DOMINGUINHOS [out 2011]

Um dos nomes mais importantes da sanfona brasileira foi um melodista privilegiado.

Dominguinhos: "O meu caminho é o dom". Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

No fim dos anos 1950, quando dava os primeiros passos na carreira profissional, o pernambucano José Domingos de Moraes era conhecido apenas pelo apelido de infância, pela habilidade com a sanfona e pela pontaria nos gramados. Ponta-direita, Neném era um exímio cobrador de faltas.

Naquela época, no Rio de Janeiro, onde se radicou por mais 20 anos depois de sair da sua Garanhuns, tocava de tudo e em todos os lugares. Era baião, xote, bolero e tango; bossa nova, ritmos jovens, música americana, choro e samba. Aumentava a renda como músico acompanhante com suas atuações em rádios e em estúdios de gravação. Ao colocar na praça seu primeiro long-play — Fim de festa (1964) –, revelou seu novo e definitivo nome artístico. Melodista privilegiado, conquistou uma porção de parceiros e de sucessos em seus mais de 50 anos de estrada.

A última vez que subiu no palco foi em dezembro de 2012. Foi em Exu, Pernambuco, durante as festas do centenário de nascimento de Luiz Gonzaga, seu padrinho musical. Um dos nomes mais importantes da sanfona brasileira lutava havia seis anos contra um câncer no pulmão. Depois de ter sido internado em Recife naquele mesmo dezembro, morreu no dia 23 de julho de 2013. Tinha 72 anos de idade.

Esta entrevista foi realizada em São Paulo quase dois anos antes, em outubro de 2011, em um de seus lugares preferidos, a casa de forró Canto da Ema. Naquela quinta-feira ensolarada, Dominguinhos foi só, e nas duas horas que se seguiram, falou de futebol, do medo tardio de avião e do seu jeito de compor. Falou também do prazer de dirigir, de Johnny Alf, Garrincha e Zé Ramalho, e da solidão. O cansaço e os olhos distantes se confundiam com a timidez e com as frases curtas, mas as gargalhadas de fim repentino tinham efeito tranquilizador. A entrevista apenas confirmou o que todo mundo sabia: que era um camarada sem frescura e que jogava ainda à moda antiga, pela paixão à camisa. (por Ricardo Tacioli)




EXPEDIENTE
Produção Ricardo Tacioli Entrevistadores Alexandre Pavan, Manu Maltez, Max Eluard e Ricardo Tacioli Fotos Jefferson Dias Registro audiovisual Max Eluard Transcrição Marllon Chaves Edição de texto Ricardo Tacioli Agradecimentos Canto da Ema, João Cícero e Paulinho Rosa
LOCAL E DATA
Canto da Ema, São Paulo/SP, 27 de outubro de 2011

ricardo tacioli | Dominguinhos, amanhã tem entrevista com o pessoal do Recife que vem pra cá?

dominguinhos | É, tem. Eles vão lá em casa. É uma besteirinha… falar sobre o Gonzaga.

Onde é a sua casa, Dominguinhos?

Fica ali na Guilherme Dumont Villares, que é perto da Giovanni Gronchi, do Shopping Jardim Sul. Parece que eles vêm de Pernambuco. Fizeram ontem com Waldonys, lá em Fortaleza.

Tão cruzando o Brasil pra falar com você…

É o centenário do Gonzaga. Muito legal.

Dominguinhos, você tem escritório com o João Cícero.

Lá no Paraíso. Fica na Correia Dias. É facilzinho de chegar lá.

E há quanto tempo você está em São Paulo?

Cheguei no Rio em 54 e me mudei pra São Paulo em 79. Tenho família no Rio.

De 54 a 79 no Rio de Janeiro?

Foi, mas desde que eu cheguei no Rio sempre vim tocar em São Paulo. Formamos um trio nordestino e esse trio vinha a São Paulo. A TV Tupi era conjugada, sabe? Era rádio e televisão. Aliás, toquei essa semana em Curitiba num especial da tevê do Paraná. E eles estão fazendo isso, um auditório, com uma rádio e televisão ligadas, fazendo os eventos. Eu fiz um especial pra eles com uns músicos de lá e foi muito bonito.

E qual é a sua relação com esse palco do Canto da Ema? [local da entrevista]

Ah, é bem extensa, viu, porque faz um bocado de tempo que eu toco aqui também. Dificilmente eu não tô tocando aqui. Ele [n.e. Paulinho Rosa, um dos donos do Canto da Ema] inventa sempre umas coisas aí e eu venho. A última vez que eu vim foi dia 11 de setembro, que era aniversário dele. Dia 11 de setembro. [risos]

Hoje eu peguei um táxi pra vir pra cá e falei que ia conversar contigo. O taxista te elogiou. Falei do Canto da Ema e ele…: “Ah, sou da época do Asa Branca”. E começou a contar um pouco das histórias das casas de forró de São Paulo.

O Asa Branca tinha uma casa onde é o Sesc, na Paes Leme, né?
Max Eluard — Isso, o Sesc Pinheiros.
Dominguinhos — Pronto, ali era o Asa Branca; um deles era o de Zé Lagoa. E eu toquei muito lá. O Roberto Carlos fazia (show lá também). Ele levava todo mundo. Era horrível pra você chegar no palco, porque tinha um vão em cima, de tábua, e a gente ia até chegar lá. Imagina Roberto Carlos com aquele problema que ele tem na perna! Um lugar que tem que passar abaixado, pra depois descer por uma escadinha do tamanho de nada, pra sair num palquinho do tamanho desse aqui. E Roberto cantava sempre lá. É, engraçado. E ele ia.
Manu Maltez — Mas o Asa Branca era um lugar mais de música nordestina?
Dominguinhos — Só era, mas ele levava (o Roberto Carlos).
Manu Maltez — E ele cantava…
Dominguinhos — Cantava as músicas dele. O Chiquinho Queiroz, que é pai de um excelente sertanejo, o Juscelino, era o locutor oficial de lá. E o baile era de Zé Lagoa, que era um alagoano que depois abriu outra (casa) lá na avenida Santo Amaro, outro Asa Branca. Depois fechou também, aí ele abriu o Patativa, agora também terminou. E tá tentando botar um restaurante agora não-sei-onde. Mas é aqui em São Paulo. E tem essas dificuldades todas: o Patativa era muito grande, só levava muito público as bandas, sabe, como o Calcinha Preta, esse povo assim, que levava muita gente, um negócio de dez, doze mil pessoas. Ele se deu bem muito tempo. E sempre teve uma casa de apoio que ele nunca vendeu, que é de tira-gosto, de coisa do Norte, de uns tira-gostos, cachaças, essas coisas todas. Isso aí ele disse que ele nunca venderia, porque foi quem o sustentou a vida toda. Mesmo ele tendo tido muito lucro. Porque músico, você sabe, músico não ganha nada. O dono não está aqui e a gente pode falar. [risos] Bota dois trios. Eles não podem tocar em lugar nenhum mais. Se ele der duas entradas, acabou a noite. Aqui já começa tarde. E depois de meia-noite vai pra onde?
Manu Maltez — Ele falou agora de um taxista e eu tenho uma história de taxista engraçada, inclusive de um que peguei nessa região, Largo da Batata, que sempre foi uma região que abrigou essas casas de forró, como o Projeto Equilíbrio, o KVA…
Dominguinhos — É, do professor Wagner…
Manu Maltez — Agora sobraram somente o Canto e o Remelexo.
Dominguinhos — É, e o Remelexo, bem pertinho um do outro. E eram sócios também.
Manu Maltez — E faz um ano quando peguei um táxi de madrugada e o motorista estava ouvindo Dominguinhos. Daí falei: “Pô, que coisa boa, música boa, né?!” E ele: “É muito bom!”. E só tocava forró bom… “Escuta: você gosta de música assim?”. “Eu toco no Trio Sabiá!”.
Dominguinhos — É um dos (grupos) que em toda semana tem um dia deles aqui.
Manu Maltez — Mas ele estava fazendo táxi à noite, num horário de tocar! Falei: “Pô, o negócio não tá muito bom, né?”.
Dominguinhos — Isso acontece muito, o cara tem que se virar…
Max Eluard — Mas já foi melhor tocar na noite, em boate, em casas (noturnas)?
Dominguinhos — Em boate foi, mas tá tudo acabado, no Rio de Janeiro, aqui (em São Paulo). Eu toquei muito na noite do Rio, nos dancings; toquei nas boates quase todas no Rio de Janeiro, em Copacabana, Leblon, Ipanema, tocava em tudo quanto era lugar. Como músico mesmo, de dez às quatro da manhã, sabe?
Tacioli — Que tipo de música você tocava?
Dominguinhos — De tudo. Era época de chachachá, mambo, beguine, bolero. E eu toquei com alguns chefes de orquestra que, eram chefes de orquestras e cantavam o mambo, sabe?! Era lindo naquele tempo. Aí eu tocava música americana. A gente improvisava muito. Fazia tudo isso, né?
Tacioli — Isso era anos 50, né, Dominguinhos?
Dominguinhos — É isso aí! Cheguei (no Rio) em 54, o Maracanã tinha sido inaugurado em 50, né? Aí eu fui, até como um botafoguense, assistir ao Vasco e Flamengo. No Maracanã cabia umas 200 mil pessoas naquele tempo. Fui ver dois grandes times.
Tacioli — Quem ganhou esse jogo?
Dominguinhos — Eu não me lembro, não. Mas eu só me lembro que era um clássico extraordinário. Aí depois eu fui ver o Botafogo jogar com Garrincha. Aí, pronto, fiquei ali mesmo.
Manu Maltez — Foi aí que você virou botafoguense?
Dominguinhos — Foi… em 54.
Tacioli — Você gostava de ir aos jogos…?
Dominguinhos — Sempre gostei, jogava também. A gente tinha um time em Nilópolis chamado Santos Futebol Clube.
Pavan — Modesto, hein, modesto! [risos]
Dominguinhos — Tudo de branco, os ‘negão’ tudo de branco. [risos] Eu me criei em Nilópolis, né?
Manu Maltez — Você jogava em que posição?
Dominguinhos — Ponta-direita.
Tacioli — Você tinha uma jogada que era sua marca, Dominguinhos?
Dominguinhos — Eu corria muito, tinha bom equilíbrio, não caía a toa. [risos]
