GABY AMARANTOS [2011 ]

Figura-chave do tecnobrega paraense, ela vem família de sambistas e cantou em igreja.

Gaby Amarantos: “Era a filha da lavadeira que estudava na escola particular”. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

Depois de quase uma hora de táxi, da Rua Avanhandava até um cruzamento da Av. Paulista, Gaby Amarantos não se importou em fugir do congestionamento por meio da Linha Verde do metrô. Anônima e tímida, ouvia atentamente a história do site que logo mais a entrevistaria.

Realizada em abril de 2011, a conversa de quase três horas de duração lançou uma diagonal sobre o universo tecno-brega-tropicalista da cantora e compositora paraense. O hiato entre sua realização e sua publicação testemunhou a Copa do Mundo no Brasil, as eleições presidenciais, a vitória da gurmetização e a popularização de Gaby Amarantos. Hoje seria impossível andar pelas ruas de São Paulo sem ser interpelada por pedidos de fotos e autógrafos.

A menina criada no Jurunas, bairro periférico de Belém do Pará, espelha a trajetória de suor de boa parte da população brasileira. Alimentada pelas rodas de samba da família e discos de Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Marisa Monte, a moça cantou em igreja católica, em bares de mpb e soube condensar na música de seu estado, já tão marcada pelas misturas indígenas e latinas, os sons de outros Brasis e do exterior.

Do carimbó, calipso, guitarrada e lambada para o brega tradicional e sua versão eletrônica — o tecnobrega –, a música paraense nos últimos 15 anos protagonizou ainda um modelo de produção e de negócio diferentes daqueles da indústria cultural. A fabricação caseira de discos, a distribuição por meio dos camelôs e as festas de aparelhagens garantiram para os novos artistas e grupos vida adulta e independente do eixo Rio-São Paulo. A banda Calypso, Gaby Amarantos e Gang do Eletro são nomes que se projetaram deste cenário.

Reduzida pelos veículos de comunicação à “Beyoncé do Pará”, a intérprete de “Xirley” (aquela do “café coado na calcinha / só pra te enfeitiçar”) soube superar o epíteto e representar a cultura mestiça e fervilhante de seu estado. Conquistou o espaço de difícil manutenção, a sonhada e traiçoeira exposição nacional. No mesmo 2012 em que lançou seu “primeiro disco oficial” (Treme, Som Livre), com produção de Carlos Eduardo Miranda e participação da Pato Fu Fernanda Takai e da conterrânea Dona Onete, viu o sucesso “Ex mai love” tornar-se tema de abertura da novela global “Cheias de charme”.

Como não podia ser diferente, o papo com Gaby Amarantos foi marcado pela curiosidade, surpresa e bom humor. A moça do Jurunas falou de tudo para os seis marmanjos que a rodeavam: o músico e gestor cultural Edson Natale, o músico e um d’Os Mulheres Negras Mauricio Pereira, o radialista e pesquisador Julio de Paula e os gafieiras Dafne Sampaio, Max Eluard e Ricardo Tacioli, além do fotógrafo Renato Nascimento. Uma oportunidade para se conhecer uma das protagonistas da nova música do Pará, terra de Sebastião Tapajós, Fafá de Belém, Jane Duboc e Pinduca.



{…} expediente

entrevistadores Dafne Sampaio, Edson Natale, Julio de Paula, Mauricio Pereira, Max Eluard e Ricardo Tacioli 
fotos Renato Nascimento 
registro audiovisual Max Eluard 
transcrição Jairo Fajersztajn 
produção, edição de texto e texto de abertura
Ricardo Tacioli
agradecimentos Marcel Arede

Entrevista realizada em São Paulo, residência de Max Eluard, em 06 de abril de 2011.


[Gaby Amarantos, Ricardo Tacioli e Dafne Sampaio chegam ao apartamento do Max Eluard, local da entrevista]

