DJ PATIFE [fev 2003]

Sua vida é espelho para qualquer garoto de periferia. Não se considera músico, mas é papa de um gênero.

DJ Patife: "A gente faz o drum'n'bass brasileiro". Foto: Divulgação

Sua vida é espelho para qualquer garoto de periferia. Não se considera músico, mas é papa de um gênero. Seu nome é sinônimo de drum’n’bass. Wagner Borges é o DJ Patife, entrevistado ideal. Aquele que adora falar. Não à toa. No fundo, ele sabe que sua história passa a integrar os anais da música eletrônica mundial. Fala sem parar. Pede água. E recomeça.

D&B de verve latina: raízes jamaicanas para uma batida criada em Londres perfeitamente adaptada ao território brasileiro. Pioneiro, Patife imprimiu calor e identidade ao gênero. Em cena, incorpora a vibração da platéia. Empatia, envolvimento total.

Podemos arriscar: hoje, a música eletrônica é a cara da periferia. São Paulo dos cybermanos e cyberminas é mais colorida ao som dos ídolos — Patife, ao lado de Marky e companhia. A cena jamais será a mesma depois de Cool steps, segundo álbum do DJ-produtor. Sucessos instantâneos definitivamente o elevaram à categoria estelar, abalaram as estruturas das pistas. Agora, cantar também faz parte da balada. Ninguém sai imune.

Adorado por gringos, manos e cybermanos, Wagner-Patife apostou em si mesmo. Ganhou o mundo para obter reconhecimento local. Em Patife, carisma e timidez convivem com o popstar. Sim, ele está entre os poucos escolhidos. Astro de milhagens, com direito a turnês regulares pelo circuito fina-flor da eletrônica mundial, o DJ inspira campanha de uísque. Talento, intuição e raça. A seguir, patifaria sem limites. O DJ por ele mesmo em quatro horas de conversa. Zona sul, família, infância, discos, viagens, amigos, parceiros, fãs, amores e dívidas. Tudo pelo drum’n brasil. Patife keep walking. (por Julio de Paula)


Entrevista realizada na noite de 17 de fevereiro de 2003, uma segunda-feira
São Paulo/SP, Central das Artes

Entrevistadores Fernando de Almeida, Julio de Paula, Max Eluard, Ricardo Tacioli e Roger Carlomagno
Fotos Kika Braga
Transcrição Paulo Nunes
Edição de texto Ricardo Tacioli


Gafieiras — O que é um DJ? Sensibilidade, ouvido e técnica?
Patife — Pra mim, DJ é um cara que anima uma festa, que coloca as pessoas pra dançar… Básico assim, esse o típico DJ. O que precisa para ser um bom DJ? Botar uma pista abaixo! E claro que 99% das pessoas que se interessam em ser DJ é por causa da técnica. É muito legal você misturar duas músicas… Essa passagem de uma música pra outra a gente chama de virada. Então, todo DJ, quando quer ser DJ, vai aprender a virar. Ser DJ hoje é botar a pista pra dançar e ter esse feeling de colocar uma música certa na hora certa. Esse é o “X” da questão. Depois, é claro, a técnica você vai adquirindo. Mas aquele negócio de DJ querer tocar pra ele mesmo é complicado. Mas, graças a Deus, de três anos pra cá, eu toco 99% do que gosto. Isso é incrível! Achei que isso nunca poderia acontecer. Até 98 eu toquei de tudo quanto foi estilo. De tudo mesmo: podem gritar qualquer estilo que vou falar que já toquei. Foi bom, aprendi muita coisa sobre música, principalmente quando eu fazia casamentos e formaturas. Foi uma escola muito boa.
Gafieiras — O que você tocava em casamento?
Patife — Disco, funk. Valsa é de lei, né? Sambão, samba-enredo, samba dos Demônios da Garoa, Leci Brandão, Paulinho da Viola. Samba-rock, Ed Lincoln, Jorge Ben, Bebeto, Trio Mocotó. Aprendi muito quando era de equipe de som. Era sempre baile black na região onde eu morava, na Cidade Ademar. Havia DJ que tocava só os raps, havia DJ que tocava só flash back, tocava somente funk, que só tocava samba-rock. Eu escutava isso de tabela e passava o tempo. Fui aprendendo.
Gafieiras — E o que fez definir o seu estilo?
Patife — De iniciozinho, minha história com a música é mais ou menos: eu adorava gravar fita. Tinha uns 7, 8 anos na época em que minha mãe estava que separando de meu pai. Uma época em que eu ficava na casa da minha avó. Às vezes ficava também na casa da minha mãe. E era uma briga, porque eu adorava ficar sempre na casa da minha avó. E por quê? Tinha um sonzão que meu avô havia comprado na época. E eu não podia ver uma fita moscando que eu pegava e esperava os programas da Band FM, que na época eram demais. E se havia uma festinha, tava eu lá colocando as fitas… E o que eu gravava? Era a época de Houdene [n.e. Infamous Houdene] e Afrika Bambaataa [n.e. Nome artístico do rapper nova-iorquinho Kevin Donovan, nascido em 1960]. Devagarinho comecei a sacar New Order. Era 1988. Depeche Mode, Erasure e, mais pra frente, Bomb the Bass. Mas eu me identificava mais com os raps, época em que os caras ficavam dançando break na rua. Eu tentava fazer aquilo e não dava certo. Comecei com o rap. E nessa de começar com o rap foi quando me deparei com a galera da equipe de som, em que um dos DJs — o Carlinhos — estava montando um grupo de rap, o Fatos Reais. Aí ele me chamou para ser o DJ do grupo. Eu vim da parte black da história. E a dance music entrou assim em 91, 92, quando fui a um show do Public Enemy [n.e. Grupo de rap nova-iorquino surgido nos anos 1980]. Inclusive eu estava fazendo aniversário no dia, 15 de setembro, 14 anos. E a Nova FM Record estava por trás dessa história do Public Enemy. Comecei a escutar a rádio por causa disso. Ela tocava outras coisas quebradas bem legais. Era o início do break beat, eletro, misturando o acid house. Foi quando eu me deparei com o acid house e com um tal dehard core que foi para o jungle, drum’n’bass. Foi isso! Aí comecei a gostar de tudo, na verdade. Eu gostava muito do tecno trance, do tecno mais pesado, de house, de acid house, de streep rock. Coisas da época em que o Chemical Brothers se chamava Dust Brothers. Eles tiveram que mudar o nome porque o Dustin era o DJ dos Beastie Boys [n.e. Surgido em 1979 em Nova Iorque, foi o primeiro grupo importante de rap formado somente por brancos]. Eu gostava das coisas do Dustin Brothers. Foi uma mistura. E com isso, durante vários anos, fiz muito baile eclético e adquiri um pouquinho de cada coisa. Mas o que me chamou muita a atenção no drum’n’bass foi o fato dele conseguir botar vários elementos — o raga, o jazz, o atmosférico — dentro dele. Depois, de uns 4, 5 anos pra cá, a história da música brasileira… Então, o drum’n’bass me catou pelo coração. Isso foi em 93 pra 94.
Gafieiras — Você quer beber alguma coisa?
Patife — Quero água, por favor. Sem gás.
Gafieiras — Você traz quatro águas. Sem gás.
Gafieiras — Fale um pouquinho mais sobre essa história do drum’n’bass. Ele é um gênero aberto? Por onde chega, ele é capaz de receber e de incorporar informações…
Patife — É muito esquisito como surgiu, cara. Quando comecei a ir mais pra Londres tive contato com os caras que o criaram. E a história era assim: o que aconteceu nos guetos em Londres foi o dub, pesado mesmo, instrumental [cantarola], o raga e o rap. E uma outra massa tocava os acid house, que era a coisa do Bizarre Inc [n.e. Grupo inglês surgido nos anos 90 em Stafford], Inner City [n.e. Duo americano formado em 1988 por Paris Grey e Kevin Saunderson] e por aí vai. Certa época, os caras começaram a colocar o acid house no 45 e o dub, e mixavam as duas coisas. A galera ia à loucura. Chegaram numa conclusão, “Poxa, por que na hora de produzir as músicas, a gente não aumenta o BPM [n.e. Batidas por minutos]? Em vez de ficar 130, vamos colocar 160 pra ver o que dá.” Era assim [cantarola], “Tum-tsi-tum-tis-tum”. Aí [cantarola mais rápido] “Tum-tsi-tum-tis-tum-tsi-tum”. E se quebrar? [cantarola] “Tum-tacata-ta-tum / Tum-tacata-ta-tum”. E se colocar um raga em cima? [cantarola] Aí, dominou. Começou crescer, crescer. E foi quando eu conheci o drum’n’bass. Eu estava já tocando ohardcore, que era o acid house acelerado. Quando se fala em hardcore, todo mundo pensa que é banda de hardcore. Aí teve essa parte na história da dance music. O raphardcore era onde o ectasy dominava na época. Foi nessa época, de 93 para 94, em que me deparei com isso. Havia muito raga, até por isso no início se intitulou jungle, e não chamou de drum’n’bass exatamente. Falei, “Nossa, meu Deus do céu, reggae comjungle é o que há. Aí, me identifiquei muito com isso. Ninguém tocava! Eu comprava os discos ali perto da Praça da Sé com um tal de DJ Marko, que depois virou Marquinho Marky MarK, que virou Marky Mark, e agora é Marky. Ele falava comigo, “Meu, toco numa casa na Penha chamada Showbusiness. Coloco esse tipo de som lá e vai maior bem”. “Nossa, cê toca isso?!” “Eu toco!” Aí comecei a freqüentar e não acreditava na reação das pessoas. Passou um ano. Havia um lugar em Interlagos, pertinho de onde eu morava, que se chamada Arena [n.e. Arena Music Hall, em Interlagos, SP]. Eu freqüentava muito. Passou um ano depois disso, comecei a tocar exatamente esse tipo de música. Em 95, os raga sumiram radicalmente e começou a vir aquela coisa melódica, bem atmosférica e supercabeçuda. Foi quando o Goldie [n.e. Nome artístico do DJ e produtor inglês Clifford Price, nascido em 1966, e um dos responsáveis pela popularização do drum’n’bass] lançou o primeiro álbum, Timeless [1995]. Era uma coisa muito diferente do que a gente fazia. Me pegou por dentro. “Que negócio musical!”, e comecei a tocar aquilo. Mas ninguém assimilou, porque era uma coisa mais tranqüila. Havia deixado aquela euforia de lado, né? Aí em 97, veio djzinho misturando rap, mas de uma forma mais séria, não tão estabanada. Foi quando apareceu o Roni Size. Aí veio o DJ Hype. O negócio ficou mais sério e… drum’n’bass! Quem deu essa guinada, de chamar de drum’n’bass, foi a Björk. Na época ela estava com caso com o Goldie e o drum’n’bass era um nome mais sério, ia tirar essa história do crack, do gueto, do ectasy. Aí, começou aquele novo estilo, drum’n’bass. Mas não era! Era filho do jungle. Tenho várias compilações com o nome drum’n’bass seletion, que são dessa época do jungle, 94.
Gafieiras — Você acha esquisito definir seu estilo como drum’n’bass, não?
Patife — É, na verdade, bati o pé e falei, “Meu, não tá dando certo, o coração não tá segurando essa onda. Vou tocar somente drum’n’bass!” Isso foi em 98, quando ainda, lá na Arena, essa casa em que trabalhei por quatro anos, sexta, sábado e domingo, tocando de tudo, começou a cair. O axé já não funcionava mais. O pagode não funcionava mais, a lambaeróbica não funcionava mais… Aí cheguei pro dono e falei, “Ó, meu, tu arruma outro!” Era uma sensação, né, cara? O que salvava a noite era essa porra de lambaeróbica à uma e meia da manhã. O drum’n’bass chegava às quatro, cinco, pra terminar, porque todo mundo esperava, principalmente aqueles que gostavam. Então, não estava dando mais nada certo. Fui e falei, “Ó, quero sair. Arrume outro DJ.” Tinha meu trampo de dia, ganhava o dinheiro que era pra sustentar a casa… “Me dá a noite de quinta. Quero fazer somente drum’n’bass das 7 às 11!” Aí me identifiquei com aquilo. “Quer saber? Vou ficar com isso mesmo!” Então, em 98 decidi levantar a bandeira mais alta ainda. Foi um problema, pois não havia festa pra tocar. “Cê tá louco, quer tocar só drum’n’bass? Não dá, não dá!” Hoje, depois de ter entrado na Trama, depois de ter lançado uma compilação, de ter lançado uma segunda, de tudo isso que aconteceu, do lance de remix, de produzir música, de fazer música — na verdade eu não faço (eu explico melhor depois isso aí) –, muita coisa mudou na minha cabeça e dentro de mim em termos de musicalidade, de se expressar mais na música. Sentar no estúdio com o produtor, com um músico mexeu muito comigo e o meu gosto musical amadureceu demais. Isso num espaço de dois anos. É muito esquisito, porque sempre fui uma pessoa muito limitada com música e muito preconceituoso. E hoje, não. Minha cabeça mudou muito. De sexta pra sábado eu checava e-mail de madrugada e escutava a história da arte da música erudita. Cê tá doido?! Quando ia escutar isso com 15 anos? Com 20 anos?
Gafieiras — Esse preconceito passava por onde?
Patife — Eu era ligado em dance music, pista. Isso é que movimenta! Hoje vejo que não é. Então, o meu negócio era club, dance, dance, dance, era dance music”. Se você falasse rock and roll, banda, “Não! Que essa porra!”
Gafieiras — No lançamento de seu segundo disco, você falou que seu vizinho ouvia jazz e queria mostrar pra você…
Patife — E eu falava, “Cê tá doido, meu?!”
Gafieiras — E hoje você faz jazz!
