de verdade, né? Os caras usavam jaqueta de plástico fodido. Então, havia essa rixa braba, sabe guerra de torcida? Igual. Quando juntava era assim: 200 caras pra um lado, 200 pro outro; era guerra, briga de torcida mesmo.

Dafne — Mas fora essa diferença geográfica, havia uma diferença de formação musical?

Clemente — Sim. Havia diferença comportamental. Eles se achavam mais proletários do que a gente, porque pegavam trem e a gente era da periferia de São Paulo. A gente tinha acesso a um monte de informação e achava eles um bando de brucutu que não manjava nada de música. Então, a gente ia pra lá, ganhava as minas deles e eles ficavam putos. [ risos ]

Dafne — Tá explicado, porra!

Clemente — Em São Caetano tinha mulher pra caralho, cara! Quando a gente ia pra lá era festa; os caras queriam matar a gente. Na verdade, a briga toda começou por treta de mulher.

Dafne — Como sempre.

Clemente — Como sempre. “Ah, pô, mina aqui…”

Dafne — Ou falta ou excesso de mulher…

Clemente — São Paulo não tinha mulher. Lá era uma maravilha. A gente ia pra lá e as minas: “Pô, vou ficar com esses caras!”

Almeida — Ficar com os estrangeiros…

Clemente — Ficar com os estrangeiros. Os caras tinham jaqueta de couro legal, tomavam banho, tal. Os caras de lá não. “Punk não toma banho…”. Vá se fuder, cara! Diferenças de interpretação do punk rock. [ risos ] E aí, caralho, saía treta, não tinha jeito, né, cara?! Mas eu chegava lá e falava: “Meu, não vou sair daqui vivo.” Uns lugares… “Então você quer mesmo apaziguar a coisa, quer paz mesmo? Venha no nosso som.” “Claro, se vocês me convidarem, irei.” [ risos ] Cara, um lugar que não tinha pra onde correr. Se saísse uma briga, fodeu, não sabia pra onde ir.

Dafne — De casa eram uns dois dias.

Clemente — De um trem fazia a baldeação pra outro trem, um jegue e vamos embora. Mas foi isso que fez com que pudesse rolar o Começo do fim do mundo. Que fez com que pudesse ter lá 3 mil punks lá dentro, que fez com que pudesse ser um dos maiores festivais punk do mundo, pelo menos na época, entendeu?

Almeida — Isso teve repercussão fora daqui?

Clemente — Teve! Saiu no Maximum Rock”n”Roll, de Nova York, que era um zine que falava da cena mundial. Mesmo sem internet, sem nada, a gente se correspondia com os punks do mundo inteiro. Tudo via correio. Então,havia os punks da Polônia… Era engraçado. Os caras ainda gravavam pela gravadora estatal, que era comunista. E eles: “Aí, meu, manda café pra nós”. “Vamos mandar uns cafés.” E os caras mandavam uns discão, os discão da gravadora estatal, que tinha aquele buracão ainda assim. “Pô, meu, como ouvir isso?” [ risos ] Mas era muito legal. Os punks da Finlândia… Tanto que fiz um show agora e tinha um finlandês lá, um cara meio branco pra caralho, loiro e tal. “Porra, do caralho!”, e falando português. Porque finlandês e português são línguas fáceis: para quem fala português, aprender finlandês (é fácil). Por exemplo: “Paska”, que é merda, é p-a-s-k-a, você aprende rapidinho, né? E aí o cara aqui no Brasil: “Pô, o show de vocês e dos (Garotos) Podres, de 81… Ouço vocês lá da Finlândia e não-sei-o-quê.”. “Caralho!” [ risos] E ele: “É bom mesmo”. “Pô,obrigado, cara”. A gente se correspondia como mundo inteiro.

Tacioli — Mas em inglês?

Clemente — Inglês, tosco ainda, né, cara? “Me want your vinil.” [ risos ] “Do you want my vinil?” [ risos ] A gente saiu em duas coletâneas na Alemanha. O Grito suburbanofoi lançado na Alemanha com o nome Volks Grito. Saímos em uma outra coletânea chamada Life is a joke, que é uma coletânea com bandas da Espanha, de tudo quanto é lado. E isso numa época em que o rock brasileiro ainda tava… Todo mundo tocando lá Napalm. E o Jello Biafra, na sua coluna no Maximum Rock’n’Rol, pôs o nosso compacto em sexto lugar. Tanto é que, quando ele veio pro Brasil em 92, na Eco92, tocou com o Sepultura, e chamou a gente no camarim. Falou: “O Clemente, o Fábio, o Redson. Pô, quero falar com os caras!”. A gente se correspondia. Aí fomos lá. E foi engraçado, porque a gente tentou entrar no camarim e não deixaram. “Porra, a gente conhece o cara faz tanto tempo.” Era um pessoalzinho da MTV. Aí nós lá no bar — eu, o Redson e o Fabiano -, aparece um segurança: [ fala com voz grave e empostada ] “Por favor, o senhor Biafra mandou chamá-los”. [ risos ] “A vingança!” Entramos no camarim. “E aí?! Do you want my vinil?” [ risos ]

Dafne — Do you remember my vinil?

Clemente — “Oh, Yes! Good, very good!” O legal do punk era essa teia, e essa era a idéia… Por isso que a gente acreditava tanto que a revolução ia acontecer na semana que vem, porque havia uma teia mundial de jovens. O punk proporcionou de novo uma linguagem comum pra jovens do mundo inteiro, e isso é do caralho, né? Essa coisa de você se comunicar com um monte de culturas diferentes.

Tacioli — Clemente, você falou que o punk era muito coletivo — a criação, a sociabilidade. Hoje o punk seria viável?

Clemente — Cara, engraçado, não sei, esse negócio de internet aproximou tanto, mas ela é muito individualista. Vejo a minha filha: ela não sai do quarto dela…

Tacioli — Tem quantos anos?

Clemente — Tem 19 anos. Ela não sai do quarto dela. Eu com 19 anos ia encontrar a minha turma. E as pessoas são isso, ficam falando com o mundo, mas estão sozinhas. Estão lá ao computador, no Messenger e conversando e trocando e tal e não estão com ninguém. E eu não, porra, “Ficar em casa com 19 anos?”. Nunca, eu ia pra São Bento, ia encontrar a turma, conversar, ouvir música, ver filme; era estar na rua, ver as coisas de verdade. Esse negócio virtual é realmente virtual demais [ risos ], não existe, saca? E as pessoas estão cada dia mais isoladas. Mas por outro lado tem uma cena alternativa crescendo. É meio doido. Hoje eu chego numa Outs parece que estou numa casa punk de 77, porque o visual é o mesmo, o som é o mesmo. [ risos ] As bandas de hoje são iguais às bandas de 77. Então, estou em casa. O comportamento é o mesmo. Forgotten Boys é o Dead Boys, uma banda que vi em 76, 77. Então assim, é muito louco isso porque é um retorno. E o visual é o mesmo, cara, é o mesmo! É o visual que a gente queria ter na época, mas não tinha grana, porque não havia onde comprar aquelas coisas; você tinha que fazer. Então ficava lá colando a pulserinha, colando um rebite, fazendo um cinto, “Den-den-den”, e aí chegava à noite e o policial “Dá esse cinto!”. E chorava, “Fiquei a noite inteira fazendo!”. [ risos ] Hoje você vai na Galeria, entra de um lado bancário e sai do outro lado tatuado, punk pra caralho.

Tacioli — Mas você tem essa relação afetivamente forte com a Galeria, com esses espaços…

Clemente — Sim.

Tacioli — Mas de frequentar? Ou é algo frustrante?

