FRANK AGUIAR [2006]

Um dos principais nomes do forró moderno, o cantor e compositor piauiense era eleito deputado federal por SP.

editor do gafieiras
Apr 22 · 50 min read
Frank Aguiar, o “Cãozinho dos Teclados”. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

“O que vocês vieram fazer aqui?!”, perguntou um segurança, mais cansado que autoritário, na entrada do condomínio residencial de alto padrão em São Bernardo do Campo, o B do ABC paulista, onde mora o compositor, cantor e instrumentista Francineto Luz de Aguiar, o Frank Aguiar, um dos pioneiros do chamado forró moderno.

Estávamos pouco mais de uma hora atrasados e a entrevista parecia ter ido para o brejo antes mesmo de ter começado. Alarme falso. Pouco depois, o próprio Frank — na época recém-eleito por 144.797 votos deputado federal (PTB) pelo Estado de São Paulo — nos abriu a porta de sua casa. Foi logo explicando que, por causa do atraso, só poderíamos conversar uma hora. Partiria, em seguida, para um casamento.

A vista da sala principal dá para um lago dos mais razoáveis e outras casas grandes, tudo arrumadinho. Diferenças aos montes do interiorzão do Piauí. De resto, muita coisa igual: os ídolos Luiz Gonzaga e Fagner, um certo misticismo pessoal, a conversa franca, emoções à flor da pele e o forró acima de tudo (bem como canções românticas). O intérprete de sucessos como “Morango do Nordeste” e “Vou te excluir do meu orkut” sabe que é um em um milhão e nunca esquece de agradecer a música que o fez ser quem é. Nenhum dia. E sua casa o ajuda: notas musicais atravessam paredes e percorrem as escadas; teclas de um piano fazem as vezes de portas; um piano feito de azulejos brancos e pretos repousa no fundo da piscina azul; do lado de uma sala de ginástica um pequeno estúdio; um piano de cauda preto desponta soberano no canto da sala; enfim, sons por todos os lados.

Mas a música é apenas parte e, ao mesmo tempo, alavanca do sonho de Francineto, que ainda contempla o empresário, o advogado e o político. Na entrevista, que terminou após decidir que iria somente para a festa do tal casamento, respostas genéricas, com gran finales que não comprometem o artista e o político, deram brechas para que as histórias que não povoam revistas de mexericos e a grande mídia saltassem.


{…} expediente

produção Ricardo Tacioli entrevistadores Dafne Sampaio, Daniel Almeida e Ricardo Tacioli transcrição Marllon Chaves edição de texto Ricardo Tacioli fotos Jefferson Dias registro audiovisual Rodolfo Figueiredo texto de apresentação Dafne Sampaio e Ricardo Tacioli

Entrevista realizada em São Bernardo do Campo (SP), residência de Frank Aguiar, em 11 de novembro de 2006.



[A equipe do Gafieiras ajeita seus equipamentos, mas já com o gravador ligado]

Daniel Almeida — Você é supersticioso, Frank? Frank Aguiar — Muito. Sou sofredor. Muitas vezes fica aquela coisa na cabeça… Hoje eu saí, estava com o pequenininho [n.e. Breno, seu filho mais novo] e esqueci da sacola de fraldinha. “Não, não vamos voltar. Se voltar dá merda!” Isso tudo na minha cabeça, sabe?! Vivo sofrendo com essas coisas. E aí caímos na besteira de voltar. Eu, puto, já que não gosto de voltar quando saio de casa. Pra mim alguma coisa vai dar errado. Almeida — Mas isso é uma coisa de toda sua vida? Frank — Desde a minha infância. Ricardo Tacioli — Você lembra da primeira vez que sentiu isso? Frank — Eu me lembro. O meu pai é muito intuitivo. Ele é espírita. É uma cara que quando fala uma coisa pra gente, todo mundo morre de medo, tem que obedecê-lo, porque prevê as coisas. Uma ocasião, eu ainda era criança, ele chegou e disse: “Hoje ninguém sai de casa porque estou com um pressentimento fortíssimo que alguém da nossa família vai partir dessa pra outra”. Era uma segunda-feira. Foi um pânico! Todo mundo quis ficar dentro de casa. Ele estava prevendo, mas não sabia quem era. Depois, às seis horas da tarde do mesmo dia, a minha madrinha de batismo, que é casada com o irmão dele, passou o dia com a gente. E pra voltar para o sítio, que ficava a uns seis quilômetros da cidade, ela pegou um jumento. Lá no interior a gente usa muito esses animais. No meio do caminho apareceu um caminhão. O jumento tomou um susto e correu pra frente dele, que a esmagou, que acabou com a vida da minha madrinha de batismo. E assim tantas coisas aconteceram. Outro dia, meu irmão ouviu meu pai falando “Hoje não é para vocês saírem de casa!”, mas mesmo assim resolveu ir pra uma festa. Mas nem chegou… A caminhonete tombou e quebrou ele todo. Outro dia ainda eu estava tocando e ele, meu pai, à uma hora da manhã, endoidou lá no Piauí, sentindo que alguma coisa estava errada comigo aqui. Eu estava fazendo dois shows. Um à uma hora e outro às três da manhã, em outra cidade, Itaquaquecetuba. À uma da manhã, meu pai acordou desesperado: “Meu filho está em apuro!”. Acendeu a vela dele, fez as orações e ficou esperando eu ligar. Quando foi umas cinco e pouco, eu liguei pra dizer que havia acontecido um desastre comigo. “Pai!” “Meu filho, você está vivo?!” E eu me assombrei, porque ele não sabia de nada. Eu levei uns vinte tiros! O carro deu perda total de tanto tiro que levou. O cara roubou o dinheiro do show e arrombou o carro à tiro. Almeida — É mesmo, baleado? Frank — Foi bandido mesmo! “Pai, estou vivo! Por que o senhor quer saber?!” “Eu quero saber se você está vivo!” “Eu estou vivo, pai, mas não estou bem, não. Me assaltaram agora. Deram um monte de tiro no carro.” “Pois, meu filho, é a maior alegria que você pôde ter me dado. Reze, agradeça a Deus, a vida não tem preço. Amanhã você ganha outro dinheiro.” Aí fiquei confortado.

Almeida — Ô, Frank, e não há pressentimento de coisas boas? Frank — Tem, e de muitas coisas boas. Eu sinto todos os dias, todos os assessores já sabem. Quando eu falo, eles ficam com medo… Anteontem eu ia fazer uma viagem para o Xingu com o comandante da Aeronáutica, onde caiu o avião da Gol. Fui pra Brasília na quarta, para viajar na quinta pra Manaus, quando faria um sobrevôo com o comandante, conheceria o sistema da Aeronáutica e essa polêmica toda que está rolando. Ele me convidou, como parlamentar, pra passar dois dias com ele. E eu fui. Quando estava para dormir chamei os assessores que vão trabalhar comigo. “Não estou com vontade de fazer essa viagem amanhã.” “Mas por que, Frank?!” “Um dia vocês vão entender minhas intuições. Vocês estão começando agora a trabalhar comigo. Às seis horas ligo pra falar se eu vou ou não.” Sairíamos às sete horas. Dormi, tentei receber a mensagem… Não estava prevendo nada negativo, nada errado, somente achava que não ia valer a pena. Às seis horas, liguei. “Viviane, ligue para o Coronel e diga que não vou nessa viagem. Desculpe-se, fale que vou fazer um show à noite, que estou com medo dos aeroportos estarem tumultuados, de não conseguir chegar à cidade.” E ela tentou ligar, mas o celular do comandante estava dando caixa. Lá pelas onze horas, o comandante ligou. “Frank, a viagem está dando errada. Houve não-sei-o-quê, não vai dar certo!” Ou seja, eu já estava prevendo que não ia ter essa viagem. Não estava prevendo negatividade, entendeu? Tacioli — E há esse sentimento com show? Frank — Eu não deixo de fazer o show, mas aí vou ao quarto, oro e tento descobrir o que está acontecendo. O branco está sempre presente. Se eu não estiver com uma blusa ou uma camisa branca no show, acho que o negócio está errado. Tacioli — As capas de seus discos são todas branco e azul. Frank — A maioria branco e azul, que são as minhas cores. Já insistiram demais para eu mudar… O presidente da gravadora: “Porra, vamos mudar”. Mas o cara não consegue. [risos] Por isso falo que sou sofredor, porque acho que se eu mudar, se botar um vermelho, um preto, não-sei-o-quê, acho que não vai vender a mesma coisa. Então, sou um sofredor. Já está rolando o papo? Dafne Sampaio — Já. Frank — Legal! Mas são muitas coisas que acontecem. Quando meu olho direito treme é fatal, é coisa boa. Vou dar uma notícia de primeira mão. Ontem marquei um café da manhã pra fazer um negócio. Estava no flat. Tomei um banho e coloquei uma roupa. Depois lembrei que eu ia fazer um negócio e a cor daquela roupa não era propícia. Aí coloquei o preto com azul. Até cueca preta eu coloquei pra não mudar as cores. Duas horas depois, o negócio estava fechado. Foi perfeito, da forma como as partes queriam, sem nenhum constrangimento. Foi um contrato com a Sunshine. Primeira mão! E na segunda-feira a gente oficializará esse contrato. Eles vão me gerenciar a partir do ano que vem. [n.e. 2007] Fiquei preocupado, porque sou eu quem administro a minha carreira; sou o empresário, o editor, o produtor, tudo! E agora, indo pra Brasília, não quero entregar a carreira aos familiares que ficam no escritório… Tacioli — No escritório do cantor? Frank — Do cantor. Do político ninguém com o meu sobrenome, ninguém! Nada de nepotismo.