Gaby Amarantos — Olá, boa noite.
Julio de Paula — Olá, prazer, Julio.
Mauricio Pereira — Opa! Mauricio! Tudo bom?
Gaby Amarantos — Tudo ótimo.
Edson Natale — E aí, tá boa?
Gaby Amarantos — Eu tô ótima.
Max Eluard — Olá, prazer, Max. Tudo bom?
Gaby Amarantos — Olá.
Renato Nascimento — Olá.
Gaby Amarantos — Gente, espero gravar o nome de todo mundo. Tem alguma tomada aqui pra dar uma carregadinha (na bateria do celular)?
Julio de Paula — Você vai ficar aqui direto?
Gaby Amarantos — Eu vou para o Rio amanhã. Vou por voz no meu disco…
Julio de Paula — E você volta pra Virada?
Gaby Amarantos — E volto pra Virada.
Tacioli — Gaby, você quer água, refrigerante?
Gaby Amarantos — Eu quero água.
Julio de Paula — Dá um refrigerante pra mim?
Tacioli — Gelada ou natural?
Gaby Amarantos — Pode ser natural.
Mauricio Pereira — Você tá desde quando aqui?
Gaby Amarantos — Chegamos na sexta. Acho que foi na sexta. Não, cheguei na quarta-feira, semana passada.
Mauricio Pereira — Ai já fez uma pá de shows?
Gaby Amarantos — Já. Fiz umas coisinhas. Amanhã para o Rio e volto pra Virada.
Mauricio Pereira — A Virada é nessa semana?
Julio de Paula — No outro sábado.
Gaby Amarantos — No outro. (Dias) 16 e 17.
Dafne Sampaio — Mas vai ter show no Rio?
Gaby Amarantos — Não. No Rio eu vou por voz no disco.
Natale — Você tá mancando?
Tacioli — Tô.
Gaby Amarantos — O que você fez?
Natale — Diz ele que jogou bem.
Julio de Paula — Nas últimas duas semanas eu vi três acidentados de futebol (na Fundação Padre Anchieta).
Dafne Sampaio — Alguém tá errado.
Mauricio Pereira — Os caras querem jogar correndo e dá nisso.
Dafne Sampaio — Por isso que eu sou fã de curling.
Mauricio Pereira — Isso é bom. Mas é perigoso, escorrega.
Tacioli — Senhores, vocês querem cerveja, água?
Mauricio Pereira — Água sem gelo.
Natale — Uma cerveja, por favor.
Julio de Paula — Pega um copo grande pra ele.
Dafne Sampaio — Pega um copo grande de água pra ele. Porque ai vai.
Mauricio Pereira — Uma vasilha, uma cuia.
Julio de Paula — Eu quero…
Natale — Você vai tomar cerveja?
Julio de Paula — Eu quero também.
Tacioli — Tá valendo viu, moçada?
Dafne Sampaio — Ah, tá valendo?
Gaby Amarantos — Eu queria pedir um lápis, uma caneta, um papelzinho. Quero anotar o nome de todo mundo porque eu não sei de cabeça.
Mauricio Pereira — Pra poder processar a gente depois. [risos]
Gaby Amarantos — Pois é, eu acho que é importante, né?!
Mauricio Pereira — Nossa, Natale, o que é isso?
Dafne Sampaio — Vai ter uma indigestão. [risos ] Não bebe assim tão rápido, menino!
Natale — O cara bebe água….
Mauricio Pereira — Eu falo para os moleques lá em casa: “Come devagar pra não precisar repetir”.
Gaby Amarantos — Se você puder anotar (os nomes) pra mim.
Max Eluard — Em homenagem a Gaby, uma cerveja…
Gaby Amarantos — Olha, Cerpa! [n.e. Cerveja paraense fundada em 1966 pelo imigrante alemão Konrad Karl Seibel]
Julio de Paula — De lata! Fino, hein?
Max Eluard — Você quer, Gaby?
Gaby Amarantos — Não, obrigada.
Max Eluard — Vocês tomam?
Natale — Eu vou tomar uma em homenagem a Gaby.
Gaby Amarantos — Ai, gente, tô tão emocionada.
Renato Nascimento — Também vou tomar uma, Max.
Julio de Paula — A ideia é fazer de conta que a gente tá no Pará, é isso?
Gaby Amarantos — Então tinha que ter um açaí.
Natale — A gente estava falando com o Nilson Chaves… [n.e. Parceiro de Celso Viáfora, Vital Lima, Flávio Venturini e Eliakin Rufino, o violonista, compositor e cantor é um dos principais nomes da música paraense projetado nacionalmente a partir dos anos 1970]
Gaby Amarantos — Querido!
Natale — E ele: “Vocês comem açaí aqui de um jeito tão esquisito”. Eu fiquei super curioso… Vocês comem com farinha d’água, né?
Gaby Amarantos — Sim. Com farinha d’água.
Natale — Eu nunca comi.
Gaby Amarantos — O açaí mesmo. O que vocês comem aqui não açaí é. [risos]
Natale — Ele falou.
Gaby Amarantos — Não é açaí, sinto informar. [risos]
Natale — Eu adoro açaí, me sinto tão bem.
Gaby Amarantos — Quando vocês forem ao Pará, por favor, peçam pra tomar um açaí de verdade lá no Ver-o-Peso.

Inaugurado em 1901, o Mercado Ver-o-Peso, na Cidade Velha, em Belém do Pará, é uma das maiores feiras ao ar livre da América Latina. Foto: reprodução