Clemente — Não, pelo contrário, é legal, porque quando entrei na Galeria pela primeira vez pra comprar um disco na Wob Bop, em 78, só tinha uma loja, que era no segundo andar, que era Wob Bop. Havia um zine da Wob Bop, que falava de rockabilly dos anos 50, depois começou a falar de punk. Começava a vir umas pinceladinhas. “Pô, do caralho!” Era lá na Wob Bop que chegavam as novidades do punk-rock. Foi lá que eu comprei todos os meus discos básicos do punk. E era aquela coisa: chegava um lote, cada um pegava um. Então, eu tinha um e o outro tinha um outro disco, ninguém tinha o mesmo. Comprei o primeiro do Bad Boys; então, somente eu era quem tinha o primeiro do Bad Boys. Mas eu não tinha o Stiff Little Fingers. Aí a gente era obrigado a trocar como outro e gravar. Então na casa do Gustá, um amigo nosso da Vila Carolina, era onde ficavam os discos. Todo mundo ia lá, deixava os discos, escolhia e fazia a seleção de fitas-cassetes.

Tacioli — Era uma discoteca coletiva?

Clemente — É. Não era uma coisa combinada, porque a casa do Gustá era o lugar onde a gente ficava. Às vezes não havia lugar pra ir na sexta-feira, voltava da escola, “Ah, vamos pra casa do Gustá, né?”. A mãe dele não reclamava, ele tinha um puta som, “a nossa equipe de baile” ficava lá [ risos ], o equipamento era dele… E a gente fazia as seleções de fitas lá. Chegava um e “Pô, olha só o que eu trouxe aqui!”. “Nossa, que é isso, um Cure?” O primeiro do Cure que eu comprei, Three imaginary boys, não tinha foto dos caras. “Pô, como são esses caras?” [ risos ] Fiquei imaginando os caras uns três anos até ver uma foto numa revista gringa. “Olha o Cure, olha que legal! Até que enfim!” E aí ficava tudo lá e cada um pegava um pouco. Tanto que para o programa doKid Vinil muita coisa saía dessa discoteca. O Kid era da nossa turma. Ele tinha muita coisa também.

Tacioli — Ele era mais velho.

Clemente — Um pouco mais velho, o Antônio Carlos. Tinha as tardes de futebol. Todo mundo jogava bola bêbado e de jaqueta de couro. [ risos ] O Kid não jogava. Mas os discos ficavam lá. Às vezes ele pegava um disco pra tocar no programa de rádio.

Tacioli — Clemente, você…

Clemente — Estou muito prolixo hoje. O papo vai pra lá, volta…

Tacioli Não, mas é isso mesmo, vamos costurando. Você falou que ir pro ABC é coisa de um diplomata. Quando e de que forma isso — ser um porta-voz — se manifestou em você?

Clemente — Não sei, cara. Sempre tive essa coisa de chamar. Nunca fui um cara que gostasse de segmentar. É engraçado: na turma punk da Carolina, tinha o Pedrão, que era o cara que fazia o samba-enredo da Primeira de Vila Carolina, da escola de samba; tinha um hippie velho, amigo nosso, que andava com a gente. Tinha um povo meio estranho. Pô, meu, era um coisa de unir, mas não sei. Sempre tive facilidade com texto. Por exemplo: quando saiu a matéria no Estadão destruindo o punk, a gente estava lá na Punk Rock. Todo mundo olhou pra mim e falou: “Ó, meu, você quem vai escrever”. Não sei se é porque eu estava na faculdade na época, oque era raro, né?

Tacioli — Você fazia o quê?

Clemente — Eu fazia Administração, não; eu fazia Comércio Exterior. Eu tinha prestado pra jornalismo. Passei, mas não tinha grana pra pagar. Na USP não consegui entrar. E a firma falou: “A gente paga a faculdade, mas você tem que fazer Comércio Exterior”. Era uma empresa de comércio exterior, né? E aí pagaram o curso. Nos primeiros dois anos fiquei na Administração. Eu odiava aquilo; parecia que estava indo para a forca. Não era o curso que eu queria fazer, mas “de grátis até injeção no olho”. E o mais legal é que eu fazia Comércio Exterior nas Faculdades Tibiriçá, onde é o Colégio São Bento, ali no Largo São Bento. [ ri ] Aí saía na hora do intervalo com os amigos da faculdade, e os punks, um puta lixo, “Ô Clemente! E aí, Clemente!”. Os caras: “São seus amigos?”. “Meus?! Não! Nunca vi.” [ risos ]

Tacioli — Seu visual na faculdade era comportado.

Clemente — Saia do trampo e ia pra faculdade direto. Trabalhava o dia inteiro, saía do trampo, faculdade, saía da faculdade onze e meia, meia-noite, chegava em casa, jantava, aí outro dia, seis horas da manhã. Era uma porrada.

Ângulo — E a música ficava somente para o fim de semana?

Clemente — Fim de semana. Aí a gente ensaiava na minha casa: das duas até as seis. Era uma barulheira do cão. Ia todo mundo lá em casa, a gangue inteira. Era um salão grande, onde ficavam aqueles montes de litros de vinho. [ ri ] Ficava todo mundo lá, só ouvindo, conversando, ia pro quintal. Os caras tocavam uma zona na minha casa, os filhos-da-puta. Meu vizinho delirava, adorava. Ele ficava na janela e, quando passava um cara de moicano, falava: “Parece uma galinha, quaquaquá”. E rolava. [ risos ] “Olha aquele lá que tem os cabelos arrepiados, tomou um choque! Quaquaquá.” O cara adorava. Ele me aturava de sábado. Aí, no domingo, eu tava fudido: chegava e deitava às seis da manhã, e às nove horas, pum, aquele Roberto Carlos alto pra caralho. Era o vizinho fazendo churrasco.

Tacioli — Ele se vingando.

Clemente — Na boa. Eu só virava, “Tá bom”. Ele nunca reclamou, meu! (O som) era muito alto, cara. Tinha um Thunder Sound pra guitarra, cabeça e caixa ligados no dez, distorção, gritando pra caralho, e o cara aturava na boa.

Almeida — Mas você acha que era por medo ou por cordialidade?

Clemente — Não, ele achava legal aquilo, adorava, curtia, gostava de ver a molecada… E eu o aturava. Era essa coisa de “o meu direito ir até onde vai o seu”. E voltando do escrever… Era uma coisa natural; acabei escrevendo a carta pro Estadão… E aí quando a carta foi publicada, o Fernando Meirelles viu e já foi fazer o documentário. O Bivar viu e fez a matéria pro Gallery. Aí todo mundo viu que existia punk no Brasil. A gente não mandava release pra jornal (pra falar) o que estava acontecendo, entendeu? Isso era uma coisa nossa. A gente fazia porque gostava de música e achava que essa era a nossa vida. Não importava se “Vamos…”

Dafne — Vamos ganhar dinheiro com isso.

Clemente — Não, não.

Almeida — Não precisava estar na mídia pra isso ser real, né? Não precisava ser notícia pra isso se tornar uma realidade.

Clemente — Não, a gente estava pouco se fodendo. Então, quando a mídia descobriu o punk rock ele já existia fazia tempo. Teve um show de punk desses Gritos Urbanos que rodavam pela periferia de São Paulo na zona sul quando os punks da zona sul apostaram com a minha turma, que era da zona norte, que a gente não ia conseguir mais punks do que tinha lá. Falamos: “O quê?”. Alugamos três ônibus da CMTC, mas lotado, apinhado de punk. E quando pararam os três ônibus e desceram 60 caras de cada um: “Pô, meu!”. Fora aqueles que vieram de fora. Foi do caralho! E isso era tudo coisa nossa, coisa do movimento punk. E já acontecia antes da grande mídia descobrir punk.