Tacioli — Como será seu cronograma, Frank? Frank — Final de semana, show; e durante a semana, Brasília. Tem que fazer show até porque salário de deputado não dá para pagar pensão, não. [risos] Tem uns três pensionistinhas aí… Tacioli — Mas aí durante a semana não tem show. Frank — Nós vamos respeitar, nada de brincar com uma coisa dessas. Eu vou honrar essa expectativa, essa confiabilidade que muitos, que milhares apostaram. Eles esperam de mim um trabalho diferenciado e eu quero corresponder. Eu já estou trabalhando. Estou montando equipe e conversando com os futuros colegas, pra não chegar lá à toa. Eu preparei esse momento: desde os 19 anos quando fundei o partido, venho me instruindo; sempre procurei conhecer o Brasil. Quando eu viajo pra fazer meus shows, eu não chego nos hotéis e me tranco dentro de uma suíte e saio na hora do show. Que história é essa! Chego descansado, vou de ônibus ou de avião. Quero sair, quero conhecer pessoalmente como é a vida daquele município, o que comem, como trabalham, qual a fonte de renda, o que falta, o que tem de bom e de ruim. E nessa brincadeira me despertou a vontade de ser um representante brasileiro, por conhecimento de causa. Então, eu me preparei, fiz um bom curso — sou bacharel em Direito –, que dá um a noção básica de leis, de cidadania. Tacioli — Essa formação, Frank… Frank — Foi propositada. Antes, se eu falasse, você iam me chamar de louco. Então tenho um projeto para o futuro. Não vou antecipar pra vocês, mas ninguém duvida que não vou realizar. Tacioli — Não é o governo? Frank — Não, eu não vou antecipar pra vocês. [risos] Eu só quero dizer que as pessoas têm de ser determinadas, elas têm de saber o que querem, buscar os seus objetivos e se realizarem, mas com trabalho. Nada que alguém tem de fazer por você. Eu costumo dizer que 90% de tudo que nós conseguimos realizar, nós somos responsáveis; você, do seu projeto, eu, do meu. E 10% é o que está em volta. Agora, se tiver 90% seu e não tiver aqueles 10% que falta, você não consegue. Se tiver os 10% e você não corresponder também, não adianta. Quando eu saí do Piauí, há 14 anos, três dias de viagem pra São Paulo, vocês imaginam o que passou na minha cabeça. Eu nunca tinha visto um prédio alto na minha vida. Do interior, filho de matuto, matuto no bom sentido. Então foi tudo muito novo, tudo um desafio, “meu Deus, que mundo é esse, onde vim parar?”.

Tacioli — Que imagem você tinha de São Paulo? Frank — A cidade dos sonhos, onde se ia pra realizá-los. As pessoas chegavam lá, todo mundo bem, diferente, pele limpa, o frio aqui ajuda, o clima. E lá é o calor que maltrata, é a terra seca, é a fome, é tudo. E as pessoas que vinham pra cá e chegavam lá com uma condiçãozinha melhor. E eu achava que todo mundo vinha e realizava. Eu vim também cheio de sonhos. Todos os desejos e sonhos daquela viagem, que eu disse pra vocês, viagem de três dias, eu realizei. E foram difíceis esses sonhos, porque naquele dia deve ter vindo um milhão comigo com o mesmo objetivo, fazer sucesso. E de um milhão, um se salva. Na política é mais fácil, você concorre com menos. Então só pra justificar o que eu lhe disse, ninguém duvida do que está na minha cabeça, porque quero corresponder, quero trabalhar.

Tacioli — Pela repercussão na imprensa, sua vitória foi uma surpresa pra muita gente. Frank — É uma pena. Eu sei o que você quer perguntar… Tacioli — Pra você foi uma tristeza se ver retratado dessa forma? Frank — Eles nunca tiveram a oportunidade de conversar comigo, de me conhecer, e já vão taxando de exótico, disso e daquilo. Mas no fundo eu fico assistindo, olhando, “meu Deus, como eles…”. Essa semana eu estive em Brasília, e aí, de uma hora pra outra, a noticia se espalhou que eu estava lá. Foi há 15 dias. E havia uns 50 jornalistas e comunicadores, e eles achavam que eu era exatamente como alguns escreveram, um louco, um pára-quedista, alguma coisa assim. E já foram perguntando coisas tão banais, tão bobas: “Deputado, com que roupa o senhor virá? Qual é a marca do seu terno?”. “Mas vocês estudaram tanto pra estarem aqui como jornalistas, me perguntam uma coisa dessas. Vocês têm tempo pra me ouvir? Tenho tantas idéias pra falar, tanta coisa boa.” Aí, eles já viram que não era pra brincar. E aí, da segunda pergunta em diante, o papo rendeu, melhorou.

Tacioli — Não somente em relação à carreira política, mas à música, você sente falta de interesse dos jornalistas, pelo menos daqueles dos grandes veículos? Existe essa falta de reconhecimento? Frank — Eu sinto falta. Tenho feito muitas entrevistas, porém elas não repercutem muito. Parece que eles não querem escutar coisas boas, idéias corretas, sabe? Não quero generalizar, mas o que mais eles gostam são das gafes cometidas. Teve um que insistiu para que eu cometesse uma gafe. Depois de uma coletiva com 50 jornalistas, “Deputado, me dê uma exclusiva, por favor”. E ele queria porque queria. “Vamos falar de outra coisa. Como você vê o perfil do deputado? Tem que ser músico, tem que ser empresário, tem que ser advogado? Mulher, deputado, vamos falar de mulher.” “Como assim?” “Sim, como você vê a mulher na política?” “Olha, é muito bem-vinda, as mulheres têm de participarem mais. A mulher tem tanto poder de gestão, a capacidade de administrar, quanto o homem. A mulher tem mais sensibilidade, isso e aquilo.” Mas eu elogiei tanto. E aí ele disse: “E também pela beleza, a paisagem da mulher, não é, deputado?” Eu disse: “Não, isso é por sua conta, você é quem está falando isso. Estou falando da capacidade da mulher em trabalhar, não estou falando de paisagem de mulher.” Ou seja, se eu tivesse concordado com ele… Almeida — Ia virar manchete. Frank — Aí eu estava nas primeiras páginas. Mas ninguém comentou a minha tarde com 50 jornalistas lá. E eu fiquei frustrado. Dafne — Como você está se preparando para enfrentar a cobrança da grande imprensa? Frank — Eles não falam somente de mim, mas infelizmente taxam os novatos e as celebridades como exóticos, como vi apresentadores me taxando. “Meu Deus, ele nunca teve a oportunidade de conversar comigo, não sabe da minha capacidade…” Dafne — Mas você sabe que já tem uma cobrança e que terá uma cobrança durante o mandato. Frank — Eu estou preparado pra isso. Eu já estou sendo cobrado, eles já querem que eu esteja trabalhando mesmo sem tomar posse. E eu tenho de ser bem sensato, flexível e saber como responder e lidar com essa cobrança. O que eles esperam, o que eu mais eu escuto, o que mais me cobram: “Não se corrompa, não vá roubar!” O que escutei nessa campanha não desejo pra ninguém. Nunca fui político e escutar tudo isso sem merecer, porque generalizou muito a história da corrupção e qualquer candidato na cabeça do eleitor é corrupto, mesmo sem nunca ter tido um cargo. Mas procurei entender. Eu não respondia, respeitava aquele sentimento, porque é de indignação, assim como o meu também, e por isso fui um candidato e estou aqui pra trabalhar. Assim como eles, eu também estava indignado com aquela cena toda. E o que eu tenho de fazer agora? Ser ético, corresponder com a expectativa deles. Sei que vou me frustrar pra caramba, porque no Legislativo não é como no Executivo, você não tem o poder das MPs (Medidas Provisórias) da vida. Dependo de muitos. Mas acredito que vou também ser recompensado, não pelos salários, que nem sei o quanto é, mas pelas coisas. Quero ser político pra servir. Eu já tenho uma vida estabilizada e tranqüila, não preciso…

Dafne — Você falou que é um antigo projeto seu, desde quando você fundou o diretório. O diretório era do PSDB, né? Frank — Era. É porque em cada local nesse país a regional é diferente. Dafne — O que estava na sua cabeça quando você fundou o diretório e quando começou a ter esse interesse? Frank — Naquela época eu queria ser prefeito da cidade onde nasci. Eu estava indignado porque o prefeito não estava correspondendo. As pessoas estavam sofrendo e eu era um estudante revolucionário, com 19 anos, mas precisaria ter 21 anos para ser candidato a prefeito. E eu fiquei frustrado, porque logo disseram que eu não podia, que tinha que cair fora, e eu vim pra São Paulo. Então vou cantar e um dia quero fazer política. Quero servir por meio da política. E aí, de lá pra cá, fui me aperfeiçoando… Dafne — Você poderia não ser músico se já tivesse entrado na carreira política. Frank — Eu já era músico. Sempre achei que a música era uma coisa que me ajudava fazer política. Dafne — A comunicação? Frank — A comunicação, a arte, a arte de cantar, como ela consegue chegar às pessoas, como eu poderia ter uma opinião mais fortalecida com essa arte. E depois estava no sangue também. Dessa arte dependo até pra consumação da minha alma, do meu espírito todo. A música é maravilhosa, jamais vou parar de fazer isso. E não vou deixar uma coisa atrapalhar a outra, muito pelo contrário, acho que a música ajuda o político, e o político ajuda a música. Se não entenderam, eu explico.