Natale — Eu já fui no Ver-o-Peso, mas não tomei açaí.
Gaby Amarantos — Você não tomou açaí?
Natale — Não. Vou ter que voltar.
Max Eluard — Tem uns copos aqui, podem se servir.
Gaby Amarantos — Por favor, tome açaí com peixe frito lá no Ver-o-Peso.
Natale — Então, ele falou isso mesmo.
Mauricio Pereira — Aqui é comida de triatleta.
Natale — Aqui é com banana…
Mauricio Pereira — Granola.
Gaby Amarantos — Gente, que coisa mais estranha. É muito estranho.
Natale — Aqui você nem experimenta?
Gaby Amarantos — De jeito nenhum. [risos] A gente estava com os meninos da Gang. [Grupo de eletromelody formado em 2008 em Belém do Pará por DJ Waldo Squash e pelo vocalista e compositor Marco Maderito. Posteriormente, os cantores Keila Gentil e William Love completaram o time] O Will falou: “Vou comprar e pedir pra não botar nada. Vou ficar só olhando porque eu quero matar a saudade…”. É muito estranho, mesmo sem nada, é como água.
Natale — Como uma água? Tá tudo errado.
Gaby Amarantos — Tá tudo errado.
Tacioli — Vou reapresentar (a equipe): Julio de Paula, Max, na câmera, Renato, nos cliques, Edson Natale, Dafne e Ricardo.
Gaby Amarantos — Tá!
Tacioli — Tudo pronto?
Gaby Amarantos — O celular já está no silencioso. Depois eu vou pedir pra registrar também para eu tuitar daqui a pouco.
Julio de Paula — Opa, é tecnológico.
Gaby Amarantos — É, já tô aqui direto.
Dafne Sampaio — Tá tuitando também?
Tacioli — Não. Só vou marcar o tempo (com o celular). Eu já falei um pouco pra Gaby do esquema e que essa entrevista simboliza a volta do Gafieiras às entrevistas depois de dois anos.
Gaby Amarantos — Ê, temos que comemorar.
Tacioli — A última foi com o Nasi e faz quase dois anos.
Gaby Amarantos — Beleza.
Julio de Paula — Deixa acontecer naturalmente.
Tacioli — Deixa acontecer.
Mauricio Pereira — Você não tá bebendo, né?
Gaby Amarantos — Não.
Mauricio Pereira — Eles enchem a cara do entrevistado, o cara fala um monte de coisa.
Dafne Sampaio — Isso foi no começo do Gafieiras quando a gente fazia isso.
Mauricio Pereira — Não tem mais isso?
Dafne Sampaio — Não, as pessoas envelhecem.
Gaby Amarantos — Por isso, inclusive, que acabou. [risos]
Mauricio Pereira — Ninguém mais queria dar entrevista sem beber. [risos]
Tacioli — O Mauricio foi um dos primeiros entrevistados do Gafieiras.
Mauricio Pereira — Fui entender lá no meio.
Gaby Amarantos — Aí você viu a fria em que você estava. [risos]
Tacioli — Gaby, se você puder falar um pouquinho como a música passava na sua casa quando você era menina. O que você lembra disso?
Mauricio Pereira — Em que ano você nasceu?
Gaby Amarantos — 78. Eu sou nascida e criada num bairro que se chama Jurunas, que é o maior bairro de periferia de Belém. Eu nasci no meio em que tudo dizia não pra mim. Mas, fora isso, o Jurunas tem, paralelamente, é uma coisa cultural muito forte, porque quase todas as aparelhagens são sediadas no Jurunas, os artistas de brega, os grupos folclóricos, os movimentos de quadrilha, de boi, a primeira escola de samba, que é a terceira mais velha do Brasil, é do Jurunas. Então, a música fala a todo o momento. As primeiras rádios de poste, as primeiras rádios piratas, tudo que não presta vem do Jurunas. [risos] Tudo que não presta vem do Jurunas… E é um lugar assim: “Você vai no Jurunas? Cuidado, não leva relógio, cuidado!”. Tem essas piadinhas de mau gosto. A minha família é de sambistas e quando eu cheguei da maternidade o meu pai conta que já tinha um samba me esperando pra comemorar o mijo, não sei se vocês usam essa expressão aqui, que é quando a criança nasce e se faz uma festa para recebê-la. O jurunês é muito festeiro. E com as aparelhagens de manhã, eu já acordava com um carro-som: “É hoje, festa não-sei-onde!”. É festa em todo o lugar. Qualquer barzinho vira uma (festa). É um bairro que me trouxe toda essa cultura musical. E nos fundos de casa os vizinhos tinham uma banda de rock e eles escutavam muito desde rock nacional até Black Sabbath e Led Zeppelin. Então, eu escutava rock no fundo de casa; na frente de casa tinha um bar, que chamava Bar do Brega, que tinha uma aparelhagenzinha. Toda a minha influência de brega foi do Bar do Brega da frente de casa. Desde os artistas de lá, porque tinha uma cena paralela a Reginaldo Rossi, ao menino da pílula… Odair (José)… Até cantei com ele no Rec-Beat, o menino da pílula.
Dafne Sampaio — O menino da pílula é bom… [risos] [n.e. Referência ao clássico popular “Uma vida só (Pare de tomar a pílula)”, de Odair José e Ana Maria, sucesso de 1973]
Gaby Amarantos — Eu digo “o menino da pílula”. Diana, que era a mulher dele, e tinha uma cena paralela: Francis Dalva, Juca Medalha, Teddy Max, que até chegou a vir para São Paulo. Eu cresci ouvindo Pinduca, guitarradas, e ainda tinha as rádios…
Natale — Frankito Lopes você ouviu?
Gaby Amarantos — Frankito! Sou fã! Tenho todos os vinis do Frankito. Sou mega fã.
Natale — Eu cheguei a trabalhar com o Frankito.
Gaby Amarantos — Sério?
Natale — Na Atração. [n.e. O violonista, compositor e gestor cultural Edson Natale foi diretor artístico e de produção da gravadora paulistana Atração Fonográfica. Atualmente é o Gerente do Núcleo de Música do Itaú Cultural]
Gaby Amarantos — Eu sou apaixonada, eu amo o Frankito. Amo!

Morto em 2008, o matogrossensse Frankito Lopes fez carreira no Pará, onde é referência para a música brega. Foto: reprodução