Almeida — Você lembra quem fez a matéria, Clemente?

Clemente — Luiz Fernando Emediato. Eu não sei o que ele faz hoje, mas foi a coisa mais estúpida que já vi escrita sobre punk.

Almeida — Teve uma tréplica pra tua…

Clemente — Eu fiz a carta…

Almeida — Sim, mas uma resposta…

Clemente — Ah, teve uma respostinha meio “É, vocês falam que não violentos, mas no cartaz está escrito: Moqueia tudo na quebrada”. [ risos ]

Tacioli — Mas essa carta, que é emblemática, gerou outras cartas, outras expressões…

Clemente — Cara, (na carta) fiz uma dissertação sobre o punk. Falava que era um movimento social por causa disso, disso e daquilo; que era político por causa disso, disso e daquilo; que era até econômico porque a gente produzia nossos próprios discos… Meu, era um tratado, um manifesto! O problema é que não tenho mais a carta. E é claro que eu menti um pouco, porque aquele bando de bêbado… [ risos ] Mas ficou bonita. O cara leu e ficou meio assim: “Você falou tudo isso, mas no flyer do show — que eu havia enviado — está escrito Moqueia tudo na quebrada”. [ risos ] Nem respondi.

Tacioli — Mas tiveram outros momentos em que você sentiu a necessidade de se expressar como na carta?

Clemente — Sim. Aí fiz o famoso manifesto, que foi na (revista) Galery Around, que tem a frase “Estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira, para atrasar o Trem das Onze, para pisar nas flores do Geraldo Vandré, para pintar de negro a Asa Branca e fazer da Amélia uma mulher qualquer”. Mas essa frase eu falava em 79, na Carolina, quando enchia a cara, subia no muro e declamava: “Um dia o punk rock…” Preconizando, fazendo já…

Dafne — Futurologia…

Clemente — Já pensando na revolução punk que ia acontecer. Aí todo mundo ria pra caralho. Era a maior, tinha um monte de músico da MPB. E isso porque a gente ouvia isso, entendeu? A gente queria uma ruptura com a idiotice. Achávamos que a gente era o novo e fazia parte disso. A gente não achava que era uma coisa estrangeira, saca? A gente fazia parte disso, era uma linguagem. E o rock’n’roll existia no Brasil desde os anos 50, né, cara? Não tinha essa de: “Ah, vocês fazem rock, punk, coisa gringa”. Não! A gente estava dando continuidade à uma coisa que fazia parte da cultura brasileira”.

Tacioli — Clemente, você tem esse trato com o texto. Você gosta da letra, falou do jornalismo. O que você lia?

Clemente — Eu lia Nietzsche com 14, 15 anos. Ficava discutindo como professor de português: “Ah, porque Nietzsche, o super-homem…” Nem lembro mais. E bêbado: “Ah, e Nietszche…”. E ele: “Você tá lendo Nietzsche?” [ ri ] “Tô.”

Tacioli — Onde você achava essas histórias?

Clemente — Na turma, nessa troca, entendeu? Na casa do Douglas, quando a gente era pivetinho, líamos Hermann Hesse, né? O Lobo da estepe, essa coisa toda. Gibran Kalil Gibran, essa coisa de hippie. E aí foi indo até chegar ao George Orwell da vida. Então, tudo que ia na mão (era lido), né? E até chegar no Maiakovski, que era o meu ídolo. “Quero escrever que nem esse cara. Quero morrer que nem ele.” Como era que ele falava? “Antes morrer de vodka do que de tédio”. Era isso que eu fazia. [ risos ]

Tacioli — Mas com Sangue de Boi…

Clemente — Está quente aqui, né? Vou abrir essa janela… Na verdade, eu queria mais ser escritor do que músico. Gostava muito de Camus. Não só eu, porque o The Cure em “Killing an arab” é um trecho de O estrangeiro. Você pega A queda… Todo mundo era meio existencialista. Tanto que uns caras os punks dos novos existencialistas. O que acontece com essa segunda geração, que eu chamo de “mais tapada, é que se perdeu a poesia. Ficou somente a coisa: [ canta ] “Nós temos que destruir o sistema / O governo nos fode, nós vamos fuder…” Não é isso, né, cara?

Tacioli — Foi nesse sentido que perguntei se esse ecletismo motivava essa história “ Ah, os traidores…”. Você eram muito mais ecléticos…

Dafne — É posterior.

Clemente — É posterior. Houve uma hora em que falei: “Meu, chega! Vocês são os punks, eu não sou mais”. Fui a um show punk que teve na Galeria um ano atrás e falei: “Nossa, realmente não sou punk. Isso aí é punk. Eu não sou mais!”. Não tem nada a ver, fechado, os caras de periferia, [ engrossa a voz ] “Todo mundo é boy. Você é boy, você é boy. Vou socar você. Vamos destruir o sistema!”. A música é ruim, é tudo ruim. As letras são ruins. Muito ruim, cara. Eu não sou punk, sou qualquer outra coisa.

Dafne — Mas é possível ser punk não sendo mais jovem? Uma coisa está ligada a outra ou não?

Clemente — Cara, acho que não. O Ronald Biggs era um puta punk e era velho pra caralho na nossa época. [ risos ]

Almeida — Como foi esse encontro?

Clemente — O Ronald Biggs, na verdade, gravou uma música com o Sex Pistols em 78, chamada “Ninguém é inocente”, que entrou naquele filme The Great Rock”n”Roll Swindle, do Sex Pistols [ n.e. filme de 1980 dirigido por Julien Temple ]. Eles vieram para o Rio de Janeiro, gravaram uma cena como se fosse uma banda. Era um sargento nazista no baixo, Klaus Bormann, não sei o nome, mas que estava aqui escondido no Brasil, todo velhão fingindo que estava tocando baixo; e o Ronald Biggs cantando… E saiu um single dessa música. Então o Ronald Biggs virou um ícone do punk que deu certo. Tomou dos ricos para dar aos pobres, no caso ele mesmo. [ risos ] E essa era a brincadeira! Tanto é que muitos punk hoje falam “Sex Pistols não foi punk!”. Claro que foi, meu! Ia às gravadoras, assinava um puta contrato milionário, depois ia lá, fodia tudo e pegava uma puta grana. “Ua! Viva!” Porra, coisa mais punk do que isso? Então, o punk ficou chato, você ser punk de verdade ou de mentira, ou você andar assim ou assado. Ser punk é muito mais do que isso, de todo mundo se limitar. Você absorver várias coisas e usar numa outra linguagem, que é a sua. Mas tem vários escritores que são punks até hoje, tem muita gente. Não tenho mais a preocupação em ser punk, entendeu? Sou eu mesmo, que se foda o hoje em dia. Eu gosto de música, ouço um monte de coisa. Um dia eu estava delirando ouvindo o Mercado de Peixe, não sei se vocês conhecem?

Almeida — De Bauru.

Clemente — Bauru. Porra, é do caralho!

Almeida — É da minha época de Bauru. Eu estudava na UNESP quando começaram.

Clemente — Nossa, acho muito bom aquele disco. Tanto é que os levei à gravadora, apresentei e os filhos-da-puta nem agradeceram “Obrigado!”. [ ri ] Falei: “Vou produzir os caras!” Toma. No Musikaos [ n.e. programa da TV Cultura apresentado por Gastão Moreira e produzido por Clemente no início dos anos 2000 ] a idéia era essa, levar as bandas, mostrar a rapaziada que estava fazendo, o movimento da cena, como hoje aqui no Showlivre. Porra, é preciso ser punk?