Tacioli — Então explica. [risos] Frank — Noventa porcento dos meus contratos hoje são políticos, para festas de cidade em que os prefeitos me contratam. Qual o prefeito que vai deixar de me contratar porque virei deputado? Muito pelo contrário. Ele vai ter mais prazer em me levar. “Poxa, vamos chamar o Frank, porque além de ser cantor que as pessoas gostam, ainda é um deputado, um político, que vai fiscalizar, olhando o que estamos fazendo aqui. De repente pode olhar para o nosso município.” Jamais vou pensar em fazer “troca de apoio”, nem de brincadeira, eu não permito, porém não vou abrir mão de cantar. É minha vida, é minha sobrevivência. Política por idealismo, mas se fosse depender de salário de deputado pra sobreviver com tamanha despesa que tenho, eu voltava pra roça. E por que o cantor ajuda o político? Imagina se um apresentador vai perder a oportunidade, quando eu estiver em gestão como parlamentar, de me perguntar: “Deputado, como está em Brasília, conte pra nós?”. Essa é uma curiosidade de toda a sociedade. Você como apresentador teria essa curiosidade. Eu cantei e “agora conte pra nós, como é aquele mundo?” E eu, de forma bem sensata, tranqüila, ética, sem precisar estar batendo em ninguém, “Olha, estou conseguindo desenvolver isso e aquilo. Agora tem algumas coisas que eu não estou conseguindo. Sabe por quê? Por isso, por isso e por isso.” Que contribuição vou estar dando pro meu país? Estarei denunciando de uma forma tão tranqüila, não é, sem ser antiquado. E, ao mesmo tempo, a arte está ajudando o deputado a propagar, porque vou ter a cada semana cinco minutos à beira do plenário para fazer um pronunciamento. É muito pouco! Então, do outro lado, a arte vai me ajudar a comentar. Claro que não vou abusar disso, mas quando tiver oportunidade, devo dar uma satisfação à sociedade porque ela vai me cobrar muito.

Almeida — Frank, você vê pares que compartilhem de seu discurso político no Congresso? Frank — Eu vejo, eu vejo. Tem bons políticos. A questão é que a notícia ruim generaliza, ela rouba a cena. Eu diria que há mais bons políticos que ruins. Almeida — Digo isso porque muito se consegue fazer por alianças, você tem que se juntar com pessoas que dividam o mesmo posicionamento e tal. Você vê alguns políticos…? Frank — Vejo. Sem citar nomes, mas inclusive essa semana conversei com alguns parlamentares que falam, que têm um entendimento com o meu, que têm um pensamento em comum. É maravilhoso passar meia hora conversando com um parlamentar desse. Tem outros também que você não sente vontade… O cara já foi dizendo: “Olha, deputado, aqui é assim, tem que cair na linha”. Tem coisa que a gente não precisa contar, né? Mas aí nesse caso eu me afasto, vou me aliar a gente boa, gente do bem. Não preciso ser igual a… “Se não cair na reta, você não vai fazer nada.” Ser político pra ser corrupto? Não é da minha índole, eu não vou dormir! Não corro esse risco. Vou manchar uma história bonita? Não corro esse risco, não. Tacioli — Mas falando ainda da vida política, você tem medo do fracasso? Frank — Não, não tenho medo, jamais. Tacioli — Não tem medo? Dafne — O sinal do fracasso ou, pelo menos, da frustração? Frank — Frustração, sim; tenho certeza que vou me frustrar muito, porque a vontade é de querer salvar o mundo. Tenho consciência que não vou conseguir. Porra, na minha cabeça está assim, vamos mudar esse país. E eu não vou conseguir, entendeu? Então aí vem a frustração. “Que coisa, por que não posso fazer dessa forma?” Aí você começa a pensar nos índices de desigualdade, nas coisas prioritárias que precisamos. Educação e cultura são temas que vou defender com garra. Aí começo estudar esse tema, educação e cultura no meu país. Você imagina que temos um Brasil com 190 milhões de brasileiros e quase 24 milhões, de 14 a 25 anos, ainda não sabem escrever o nome, mandar uma cartinha? Isso é grave, num país desse tamanho e rico. É um país com o maior índice de repetência. Por que se repete? Por que é o maior índice? Porque a escola não está qualificada para atrair o aluno, para que ele fique; o professor é desestimulado pelo salário que não compensa; e por tantas outras coisas. Comparo o Brasil com os Estados Unidos, que é um país de Primeiro Mundo, começo ver as diferenças e digo: “Meu Deus, como estamos atrasados”. Então, vou lá com garra, vou brigar, vou defender, vou amadurecer as minhas idéias. Vou ter uma equipe boa que vai me ajudar. Eu vou escutar a sociedade. Quero que vocês me ajudem mandando sugestões: “Poxa, Frank, você é o nosso representante, olha que idéia boa”. Sou apenas um representante e vocês têm que me usar pra isso. Se for pra fazer negócio, aí não contem comigo, não sou de negócios. O Brasil é um país maravilhoso, que conheço todos seus 27 estados, as capitais, as maiores e as menores cidades.

Tacioli — Frank, mudando um pouco o tema, quais são suas lembranças da sua casa na infância? Frank — Eu nasci numa casinha pequena. Vou agora no mês que vem passar o Natal com meus familiares e amigos de infância. A casa era muito pequenininha, muito simplesinha, e não era do meu pai, ainda era de uma tia. Está lá a casinha. O caminho era de barro. Não havia médico; foi uma parteira quem me tirou. E, depois, meu pai morou por muito tempo na casa da minha avó. Ainda existe essa casa, como a minha avó também. Quando a carreira foi acontecendo e fiquei melhor de situação, consegui construir a minha casa. Mas também queria que meus familiares tivessem as suas, como a minha. E aí comprei a casa que morou o primeiro prefeito, uma casa que se hospedou Luiz Gonzaga. Por esse fato que comprei a casa. E peguei o quarto que o Luiz Gonzaga, que é o meu ídolo do gênero, dormiu. E a minha suíte é a suíte que dormiu Luiz Gonzaga. Reformei, comprei os terrenos vizinhos, fiz uma bela área de lazer, com tudo que tem direito. E meus pais hoje moram lá. Vendo a cena, as conquistas, eu não esqueço aquela casinha pequenininha em que não caibo em pé, a portinha é baixa. É bom ter essas lembranças.

Tacioli — Quando você lembra dessa época de moleque, qual história lhe vem à memória? Frank — Tenho tantas histórias. Eu tinha um carro, o primeiro carro, que transportava a minha banda, com o qual a gente andava 20 quilômetros e 10 empurrava, porque eu tinha limite até pra colocar a quantidade de óleo no ônibus. Tacioli — Era um ônibus? Frank — Era um ônibus que, depois de muitas ralações, de muito tempo, consegui financiar. Mas era velho e quebrava toda hora. Até pra ir de uma cidade a outra, eu botava o limite do óleo. E na volta eu tinha que torcer para que a festa desse algum dinheirinho pra voltar. Muitas vezes a festa não dava e eu tinha que quebrar a cabeça, como ia botar o óleo da volta, que já era limitado… Às vezes entrava ar no motor, não sei se vocês sabem o que é isso. E nós passávamos o dia na estrada, com fome… Aqui em São Paulo o sofrimento foi maior, porque eu não tinha onde morar, mas tive abrigo, uns amigos me acolheram aqui em São Bernardo. Em todas as férias, quando os amigos viajavam no mês de julho e no fim de ano, eles davam a casa pra eu ficar cuidando. E eu botava pau, não pagava aluguel. Queria ser conhecido, mas o mercado de trabalho era restrito. Eu chegava nas casas e dizia: “Olha, deixe eu tocar porque lá no Nordeste faço muito sucesso”. “Oxente, bichinho, então volte pra lá, porque aqui ninguém te conhece.” Já era sacanagem. A figura do nordestino não era vista de forma cultural. E eu ia ficando indignado, mas não mudava o discurso, queria defender, queria dizer que eu era de lá. Fui para as ruas pregar meu nome com lambe-lambes. Em tudo quanto era paredão eu pregava meu nome, na noite fria de São Paulo. Peguei pneumonia duas vezes. Chegava na casa de shows onde eu queria tocar, o cara não me conhecia e não ia contratar. “Então me alugue a casa.” “Mas que caboclo desaforado esse! Como tu vai arranjar dinheiro pra alugar a casa?” Eu tomava dinheiro emprestado; os amigos me conheciam, sabiam que eu devolvia. E enchia a casa somente com amigos e conterrâneos. Quando chegava sábado, com a casa cheia, o dono ficava doido. Aí, na semana ou mês seguinte, ele me contratava. E eu fazia isso no bairro vizinho, fazia no Largo de São Miguel, no Largo Treze, em Osasco, e nas quatro zonas da Grande São Paulo. Tacioli — Isso foi começo dos anos 90? Frank — Começo dos anos 90, 92. Tacioli — E qual era o repertório que você tocava? Frank — Canções de outros que interpretava no ritmo do forró. Pegava um sertanejo e fazia no ritmo do forró; pegava samba em ritmo de forró. Havia minhas canções que não faziam sucesso, mas somente quem vinha de lá conhecia minhas músicas. Eu passava a noite todinha reproduzindo o meu show e depois levava 100, 200 fitas para o camelô. Cansei de procurar gravadoras e ninguém… Eu dizia “Alguém tem de saber…” Dafne — Você gravava o show? Frank — Gravava o show. Eu queria que as pessoas conhecessem o meu produto, então levava a fita para a feira. “Olhe, toque minha fitinha, bote pra rodar, pra vender. O que vender você me paga, o que não vender, você me devolve. Você não está correndo risco de perder.” E eu deixava lá. Eu me lembro do Chorão, que era um amigo que tinha uma banca no Largo Treze de Maio. Aí eu mandava os meus amigos comprarem essas fitas. E quando era meio-dia não havia mais nenhuma. O cabra ficava doido e ele mesmo cuidava de reproduzi-las. E eu ia fazendo a cena vizinha. Dali a pouco o nome ficou conhecido; o produto era bom. “Vamos oficializar esse negócio, porque ficar no informal não é bom pra ninguém.” E logo veio gravadora, vou pagar os direitos das músicas que eu gravava, vou ganhar meus direitos também, e a história foi crescendo… Dafne — Lambe-lambes, os shows, as fitas… Esse marketing pessoal é um negócio que você sempre pensou? Frank — Sempre gostei muito de marketing, tanto que o primeiro contrato que fiz com a gravadora, o Mainard, da Abril, que era o meu presidente, disse: “Eu quero lhe contratar, mas com o seu marketing”. Achei maravilhoso, porque eu tinha liberdade para continuar falando. Mas eu lembro que, quando ainda estudava em Teresina, onde fiz faculdade de Música, na Universidade Federal do Piauí (UFP), o primeiro curso técnico que fiz na minha vida foi um curso de Marketing. Eu queria aperfeiçoar uma vontade. Tive também um aperfeiçoamento teórico sobre marketing, mas sempre dentro das minhas características, sem fugir desse personagem. Dafne — Esse das fitas, do lambe-lambe, do show, dono de um marketing pessoal agressivo, diferente, original, era um personagem ou você? Frank — Muito parecido com eu. [risos] Olha, estou com uma roupa que vou usar no show, um jeans… Não sei porque não estou com camisa branca. É porque estava bem geladinho ali em cima e eu botei uma preta pra esquentar. E aí vocês chegaram e, pra não me atrasar, desci assim mesmo. Mas vai dar tudo certo, viu! [risos] Almeida — Pode tremer o olho? Frank — Não, se tremesse seria o direito. [risos]