Patife — Não foi pelo amor, foi pela dor. O que aconteceu? Nessa transição de 95 para 96 foi quando a coisa mudou. Pintou um cara chamado Adam F. [n.e. Adam Fenton, produtor inglês nascido em Liverpool em 1972] no drum’n’bass, um puta nome dodrum’n’bass… Ele veio para o Free Jazz. “Pô, como vai ter um artista de drum’n’bass vai no Free Jazz?” E uma coisa que eu não sabia é que eu sempre adorei muito o som de saxofone. Gostava do som, não gostava de jazz propriamente. Não conseguia entender jazz, primeiro porque eu achava que era uma música de rico — eu era de grupo de rap, da periferia. Eu tinha aquela mente fechada de… “Meu, música deboy!” Que grande idiotice! Achava que aquilo não servia pra mim. Aí teve essa história do drum’n’bass no Free Jazz, foi quando comecei a abrir a mente devagarinho. Isso foi tudo gradual, devagarinho, devagarinho. Havia uma música que eu gostava, que era jazz e eu não sabia. Achava que era funk, que era qualquer outra coisa menos jazz, e foi isso. Na verdade, a visão foi aberta de 98 pra 99, quando entrei na Trama e tive contato com os artistas. Ir pra fora também mudou muito a coisa…
Gafieiras — Essa história foi rápida. Em 98 você começou a tocar somente drum’n’bass em sua noite. Em 99 saiu seu primeiro disco.
Patife — Foi no finalzinho de 99. O ano de 98 foi muito turbulento, só fui dar conta do que aconteceu em 2000, praticamente depois de todo resultado. Não sei se vocês querem que eu entre nessa parte, dessa conexão, como é que foi o nosso envolvimento com o drum’n’bass, uma coisa que veio da Inglaterra. De 94 até 97, ficamos com esse sonho, “Pô, a gente tem que ir pra Londres, tem que ir pra Londres, conhecer, conhecer!” Até porque, quando houve essa mudança, saiu o raga e entrou toda essa melodia, essa coisa mais musical, as pessoas não quiseram mais escutar. Então, a cena fez assim. A cena? Quem tinha clube fixo era eu, o Marky, o Koloral e o Andy. Era o Marky na Toco, o Andy na Goodnight, o Koloral no Palácio, na João Dias, e eu na Arena, em Interlagos. Era um grupo muito pequeno. A Toco tinha 5 mil no fim de semana que dançava/cantava. A Overnight tinha mil, dois mil. O Palácio, 2 ou 3 mil, e eu, na Arena, de mil a mil e quinhentas. Vamos supor que havia 30 mil que conheciam, vai. Só que aí houve aquela mudança e o tecno deu uma subida muito grande em 96. E todo mundo curtia tecno. Ficamos com aquela mágoa, aquele preconceito, todo mundo fechando a porta e os patrões da gente falavam “Pô, não é pra tocar isso! As pessoas não querem ouvir…” Depois o negócio começou a ficar mais sério, falando que era música de maloqueiro, que era música de periferia, etc. Grandes nomes que começaram a aparecer na mídia, em revistas nacionais, em matérias falando que era música realmente de periferia, que aquilo não ia pra lugar nenhum, que era uma febre somente em Londres e que ia passar. Sentíamos o contrário, que era uma música com a qual as pessoas se identificavam muito, que era uma música com muita energia e que, “Vamos ver o que vai acontecer!”. Em nenhum momento a gente acreditou que aquilo iria morrer. Não é possível, cara! “Olhe este selo, meu! Olhe isso, olhe aquilo!” Calhou que em 96 pintou o Dave Angel, um inglês que estudava Ciências Sociais em Edimburgo, na Escócia, e que participava da campanha da fome do Betinho. Então ele fazia essa ponte, Escócia/Rio de Janeiro, pelo menos umas três vezes por ano. E num problema de conexão de vôo, ele teve que ficar algumas horas em São Paulo, e parou no centro da cidade, parou na Galeria, e parou dentro da loja do Marky. Aí, poxa, meu! Nem foi direto no Marky… Ele parou na Discomania e quem estava lá era o Ramilson Maia. Ele falou, “Tem jungle aí?” “Ah, quem entende de jungle é o Marquinho na outra passarela. Vá lá!”. Aí, chegou, “Oi, sou da Inglaterra, gosto de jungle. Faço uns MC’s”. E o Marky, “Oi, também toco jungle aqui”. “É mesmo?! Tem jungle em São Paulo?!” “É, tem! Hoje, o Patife, que é um amigo meu, toca à noite. Não é somente drum’n’bass, mas podemos fazer uma bagunça”. E esse cara foi lá, passou a mão no microfone — isso na época em que estava legal ainda. Ele ainda perturbou a gente durante quase três anos, “Meu, cês têm que ir pra Londres, cês têm que ir pra Londres!” “Mas de que jeito, cara?” Meu, eu ganhava salário mínimo, trabalhava de dia como office-boy. Na época eu ganhava 50 contos por noite, mal dava pra comprar os discos, pois eu pagava quase 30 reais por disco. Enfim, “Vamos juntar dinheiro para ir para essa porra?” “Vamos”. E nunca dava, meu! “Eu consigo guardar 200 contos. E você?” “Eu consigo guardar menos dez na conta corrente. Tá negativo cem contos”. Não dá, nunca deu! Sei que aí chegou um dia e eu falei, “Vou fazer as reservas!” E eu sem nenhum puto ainda. Fiz a reserva no tempo em que a VASP ainda voava internacional, conexão em Bruxelas, que era o vôo mais barato que havia. Beleza. Dois dias antes de viajar eu tinha que pagar a reserva senão ia cair. Na época eu já estava trabalhando numa loja de disco em Santo André. “E agora?” Aí, liguei pra um amigo meu, um DJ famoso também, o Ricardo Copine, vários anos de dance music. “Puta, Copine, preciso ir pra Londres, cara! O que você pode fazer por mim?” “Meu, tenho um amigo que tem uma agência de viagem, vou lá, aplico o cartão em consórcio e depois você me paga”. E foi assim, comprei em oito meses e paguei R$ 110,00 por mês. Fui com 200 dólares no bolso pra ficar 22 dias. [risos] Acho que eu faria tudo de novo. “Vamos aí, come pão com manteiga. A casa nós temos pra dormir, que é o mais importante”. A gente foi, cara! Jesus Cristo! Eu consigo ver tudo de novo se eu fecho os olhos. Roni Size ganhando o Mercury Prize, um dos melhores prêmios da Polygram para destaque de banda, de artista. A Movement nascendo. Estava com seis meses no bar Rumba. Tava lançando a noite no The End. Era a gente se deparando com tudo isso. Vinil pra todo lado, as pessoas comprando, aquela agitação. Cê chorava sem querer, cara, de lágrimas. “Ah, não tem isso no Brasil!” Aí, “Controla, controla!” Eu já queria comprar todos os discos. Duzentos dólares não deu nem para a primeira semana. [risos] Aí, lá, meu, foi uma injeção, uma coisa inexplicável. Parece que pegaram a gente, colocaram-nos num hospital e injetaram. “Volta pra lá e, meu, mostra o que é o drum’n’bass.” Voltamos pra cá babando. Pode vir quem for, meu: o patrão, … Aí, tinha maior divisão antigamente: os houseiros, os trenceiros, os tecneiros… “Pode falar mal, foda-se! A gente não liga. Música de periferia? É! Música de maloqueiro? É! Foda-se! A gente não tá nem aí. É isso que vamos tocar e quem quiser ouvir vai ouvir!”. Aí, tinha a galera da nossa vila, uns da vila do Marky, e começamos a fazer umas festinhas pra 100, 200, aí a coisa começou. Devagarinho, devagarinho. A rádio Energia, hoje a 97, na época estava deixando o axé, e só pelo fato da gente ter ido viajar — porque quem tinha o nome na mídia era o Marky, e ninguém sabia quem eu era. Aí, antes dessa época, eu tinha um programa da Arena na 97, porque nessa época toda casa noturna tinha um programa na rádio. Aí, o dono da rádio chegou, chamou o Marky e falou, “Ô, meu, cê ainda toca na Toco? Vem aí, toque o que você quiser, mas os drum’n’bass toque somente um, sabe, antes de terminar o programa. Não toque muito!” Era assim, cara, era inacreditável, era inacreditável! Aí, beleza, “Não tem espaço, pelo menos toco um!” Aí em 98 foi aquela decisão que eu tive, “Cheguei pro dono da Arena e disse, ”Não agüento mais tocar esses negócios. Realmente é isso que eu quero fazer. Arrume outro cara, mas eu quero uma noite de quinta somente com drum’n’bass.” E nós, “Será que alguém vem escutar somente drum’n’bass, meu? Não temos nada a perder! Estamos na chuva, vamos nos molhar!” Márcio, que é um cara que mora comigo, “Como vai se chamar, mano?” Uma noite chamada “Movement”. O primeiro DJ tocava mais tranqüilo, o segundo mais ou menos, e o último sentava o pau. Aí, “Vamos nos chamar de Movement!” Beleza! Pra rua, boca à boca, o Marky falando no programa dele. Chegou à noite. Sete da noite, sete e vinte, dez para às oito, e uns dez gatos pingados. “Fodeu, cara! O cara não vai mais dar a noite pra nós!” Oito e quinze, mais uns 30. Quinze pra nove… Parece que abriu a porta do hospício. Havia quase 300 pessoas dançando, cara! Aí, pronto. Tava no bus indo embora, o Márcio, “Pô, é complicado, mano, usar esse nome. No ano passado já veio o Goldie, o Adam F., como convidado do Free Jazz… Vai que, meu, vem os caras da Movement aí, ou que os representem, ou alguém no Free Jazz e vê a gente usando esse nome?” “Ei, Patife, liga lá, fala pros caras liberar esse nome pra gente usar aqui no Brasil”. “É mesmo.” Olhem as idéias dos caras, na maior displicência, “Liga lá, meu!”. Como se fosse ligar pro amigo da esquina! “Como é que eu vou ligar, meu?! Não falo nem ”obrigado” em inglês.” [risos] “Ah, liga pro Adrian. Pô, o cara não deu a maior força pra vocês lá?” “Adrian, aconteceu isso, isso e isso, som de drum’n’bass pra 300 pessoas e colocamos o nome de Movement.” “Pô, cês são loucos!” Falei, “Somos nada, meu! E tô te telefonando procê ligar lá pros caras e pedir autorização pra gente usar o nome!” [risos] “Meu, cê sabe quem é a Movement? Cê sabe quem é a Vinyl Records? Cê sabe com quem você tá querendo que eu mexa?” “Eu sei, meu, mas, pô, é só ligar e falar, ”Ah, aqui é Adrian Harley. Tenho uns amigos no Brasil…” É simples!” “Ah, não, Patife, não vou fazer isso!” Meu, tive que perturbá-lo por uns dez dias.
Gafieiras — Vocês tinham consciência do que haviam feito?
Patife — Nada!
Gafieiras — Havia um movimento ou era somente vocês mesmos?
Patife — Era só a gente. Aí, na mesma época, ficamos sabendo que havia o Calbuque [n.e. Nome artístico do DJ e jornalista Carlos Albuquerque, um dos precursores da música eletrônica no Rio de Janeiro] e o Marcos Mesquita no Rio, que também em 94 já estavam colocando uma galerinha. O Calbuque fazia umas noites chamadas Febre[n.e. Primeira festa de drum’n’bass do Rio de Janeiro, promovida inicialmente em 1997]. A gente ficou sabendo disso somente em 96, 97. E havia um pessoalzinho em Brasília e em Porto Alegre entre 97, 98. Acabou, deixei passar uns 15 dias, liguei pra ele de novo, “E aí, meu, ligou?” “Não!” Nisso, eu já havia feito três quintas, e a cada quinta estava melhor.
Gafieiras — Sempre a Movement?
Patife — Sempre a Movement. Aí aconteceu uma zica danada. A Toco fechou. O Marky ficou sem emprego. O único núcleo que havia na Zona Leste fechou. A Over Night também já havia fechado. Falei, “Por favor, cara, de verdade, tenho a maior fé nisso. Não tenho nenhuma pretensão! A gente queria deixar esse nome somente por segurança, pra não chegar um gringo doido e atirar na gente. Se você não ligar, vou ligar, meu! Vou dar o número do seu telefone e mandar o cara pedir mais detalhe pra você. Vou fazer umas frases com o dicionário.” E fiz mesmo, cara! Peguei o dicionário de inglês que eu usava no ginásio e juntei umas palavras. Liguei pra ele e, “Tá bom, tá bom. Vou ligar! Ah, mas não tenho o número.” “Se é esse o problema, eu tenho. É tal”. Aí, ele ligou pros caras.
Gafieiras — De onde vinha essa certeza?
Patife — Não! A parada era somente essa: autorizar o nome gringo pra ficarmos tranqüilos. Depois que ele ligou, que fez o contato, caiu… Em casa, com o Márcio, falei, “Meu, e se esses caras se interessarem em ver o que a gente tem? Tamos fudidos! Mas a gente sabe o que está fazendo. A gente tem os discos. A gente acompanhou a história do período. A gente pode falar como surgiu e tudo.” É muito doido, cara! A gente vê e arrepia. Aí o Adrian, que morou 13 anos na América do Sul com a família — o pai trabalhava na Philips e vivia rodando o mundo -, nem quis falar com o Andy. “Ah, quero falar com esse Patife”. Aí, o Andy, “Ah, Adrian, mas ele não fala inglês.” “Mas eu falo espanhol. Morei na América do Sul 13 anos. À uma e meia da tarde da segunda-feira manda ele ligar pra mim que estarei esperando”. Ich! Deus do céu! Foi num final de semana. Essa ligação foi na sexta. E eu não dormia, não conseguia fazer nada. E numa época financeira…
Gafieiras — Braba?