Almeida — Clemente, essa rede de comunicação que vocês criaram analogicamente com as cartas chegou a ser musical, no sentido de vocês irem pra lá ou deles virem pra cá?

Clemente — O Cólera foi depois. Então essa cena alternativa, esses shows que o Ratos de Porão faz lá fora nasceram aí. O Inocentes não foi porque casei cedo, tive filho cedo, a gente foi pra Warner… Pegamos um outro caminho. Na verdade, fiquei muito magoado, porque demorou anos pra construir uma cena e vê-la destruída em tão pouco tempo, de uma maneira tão chata, tão brutal. Pra mim acabou quando mataram o Nenê, que era do ABC. Numa briga, os punks de São Paulo mataram o cara na São Bento. E eu namorava com a irmã do Nenê do ABC. Eu ia pro ABC. Eu circulava em tudo quanto é lugar, porque eu era contra essa coisa. Eu brigava, claro que eu brigava, mas não era briga burra. “Você é de lá, eu sou daqui, eu vou socar”. Porra, tinha motivos mais interessantes, tipo: “Você pisou no meu pé! Pum!” [ risos ] Tanto é que eu andava com todo mundo, andava com os chamados new wavers, com o pessoal do rock paulista. Eu circulava. O meu negócio é música, é atitude, é comportamento, é poesia. Então gostava de circular, cara. Então quando mataram o Nenê do ABC, (o punk) morreu pra mim. Senti uma coisa muito forte. Foi em 83. Aí o Inocentes foi fazer um show NaPalm. A gente tinha acabado tirar o Ariel da banda, que também era nosso bairro, que era ex-vocalista do Restos de Nada, que gostava de poesia e que apresentou muita coisa pra gente casou com a irmã do Douglas. [ ri ] A gente ia à casa dele e lia O direito à preguiça. “Ah, lê esse livro que é do caralho!” Então, toda a nossa formação nasceu ali. E o Ariel estava mais pra morrer de vodca do que escrever. [ ri ] O cara quase morreu. Aí tiramos ele da banda, foi meio traumática a saída, e fomos fazer um show no NaPalm em trio. “Os caras vão tocar no NaPalm. Traidores! (Entrar no) NaPalm custa dez, doze reais. Tem que tocar pros punks por seis.” Rapaz, olhei pro Calegari, olhei pro Marcelinho, falei: “Meu, vamos acabar essa bosta. Tô de saco cheio disso daqui!”. A gente vai ao NaPalm, uma casa pros punks tocarem, e eles “Ah, só vai playboy aí. A gente quer tocar pra periferia!”. Foi até o Ariel que começou com essa coisa. Hoje a gente está se falando, tal, mas a (minha briga com ele foi) por causa disso. A Punk Rock queria fazer uma camiseta do Inocentes e ele: “A Punk Rock é capitalista!”. “Ô, Ariel, capitalista é a Shell. A Punk Rock é uma loja da Galeria. Ela vai vender (a camiseta) pra uns vinte punks, cara?” [ risos ] “Não! Autogestão! Vamos fazer nós mesmos a nossa camiseta.”

Tacioli — Aí compra a tinta de não-sei-de-quem…

Clemente — Mas “Cadê a camiseta?”. [ risos ] Discursar ali, mas fazer mesmo, né? Aí pra gravar o compacto: havia uma casa, que era a puta casa da moda, o Hong Kong, e que queria fazer um show do Inocentes, que era a banda sensação, que tinha sido expulsa do Gallery. Éramos os caras, né? “Ariel, tem um show no Hong Kong. Os caras vão pagar cachê e a gente vai pegar essa grana e gravar o nosso disco, bancar o estúdio, fazer tudo.” “Não tocamos para burgueses, não-sei-o-quê.” “Ariel, alguém tem que pagar a conta.” [ ri ] “Os punks não têm grana. A gente vai lá tocar, os caras têm grana, pagam, a gente pega a grana e investe, faz o disco.” “Não! Quando sair o nosso disco, todos vão comprá-lo, porque o movimento punk quer ver o nosso disco, quer a coisa andando pra frente.” Lançamos o disco… Puf! Não vendia… Foi uma dívida monstruosa com prensagem, … “Cadê o movimento punk para comprar o nosso disco?” Os caras gastam 50, 70 paus pra comprar um disco importado da Finlândia e não gastam 10 contos pra comprar o nosso compacto. Aí falei: “Não, não dá! Estou fora!” E mataram o Nenê do ABC. “Ah, não, estou de saco cheio. Chega! Quero tocar, sou músico, quero tocar!”

Almeida — Você foi fazer o quê, Clemente?

Clemente — Fiquei um ano bebendo, frustrado, [ risos ] sem banda. Aí os caras do meu bairro — o Tonhão, que conheço desde os seis anos de idade, e o André e o Ronaldo, que toca comigo até hoje — tinham uma banda chamada Neuróticos e me chamaram pra cantar. E aí parei um pouco a bebedeira e fui cantar com o Neuróticos. E a gente resolveu formar uma outra banda. “Vamos montar uma banda nova, meio pós-punk, misturar umas coisas, pôr uns efeitos e não-sei-o-quê”. Aí montamos uma banda, escrevi umas músicas, “Expresso Oriente”, “Rotina”… Mas a banda não tinha nome. Aí um amigo nosso, o Marquinhos, foi a um ensaio e “Ah, pra mim isso aí é Inocentes”. “Ah, então vamos continuar Inocentes, né?” Aí começou: “Traidor!”, porque a gente estava numa banda hardcore. E os caras: “Ah, traidor! Vamos matar vocês!”. Nossos primeiros shows foram assim, com a nossa própria gangue querendo matar a gente. [ ri ] Mas aí foram se acostumando e a gente saindo do movimento punk. Tanto é que a gente chegou à Warner como uma banda pós-punk. Tinha um monte de referência. Mas é claro que era a banda punk, mesmo se a gente tocasse valsa. “Não tem jeito! Foda-se! Não vou explicar.” Em 82 era a época do hardcore, do charge, daquele (som) mais porrada, mas a gente, em vez de mamar nisso, voltou pro começo, para o punk 77, que tinha a mistura pro new wave, para aquela coisa mais legal, porque ainda não havia regras, todo mundo estava inventando o punk, cada um fazia a sua maneira. A gente voltou para aquela praia, que é a mais interessante do punk até hoje, né?

Tacioli — Clemente, o que te dá prazer em cantar?

Clemente — Prazer em cantar?

Tacioli — Músicas que te dão prazer, fora aquelas que sempre canta.

Clemente — Puta, cara, essa pergunta é difícil porque canto meio de tudo. É engraçado porque sempre cantei as minhas músicas, nunca cantei coisas de outras pessoas, né? Então, é difícil falar “Tenho prazer em cantar isso”. Tem coisas que canto no chuveiro, como cantar música do Mercado de Peixe, do Monjolo. [ canta ] “Alguém mandou chamar / Eu vim / Alguém mandou chamar.” É do caralho! Fui ao show dos caras e acabei cantando “Samba do seqüestro”. Gosto de cantar o que me toca, não sei. Não tem “Ah, gosto de cantar ska!”. Cantei com uma banda de ska, o Sapobanjo, e foi do caralho. Sempre amei ska. Foi um evento no Hangar chamado Skarnaval. Cara, do caralho, lotado, puta festa, foi muito bom!