Almeida — Frank, como foi sua convivência com o meio acadêmico na época da Universidade Federal? Frank — Era taxado de turista. [risos] Mas foi muito boa. Brinco assim, mas faltei o que era permitido; não ultrapassei os 25% que a faculdade não permite. Mas faltava à algumas aulas porque era necessário; tinha de trabalhar. Muitas vezes saía de casa com a roupa do show dentro do carro, da faculdade corria direto pro show, me trocava ali mesmo. Chegava das viagens e ia direto do aeroporto para a faculdade com uma tremenda força de vontade, cansado, com sono, olhos inchados. Tinha uma menina, pra fazer média comigo, que todo dia levava um colírio. “Olha, seu olho está vermelho.” Eu chegava baqueadão. E fui citado em alguns seminários e palestras como exemplo. “Já tem uma carreira definida, uma vida estabilizada e está aqui quase que todos os dias, estudando, se formando. Vocês estão aí, ninguém trabalha, filhinho de papai, o que querem da vida?!” Fui bem, com uma receptividade muito boa. Da catraca pra dentro da faculdade, fiquei amigo de todo mundo. Pedi logo no início: “Olha, aqui é o estudante, não o artista. Sou um cara que precisa de um pontinho a mais como vocês, então quero toda liberdade pra descer na hora do intervalo, fazer o meu lanchinho e compartilhar trabalhos”. No início do ano era mais complicado porque havia os alunos novatos, aí havia assédio, autógrafos, fotos. Depois do segundo mês eles viam que eu não era aquele cara que queria ficar isolado e me deixaram à vontade. Foi muito saudável. Tacioli — Mas isso agora, não? Frank — Sim, na Unip agora, depois da fama. Tacioli — Mas como era lá em Teresina quando você estava na faculdade de Música… Frank — Em Teresina eu ainda não era famoso. Tacioli — Mas havia algum reconhecimento artístico, local? Frank — Sim, claro, a mesma cena, não com a mesma atenção de artista nacional, até porque também havia outros colegas que faziam sucesso regional e que faziam faculdade. Havia um professor muito bom de regência, o Aurélio, que também era cantor renomado por lá. Tacioli — A faculdade era de música popular? Poucas instituições têm esse curso. Frank — A UFP tem um curso maravilhoso em Teresina. A faculdade é muito boa. Eu nem cheguei a concluir o curso porque a prática já estava me roubando muito a cena, um outro caminho. Eu estava desestimulado. A teoria talvez não me convenceu, não foi um estímulo. Almeida — Não foi revelador… Frank — Mas foi gostoso, eu peguei alguma coisa, uma noção teórica, precisava. Almeida — Você nunca voltou pra lá, depois de famoso… Frank — Pra morar? Almeida — Como músico famoso, você voltou pra faculdade? Frank — Não, pra faculdade, não, eu já estava jubilado. [risos] Almeida — Não pra estudar, mas pra dar uma palestra, falar com o pessoal, discutir a sua música… Frank — Voltei, já voltei na faculdade, inclusive nos colégios de ensino médio voltei pra fazer palestra, pra fazer show no Centenário, no Diocesano, que era um colégio de padre. História boa… Quando cheguei em Teresina… Bom, tenho seis irmãos e o meu pai não era um homem rico, porém nunca deixou também a gente passar fome. Tacioli — Qual era a profissão dele? Frank — Agricultor. Só que mandar os filhos estudarem na capital, poxa, como ele ia conseguir dinheiro para os seis filhos? E eu fui, sou o caçula. Olha que responsabilidade: todos vieram primeiro e eu fiquei com a responsabilidade de cuidar de todos. São missões, né? E eu disse: “Pai, quero ir pra Teresina para estudar”. “Meu filho, você está louco. Como você vai? São seis filhos e não dei isso para os outros. Vou dar pra você? Não tem como.” “Eu quero ir, pai. Eu vou, arranjo condição. E quero estudar no Colégio Diocesano”, que era o colégio melhor do estado, um colégio jesuíta, de padres. Aí, fui e fiz o teste para o colégio. Até pra entrar era difícil, mas passei. E quando passei veio aquele desespero. Meu Deus do céu, de repente eu nem acreditava que ia passar, mas fiz com essa intenção boa. E aí digo: “Como vou pagar a escola agora? Mas vou conseguir”. Eu já sabia que meu pai não podia mandar mensalidade. Além disso, havia um pensionato que ele disse que segurava. E aí fui ao diretor, o Padre Darly. “Padre, quero lhe contar uma história.” Aí contei minha vida, o que eu fazia, as minhas condições. “Eu passei no teste do colégio e eu quero estudar aqui. Me dê esse direito de estudar, padre.” [Frank Aguiar se emociona] Eu disse que podia tocar na missa todo dia, mas queria que ele me desse a mensalidade. Ele nem deixou eu terminar o papo. “Filho, eu te dou a mensalidade. Pode vir porque você vai estudar.” E eu tocava, tirava meu coro numa missa, tocando, mas estudei no colégio que eu queria.

Tacioli — Você tocava as músicas religiosas. Frank — Sim. Mas somente para justificar aquilo que eu disse: ninguém duvida do que eu quero, do que você quer; a gente não tem que duvidar de ninguém, as pessoas têm que saber o que querem. Viu que trabalhão que deu? Era um monte de filho, o pai sem condição, um colégio caro. E que moleque danado… Então fica aqui essa mensagem: querer é poder. Não é mensagem escrita que a gente escuta falar, não. E o que é poder? É buscar, é ter determinação, se situar. Tudo que pedi, tudo que projetei, eu consegui. Muito além do combinado, do esperado. Tacioli — Quando moleque, o que significava ser um artista de sucesso? Frank — [Segue a linha de raciocínio da questão anterior] Mas podia era fazer uma viagem na história do colégio, da mensalidade… Vocês não sabem que eu morava num pensionatozinho, com um quarto bem menor que meu banheiro, com duas beliches, uma em cima da outra. Você não sabe o que é isso! Tinha almoço, mas na janta a gente tinha que se virar. Tacioli — Você lembra dos colegas do pensionato? Frank — [Segue a linha de raciocínio da questão anterior] E eu não passava fome, não. Fazíamos um rachinha, comprávamos pão, lanche, cuscuz. Os pais sempre mandavam a feira do interior. No dia que a minha acabava, um amigo me dava; no dia em que a dele acabava, eu dava pra eles. No dia que não dava, eles roubavam mesmo. A gente escondia os lanches, os doces de leite. Era muito bom! Então quando eu lembro de tudo isso… Vale a pena você viver, senão nessa hora você fica bobo ou besta, querer passar por cima de todo mundo, empinar o nariz, achar que é o tal. “Consegui, agora dane-se o mundo.” Sabe, quando você consegue de uma hora pra outra, fica esse sentimento; então tem que penar mesmo, ralar… Almeida — Tem amigos que fizeram parte da sua vida, da sua infância e juventude que poderiam estar numa posição como a sua, mas que se perderam? Frank — Muitos. Dafne — Instrumentistas bons… Frank — Instrumentistas. Do meu grupo, pra você ter uma idéia, somente eu me sobressaí. Dos grupos em que toquei, e foram vários na época, somente se sobressaiu um. Por isso que eu te digo, naquela época um milhão queria conseguir o que eu consegui. Tiveram muitos também que… “Mas, Frank Aguiar, rapaz…” Essa semana me encontrei com Eugênio, em Boa Vista. Ele é engenheiro que cuida da energia do Estado. Engenheiro muito bem-sucedido. “Mas vocês viraram tudo doutor. Larguei minha faculdade e vocês tudo doutor!” “É, filho duma égua, queria estar na sua pele!” [riso] São historinhas tão gostosas. Cada um realizando a sua história; eu na música, ele na engenharia. O Juninho, que sempre vem passar o final de semana comigo, hoje é um dos melhores neurologistas, médico bem-sucedido. Outros, advogados com belos escritórios. Enfim, é prazeroso. Somente aqueles que não tiveram coragem, que não tiveram essa determinação, que ficaram. E assim vai ser a vida de cada um de nós que não tiver determinação.