Patife — Braba! Não tenho vergonha de falar isso. Minha irmã tava trabalhando, tava fácil pra eu vir pro centro… Era assim, vivendo de centavos, de migalhas mesmo. Aí cê me pergunta, “Mas, pô, meu, como você conseguia comprar os discos e manter a história?” Era cartão de crédito de um, cheque da minha irmã… Então, com o dinheiro do final de semana da Arena, eu chegava na segunda e cobria o cartão de um, a luz… Era assim, vendendo a janta pra comprar o almoço. Aí chega eu, bonitão, nessa segunda-feira. Fui telefonar na casa da minha mãe. Ligar pra Londres. ” Adrian? Please?” E, meu, quem disse que eu consegui entender o cara? Primeiro, que eu tava nervoso. Eu tava com o telefone assim, ó! E mamãe, “Calma, menino, calma. Fala com o homem!” Aí, passando um tempo, ele viu que eu tava nervoso e, “Ei, amigo, fica tranqüilo. [imitando sotaque hispânico] Mas, do que tu necessita?” “Ah, preciso usar nome ‘Movement’, porque tenemos uma noche aí, legal” Aí, o cara entendeu. Sei que deu 1h40 de ligação.
Gafieiras — Pra Londres!
Patife — Pra Londres! Segunda-feira, 1h da tarde, horário de pico na Telefônica, né? A conversa terminou. “Ei, estou interessado em ajudar tu noche, pode usar nombre ‘Movement’”. “Tudo bem, mantenha contato.” “Vou ligar para o Andy e a gente mantém contato”. Cara, botei o telefone e, “Caraca, meu! Imagina se a gente tem uma cena, as pessoas cantam, tá legal, tá bacana… E, se de repente, meu, os caras vêem o CD que o Marky já lançou, vêem que já existe uma história?” Aí, fiquei doido, fiquei doido. Era a época da Copa do Mundo de 98. Sentei com o Marky e disse, “Quem sabe os caras querem dar apoio.” “Ih, meu!” Somente o Márcio, que é o cara com quem eu moro hoje, falou, “Ó, meu, pega firme nisso!” Aí liguei para o Koloral e ele, “Meu, manda os caras mandar uns discos pra nós, uns promos”. Olhem isso! Ninguém acreditava, cara, e isso me deixou muito puto nesses primeiros meses. Nessa mesma semana, olhem a loucura, Copa do Mundo… “Cê quer saber? Vou pra Londres conhecer esses caras pessoalmente.” Como? Vendendo o almoço pra pagar a janta… Não estava mais tocando como DJ registrado. Foda-se! “Marky, cê tem umas fitas de vídeo da Toco, algum recortes de jornal em que cê já saiu?” “Já saí nuns dois ou três, mas não era no seu tempo”. Aí havia uma fita de vídeo em que ele foi DJ da Xuxa, quando a história de DJ deu um rumo de novo. Peguei os dois CDs que ele já havia lançado pela Toco. Liguei pro Copine de novo, “Copine, fiz contato com os caras em Londres. Aí, meu, não sei, mas sinto uns frios na barriga. Vou lá conhecer esses loucos de perto”. Ele falou, “Vamos lá!” Fizemos a pesquisa dos vôos mais baratos. A Transbrasil facilitava em 12 meses. Doze de R$ 148,00 na época. Cara, foi a passagem mais cara que eu paguei. Época de Copa e tudo. Essa foi foda pra pagar. E ainda mais com as contas telefônicas. Eu ligava pro Andy, ligava pro Adrian. Sei que a primeira deu quase R$ 800,00 de conta. Com o que aconteceu, não pagou, lógico. Depois de três meses o telefone funcionando, ele ficou somente recebendo, depois somente recebendo a cobrar. E depois desligou, cara! Sabe quando fui ligar o telefone da minha mãe de novo? Em junho de 2000. De 98 pra 2000. Porque enrolou: passagem aérea com comprar disco, com não-sei-mais-o-quê. Não tenho porque ter vergonha de falar isso. Já limpei minha conta de novo, os cheques, meu nome no SPC em fevereiro do ano passado. Eu consegui acumular uma dívida de 35 mil, cara. Somente com isso, passagem e disco.
Gafieiras — Engraçado, o drum’n’bass é uma música que nasceu na periferia, mas depende da sensibilidade pra ser um bom DJ, né? Ao mesmo tempo, é um negócio tecnológico e que custa muito caro. Você tinha noção disso?
Patife — Você vai ver nos próximos minutos como eu não tinha noção. Resumindo rapidamente a minha vida inteira: desde pequenininho sempre tive muita dificuldade. Em casa tudo sempre foi muito básico: arroz, feijão, batata frita. E a gente não morava em favela. Não éramos pobres de não ter nada. Éramos pobres, mas meu padrasto trabalhava e ganhava o suficiente somente pra botar o rango, somente aquele básico. Ele não podia me dar um skate, um Rainha, que eu sempre quis. Meu sonho era ter um Rainha, um Adidas.
Gafieiras — Um disco…
Patife — Um disco? Não tinha, não tinha.
Gafieiras — Sua mãe trabalhava?
Patife — Minha mãe nunca trabalhou. Quero dizer, ela trabalhou agora, de 92 até 95, quando meu padrasto faleceu. Aí, eu era o único que trabalhava em casa, de office-boy. Ela teve que começar a trabalhar, porque eu não segurava a onda nem a pau. Eram seis pessoas dentro de casa, né? Foi sempre assim, tudo contadinho. E quando o meu pai se separou, eu tinha sete anos. Foi uma dificuldade, mexeu muito comigo! Isso me fez amadurecer. Por essa dificuldade, eu quis ter dinheiro rápido, de qualquer forma. Eu entregava panfletos. Três casas pra baixo de onde minha vó morava com a minha mãe havia uma fábrica onde eu ficava passando Kaol nas calotas dos ônibus e caminhões pra ficarem cromadas e bonitinhas. E os caras me davam dez cruzeiros. Isso eu juntava e comprava uma besteirinha. E fui tendo cedo gosto por grana. Trampar pra ter uma grana e comprar o que eu gosto. Então, com 11, 12 anos comecei a entregar pizza onde meu pai trabalhava. Eu ficava pedindo dinheiro pra comprar as coisas e ele não me dava. Eu falava, “Então me leva pra trabalhar, pra limpar as mesas, ganhar caixinha.” Por exemplo: com um ano de pizzaria, comprei um toca-discos, um receivere uma caixa. “Porra, dá pra ter os meus bagulhos sem minha mãe me dar.” Só que era foda! Eu estudava de segunda à sexta. De sexta à noite, sábado e domingo entregava pizza. E, ir pra escola na segunda era muito foda. Aí, comecei a ter grana. Sempre trabalhei. O meu registro, mostro minha carteira de trabalho… Fiz 14 anos e logo depois a mulher me registrou. Foi sempre assim. Eu via que estava sendo feliz somente com aquele pouquinho. Mesmo com isso nunca deixei nada pra trás do que eu queria. “Bom, quero fazer isso? Então, se eu entregar tantas pizzas assim, assim, assim, de repente a caixinha dá pra parcelar.” Até os 17 anos tudo foi beleza. Quando cheguei aos 18, a ambição mudou. Eu já queria um toca-discos Tecnmix, um Gradiente. Eu já trabalhava registrado, já sabia mais. Se eu fosse mandado embora, receberia fundo de garantia, seguro-desemprego, etc. “Ah, agora tenho 18, vou comprar um carro, vou namorar.” Na época não gostava de levar a namorada em casa de bus. Financiamento. Aí começo a mudar a cabeça. “Vou entrar num financiamento, pego um cartão de uma pessoa emprestado…” E foi nisso que os meus sonhos nunca bronquearam. Por exemplo: minha mãe nunca deixava. Ela falava, “Não faça isso, não faça isso!”, porque vinha de uma criação em que “Somos pobres. A gente não tem condição para fazer isso!” E meu pai era de uma família, “Não, meu filho, você tem que tentar. A sua mãe tem medo de tudo!” Então, fui indo. Para eu entrar num avião, falava, “Cara, é coisa de quem tem dinheiro, cartão de crédito e tal, etc.” Mas não deixava, porque era um troço daqui de dentro, sabe?
Gafieiras — Uma necessidade.
Patife — Exatamente, uma necessidade, um sonho, porque todos os sonhos que eu tive até essa época da viagem pra Londres eu já havia realizado… Meu primeiro foi ter um bicicleta. Minha vó, coitada, trabalhou um ano costurando roupa, fazendo negócios… Ela pegou o dinheiro todinho e me deu uma bicicleta quando eu tinha 11 anos. Depois foi um Atari. Meu avô me deu um Atari. Aí havia um robô, o Arthur. Eu era doido pra ter aquele robô. Meu vô me deu. Então, os três sonhos de moleque, beleza! Aí, com 13, 14 anos comprei, com a minha grana, o meu toca-discos. “Pô, cara, tudo é possível! De um jeito ou de outro, com toda a necessidade que eu passava, morando na periferia, tendo a oportunidade de fazer besteira, como eu tive várias, como uns amigos que cresceram juntos, que carregaram minhas caixas, tal, me roubaram, infelizmente. Eu, não. Tive exemplo na minha família. Tio na cadeia que íamos visitar aos domingos. Minha mãe já tinha esse trauma. Isso nunca me fez falar, “Não, vou desistir!” Sempre tive a felicidade de fazer as coisas que eu queria, mesmo sem condição, sem nada.
Gafieiras — Você pensava “E se não der certo?”?
Patife — Voltando nessa história. Peguei e fui estudar essa porra toda de novo. Sentei lá com o Copine, que financiou a passagem, e liguei pro Adrian. “Tô com a passagem na mão. Tô indo no vôo de segunda-feira a tal hora”. “Cê tá louco?!” “Eu tô indo!”. Cheguei na imigração e não falava um “a”. O cara pegou e chamou um brasileiro, “Ajuda ele aí que ele precisa vir”. Olha a minha cabeça, cara! “Que você veio fazer?”, o cara me perguntou. “Vim fechar um negócio com uma organização que vou representar no Brasil. A gente vai fazer esse business aí”. Aí, o cara traduziu pro senhor da imigração e ele veio, “Cê vem fazer negócio aqui?” “Sim.” Me pediu a autorização. “Tá aqui o nome da pessoa, o telefone.” E a cara do velho indignado. Eu não entendi porque ele estava tão surpreso. Hoje, vejo que a gente não pode trabalhar lá, fazer nenhum tipo de negócio. Você é deportado na hora! Depois eu mesmo falei, “Cara, cheguei na imigração falando que vim tratar de negócio! Cadê a planilha? Cadê a…” É, meu, foi assim. Carimbou meu passaporte, tipo “Esse moleque não sabe o que está fazendo”. Carimbou porque ele sentiu logo. Aí, fui… Resumi bem rapidinho pra chegar aí. O Adrian me recebeu, “Cê é louco, cê é louco!” E eu com nada pra ficar sete dias. Conheci os caras, meu. Eles são um iceberg! Muito estranho. Foi uma recepção assim. Nesse momento falei, “Fodeu! O que vim fazer aqui? ” Mas tudo mudou na hora em que botei aquela fitinha. Uma fita com o Marky tocando e a galera batendo palmas. “Fodeu! Fodeu!”, eu falava baixinho pra mim, né? “Fodeu! Fodeu! Vamos lá conhecer o homem que manda na porra toda.” Aí, chegamos no escritório do David, que estava com uma tora desse tamanho na boca, falando aquele inglês jamaicano. “Bote a fita pro peão assistir!” “Brazil, Brazil! Brazil!” Cara, sei que mudou. Aí vieram o CD do Marky e as entrevistas. Já cheguei lá falando de todo mundo, menos de mim. “Não, meu, cês têm talento!”, e nem havia visto a gente tocar. “Cês têm talento. Acho que vocês vão inovar a cena aqui na Inglaterra! Façam uma festa no Brasil que a gente vai lá ver”. Aí voltei pro Brasil. Olhem como as coisas são loucas! Cheguei aqui e, uma semana depois, cruzei com o Bruno. Ele, “Cara, cê tem noção do que tem na mão? “Ah, meu, não sei, mas tenho o contato. Acho que os cara podem vir pra cá e, de repente, podemos ir lá tocar!”
Gafieiras — E o Bruno…
Patife — Foi quando ele falou, “Cara, o João Marcello Bôscoli, que é o filho da Elis Regina, tá abrindo um selo dentro da VR que se chama Trama, e ele me convidou pra criar um selo de música eletrônica. Não quer entrar?” Oxi! Duro, fudido, sem lugar pra tocar, quase nem mais na Arena. Saí da Arena em julho e acabou. Começamos a fazer a Movement na rua Augusta, Galeria 2203. “Vamos fazer uma festa Movement. Antes da festa, encontrei com o Bruno. “Meu, isso é muito sério, cara! Vou te levar pra falar com o João [Marcello Bôscoli]”. Fomos à Trama. Havia seis pessoas trabalhando. Conheci o João. Deu o maior frio na barriga. Pior, porque falei que 99 foi um ano muito turbulento pra minha cabeça. Aconteceu muita coisa num espaço curto de tempo. Aí, vou lá falar com o filho da Elis Regina, o cara que está montando um selo. “Vamos ligar pra esses caras agora. A gente vai te dar um suporte nisso aí, meu!”, ele disse. Beleza. Ligaram e falaram, “A gente é um selo que pode proporcionar algo.” Beleza! Aí o Adrian veio em setembro. Fizemos a festinha na Augusta. Setecentos negos cantando e gritando. O gringo chorou, chorou lágrimas. “Como as pessoas aqui são quentes. Não tem droga, não tem aquilo, isso, …!” Enfim, sei que ele ficou doido e voltou pra lá maluco. Na mesma época, o que aconteceu? Tava abrindo, em junho, a Lov.e. “Aqui toca drum’n’bass. Aí, o Marky foi tocar na Lov.e. Mas era assim: tinha que começar tocando house e finalizava com o drum’n’bass. A coisa foi indo, foi indo, indo. Hora de trazer o Bryan Gee pra cá. Novembro. Logo que ele viu neguinho tocar, nos levou pra lá [n.e. Inglaterra] em dezembro de 98. E começamos a ir pra lá e todo mundo nos acompanhou de lá pra cá.
Gafieiras — Essa relação dos gringos com vocês é diferente?