Tacioli — E o ska tem uma relação…

Clemente — Muito próxima com o punk. O reggae também tem uma relação muito próxima com o punk. “Punk reggae party”, do Bob Marley [ n.e. canção do discoBabylon by bus, de 1978 ]. E, por incrível que pareça, os skinheads ouviam reggae e ska pra caralho. A 2 Tone Records era dos skins e dos negros jamaicanos que migraram pros bairros proletários ingleses… Um skinhead nazista é um paradoxo. [ ri ] Os caras ouviam música jamaicana. Você olha a capa de uns discos skin e estão lá de suspensório… (Na contracapa) tem um monte de negão… [ ri ] tem, por exemplo, aSymarip, uma banda que faz todos os hinos skin como “Skinhead girl” e “Skinhead train”, e era uma banda de reggae jamaicano.

Dafne — Clemente, você falou que casou cedo, está com uma filha já mulher, com 19 anos. Como foi isso pra sua vida, o que mudou?

Clemente — Ah, tive que parar de beber, né? [ risos ] É difícil você encher a cara a noite toda e acordar cedo pra cuidar de nenê. Você tem que começar a ter regras. A gente enchia a cara todo dia… E aí a responsabilidade…

Almeida — Foi um pai presente?

Clemente — Sim, eu ficava com ela em casa, na fase de baixa, (logo que) saí da Warner, duro, fodido, não tinha um centavo. [ ri ] A Warner: “Olha, acabou o contrato”. “Tá legal. E agora, o que a gente vai fazer da vida?” Aí ficamos três anos sem gravar. Nossa, cara, horrível, a pior coisa. Aí o Frejat, que via a situação: “Pô, Frejat, me empresta uma grana pra eu levar minha filha no pediatra”. “Porra, né, meu?” E todo mundo: “Porra, Clemente, você é do caralho…”. E ele falou: “Não, você é do caralho e vou gravar uma música sua pra você ganhar uma grana”. “Pô, legal, cara!” Aí eu dei uma letra pra ele e saiu a música “Fios elétricos”, que entrou naquele seriado da Globo, Sex Appeal, que lançou a…

Almeida — Pô, é mesmo, a Luana Piovani.

Clemente — É, Piovani. E eu: “Porra, cara, até que enfim”.

Almeida — E veio uma bolada?

Clemente — Veio uma graninha, não uma bolada, mas, porra… O Frejat foi um cara do caralho… Em vez de ficar: “Ah, você é do caralho e tchau”. [ ri ] “(Vocês vão) abrir um show do Barão!” Abrimos um show do Barão, pegamos 5% da bilheteria e os caras: “Porra, desculpa aí, só deu pra dar 5%, porque sabe como que é…” E nós: “Ah, tudo bem, tudo bem”. Fechou a porta: “Ah, dinheiro!” Nunca vi tanto dinheiro! [ risos ] Cinco mil pessoas no Olímpia é uma puta grana. [ risos ] Foi como em 85 quando a gente abriu um show do Legião no Circo Voador, a maior lotação do Circo. Os caras deram 10% da bilheteria pra gente. A gente ria chorando! [ risos ] E trio ainda… [ ri ] Mas é foda porque é diferente viver da música. E a gente chegou muito cedo na Warner. Éramos muito moleques.

Almeida — Teve uma coisa legal dessa fase por estar numa major?

Clemente — Ah, é do caralho. Foi legal porque a gente conseguiu viajar o país todo, tocava na rádio, isso fazia com que a gente fizesse shows. Eu falo pra molecada: “Por que o Ramones é legal?” Porque tocava na rádio, você ouvia Ramones na 89. Da 89 lembro de quando a gente levou a demo de “Rotina”. Entreguei na mão do Everson a fita de rolo. Meu, entreguei pro cara, saímos de carro, e estava tocando a música, cara! Não tinha jabá!

Almeida — Quem tava lá, Clemente?

Clemente — Era o Everson…

Almeida — O diretor era o Massari?

Clemente — Não, muito antes, muito antes. Isso foi em 85. Era rádio Pool e tinha virada 89. A gente estava lá com Inocentes da nova fase, fazendo show… A gente saiu do movimento punk, conseguiu se desligar, ficou dois anos pastando e começou a fazer todo o circuitinho: Rose Bom Bom, Madame Satã… (No Madame) os caras não deixavam porque a gente era muito punk, mas fazia o Via Berlim, o Zona Fantasma, o Lira Paulistana. Começamos a fazer todas as casas que começaram a encher. Era do caralho e aí a Warner cresceu os olhos. O Centro Cultural (São Paulo) lotado. Eu lembro que a gente chegou no Rose e a menina: “Olha, vou dar uma quarta-feira pra vocês”. Chegamos na quarta-feira e tinha três caras olhando pra nós. Fizemos o show. “A banda é legal. Vamos dar uma quinta-feira”. Na quinta-feira aqueles três caras com uísque voltaram e levaram mais uns amigos. Aí deram sexta e sábado: a maior lotação do Rose era nossa. O Paralamas fez temporada e não tinha lotado como a gente. Então a banda começou a pegar uma fama. E os shows estavam legais. Levei a demo na 89 e na hora começou a tocar. Essa coisa do rock da década de 80 era legal porque ainda existia o DJ na rádio, aquele cara que tocava vinil. Não é aquela programação feita por computador e o cara fica lá somente falando. E na época tinha o DJ. De madrugada, quando a gente estava indo para a balada… “Puta, o Coke Luxe no rádio!”, e ouvia, [ canta ] “Não beba, papai, não beba” [ n.e. canção lançada em 1983 pela banda Coke Luxe, formada por Eddy Teddy, Little Piga, Bitão, Lelo Cadillac e Billy Breque ]. Ou ainda [ canta] “Você anda namorando a minha filha com segunda intenção” [ n.e. letra de “Adivinhão”, música de Baby Santiago e Wilson Miranda, que o Magazine gravou em 1983 ]. O cara tinha aquele espaço da madrugada…

Almeida — Pra escolher o que ia tocar.

Clemente — É. Por isso que as bandas começaram a ganhar (espaço), porque na hora em que a garotada saía, o dono da rádio dormia [ ri ] e os caras (DJs) tocavam os sons legais, saca? Então era uma época diferente. E esse lance de estar na Warner propiciou que a gente conseguisse viajar, que o nosso disco fosse distribuído e que a música tocasse na rádio com freqüência. A Warner, na verdade, foi legal. A gente foi uma das poucas bandas que assinou um contrato com a Warner que fazia reunião com o presidente da Warner, o André Midani. (Ele dizia): “Pô, contratei vocês por causa do texto, que é muito bom. Vocês vendem pelas atitudes, pelo visual. Isso é legal! Vai entrar no Brasil uma tal de MTV.” E nós: “Ah, sim, porra, MTV” .E ela ia pegar a metade da programação da antiga TV Manchete. Só que a MTV entrou quatro anos depois [ ri ], e os caras não sabiam mais o que fazer com a gente. Mas a idéia era boa: “Gravar um puta clipe com vocês. E adoro o texto de vocês e vamos beber…”. E bebia junto. E aí eu ligava a cobrar pra ele do orelhão, para o Rio de Janeiro: “Alô, André Midani? Estou duro, cara. Estava pensando em ir no Madame Satã. Dá pra você depositar uma grana na minha conta?”. “Pô, Clemente, claro.” “Porra, que cara legal!” [ risos ] Hoje você não conversa com presidente de gravadora porra nenhuma. Na Abril Music, o Maynard era uma lenda, tanto que se fodeu com o negócio da EMI.

Tacioli — Os artistas novos ainda têm uma expectativa com a gravadora, dela ser a matriarca que banca tudo. Mas a realidade é outra.