Tacioli — Frank, não sei como você está com o horário. Frank — Eu estou bem, estou tranqüilo, vamos conversar. Tacioli — [retorna à pergunta] Quando moleque, qual era sua imagem de artista de sucesso? Frank — Eu sempre sabia o que eu queria. Tacioli — Mas você consegue descrever como era isso? Frank — Eu já era um moleque diferente: enquanto meus colegas iam pra balada pesada, para as danceterias, pros “dum, dum, dum”, eu procurava o localzinho onde o cara tocava uma música mais calma pra eu meditar, curtir, voz e violão. Eu já era diferente. Tacioli — O que você gostava de ouvir? Frank — O forró era o que mais eu curtia. Porque, quando cresci, vi meu pai tocando Luiz Gonzaga. Eu não escutava outra coisa. Tanto que o meu primeiro presente foi uma sanfoninha, com 6 anos de idade ainda. Eu já acordava vendo o pai tocar. Na hora em que ele saia pra roça, eu pegava a sanfona escondido, porque era grande e eu não podia. E, às vezes quando ele chegava da roça no final do dia e me via tocando, brigava. “Menino, tu vai quebrar tuas costelas, a coluna e tal.” Depois ele viu que não tinha jeito e resolveu investir, comprar a sanfoninha. Uma das canções que ele tocava [pega o violão e canta o “Xote das meninas”] “Mandacaru quando fulora na seca…” Essas canções são bonitas, melosas, regionais; elas contam histórias interessantes. E daí já fazia diferença, eu queria curtir esse tipo de coisa. Tacioli — Na sua casa a música chegava de que forma? Por meio de disco, de rádio? Frank — Era radiola da época, e eu não estou muito velho também assim, não! [risos] Tenho 36 anos. Tacioli — Estamos todos nessa faixa. Frank — Estamos por aí, não tô perdendo por muito, não. [risos] Na época era o Reginaldo Rossi, o Roberto Carlos, o Fernando Mendes, o Zé Ribeiro, o Lindomar Castilho. E meu pai tinha um bar e no bar havia uma radiola. E nós ajudávamos vendendo no dia de feira. Era o dia todo a gente curtindo a radiola tocar essas canções.

Tacioli — Você lembra qual foi o primeiro disco que você comprou, o primeiro LP? Frank — Eram desses artistas. Meu pai comprava porque ele tinha esse bar com a radiola. Almeida — Mas o seu… Frank — Eu não me lembro qual foi o meu, sabe? Não me lembro. Você me pegou… Mas, depois de Luiz Gonzaga, eu tenho absoluta certeza, quase uma certeza que foi (um LP) do Fagner, porque tenho quase todos os discos dele. Ainda bem jovem, moleque, eu tocava as músicas dele, eu curtia. Acho que foi do Fagner… Tacioli — E você gostava de música internacional? Frank — Não. Eu curtia as melodias, principalmente das músicas americanas. Eles são muito bons em melodia, mas eu não entendia o que falavam. Assim, não tinha língua, mas curtia. Quando eu morava lá, não havia FM, somente AM. E em AM tocava mais as músicas regionais mesmo. Então, não fui influenciado. Já na cidade maior havia as FMs; na época, 80% das músicas vinham de fora. As pessoas eram obrigadas a curtir mais. E graças a Deus, esse quadro virou; a gente curte mais a nossa música, a nossa história, o que é muito bom.

Tacioli — Você falou e sempre cita o Luiz Gonzaga. Você chegou a ter contato com ele? Frank — Tive em Itainópolis, a cidade onde nasci, quando ele tocou na vaquejada — aqui é o rodeio e lá é a vaquejada. E ele era o rei das vaquejadas, assim como os sertanejos são do rodeio. No dia em que o velho Gonzagão ia chegar, acordei cedo para esperá-lo. Fiquei na casa do prefeito, que hoje é a minha casa, a do meu pai. Ele chegou todo de branco, de chapéu de couro, umas botas, veio numa Veraneio, eu me lembro da cena. Poxa, eu não tinha nem seis anos de idade. Eu não havia ganhado a primeira sanfona. Acho que eu tinha quatro anos. E aí, ele, logo à tardinha, tocou na calçada da casa, com o prefeito. Ficaram biritando por ali. O show era somente no dia seguinte. E eu não perdi uma cena. Fiquei o tempo todo na calçada, descalço, de calçãozinho, molequinho de quatro anos, babei vendo Luiz Gonzaga. Eu não queria saber se ele tocava, queria estar ali perto. Era o ídolo. No dia seguinte acordei às cinco da manhã. O show dele começava somente às dez da manhã.

Tacioli — Já tão pequeno e gostando…? Frank — Já. Minha mãe diz que o choro já lembrava melodia. Nasci chorando, já como se fosse uma cantiga. Tacioli — Você teve um contato posterior com ele? Frank — Não, só o vi dessa vez. Tenho acompanhado e lido muitas histórias. Agora estou lendo um livro sobre ele escrito por uma francesa. E encontro muitas vezes coisas em comum com ele, sabe? Ele era um homem muito politizado, tinha muitos trabalhos sociais, gostava de muitas coisas que eu curto. Meu Deus do céu, como pode um negócio desses?! A música que faço não se parece com a dele. Eu nem pensei em copiar, quero curtir, quero ser fã, porém quero contar uma história também. Tanto é que a crítica bate de vez em quando dizendo “Frank está fazendo diferente, está modificando o forró”. Não, quero contar a minha história. E isso ajudou o forró até a quebrar barreiras, fazendo com que outras classes sociais curtam o forró. O forró pé-de-serra antes era muito restrito. E a gente veio, colocou violão, colocou teclados, vozes, vocais e não-sei-o-quê e um monte de parafernália e conseguimos atrair outra classe. Aí veio outra turma que gosta do tradicional pé-de-serra, como o Falamansa, e trouxe a turminha universitária, formadora de opinião. E com isso todo mundo foi contando uma historinha diferente. É muito bom, respeito muito essas diferenças.

Tacioli — Você vê o forró como uma coisa só, apesar dessas diferenças? Frank — Sim, sim, cada um contando um segmentozinho, mas dentro de um movimento só, o forró. É o Calcinha Preta, é o Luiz Gonzaga, é o Frank Aguiar, é o Falamansa, é o Dominguinhos, é o Magnífico, o Zé (Ribeiro), enfim, cada um vem contando sua história e isso é bacana. O forró é um ritmo alegre, trata muitas vezes do tema satírico, é alegria. O sentido duplo sem maldade, o forró tem muito isso. Cantamos também muito o amor. Tenho canções que falam de amor, não sei se vocês já ouviram: [canta e toca ao violão] “Vem meu dengo, me faz um carinho / Tô precisando tanto de você / Tô me sentindo feito um menino / Que o brinquedo nunca quer perder / Prenda minha / Teu cheiro só me dá prazer / Eu tô doidinho pra roubar teu beijo / E nos teus braços pra sempre viver”. E por aí vai. Tem também: [canta e toca ao violão] “Lavô tá nova — a sátira — lavô tá nova / Mulher madura é o bicho / Lavô, enxugou, tá nova”. É muito gostoso, é alegria; essa é a nossa intenção, fazer as pessoas rirem por meio da nossa arte de cantar. Muitos criticam. “Porra, você tá esculhambando!”. Meu, deixa eu fazer as pessoas felizes, não é? Tacioli — “Lavô tá nova” é equivalente à “Panela velha”. Frank — É, entendeu? As brincadeiras maliciosas: [canta e toca ao violão] “Casado também namora / Casado também namora / Casado é namorador longe da sua senhora”. [risos]

Almeida — Frank, fora a família, o que você carrega do Piauí? Ou o que é o Piauí pra você? Frank — O Piauí é um berço inesquecível. Um berço em que eu aprendi, onde tive uma educação básica que jamais vou esquecer. Os meus pais, os meus amigos… Com uma vida diferente da de hoje, o que me faz respeitar muito esse jogo da vida. O Piauí que eu sinto saudades, o Piauí que, assim como a maiorias dos migrantes, sonho em voltar, que é o desejo de todos nós. Não sei se consigo, pra cá eu vim, construí, tenho filhos, tenho uma história. O meu mundo todo está aqui; eu preciso disso aqui. Não sei se eu consigo, a não ser por meio da política. Tudo é possível. E do Piauí também, além dessas imagens boas de infância, tem aquelas não muito boas pra lembrar, porque sei o que é a casa de uma pessoa pobre que não tem comida. Presenciei muito isso. Infelizmente tem essas coisas. Quantas vezes vi a casa do meu pai cheia. Houve uma época em que estávamos morando com mais 14 pessoas. Não estou falando dos 50 que participavam daquela panela, como eu disse no início. Ele era agricultor, tem as terras dele. Ele plantava, ele enchia aqueles tubos de feijão, de milho, de arroz e a gente não passava fome. Mas, infelizmente, não eram todas as casas que tinham aquela panela cheia. E sei o que é isso, essa parte não é boa, mas é o meu Piauí. Assim como o Piauí, muitos outros estados ainda passam por essa desigualdade. Tacioli — Isso não é exclusivo. Frank — Mas também não posso esquecer desse lado. Talvez tudo isso me fez ser um representante do povo brasileiro.

Tacioli — Você se lembra de alguns artistas de referência do Piauí? Frank — Lembro. Assis Batista foi um artista de sucesso que deixava eu pegar as caixas de som dele. Quando cheguei pra estudar no Colégio Diocesano, na mesma rua do pensionato em que eu morava, na Simplício Mendes, ele tinha um conjunto. E aí eu passava pra ir para o pensionato e via Assis Batista ensaiando. Aí um dia cheguei: “Homem, pelo amor de Deus, deixa eu montar as suas caixas de som. Aí você me dá uma ajudinha de custo pra eu fazer meus lanches na escola e ajudar no pensionato”. Parece que todo mundo foi me dando chance. Ele tinha uma Pampa, depois uma Caravan e todos os dias ele fazia show à noite. Eu pegava as caixinhas de som dele, eram meia dúzia de caixas, com o violão dele e tal, botava em cima, e montava. Eu já tinha experiência de som e eu mesmo era quem ligava. Era o técnico, era o jacaré, era o roadie, era tudo. E ele tocava. E, dali a pouquinho, cheguei pra ele e disse: “Olha, se tu deixar eu toco teclado também”. [risos] Ele não sabia o que estava aprontando pra vida dele. [risos] São boas essas histórias, afirmo, cara! [risos] E aí ele pegou um teclado, um Casio pequenininho, que me mandou no ano passado e que está no meu museu.