Patife — Foi um choque. Por quê? Sei que em um mês em Londres, foi como um vírus. Foi muito doido!
Gafieiras — As bases que vocês tocavam eram deles?
Patife — É, a gente tocava o som que comprávamos lá na Galeria. E nisso, o Marky tomou um rumo. Eu, não, tava ali no sampler. O meu prazer era estar envolvido. Um dos feras prediletos era Metalheadz, do Goldie, meu! Os caras me deram um beijo no rosto, me abraçaram. Eu entrava nas festas de graça! Aquilo ali pra mim, ó… Eu não pensava que iria tocar em Londres. Achei legal a conexão e ver o Marky ali. Passamos uns putas altos e baixos. Ele foi o mais discriminado, porque foi o único que teve mídia. Até 99 foi assim. Então, quando a Toco fechou, os donos de casas noturnas colocaram a culpa no jungle. Foi o jungle que faliu a Toco. Ele [n.e. O dono da Toco] carrega essa dor de ter fechado uma casa de 25 anos. Só que ele sabe que não é, mas ficou esse carimbo, né? Eu via tudo aquilo, fazendo aquela porra toda, e a galera passando mal, cara! Aí uns DJs se aliaram e outros começaram a fechar a porta. Foi uma dificuldade que ele [Patife] enfrentou até 2001, mais ou menos. Uns DJs não davam música exclusiva, outros davam e, cara, foi um sonho! Comecei a dar conta disso em 2000. Havia passagem que até ele pagava, havia passagem que a Trama me dava, e aí foi uma coisa. Certo dia, na metade de 2000, o Marky falou, “Ó, meu, agora o Ângelo [n.e. Ângelo Leuzzi, proprietário da Lov.e] decidiu mudar. Na noite de quinta somente drum’n’bass. Vou criar um nome. Venha ser residente comigo! Você toca uns jazzinhos no início.” Aí, cara, foi assim… Um jornalista ou outro falou, “O Lov.e é legal! Tem um DJ que toca umas coisinhas mais melódicas.” Beleza. Um dia o João tava lá e falou, “Meu, por que a gente não faz um cdzinho seu somente com esse tipo de drum’n’bass que você toca, que é diferente do Marky?”. “Meu, mas vai vender o quê? Dez cópias? Quem me conhece?” “Meu, não estamos preocupados. Vamos fazer o trabalho!” Entrei na Trama. Assinamos contrato e lancei o CD. Quando lancei o disco, cara, jornal daqui, revista dali e site acolá começaram a falar de meu nome. O Marky partiu pra residente ser da Lov.e. Ficou esse negócio: eu ainda mais pro lado melódico, que era a coisa que eu gostava muito e que começou a dar certo, porque até então nunca havia dado certo. Parei de tocar nas festas… E começou a rolar. Aí, inventaram o show do Chemical Brothers e me colocaram pra abrir. Foi lindo! Depois que lancei CD, conheci o Max de Castro. “Faz um remix do meu trabalho?” Eu tinha contato com o Xerxes, com o Mad [n.e. DJ Mad Zoo] Fui lá, sentei com os caras. Eu não sabia. “Meu, fala uma batida que você gosta, um andamento e um tipo de timbre”. Aí, “Esse com esse, aí você faz tipo [imita os sons sugeridos]. Os caras construíam e eu falava o que queria. “É isso, ser produtor é isso!” Falei, “Não, ser produtor é sentar e mexer.” E até hoje essa é a maior briga. Hoje, não! Há um ano e meio tenho meu equipamento. Com os cursos que venho fazendo, tô aprendendo mais. Já levo meio mastigado pra eles. Então me sinto melhor, que é mó ruim você levar o nome de uma coisa que você não fez, sabe? Isso me incomoda muito.
Gafieiras — E em seu segundo disco, você…
Patife — Aí, muita coisa mudou. Em um ano muita coisa mudou.
Gafieiras — E foi rápido, não?
Patife — É, foi muito rápido.
Gafieiras — Sobre ritmo, você disse que tem que explicar para o técnico o que você quer. Você procura ouvir música e ritmos brasileiros?
Patife — Isso é uma coisa engraçada. Nunca tive informação de música brasileira. Nenhuma, nenhuma, nenhuma. Geralmente a gente absorve aquilo que o pai e a mãe escutam em casa, e na minha casa era terrível. Amado Batista, sertanejo. Roberto Carlos nunca houve. Então, o que aprendi foi na rua. Eram os caras que escutavam mais samba-rock. Eram as festas de equipe de som. Bossa nova e MPB fui aprender na Europa!
Gafieiras — Na Europa?
Patife — É, em 1998, 99.
Gafieiras — Isso merece um capítulo à parte.
Patife — Totalmente à parte. Foi aí que a coisa começou a mudar. Eu estava no SESC em março de 2000 me apresentando. Aí, a Fernanda [n.e. Fernanda Porto] chegou, “Som legal esse drum’n’bass! Escuto há uns dois anos e acho legal seu trabalho, uma mistura de um monte de coisas.” As músicas que eu tocava eram melódicas. Até o momento eu não tinha feito nenhum remix. Ela falou pra mim, “Pô, tá aqui um CD demo. Tem uma música que fala de drum’n’bass e tal. Escuta aí.” Aí, me ligava toda semana perguntando se eu havia escutado o disco. “Pô, não escutei, não escutei.” Aí, no dia que em que escutei, cara…
Gafieiras — Você pirou a cabeça.
Patife — O dia em que escutei, falei, “Caraca, meu!” Mas, e o medo de ligar pra ela e pedir pra fazer um remix? Havia aquela que DJ vai destruir toda a música já feita. Só que eu já havia feito o remix do Max [n.e. Max de Castro], “Pra você lembrar”, mas não havia tanto vocal. Havia aquele preconceito, “Pô, música eletrônica com português, não sei, né?” Liguei pra ela, “Pô, Fernanda, escutei.” E ela, toda entusiasmada, “Poxa, escutou, que legal. O que você achou?” “Meu, adorei uma música que se chama ”Sambassim”.” “É mesmo?” “É. Eu queria ver com você se — [maior medroso, maior tímido] dá pra montar uma batida.” “Por que você não faz um remix, hein?” “Na verdade era isso que eu queria falar.” “Ah, poxa, faça. Inclusive conheço o Xerxes que há algum tempo vem dando um tapa em meu disco. Tô querendo lançá-lo independente. Vou ligar pra ele e falar que você se interessou. Aí tento o vocal lá. Vá lá e faça. Escolha o que você quer e faça.” Liguei pro Xerxes, que jogou o maior balde de água fria. “Meu, você tá querendo mesmo mexer com esse negócio?” “Ah, Xerxes, achei legal. Quero tocar. Já fiz o Max e tive o maior resultado bom.” “É, meu… Vem aí e escolha o que cê quer.” Como eu já tinha uma noção, já havia feito o Max, fui em meus discos e peguei umas coisas de break que eu tinha e falei, “Isso aqui desse jeito, assim, assim… Muito doido, cara!” Vi o negócio em minha cabeça. Fiquei escutando o remix umas 30 vezes antes de ir pro Xerxes. “Pô, vou pegar esse pandeirinho, esse agogô e fazer quatro compassos. Somente agogô, fazer quatro compassos, depois mais quatro compassos de pandeiro. Depois o triangulozinho. Aí, lá na frente, sem nada, somente o violão e a voz.” Conversei e montei direitinho na minha cabeça. Ficou incrível! Cheguei lá no Xerxes às quatro da tarde. Às três da manhã estava pronto, prontinho! Nessa época, o Marky estava fora. Eu era quem tomava conta da Lov.e. Aí, coloquei o CD em uma das noites. Primeiro: quem estava perto da cabine, olhou torto porque me viu botar um CD. Até então eu nunca havia tocado um CD. Botei o CD e todo mundo já assim, né? Fui mixando com canal fechado. Lá na frente- com grave e tudo — somente apertei e tum! “Sambassim!” [cantarola]
Gafieiras — E parou?
Patife — [cantarola] “Comecei um samba assim”. Aquele dia estava muito cheio. Sei que, literalmente, a casa inteira virou pra cabine. Nem tirei o fone. Eu batendo palma! A gente tem essa mania — coisa do drum’n’bass — que é voltar o ritmo, voltar para o início quando a música é legal. Aí viram que não era disco e quiseram saber de quem era o CD. Dei um pause no CD. Nesse momento deu uma… Não sei se era moleza, vontade de chorar ou uma engasgada… Sei que era uma gritaria danada. Fui para o início e soltei. Quando coloquei do início [cantarola], as meninas rebolavam, sambavam… Aí a Flavinha — dona da Lov.e — veio, “Que é isso? Que lindo!”. Cara, sei que tocou quatro vezes. Não botei outra música. Tocou quatro vezes, do início ao fim, e a galera aplaudindo. O público gostou!
Gafieiras — E os DJs não?
Patife — Fiquei tocando quatro meses assim, sozinho. Ninguém gostou. “Ê, meu, isso é pagode, isso é não-sei-o-quê. Falei, “Então é pagode?!” E começaram a me chamar de pagodeiro. Os amigos, os “brothers” de cabine! Meu, aí começaram a pedir muito. O Andy chegou, “Ó, meu, dá pra gravar um CD pra mim?” E o Ramilson, “Ó, meu, faz uma cópia pra mim”. E o Marky, uns cinco meses depois, falou, “Vou ter que tocar essa porra aí, meu! Me dá uma cópia”. Aí dei, também. Ninguém queria tocar porque não se identificou. Foi um choque, cara, foi um choque muito grande. Pra mim mesmo…
Gafieiras — Isso foi em que ano?
Patife — Foi em 2000. Foi em maio, junho de 2000.
Gafieiras — Mas o que causava o choque? A letra em português?
Patife — Primeiro de tudo: a letra em português, falando de samba. Sempre tivemos um preconceito da música eletrônica feita aqui mesmo. Pô, o Xerxes produz desde 94. Começamos a tocar jungle em 93, 94. Nunca tocamos a música do Xerxes. Quero dizer, tocávamos, tentávamos tocar. Achávamos que quem sabia fazer isso era gringo. A gente não sabia fazer música eletrônica. Então, partia daquilo. A gente tem aquela coisa, “Não, tem que soar igual ao dos gringos.” Hoje, tenho uma concepção. “Tem que soar o meu som, o meu ouvido, a minha equalização, a minha masterização, a minha compressão.” Pegávamos a referência e queríamos que ficasse igual. Então, havia essa coisa. “Ah, meu, o som que os caras gravam não é igual. Era isso que fazia a gente ter o preconceito. A maioria dos DJs não queriam tocar por isso porque falava de samba, porque viam que era produção nacional. Havia aquele negócio, “Nossa, a música eletrônica!” Mesmo o Ramilson fazendo a Lady Zu há dez anos, ou o Mau que fazia há muitos anos, o Renato Lopes também…
Gafieiras — O que pegou também foi essa coisa da canção, do local, não?
Patife — Local. Felizmente por um lado, e infelizmente por outro. O Brasil não tem cultura de música instrumental. Na verdade, a música eletrônica sempre foi instrumental.
Gafieiras — Mas é um país que canta.
Patife — Mas é um país que canta. Fernanda Porto foi a luz da minha vida, cara, literalmente. Ela diz que não, que sou o cara do mercado, que não-sei-o-quê. Pra mim, é o contrário. Foi ela é que me botou na…
Gafieiras — … na música brasileira, na letra…
Patife — Foi sem intenção. Quando escutei o selo juntou um monte de coisa em minha cabeça. Eu achava legal, mas não tinha uma música em português. Eu tinha me dado um impulso com a história do Max, [cantarola] “Carnaval / Essa morena me deixou sonhando”. Eu não sei a letra toda. Depois de um ano de “Só você”, pensei, “Pô, vou pegar a voz do Max e fazer uma versão!” Até foi pro clipe. Foi uma coisa que não teve pretensão de tocar em rádio. Nada! Foi somente a vontade de ter uma música no set com vocal inteiro em português. Mas calhou de dar certo. E hoje tem um peso muito grande, que é até meio chato. As pessoas estão esperando de mim vocal, vocal e mais vocal. Uma coisa que eu amo, tudo bem, vou continuar fazendo, mas tenho muito forte o meu lado instrumental, principalmente na área de metal e piano, que é uma coisa que adoro.
Gafieiras — Você parou num mesmo disco que o Tom Jobim.
Patife — Calhou que, pra novela Um anjo caiu do céu havia o Jackson original no cotidiano da atriz, quando à noite ela ia pra uma balada. A Som Livre queria uma coisa pra ela dançar no clube. Aí os caras ligaram pro Marky, “Ô, faz um ‘drum”n” bossa”. Aí desligou o telefone e ligou pra mim, “Meu, ligaram pra mim e o bagulho tem mais a sua cara do que a minha. Tá afim de fazer junto?” Aí sentamos no estúdio e tomei mais o rumo. Falei, “Eu quero assim, assim e assim”. E eu mostrava pra ele, “E aí?” “Ah, meu, tá, legal, tem mais a sua cara mesmo o negócio!”. Aí acabou que rolou, véio.
Gafieiras — Foi aí você começou a querer aprender mais…
Patife — É, então, a terceira experiência de estúdio foi essa, né? Falei, “Cara, preciso comprar um equipamento”, mas estava com pouca grana. CD não dá dinheiro pra gente que vende 20 mil cópias. Poder se apresentar é um cartão de visitas pra mim. Cara, ajudou muito, muito, muito, mas aí foi essa, “Como vou aprender? Curso é caro.” Aí, ano passado comprei um 7.500. Depois troquei por um G-3 azul e juntei mais um dinheiro. “Meu, já que eu não paro em lugar nenhum…” E vendi o G-3 azul e comprei um titaniozinho e esse dá pra praticar em todo momento, em qualquer lugar em que estou.
Gafieiras — Patife, você falou da diferença entre o músico e o DJ. Você não se sente músico mesmo tendo aquela concepção da música no CD, mesmo tocando na loja e as pessoas virarem pra você e aplaudirem pedindo bis como se fosse uma banda de rock? Como você se sente?