Clemente — Na época, ser independente é ser dependente, né? Dependente da sua própria grana pra investir, entendeu? E na década de 80 não existiam os mecanismos que existem hoje, que propiciem que exista uma cena independente tão forte como essa de hoje. Então, pras bandas de rock a primeira gravação independente era legal, mas chegar numa grande gravadora dava uma estrutura pra virar uma coisa de verdade, para trabalhar. Mas mesmo assim o primeiro disco da gente pela Warner poderia ter sido independente, pra gente entender essa relação rádio-gravadora-mídia. A gente tinha uma visão muito romântica e idiota. A gente acreditava em todo mundo. Então, o cara da Folha de São Paulo (dizia): “Vou fazer uma puta matéria legal falando bem de você”. Aí um ano depois, tudo aquilo que falou que era legal em você, eram todos os seus defeitos. [ ri ] Então era uma bosta…

Tacioli — Como foi a relação do Inocentes com a TV?

Clemente — Foi legal. Fizemos todos os programas, até a Mara Maravilha. A gente entrou…

Tacioli — No trem?

Clemente — No trenzinho… [ ri ] A gente rolava de rir, era muito engraçado.

Dafne — Eu vi um dia desses uma participação do Paralamas no Bozo.

Clemente — Nossa, cara, no Bozo não cheguei a ir.

Dafne — Sensacional! Ele tocaram uma música e ainda por cima fizeram a brincadeira do balão: ficaram os três vendo quem enchia primeiro o balão. [ risos ]

Tacioli — Fora essa história da Mara, há outras?

Clemente — Era do caralho fazer o Perdidos na Noite! Eu vi um vídeo da gente tocando… “Meu, que legal!” O público delirando, o Faustão… Era engraçado. Na noite em que a gente tocou teve uma cantora lírica. Quando terminou, todo mundo “Aaaaah!” e batendo palma. Atrás dela estava o Tatá com uma placa: “Aplaudam pelo amor de Deus!”. [ risos ] Cara, genial! Mas não tinha MTV. O rock se fodeu na década de 90 porque acreditava que era só gravar um clipe e colocá-lo na MTV, que não precisava ir aos programinhas, não precisava fazer nada. Tanto é que eu tive uma discussão com Fred, do Raimundos. “Pô, será que a gente deve ir?” Eu falei: “Popular vocês já são. Se vocês não forem, o cara do pagode vai. Aí não reclama que o rock não tem mais espaço”. Lembram que o rock estava em baixa e o pagode (por cima). “Vai, meu, foda-se ! Vai fazer uma coisa diferente?” Aí ele começaram a ir e venderam 700 mil cópias do Só no forevis. A gente não foi ao Chacrinha e teve uma campanha das bandas “O Chacrinha cobra jabá”. Saiu uma matéria na Folha. Aí vieram me entrevistar esperando que eu fosse descer a lenha no Chacrinha. “Ué, só faço uma coisa: não vou.” O Chacrinha quer que a as bandas paguem jabá, que façam show de graça…

Tacioli — Vocês receberam convites do Chacrinha?

Clemente — Sim e falamos: “Não, não vamos, cara. Pagar? Não”. A não ser aqueles arranjos que a gravadora fazia, mas se dependesse da gente, não. Santa ingenuidade também fazer show de graça pro Chacrinha para periferia toda. Que é isso, cara? Fazer playback? “Não, pára!” Fazer playback na televisão é engraçado. Agora fazer um show com playback é deprimente. E aí quando saiu a entrevista com todas as bandas reclamando, como o Ira!: “Ah, nos recusamos a pôr o chapéu de Papai Noel pra entrar no Natal no Chacrinha”. Não! Isso eu faria na boa. [ risos ] Você quer ser sério no Chacrinha, com o cara distribuindo bacalhau? “Não, a minha banda é super séria.” [ ri ] É uma idiotice, né, cara?

Almeida — Pra entrar no clima.

Clemente — Meu, vá se fuder. Se é pra afundar na merda, afunda de uma vez. [ ri ] “A merda vem até aqui, mas daqui mantenho a minha dignidade.” [ ri ] O cara da Folha ficou puto. Eu falei: “Meu, não vou, só isso.” Você não gosta, vai, aproveita, faz sucesso em cima do Chacrinha e ainda depois ainda reclama, como o Titãs? Não vai, cara!

Tacioli — Clemente, é duro envelhecer?

Clemente — Não, é bom. Hoje as coisas são mais fáceis.

Tacioli — O que é mais fácil hoje?

Clemente — Pô, é mais fácil entrar no palco, é mais fácil fazer um show, é mais fácil fazer uma entrevista, é mais fácil chegar a um resultado que você quer, saca, é mais legal. Quando você é moleque, você é muito perdido. A única coisa ruim é que fica mais difícil escrever, porque você já escreveu tanta coisa, já fez tanta música… Fui tocar com a Plebe agora no SESC Pompéia e aí o pessoal do Banzé me chamou: “Toca uma música com a gente.” Falei: “Vamos embora!”. E fui tocar uma música com eles. Aí me passaram a música e falei: “Puta, cara, engraçado, eu nunca faria algo novo com esses acordes”. Mas com eles soa como se fosse uma coisa diferente porque arranjaram uma nova fórmula de utilizar aqueles mesmos três acordes, mas pra mim fica “Porra, de novo?”. E eu já usei em várias músicas. Estou numa crise de criação. Não gosto de nada. Isso é chato. Mas envelhecer faz parte da vida. O legal seria saber tudo que eu sei hoje com 25 anos. Seria do caralho. [ ri ] Mas, na boa, é legal envelhecer e não ser saudosista, pelo contrário, acho que tanto no Inocentes como na Plebe a maior virtude é não viver do passado, pelo contrário, é usar o passado como alavanca pra ir pra frente.

Tacioli — Você ainda quer fazer o melhor disco dos Inocentes?

Clemente — Sim, claro, estou com um monte de idéias, mas não consegui ainda chegar num resultado. [ ri ] O disco novo da Plebe é muito bom. Eu posso falar como um cara que veio de fora, porque quando cheguei o disco estava quase pronto. É uma Plebe, mas apontando pro futuro. E não uma Plebe, “Ah, vocês vão ver a mesma coisa que os caras faziam”. Pelo contrário, estão todos os elementos lá, mas apontando pro futuro.

Almeida — É um som pra molecada ou pros caras da idade de vocês?

Clemente — Aí que tá, né? É um som pra quem gosta de música. Então a gente tem molecada e tem (os mais velhos). Porque não existe o estereótipo da molecada. Se eu for fazer um som pra molecada, estereótipo, eu vou fazer emocore, como uns nenês… E a gente nem tem o espírito, não tem os elementos para fazer aquilo… [ risos ]

Dafne — Ia aparecer forçado, né?

Clemente — Sim.

Dafne — Ia ser muito forçado. Imagina uns marmanjos…

Clemente — Nossa!

Almeida — Sofrendo.

Clemente — Sofrendo, com aquele duetinho gritado que todas as bandas põem. Não que as bandas não possam falar de amor, mas é que fazem letras ruins. Não são somente músicas de amor, são letras de amor ruins. E todo mundo fala: “Não, a gente tem emoções intensas e as pessoas não gostam…” Eu apresentei umas bandas (no Showlivre), umas bandas boas, mas o que avalio é a qualidade do texto e da música: são baixas. Usam as mesmas melodias, as mesmas harmonias. Você ouviu uma, ouviu quase todas.

Tacioli — O peso das letras é muito importante pra você?

Clemente — Ah, sim, é.

Tacioli — Mas você tem esse barato de uma banda que musicalmente é legal, mas as letras nem tanto?