Tacioli — Mas era um ponta-direita goleador?
Dominguinhos — Era, eu fazia muito gol de falta. Gostava de bater falta, batia bem. Geralmente era meio perigoso.
Max Eluard — Jogava na força ou colocado?
Dominguinhos — Não era força, não, era colocado. Aí o Mané conheci em 58.
Manu Maltez — O Mané Garrincha?
Dominguinhos — É. Eu tocava numa gafieira chamada “Seu Defeito”, em Bento Ribeiro. Tinha acabado a Copa; ele foi lá com a vedete da época, Angelita Martinez. Era uma mulher muito bonita. Foi com ele… Era um baile que tinha três, quatro vezes por semana, só. E só entrava preto. Acho que o mais clarinho era eu mesmo, mas o dono era Joel, um cara que trabalhava no cais do porto. Eles eram muito elegantes, chegavam arrumados e tal, aí tiravam o revólver, botavam lá na gaveta, iam dançar e se divertir. A gente tocava, no domingo era mais cedo. Quinta e sábado. Era um gafieira no subúrbio do Rio.
Manu Maltez — E o Garrincha dançava?
Dominguinhos — Não, não, ele foi lá ser homenageado. Eu já o conhecia. Ele olhou assim e disse: “Ei, o que você tá fazendo aqui?”. Eu digo: “Eu é que pergunto, meu amigo. Porque realmente você é que tá por fora”. Aí a gente já tinha amizade. Eu frequentava muito a casa dele com a Elza, na Rodrigo de Freitas. Uma mansão linda! Depois eles venderam essa casa e se mudaram pra Ilha do Governador. Aí ele já estava muito bichado também. O joelho tomou muita injeção. Naquela época os times brasileiros que tinham grandes craques jogavam muito lá fora, e o Botafogo só ia por causa dele.
Manu Maltez — Todo mundo queria vê-lo em tudo quanto é canto do mundo.
Dominguinhos — É, todo mundo.
Tacioli — E como era o Mané nessa proximidade que você tinha com ele, Dominguinhos?
Dominguinhos — Muito simples, muito bom, uma pessoa de coração bom, sabe? Sem frescura, nada.
Tacioli — Era uma figura engraçada?
Dominguinhos — Era, muito brincalhão, só vivia de molecagem.
Manu Maltez — E ele gostava de música mesmo ou gostava mais da Elza?
Dominguinhos — Ele gostava, e a Elza era uma sambista… Era e é, né? Taí lutando até hoje. Acompanhei muito ela na época de rádio, porque eu tocava na Rádio Nacional, tocava na Rádio Mayrink Veiga, que a revolução fechou [n.e. Referência ao Golpe Militar de 1964]. Toquei na Tupi, Rádio Mauá, Rádio Tamoio. Tudo isso era ao vivo. Eu tocava em todas essas emissoras, mas só tinha contrato com a Nacional. Aí me dei muito bem nessa época, as novidades eram constantes, musicalmente falando. Hoje em dia não tem nada.
Tacioli — Eu não sabia de sua proximidade com o Mané. Ele morreu em 83, né?
Dominguinhos — É, morreu novo… [n.e. Mané Garrincha, a “Alegria do Povo”, foi bicampeão mundial (1958 e 1962). Morreu em 1983, aos 49 anos de idade, vítima de cirrose hepática decorrente do alcoolismo]
Tacioli — Você acompanhou bem sua trajetória, né, de 58 a 83…
Dominguinhos — Acompanhei bastante. A gente estava sempre juntos. Ele era uma pessoa muito educada, muito legal. Muito brincalhão, mas educado, não maltratava ninguém, não tinha cara feia, essas coisas, só vivia brincando. Não gostava de treinar. O futebol era mais artístico que tínhamos no Rio de Janeiro, jogadores assim de um quilate que a gente não vê hoje. Hoje qualquer um é craque, qualquer um. Naquela época tinha Didi, Quarentinha, Nilton Santos, Garrincha, Joel — que era um ponta do Flamengo –, Índio — que era um centroavante do Flamengo –, Rubens, que era meio gol quando ele batia falta…. Todos tinham jogadores, Ipojucan, Danilo, Barbosa, goleiro do Vasco. Manga no Botafogo. Rapaz, era um salseiro. Era coisa bonita de se ver esses caras jogando. Agora o futebol está muito pobre.
Manu Maltez — Você acompanha o Botafogo ainda?
Dominguinhos — Acompanho. Levou duas pisas agora. [ri]
Manu Maltez — Levou uma vareada ontem. [risos]
Dominguinhos — O time já é ruim, ainda bota o terceiro time. O que é que ele quer é apanhar de muito mesmo. [n.e. O time carioca do então técnico Caio Júnior foi eliminado da Copa Sul-Americana no dia 26 de outubro de 2011 ao perder de 4 a 1 do Independiente Santa Fé, em Bogotá, Colombia]
Pavan — Você acha que o título brasileiro esse ano não chega?
Dominguinhos — Eu acho que não! O Botafogo não chega, não. [n.e. O título do Campeonato Brasileiro de 2011 ficou com o Corinthians]
Manu Maltez — Infelizmente.
Dominguinhos — Eu sou corintiano aqui em São Paulo. Mas, na verdade, sou mais botafoguense pela trajetória. E no Recife sou Sport desde garotinho também.
Tacioli — Mas dá pra dividir o coração?
Dominguinhos — Não! Quando joga Botafogo e Corinthians, por exemplo, torço sempre pelo empate. [risos]
Tacioli — E com o Sport?
Dominguinhos — O Sport, não, eu quero que ganhe deles todos! [risos] Sabe por quê?
Manu Maltez — O Sport em primeiro lugar…
Dominguinhos — Porque o cabeça chata sempre foi muito maltratado aqui em São Paulo e no Rio. “Esses comedores de macaxeira, chegam aqui morrendo de fome!”
Max Eluard — Como foi isso, você sofreu preconceito quando chegou no Rio?
Dominguinhos — Ah, sofri, mas Gonzaga sofreu muito mais. Luiz Gonzaga sofreu muito preconceito no Rio para se estabelecer. Mas eu não, já peguei o caminho meio aberto. Teve algum preconceito e tal…
Tacioli — Você lembra de algum, Dominguinhos, algum que te marcou?
Dominguinhos — Aqui tinha casa chamada Garitão.
Tacioli — Garitão?
Dominguinhos — É, na Avenida São João, uma casa grande, e tinha um grupo tocando rock, outro tocando jazz, outro tocando bossa nova. Tudo dentro daquela casa, tudo dividido. E um dia me levaram, eu a Anastácia e Jorge Paulo, o Bandeirante do Norte, que é um paulista que fazia somente programa de nordestino. [n.e. Chapéu de Couro, programa radiofônico do cantor e produtor artístico Jorge Paulo] Ele trabalhava na Bandeirantes também. E aí ele arranjou um contrato pra me levar e a Anastácia, que é minha parceira. E eu fui, um zabumbeirinho, um triângulo. Rapaz, quando anunciaram a gente, choveu papelzinho, sabe como é? Aviãozinho e vaia! Eles não queriam saber de música nordestina. Nessa época eu já tinha feito o “Lamento sertanejo”, mas não tinha a letra ainda. Toquei o “Lamento sertanejo” e pelo meio fiz um improviso. Aí eles começaram a ver que não tava ali nem um cabeça de bagre, sabe, que eu não tava ali somente pra tocar “Asa branca”. Tinha a veia do instrumentista, (veia) jazzística, que a minha vida no Rio era tocar essas coisas mesmo. E aí eles foram aceitando aos pouquinhos e a gente pode trabalhar em paz.
Manu Maltez — Você teve que ganhar o público ali na marra.
Dominguinhos — Foi na sanfona, na sanfona mesmo.
Pavan — Dominguinhos, você falou que não era somente “Asa branca”. A comparação que sempre fazem em relação à sua música é com a de Gonzaga, que é a mais óbvia.
Dominguinhos — É.
Pavan — Só que eu acho que tem uma coisa de harmonia e de desenhos melódicos quando você acompanha alguém que é muito além de Gonzaga. Tirando o Gonzaga, quais são as outras referências?
Dominguinhos — Além de Gonzaga ser um harmonizador muito bom para a época dele — algumas músicas ele toca em acordes, toca acompanhando muito bem –, ele deixou um manancial de valsas e choros, formidável, difíceis de solar. Nessa época Sivuca estava chegando no Rio, Hermeto (Pascoal) também estava ali. Todos eram meus amigos. Do Hermeto eu já conhecia o seu irmão; eu tocava na Rádio Difusora de Garanhuns, que hoje em dia é o Jornal do Comércio, e o irmão de Hermeto, o Zé Neto, tocava no regional da Rádio Difusora, a rádio jornal. E aí a gente fez amizade nesse tempo. Depois, Zé Neto veio pro Rio, eu também… Continuamos amigos. Ele morreu cedo. Dizem que o albino não segura muito a idade. Mas Hermeto já tem 70 e lá vai e tá aí, parece um garoto. Por falar nisso, lá perto de Brejo da Madredeus, em Pernambuco, tem uma aldeia só de albino. As coisas mudaram muito, né? Sei que peguei Sivuca, peguei Orlando Silveira, que foi com quem mais eu tive assim contato, com quem aprendi alguma coisa de música. Ele tocava muito e me deixava tocar no lugar dele no Regional do Canhoto, que era o melhor regional do Rio de Janeiro, com Dino no sete cordas, Meira no de seis, Gilson no pandeiro, Canhoto…
Tacioli — Cavaco…
Dominguinhos –(…) No cavaco e Orlando e Altamiro Carrilho eram os solistas. Aí o Orlando arrumava um arranjo pra fazer…. “Ô, pode fazer em meu lugar?” E o pessoal me aceitava bem, sabe? O Orlando me abriu muitas portas; ele acompanhava muito Gonzaga, fazia arranjo pro Gonzaga. O Gonzaga sempre gostou de abrir o leque pra todo mundo. Tinha vez que a gente gravava de três sanfonas: ele, Orlando e eu, três acordeons. Quando comecei a acompanhar Gonzaga tinha 16 anos. Ele me botou pra tocar “Forró no escuro”. Gonzaga foi realmente a maior sombra que eu tive pra descanso. [risos] Eu gostava dele e estava lá todo dia, fazendo mandado, nem que não fosse, ia pro estúdio com ele, ele ia dirigindo e eu carregava sanfona, ficava por ali… Hoje é o que os meninos fazem comigo.