Natale — Ele é muito louco.
Gaby Amarantos — Muito louco! E tinha as rádios que pegava a frequência do Suriname, da Guiana. E a gente pegava todas (as rádios)… Por isso a palavra “calypso”, que vem desses ritmos de lá. Colocaram esse nome até pra tirar o brega; na verdade, calypso e brega é a mesma coisa. Só mudaram o nome. O Chimbinha tem até uma pegada de guitarrada, que é diferente, que caracterizou o estilo que eles chamaram de calypso. E o meu avô trabalhava numa casa que era de uma família rica de lá. Deram pra ele uma caixa, um baú cheio de vinis. Tinha Ella Fitzgerald, Billie Holiday… E eu ficava ouvindo também os discos de jazz porque sempre gostei, desde garota. Clara Nunes, Beth Carvalho, tudo de samba. Pixinguinha, Noel até Martinho, Zeca Pagodinho, pagode. Cresci ouvindo tudo isso. Então, como minha mãe saia para trabalhar, a gente ficava em casa e eu que tinha que cuidar de dois irmãos. A gente ficava trancado em casa com a chave na tia do lado. A gente não ficava na rua. A nossa diversão era ficar ouvindo música o dia inteiro. E tinha aquele baú do meu avô, de vinil. A gente ficava ouvindo desde coisas de criança — Balão Mágico, Xuxa e tudo, até Noite Ilustrada, cantando alto. Aí fui perceber que eu tinha os agudinhos, porque eu conseguia cantar as músicas do Noite Ilustrada uma oitava acima. Fui começando ouvir que eu tinha uma voz, mas nunca tendo pretensão de ser cantora. E a nossa brincadeira era ficar ouvindo música, ficar brincando no meio da música. O Jurunas que me trouxe tudo isso.
Tacioli — Gaby, você falou de tudo que gostava. Muita coisa. Mas o que você não gostava de ouvir?
Gaby Amarantos — Eu não entendia o hard core ou quando ouvia aquele heavy metal. Quando eu era garota eu não entendia aquilo. Eu achava meio estranho. Era a única referencia que eu lembro que não conseguia entender. Hoje em dia eu adoro.
Julio de Paula — E MPB, Chico Buarque…
Gaby Amarantos — Ah, sim… Milton Nascimento, Djavan, Bethânia, Gal, Elis. Tudo isso. Inclusive comecei a cantar, depois que me expulsaram da igreja. Eu comecei a cantar na igreja. Quando fui cantar em barzinho cantava MPB: desde o pessoal do Clube da esquina a todos os mpbistas. Mas sempre que estava para acabar minha função, cantava uns breguinhas, cantava uns carimbós. Quando via, o pessoal já estava arredando a mesa pra dançar. Então aquela coisa intimista de eu estar cantando “Como os nossos pais” e, (de repente) virava uma fulhanga. Tudo mundo já tava dançando e bebendo. Eu falava: “Acho que meu caminho é por aqui”. Aí comecei a querer fazer um trabalho com musica eletrônica, que na época era novidade… O tecnobrega já existia tinha um ano, mas era super marginalizado e gravado com qualidade quase zero. Foi quando pensei: “Isso é muito legal se a gente fizer um trabalho com essa música misturando com algumas coisas”. Eu também ouvia muito mid back, house. Sempre gostei muito de música eletrônica. Mas se você ouvisse as coisas que a gente ouvia lá… Lembro que tinha um vinil verde de uma banda que eu não lembro o nome. Era uma música, não sei falar inglês, gente, tipo tinha um grave, já tinha uma coisa eletrônica… Tinha esse vinil e era verde. Eu falava “Caramba, quero esse vinil verde”, porque eu achava o vinil legal. Pet Shop Boys foi minha primeira referência de música eletrônica. Já ouvindo aquelas coisas de música eletrônica e que era muito legal. Foi quando a gente começou a misturar com o brega mas já percebendo na MPB.
Julio de Paula — Era o começo mesmo
Gaby Amarantos — Era o comecinho. O próprio Nilson que você citou, o Pedrinho Callado, uma galera de MPB já me via cantando nos bares. E tinha aquelas coisas de festival. Vamos inscrever essa menina em festival, ela tem a voz boa!“ Queriam me encaminhar pra esse lado. Quando eles viram que eu estava fazendo um trabalho com tecnobrega, disseram: Você é louca! Você tá com uma carreira brilhante pra cantar MPB, para virar uma cantora mostrando as raízes, como Fafá fez, Leila Pinheiro. E você vai cantar tecnobrega?”. Tenho amigos do meio que ficaram de mal comigo quando fui cantar tecnobrega. “O que você tá fazendo da sua vida? Você tá maluca!”
Dafne Sampaio — Você tinha quantos anos essa virada ai?
Gaby Amarantos — Acho que nessa virada eu estava com 20, 21 anos.
Dafne Sampaio — Na adolescência os sons vão se complementando, vão se juntando. A família é religiosa?
Gaby Amarantos — Sim.
Dafne Sampaio — Você chegou na igreja pela sua família?
Gaby Amarantos — Pela minha mãe.
Julio de Paula — Conta isso de cantar na igreja. Como foi?
Gaby Amarantos — É assim: o pai é o boêmio, cachaceiro, com os tios e o grupo de samba. E eu queria cantar no samba. Já ia garotinha, eu lembro muito: calcinha, não tinha nem peito, uns sete ou oito anos, a roda de samba e eu cantando com eles. E minha mãe com raiva porque eu tava lá no meio dos machos cantando samba. Aí minha mãe me levava pra igreja. E indo pra igreja, ouvindo aquela coisa — a gente tinha um grupo de canto –, eu falava: “Pô, legal!”. Eu sempre gostei de estar na frente. Se tinha peça na escola, eu queria ser a atriz principal. Fui Clara Nunes quando eu era criança, porque eu tinha um cabelo cheio que nem o da Clara e eu sabia dançar “Morena de Angola”. Então eu fui a Clara Nunes, teve uma encenação. Eu queria aparecer em tudo. Eu tinha uma fixação por aparecer. Eu ia pra igreja e aquilo era uma forma das pessoas estarem me vendo, mas não porque eu queria ser cantora; eu não sabia que poderia ser cantora. Eu tinha mais uma liga de atriz. Cheguei até a fazer teatro, porque eu queria ser atriz. A música veio me pegar depois da igreja. Ia garotinha (à igreja) desde os oitos anos. Adolescente (eu) era dos movimentos jovens. Comecei a cantar na igreja com 15 (anos). Entre 15, 16, 17 (anos) eu comecei a formar um público nas missas. Igreja católica. “Que horário você vai cantar?” “Vou cantar na missa das sete.” “Ah, então é nessa missa que eu vou.” As pessoas já estavam indo para querer me ver cantar. E eu já estava lá. Nessa época, a igreja era super contra o movimento carismático. Você tinha que cantar lá, quietinha e…