Clemente — Sim. Às vezes as letras são assobiáveis, mas doem. Fui tocar com o Cascadura. O disco deles é maravilhoso, um dos melhores discos do ano. Os meninos do Ludovic, que eu trouxe aqui, são muito legais. O texto do moleque é muito legal, a banda é intensa. O emo poderia ter qualidade. O Ludovic mostra isso e sem repetir fórmulas. Eles construíram um som baseado num pós-punk, mas com influência do mundo, que é uma coisa muito diferente. É a mesma coisa que o vocalista do Joy Division cantando no Nirvana. [ ri ]

Dafne — O repertório da banda ou do artista é determinante pro som deles.

Clemente — Sim.

Dafne — (…) Pro som ser melhor.

Clemente — E a banda no palco, porque a banda se vende ali. Eu tinha visto um show do Cascadura, acho que foi o primeiro com essa formação nova, ouvi o disco e falei: “O disco é tão bom, mas a banda não representa o disco no palco”. E nesse último show foi do caralho, cara! Acho porque era o primeiro show, a banda não estava azeitada. Aí, passaram-se uns meses, fui tocar com eles e fiquei impressionado. O show doAstronautas é do caralho! O André me mandou o disco e é muito bom. Em 1980 tinha um cinema na Brigadeiro Faria Lima que chamava Cine Rock Show. Fui ver o filme do Clash, o Rude Boy [ n.e. dirigido por Jack Hazan e David Mingay, 1980 ], e o filme doDevo, que não sei nome em inglês, mas a tradução em português é Os homens que criaram a música [ n.e. dirigido por Mark Mothersbaugh e Chuck Statler, 1981 ]. E é o Devo com guitarra, e não essa fase com que estourou a new wave, que tem aquela música “tititi”. Devo na primeira fase com guitarra. Eu vi esses dois filmes e falei: “Meu, é isso aí que eu quero ser. Quero ser como essas duas bandas, o Clash e o Devo!”. Eram muito fodas no palco. E eu vi um show do Astronautas em Brasília, no Porão do Rock. Falei pro André: “Porra, veio a imagem do Devo”, que é onde eles mamam, mas sem fazer a mesma coisa; usando as mesmas referências, mas fazendo um som diferente. Então, aqueles macacões, aquelas máscaras… “Nossa, do caralho!” Lembrou o Devo naquele começo de setenta e pouco. A cena hoje tem muita banda boa, e não precisa ser punk pra ser boa.

Tacioli — Clemente, estamos terminando; já são mais de duas horas de entrevista…

Clemente — Caralho! Tacioli — Mais alguma questão?

Almeida — Da parte que eu peguei até aqui foi ótima. [ risos ]

Tacioli — Tem alguma coisa que te dá medo hoje, você que foi um cara de gangue?

Clemente — Hoje em dia? Da mesma dor nas costas… [ risos ] Horrível! O nervo ciático doendo é uma bosta. Nesse fim de semana fiz três shows num dia. Aliás, um na sexta, com a Plebe, às nove horas, no SESC Pompéia; aí no sábado fiz um com o Inocentes, às oito horas; aí saí de lá, fiz com a Plebe, às nove e pouco no SESC Pompéia. Depois fiz com a Plebe de novo no Casebre, de madrugada. E o show é físico, você pula, corre, vai lá, aquela coisa. Aí o André, baixista da Plebe, no segundo show foi pegar não-sei-o-quê na geladeira. Ele fez assim [ encena o André abaixando-se ] e quando voltou: “Ah, não consigo mexer. Estou fudido!” É o único problema da velhice, que é uma bosta. [ risos ] Dá medo disso acontecer no palco e travar como o baixista do Morphine [ n.e. Mark Sandman, que também era vocalista da banda, teve um ataque cardíaco fulminante em 1999 durante um show na Itália ].

Tacioli — E a sua rotina hoje com a família como é?

Clemente — Cara, é cuidar dos gêmeos; tenho filhos gêmeos de cinco anos.

Tacioli — Você tem quantos filhos?

Clemente — Eu tenho três filhos. Tenho a mais velha, Mariana, de 19, que gosta de punk rock 77 também. Tenho de levá-la a todos shows. Teve show do Rezillos, uma banda da minha geração… Vai ela e as amiguinhas assistir ao show, tirar foto… [ ri ]

Dafne — É engraçado ver a sua filha curtindo a mesma coisa que você com esse tempo todo de experiência?

Clemente — É engraçado e é uma prova de que esse começo do punk é muito atual. Se você ouvir Strokes, há ecos daquele…

Tacioli — Você gosta de Strokes?

Clemente — Gosto. Franz Ferdinand é legal; o show é muito bom. Quando tive loja na Galeria é que comecei a (reconhecer outros sons). Eu tinha aquela coisa de velho: “O som da minha época é mais legal!”. Aí os molequinhos iam lá e eu ficava: “Na minha época…”. Uma hora parei pra pensar e falei: “Meu, como vou vender pra essa molecada se eu não entendo o que eles curtem? [ risos ] Tenho que ouvir a coisa sem um preconceito já estabelecido: Isso é uma bosta!.” Eu tinha ouvido a segunda geração do ska. E estava na terceira onda de ska. Aí fui ouvir as bandas… E quando comecei ouvir as coisas sem preconceito… “Porra, são bandas legais”. Uma vez o roadie nosso, o Tubarão: “Porra, o que vocês ouviam quando eram pivetes?”. “A gente ouvia o MC5, puta banda, não-sei-o-quê.” “Porra, essa banda deve ser punk…” Aí peguei e o pus o MC5 pra tocar. O cara começa: [ berra com voz grave ] “Mother fucker!” E canta a música toda em falsete. Pensei: “Pô, meu, do caralho esse cara cantando fininho! Pensei que o cara cantar [ faz voz gutural ] …” [ ri ] A referência é outra. Na minha adolescência isso era do caralho. É como você falar mal do emo hoje pra molecada. Tem uma situação que envolve aquele moleque que ouve aquele som e que vai tocá-lo naquele momento. A adolescência é um momento em que você se constrói. Então, o que pra mim tocava na minha adolescência, (pra ele) não ia tocar de primeira. Falei: “Meu, realmente isso me marcou porque fez parte de uma época boa da minha vida. E pra ele não significa nada porque só mudará de opinião quando ouvir isso com mais calma, como eu também não gostava do London calling [ n.e. disco do Clash de 1979] quando tinha 16 anos… E hoje ouço e falo que esse é o melhor disco de punk.” Tudo tem o seu tempo…

Almeida — Clemente, você pensa como estará daqui dez anos?

Clemente — Velho, né?! [ risos ]

Almeida — Com mais dor nas costas.

Clemente — Com mais dor nas costas. É uma bosta esse negócio. O que me anima é o (Antônio) Bivar [ n.e. escritor e dramaturgo paulistano nascido em 1939 ]. O cara tem 66, 67 anos. “Clemente, essa é a minha namorada. A gente vai fazer uma viagem de ônibus pra Patagônia, porque vou escrever um livro…” Nossa, o cara vai pra Patagônia de ônibus com 70 anos! [ ri ] “Tchau, Bivar!” Isso anima. O cara é um moleque. Está escrevendo, vai aos shows punks, conhece toda a molecada; fez a Ópera Punk em Santo André. Isso é do caralho! Quando conheci o Bivar já tinha 42. E está aí firme e forte.