Mestre e aprendiz: Luiz Gonzaga e Dominguinhos em 1957. Foto: Ed. Globo

Tacioli — Você se vê nessa mesma troca que o Gonzaga teve com você, de você para com os meninos?
Dominguinhos — Ah, tem. Sempre tem um rapazinho que tá começando, tem alguma chance de fazer um número, uma coisa, pode ir, acho ótimo, acho bonito.
Tacioli — Qual é uma característica, uma mania do Luiz Gonzaga que ninguém sabe?
Dominguinhos — O Gonzaga era muito estourado, sabe, ele não deixava nada pra amanhã. Quando anunciei que ia casar, eu estava com 17 anos, bicho, já ia ser pai. A Janete está lá em Inhaúma hoje em dia. Ela foi a minha primeira mulher. A gente começou a namorar com 14, 15 anos e com 16 ela já estava grávida. Aí fui comunicar a ele. “Seu Luiz, eu vou me casar!” Ele deu um murro na mesa. “Você é doido, rapaz! Você é doido! Acabou-se, você acabou-se pra mim, pode ir se embora e não me apareça mais!” “Mas, Seu Luiz, …” E ele: “Não, senhor, não tem conversa! Casei com 34 anos e quase não caso. Agora vem tu com 17, rapaz, você é doido, vá se embora!”. Aí eu fiquei calado e fui embora. A Janete já estava com um barrigão. Aí nós casamos no civil e ele foi o padrinho. Ele e Dona Helena. [risos] Foi o padrinho. Depois, ele tinha uma fazenda chamada Asa Branca, que está até hoje em Miguel Pereira, linda. Ele mandou a gente passar a lua de mel lá, imagine, lua de mel. E eu fiquei lá com a Janete bem uns oito dias. Mas eu estava sempre com ele, viajando. Ele era uma figura bastante polêmica nas coisas que ele não gostava, porque não deixava pra depois, sabe? Ele falava logo o que estava incomodando. Não deixava ninguém sem saber que ele estava incomodado com aquilo ali. Principalmente a figura que tinha aprontado, entendeu? Dirigindo levei muito grito dele. A primeira viagem que eu fiz foi numa Kombi, aquela kombizinha que não tem nem janela, o pessoal botava o dedo…
Tacioli — Somente havia o quebra-vento?
Dominguinhos — É, só o quebra-vento…
Tacioli — E você que pilotava a Kombi?
Dominguinhos — É, fui dirigindo pro Nordeste. Depois, no outro ano com uma rural. Uma rural zero quilômetro que ele havia comprado. Ele tinha feito o “Sanfoneiro do Riacho da Brígida”, o primeiro livro dele. [n.e. Escrito pelo amigo Sinval Silva e lançado originalmente em 1966, O sanfoneiro do Riacho da Brígida — Vida e andanças de Luiz Gonzaga — O rei do baião é considerado a primeira biografia do músico pernambucano]
Tacioli — (A rural) já tinha janela, né?
Dominguinhos — A rural era bacana, me lembro até hoje, era verdinha. Era carro bom mesmo. Nós fomos pro Nordeste levando aquele livro. Fizemos uma novena na terra dele — ele é dali de Araripe, não do Exu, é dez quilômetros de lá. É onde ele nasceu e Seu Januário vivia. Aí a gente foi fazer alguma coisa, porque ele era muito inquieto. “Vamos lá em Exu!” E eu: “Vamos!” Na minha volta — eu vinha dirigindo bem devagarzinho, a estradinha de terra — um porco cismou de atravessar. Quando chegou no meio (da estrada), ele voltou. Eu, “bah!” em cima do porco. Mas eu tinha dado uma buzinadinha, “tum-tum”…
Pavan — A buzinada livrou a consciência.
Dominguinhos — Não! E o Gonzaga do outro lado: “Tá vendo por que você matou o porco? Porque você não sabe nem buzinar!” [risos] Aí eu dava era risada, porque não tinha outra coisa pra fazer.
Tacioli — Boas lembranças dessas viagens?
Dominguinhos — Muito boas, aprendi demais. Ele tocava muito sanfona com um microfone só em cima de um caminhão. De dia eu fazia a propaganda na cidade, uma cornetinha em cima da rural, e às sete horas ele se apresentava. E eu fazia a abertura, tocava bossa nova, tocava bolero, tocava Roberto Carlos, essas coisas. Que esse Roberto já é véinho, viu, porque não é de hoje que ele faz sucesso.
Pavan — Você já cantava nessa época?
Dominguinhos — Eu já cantava, porque ele tinha botado na minha cabeça que eu devia cantar. Ele disse: “Olha, Neném, o negócio é o seguinte: enquanto eu só toquei, não consegui agradar completamente. Aí comecei a cantar, mesmo com minha voz assim — o pessoal não gostava muito, os diretores de rádio não deixavam eu cantar, nem ninguém deixava eu gravar”. E naquela época você tinha uma música ou duas boas, você ia para sua gravadora e gravava. Não gravava dez, 12 músicas, não! Era uma ou duas que você tinha, ia lá e deixava.
Tacioli — No 78 (rotações) mesmo?
Dominguinhos — É o 78, depois o vinil, né, e teve o 45. Aí Gonzaga começou a se dar bem pra gravar. Antes os caras não queriam que ele gravasse, não queriam que ele cantasse. Na Rádio Nacional ele era acompanhador. Tinha até o pai de Edu Lobo, Fernando (Lobo), que era o diretor da Rádio Nacional nessa época. Ele até botou um papel na parede: “Luiz Gonzaga é músico acompanhador, não pode cantar!”. E ele foi vencendo isso tudo, mas ele passou muito perrengue também. Quando eu me criei lá junto com ele, Gonzaguinha (1945–1991) era menino ainda, mas não morava com ele. Gonzaguinha morava com a mãe lá no Morro de São Carlos. Depois é que ele começou a estudar e se formou em Economia. Gonzaga pagava o estudo dele. Mas nunca morou com ele. Até que ele saiu do morro e foi direto morar com Seu Luiz. Os dois estavam sempre num pé de guerra. Se juntavam, separavam, juntavam e separavam. Ele recebia os direitos do Gonzaga para pagar os estudos. Aí quando fazia uma raiva, o Gonzaga (dizia): “Agora você vai se virar sozinho!”.
Tacioli — Fechava a torneira.
Dominguinhos — [ri] O Gonzaguinha era meio comunista, assim, aquela coisa da esquerda. E ficou tuberculoso uma vez, quase morreu. Aí o Gonzaga o chamou e disse: “Olhe, você não tem nem corpo pra aguentar o repuxo. Não tome cuidado, não! Eu vou lá só levar o cigarro!” [risos]
Tacioli — E você se dava bem com o Gonzaguinha?
Dominguinhos — Demais, fizemos música juntos, tudo. A gente se criou junto ali.
Max Eluard — Você se sentia meio filho do Gonzagão também?
Dominguinhos — É, porque acho que eu era o sanfoneiro que ele gostaria de ter. O Gonzaguinha era um violeiro, bom instrumentista, e sempre escrevia muito. E eu me lembro que uma vez em Exu, o Gonzaguinha tava lá e começou a cantar umas coisas dele. Eu digo: “Ô, Luiz, porque você não toca violão no show? Você toca muito bem”. “Ah, você acha que eu toco bem?” “Acho, rapaz, e ninguém vai saber acompanhar as suas coisas como tu mesmo!” Aí ele passou a tocar o violão, rapaz, e tinha uma harmonia bonita. Mas o Gonzaga me chamava de filho postiço, acho que por conta disso mesmo.
Pavan — E o aprendizado musical que você tem do Gonzagão, você perguntava coisas pra ele, como é que ele fazia alguma harmonia? Como era esse negócio, era só olhando?
Dominguinhos — Era só olhando, (ele) não passava nada, não. Ele só tratava de tocar, eu tava de olho e pronto. Eu tocava junto com ele. Eu sabia as músicas todas. Se ele largasse de tocar, eu estava firme ali, sabia as introduções, sabia o jeito dele puxar. Em algumas gravações, até perguntei a ele: “Seu Luiz, o senhor quer que eu toque com sua sanfona, assim já fica com o seu som?”. Ele gostava da Todeschini, da Universal, que era mais leve, feita no Rio Grande do Sul; era mais aberta pra tocar forró, tocar o baião, porque ninguém falava em forró, era só baião e xote. E aí, ele: “Não, pode tocar com a sua mesmo, não tem problema, não!”. Mas eu tocava também com a dele em gravações, ficava o som dele. Rapaz, era muito interessante!
Tacioli — Mas ele tinha uma relação de apego com o instrumento?
Dominguinhos — Não, não!
Tacioli — Era desapegado.
Dominguinhos — Era do mesmo jeito que eu sou. Agora mesmo emprestei minha sanfona — que tenho há mais de 20 anos — pra Mestrinho. Ele vai viajar com Gil, fez um show lá no Uruguai, voltou, tocou aqui no Canto da Ema e ficou mais uns dias. A (sanfona) dele não estava pronta. A minha sanfona eu não dou, não vendo, não empresto. Emprestei porque esse desapego é muito importante, porque não pode ficar achando que ninguém não pode tocar no seu instrumento. Por mim pode tocar, quanto mais toca, mais macia fica. [risos]
Tacioli — E sempre foi assim, Dominguinhos, esse desapego que você tem?
Dominguinhos — Sempre, sempre.
Tacioli — Mesmo criança quando você tinha um brinquedo ou panderinho que era seu?
Dominguinhos — Eu tocava pandeiro! Eu tocava pandeiro, meu irmão mais novo, Valdomiro, que estava em Nilópolis desde que chegou no Rio, e o Moraes, que era o mais velho, que tocava o acordeom de oito baixos. Aí ele largava, eu pegava, o outro também pegava. Ninguém tinha essa história.
Tacioli — E os Três Pinguins?
Dominguinhos — Também! [ri]
Tacioli — Era o nome do grupo, né?
Dominguinhos — Era, Os Três Pinguins.
Tacioli — Por que Três Pinguins?
Dominguinhos — É. Pinguim lá no Nordeste não vai se dar bem. [risos] Foram uns três, quatro anos, só. A gente era bem arrumadinho, tudo direitinho, gravatinha borboleta, jalequinho, parecia um pinguim mesmo.
Manu Maltez — Fraquezinho…
Dominguinhos — Calça preta, aquelas bluzinha assim, gravatinha borboleta. [ri]
Manu Maltez — Quantos anos você tinha?
Dominguinhos — Eu tinha nove anos, Moraes, 11, e o Valdomiro tinha uns três anos a menos do que a gente.
Manu Maltez — Dominguinhos, a gente entrevistou há um mês mais ou menos o Heraldo do Monte, que inclusive toca com você há muito tempo…
Dominguinhos — Ave Maria!
Manu Maltez — E a gente conversou um pouco sobre improvisação. Ele falou da época em que eles formaram o Quarteto Novo…
Dominguinhos — Foi…

Na sanfona, o jovem Hermeto Pascoal em disco de 1958. Foto: reprodução

Manu Maltez — (…) Que eles ficavam se policiando para não fazer o improviso jazzístico, mas de ter um própria, de buscar uma linguagem…
Dominguinhos — Brasileira.
Manu Maltez — (…) Brasileira e até nordestina de improvisação. Mas com você parece que isso é mais natural. Eu queria saber como foi essa época, se você improvisava de um jeito mais jazzístico antes, ou se isso foi uma coisa muito mais natural do que pra foi ele nessa época?
Dominguinhos — É, ele tocou muito com Hermeto, né? E o Hermeto não tem barreira. Quando conheci Hermeto lá no Rio de Janeiro tive mais conhecimento. Ele era do Regional do Pernambuco, que tocava pandeiro. Fez um disco antológico chamado Subindo o morro. [n.e. Na verdade, trata-se do LP Batucado no morro, 1958, de Pernambuco do Pandeiro e seu regional] Ele, de chapeuzinho de palha na cabeça, chapeuzinho que Joel de Almeida usava. Todos estavam com aquele chapeuzinho. Ele estava lá de sanfoneiro, tocando cada choro arretado. Eu tenho esse disco lá no Rio de Janeiro, na casa de Janete, que foi a minha primeira esposa. E aí o Heraldo tocou muito com ele, com Airto Moreira, com muita gente de gabarito. Mas eu não prestava muito atenção a isso, porque acho que na hora de improvisar fica tudo meio parecido. Às vezes eu assisto a uns shows de grandes músicos americanos, ingleses, que ficam improvisando, um larga, outro pega, um larga, outro pega, e pra mim tá tudo meio parecido. [risos] Ai, meu Deus, me dá uma agonia, começo a improvisar um pouquinho, já paro, aí boto logo outro pra tocar. [ri] Me dá uma certa agonia, sabe, o cara fica “tim tim tim” o tempo todo.
Manu Maltez — Mas o improviso é uma característica sua. Até em suas gravações tem (improviso) sempre atrás de você cantando, e (parece que) é o seu jeito de acompanhar…
Dominguinhos — É…
Manu Maltez — Vamos dizer, que tem um arabesco o tempo inteiro de ideias melódicas, até rítmicas que você…
Dominguinhos — É, você vai adornando o pavão…
Manu Maltez — (…) Que você cria embaixo um tecido vivo e que é muito rico e difícil de ouvir uma coisa assim.
Dominguinhos — Tem uma coisa importante disso que você está falando é que tocando com grandes músicos você só progride. E eu sempre toquei com Heraldo, com Cláudio Bertrami, que era um extraordinário contrabaixista, depois do Cláudio com Arismar do Espírito Santo, que é outro. O filho está no mesmo caminho, o Thiago. Então eu dei muita sorte nessa parte, porque aqueles homens tocando… Chicão, o Chico Midori, baterista, que era de um grupo com Amilson Godoy. Toquei com essa gente toda. Você dá o caminho, rapaz, e eles fazem aquilo aí ficar redondo, entende? É a vantagem de tocar com grandes músicos. Você vai dando o caminhozinho, quando dá fé, a coisa está toda bonita harmonicamente, sabe?

Capa do LP Domingo Menino Dominguinhos, de 1976. Foto: reprodução

Manu Maltez — Tem um discurso oficial da música pop, de que na canção não pode ter muita coisa embaixo, tem que ser uma batida clara com alguém cantando. E a sua música prova que não precisa ser nada disso, porque elas são cantadas e está acontecendo toda essa festa embaixo.
Dominguinhos — É, é lógico.
Manu Maltez — E uma coisa não atrapalha a outra, né?
Dominguinhos — Não, atrapalha nada. Eu dei muita sorte. Toquei muito com Toninho Horta, que é um grande instrumentista.
Manu Maltez — Aquele disco Dominguinhos Menino, né?
Dominguinhos — É, também fiz um disco de São João, coro e sanfona, solando e ele era o guitarrista. Tocou o disco todo fazendo base e tocando do jeito dele, né? Toninho faz um dó que nem parece que é dó. [risos] Negócio sério. [risos]
Manu Maltez — O Luiz Gonzaga disse naquela gravação “Quando chega o verão”, que você urbanizou o forró… Como você vê isso?
Dominguinhos — Eu acho que ele quis encher minha bola, porque ele é que estava aqui no batente, no asfalto, trazendo tudo do Nordeste pra cá. Mas eu acho que pra encher a minha bola, ele disse que eu urbanizei o forró, mas foi ele mesmo (que o urbanizou). [risos]
Pavan — Dominguinhos, você disse que não se falavam em forró, falavam em baião, né?
Dominguinhos — Só baião.
Pavan — Qual é a diferença do baião para o forró, xote…?
Tacioli — (…) Arrasta-pé?
Dominguinhos — O baião tem uma batida, o forró tem outra, que é mais suingada, é diferente e tem mais palavras, né? E o baião é mais liso. O xote é um gênero muito bom de se tocar, de você dançar e tudo; cansa menos. [risos]
Tacioli — Tem que ser menos atleta.
Dominguinhos — O arrasta-pé é mais perigoso ainda, vige Maria!
Tacioli — Dominguinhos, ainda sobre a questão do Quarteto Novo. Você sofreu algum tipo de patrulhamento musical em algum momento da sua vida?
Dominguinhos — Teve. Na época da revolução, os próprios colegas tinham mania de ficar podando você se você gostasse de alguma figura. Por exemplo: tive uma polêmica muito forte com Fagner na época em que Collor foi presidente. Eu já conhecia o Collor. Eu, Luiz Gonzaga, a gente se conhecia. E ele e eu apoiávamos Collor. Fiz muito show pra ele. Ganhei muito dinheiro tocando lá pelo Nordeste. Ele nem ia aos comícios. Eu ficava tocando do trio e Fagner não gostava disso. Eu dizia: “Mas, rapaz, a gente vive num país democrático, como é que você tem que dizer o que é que eu devo gostar ou não? Eu gosto, você gosta do outro, mas eu não tenho que ir atrás de você, entendeu? Isso é uma coisa que tem que ser respeitada”. E Geraldinho Azevedo sofreu muito na unha desse povo, sofreu muito mesmo. Um dia desse ele estava contando essa história. E assim, muitos, né? Mas o fato é que com o surgimento de Lula mais político, o meio musical se ouriçou muito para o lado dele. Eu fui um dos caras que ele nunca procurou, mas eu fazia (show pra ele) — eu, Gonzaguinha, Bete Mendes, Moraes Moreira — lá no ABC de graça pra arranjar dinheiro pro PT. Eu nem sabia que o PT estava sendo formado. Eles me chamavam pra eu ir lá tocar. Aí tinha aquelas coisas todas de sindicato. Até Gonzaguinha fazia um show no Tuca. E no final do tinha uma faixa escrita “PT saudações”. Eu digo: “Olha só!”.
Pavan — Mas você não sabia dessa coisa de partido?
Dominguinhos — Eu sabia que ele estava fazendo…
Pavan — Você sabia que era uma coisa política.
Dominguinhos — Sabia que era coisa política, agora que eles estavam…
Pavan — Porque os shows do Primeiro de Maio no Rio, você participou também, né?
Dominguinhos — Participei de tudo. Eu vivia enfurnado naquele Riocentro. Eu, o Chico… No dia da bomba, eu devia estar lá dentro tocando. [ri]
Pavan — Então, a sua participação lá era pela amizade com os músicos ou pela política?
Dominguinhos 
— Não, era pela amizade. “Bora, Dominguinhos, vamo lá, dá uma força aí!” E eu ia.
Tacioli — Mas, Dominguinhos, quando eu falei do patrulhamento, referia-me a um patrulhamento mais musical, como se nos anos 50 ou 60, período pós-bossa nova, quando você começou a tocar, o meio artístico dizia “Ah, isso não é legal!”…
Dominguinhos 
— O Tom e o João Gilberto. Uma turma enorme…
Tacioli — Pois havia o patrulhamento sobre a guitarra, de que não podia tocar guitarra, tinha que ser com violão. Você sofreu algum tipo de…
Dominguinhos 
— Não, não, não. A gente só tinha que tocar bem.
Manu Maltez — Porque aconteceu isso com a sanfona, né?
Dominguinhos 
— É.
Manu Maltez — Que era um instrumento muito usado e depois, a partir de um momento, ela quase sumiu…
Dominguinhos 
— Não, ela foi subjugada. Mas não tinha o patrulhamento de você tocar assim ou assado, não tinha, não. Era uma coisa muito livre, sempre foi. Era uma época em que a gente estava muito novinho. Como qualquer jovem, eu gostava muito de rock, tocava muito rock na sanfona.
Tacioli — Você gostava, Dominguinhos?
Dominguinhos 
— Gostava. Acompanhei muito a carreira do Beatles, desses mais velhos que estão todos ainda aí, graças a Deus. E sempre me dei bem, ninguém nunca disse faz assim ou faz assado. Tinha aquele grupinho da bossa nova, que era lá de Ipanema, aquele pessoalzinho que tem muita gente aí que participou e que ninguém toca no nome, como é o caso do Johnny Alf, né, que era um dos grandes compositores dessa época. Ele já vinha antes tocando bossa nova.