Patife — Eu não me sinto, cara. Nesse último mês tenho me sentindo cada vez mais músico, já que venho aprendendo, mas não tem como me sentir músico. Eu me sinto DJ, eu passo aquilo pro público. Além de estar tocando a música, sou um palhaço danado, principalmente quando toco aquelas que eu adoro.
Gafieiras — Parece um band leader?
Patife — É, é complicado, mas não me sinto. O dia em que eu aprender a tocar… Daqui a uns três anos a gente conversa.
Gafieiras — Você quer dominar a técnica, a linguagem pra se sentir músico.
Patife — É, pelo menos botar meus acordes. Eu faço e gravo em MD, e dou pro cara escutar e canto junto. Quero pelo menos passar pro teclado o que eu tenho na minha cabeça, nem que eu pelo menos… Montar meu primeiro acorde de três notas, aí depois monto outro, com o tom mais baixo. Ter essa facilidade, né? Então, aí você já tem uma noçãozinha. Mas músico é músico e DJ é DJ, cara.
Gafieiras — Mas você se sente um compositor? Como é a parada? Músico instrumentista, beleza, mas compositor, não?
Patife — Acho que aí a gente pode concordar. Até agora venho escrevendo letra também… Coisa que é mais fácil, porque o novo disco vai sair com 13, 14 faixas, todo produzido. Não será como os dois primeiros CDs que foram faixas licenciadas em cooperação. Então, esses dias eu estava em casa… Não, a primeira idéia mesmo foi em setembro. Eu estava voltando de viagem e tinha uma puta escala de 7 horas em Lisboa. Eu estava morgando quando veio um negócio na minha cabeça e comecei a cantar achando que era uma música, mas não era. Veio na minha cabeça e eu comecei a escrever uma letra, uma série de coisas que eu sinto, o cotidiano, algo que aconteceu ou sonho. Então, tenho três letrinhas escritas. E falei, “Vou virar compositor agora”. Aí passei pra Fernanda uma letra, e ela, “Cara, isso é muito legal! Sabia que você pode escrever música?” Conversando com o João a semana passada, falei “Puta, João, queria… Arruma isso pra mim.” “Caraca, meu, isso é legal, de onde você tirou isso?” “Que é, meu?” Aí botou um strachzinho embaixo. Fiquei mó feliz! Deixem me lembrar aqui. [solfeja] Aí, de um já puxa outro e outro, faço um, faço outro.
Gafieiras — É jazz, isso!
Patife — Eu sei-lá-o-que-é, meu!
Gafieiras — Patife, fale um pouquinho dessa história do jazz em seu trabalho, principalmente nas músicas que você produziu.
Patife — Então, a história do jazz é a seguinte, que eu falei há pouco: sempre fui muito vidrado no som do saxofone. Outra coisa que comecei a fazer as músicas, de ir pra estúdio, eu pensava: “Pô, mas como que o sax alto fica daquele jeito, gordão? Na verdade, não é. São três instrumentos juntos, que é o trompete, o trombone e o sax, de repente até com um outro sax alto. Foi aí onde comecei a entrar mais. Mas quem faz jazz assim? Aí me mostraram os jazz, só que era aquele jazz mais vassourinha. Gosto mais dos jazz doidão mesmo, que andei comprando CD, e lá fora é baratinho, cara: 3, 4 libras cada puta coleção. Comprei esses dias — esse foi caro -, custou cem libras, mas é a história da Blue Note inteirinha, 7 CDs duplos, 1939/1999. Veio numa caixa de vinil, cara! É incrível, é incrível! Aí, tem somente um CD duplo que eu não gostei muito, que é um vivo, mas os outros…! Então, agora é que estou conhecendo os nomes, quem é que foram os caras de jazz.
Gafieiras — Você está em um momento de trabalho a mil hora, não?
Patife — A mil por hora, cara.
Gafieiras — Mas fora o trabalho, o que lhe dá prazer?
Patife — Puta, cara, namorar é um negócio que eu gosto demais. Mas minha última namorada foi em 94 [risos].
Gafieiras — Você tem quantos anos?
Patife — Eu tô com 26 [n.e. Idade na época da entrevista. Hoje, já carrega seus 27 anos completados em setembro de 2003], tinha 18. Foi alguém assim, que… Acho que eu amo aquela infeliz até hoje, tá ligado? Mas, enfim, não dá, cara, pra namorar, até porque sou um cara muito enjoado. Eu adoraria ser patife mesmo! Cara, você tem que ver a demora que é pra eu beijar uma mulher! Tem quanto tempo? Eu queria ter uma namorada, mas as mulheres são doidas, cara, piram! Não acreditam, acham que DJ é vagabundo. E outra: estou muito fora, em viagens e, na maioria, você não consegue levar ninguém, até porque a situação dos produtores de evento não permite comprar duas passagens, dois quartos de hotel. E nada, nada, somente no ano passado fui sete vezes pra fora do Brasil. Outro dia, mano, peguei o passaporte e vi o tempo que eu fiquei fora: gastei somente 60 e poucos dias no Brasil! Então, ninguém quer sair comigo. Puta, cara, o que me dá prazer? Ouvir música, muita música, a minha vida foi assim, muita, muita música.
Gafieiras — Mesmo que você escute mais de perto os ritmos, querendo conhecer outras coisas, até hoje você não vasculhou a discoteca de seus pais, Lindomar Castilho, sertanejo. Ainda existe esse preconceito?
Patife — Na verdade, não há mais preconceito, somente não me identifico com as paradas que meu pai ouvia, nem sei se ele tem mais, cara. Até porque também tem dois meses que ele foi morar com papai do céu, então nem sei onde foram parar, mas nunca gostei.
Gafieiras — Mas o que você tem ouvido de música brasileira?
Patife — De música brasileira… Outro dia peguei uma coleção de bossa nova, umas coisas bem baratinhas que relançaram. Tem Vinicius com Toquinho, se não me engano, Elis com Tom, que mais? Ah, compro umas coisas lá fora, History of Bossa Nova, Marcos Valle, Sérgio Mendes, umas coisas muito boas que tem lá fora que aqui você nunca imagina encontrar. E é uma coisa muito estranha, como a gente não conhece bossa nova aqui e lá fora é top de linha. Não toca nem no rádio direito, cara!
Gafieiras — É o que você falou: não tem discos lançados…
Patife — Não tem discos, cara! É muito estranho… E lá fora tem muito coisa.
Gafieiras — E quem tem controle sobre a maioria da bossa nova são os gringos, né, cara!
Patife — Os direitos autorais, essa coisa. O Japão é a maior… A gente tava no Japão e havia disco de R$300,00, cara! Na banca assim, ó, de brasileiro, disco da Philips, disco daqui, que foi prensado no Rio vendendo lá por 300 paus.
Gafieiras — Você estava falando do jazz, de sua admiração pelo sax, mas você ouve a música instrumental brasileira, como o choro?
Patife — Não, cara, tô começando a ir para isso agora, agora que eu vou aprender a escutar a música brasileira.
Gafieiras — Paulo Moura, Pixinguinha, essa turma.
Patife — Exatamente. Com o Paulo Moura tive um baita contato. “Ô, beleza, vamos fazer uma coisa juntos. Vou mostrar um pouco das minhas coisas”. Mas cada um foi pra um canto. Agora tô fazendo a lista de quem eu quero que vá tocar, que vá cantar. Tem dia que vou pro Rio, sentar com Jair, com Max Viana, “Cara, como você cantaria isso?” “Sinto uma coisa assim, assim, etc.” Esse disco meu vai ser bem uma coisa bem “história da minha vida”, tudo o que aconteceu, e coisa que eu sinto, coisa que eu espero. Enfim, mito amor. Sou um cara bem amoroso, mas não brega, tá ligado? Mas um negócio positivo, pra cima. É o principal, né? Sempre foi um pensamento da minha cabeça, desde a primeira compilação. Não quero fazer somente um CD em que um cara vai lembrar somente da balada. Quero fazer um CD!
Gafieiras — Para tirar o drum’n’bass da pista…
Patife — Isso foi uma coisa que pensei. Se tem uma coisa que eu posso tirar… Você se sente músico? Não! Você se sente artista? Não! Eu quis que as pessoas vissem o drum’n’bass com outro olhar. Para poder escutá-lo dentro do carro. Pô, que prazer maior do que receber e-mail de gente de 40 anos falando que escuta o disco quando está trabalhando. Ou de pessoa que está estudando e escutando o CD. Eu estava no avião com o Jota Quest esses dias. “Cara, às vezes, tô no hotel, não-sei-o-quê, e boto o seu CD lá, véio! É mó legal, dá inspiração!”
Gafieiras — Já rolou algum convite pra trilha sonora?
Patife — Puta, nesse último ano pintou pelo menos uns três. Uma rapaziada de Porto Alegre, que está fazendo um curta pediu pra que eu fizesse uma história. Tem um povo daqui de São Paulo que também começou a fazer um filme, “Puta, meu, dá uma assistida com a gente pra ver o que cê pode fazer.” Mas aí não deu por causa dessa coisa toda, né? Vou ter que botar a cabeça no lugar. Vou ter que decidir algumas coisas agora, porque venho pensando muito no futuro, no seguinte sentido: não vou poder ser DJ a vida inteira. Eu gostaria, mas tem certas coisas que estão pesando. Por exemplo: minha saúde. Infelizmente nunca tive saúde boa. Até meus 18, 19 anos fiquei em hospital fazendo inalação. Bronquite. Era uma tristeza! E agora, de uns tempos pra cá, começou uns negócios nas costas, onde dá hérnia-de-disco, manja? Tô com um problema no nervo ciático muito forte. Até entrei na academia pra fazer exercícios, alongamento, etc. Não vou segurar durante muito tempo a barra na noitada. Não vou parar amanhã ou ano que vem, mas se eu viver mais cinco anos do jeito que tô vivendo, fodeu. E outra: tenho um projeto de vida. Deus iluminar e mandar a mulher da vida, casar, e mais pra frente, ter filhos. Então, se você quiser ter uma família, noitada não dá certo. Botei esse negócio na minha cabeça de que quero ter um estúdio e ser um produtor mesmo, produzir banda, produzir… Tenho essa visão. Isso é certeza do que quero fazer. E, pô, vendo o renascimento do cinema brasileiro… Por exemplo: a gente vê Cidade de Deus. Não foi tão produzido, porque você vê que tem o Cassiano e o Wilson Simonal. Somente coisa pronta. É legal você fazer o… Agora está no momento de surround. Não há somente duas caixas na frente. É uma, duas, seis. Estão falando agora de 7.1, tá ligado? O subgrave meu, 1, 2, 3, 4, subgrave 5, 6, 7 na frente. Puta, imagina você controlar todos os HD. Ave Maria! Aí, seis meses envolvido com uma parada dessas, sem pensar em nada, somente se dedicando. Isso é uma coisa que chama muita atenção.
Gafieiras — Você tem noção de onde quer chegar com seu trabalho?
Patife — Não tenho, não, cara. Quero estar envolvido com a música, botar música numa trilha de filme, como eu estava falando agora, botar música pro povo dançar. O que posso garantir procês é o seguinte: quero ter o meu estúdio, ser um produtor musical mesmo, sabe? “Você tem uma voz da hora. O que você gosta? Bossa nova, r&b, jazz? Vá um dia lá pro estúdio fazer uma experiência?” Aí tentar encaixar o gosto dela ao meu e fazer um CD. Principalmente para quem não tem oportunidade. Isso é uma coisa que eu quero muito, porque foi difícil pra eu ter oportunidade, tá ligado?
Gafieiras — Outros movimentos e ritmos musicais que surgiram na periferia, como o rap, ou mesmo o pagode, tem uma relação muito forte com a comunidade. Como é sua relação? Você quer ter esse estúdio pra fomentar a criatividade das crianças que estão lá, ou não tem nada a ver com essa história?
Patife — Eu quero ter esse poder de ajudar quem não tem condição. Nem é tanta condição financeira, mas a condição “luz no fim do túnel”, sabe? Pô, principalmente agora, pelo fato de ter rolado esse negócio com a Fernanda, então tem muita gente que olha pra mim e “Ó, cê é o cara pra eu te dar um CD e me levar pra algum lugar”. Mas, às vezes, a pretensão do cara é outra e não rola nada. Mas o que eu tô querendo dizer é o seguinte: vem uma pessoa com talento e, de repente, vou me identificar prum trabalho meu ou pra ajudar aquela pessoa e falar, “Meu, acho que isso é uma coisa diferente, ninguém nunca teve uma sacada pra isso. Vamos experimentar fazer alguma coisa!” Dar um puxão na pessoa. Se minha vida financeira for boa nos próximos anos e não precisar fazer, “Puta, vou ter que produzir isso pra poder ganhar dinheiro e pagar conta”, ajudar os outros, beleza… Eu tenho esse coração, de ajudar. Meu sonho maior é ver o mundo bem, é ver todo mundo bem.
Gafieiras — Numa pista, né?
Patife — É, numa pista. Eu acharia isso demais!
Gafieiras — Você se sente pressionado? Existe alguma pressão quando as pessoas lhe entregam um CD?