Tacioli — Clemente, e qual é o papel da MTV pra música brasileira? Clemente — Pra indústria da música brasileira, sim. Pode-se falar que existia a época pré e pós-MTV, né? Mas ela criou uma falsa ilusão na época “Pô, Nirvana, as bandas, atitude, MTV ! Era só você estar lá que está tudo bem”. E até hoje as pessoas acham o ápice aparecer no Banda Antes, da MTV, porque “Isso é tudo na minha vida! Se eu não aparecer, não vou ser nada!”. E não é bem por aí. Você constrói público fazendo show, ralando. A MTV é uma ferramenta. Você põe o seu clipe no YouTube e põe na MTV, saca? A MTV já teve uma época melhor. Hoje em dia acho que já não é mais tão… Tanto é que nem música você ouve mais. Antigamente você até ouvia música. Os VJs antigamente manjavam de música: era o (Fábio) Massari, Gastão (Moreira), Ana Paula, Soninha. Hoje em dia, não, qualquer idiota pode ser VJ da MTV.

Almeida — Ô, Clemente, e a 89?

Clemente — Já era, né?

Tacioli — Faz tempo?

Clemente — Faz tempo, já era, foi engolida.

Almeida — Você lembra o último momento da rádio?

Tacioli — O último respiro?

Almeida — É o último momento digno.

Clemente — Da 89? Quando o Massari estava lá, foi do caralho. Tatola, jabazeiro, mas do caralho. [ risos ] Engraçado, porque quando o Tatola estava na Brasil 2000 fazia todas as coisas escusas, tocava as bandas de gravadora, mas nunca deixou de abrir espaço para as bandas novas.

Almeida- Na 89 também?

Clemente — Na 89 também. Porque era como o Musikaos eu tinha que ter a grande atração pra chamar audiência e aí apresentar uma coisa nova, entendeu? Como vou apresentar?

Almeida — É estratégico?

Clemente — É estratégico. Eu tenho que manter a audiência lá em cima e falar: “Olha, gente, vocês viram o Charlie Brown Jr., mas olha quantas bandas legais tem aqui embaixo também”. Isso porque tem o público médio, que é o normal, que existe desde que a música foi inventada. (O público) que ouve axé hoje, ouve rock amanhã, ouve sertanejo, ouve pagode, ouve lambada. É o público flutuante.”Puta, cara, é o que está na moda! Sou tão roqueiro, uuu! uu!” [ risos ] Aí amanhã está lá: [ canta ] “É lambada ê, é lambada…”. [ risos ] “Pô, cara, tá cheio de mulher aqui! Do caralho!”

Tacioli — No Fábrica do Som [ n.e. programa musical da TV Cultura do início dos anos 1980 ] você foi muitas vezes?

Clamente — Não, eu tinha uma briga com o Tadeu Jungle, e nunca fui.

Tacioli — Você tinha uma treta?

Clemente — Tinha. Hoje em dia, acho que não tem mais. Ele era muito mala, né? [ ri ] Ele foi fazer uma entrevista com a gente uma vez pra zoar, e aí eu o tirei. Ele, então, desgravou, fez de novo e aí me tirou. Claro, que ele era mais esperto! [ ri ] Até hoje ele ganha uma puta grana. Eu, não! [ risos ]

Tacioli — Você falou bastante dessa literatura de revista dos anos 70, 80. Tinha a Pop, SomTrês… E hoje, você acha que existe um público que consome as publicações?

Clemente –Sim. Tanto é que essa Rolling Stone nova é muito boa, a Bizz, que voltou com o Ricardo Alexandre, está do caralho, saca? [ n.e. A revista deixou de circular em 2007 ] Voltou de novo a ter literatura.

Tacioli — Não é uma ilusão, então?

Clemente — Não.

Tacioli — Existe um público que pode consumir?

Clemente — Sim.

Tacioli — Mesmo hoje com um acesso irrestrito à música…?

Clemente — Hoje é muito fácil com esse negócio de internet, MP3… Eu ouço falar de uma banda hoje, entro num site, baixo, ouço e falo “É uma bosta! É legal!”. Hoje é muito fácil.

Almeida — Qual você acha que é o papel dessas revistas?

Clemente — Cara, o adolescente hoje tem muita informação, mas superficial. Falta gente que dê informação. Porque na internet tem tudo, é um monte de coisa; você acha que ele pára pra olhar alguma coisa? Você pára pra ler quando pega uma revista e vai ao banheiro, senta e lê. Então, as revistas cumprem esse papel. Tanto cumprem como voltaram porque havia espaço pra isso. Há muita música e pouca informação, pouco conteúdo.

Almeida — E elas estão cumprindo bem esse papel?

Clemente — Ah, pelo menos as edições que li, sim. Li a primeira da Rolling Stone e achei muito boa, cara. E tem matérias não somente de música propriamente dita, mas que giram em torno dela. Matéria do PCC muito boa. Isso é legal, precisa disso. Fanzine é muito ruim, tem muita gente ruim escrevendo fanzine, muito tosco. E acho que essas duas revistas são boas referências. Não tinha mais revista pra ler.

Tacioli — E as revistas de rádio? [ risos ]

Clemente — Nunca, nem aquelas entrevistas da MTV: “Pô, quantos discos você vendeu? E onde você tocou? Quantas turnês? E aí o que aconteceu de interessante no camarim?”. Meu, não dá.

Almeida — A 89 tinha uma revista também, né?

Clemente — Tinha.

Almeida — Você curtia, Clemente?

Clemente — Cara, não era uma revista que eu acompanhava, de comprar… Mas eu cheguei a fazer uma matéria bem legal lá. Legal, mas meio triste, do moleque que tinha perdido o braço por causa do trem. Os skin(heads) o forçaram a pular do trem. Meu, fiquei tão mal quando vi o moleque, tão mal… O moleque tinha cara de nenê, 15 anos. “Meu filho, um nenê!” E perdeu o braço até aqui, saca? Eu falei “Meu, isso não se faz!”. Fiquei muito chateado. E o moleque gente boa pra caralho. Tocava gaita e fazia um som. Aí dei um disco do Inocentes pra ele, uma camiseta. E eu até queria retomar o contato com o moleque, mas a revista acabou, não me lembro dos jornalistas que fizeram a matéria, e perdi o contato… Mas um moleque muito dez, uma puta energia, uma puta lição de vida. Eu cheguei, olhei, fiquei chateado; quando saí de lá, saí animado, porque o moleque era bem legal.

Tacioli — Clemente, obrigado pela oportunidade.

Clemente — Você abusaram de mim, né? [ risos ]

Dafne — É o que a gente faz melhor: abusar dos outros.

Tacioli — E futebol, você tem jogado?

Clemente — Joguei uns Rockgol [ n.e. especial anual da MTV com jogos de futebol entre artistas ] , quase morri. [ risos ]

Almeida — O nível é meio sofrível.

Clemente — Eu estava trabalhando na produção do Rockgol. Faço uns trabalhos de produção pra pagar as contas. Aí estava lá: uma cerveja na mão, um cigarro na outra — ainda fumava. Aí faltou um jogador pro Titãs. Os caras: “Pô, Clemente, você quer jogar com a gente?”. “Acho que posso.” Olhei pro lado e aí o chefe: “Pode jogar. Você está trabalhando, mas é artista. Pode jogar”. Então tá. Apaguei o cigarro [ risos ], matei a cerveja, pus o uniforme e… Meu amigo, joguei no primeiro dia, mas no outro não conseguia andar. [ risos ] Doía tudo, uma bosta! Dezenove anos sem jogar bola! [ risos ] Vou ao banheiro…

Tacioli — Vocês tomam um birinaite?

Almeida — Eu tomo.

Tacioli — De quem é essa bolsa? É sua Dafne?

Dafne — Não.

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