No Teatro Dulcina (RJ), Johnny Alf abre sua turnê com Zezé Motta, na temporada 1978 do Projeto Pixinguinha. Foto: Funarte

Tacioli — E você acompanhava o Johnny Alf?
Dominguinhos — Não, não…
Tacioli — No sentido de assisti-lo em uma boate…
Dominguinhos — Ah, sim, de saber a música dele…
Tacioli — E escutar…
Dominguinhos — Gravei música dele em um disco vinil que eu fiz, Dominguinhos e a maravilhosa música brasileira. Tinha música dele, tinha música de Gil, de Caetano, de Chico. O Amilson Godoy fez os arranjos.
Tacioli — E qual era a marca, o RG, a coisa mais importante da música do Johnny Alf pra você?
Dominguinhos — Era a harmonização dele, era muito bonita, as melodias que ele fazia cantando era muito profunda. Johnny Alf merecia uma melhor sorte no meio musical, porque realmente foi um dos grandes baluartes…
Tacioli — Pouco reconhecido…
Dominguinhos — Muito pouco.
Tacioli — Você acha que ele sofreu muito preconceito…?
Dominguinhos — Não, ele tinha um jeito próprio, ele só gostava de tocar naquelas boatezinhas, aquelas coisas, fazia os showzinhos dele por ali. E eu acho também que ninguém abria muito pra ele. De que adiantava você abrir um bocado de coisa, de perspectiva, e ele não querer, né? Ele tinha essa coisa com o pessoal da noite, vivia a noite direto.
Tacioli — Faltou ele participar mais da turminha da bossa nova?
Dominguinhos — Talvez isso aí, mas ele tinha o trabalho dele, não precisava desses caras. Ele já fazia uma música de altíssima qualidade e só tocava o que era dele mesmo. E todo mundo tocava as coisas dele, que ele harmonizava bem. Muito bom o Johnny Alf.
Manu Maltez — Dominguinhos, a gente nota em você essa coisa de agregar que faz parte do seu jeito. Até em discos, de gravar com outras pessoas. Mas tem um cara que me lembra um pouco esse seu jeito sereno que é o Paulinho da Viola. Imagino um disco de vocês dois…
Dominguinhos — Nós fizemos um show juntos aqui em São Paulo. Ele, o Ney Matogrosso, numa produção de Myriam Taubkin. Tivemos juntos no teatro. Ele cantou “Asa branca” e outras coisas. Eu acompanhei.
Manu Maltez — Até pra quebrar essa história de que sanfona não entra no samba…
Dominguinhos — Gravei à beça.
Tacioli — Você nasceu em Garanhuns?
Dominguinhos — Foi.
Tacioli — E saiu de lá com 15 anos?
Dominguinhos — Não, com uns 13 anos.
Tacioli — Treze anos?
Dominguinhos — É.
Tacioli — Que lembranças você tem desse período, dessa primeira infância de Garanhuns? Como era a cidade, quais os lugares que você gostava de frequentar?
Dominguinhos — Eu não frequentava lugar nenhum! [ri] Eu era garotinho e no dia em que conheci Luiz Gonzaga — sem saber quem era — eu tinha oito anos. Tocava na porta do hotel em que ele estava hospedado, o Tavares Correia. Tá lá, do mesmo jeito que era naquela época, muito verde, charrete. E a gente chamava (o hotel) de sanatório, porque tinha muito velho que ia pra lá passar o fim de semana. E botaram a gente tocando lá na porta. Não deixavam a gente tocar lá dentro para não atrapalhar os hóspedes. Aí botaram a gente para tocar numa sala com um cidadão. Era ele, Gonzaga. Aí ele deu um bolo de dinheiro pra gente e também deu o endereço, que foi a coisa mais importante. Nesse mesmo dia apareceu uma senhora, Almerinda, que era diretora da escola comercial de Olinda, um internato e externato. “Vocês não querem estudar? Vocês estão na idade de estudar? Você já está com nove anos?” E aí eu digo: “A senhora fala com meu pai, porque a gente não pode resolver nada”. Aí ela foi falar. Meu pai deixou a gente ir. Passamos uns quatro anos internos, todos na mesma época.
Tacioli — Foi bom ficar interno?
Dominguinhos — Foi bom porque alguma coisa que eu aprendi foi lá. Era uma época meio pesada, porque eles batiam muito nas crianças, de palmatória, e muitas vezes até com “arreio” de bater em cavalo. Mas o que eu aprendi foi ali. Ela tornou-se empresária. Vendia os showzinhos da gente, vestia a gente muito bem. O dono da Rádio Clube, Arnaldo Moreira Pinto, deu uma sanfoninha de 48 baixos pra gente, um acordeonzinho. Moraes passou logo a tocar, depois eu, e depois o Valdo. Rapaz, foi uma coisa bonita! Esse tempo era pesado. Quando nós voltamos, saímos de lá, fomos expulsos.
Tacioli — O que você fez, Dominguinhos?
Dominguinhos — Não, não, não fizemos! Era o seguinte: como eles batiam muito na gente, Moraes, que era o mais velho, pulava o muro do colégio, que era muito alto, e ia para a casa do dono da rádio. Ele descobriu onde o dono da rádio morava. E o homem passou a se incomodar com ele. “Ei, você não tá num horário de estudar, meu filho?” “É que estão batendo na gente!” Fez uma denúncia! Aí mandaram um órgão visitar o colégio pra ver o que é que estava acontecendo. A gente apanhava mesmo, rapaz, seis bolos na mão, tu já pensasse?! Era de palmatória, não era brincadeira! A gente ficava de mão inchada. E ela vendia a gente na casa dos meninos mais ricos, tudo vestido de pinguins. Aí ela expulsou a gente por conta disso (da denúncia do Moraes). Nós voltamos para Garanhuns pior do que a gente tinha ido. Voltamos com a roupinha do corpo. Ela segurou tudo, inclusive os instrumentos. Voltamos zerados.
Pavan — Até então nem você e nem seus irmãos nunca havido estudado?
Dominguinhos — Não, não, somente quando nós fomos pra lá.
Pavan — Vocês estudaram nesses três anos.
Dominguinhos — É, entre três e quatro anos e aí acabou-se.

Capa de Fim de festa, LP de estreia de Dominguinhos (1964). Foto: reprodução

Tacioli — Chegou e apanhou em casa também?
Dominguinhos — Não, não! Meu pai levou um susto! O transporte naquela época era trem, que ia de Recife para Garanhuns, uma Maria Fumaça. Nós chegamos e o pai disse: “Vá lá, minha Nossa Senhora! Vocês fugiram?”. “Não, pai, a mulher mandou a gente embora! Sem instrumento, sem nada! Ela não tinha necessidade disso.” Agora, eu tinha tanta consciência do bem que eles tinham feito que, uns 15 anos depois, eu estava com Luiz Gonzaga e voltei lá. Fiz uma visita à escola, que estava funcionando lá em Olinda. Não sei se vocês já foram em Olinda, Pernambuco. Quando você sai de Recife, uma ladeira bem alta assim, a escola era ali, do lado direito, junto à Prefeitura. E aí fui lá no colégio visitar (a Dona Almerinda). E ela parou a sala de aula. “Isso aqui é como um filho pra mim! Estudou aqui.” [risos] E eu, besta, naquela conversa mole, levei um disco que eu tinha feito, que era o Fim de festa. Aí eu esqueci de perguntar: “Ah, Dona Almerinda, e aqueles instrumentinhos que a gente tocava?” Estavam lá com ela, né? Podia ter me lembrado disso. Depois ela vendeu o colégio e hoje em dia é uma residência, sabe? Mas eu podia ter me lembrado disso aí, pedir (os instrumentos) pra ela. Ela daria; ficou toda feliz de me ver.
Pavan — Apesar de apanhar, você tinha gratidão…
Dominguinhos — Ah, tinha demais, porque foi o lugarzinho em que eu aprendi alguma. Não vou esquecer.
Pavan — E depois você voltou a estudar no Rio?
Dominguinhos — Voltei nada. [risos] Com 17 anos já era pai e fui tocar cada vez mais. [risos]
Tacioli — Dominguinhos, perguntei dos lugares que você frequentava em Garanhuns, e se quando era moleque você brincava em algum lugar…
Dominguinhos — Ah, brincava, brincava…
Tacioli — Quais eram e como eram esses lugares?
Dominguinhos — A gente mesmo fazia os brinquedos, né? Carrinho de rolimã, que você descia aquelas ladeiras bem inclinadas e, vruuum!, caía lá embaixo, se ralava todo. Fazia torneio de pião, que era pra gente lascar o pião no meio. Jogava bola de gude, que a gente chamava lá de chimbre. E aí fazia os brinquedinhos com aqueles carretéis de linha grandes, com um arame, botava ali e saía pelo meio da rua, correndo desembestado. Tudo isso foi uma coisa muito boa pra mim, para meus irmãos, primos…
Tacioli — E como era Garanhuns nessa época?
Dominguinhos — Garanhuns, rapaz, pra mim não mudou foi quase nada. Tem muitas flores, tem um lugar chamado Pau Pombo, que tem água mineral à beça. Minha mãe lavava a roupa do Zé Cesário, que era dono de uma padaria, com água mineral, aquela água azulzinha. E a gente ia pra lá com ela, porque tinha muito menino. Já ajudava em uma coisinha. Chegava a época de manga, a gente ia roubar manga enquanto ela lavava roupa. Um dia levei um susto arretado, porque quando estava botando a mão numa manga bem grande, rosa, o cara estava com uma espingarda: “O quê que cê tá fazendo aí, moleque?!”. [risos] Aí, eu… [bate as mãos]. Eu (caí). Já pensou se ele atirasse? Negócio de sal, né?
Tacioli — Aí nasceu o ponta-direita?
Dominguinhos — É. [risos] Vige, debaixo do arame, já estava com a mão na manga, rapaz! [risos] Ô cara miserável!
Tacioli — Dominguinhos, mas como foi sua infância, a família era uma família pobre?
Dominguinhos — Pobre.
Tacioli — Como era o seu pai, o Mestre Chicão?
Dominguinhos — O Mestre Chicão era afinador de sanfona, tocador, mas às vezes ele passava meio ano sem tocar numa festa, sabe? A gente passou a tocar nas ruas, nas portas de hotéis, botequins, feiras… E sustentando a família. Botava o chapeuzinho e aí todo mundo botava uma pratinha.
Pavan — Mas ele ganhava a vida com isso ou tinha um trabalho na roça ou em alguma coisa assim?
Dominguinhos — Também, mas a roça era uma piada, porque o meu pai com a minha mãe tiravam os eitos de terra com muita ligeireza e a gente, pequenininho, só com a enxadinha fazendo tipo… Valia de nada! [risos]