Patife — Às vezes existe. “Ô, meu, vê o que cê pode fazer por mim”. Ou a parada é assim, “Ô, vamos fazer uma coisa juntos?” Mas você vê sangue no olho do cara, você não vê brilho. “Quero fazer porque é uma coisa do momento, porque é moda”. Aí, vamos lá, beleza, vamos ver, nunca trato mal ninguém. Você escuta o trampo do cara e sabe quando você vê que está forçando uma coisa? Tá forçando porque quer ir pro rádio… E com a gente nada aconteceu assim. A música do Marky com o Xerxes, “Carolina”. Olhem a história dessa música. Eu estava fazendo o Cool steps e falei, “Porra, tem música da Lady Zu, botei música de não-sei-quem, e, Marky, não ter uma música sua vai ser foda. Faz uma música aí pra eu colocar no meu disco.” “Vou fazer o quê?” “Sampleia um samba-rock rapidinho aí. Você sabe a cara que eu gosto, meu. Uma coisa de r&b, um funk. Sampleia alguma coisa do Jorge Ben, alguma coisa assim.” Passaram-se três dias. Liguei de novo. “E aí, meu, tá fazendo? Vou ter que mixar o disco semana que vem.” “Corre aqui no Xerxes que vou te mostrar. A gente teve uma idéia.” Aí cheguei lá e havia dois compassos, dois canalzinhos, assim ó [solfeja] “tan dan tantã tanrã / tan dan tantan tanrã / tandandã / tantã”. “Uau!” Aí, o segundo compasso era [canta] “Ela mora no meu peito / Ela mora…” “Puta, meu, coloca a segunda parte”. E as outras duas [canta]… “E o vizinho dela…” Cruzinho. Beleza! Passam dois dias, voltei lá e ele, “Se liga aqui”. [solfeja] Com efeito, com tudo. “Nossa!” Cara, sabe quando arrepiou? “Meu, cê gostou?” “Bicho, me dá agora!” Mixei o disco e a gente foi pra Londres. Aí o Xerxes, super desligadão, não tocou a música. Foi uma coisa que me ajudou muito lá fora. Fiz um evento com a BBC chamado I love live London. Estava de dentro do Bar Rumba transmitindo para o mundo. Rádio, internet. Somente na Inglaterra eram 20 milhões de nego ouvindo. Aí toquei essa música. Cara, ninguém nunca havia escutado. Ninguém, nada, nem nosso empresário. Ninguém! O povo foi à loucura! Voltou, tocou do início e ficou todo mundo doido. Aí, um cara chegou na cabine e “Meu, de quem é essa música?” Essa música é do Marky e vai entrar no meu CD”. Quem disse que os caras deixaram a música entrar no CD? Fizeram um puta trampo com a música. Seis meses depois da música daquele jeito, o Stan, que é nosso MC, tinha a mania de fazer “It’s do hei hei / It’s do hei hei”. Só assim, só assim, nada mais. Aí, quando parava, antes de entrar a violinha, ele ficava [canta] “This is wrong me to you / This is wrong me to you”. Aí, [canta] “Let me bring so to you / It’s goes hei hei / Do you play sound / It’s do hei hei”. Tipo, “Esse é o jeito que a gente toca esse som pra você”. Aí, daqui a pouco, “I like, you like, we like too”.
Gafieiras — De improviso?
Patife — De improviso. Ele é MC, tem a manha de fazer rima e improvisar. Passou uma época, “Ô, vai tocar ‘It’s does hei’? Vai tocar ‘it’s does hei?” “Que ‘It’s does hei’?” [canta] “It’s does hei hei”. Cara, olha, eu arrepio por inteiro! Foi muito esquisito isso.
Gafieiras — Essa foi a segunda música brasileira que entrou na parada…
Patife — Foi a terceira. “Garota de Ipanema” no 25º, Sepultura com “Orgasmastron” no 19º, e Marky no 17º.
Gafieiras — É a história.
Patife — Cara, e é foda, porque essa música não tem como não tocar no set até hoje. Vai pra três anos…
Gafieiras — Na parada da BBC?
Patife — Não, no Chat Nacional, as 40 mais. A gente dava risadas. Britney Spears no 28º [risos], “Slave for you”… Pô, foi a única coisa que gostei. Foi produzido pelo N-Tunes. Puta, é o maior bicho do caralho aquela música, mas tem que tirar a voz para ficar linda! Põe a voz, fodeu! A gente dava risada, cara! Não acreditávamos! Quando a gente se junta, fala-se de música, mas também de outras coisas. “Tá saindo com não-sei-com-quem”, “O que está pegando?”, “Ô, e sua mãe?”. Aí quando toca no assunto, a gente fala, “Caraca, né, cara!” Particularmente, não tenho noção do que a gente construiu e o leque que abriu…
Gafieiras — Você está percebendo agora.
Patife — Agora que estou começando a perceber. Vejo uma coisa que me deixa feliz, que acabou ajudando de tabela. Por exemplo, abriu o maior circuito pro DJ. Porra, hoje vejo o Renato Cohen que entrou no mesmo barco da gente — o nosso empresário foi quem fez contato com o Tal Cox. Então, não ajudou somente eu e o Marky, ajudou muita gente. Pô, hoje vejo ele trabalhando o Luis Eurico, trazendo o Groove Armada no ano passado. Abriu o maior leque, criou um movimento de verdade, e não o que a gente tinha, que era o drum’n’bass na periferia. É uma cena brasileira para onde o mundo inteiro olha. Caralho, em Varsóvia nego fala, “Puta, quero ir para o Brasil porque dizem que a cena é legal lá”! Em Tóquio, eu escutava, “O Brasil vai ser o maior mercado de ‘dance music’ mundial nos próximos anos”. Cê acha?
Gafieiras — Patife, você vê com otimismo a música eletrônica no Brasil? Há, de fato, uma expansão?
Patife — Vejo crescente num circuito alternativo. É a mesma pergunta de todo jornalista, nenhum passa em branco. “Você acha que a música eletrônica vai se massificar no Brasil, Patife?” Eu falo, “Não! Porque a música eletrônica, nem aqui nem no mundo, vende disco. Então, pra massificar no Brasil a indústria fonográfica precisa ter interesse mesmo.
Gafieiras — Investir.
Patife — Se a indústria fonográfica não acreditar em uma coisa, nada vai se massificar no Brasil. Tudo que é massificado é porque a indústria fonográfica acredita. Então, a música eletrônica não vende disco nem no Brasil nem no mundo. Os maiores discos que eu vi vender… Não, o que foi, cara? Chemical Brothers? O Prodigy acho que vendeu meio milhão, ou algo assim. Um Prodigy que tocou na Jovem Pan, na Globo, não vendeu 50 mil no Brasil! Imagine eu, ou sei lá quem!
Gafieiras — Você vendeu quantas cópias?
Patife — Em torno de quinze, até hoje. E o novo agora tá quase em torno de 50. E eu dou pulo de alegria por saber que tem aí mais de 50 mil pessoas com o meu disco na mão. Prefiro que seja uma opção da galera clubber escutar uma coisa de música brasileira, porque é legal música eletrônica hoje porque se você liga a televisão e põe no Faustão tá a Kelly Key no seu colo. Você muda pro canal 7 tá lá de novo a Kelly Key no seu colo. Põe no canal 21, tá a Kelly Key no seu colo. Então isso enche o saco do cara. Acho que hoje muita gente tá naquela parada do DJ. Uma coisa que muito me chamou a atenção nesses anos todos de DJ é de procurar aquele disco que cê não acha nem fodendo, tá ligado? Aí vai na internet, puta, deixa ver se eu consigo baixar, deixa ver se eu consigo isso. Então hoje tá mó legal isso com a gente, pelo menos no drum’n’bass. Hoje os cara querem um remix do Simoninha que a gente fez. Ninguém acha, cara! Não tem na internet, não tem, não tem, não tem! Então hoje tá todo mundo pegando esse gosto de novo, de ir atrás das coisas. É… pocotó, égua pocotó, não agüenta, tá no rádio, tá em tudo, então o cara enche o saco. Tá legal cê ir atrás das coisas hoje. E eu tô vendo que cada dia mais as pessoas estão com essa história de ir na FNAC, “Deixa eu ver se tem aquele CD lá…”, de ir na galeria e, “Puta, deixa eu ver se tem aquele CD”…
Gafieiras — Patife, o seu público mudou? Antes você tocava em casas da periferia e hoje o pessoal vai na FNAC procurar o seu disco.
Patife — Hoje tá em tudo! E hoje a galera que…
Gafieiras — É forte…
Patife — É muito forte. Se você for em uma festa na periferia, você não acredita, cara, não mudou. E hoje cresceu e eles continuaram atrás, dando suporte. A galera vai atrás. Por exemplo: esses dias a gente fez uma festa, nossa!, quase mil nego cantando as músicas, gente que casou que a gente não via há 4, 5 anos e que ficou sabendo e ia lá… Incrível, todo mundo, aqueles que, meu, tava com você lá em 93, 94. Você via e … o cara gosta, né, meu? Muita gente hoje tá tratando isso como dinheiro, como business e tal, mas somente a gente que é de dentro que vê o quanto é importante aquilo para aquele cara que tá ali na pista que tava cantando em 94 e hoje em 2003. Só a gente sabe que aquilo é um estilo de vida pro cara, uma coisa que o cara cresceu ouvindo aquilo. Quando ele tiver 50 anos, ele vai lembrar, “Puta, quando eu tinha 18, cara, eu escutava um tal de Marky, Patife, com umas músicas…” E tem muita gente que hoje trata somente como business. Na verdade, é um business hoje, como acontece em geral, mas pra mim não é somente um business, é um estilo de vida, é uma coisa com a qual me identifico, que eu gosto de ouvir, que é o meu trabalho, que aí é onde vira business. É um estilo de vida pra mim!
Gafieiras — Como é que foi essa profissionalização pra você, que tocava até há pouco em danceterias amadoras e, de repente, você chegou nos caras, tem um CD, está na Trama?
Patife — É como estávamos falando… Eu não tenho noção, mas tenho que achar algo, e esse algo que eu acho nesse momento…
Gafieiras — Foi assustador?
Patife — Assustador, não. É uma realização muito, muito grande. Como você falou, tocava uns “junglinho” pra galera, gostava e ia dançar, e hoje os caras que são os meus astros faz assim pra gente, “Venha aqui!”. Os caras falam, “Vocês sabem o que vocês construíram?”, “Vocês pegaram a nossa música e plantaram a raiz e hoje tem uma árvore da qual colhemos frutos. Vocês ganham, nós ganhamos, o mundo inteiro ganham. Vocês sabem o que é isso?!” Então, a verdade é uma realização. Não vou dizer um sonho, porque não tínhamos esse sonho. O sonho era ir para Londres, conhecer os caras e comprar discos. Esse era o nosso sonho. Então, isso nós realizamos. Hoje, ser residente em uma noite lá fora, onde toco três, quatro vezes e as pessoas vão me ver, isso é escroto, esquisito. Os caras vão para te ver, cara! Eles falam, “Quando você vem tocar aqui, vem um outro público, gente que não vem regularmente!” Então, é uma ralização. E hoje tento ver o que a gente construiu. Mas não quero ter noção, porque não quero mudar a minha vida de como a vivi até hoje, como agora, de pegar um trenzão, ir para São Caetano. Não quero mudar nada. Não quero ter aquela imagem de um cara da TV, de um pop star. Pelo amor de Deus, isso não pode acontecer comigo. Não que vá rolar uma parada Kurt Cobain, vou me suicidar, mas quero ter liberdade, de andar na rua, ir ao mercado com a minha mãe. Quero que tudo fique normal. As pessoas que conheço falam, “E aí, Patife, beleza?”, “Beleza”, não construí aquela barrreira que o pop star constrói.
Gafieiras — Patife, você faz música brasileira?
Patife — [silêncio] Eu acho que sim.
Gafieiras — É importante cantar em português? Antes havia um preconceito, não?
Patife — A gente tinha esse preconceito no início. Hoje não tem mais. Verdade, verdade. Mas, é isso que eu falo para a galera que pede dica, para ser produção nacional, não é preciso ter vocal em português, não é preciso ter a viola ou o pandeiro, ou o que for. Por exemplo: tenho várias músicas no CD que não tem nada disso mas que não deixam de ser produção nacional. Faço, sim, música brasileira. Eu creio. Agora, faço drum’n’bass com clima de música brasileira, só que drum’n’bass não é música brasileira. Mas, hoje tem o drum’n’bass brasileiro.
Gafieiras — Pouca coisa nasceu aqui, muito foi transformado.
Patife — Pois é. A gente faz o drum’n’bass brasileiro que soa diferente do drum’n’bass inglês. Falei para um cara de Los Angeles no Rio que fiz uma turnê de 15 dias em outubro e ele não acreditou como perdeu. Ele me disse, “Vi Gilles Peterson nos Estados Unidos, pela Internet, na BBC, tocando DJ Patife e Fernando Porto, ‘Sambassim’. Quem é DJ Patife? Comecei a pesquisar na Internet. Cara, vou lhe pedir, do fundo do meu coração, ‘Não mude! Continue fazendo isso! É muito novo, cheira diferente! Pegue isso que você tem na bagagem do Brasil e ponha no drum’n’bass. Faça isso, mande cantar!” Aí você fala, “Porra!”. Algumas pessoas aqui estão querendo me matar. Por exemplo: ‘Você vai ficar usando vocal? Já cansou, já encheu! Qual é a nova?’ Pô, será que a gente precisa ter uma coisa nova a toda hora? Você não vê lá fora a Bebel arregaçando com a mesma coisa de sempre, mas com uma história diferente, com um timbre diferente? É preciso somente saber usar a tecnologia.
Gafieiras — No meio da música eletrônica imagina-se que seja uma constante mudança. Tudo deve mudar, até pela facilidade da tecnologia.
Patife — Você vê o Trio Mocotó, a gente não ouve muito falar dos caras. Mas fora daqui é incrível como eles arrebentam. Fizeram há pouco Cingapura, Hong Kong, Japão, Austrália. Vai tocar pra brasileiro?
Gafieiras — O “Sambassim” em Londres é cantado em português?
Patife — É. Do mesmo jeito. Toca do mesmo jeito que fizemos na Vila Adelina.
Gafieiras — O caminho foi diferente de bandas de rock que cantam em inglês para chegar lá.
Patife — Não. De brasileiro que eu vi lá até hoje todo mundo faz o daqui. Eu vi João Donato… Tocamos em Montreaux no ano passado… Puta festival de jazz, cara! Vi umas personalidades lá que tremi nas cadeiras! João Donato, meu! Marcos Vale! É muito esquisito como casa a bossa nova com o drum’n’bass. Mas quando vamos produzir, colocamos o metrônomo em cento e setenta e pouco o tempo. Eles, não, em 86. Só que se você dobra o 86, dá 174. Então, muita coisa que pego — essas coisas gravadas, CDs –, nem mudo para 174. Somente jogo no meu tempo, só que ele está [solfeja] “can cancancan / can cancancan”. Só que em 86 ele casa, porque divide por dois. Então você não precisa dar time strange. Vai que é uma maravilha. É muito lindo!