Tacioli — Onde fica o museu? Frank — Lá no Piauí. Vocês estão convidados, se tiverem a curiosidade, pra ver a primeira roupa do primeiro disco, a sanfoninha que meu pai me deu na época do Gonzagão. Está tudo lá, a minha história. Dafne — Na tua cidade. Frank — Na minha cidade. É um local de turismo, as pessoas vão de caravana. Agora em dezembro vai ser uma loucura. Chegam os ônibus de vários lugares pra visitar a cidade e conhecer a minha casa. Tem um guia, tem um senhor que fica contratado pra andar, pra explicar, pra contar a história. Com minha mãe todos querem tirar foto e ela vai explicando. Sabe mais do que eu… Almeida — Tem alguma grande atração no museu? Frank — São as fotos, as peças, o violãozinho todo quebrado. O Fausto (Silva) já foi lá e mostrou uma vez a nível nacional as peças principais. Mas é tudo muito atrativo, é tudo muito gostoso. As fotos: eu, cabelinho curto, magro, seco de trabalhar. Aí ele (Assis Batista) me deu esse teclado, depois de uns dias, uns meses, digo: “Olha, se tu deixar eu te ajudo cantar também”. [risos] Dafne — Deu o golpe. Almeida — “Se quiser posso fechar o contrato pra você.” Frank — Mas ele deixou. “Cante duas.” E aí fui tocando minha serestinha. Dali a pouco as pessoas já estavam pedindo pra eu cantar mais. Aí ele começou a ficar danado, enciumado, mas aí já era tarde. Já havia conquistado muitos fãs, muitos amigos e ele disse: “Frank, olha cara…” Dafne — Eu vou parar… [risos] Almeida — Procura teu caminho aí… Frank — “(…) Pode ir, você vai longe e não é a questão da ciumeira que o ser humano tem, mas você tem estrada, trilha, eu tô aqui pra te ajudar. Você não precisa mais que te auxilie, você não precisa mais desmontar as minhas caixas”. E foi em seguida também que financiei meu equipamento e saí tocando. Daí pra frente foi um estouro. Tacioli — Qual era o nome dele? Frank — Assis Batista. Tacioli — Ele era compositor também? Frank — Ele era irmão do Naeno, um dos maiores poetas e compositores de lá. O Naeno até mandou essa música pra mim, para o meu DVD: [canta e toca ao violão] “Quando a lua lá no céu pintou de branco / O fogo todo clareou / Molhando a gente na varanda / Entretidos no amor / Teus cabelos presos num cocó / Puxei a fita e desatei o nó / Eles caíram como um manto / Grudados no teu suor / A saudade passa e logo vem / Afina a gente faz o que convém / Remédio tem sido eu chorar / A saudade é dor que dói no peito / E não tem mais jeito…”. Até esqueci a música, mas é linda, ela é uma poesia maravilhosa. A saudade faz a gente chorar que até afina a gente, sabe o que é isso, né? Emagrece, o cabra fica sem comer, doido e tal. Eles contam tantas histórias bonitas. Tacioli — E do Assis, você lembra de alguma? Frank — O Assis era intérprete. Tacioli — Ele não compunha. Frank — Era na época [canta] “Não se admire se um dia / Um beija-flor invadir / A porta da tua casa / Te der um beijo e partir / Foi eu que mandei o beijo / Pois quero matar meu desejo / Faz tempo que não te vejo / Aí saudade de ocê”. [n.e. Composição de Vital Farias, “Ai que saudade de ocê” foi lançada em 1982 pelo autor e regravada no ano seguinte por Elba Ramalho] Era por aí, MPB, o fino da MPB, muita coisa de Caetano… Ele tocava nos melhores restaurantes, as bodas de prata, ouro, os casamentos finos e tal. E aí naquele tempo em que fiquei com ele, fui conhecendo as pessoas, nos intervalos eu estava abraçando, estava nas mesas, trocava uns telefones. Não, “mafiando” o meu amigo, mas acreditava que eu ia contar uma história no futuro e já preparava essa cena.

Almeida — Frank, você achava que ia fazer a música que você faz hoje? Naquela época, você já sabia qual a música que iria fazer ou simplesmente queria ser famoso? Frank — Eu queria tocar forró. Eu não queria ser famoso, queria realizar meu projeto. Eu tinha vergonha, até hoje sou muito tímido. Eu não pensava em ser famoso porque sou envergonhado, você não tem idéia o quanto tenho vergonha. Ainda hoje morro de vergonha em subir num palco. Eu não me não drogo, não fumo, não cheiro; tomo antes do show um ou dois uisquezinhos… Não faz bem, mas também… Tacioli — Não faz mal. Frank — Me desinibe um pouco mais. E eu sabia que eu queria tocar forró. Só que comecei tocando leve: era MPB, era romântica, era sertaneja e, no meio da história, um forrozinho. Eu não fui dando choque, só forró, porque naquela época não era aceito. Aí o pessoal foi gostando daquele momento do forró e eu, de 10 minutos, passei pra 20, de 20 pra 30, dali a pouquinho eu estava tocando somente forró… Tacioli — Mas já era o forró que te marcou, o forronerão, ou era um outro forró, mais pro Luiz Gonzaga? Frank — Não, já era esse forró mais moderno. Tacioli — E como foi a construção desse forró moderno? Almeida — Quais são os elementos que o identificam? Frank — Eu comecei com teclado. Tinha a banda. A gente fazia os shows e quando ia dividir a grana, não dava pra pagar nem o ônibus. E naquela época surgiu aquele tipo de teclado 10 em 1. E como eu era o tecladista e o cantor…, sem ser egoísta com meus amigos, porque no futuro todo mundo queria ter sua historinha, todo mundo sentiu que não dava, o cachê era muito pequenininho, a gente não tinha nome, não dá certo. Então, cada um fez seu grupo. Um comprou um teclado, outro comprou, outro comprou, outro que não sabia tocar comprou para o outro tocar. E montou-se a sua historinha. E aí surgiu o movimento de teclados no Brasil. Quando estourei no teclado, no mesmo ano mais de 5 mil grupos se formaram e se cadastraram, somente pra você ter idéia. Então terminei ajudando um movimento de teclados. Aí veio não-sei-quem-zinho dos teclados, o Cãozinho dos Teclados, o Príncipe dos Teclados, o Mão Branca dos Teclados, o Anjinho dos Teclados. Eu era o Cãozinho dos Teclados.

Almeida — No meu prédio, o zelador também era uma outra coisa dos teclados, apresentava-se ali no Largo da Batata [n.e. Localizado no bairro de Pinheiros, em São Paulo]. Frank — E aí fui contratado. Ganhei os teclados da Korg, porque ele queria que eu tocasse Korg. Na época o cara vendia 80 teclados por mês no Brasil; passou a vender 400 teclados como o meu. “Eu quero o teclado do Frank Aguiar.” Fiz um disquete com a minha batida, que quando desse o toque o sujeito já lembrava: “Porra, é o xote que o Frank Aguiar toca”, que era do “Casado também namora”. Depois o nome cresceu, peguei fama também, conseqüência do sucesso, e comecei a ser cobrado. Às vezes era convidado pra tocar em feiras grandes, palco de 40 metros, onde no dia anterior estava o Zezé de Camargo com não-sei-quantas carretas e, à tarde, eu ia lá conhecer e botava meu teclado, que era o conjunto todo. Aí o técnico perguntava: “E o conjunto, as coisas, que hora chegam?”. “Não, é isso aqui.” Ou seja, como novidade, tudo bem, eles aceitavam, mas eu precisava me preocupar para qualificar, para encher o trem… Aí botei banda em seguida, não brinquei em serviço. Viajava… Almeida — E de onde… Frank — Viajava em avião próprio. É isso que você perguntou, qual era o veículo? Almeida — De onde veio… Frank — Ah, desculpe-me. Entendi, e o veículo? [risos] Almeida — Isso fazia parte da sua estratégia de marketing? Frank — O quê? Almeida — O chapéu, o grito. Frank — Sim. O chapéu surgiu aqui em Capuava. Fui fazer um show e estava muito resfriado. Havia um senhor deitado, bêbado, com um chapeuzinho preto na cabeça. Esse chapéu está no museu. Eu peguei (o chapéu) pra me salvar da casa onde eu estava até o palco, que era na rua. Chovia. Peguei pra me salvar. E quando tocava, tive aquele aviso louco, sabem as intuições?! “Meu Deus, deixei o cara desprotegido!” [risos] E aí na volta procurei por ele, não o encontrei, já havia saído. Talvez tivesse se incomodado com a chuva; fiquei mal. Cobri um santo e descobri outro. Tacioli — Mas era um chapeuzinho preto. Frank — Um chapeuzinho preto, bem simplezinho. Voltei no dia seguinte com chapéu novo, pois não queria mais dar o dele. Havia feito uma promessa, um pedido que nunca revelei e que não vou revelar agora. Disse que se eu realizasse aquele pedido, eu ajudaria… Enfim, no dia seguinte encontrei-o, dei um chapéu novo pra ele e pedi pra ficar com o velhinho. Ele aceitou e se tornou meu amigo. Dois anos depois eu já havia realizado o meu pedido. A promessa eu paguei. Aí voltei, reencontrei com ele e ele pediu: “O senhor está bem agora? Pode me ajudar? Estou em dificuldade, desempregado, comecei a construir esse barraco e nunca tive condições de terminar, nem botar fio, nem de botar a parede. Somente comecei”. Eu já estava em condições e, num instante, fiz a casinha dele. Comprei tudo que faltava. Que felicidade! Tacioli — E se relaciona com ele hoje, tem algum contato? Frank — Não, já faz algum tempo. Inclusive agora, nesta campanha, fui lá mas não o reencontrei. Almeida — Você falava do chapéu… Frank — Daí fiz o pedido pra usar o chapéu durante cinco anos. Os cincos anos já acabaram, já são dez. Só que ficou o personagem, a imagem do chapéu, não estou conseguindo me libertar. Às vezes vou tirar foto com o chapéu do lado pra não dar choque, para os fãs não acharem que eu tirei de vez. Estou tentando… Num programa vou de chapéu, noutro sem, mas sou muito cobrado quando estou sem chapéu. “Olha o Frank Aguiar sem chapéu…”