Tacioli — Pelo jeito, você fez todo o percurso (católico): catecismo, crisma…
Gaby Amarantos — Sim. Eu era um prodígio! Com oito anos eu tinha feito a primeira eucaristia. Eu já era catequista com 13 anos. Dava aula para crianças na primeira eucaristia. Já era engajada, era do movimento jovem, já tinha uma coisa politica na Igreja; já queria fazer uma revolução. Já garotinha, 14, 15 (anos), eu já era dos grupos, não cantava, mas eu já era muito conhecida da galera da igreja. Num domingo de Páscoa teve um concurso, um karaokê. “Vamos escolher uma pessoa de cada grupo”. Foi quando comecei a cantar. “Vamos escolher uma pessoa de cada grupo pra cantar. A Gaby vai pela catequese!” Porque eu ia ganhar, minha torcida era grande, eu era popular na igreja. Então, eu ganhei pela popularidade, não porque eu tivesse cantado bem. Pra mim era uma brincadeira. Eu lembro que ganhei uma caixa de bombom que todo mundo dividiu e não me deu nenhum. Reclamo disso até hoje. E cada pessoa tinha que escolher uma música. E o pessoal do grupo: “Pô, você tem uma voz legal, não quer vir cantar nas missas com a gente?”. Eles que me convidaram. “Ah, legal. Vamos!”. Pra mim era tudo festa. E comecei a perceber que tinha alguma coisa ali que me chamava. Toda música que eu ouvi na infância — de Rosana cantando “Como uma deusa” até Billie (Holiday) e Ella (Fitzgerald) — tudo isso já me movia, mas eu não sabia nem o que eu queria ser. Eu queria fazer Geografia, queria ser psicóloga, mas (também) eu queria ser advogada, queria ser atriz. Queria ser bancária porque meu pai trabalhava em banco. Eu queria dar aula pra criança… Eu queria ser tudo, mas eu não sabia o que eu queria. A música foi o que eu realmente (disse): “É isso aqui que eu quero”. Foi onde eu me encontrei. E nessa coisa do karaokê eu ganhei o concurso. Foi num domingo. No próximo domingo eu já estava cantando na missa, já tinham me convidado. Aí comecei a cantar na missa, e já cantava assim: “Vamos lá, galera, levanta a mão! Vamos louvar!”. O pessoal de lá não gostou muito, porque eu estava tirando a atenção (da missa), de formar um público. As pessoas iam à missa pra me ver cantar e eu querendo ser a cantora de axé na igreja. Aí o pessoal fez uma reunião e “Vamos tirar essa mulher!”.
Mauricio Pereira — Já tinha o Padre Marcelo?
Gaby Amarantos — Ainda não.
Julio de Paula — Se fosse hoje já iam gravar o seu CD.
Gaby Amarantos — Já ia ser a nova cantora da igreja e tal. Seria isso.
Dafne Sampaio — Pastora Gaby.
Gaby Amarantos — É, não seria pastora, mas seria uma das meninas católicas…
Julio de Paula — Tem várias meninas…
Gaby Amarantos — Eliana (Ribeiro)… Saco um pouco porque minha mãe é Canção Nova o dia inteiro. [n.e. A Comunidade Canção Nova é uma comunidade carismática católica e mantém uma emissora de TV e rádios de mesmo nome] Hoje eu liguei pra ela e ela falou que estava feliz porque meu filho, que tem dois anos de idade, conseguiu falar “Olha, o Papa”. Isso pra ela é o céu: meu filho reconhecer o Papa na TV. Ela estava no céu!
Tacioli — Mas sua mãe ainda torce pela salvação?
Gaby Amarantos — Não, imagina.
Tacioli — Quero a Gaby cantando na igreja…
Gaby Amarantos — Na verdade ela sempre soube que eu ia dar pra alguma coisa que fosse das artes. Não sabia o quê. Ela falou: “Só quero que você pelo menos termine seus estudos, termine o segundo grau. Depois você faz o que quiser!”. Nem terminar os estudos eu terminei, porque quando comecei a cantar na igreja e chegaram num domingo de Páscoa e ”Olha, a gente fez uma reunião e decidiu que é melhor (você se afastar). Você vai fazer vestibular esse ano, né?”. Eu estava no último ano. “Você não vai trabalhar? Achamos que você não vai mais ter tempo. A gente está com um coordenador novo e vamos ensaiar todos os dias agora. Então, a gente acha melhor você se afastar do grupo.” Eu falei “Tá, cara. Fala que está me expulsando e que quer que eu saia. Tudo bem. Eu vou entender”. Nesse mesmo dia eu fui encontrar uma amiga. “Poxa, me expulsaram da igreja!” “Vamos ali tomar um sorvete e (você) me conta essa história.” Quando eu cheguei no barzinho tinha um rapaz tocando violão que me conhecia da igreja. Ele me mandou um bilhetinho: “Quer dar uma canja?”. Eu olhei e falei “Tá!”. Nessa época a Marisa Monte estava estourada com aquele CD Rosa. [n.e. Referência ao disco da cantora carioca Verde anil amarelo cor de rosa carvão, de 1994] Eu ouvia muito esse CD Rosa, ouvia muito Bethânia. E como eu estava fazendo teatro, a galera ouvia muito Caetano, ouvia muito MPB, e eu estava nessa liga de ficar ouvindo MPB. Assim meio hippie! Estava nessas… “Tá, então vou cantar uma música da Marisa Monte.” Comecei… “Com vocês, a grande cantora paraense Gaby!” “Gente, o que está acontecendo?!” Juro a vocês, voltei de um transe, já estava cantando um carimbó e tinha gente arrendando a cadeira e dançando. Foi quando eu fui entender o que estava acontecendo. Quando acabou ele, (disse): “Fica aqui pra gente tomar uma sopa”. Esse lugar tinha tradição de ter sopas. “Eu te levo em casa. Olha, eu canto de terça a domingo e pago 30 reais por dia pra você ficar cantando comigo. Tá afim?”. “Bora!” Já havima me expulsado da igreja mesmo. Foi quando eu comecei a cantar na noite.