Gafieiras — Vi o Marky tocando na Praça da República no aniversário da cidade.
Patife — Multidão!
Gafieiras — Multidão! Tanto ele, quanto você, parecem ter uma legião de fãs que os acompanham, do pessoal da periferia aos mais novos. Você tem essa consciência? Vocês podem ser exemplos de pessoas que venceram na vida?
Patife — Escuto isso direto, até porque tenho um programa, todo domingo, às 23h. Sempre chega email e carta, principalmente do centro onde moro, Vila Joaniza, avenida Cupecê… Para ficar mais fácil… Passa o Aeroporto de Congonhas, aí na frente tem o viaduto Washington Luís. Se você continuar, tem o Shopping Interlagos. Então você desce, passa debaixo do viaduto e pega sentido Diadema. Do lado esquerdo você tem a Vila Santa Catarina, Jaquabara e, acima, o Aeroporto, e desse lado, onde a gente mora, a Cidade Ademar, a Vila Joaniza, e lá pra dentro, o Jardim Miriam. Depois começa a quebrada nervosa. Então, as pessoas daquela região que sabem que sou dali dizem “Puta, já pensei em desistir da faculdade, mas não vou desistir. Eu via você fazer som aqui na escola, na rua debaixo, não-sei-onde…”. Então, pegam você como espelho. As pessoas viram você crescendo. Não rola essa indiferença. O cara vê na TV e sabe como foi toda a história.
Gafieiras — Não é distante.
Patife — Não é distante e vou manter isso. Agora, vamos mudar para uma outra rua, mas no mesmo bairro, pra nunca ter essa história. Algumas pessoas dizem, “Mas morar nesse bairro não é perigoso?!” “Cara, se eu tiver que ser roubado, serei na Rebouças, em Guarulhos, no Capão Redondo, onde sempre vou consertar o carro… O que tem que acontecer com a gente, acontece em qualquer lugar”. Porra, vejo uma molecada de 12, 13 anos que pira.
Gafieiras — E esse pessoal da periferia freqüenta as casas em que você toca?
Patife — O pessoal da periferia? Vai. Pelo menos uma vez por mês. Vai. O foda é que é na quinta. Eles têm que levantar cedo para trabalhar na sexta. Às vezes é foda pagar 25, 30.
Gafieiras — Mas em véspera de feriado?
Patife — Aí está todo mundo. Logo que abriu a Lov.e, quando meia dúzia começou a ir, época em que havia aquela história de “você entra, você não entra”, uma parte ficou amargurada. Achavam que “Sou pobre, venho da Zona Sul, Zona Leste”. Depois que parou de ter o “dedo”, começou uma discriminação… As pessoas que iam, olhavam os caras de bonezinho… Houve uma época em que ninguém ia. Até uma confissão… Quando tive que ir lá pela primeira vez foi meio esquisito. Muito, muito, muito… “Pô, Marky, não vou naquele lugar, não!” O Marky teve uma concepção melhor sobre esse esquema do Jardins/Periferia. Eu, não, até porque vim de uma formação diferente, do rap. Hoje, com a cabeça que tenho, acho ridículo. Acho que música é feita para branco, preto, azul, japonês, africano e por aí vai. Mas foi meio estranho. Senti que as pessoas te olhavam diferente. As pessoas que têm um poder aquisitivo maior, sabem o que você veste. Isso, para uma pessoa rica, para uma pessoa xarope, é o maior valor do mundo. É você estar de Gucci, Armani e por aí vai. E o moleque que está lá só quer ver o Marky e delirar. Esse é o maior valor pra ele. Mas de uns três anos pra cá, todo mundo está misturado. Os boys com os da perifa, todo mundo troca informação. Tem gente que somente ia em festas no Jardins, agora vai para a periferia, vai em Mauá, na Broadway, que gosta de ver essa agitação. Isso acabou 100%. Eu não vejo mais. Veja as raves. É a maior reunião de classes, de A pra Z.
Gafieiras — Quando você entra no Skol Beats, a tenda do drum’n’bass é um exemplo disso.
Patife — No caso do Skol Beats tem uma diferença muito grande porque a grande massa toma conta. Não é tão misturado como é na Lov.e, mas tem sim, gente de outras classes.
Gafieiras — O drum’n’bass é o som dos adolescentes da periferia?
Patife — Eles gostam de outras coisas, mas se você for lá no fundão, o som da periferia é o drum’n’bass. Ficou, cara. Não sei se é porque a foto do drum’n’bass tem três, quatro caras que vieram da periferia. Não sei se é por isso.
Gafieiras — Por você ter se envolvido com o rap, houve algum constrangimento quando você entrou na música eletrônica, afinal esta não é engajada como a primeira?
Patife — Lá por 90, 91, 92, quando eu era de um grupo de rap, os caras ensaiavam em casa, que era o local onde havia mais espaço. Vira-e-mexe, os caras chegavam para ensaiar e eu estava escutando Altern 8. “Pô, meu, essas músicas de boy!” “Mas eu gosto. Não adianta!” Havia essa coisa, mas eles não chegavam… Davam uma tostadinha de leve. “Pô, essas músicas, esses poperô!” Quando a dance music estourou, eu ficava puto, porque meu primo, minha irmã e os vizinhos eram roqueiros. Até quando rolou a febre de Seattle, com o Red Hot, o Pearl Jam, tudo mais, “Ô, Patife, você vem com esses poperô!”. Eu ficava puto, com a maior raiva. Havia um preconceito. Depois eu larguei o grupo de rap…
Gafieiras — E você ainda carrega essa carga rap?
Patife — Carrego. Compro disco de rap toda semana. Uma das maiores inspirações hoje vem do r&b, do rap, do soul…
Gafieiras — E nacional?
Patife — Nacional eu gosto de muito pouca coisa. Gosto do trabalho do Xis, do RZO. O Silvera não é rap.
Gafieiras — Racionais?
Patife — Alguma coisa. Os três primeiros álbuns eu amo de paixão, mas os caras estão falando de um problema mas não arrumam a solução. Está fudido, está fudido, está fudido, e o governo não faz nada. Sei lá, falando apenas tecnicamente, a produção do rap nacional em geral, com a tecnologia que temos hoje, com os produtores, com a estrutura que eles têm, ainda é muito cru, cara! Um dia ainda vou fazer uns rap. Vou! No meu disco vai ter uns rap!
Gafieiras — Nesse terceiro?
Patife — Vai, lógico.
Gafieiras — Fale um pouco sobre o lance do MC.
Patife — O drum’n’bass é o rap a noite inteira no meu ouvido. E tocar fora do Brasil sem MC não funciona, cara! Tem que ter MC. A cultura do drum’n’bass cresceu assim. Na verdade, eram os sounds system de dub e reggae que sempre tinham. Eram três caras. O selecta, que é o cara que pegava o disco pro DJ, e o MC. Então essa é uma cultura que o drum’n’bass sugou. Por exemplo, dubplate, que é essa coisa que a gente faz antes de prensar o vinil, pra não tocar CD, em que a gente vai ao estúdio, prensa o acetato, uma copiazinha só, é uma coisa que vem do reggae. O nome já diz, dubplate. Eles tocavam. “Vai ter um sound system hoje à noite!” “Ah! Vamos lá para o Music House [n.e. Local onde os DJs cortam os dubplates — discos de acetato prensados por unidade e tocados por tempo limitado] cortar o plate para tocar essa noite!” Não sei se vocês entendem de dub, eu não entendo muito, mas você compra um CD Dubplate session, foi o tune da noite. Música pra os europeus, em vez de song ou track, como americano fala, é tune. Havia um lugar em que a gente costumava cortar em Londres chamado Music House, que era o lugar onde Bob Marley cortava os deles. Até o Bob Marley tocava os plates. É mó interessante. Eu corto em outro lugar porque tem a maior fila no Music House. Você fica 4, 5 horas para cortar um dub. Arrumei um outro lugar em Londres, onde tem um sofazinho, tudo muito mais rápido. Mas tem uma puta história, os autógrafos dos caras, o reggae. Os caras que cortam os dubplate são regueiros que estão há 30 anos com aquelas porra analógicas cortando plate. Maior bom, cara!
Gafieiras — Fale uma letra de rap.
Patife — Que a gente tinha?
Gafieiras — É, de um rap de sucesso…
Patife — Puta, de sucesso eu não lembro. Havia uma letra pro Carandiru… Lembro somente dos outros que não fizeram sucesso, mas a do Carandiru era… [canta] “Terror no Carandiru / Terror no Carandiru / Muito sangue, muita morte no Pavilhão Nove”. Fizemos em virtude daquela coisa que aconteceu lá, do massacre. “Terror no Carandiru”. Não vou lembrar mesmo, mas tem uma que a gente falava …. Eu me lembro dela inteirinha, [canta] “Eu disse vítimas da fome, da violência / Cedo demais perdendo sua inocência / Vivem rodeadas em um mundo ingrato / Em ruas, favelas ou num orfanato / Como é difícil entender tanta demagogia de políticos ricos / Desprezam as crianças desse país”. Era uma parada assim. “Políticos / Tomem uma atitude / Pois não se esqueçam que seus filhos cresceram com saúde / Se preocupam com si próprios e pouco com a fome / Egoísta, desumano é seu único nome / Mas são todos / Isso eu não quis dizer / Mas como dizem por aí / Que tem muito pouco no poder”. Essa música era bem bacana.
Gafieiras — Como foi isso em sua casa?
Patife — Do que me lembro, é estranho, cara, minha família sempre foi muita confusão. Cachaça dos dois lados, da parte de mãe e de pai. Meu pai faleceu em novembro. Fiquei normal, porque foi de repente, foi atravessar a rua e um carro o atropelou. A gente tinha um laço muito forte. Cuidava do coração, mas sempre foi muito saudável. Então, quando eu penso na minha irmã, lembro sempre da minha mãe brigando com o meu pai na casa da minha avó. Ela precisava ir ao Fórum com meu tio. Aí meu pai bebia também. Na hora em que minha mãe chegava em casa, meu pai tava cheirando à pinga ou tava um pouco alegre. Depois meu pai saiu da vida da minha mãe e essa separação foi um baque pra mim, porque logo depois minha mãe queria que eu fosse morar com ela, mas eu gostava de ficar com o meu pai, por causa da minha avó. Foi mó conturbado. Entrei na escola tarde, com 8 anos. Sempre teve muita confusão, mas fui muito feliz.
Gafieiras — E o amor nessa loucura?
Patife — Ah, eu tive na casa da minha avó, sempre. Por isso eu gostava de ficar com minha avó. Nunca tive minha mãe por perto, porque ela sempre estava envolvida com isso: um dos tios que tomou muito mé e um atropelo. Ele viveu no… como chama o hospital de louco de Mococa? Minha mãe sempre tava indo pra Mococa nos fins de semana. Fim de semana indo pra casa do meu tio, no Fórum. Aí meu tio sai da detenção, entra na penitenciária, depois vai para Campinas. E de outro tio, que depois morreu, minha mãe teve que ir atrás de papel de INPS, essas coisas. Então, por quase 10 anos, minha mãe viveu para a família dela, para os irmãos. E havia o padrasto, mas com o padrasto eu não me dava muito bem. Era um cara rígido que minha mãe acabou conhecendo na prisão, que dividia a cela com o meu tio ou alguma coisa assim. Então se vocês já presenciaram alguma situação de amigo ou de familiares, é assim, no caso do filho: se você sai pro lado da sua mãe, a avó, as irmãs da sua mãe dizem o seguinte, “Cê tem que ficar com sua mãe, porque foi ela quem o criou, foi ela quem deu a luz, é ela quem vai saber te educar. E seu pai é um cachaceiro. Seu pai é não-sei-o-quê.” Meu pai tomava pinga, mas nunca deixou faltar nada dentro de casa. Sempre trabalhou. Meu pai não caía na rua. Ele tomava e ficava alegre, mas… Aí, vou pro lado da minha mãe… Lado do meu pai, meu vô português, que era onde eu gostava de ficar, minha avó falava assim, “Sua mãe tá morando com um homem que tava na cadeia. Esse homem não tem nada pra te ensinar. Você vai morar numa pensão.” Porque minha avó, mãe da minha mãe, tinha uma pensão com quarto que morava dez negos. E em um deles era o quarto em que eu morava, junto com minha mãe, minha irmã e o meu padrasto. Então, era uma confusão! Aí chegou uma época em que inventaram de ir no juiz, fazer audiência… “Ó, você vai ter que escolher: ficar com seu pai ou com sua mãe.” E eu, pô, por vontade própria, falei, “Quero ficar com meu pai. Não preciso ir ao juiz!” Mas minha mãe não queria me deixar com meu pai. Aí acabaram que, graças a Deus, por senso de cada um, “Ah, tudo bem, cê fica um pouquinho com quem cê quiser…”. Então era foda porque meu pai morava num lugar e minha vó morava em outro e eu ia numa escola. E tinha que se matricular noutra escola, então isso ficou muito conturbado. Mas eu gostava de ficar com meu pai porque na casa dele havia mais paz. Era somente a minha vó, o meu vô e o meu pai. E na minha mãe, não. Eram todos aqueles pensionistas, os meus tios que chegavam doido. Havia dia em que a polícia aparecia procurando coisas. Era foda! Quando meu tio saiu da cadeia — a primeira gestão foi de nove anos -, ficou um ano e meio na rua. Então, esse um ano e meio foi um terror. Aliás, nesse ano eu estava morando com a minha mãe. Era a minha mãe ajudando ele a limpar o nome. Ele aparecia com umas coisas que não devia. Eu via isso. Ele mostrava pra mim. Ele me chamava de truta. “Aí, truta, esse é o esquema. O tio vai pra não-sei-onde agora.” E era assim, cara. Tive o crime na mão dentro da minha casa, mas falava, “Isso, não!” E assim a família toda se despencou, cara!