Dois reis do ritmo: Jorge Veiga e Jackson do Pandeiro. Fotos: reprodução

Pavan — Mas seu pai ganhava então a vida arrumando sanfona?
Dominguinhos — Como agricultor.
Pavan — Como agricultor e consertando sanfona?
Dominguinhos — Consertando sanfona… Ele tocava muita sanfona de oito baixos, era uma beleza! Samba, choro e frevo, eram os gêneros de música da época. Tinha um rádio, a gente encostava o burro pra ver quando pegava direito, frequência média, como é, frequência modulada, (ela) fugia e voltava… Era uma época de Carlos Galhardo, Orlando Silva. E depois cheguei no Rio de Janeiro e conheci todos eles. Passei a tocar no regional da rádio. Se precisassem do regional, a gente já servia. Eu ficava ali tocando com eles… Jackson do Pandeiro…
Tacioli — Como foi isso pra você, Dominguinhos, tocar com gente que você ouvia desde pequeno?
Dominguinhos — Rapaz, eu nem notei, porque é tão engraçado essa coisavpor ser muito pequeninho naquela época… Cheguei lá com 13, 14 anos; com 15, 16 comecei a tocar na rádio. Aí a minha cabeça estava focada só no instrumento. E já estava casando, tendo uma filha, falecida aos 49 anos, a Lena. E eu fiquei assim, como uma pessoa que estava começando mesmo… Acompanhei, não sei se você já ouviu falar, Jorge Veiga, Marlene, Emilinha…
Tacioli — O Caricaturista do Samba.
Dominguinhos — Isso! Ele enchia o saco de Jackson do Pandeiro. Jackson estava lá no camarim esperando a hora de entrar, e ele sentado, um bigodão… Tinha o Gaúcho do Acordeom, que era um grande músico, tinha o Chinoca, que hoje em dia está lá no Rio, tem 81 anos, meu amigo desde esse tempo. O meu apelido era Neném. E o Jorge Veiga, muito sem-vergonha: “Esses paraíbas chegam aqui e pensam que podem passar na frente da gente!”. Aí ele se levantava e saía, sabe? Jogava o veneno e ia embora. E o Jackson: “Compadre, eu ainda vou dar uma peixeirada nesse camarada!”. [risos] Eu dizia: “Que besteira, Jackson, isso tudo é brincadeira dele!”. O Jackson era bravo demais…
Max Eluard — Ele ficava bravo mesmo!
Dominguinhos — Ele era bravo, brigava com dois, três… [risos]
Manu Maltez — Nos lugares em que você tocou, isso no começo (de carreira), lá pro Norte, você viu muita briga? Quando você estava no salão e a coisa ficava feia, você tinha que sair correndo ou continuava tocando?
Dominguinhos — Tinha muita briga de faca. A gente estava tocando em um lugarzinho, num cantinho e, de repente, parava a festa e começava uma briga. A janela era baixinha e meu pai botava a gente pra fora… [risos] Quando acabava (a briga), a gente voltava.
Manu Maltez — Voltava a tocar?
Dominguinhos — Voltava a tocar, e geralmente tinha alguém furado.
Manu Maltez — E seguia a festa…
Dominguinhos — Seguia a festa.
Tacioli — Dominguinhos, você falou do Jorge Veiga. Uma de suas características era a divisão rítmica, como também era a do Jackson do Pandeiro. E sempre falaram dessa briguinha entre os dois por conta da gozação de quem era o “rei do ritmo”…
Dominguinhos — Nessa época tínhamos algumas pessoas que, como Miltinho, que tocava pandeiro, fazia muita bossa — ele era o mais bossista, que brincava com a divisão. E depois veio o Jackson, que revolucionou, porque ele tinha uma divisão extraordinária e tocava muito pandeiro. Jorge era mais um gozador que, como a Emilinha (Borba), que era a favorita da Marinha, a Marlene era não-sei-o-quê, ele representava os aviadores. Enquanto a gente dava uma introdução, ele fica esperando para entrar com “Senhores aviadores do Brasil / Queiram dar o prefixo das vossas aeronaves…”. [risos] E aí falava um bocado e dava certinho com a introdução pra ele entrar cantando. [risos]
Tacioli — E sempre elegante, né?
Dominguinhos — Muito elegante… Eu acompanhei muito Ataulfo Alves. Um dia fomos para Miraí, que é a terra dele, perto de Muriaé. Ele levou um regional da Rádio Nacional e nós fomos lá acompanhá-lo…
Pavan — Dominguinhos, você está sempre falando de sua fase de acompanhante, mas você se lembra da primeira música que fez?
Dominguinhos — Ah, sim, fiz muita música. Aos oito anos eu já tinha gravado uma valsa, “Saudade da minha terra”. Na época a gente estava em Recife. Moraes (Moreira) gravou “Casamento no Juazeiro”, que era uma música que ele fez a letra, que eu regravei duas vezes depois. E aí a gente vivia disso, compondo, só que como eu não sabia música, eu não marcava e ia pro beleléu. Eu já conhecia Anastácia; a gente tocava nas televisões daqui e do Rio. Um dia, Gonzaga chamou a gente para fazer uma viagem juntos. Dormimos em Aracaju, em um hotel que está lá até hoje, um lugar chamado Jacques Hotel, bem na entrada da cidade. Pois bem, eu estava tocando no outro dia e a gente dormiu. Tomei café e fiquei por ali agarrado ao instrumento. Aí fiz um baião. Anastácia, que estava em outro quarto, botou uma letra…
Pavan — Sem você saber?
Dominguinhos — Sem eu saber!
Pavan — Ela só ali na escuta…
Dominguinhos — Só na escuta… Quando terminei, que botei o acordeom em cima da cama, ela disse: “Olha, você se incomoda? Fiz uma letra nessa música que você estava tocando aí!”. Aí se chamou “Mundo de amor”, que foi a primeira música nossa que Marinês gravou. Ela era quem mais gravava música da gente. [n.e. Cantora pernambucana, 1935–2007, conhecida como “Rainha do Forró”] Aí passei a ter o conhecimento que podia fazer música, que tinha uma parceria. Ih, fizemos 210 músicas juntos.
Tacioli — Até então você não havia tido essa experiência?
Dominguinhos — Não, com ninguém. Foi ela que descobriu!
Manu Maltez — E aí você ficou animado?
Dominguinhos — Fiquei animado, fazendo música direto…
Pavan — Mas você compunha e…
Dominguinhos — Ia botando no baú…
Pavan — Tudo na cabeça…
Dominguinhos — É!
Pavan — Mas você escreve música ou não?
Dominguinhos — Não! Aprendi um pouco de cifra, essas coisas assim, mas pra ler com instrumento, não.
Pavan — Mas tudo o que você compôs foi na cabeça e mostrando depois para o parceiro?
Dominguinhos — Foi! E as fitinhas-cassete, gravações, um aparelhinho… Ligava o aparelhinho cassete e ficava tocando uma hora, duas horas; ficava tocando, fazendo música. Era igual a repentista: enchia uma fita de um lado e do outro.
Pavan — Mas isso não é improviso?
Dominguinhos — Não, a melodia era definida, era uma composição mesmo.
Pavan — Vinha na hora? Como era? Você falava: “hoje eu vou compor”?
Dominguinhos — É, sempre na hora.
Manu Maltez — Aí depois você escutava…
Dominguinhos — Pronto, ela escutava e ia tirando as arestas e colocando a letra certinho ali.
Tacioli — E você opinava nas letras, Dominguinhos? Dizia: “Não, Anastácia, essa letra não está legal!”?
Dominguinhos — Era muito difícil opinar.
Tacioli — E você lembra de alguma que você opinou?
Dominguinhos — Quando ela botou a letra em “Tenho sede”, eu achei meio estranho: “Traga-me um copo d’água…”. [risos] Ela já estava era na frente…
Manu Maltez — Mas você não disse nada?
Dominguinhos — Não! Eu achei estranho e ela viu que eu achei estranho, e disse: “Está gostando?”. Eu digo: “Não, tá bom…” [risos] Foi tudo bem, graças a Deus!
Manu Maltez — E com o Chico Buarque, você leva a música e ele põe a letra?
Dominguinhos — Tem caso esporádico, porque ele sempre teve seu trabalho. Ele não precisa de (parceiro). Acho que ele só pega um parceiro ou outro, né? Hoje em dia, ele faz isso com os músicos que tocam com ele. O Jorge Helder sempre tem composto com ele. Esse ano ele botou uma letra numa música de João Bosco, “Sinhá”, que é uma das mais bonitas do disco. [n.e. CD Chico, de 2011] A coisa é (mais ou menos) assim: “Ah, Chico, fique com essa fitinha. Um dia tu bota uma letra! “. Aí ele botou letra em duas.
Manu Maltez — Demorou?
Dominguinhos — A primeira demorou uns dois anos. Aí o Roberto Carlos tinha pedido uma melodia a ele. Ele tinha essa mania de ir lá pra fora para gravar. Disse: “Ó, Chico, eu vou viajar e queria levar uma música sua”. Aí ele me ligou: “Ó, Neném, aqui não tem nada. Eu não tenho nada pronto, mas eu tenho uma música sua aqui e eu botei umas palavras. Vem pra cá pra gente gravar aqui num cassetezinho e o Roberto leva pros Estados Unidos”. Aí fui pra lá. Eu nem me lembrava mais da música. Ele botou pra tocar várias vezes até que eu aprendi. Ele mostrou a letra: “Tantas palavras”.