Tacioli — Quando você deixou o cabelo comprido? Frank — Foi nesse dia também que eu disse que não cortaria o cabelo e que usaria o chapéu em todos os shows e, no final, jogo o chapéu. Eu sempre deixo o chapéu pros fãs. Ontem deixei, hoje vou deixar. Já é um chapéu bonito, com a minha marca, com a minha rubrica, assinatura. E o Cãozinho surgiu por causa do uivo, do grito que eu dava. Dafne — Você primeiro soltou o grito ou criou a marca? Frank — Vocês já sabem dessa história porque contei em todos os lugares. Eu aprendia a música à tarde e à noite queria cantar. Até hoje sou péssimo para decorar letra. E quando dava branco quando estava cantando, eu gritava [risos] e aí todo mundo delirava, gritava também. “Poxa, que sacada boa!” Pronto, aí ficou como marketing e segue até hoje. Tacioli — Lembro que fui assistir um show seu no Olímpia há uns 6 anos e fiquei impressionado com seu marketing. Havia um pano de fundo no palco que era a imagem da capa do CD que estava sendo lançado, na entrada da casa eram vendidos chapéus, chaveiros, discos… Frank — Eu me preocupei muito com esse lance do disco barato… Eu brigava com gravadora. Diziam: “Quero que seja vendido por tanto!” Não, tem de ser até aqui, o povo não tem dinheiro para comprar um produto caro. O importante para o artista é ter o produto na rua em quantidade. Tem de ter muito, muito senão ninguém vai conhecer a nossa obra. E um disco caro você vende menos. Não é bom. Tacioli — Mas o seu disco também é pirateado, não? Frank — Todos os discos, mas o meu menos porque é barato. Então é como se eu estivesse competindo com a pirataria; mas é um disco legal, quente… Vão vender por cinco. O meu sairá por oito, dez, mas é bonitinho, com capa bonita, com letras, verdadeiro. “Vou pagar dois reais a mais e levar um original!” Aí, dessa forma, quebra os piratas. Não é precisa bater neles, não precisa passar por cima de disco. Não é papel para o artista. Eu nunca apoiei muito esse comportamento dos colegas. Não somos nós quem temos de fazer isso. Aqueles miseráveis querem trabalhar, sobreviver — não estou apoiando o comportamento neste caso. Se você encontrar uma maneira de formalizar o trabalho deles… Esses dias eu me arrepiei quando estava em campanha e passei na 25 de Março [n.e. Rua do centro paulistano famosa pelo comércio atacadista e informal] e a cada cinco minutos eu escutava “Ó o rapa, ó o rapa!”, e a polícia com o cacete, e batendo, e pegando, e eles com as sacolinhas, às vezes não dava tempo… Eles querem sobreviver, vamos encontrar uma forma para essas pessoas trabalharem, para ganharem o dinheirinho delas, para pagarem um imposto mais reduzido. O Ministério da Cultura já poderia ter feito alguma coisa, assim como fez com o livro. A taxa de imposto que se paga é um absurdo, não tem como vender o disco mais barato. Então, onde eles conseguem ganhar? No mercado informal. Tenho propostas neste sentido cultural para fazer as pessoas trabalharem. Todo mundo tem o direito de trabalhar; são coisas que precisam ser revistas. Almeida — Frank, geralmente as marcas têm de se atualizar. Você pensa também nisso, como mudar o visual para atualizar a sua marca? Frank — Sim, estou sempre mudando. Antes eram aquelas roupas brilhosas, hoje não. As pessoas cobram isso, eu vendo imagem, vendo ilusão, apesar de não comprar ilusão, de não viver muito dela. Você é um ídolo e os fãs querem te ver bem vestido, ver você diferente.

Tacioli — No material que a gente levantou pela Internet há umas aspas que não sei são autênticas, em que você diz que “Toco o que vende”. Frank — Não! Mas seria crueldade da minha parte dizer que eu só toco o que satisfaz o meu ego. Tem que ter três coisas: o meio, sempre faço pesquisa pra saber o que as pessoas esperam do Frank, que disco devo fazer, qual repertório; o Frank; e o comércio. Se não tiver o comércio, eu fico sozinho. Não posso negar que sou um comerciante de verdade. A gravadora tem somente um produto para sobreviver com o artista, que é o disco e sua venda. O disco não-comercial não vende. Então, tem de ter esse meio termo. Não tem jeito! Não posso dizer que faço somente pra mim que é conversa pra boi dormir. Nem por isso vou me desqualificar, fazer qualquer coisa. É o que as pessoas esperam, o que e onde me encontro, e a gravadora, que me esfola pra danar. Dafne — Esses três fatores que você tem de levar em conta se espalham nas músicas de um disco? Frank — Setenta porcento, mais da metade, é suficiente. Pra você dizer que aquele disco tem mais batida pesada, o bateirão, como o mais recente que eu fiz, mas nos 30% eu brinco. Tem uma canção romântica em que o meu filho de um ano canta, outra é uma homenagem à Copa em que achávamos que Brasil seria campeão. Mas 70% era o bateirão, uma toada que intitulei, um ritmo, uma mistura como o brasileiro, que foi muito bem no início deste ano [n.e. 2006]. Agora já começo a trabalhar o próximo. Almeida — Ô, Frank, mas qual seria o disco que você faria com o seu tesão? Frank — Ah! Se eu fosse fazer um disco pra mim, eu pegaria todas as minhas canções poéticas, românticas e faria um acústico de voz e violão, somente eu e o violão. Para curtir no carro, namorando… É uma bela sacada, diferente de tudo que vocês possam imaginar. Tacioli — Vi o olhar tremer, acho que é um bom negócio. [risos] Dafne — Vai virar um projeto especial. [risos] Frank — De repente faço fora de carreira e, lá para o Natal, lanço o Frank acústico, voz e violão, cantando forró…

Almeida — Tem muitos artistas que se consagram junto a uma classe sócio-econômica mais baixa e, depois de um tempo, desejam alcançar outro público, como se houvesse algum glamour na música que este novo público ouve. Você pensa nisso? Frank — Não, eu não penso nisso. Até porque a música que faço é maravilhosa, alegre, é muito bom tocar no palco. E o momento acústico que eu faço no show ele já é mais… Me cobram também porque tem as pessoas que gostam de ver o Frank Aguiar cantar somente os xotezinhos calmos. Então, tenho de pensar nesse universo todo que conquistei. Aqueles que gostam de uma batida pesada, de um forronerão, aquele que gosta de um xotezinho mais leve e aquele que quer menos instrumento possível. Tacioli — Há algum palco que seja um objeto de desejo para você? Frank — Eu não toquei ainda no Credicard Hall, que é a maior casa de São Paulo, mas devo cantar no ano que vem [n.e. 2007], inauguração dessa nova história com a Sunshine, com a estréia do novo show. Tacioli — Há muito tempo, Tonico & Tinoco tocaram no Teatro Municipal de São Paulo, que nunca havia recebido artistas da música caipira, e esta apresentação foi um marco na carreira da dupla. Pra você também tem isso, de um determinado palco representar…? Frank — São coisas mais culturais, para públicos diferenciados. Esse desejo todos nós temos. Vejo possibilidade de fazer isso também. Estou muito contente onde cheguei. Tenho muitos sonhos, mas sou muito grato. O que pedi, consegui. Tocar nas melhores casas, conquistar um nome no país, discos de ouro, platina, diamante, já ultrapassei mais de cinco milhões de discos vendidos oficialmente, fora os do mercado informal, que representa três vezes mais, agora gravei o 13º disco, um número muito bom… Dafne — É bom pra você? Frank — É ótimo. Estou delirando… Almeida — Por quê? Frank — Poxa! Treze é o número da sorte mesmo. E o que quero agora é manter essa história, levar minha arte, minha alegria, sem esquecer essa outra grande responsabilidade para a qual fui eleito, mas vai dar tudo certo.