Dafne Sampaio — Na igreja você cantava músicas da igreja?
Gaby Amarantos — Músicas da igreja.
Tacioli — Você lembra de alguma, Gaby?
Gaby Amarantos — Lembro. Muitas.
Tacioli — Canta um pedacinho.
Gaby Amarantos — [canta] “Segura na mão de Deus / Segura na mão de Deus.” Essas coisas… Todos os outros ritos, ato penitencial… Acabava a missa, a gente pegava os instrumentos e levava pra pracinha. Aí eu já queria cantar a bagaça para o povo dançar. A pracinha estava ficando agitada; por isso as pessoas queriam ir no meu horário da missa, porque sabiam que depois ia ter a bagunça lá na pracinha.
Tacioli — A micareta.
Gaby Amarantos — A micareta, mas eu cantava brega mesmo, cantava lambada…
Dafne Sampaio — Quanto tempo durou essa fase da igreja?
Gaby Amarantos — Dois anos.
Dafne Sampaio — Dois anos?
Gaby Amarantos — Dois anos.
Tacioli — Você compôs alguma coisa nesse período?
Gaby Amarantos — Cheguei a fazer. (Foi) minha primeira composição, mas não foi uma música para a igreja. Tem uma música que eu fiz para os meus amigos da igreja. Até cantei lá no festival. Foi a primeira, nem lembrava mais disso.
Tacioli — E que música [?]
Gaby Amarantos — Eu lembro de um pedacinho. Era um plágio de uma música das Paquitas. Eu confesso que era um plágio das Paquitas! [risos]
Julio de Paula — Era um sampler.
Gaby Amarantos — Era um sampler. Já se fazia, mas não em Belém. Era assim: “Quero expressar a você a minha amizade com essa canção”. Vou procurar essa música. Fiz para os meus amigos da igreja, porque eu já tinha planejado a minha vida: “Vou fazer uma faculdade, vou trabalhar e vou ficar cantando aqui na igreja pra sempre”. Aquilo pra mim era a glória! Eu sentia uma energia cantando nas missas que eu nunca senti em show nenhum. Eu era muito feliz! Se não tivesse rolado essa parada de terem me expulsado (do grupo da igreja), talvez eu não fosse o que eu sou hoje. Então, eu agradeço muito que isso tenha acontecido.
Julio de Paula — Você desde criança ouvia e cantava carimbó?
Gaby Amarantos — Eu tenho uma história com o carimbó. Uma finada tia, Ana Lúcia, me ingressou nas artes. Ela fazia a gente fazer teatro e a cantar em datas específicas — Dias das Mães, Dia dos Pais, Natal, Dias das Crianças. E no dia dos meus 15 anos, ela fez uma homenagem pra mim. E eu lembro! “Sua cor preferida?” “Azul”. “Seu cantor preferido?” “Pinduca”. Conto pra ele essa historia porque carimbó é uma coisa que eu sempre gostei muito. E tive o prazer de conhecer o Mestre Verequete. Não tive o prazer de cantar (com ele) porque já estava muito debilitado, já não fazia mais shows. Ele morreu, se eu não me engano. Já estava com quase 90 anos, mas eu tive o prazer de conhecê-lo. [n.e. Augusto Gomes Rodrigues (1916–2009), o Mestre Verequete, é considerado o Rei do Carimbó]
Natale — O Verequete é do Jurunas também?
Gaby Amarantos — O Verequete morou no Jurunas, inclusive a família dele mora na Cremação, que é um bairro colado no Jurunas.
Julio de Paula — Ele é um dos mais importantes.
Gaby Amarantos — É, eu considero o mais importante. Mas o Mestre Verequete vivo é a Dona Onete. Digo que é o Mestre Verequete de saia. E que também tem uma história… A Dona Onete foi professora do meu pai, de todos os meus tios, me conhece desde garotinha. Tem uma história que ela me contou que eu nem sabia. Eu ficava procurando alguém da minha família que tivesse sido músico. Fora os meus tios que tinham um grupo de samba, tinha um tio-avô que tocava trompete. A minha ascendência é de escravos da parte do meu pai. E eles tinham uma dança que se chamava Banguê. Enquanto traziam a cana-de-açúcar para fazer a cachaça, eles vinham dançando. E dessa folha do abaeté ele fazia um trompete com uma lanterna e tocava… Vinha tocando o trompete. Aí quando ele vinha na canoa no meio do rio ribeirinho, interior, interior mesmo, sem energia, poucas casas e vilas, todo mundo falava: “Olha, lá vem o compadre Herógenes!”. E as pessoas corriam para a porta. E ele cantando. Todo mundo vinha batendo palma, os botos vinham pulando. Era uma festa! E eu não sabia disso. Fiquei emocionadíssima quando ela me contou essa história. Até hoje lá tem engenho, a casa do senhor feudal. Fui visitar; tem tudo lá. Minha bisavó morreu com 100. Meu outro avô morreu com 100. Minha bisavó com 97. Meu bisavô paterno com 114, avô materno com 100. Então espero que eu consiga viver pelo menos até os 70.
Tacioli — Tem muita Gaby pela frente.
Gaby Amarantos — Eu espero, né?! Estou cuidando da saúde pra isso.
Tacioli — Você é muito ligada nessa de antepassados? Essa história pregressa te interessa?