E depois ele cantou para uma novela da Bandeirantes, numa época em que (Roberto) Talma tinha saído da Globo para Bandeirantes. E foi o próprio Chico, com arranjo de Amilson Godoy, que gravou essa música. Depois ele regravou, mas já mudando. Na verdade, ele disse que essa música era para um filme de Ruy Guerra. E aí o Roberto foi, voltou, e entregou a fita ao Chico. Ele disse: “O homem não gostou, não. Deixou a fita aí. O que é que eu faço?”. “Tu mesmo grava, rapaz, quando tu fizer um disco!” E ele fez isso mesmo.
Manu Maltez — Naquele disco vermelho…
Dominguinhos — Não é?
Manu Maltez — É.
Tacioli — Mas você já mandou várias fitas para o Chico?
Dominguinhos — É, ele tem…
Tacioli — (…) Tem uma coleção de fitas… [risos]
Dominguinhos — O Gil também tem, o Djavan…
Tacioli — O Djavan também tem?
Dominguinhos — Também! Ele botou uma letra numa (música), mas ele tem um bocado. O marido da Glória Pires, o Moraes…
Tacioli — O Orlando…
Dominguinhos — Orlando! Viu a fita minha com ele e pediu a ele, “Me dá essa fita aí, que eu vou colocar uma letra, que eu gosto das melodias do Dominguinhos.” Aí ele deu, o Orlando fez primeiro do que ele, sabe? Aí passou um tempo, ele pegou a melodia e botou letra. Ficou muito bonito porque ele escreve pra caramba. Mas, era assim, rapaz… Aí o Chico tinha ficado com a fita. Um dia ele me ligou — a gente se encontrava sempre. “Olha, Neném, o negócio é o seguinte: botei umas palavras em uma música sua e eu queria que você viesse para o Rio pra gente gravar junto”. Aí eu fui e aprendi de novo a melodia, porque eu não sabia. Ele levou 15 anos (para colocar a letra). Mas agora eu tenho um parceiro que bateu o recorde: é o Fausto Nilo. Ele diz que está terminando uma música que tem 32 anos que ele está com ela. [risos] Ah, bom, então não vou falar mais nada, Ave Maria!
Manu Maltez — É uma ópera!
Dominguinhos — “Rapaz, termina logo e me manda isso aí! Trinta e dois anos, Fausto! É uma dádiva de Deus!” Aí ele disse: “Mas ainda falta um negocinho aqui…”.
Tacioli — Mas, Dominguinhos, a fita que você manda é uma cópia?
Dominguinhos — Eu mando a (fita) que eu fiz mesmo! Não fico com nada! Eu não fico com nada!
Pavan — Aí você esquece a música…
Dominguinhos — Um dia se eu escutar, eu vou lembrando, ela vai voltando, a melodia vai entrando na sua cabeça… Tem agora uma novela chamada Fina Estampa em que a Ivete (Sangalo) está cantando uma música que a primeira parte todinha é de uma música do Chico, mas com outra letra. Eu não sei se ele já viu isso aí. Parece que é uma música dele com o Cristovão.
Manu Maltez — A melodia é igual?
Dominguinhos — É, é igual. [silêncio] Rapaz, como não tomaram uma providência logo?! [n.e. Sobre as músicas “Todo o sentimento”, composta por Chico Buarque e Cristovão Bastos e lançada em 1987, e “Eu nunca amei alguém como eu te amei”, de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle, gravada em 1994 por Roberto Carlos e em 2012 por Ivete Sangalo]
Tacioli — Você já teve algum caso desses?
Dominguinhos — Não, não, não. Jorge Ben é que teve. Na época roubaram uma música dele, mas isso é tão comum… Se aparecer uma parecida aí, eu não estou nem aí…
Pavan — E, Dominguinhos, de onde vem a inspiração?
Dominguinhos — É uma coisa momentânea, é um momento bom em que você está ali. Pode ter muita gente perto, (você) vai tocando, vão surgindo as coisinhas, você não se incomoda com quem está em volta, sabe?
Tacioli — Mas precisa do instrumento, Dominguinhos?
Dominguinhos — Precisa do instrumento [ri] e precisa também da inspiração. Mas o instrumento fica no sofá e eu tenho sempre um gravadorzinho. Até hoje eu faço a música em cassete, porque eu não sei mexer com computador. Por exemplo: o Gil botou uma letra em um xote agora, “Um riacho, um caminho”, (que está) no DVD novo dele e no disco… [n.e. Fé na festa — Ao vivo, 2010]
Manu Maltez — Foi rápido?
Dominguinhos — Foi porque ele queria gravar. Aí eu mandei umas três músicas e ele botou letra nessa e me chamou para participar do DVD com ele. Mas eu fui no estúdio que o Beto Mendonça tem aqui em Pinheiros — um estúdio muito bom, em que eu gravo — e pedi para ele passar minha fitinha para um cedezinho para eu mandar pro Gil, pra não ficar muito feio, né? Os caras não têm mais onde escutar… [risos]
Pavan — E você acredita em dom, Dominguinhos?
Dominguinhos — Acredito. Acredito porque o meu caminho é o dom mesmo. Eu não sei nada, sei tocar e pronto.
Manu Maltez — O nome de sua filha Liv é em homenagem a Liv Ullmann mesmo? [n.e. Atriz e diretora de cinema nascida na Noruega em 1938. Foi casada com o diretor Ingmar Bergman, que a dirigiu em seu primeiro filme, Quando duas mulheres pecam, de 1966]
Dominguinhos — É.
Manu Maltez — Você gosta muito de cinema?
Dominguinhos — Gostei muito, rapaz! Acabaram com as salas, né? Eu vivia dentro de cinema, gostava demais!
Manu Maltez — De quais diretores que você gostava?
Dominguinhos — Eu cheguei até a trabalhar com o Cacá Diegues e com a família do Luiz Carlos Barreto. Fiz muita música pra ele! Apareci em filme do filho dele, esse que está doentinho.
Manu Maltez — E de quais diretores você gosta?
Dominguinhos — (…) Tem também O cangaceiro, o último cangaceiro que foi feito… [n.e. Refilmagem do clássico de mesmo nome de 1953, dirigido originalmente por Lima Barreto. Na nova versão, de 1997, Aníbal Massaini Neto assina a direção. Dominguinhos vive o personagem Zé Domingues]
Manu Maltez — Você participou do filme?
Dominguinhos — Participei. Passei 15 ou 20 dias gravando lá no interior de Pernambuco. Paulo Gorgulho, Luíza Thomé… Eu toquei e cantei várias músicas de Zé do Norte no filme. Tinha um balé que a poeira cobria tudo… Muito lindo, rapaz! Participei de vários filmes, até um em preto e branco com Gonzaga, dançando um xaxado.
Manu Maltez — Você vê ainda bastante filme?
Dominguinhos — Agora vejo em casa, porque está ruim, estão fechando os cinemas todos.
Max Eluard — Só tem cinema em shopping, né?
Dominguinhos — Não é, rapaz, é uma coisa…
Tacioli — Mas o que você gosta de assistir? Policial, drama…
Dominguinhos — Não, uma coisa mais assim de você não saber se vai dar certo, assim… [risos]
Max Eluard — Suspense.
Dominguinhos — Suspense é bom demais!
Tacioli — Mas sempre dá certo?
Dominguinhos — Sempre dá certo. [risos]
Manu Maltez — Você falou de cangaceiro. Você chegou a conhecer algum grande cangaceiro?
Dominguinhos — Não, não, conheci, não, quero dizer, cheguei a conhecer uns da família do Lampião, que ainda tem gente viva. Da família dele eu cheguei a conhecer.
Manu Maltez — A Dadá morreu faz pouco tempo.
Dominguinhos — Pouco tempo, mas cheguei a conhecer. O Gonzaga então que deve ter conhecido mesmo…
Manu Maltez — O Gonzaga tinha alguma história? Ele contou alguma coisa?
Dominguinhos — Tinha, ele contou muita coisa, de que ele gostava mesmo de Lampião, desse pessoal…
Manu Maltez — Tem um livro que saiu sobre o cangaço que fala que eles mesmos costuravam, faziam os bordados todos.
Dominguinhos — É, faziam tudo, porque também não podiam mandar pra ninguém, porque iam matá-los e tal. Eles mesmos aprendiam tudo.
Manu Maltez — E eram musicais também, né? Eles gostavam muito de música.
Dominguinhos — É, nossa, dançavam o xaxado, o Gonzaga aprendeu…