Tacioli — Frank, você começou tocando sanfona. Tem admiração por outros sanfoneiros, tirando o Luiz Gonzaga? Frank — Tem dois caras que sou fanático. Dominguinhos e Oswaldinho do Acordeom. Eles são monstruosos, um melhor que o outro, e diferentes. O Dominguinhos é aquele cara que trabalha muito com a alma, ele não lê partitura. Quando você imaginar uma coisa que quer que ele faça na sanfona, ele já está tocando aquilo que imaginava. E do outro lado tem o Oswaldinho do Acordeom, que é maravilhoso, técnico, perfeito. Tacioli — Nesta semana o Mário Zan morreu. Você conhecia alguma coisa do Mário Zan? Frank — Eu conhecia de nome, mas a obra… Não tive oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Esses outros dois são amigos. Um está na casa do outro, um vai ao show do outro, faz shows juntos, mas eu respeito muito a história do Mário Zan, tenho escutado alguma coisa. Tacioli — Frank, já passamos do horário. Frank — Agora não vou mais. [risos] Eu ia para o casamento às seis. Tacioli — Você disse que está pensando em um próximo disco. Sua produção é anual? Frank — Anual , faço uma obra de carreira por ano. E se estiver necessitado, faço um projeto especial. O que é isso? De repente não conseguimos atingir o combinado com a gravadora. Almeida — De venda? Frank — Não. Às vezes tem uma época em que a gravadora pede: “Veja se você tem uma ideia, traz mais um projeto pra nós. Frank Aguiar ao vivo, As melhores de Frank Aguiar, Frank Aguiar só xote, Frank Aguiar só forrozão”. E um próximo projeto é esta idéia que acabei de falar, que devo fazer. Almeida — Mas com um repertório mais conhecido? Frank — Eu pego uma música que não é deste estilo. [começa a tocar violão] O Fernando Mendes, quando eu cresci, tocava essas músicas em ritmo brega… [canta] “Não vejo mais você…”. Aí o Caetano pegou, voz e violão, e [canta] “Não vejo mais você faz tanto tempo…”. Diferente, não? Também o Caetano tem respaldo, tem nome. Aí eu pego uma música, sei lá, uma música pauleira, um axé, um forró, um samba, louca e agitada, e coloco em voz e violão. “Porra, esse cara é louco?!” Ou seja, as pessoas querem a coisa diferente. Tacioli — Na imprensa, há ausência de crítica de discos de artistas populares. Você sente falta? Frank — Sinto falta, claro. Tacioli — A que se deve? Frank — É uma coisa que ainda a gente tem de conquistar. Quando falo que estou contente, grato, não quer dizer que não tenho algo a arriscar. Televisão eu não reclamo. Na televisão tenho muito espaço, sempre, sempre. Do rádio sinto falta, que é importantíssimo, das revistas principais… mas a gente chega lá.

Almeida — Frank, você acompanha o que se faz em música, as tendências, os sucessos? Tem algo que chama sua atenção? Frank — Por ser músico, eu curto a música, fico curioso com cada surgimento, com cada segmento, com cada estilo de música, mas por praticar tanto esse ritmo eu fico muito… Não quer dizer que não vou assistir um show de rock e lá ter algumas curiosidades, como funciona, o cenário, a luz, a própria música, o que eles estão falando, porque eles chegaram a fazer aquela cena toda. Então tudo isso eu analiso. Dafne — Você lembra de um último artista que lhe impressionou? Frank — Por exemplo, esse grupo LS Jack. É só você vendo o que eles escrevem pra chamar a atenção dessa molecada toda aí. Esse tipo de coisa. Isso chama a atenção. Não preciso curtir; é bom estudar, entender porque aquilo está acontecendo. O que faz do rap um sucesso, você sabe? Almeida — Você já percebeu o que é? Frank — Não, estou perguntando. Almeida — Ah, é uma pergunta. Frank — É. Tacioli — Muita coisa, certamente por representar a realidade onde vivem… Frank — Então é esse tipo de coisa que é gostoso você ver em todos os segmentos e estudar, conhecer… Tacioli — Mas isso pode chegar de várias formas pra você, seja por meio da TV, do rádio. Você tem filhos. Qual é a idade do mais velho? Frank — A Luma tem dez anos, o Vitor tem sete e o Breninho tem dois. Tacioli — E a de dez…? Frank — A de dez é o lance dos Rebeldes [n.e. A telenovela mexicana Rebelde, de temática infanto-juvenil, foi lançada no Brasil em 2005 pelo SBT]. Meu Deus do céu, vou com eles no colégio, e no carro a rádio que eles colocam, puta merda, fico só analisando, 10 anos, cara, é totalmente diferente de mim, mas procuro entender. Tacioli — Mas aí o seu ouvido e o seu olhar também… Frank — Não, não dá pra agüentar, não dá pra curtir, não, [risos] só procuro entender e… Almeida — Aceitar… Frank — Eu aceito, mas se estiver sozinho não vou ligar. Tacioli — Tá bom, Frank, tá ótimo. Frank — Aqui no São Judas tem um restaurante maravilhoso, onde de vez em quando faço shows; tem comes e bebes, uma cena bonita… Quero convidá-los. Será prazeroso recebê-los. Segurança — Vocês querem um café? Almeida — Eu aceito.

[Frank senta ao piano de cauda da sala e toca um trecho de “Let it be”, dos Beatles, e “Right here waiting”, de Richard Marx]

Frank — Música é um troço tão gostoso, é um vício, assim, como se fosse… Tacioli — Como falamos dos sanfoneiros, você tem também admiração por algum pianista? Frank — Não, não tenho estudado muito algum pianista, não. Tacioli Mas você gosta de algum? Frank — Não tenho feito muita história. Porque eu toco muito o sentimento, o que escuto na rua, já sei o tom, chego aqui e já faço a minha interpretação. “Puxa, mas se o cara tivesse feito desse jeito.” Viajando, sabe? Então, o bom é isso. Tacioli — E a composição nasce onde, em que instrumento? Frank — Composição não tem lugar pra nascer. Quando você pára pra inventar uma música, ela não sai boa. Então ela surge numa conversa, quando você descobre um tema, um nome para a música. Daí já imagino uma história com aquele título. Depois vem o mais difícil que é conciliar melodia com o título (tema). Se você acertar isso aí é o creme na bateria. Tacioli — Mas tem aquela música que fica na gaveta? Frank — Outro dia gravei a melodia de uma música no celular e somente depois fui escrevê-la. Aí é fácil, quando você tem uma melodia ferrada primeiro. Almeida — Ô, Frank, letra você flui bem, você cria tranquilamente? Frank — Não, não tenho muita facilidade, não. Principalmente agora, que vivo um momento muito tumultuado, ocupado.

[Frank mostra as dependências da casa]

Almeida — Então, letra é um negócio mais trabalhoso pra você? Frank — Letra é mais trabalhoso. Tenho os parceiros, que têm o dom de organizar as palavras poeticamente e rimá-las. Eu tenho os parceiros. Moram tudo aqui perto. Montei apartamento pra todo mundo. [risos] Aí, de repente, tenho esse dom de contar uma história boa, que imagino que todos iriam gostar. “Olha, cara, o tema vai ser assim: vamos falar de sentimento ardido e tu vai desenhado por isso, por isso, por isso e por isso.” Aí chamo os seis e conto a mesma historinha pra cada um. “Vocês vão fazer a música. Aquela que me convencer é a que vai para o disco, é a que vai ganhar royalties, é a que vai ganhar advanced. Eles quebram cabeça. Dali a pouco chegam com as músicas. É maravilhoso tudo isso! Tacioli — Você faz uma licitação, quem oferecer a melhor… [risos] Frank — [Frank indica o estúdio localizado no piso inferior de onde foi realizada a entrevista] Ali é onde coloco a voz (nas músicas), é uma sala de voz. Tacioli — Mas você mexe na mesa (de som)? Frank — Não, mexo pouco. Tenho um técnico. Almeida — Esse microfone aí é um ? Frank — Esse é melhor do mundo. É um Neumann. É tudo do melhor. Sou chato. Se você pensa, ele grava seu pensamento. [risos] Almeida — Esse aí é somente para voz? Frank — Somente voz, somente para minha voz. Não deixo ninguém usar.

Dafne — Não é pra vagabundo nenhum, não! Tacioli — Mas, Frank, como era em comícios? Você sentia problemas com o microfone, com sua qualidade? Frank — O mesmo dom não tenho pra falar. Morria de vergonha, mas ia, porque estava indignado com toda a cena. Havia dia em que eu fazia dez pronunciamentos nos comícios. Andava pelos calçadões e quando parava na esquina, autógrafo, pegava aquele fonezinho e pá, baixava o cacete, falava porque eu estava ali. A política é um negócio fascinante. Eu me identifico com político. Sou filho de político. Meu pai era vereador, tenho uma irmã deputada estadual, os irmãos do meu pai, a família toda… E política é assim, você se envolve… [Mostrando algumas fotos penduradas na parede do salão de festas] É no Pantanal, onde tenho uma bela fazenda. Aqui sou eu, no fim de tarde tocando o gado… Almeida — As vaquinhas são suas também? Frank — Sim, tenho muitas vacas. A fazenda é uma empresa. Tem escritórios, funcionários, capataz, gerentes, tudo. Tacioli — Esse é o melhor investimento, Frank? Frank — A terra é um bom investimento. Contratei um consultor. “Onde é melhor investir?” “Terra onde não tem infraestrutura.” “Por quê?” “Porque amanhã ela chega.” (…)

Almeida — Mas você sempre desenhou essas coisas ou elas foram acontecendo? Frank — Não, estava tudo na cabeça. Sonhei com uma casa assim. Comprei um terreno. “Quero um andar com um estúdio, com rádio…” E aí em cima tem as salas, as suítes. E mais em cima tem um sótão maravilhoso, de madeira. Tudo é gostoso. Tacioli — Desde quando você está aqui, Frank? Frank — Nesta casa há uns oito anos. Tacioli — Mas você sempre morou em São Bernardo? Frank — Quando cheguei, fiquei em São Bernardo, em casa de amigos. Era um dia na casa de um, um dia na casa do outro… Tacioli — E futebol, você gosta? Frank — Gosto. Aqui jogo com meus filhos. Tacioli — Você tem uma posição definida? Frank — Quanto mais perto do gol, correr menos, melhor. [risos]

[Frank segue apresentando os outros cômodos de sua casa. Depois de mais café e água, a equipe do Gafieiras se despede do músico e dos familiares que o aguardavam para o casamento]

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