Gaby Amarantos — Sim. Eu tenho lembrança dos meus avós, do meu bisavô, da minha bisavó. Ela era uma negra que tinha um rosto e um nariz finos. Eu tenho lembranças muito fortes deles. A casa em Belém era nossa. Então, quando qualquer tia-avó, qualquer idoso ia fazer um exame ou outra coisa, ficava em casa. E eu não queria saber de ir pra rua, só queria ficar perto do vô e da vó, do tio-avô, da tia-avó. Sempre gostei muito de pessoas de mais idade. O único emprego que eu tive foi trabalhando com pessoas de mais idade. Sempre tinha o carinho de estar ali perto. Eles me contavam cada história! E essa minha raiz foi um dos fatores pra cantar na posse da Dilma. Depois fui descobrir que o pessoal da Fundação Palmares que estava fazendo a escala das cantoras foi pesquisar a minha história e descobriu que eu tinha antepassados escravos. Aí me convidaram também por conta disso. Fiquei super feliz!
Natale — Qual era a cidade? Você falou que a casa da sua família em Belém era de vocês, né?
Gaby Amarantos — Era.
Natale — E os seus avós eram de onde?
Gaby Amarantos — Eram de Igarapé-Miri, interior do Pará. Em Igarapé-Miri tinha o Rio Anapu. Então, da parte do meu pai é somente de negros. Da minha mãe, portugueses e índios. A minha bisa materna era índia e o meu avô era português, tinha olho azul. Eu não o puxei, infelizmente.
Mauricio Pereira — Mete uma lente.
Gaby Amarantos — Mas isso é o de menos. Então, tenho essa miscigenação: brancos, negros e índios.
Natale — Anapu é a cidade da Dorothy Stang?
Gaby Amarantos — Não, não. Anapu é o rio, que tem o mesmo nome da cidade que do sul do Pará, da Irmã Dorothy. [n.e. A missionária norte-americana naturalizada brasileira Dorothy Stang foi assassinada em 2005 em Anapu, oeste paraense]
Tacioli — Qual foi esse único emprego que você disse?
Gaby Amarantos — Trabalho desde moleca, mas o único emprego que eu tive de carteira assinada foi no IASEP, um órgão público. [n.e. Instituto de Assistência dos Servidores do Estado do Pará] Eu marcava consulta para os velhinhos. Tinham uns que não tinham nem família, iam e não sabiam chegar em casa. Eu largava o balcão e ia deixá-los na parada do ônibus. Às vezes eles iam cedo e não tinham comida. Eles me apelidaram de “Madre Teresa dos velhinhos”, porque eu comprava lanche… Eu ganhava ovo de Páscoa. Era uma festa pra mim aquele emprego. Ficava vendo o descaso: depois que as pessoas ficam mais velhas parece que são abandonadas, mesmo tendo família. Eu cuido muito da minha mãe. Meu pai ainda tá muito inteirão, garotão, negão. Parece que é meu irmão. Tenho muito medo de perdê-los. Eu já vi cada coisa: da pessoa ir, marcar uma consulta, tá doente e não ter dinheiro pra voltar pra casa. É um absurdo isso no Brasil!
Tacioli — Nesse emprego você tinha quantos anos?
Gaby Amarantos — Acho que eu tinha 21, 22 anos.
Tacioli — E já estava cantando em barzinho?
Gaby Amarantos — Já estava cantando. Larguei o emprego por causa da música.
Dafne Sampaio — Durou quanto tempo?
Gaby Amarantos — Dois anos trabalhando.
Julio de Paula — Esse é o prazo pra mudança.
Gaby Amarantos — É o que eu tô contando agora…
Mauricio Pereira — A primeira vez que você estava cantando MPB no bar faz uns dois, três anos.
Gaby Amarantos — Dois anos também cantando MPB
Mauricio Pereira — Aqui no Sudeste, barzinho é geralmente um violão, uma mesinha. Você já tinha essa onda de aparelhagem, era um negócio mais dançante?
Gaby Amarantos — No bar mesmo nós éramos um trio: um baixista e um guitarrista que, às vezes, tocava teclado. Ele soltava as batidas do teclado. Depois ele comprou uma bateriazinha que a gente apelidou de japonês. Botava a batida e a gente tocava.
Mauricio Pereira — Como você foi cair na coisa dançante? No Pará dança muito. É impressionante.
Gaby Amarantos — Sim, sim. O povo gosta de dançar. Eu já cantava. Cantando nos bares foi ressoando o meu nome. Eu chegava em casa e “Tem um telefone aqui de alguém de uma banda não-sei-o-quê, forró, quer fazer um teste”. “Uma banda de brega…” O axé na época era o rei da parada, todo mundo queria ser baiano. Em Belém tinha um monte de banda de axé. Mas eu falava: “Pô, cara, não é isso que eu quero. Não é essa parada que eu gosto. Se for pra sair do trio pra fazer alguma coisa, eu quero fazer alguma coisa com o brega, pra cantar brega”. Ai fui cantar numa banda de brega, que era a banda Quero Mais. Foi antes da Tecno Show. A Tecno Show foi a banda que eu fundei pra fazer o tecnobrega. Eu cantava antes brega; tocava calypso, tocava carimbó, tocava muita cumbia, lambada, os ritmos mais populares. Fazia festas. Aí comecei a ter contato com multidão, com o palco, de ir pra frente, pra dançar. Fiz a minha primeira bota de papel camurça. Aí quis fazer roupa de show. Já fui despertar esse outro lado artístico. Depois veio essa banda, que eu também fundei — Quero Mais — em que fiquei um pouquinho mais de dois anos. Mas fui expulsa também. Isso foi verdade. Tinha um vocalista que não gostava de mim ou uma coisa assim. E entre ele e eu, ficaram com ele. Não sei se vocês conhecem o DJ Maluquinho. Já ouviram falar, de lá de Belém? Ele cantava comigo. O nome dele é Marcos, Marquinhos. Ele falou: “Saia dessa banda. Não volte mais. Saia! Não sofra com essa banda! Eu vou montar um trabalho pra você. Escolha o nome”. O tecnobrega já estava com um ano, os primeiros experimentos… E eu falava: “Cara, já que tá se falando dessa coisa de tecnobrega, e eu sempre gostei disso, vou colocar Tecno Show”. Criei o nome da banda, Tecno Show. Aí começamos com a banda em 2002.