Gafieiras — E mesmo assim você consegue levar as coisas numa boa, não?
Patife — Graças a Deus, cara.
Gafieiras — Você é religioso? Você fala muito em Deus.
Patife — O meu padrasto falava muito de espiritismo, Alan Kardec. Ele lia muito isso. Aí começou a me levar e minha irmã na rua Santo Amaro onde tem um negócio chamado “Federação Espírita do Estado de São Paulo”. Comecei a freqüentar. Eu não gostava, não gostava, achava que espiritismo era macumba. Cara, fui e estou lá há três anos. Eu me identifiquei. Não fui pra a igreja católica. Cês não iam me achar muito arcaico. Pecado é você olhar a mulher dos outros, é transar antes de se casar. Aí fui indo e levando as duas coisas, nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Aí ia pra Federação e falava da vida após a morte. Eu não me senti bem na igreja, mas no espiritismo me senti confortado com muitas coisas. Algumas delas aconteceram pra provar pra mim mesmo coisas da vida. E acho que é essa coisa mesmo, de crítica, da gente não precisa entrar. Então, eu me considero um cara espírita. Sim, acredito no espiritismo.
Gafieiras — E ele ajudou a você entender esse ambiente em que você vivia?
Patife — Ajudou muito, cara, porque você via toda aquela coisa e falava, “Por que, meu, por que tenho que morar debaixo de um teto com um cara que acabou de sair da cadeia, sendo que meu pai bom? O que eu aprendi com esse cara, meu? Meu pai não teria como me ensinar. Hoje eu digo, meu pai no céu, os dois no céu, sei lá onde estão, mas, sabe quando você já tá entrelaçando com o cara? E quando eu começo a me entrosar com a história do som e da música, o cara vai embora. Aí, é quando vem essa história, “Pô, meu, por quê?” Com 13 anos, cara, segurar uma onda dessa? Não posso, meu! O cara tava com carrinho de rolimã na rua, era o que eu fazia, até os quinze anos de carrinho de rolimã na rua, eu sempre adorei. Aí, meu Deus do céu, cara, será que é a prova da vida? É o que a vida? É vir aqui, nascer, sofrer, se foder e morrer? Não pode ser. Eu me perguntava… Havia época em que eu chorava, cara, chorava, e minha mãe via, “Por que cê tá chorando?” “Não, mãe, tá doendo, tô com dor no coração”. Aí inventava, “Tô com saudade de fulano que morreu, tô com saudade…” Mas não era, era uma paranóia de, tipo assim, nasci, só vivo no hospital, não tenho saúde, não respiro, vivo nessa confusão. Por que, meu? Mas era feliz. Eu tinha isso em alguns momentos, tipo depois das novelas das oito ou então no domingo, quando tinha que voltar…
Gafieiras — Depois do Fantástico…
Patife — Cara, cê tem isso também? Era o Show de Calouros e o Fantástico! A musiquinha do final do Fantástico era uma dor, dor de coração. Puta, cara, vai acabar o Show de Calouros e eu vou ter de ir embora da casa da minha mãe. Era aquilo, oShow de Calouros, o Vale Tudo por Dinheiro, a última coisa, o último momento…
Gafieiras — Mas você aceitou essas respostas?
Patife — Todas. Hoje nada mais na minha vida é obscuro, nada, completamente.
Gafieiras — E o que te perturba hoje?
Patife — O que me perturba hoje é como está o mundo, a falta de respeito. A falta de respeito é simples. Você tá no trânsito, deixa o cara passar, tá ligado? Por exemplo, vou chegar num hotel cinco estrelas — aqui não acontece muito, mas fora você é tratado como uma pessoa — o cara vai me esnobar. Isso me incomoda muito, muito, muito. Falta de paciência me incomoda. E ver a diferença que existe no mundo, tá ligado? Eu, com dez milhões de reais aqui e um cara ali na rua sacando o cesto de lixo. O mundo não precisava estar nessa situação. Às vezes falo sem saber, falo bobagem, mas um cara que tem dois A3 e uma BMW, uma puta mansão em Alphaville e uma casa em Maresias e um flat em Miami, não precisava perder tudo isso, mas se ele pegasse 20 mil reais e, “Entregue isso pra uma associação séria”, acho que melhorava, cara. Tem dinheiro mal distribuído no Brasil. Não entendo nada de política, não entendo de economia, não entendo nada, nada, mas isso me incomoda, cara, essa diferença social! Porque, porra, meu, hoje vejo que eu tive que mudar minha situação de CIC, prestar conta… Por ter tirado meu visto pro Japão, tive que declarar Imposto de Renda. Eu não declarava. Tive que fazer de isento, pagar INSS e arrumar um jeito de ser autônomo. Aí, o que fiz: fui na porra da OMB tirar uma carteirinha de músico pra poder ser autônomo. O que aconteceu hoje? Tenho que pagar contador, tenho que declarar Imposto de Renda, essas coisas… Se entra dinheiro na minha conta, Deus me livre, surge um xarope desses, “Ah, deixa eu ver essa conta”, aí tô fudido, meu! Olhem o que eu pago: IPTU, ICMS, ISS, honorários, IPVA, licenciamento, IPTU. Já falei, água, luz, e telefone? Onde vai essa porra desse dinheiro todo? Essa é uma das coisas que mais me incomodam, tá ligado?
Gafieiras — A música foi um caminho para desembaçar essas histórias?
Patife — Cara, a música foi um dos momentos de ombro, tá ligado? Na hora em que eu via uma briga em casa ou mesmo minha mãe tomando uns petelecos era quando eu tinha aqueles cinco minutos tristes, mas eu dizia, “Deixa escutar uma música da hora pra eu pensar noutra coisa…” Não quero demonstrar pra vocês que minha vida foi um mar de lama, mas sempre fui feliz, cara, mesmo duro, fudido, vivendo a situação em que sempre fui feliz, em que sempre fiz o que eu quis. Aí depois que fui para a discoteca pela primeira vez — uma matinê — não parei mais. Todo domingo na matinê. E quando comecei a sair à noite, fiz tudo o que eu queria: sempre fui feliz, feliz, feliz… e duro! Tive problemas, mas sempre fui feliz. Vou morrer falando isso, “Ser feliz é a coisa mais importante da vida”. Se você não tem felicidade, você não tem vontade de conversar com amigos, você não tem vontade de sair… Ser feliz é a coisa mais importante da vida, porque com tudo que passei, eu estava sempre feliz e isso… É foda, mas olhem onde estou hoje. [risos]
Gafieiras — Você é mais feliz hoje por ter tudo estabilizado, não ter que lutar pelo básico?
Patife — Hoje tenho tudo o que eu queria. Tudo tudo, tudo! Tenho um caranguinho, tenho um par de MK-2, que é o sonho de todo DJ, tenho um mixer, que é o meu titaniozinho, uma coisa que nunca pensei em ter. Mais o que vale pra mim são esses vagabundos que tão do meu lado desde que eu tinha sete anos e estudava na 1ª, 2ª séries. E todo mundo tá em volta hoje, com o mesmo pensamento, com a mesma coisa… Eu não sei se sou mais feliz hoje, cara, porque sempre fui radiante. Se um dia interessar, vocês podem ir conversar com o meu chefe ou com a minha mãe, minha vó. Elas podem relatar momentos que eu nem lembro, de falar “Ah, havia uma época em que você ouvia de canto, quieto…” Eles devem ter algum depoimento. Sei que fui muito, muito feliz. Sempre fui muito feliz. Hoje posso dizer até que sou menos feliz. Há uma meia dúzia de pessoas que durante o meu crescimento eu queria muito poder fazer algo. , Hoje tenho condições, mas vocês acreditam que essas pessoas deixaram o mundo? Fiquei meio triste, porque especialmente de uns três anos pra cá, vi uma puta luz no fim do túnel. Há muitas coisas, em termos que coração, que a gente pode fazer pelas pessoas, mas há muitas outras coisas que a gente também quer fazer materialmente, entendeu? A última pancada foi meu pai, tá ligado? Era um cara para quem eu queria pagar aquelas dívidas que ele tinha. Eu queria dar uma vida pra ele igual aquela que tô conseguindo dar pra minha mãe, tá ligado? Fomos comprar uma casinha, “Ó, mãe, essa é sua casa! Não é igual a essa do mutirão que tivemos que ficar aqui seis anos — aos fins de semana — para construir.” Com a situação que tenho hoje, e até com a que demonstra que vou vir a ter, fico meio… Penso, “Porra, podia tá todo mundo vendo agora esses momentos que tô vivendo!” Como o meu padrasto que quis me mostrar um caminho. Eu estava seguindo um e ele, “Meu, você tem esse caminho de homem, meu! É isso aqui que é a vida”. Penso ainda, “Se estivesse aqui o meu tio, de repente tivesse tomado outra cabeça”, sabe? Combinar com outro tio também, irmão do meu pai, que morreu há sete anos e que me dava o maior incentivo pra mexer com música. Ele tocava violão, adorava Bob Marley, quis ter uma carreira de artista e não conseguiu. Ficou frustrado, tá ligado? Hoje eu queria que ele estivesse aqui. São seis ou sete pessoas… Feliz pelo que tenho hoje, não, mas sou mais feliz por ter conquistado isso e poder desfrutar de tudo que esse lance de DJ me proporciona. A minha vida inteira sempre amei viajar, cara. Para Aparecida do Norte fui umas 15 vezes, somente pelo fato de da minha vó ir. Sempre fui louco por bus. Com 15 anos já dirigia. Muita gente me perguntava quando comecei a carreira, “E se você não fosse DJ, o que você seria?” Motorista de bus de viagem ou motorista de caminhão. Um dos tios que faleceu também foi motorista de uma transportadora. Vira-e-mexe eu ia pro Rio com ele, de caminhão. Adorava. Aí, às vezes, o cara fala, “E se hoje muda tudo. Se você perde o tesão ou sei lá?” Ah, bicho, juro, compro um caminhão e vou pra estrada dirigir! Adoro. Às vezes deixo de ir para o Rio de avião e vou de bus. Sou mó carente de sono hoje em dia, né? Pego aquela parte de baixo que vira quase uma cama…
Gafieiras — Pelo menos são seis horas pra você dormir.
Patife — Nem vejo, cara! A última vez em que fiz essa trip de busão, o motorista foi e me balançou, “Ô, chegamos! Estamos na garagem!” [risos] Mas falo, cara, hoje sou grato demais, pois o que aconteceu na minha vida… Até porque houve muita batalha, né? É igual aquela história. Se você beija uma mina fácil… Agora, se é aquela pra quem você paga um pau, que você chaveca uma vez e não dá certo, chama pra sair e não dá certo. E aí, um dia você a beija, cara! Nossa! Então, o que tenho hoje é igual a isso. Nossa, foi muito difícil, até pela discriminação, nego fechando a porta, “Não, aqui não pode tocar isso, não”. E hoje…
Gafieiras — E aí, qual é a mensagem? Perseverança?
Patife — A mensagem é a minha fé, cara! Perseverança, né, meu? É assim, você realmente tem que estar sentindo que é aquilo que você quer, não adianta dizer “Vou fazer uma faculdade de moda, porque é legal. Mas gosto de medicina também, né?” Você tem que se identificar com o negócio, meu! É falar assim, “Gosto de música e vou mexer com música. Isso aqui vai me custar.” Eu tinha que levantar quinze pras seis da manhã todo dia. Não dava pra viver da música, mas era aquilo que eu queria. Eu gosto de música, sabia que era uma coisa que eu gostava. Agora eu estava conversando com meu irmãozinho que tem 14 anos, “Que você quer ser?” “Quero ser polícia”. Falei, “Polícia, meu?” “Não tem outra coisa, não, quero ser polícia!” “Mas por quê?” “Ah, meu, pra botar os bandidos na cadeia”. Vai ser complicado se ele continuar com isso na cabeça, [risos] mas se é o que ele acha que vai ser… O que eu tinha na cabeça era, “Quero ser DJ, mas um DJ maneiro, de trabalhar em casa noturna no final de semana. Não um DJ com nome, um DJ de viajar o mundo… Isso nunca me passou pela cabeça, jamais. “Ah, mas DJ é difícil, meu, é panela, casa noturna… Acho que vou ser motorista.” Aí, como eu trabalhava de office-boy em uma firma, eu dirigia os carros. Achava que ia me aposentar ali como motorista. “Serei motorista pro resto da vida. Quem sabe dirigindo os “Expresso Brasileiro” da vida aí?” É assim, meu, perseverança, se identificar com aquilo que você quer, e aquilo que você escolher, você tem que se dedicar 110%, mas se dedicar mesmo. Ir a fundo, não deixar as barreiras, porque nada na vida é fácil, cara! Mesmo para quem é rico, para quem o pai dá tudo. O cara toma outros rumos, porque não lutou, porque não foi atrás. Tenho amigo de outra classe social que tinha tudo. Enquanto eu ganhava Atari, ele ganhava Mega-Drive. Veja se o cara jogava um mês… Eu, não, cara, enquanto não passava por todos os estágios de cada cartucho, eu não ficava feliz. Era assim. E, meu, respeitar os mais velhos que já sabem o que tá há anos na história. Pesquisar, se dedicar. No caso do DJ, o que faço é trazer para o público aquilo que ele quer, procurar satisfazer o gosto do público ao máximo, mas não ser um juke box, “Ô, toca Mariah Carey? Toca a ‘Dança da Jade’…” Respeitar, cara. Não sei, sempre fui uma pessoa pacata, calma… Cê olha pra mim torto, eu já tô quieto, não retruco, nunca escuto, não recruto, a não ser se eu estiver certo. Se eu falar procê que esse copo é transparente e você falar que esse copo é branco, aí nós vamos… É assim, tem muita coisa que eu renego muito, sabe? Muito.