Tacioli — Dominguinhos, em relação a forma como o Nordeste é representado, seja no humor ou na música, você tem alguma ressalva?
Dominguinhos — Nós estamos muito bem na fita, porque o Norte-Nordeste é um enxame de grandes compositores e de humoristas formidáveis. O Ceará é um celeiro!
Tacioli — Você gosta de algum?
Dominguinhos — Gosto. Gosto muito do Chico Anysio (1931–2012). Esse que morreu agora, o Zé Vasconcellos (1926–2011), que eu conheci quando era rapazinho e ele já gravava discos de vinil. Um humor todo limpo, um humor pra gente rir assim sem usar palavrão.
Tacioli — A história é engraçada.
Dominguinhos — É, exatamente. O Chico é meu parceiro também. Já fiz música com ele. [n.e. “Oitão”, com Nonato Buzar; “Ora essa”; “Que diabo é isso”, todas gravada nos anos 1970; e “Eita Paraíba”, com Sarah Benchimol, lançada em 2006]
Tacioli — O Chico compôs com a Dolores (Duran).
Dominguinhos — Com Arnaud Rodrigues…
Tacioli — Sim, o Arnaud Rodrigues.
Dominguinhos — Fez uma parceria muito boa com ele, porque o Arnaud era redator também, o ajudava muito…
Tacioli — Que composição é essa com Chico Anysio que você tem?
Dominguinhos — É, nós só temos uma. E assim mesmo quase que não deu certo, porque ele fez uma coisa muito longa, falando na Elba e de uma porção de coisas. Aí eu cortei um bocado de palavras e fiz um arrasta-pé em homenagem à Campina Grande… Porque ele falava em Campina Grande e tudo o mais… Depois eu liguei pra ele: “Ô, Chico, estou lançando um disco agora que tem aquela música nossa” . Aí ele disse: “Qual?”. Aí eu falei e acho que foi lá no computador. Mexeu em alguma coisa e disse: “Mas, rapaz, essa música! A menina que faz música comigo já fez uma melodia!”. Eu digo: “Mas eu já gravei!”. Ele disse: “Então, fica nós três!”. [risos] Não teve conversa mole… [risos] Sarah Benchimol parece que é o nome dela, que faz música com ele.
Tacioli — E com o Arnaud Rodrigues, teve alguma sua com ele?
Dominguinhos — Não teve… Eu fiz algumas coisas com ele… Morava onde ele faleceu, né? Um negócio no mar, num rio, em Palmas e tal. De vez em quando eu ia (pra lá e me) encontrava com ele… Ele era uma figura extraordinária, um grande compositor. [n.e. Humorista, cantor, compositor e ator, Arnaud Rodrigues, natural de Serra Telhada, PE, morreu afogado em 2010 na Usina de Lajeado, em Tocantins. Com Chico Anysio lançou a dupla Baiano & Novos Caetanos]
Tacioli — Dominguinhos, o que te angustia, que te dá medo?
Dominguinhos — A morte… É a coisa mais certa que tem e que a gente não tem uma explicação. Em 2006, 2007 eu fiz uma operação de câncer no pulmão. Eu já estava com o dia da operação marcado, voltei do Ceará, encontrei com o Yamandu Costa e fizemos um disco, com a direção de Zé Milton, lá no Rio. E eu estava com aquela operação marcada. Ia para o estúdio e passávamos dois, três dias nós gravando o primeiro disco. [n.e. CD Yamandu + Dominguinhos, 2007. Três anos depois lançaram Lado B — Dominguinhos e Yamandu Costa] Eles nunca souberam de nada. A minha dor era só eu no quarto. Eu não ia nem ao restaurante, porque a qualquer momento vinha uma vontade imensa de chorar. Aí eu ficava no quarto… Ele (Yamandu) só soube depois de muito tempo de lançado o disco.
Max Eluard — Por que que você não quis compartilhar esse momento?
Dominguinhos — Rapaz, era uma ambiente tão benéfico, tão bom, sabe, que eu não queria chegar com nota triste. As notas tinham que ser musicais… [risos] Aí depois eu contei a ele. “Mas, rapaz, por que você não me falou nada?” Ainda faço quimio e tudo maltrata a gente… E eu sei que estou aí, estou tocando, estou podendo cantar ainda, fazendo as minhas coisas. Isso aflige, isso dá um bocado de pensamento, porque por mais que você viva, você quer viver, né? Tendo um pouquinho de saúde melhor ainda, entendeu? Todos nós somos assim. E é uma coisa tão profunda que a gente não sabe qual é o momento: pode dormir e não acordar mais.
Pavan — Dominguinhos, quando as pessoas têm um problema de saúde geralmente elas recorrem a alguma coisa ou à família ou a um amigo ou à religião. No seu caso, qual é o seu suporte?
Dominguinhos — Eu acho que, além da religião — eu sou católico –, as pessoas rezam muito por mim. Tenho muitos amigos e amigas que estão sempre me mandando mensagens. Isso me agrada! Como a família do Waldonys, lá no Ceará, que é um grande músico. É Waldonys, com W e Y no fim. Waldonys!
Tacioli — Eu conheço a figura!
Dominguinhos — Conhece?
Tacioli — Conheço, sim.
Dominguinhos — Pois bem, ele é meu afilhado desde os 10 anos de idade. Ele vai fazer 40 no mês que vem. A família dele é uma família de gente muito católica: Joana D’Arc, Eurídice, tem irmã freira, irmão padre, essas coisas. Eles rezam muito, fazem novenas em casa, trezenas, e meu nome está sempre ali. E a minha família aqui: Guadalupe, Liv… Agora eu tenho um netinho. Tenho mais seis netos lá no Rio. Tenho uma da idade de Liv. O Mauro casou cedo também. Tem (um neto de) 30 anos, o outro tem 22, um outro tem já está fazendo a maioridade agora… E assim vai! O pessoal todo está sempre (rezando). E alguns irmãos ainda. Eu tenho cinco irmãos além de mim, lá em Nilópolis, Nova Iguaçu…
Tacioli — Você tem quantos irmãos originalmente?
Dominguinhos — Rapaz, chegou a 16!
Tacioli — Dezesseis!?
Dominguinhos — Foi… Meu pai e minha mãe são alagoanos, ali de Palmeira dos Índios. O meu avó era uma pessoa muito astuta. Ele tinha muitos filhos. Teve 30 (no total) com várias mulheres. Ele dava um pedaço de terra a cada um. Aí meu pai plantava, botava mandioca, melancia… Mas quando era na hora de colher, (meu avô) tomava… [risos]
Tacioli — Astuto, hein?
Dominguinhos — Isso era com todos os filhos, não somente com o meu pai, não. Minha mãe era muito novinha e trabalhava junto com ele. Tinha 11 anos e já estava prometida a um agricultor dali… Mas pai gostava dela. E o que ele fez? Aproveitando que meu avô roubava tudo o que ele produzia, ele roubou a minha mãe e botou em Arapiraca, na casa de um amigo dele… Era pra esperar ele fazer 18 anos; ela tinha 13, 14 quando ele casou com ela. Aí foi pra Garanhuns e todos os filhos nasceram ali. Alagoano não nasceu nenhum, mas eu sou quase alagoano. Só nasci em Garanhuns. E também tem mais um detalhe: a minha mãe teve muito filho e ela se esqueceu que já tinha o José Domingos de Moraes, que é o meu irmão mais velho, aí ela colocou…
Manu Maltez — O mesmo nome?
Dominguinhos — Botou o mesmo nome! [risos]
Tacioli — Então você é o José Domingos de Moraes II?
Dominguinhos — Segundo!
Tacioli — Um nobre, né? [risos]
Dominguinhos — Mas não é? E meu irmão tocava pra caramba. Depois passou para o piano na época da bossa nova. Ele se deu bem com piano, teclado. Era um bom acordeonista também. Ele é falecido. Morreu com 57 anos lá em Salvador. Arranjou uma tuberculose, não cuidava. Ele era boêmio, tocava só na noite… Aí chutava e a bicha foi sucumbindo, tomando conta…
Tacioli — Você falou da boemia. A boemia também já te fisgou?
Dominguinhos — Não.
Tacioli — Nunca, nunca?
Dominguinhos — Não, eu era um profissional da música. Tocava das dez (da noite) às quatro da manhã e ia embora para casa.
Manu Maltez — Ia dormir, não ficava.
Dominguinhos — Humn?!
Manu Maltez — Acabava o show, você embora.
Dominguinhos — Só ia para as boates dar canja, para amanhecer o dia dando canja, para aparecer o primeiro trem, o primeiro ônibus para Nilópolis… [risos] Era só isso mesmo!
Manu Maltez — Dominguinhos, quando a gente conversou como Heraldo do Monte, perguntei como você estava e ele falou que às vezes podia não estar se sentindo muito bem, mas quando subia no palco, era como se estivesse bem. O fato de continuar se apresentando, tocando, te ajuda muito nessa (luta)?
Dominguinhos — Ajuda. Eu toco com ele de vez em quando. Isso tem muito valor, né? A gente toca há muitos anos juntos. Então, esse lado é muito importante.
Manu Maltez — Você gosta mais de gravar ou de se apresentar?
Dominguinhos — De gravar eu não gosto, não! Eu gosto mais de fazer apresentação.
Manu Maltez — Pra você é “tem que gravar, então vou gravar”?
Dominguinhos — É.
Manu Maltez — Se não precisasse gravar…?
Dominguinhos — Não, não. Eu não queria, não.
Manu Maltez — É?
Dominguinhos — Estúdio é uma coisa muito…
Manu Maltez — Muito fria…?
Dominguinhos — Muito fria, mas se precisar, eu vou lá.
Manu Maltez — Se você pudesse gravar tudo ao vivo, você gravaria ao vivo? É melhor que (somente no estúdio)?
Dominguinhos — Não, não presta, não, gravar ao vivo. Eu fiz somente dois discos ao vivo. Um foi por causa de direito autoral. Ninguém pode pagar! Eu fiz lá na FATEC. Está mixado, tudo direitinho, mas a gente não consegue liberar as músicas. As editoras criam muita dificuldade, cobram muito caro. Então esse disco pra eu lançar, tenho que pagar uns 40 mil somente de direitos, entendeu? Aí tá lá. Aí fiz outro ao vivo, um disco mesmo, CD, com a produção do Newton d’Ávila, que era da Velas. Veja bem: acabou a gravação e pensei que ia ficar tudo do mesmo jeito que estava, porque se você faz uma gravação ao vivo tem que ter um apitozinho, microfonia… Mas fui para o estúdio fazer de novo, ôxe! Eu não quero mais saber disso, não!
Manu Maltez — Então teve que voltar para o estúdio para refazê-lo?
Dominguinhos — É, alguma coisa não estava bom. Os músicos, o Heraldo (do Monte) e outros mais foram lá botar tudo direitinho…
Manu Maltez — Ficou muito maquiado?
Dominguinhos — Foi… Eu digo: “Quero mais, não!”
Pavan — Você falou dos direitos autorais dessas músicas, Dominguinhos. A sua obra é sua? Como é hoje em dia?
Dominguinhos — Não. São músicas feitas e entregues a várias editoras e elas criam dificuldade. Eu mesmo libero a minha parte. Minha parceira ou parceiro libera também, mas a editora tem outras músicas que não são minhas. São (músicas) do Gonzaga, outra é de outra pessoa. Elas criam muita dificuldade.
Pavan — Então, essas músicas que você não está conseguindo a liberação não são suas, são de outros artistas?
Dominguinhos — De outros artistas. Porque eu mesmo libero a minha parte. Ligo pra eles e peço pra liberarem. Eles podem até cobrar uma taxinha da editora, mas não fica tão pesado, né?
Tacioli — Mas com relação às suas músicas, você pensa em mudar esse sistema?
Dominguinhos — Eu penso, porque agora muita coisa mudou, sabe? Você grava uma música hoje e um cara quer editar. Aí você edita por dois, três anos. Depois se você estiver esperto, antes de três meses de acabar o contrato, você tranca, e a editora não pode renovar mais. Mas eu nunca liguei pra isso, rapaz! Eu tenho um caminhão de música tudo editado. Agora estou vendo que tem um jeito de tirar das editoras, como o Chico conseguiu, o Gil conseguiu…
Tacioli — O Jobim também, não?
Dominguinhos — Conseguiu.
Pavan — E, Dominguinhos, você tem centenas de músicas gravadas e um monte de sucessos. Você conseguiria viver somente de seus direitos autorais?
Dominguinhos — Não, nem pensar! [risos]
Pavan — Nunca conseguiu ou agora é que está mais difícil?
Dominguinhos — Não, nunca.
Tacioli — Sempre teve que tocar?
Dominguinhos — É, para ajeitar o pirão! [risos] Sempre!
Tacioli — Mas teve algum momento em que você passou dificuldade depois de já estabelecido como músico profissional?
Dominguinhos — O autor aqui no Brasil pode ter muita música de sucesso, mas ele tem problemas de direito, problemas com o ECAD, com as editoras. E aí você ganha muito pouco, mesmo tendo muita música, sabe? E aí, não adianta, você tem que sempre fazer os seus showzinhos, as suas coisas. Eu acredito que se eu vivesse em outro país talvez isso acontecesse, porque o pessoal fala da organização de lá de fora, onde o autor tem os seus direitos preservados. Aqui é uma confusão muito grande.
Tacioli — Você já pensou em…?
Dominguinhos — Tenho pensado de retirar, sabe?
Tacioli — Sim, mas de viver fora do Brasil?
Dominguinhos — Não.
Tacioli — Nunca pensou?
Dominguinhos — Deus me defenda!
Tacioli — Mas por causa do avião?
Dominguinhos — Não por causa do avião, porque eu iria de navio, né? [risos] Já até acertei com uns camaradas aí para arranjar uns 30 shows para eu ir de navio, né? Aí já vou tocando no navio, ganho uns dolarzinhos…
Tacioli — Igual ao Roberto Carlos. [risos]
Dominguinhos — Isso!
Tacioli — Cruzeiro com Dominguinhos.
Dominguinhos — A ideia é sair daqui de cruzeiro, passar um tempo lá e depois voltar. Aí é legal! Mas ficar lá, não, acho que não, a gente está acostumado aqui, rapaz! Tem muito país bonito aí, país bom de se viver, mas a gente é estrangeiro em qualquer lugar que chegar… A qualquer momento pode se dar mal.
Tacioli — Você teve algum lugar onde sua música transitou melhor?
Dominguinhos — Não. Eu recebo direitos do mundo todo. Mas se o caixa quiser, me paga do bolso, sabe? Que é pouco demais, rapaz! É show que o pessoal faz lá, é disco que eles tocam na rádio na Holanda, nesses países todinhos, da Itália, do Canadá, o diabo a quatro onde vou. Ih, deixa assim mesmo…
Pavan — Nunca uma música sua, uma melodia sua, ganhou uma letra lá fora?
Dominguinhos — Não, somente o “Xodó” [n.e. “Eu só quero um xodó”, sua parceria com Anastácia, 1973] que alguém na Itália fez uma versão.
Tacioli — Você gostou, Dominguinhos?
Dominguinhos — Gostei. Foi até uma cantora bem antiga, Ornella… Ela tinha muito cartaz na Itália. Eu nunca mais ouvi falar nessa mulher. Ela fez lá uma letra em cima de “Xodó”… [n.e. “Lui qui, lui lá”, versão assinada por Sergio Bardotti e gravada pela cantora milanesa Ornella Vanoni em 1974, mesma época em que registrou músicas de Vinicius de Moraes e Toquinho] E muita (versão) instrumental: o Henry Mancini chegou a gravar essa música com a orquestra dele. “Xodó” tem mais de 200 regravações, sabe? Mas isso não bota ninguém pra frente, não, não bota mesmo. É só pra você dizer que tem.
Tacioli — Quando nasceu esse medo de avião?
Dominguinhos — Eu andei por mais de 30 anos dentro de avião, do ruim ao melhor. E aí, o medo foi se acumulando.
Manu Maltez — Você gravou uma música que fala de avião, em que você está lá em cima pensando…?
Dominguinhos — Foi o Belchior.
Manu Maltez — Não, não, não é “Medo de avião”! É uma música, um xote, alguma coisa assim…
Dominguinhos — Sim, é do Germano Junior. [risos] Ele inventou uma música e eu fui gravá-la com ele. [n.e. “Eterno rei do baião”, do cantor, ritmista e radialista Germano Junior]
Manu Maltez — Mas a música não fala mal de avião.
Dominguinhos — Não, não! Ele é um bom compositor e eu fui lá gravar com ele, mas aquilo não tem futuro, não! [risos]
Pavan — Você falou da viagem de Kombi…
Dominguinhos — Sim, de rural.
Pavan — Em que você foi dirigindo a rural, né?
Dominguinhos — Foi!
Pavan — E hoje, você também vai dirigindo para os shows que faz no Nordeste?
Dominguinhos — Vou! Vou eu e outra pessoa.
Pavan — Eu queria saber qual é a logística disso, Dominguinhos [risos], porque você vai e demora pra chegar, não?
Dominguinhos — É, são três dias daqui a Recife (viajando) somente de dia, né? E à noite você se aquieta.
Pavan — Mas como é que você aproveita? Faz shows pelo caminho?
Dominguinhos — Não, não… Primeiro porque não dá tempo. Segunda viajando o dia todo, terça o dia todo, quarta um bom pedaço do dia, e aí você chega no Recife. Mas se você for para Fortaleza, você só chega no quarto dia, é mais longe. Belém também…
Pavan — Então, mas você aproveita para fazer vários shows?
Dominguinhos — Aí é que está o negócio: você ajeitar uma temporadazinha no Recife, em Fortaleza, ali no interior. Aí dá certo!
Manu Maltez — Mas você gosta de guiar, de viajar, pegar a estrada?
Dominguinhos — Gosto, eu sempre gostei.
Pavan — E você pilota, né?
Dominguinhos — Eu e mais uma pessoa.
Pavan — A revista Quatro Rodas devia contratar você, Dominguinhos! [risos]
Dominguinhos — É!
Pavan — (Para fazer) os guias, avaliar as estradas…
Dominguinhos — Falei até com a Toyota pra eles me arranjarem um legal pra eu fazer as viagens.
Manu Maltez — E você tem já um itinerário, você já sabe os lugares que são bons, em que você gosta de parar, né?
Dominguinhos — É. Então, vou num lugar certinho para parar, um lugar legal para dormir… Se a noite chega sete horas, oito horas, eu consigo enxergar e a gente adianta um pouquinho mais para poder dormir num lugar mais legal. Pelo menos para que você fique seguro um pouquinho, porque a estrada está muito perigosa.
Pavan — Dominguinhos, você participou de vários festivais.
Dominguinhos — Participei.
Pavan — Mas quando é véspera de São João, que tem um pessoal mais novo, você se sente reconhecido por eles? Você se acha valorizado? Como é?
Dominguinhos — É uma coisa linda! Eles têm muito respeito e todos querem tirar foto e conversar. Geralmente tem um sanfoneirinho que se chega mais e tal e é fã mesmo. Eles todos são jovenzinhos, mas tem ideia do que vem acontecendo na música… Então, eu estou muito feliz com essa parte aí. Eu toco com qualquer um. Outro dia fiz duas apresentações com os Aviões do Forró lá na Bahia. [ri] E teve um show na Fazenda de Manuel Itargolo em que eles estavam tocando eaí não dava tempo porque eu ia tocar em um lugar bem longe ainda naquela noite. Aí o Avião começou a tocar e parece que não queriam parar mais. Aí falamos com o diretor do grupo e ele mandou o pessoal parar e abrir uma janela. A gente montou o nosso negocinho e toquei uma meia hora ainda.
Tacioli — Mas não com eles?
Dominguinhos — Não! Eles ficaram de…
Tacioli — Ah, eles ficaram (esperando)… Pensei que vocês tivessem dividido o palco.
Dominguinhos — Depois eles voltaram e continuaram o show deles.
Pavan — E a plateia, como recebeu?
Dominguinhos — Muito bem, muito bem.
Tacioli — Porque são propostas artísticas distintas.
Dominguinhos — Totalmente diferentes. Mas eles mesmos são fãs, entendeu? Então ajuda muito…

Pavan — E o que eles fazem é forró, Dominguinhos? Como você classifica?
Dominguinhos — Não, é uma coisa que não acharam nome ainda, né? [risos] Eu acho que… [risos] [silêncio] [risos] (…) mas forró é que não é mesmo! Forró precisa de zabumba, de triângulo, e eles não usam isso. No máximo uma sanfona.
Tacioli — O grupo Aviões do Forró também tem as mocinhas que dançam?
Dominguinhos — As bailarinas? Tem, tem, tem! Eles não podem fugir disso, todos eles.
Tacioli — Você já recebeu algum tipo de sugestão de produtor, de empresário ou de gravadora nesse sentido?
Dominguinhos — De empresário, não. Mas é assim, às vezes, o cara não tem muita noção do seu trabalho e pergunta: “Tem bailarina?” [risos]
Tacioli — Ainda hoje, Dominguinhos?
Dominguinhos — Ainda hoje perguntam ao empresário. Já dei até entrevista sobre isso. Digo: “Rapaz, você é doido? Nessa altura do campeonato botar três, quatro mulheres bonitas, com as coxas tudo de fora, e aí, quem vai olhar pra mim?! Para com isso!! Tá louco?! Um abraço!”. [risos]
Tacioli — Os Demônios da Garoa tiveram que mudar um pouco o percurso para ficar de acordo com o mercado.
Dominguinhos — É, atuando…
Tacioli — O Tonico e Tinoco também sofreu uma tentativa semelhante. E você, fora esse evento da sugestão das garotas, você já teve outra experiência?
Dominguinhos — Não que eu me lembre, não. Mas, se bobear, eles entram mesmo tinindo pra mudar seu trabalho, sabe? Só que hoje em dia tem uma consciência maior: o pessoal me contrata e sabe que o meu trabalho é um, o do Aviões do Forró e do Calcinha Preta é outro. E isso ajuda muito. Eu não tenho que estar dando satisfação.
Tacioli — Mas esse reconhecimento demorou?
Dominguinhos — Não, não demorou, não! Aliás, o pessoal me respeita como se eu fosse um músico diferente daquilo que está acontecendo ali, com aquelas bandas e tudo mais. Porque é diferente mesmo, né? Não adianta você querer achar que a gente vai. Uma produção de uma banda dessas tem tudo. Eu entro com cinco, seis gatos pingados no palco. Não tem produção nenhuma! Eu tô usando o som até das outras bandas que já estão tocando, porque eles gostam dessas coisas, iluminação… Eu uso tudinho deles e eles gostam. Não tem nem perigo de falhar porque é deles mesmo.
Tacioli — E se falhar a culpa é deles…
Dominguinhos — Se falhar a culpa é deles… [risos]
Tacioli — Dominguinhos, Sivuca teve um namoro com a música clássica…
Dominguinhos — Tocou muito.
Tacioli — Você já se aproximou dela, já teve interesse em ter esse flerte com a música clássica?
Dominguinhos — Não, não tive, não! Cada macaco no seu galho. [risos]
Pavan — Mas você ouve?
Dominguinhos — Ouço… Tenho vários colegas que tocam peças e adoro ouvi-los tocando.
Manu Maltez — E o que você ouve em casa?
Dominguinhos — Eu só escuto esses cantores daqui, esses manjados, Djavan, Chico [risos] e alguma coisa do Emílio Santiago, que é cheio de bossa, canta muito! E a música nordestina…Tem um compositor complicado lá da Paraíba, de Taperoá. Ele é muito bom. O nome dele é Galeguinho, mora em João Pessoa. Mas é muito complicado! Ele, Elomar, Vital Farias… Outro dia ele (Vital) mandou todos os seus discos. Estou escutando as coisas dele. Ele tem coisa bonita demais. Vital Farias, extraordinário. Geraldo de Azevedo: gravei outro dia no disco dele, que fez todo de São Francisco, né? E eu cantei uma música com ele falando do (rio) São Francisco, em que toquei minha sanfoninha…
Tacioli — Que é mais recente, né?
Dominguinhos — Que é mais recente. Tem umas coisas que eu escuto, de uns colegas que realmente valem a pena: quando Alceu e Zé Ramalho dão uma enveredada para o lado nordestino… [risos]
Manu Maltez — Ele acabou de gravar um disco só com Beatles.
Dominguinhos — É, eu sei… [risos]
Tacioli — E você gosta dessas experiências do Zé Ramalho?
Dominguinhos — Eu gosto. Ele é um intérprete, além de compositor, que pode tentar tudo.
Manu Maltez — E ele fez: gravou tudo com zabumba, com sanfona, viola…
Dominguinhos — Pois é, vai tentando fazer uma coisa diferente para ver se o pessoal presta atenção. [risos]
Tacioli — Mas isso é uma coisa importante para o artista?
Dominguinhos — A inovação?
Tacioli — Pensar sempre a renovação?
Dominguinhos — É. E é muito! É bom que as pessoas possam sempre fazer essas coisas. Eu dou o maior valor. Eu não tenho coragem, sabe, mas o cara que tem coragem de sair medindo essas coisas e entrar no mercado, tem condição… Ah, tomara que faça sempre!
Tacioli — Pensando nessa questão que a gente colocou agora, Dominguinhos, do artista se renovar, onde você se renova?
Dominguinhos — Rapaz, eu não sei dizer isso, não! Eu não sei responder isso, porque é uma coisa que fica mais na ótica de vocês mesmos, se tem alguma coisa que estou fazendo que não está no beabá. Eu mesmo falar fica estranho… [risos] Ai, meu Deus do céu!
Tacioli — Dominguinhos, parece que você gosta muito da voz, né? Você falou de vários cantores, Djavan, Emílio Santiago… Uma turma que tem uma voz bem…
Dominguinhos — Marcante.
Tacioli — (…) marcante. Qual foi a sua reação quando você ouviu João Gilberto? Quando ele lançou o “Chega de saudade”, você havia chegado no Rio havia pouco tempo.
Dominguinhos — Pois é, na minha época de Rádio Nacional ele estava lá. E o interessante é que o João Gilberto cantava pra fora. Ele não tinha aquela [imita] “ei, ei, ei”. Não, o violãozinho dele cantava pra fora. Depois ele começou a sussurrar… [risos] Esquisito! [risos] Ele e o Roberto Carlos… Roberto Carlos cantava bossa nova também, gostava de samba… Mas o João… Um dia, rapaz, ele estava tocando na Rádio Nacional com violãozinho dele. Aquele “papapa”… Aí um navio apitou — porque ali é o cais do porto, onde ficava a Rádio Nacional, na Praça Mauá. Ali tem navio de todo porte. E um navio deu um estrondo daquele, uma buzinada possante. Ele parou e disse: “Se apitar de novo, eu não toco mais!”. [risos] O navio vai saber que ele estava cantando? [risos] Ele gosta do meu trabalho, fala sempre com um rapaz, o Raul Henrique, deputado federal lá em Pernambuco. Ele liga pra ele e fala duas, três horas na madrugada. Mas não encontra com ele! É assim…
Tacioli — E o João nunca ligou pra você, Dominguinhos, para conversar de madrugada?
Dominguinhos — Não, não… Ele ligava para Toquinho para encher o saco dele. O Toquinho que contou. Ele ligava todo dia e dizia: “Você não tem ideia do trecho daquele samba?”. Aí cantava no telefone pra ele… “Você não tem ideia do que você fez aqui!” E cantava o trecho… Aí Toquinho disse que teve um dia que não estava muito bom da cabeça e mandou o João Gilberto para aquele lugar. “O senhor me respeite! Está pensando que eu só tenho essa música, rapaz, que só fiz um trechinho?! Tá maluco?!” [risos] Tem muita história interessante de João Gilberto. Tem uma que ele vai pra Juazeiro, em um teatro de lá. Ele só aparece no teatro de madrugada, quando não tem ninguém. Não quer ninguém veja…
Tacioli — Tem algum outro artista que era bem esquisitão?
Dominguinhos — Não, não teve. Todo artista é meio… Tem horas que eu mesmo me estranho… O Zé Ramalho: a gente todo ano faz um show em Aracajú, no São João de lá, o Forró Caju. Vou eu, Geraldinho (Azevedo), Zé Ramalho, Alceu… Aí eu faço a abertura e depois ele chega pra cantar. São dois palcos. Aí, salta do carro, entra no palco, pega a guitarra e toca; depois o carro já está com a porta aberta, ele não fala com ninguém… [ri] É esquisito, não é, não?
Tacioli — É esquisito… E a sua esquisitice, Dominguinhos?
Dominguinhos — Eu acho que eu não tenho coisas muito relativas, só se alguém contar… [risos] Eu não tenho muita coisa… Sou muito simples, não tenho medo do povo. Onde tiver gente e quiser tocar comigo, pode falar, pode pedir autógrafo, pode fazer o que quiser. É apenas um minutinho que você perde com um fã. E você está ganhando muita coisa! Eu não tenho essas besteiras comigo, não! Mas tem umas pessoas que você tem que respeitar esse lado deles, que são assustadas com multidão, né?
Pavan — Conta um sonho que você tem ainda, Dominguinhos…
Dominguinhos — Continuar tocando, fazendo um pouco de música e ir mais a frente um pouquinho. Enquanto puder ir tocando, eu acho que está de bom tamanho pra mim.
Tacioli — Dominguinhos, gostaria de agradecer em nome do Gafieiras por você ter dado duas, três horas de seu tempo pra gente…
Dominguinhos — Ah, mas tem que ser! Eu que agradeço a vocês! Se um dia quiserem fazer alguma coisa assim com minha filha Liv é só falar que eu falo com ela…
Tacioli — Claro.
Dominguinhos — Uma coisa que a gente possa participar junto também…
Tacioli — Ela é a única filha que caminhou para a música?
Dominguinhos — Foi. A outra faleceu. Era bancária, foi professora…
Pavan — São quantos filhos, Dominguinhos?
Dominguinhos — Foram três. Tem dois agora: a Liv e o Mauro.
Pavan — E seis netos, é isso?
Dominguinhos — Sete netos!
Pavan — O Mauro mora no Rio, é isso?
Dominguinhos — Mora. Nasceu em Nilópolis e casou lá também, tem família, quatro filhos. E o Luquinha, que aniversaria sábado agora, dia 29, ele faz três anos. Os outros já perderam a graça, né, tudo grande.
Tacioli — Dominguinhos, obrigado mais uma vez. Só uma coisa: o Jeff, nosso fotógrafo, vai tirar umas chapas contigo… E aqui tem uma autorização (da entrevista)… Se você puder assinar, depois eu pego os dados…
Dominguinhos — Pronto. Se quiser escrever, pode escrever: José Domingos de Moraes…
Tacioli — Com I ou com É o Moraes?
Dominguinhos — É com “E”…
Tacioli — “É”?
Dominguinhos — Vocês falam “Ê”, né? [risos]
Manu Maltez — E o próximo show, quando é?
Dominguinhos — Fiz um sábado agora lá em Leme. Um show de um grande músico, o Proveta. Ele está fazendo uma semana de música para o pai dele lá em Leme. Banda Mantiqueira, todo mundo tocando… uma coisa linda!

O músico Arrigo Barnabé na época de seu disco Clara Crocodilo, lançado em 1980. Foto: reprodução

Tacioli — Ontem entrevistamos o Arrigo Barnabé.
Dominguinhos — Eita.
Tacioli — Ele mandou um abraço pra você.
Dominguinhos — Obrigado! Mudou tanto, ele tá forte, né? Quase que eu o não reconheci no Rolando Boldrin. [n.e. Programa Senhor Brasil, da TV Cultura] Ele estava cantando…
Tacioli — Cantando Lupicínio?
Dominguinhos — Cantando umas coisas, não sei de quem era, não. [risos] O bicho era arretado, né, depois deu uma sumida. Grande músico aquele rapaz!
Tacioli — Você chegou a fazer alguma coisa com ele?
Dominguinhos — Não, não cheguei, não, mas eu acompanhava de perto as coisas dele. Um músico extraordinário!
Tacioli — O que a música dele tem?
Dominguinhos — É uma música meio de pesquisa… Tem um outro grande músico, além do Hermeto, que é o Egberto Gismonti, que também faz um bocado de coisas nesse sentido… E o Arrigo ficava ali no meio deles, ali, inventando umas coisas, difíceis, bonitas. Eu sempre gostei do trabalho dele. E depois a pessoa parece que dá uma sumida, um tempo… Quando volta, volta gorda. [risos]
Tacioli — O Arrigo é santista.
Dominguinhos — É, né?! Gente fina!
Tacioli — Dominguinhos, posso tirar o microfone?
Dominguinhos — Pois não, meu irmão.

[Já sem o microfone de lapela, que fica sobre a mesa, Dominguinhos posa para o fotógrafo Jefferson Dias]

Tacioli — Dominguinhos, com quem você divide a sua casa?
Dominguinhos — Rapaz, eu moro sozinho.
Tacioli — Sozinho?
Dominguinhos — É, fui casado com Guadalupe um bocado de tempo, a mãe da minha filha Liv. A gente continua amigo do mesmo jeito, vive junto, cada um no seu canto, mas está sempre presente.
Manu Maltez — Ela mora aqui em São Paulo também?
Dominguinhos — Mora ali no Planalto Paulista. Minha filha mora pertinho de mim, na Vila Andrade. Vai a pé para a casa dela.
Tacioli — Vamos lá, então!

[Segue a sessão fotográfica enquanto parte da equipe recolhe os equipamentos]

Dominguinhos — Será que vou ver as fotos?
Tacioli — Vai ver todas, Dominguinhos!