Tacioli — O trio da MPB tinha um nome?
Gaby Amarantos — Tinha. Cléber Viana, não, o nome era Chibantes.
Tacioli — Chibantes.
Gaby Amarantos — Chibantes, que é uma expressão paraense que significa rebeldes. Chibantes. Você já tá com a sua chibancia? Você já tá com a sua rebeldia? É uma expressão do interior do estado. Uma pessoa chibantes.
Tacioli — Como foi esse primeiro ano do tecnobrega? O que caracteriza esse primeiro ano?
Dafne Sampaio — E quando você escutou pela primeira vez o tecnobrega? O que era, o que tinha ali de diferente do brega, que depois virou flash-brega.
Gaby Amarantos — O flash-brega é antes…
Dafne Sampaio — É antes ainda.
Gaby Amarantos — É antes. O flash-brega é o paralelo à cena da Jovem Guarda. Foi quando se começou a falar de brega. Depois veio o brega. Aí veio o brega-pop, que era um brega, digamos, mais moderno, mais popular. Depois veio o brega-calypso, o tecnobrega, o cyber-tecno, e agora o eletro.
Dafne Sampaio — O eletro-melody.
Gaby Amarantos — O eletro-melody. É toda uma rede. Gravar um disco de brega em Belém era um negócio que não saía barato. Tinha que gastar uns 7, 8, 9 até 15 mil para gravar um disco no estúdio, com todos os instrumentos. Todo mundo queria ter banda. Tinha um monte de gente. Aí o brega estourou lá. Explodiu o brega-pop. Todo mundo queria gravar disco, mas não tinha grana pra gravar. Tem um cara que se chama Tonny Brasil. Ele foi o primeiro a trabalhar com batidas eletrônicas, aquela batida do teclado que tinha o eletro-ritmo. Ele ligou no computador, colocou aquela batida eletrônica e gravou o teclado. Fez o baixo e uma guitarrinha no teclado só pra dizer que tinha uma guitarra, começou a fazer essa música barateou o custo. De dez mil pra mil reais. “Venha comigo gravar um disco. Mil reais!” Todo mundo começou a gravar com o Tonny Brasil. O Tonny Brasil virou o cara do estúdio…
Julio de Paula — O produtor.
Gaby Amarantos — O produtor. Mas isso não se chamava tecnobrega. Isso era uma música nova que estava nascendo e que não tinha absolutamente a mínima pretensão de se tornar o que se tornou depois. Era uma coisa para ficar mais barato. Foi assim que começou a coisa. Aí veio um outro cara, que é o grande cara que batizou (o estilo): o Jurandir. Pegou uma batida que havia começado a pesquisar, criou uma outra batida e começou a fazer música. Várias músicas… Nas músicas dele tinha uma vinheta. Todas as músicas em Belém sempre tem a vinheta. “Jurandir o rei do tecnobrega.” Eis que nasce o tecnobrega. O cara deu o nome. Gente, tecnobrega, que legal, mas ainda era bem ali do gueto. Até a aparelhagem não era o que se tornou. Todos começando juntos. E a Tecno Show, que é a minha banda, foi quem procurou um estúdio que tinha Pro Tools. [n.e. Programa de gravação, edição e mixagem de áudio que revolucionou a indústria fonográfica] O cara que tinha Pro Tools se chamava Beto Metralha. “É o cara, o cara tem Pro Tools! Vamos lá com ele que é a sensação do momento!” O N-364 era um teclado com que a gente gravava muito o estilo de tecnobrega. [n.e. Teclado Korg N-364] Na época ele custava uns sete mil reais, então quem tinha o N-364 era o rei. A gente tinha um microfoninho, que era o B2, que já tinha mais qualidade. Então, a gente começou a gravar com qualidade em relação à galera que veio antes. Então, por isso que a Tecno Show teve um papel fundamental. Tinha muita gente: “Poxa, eu não gostava de tecnobrega, mas depois que ouvi a Tecno Show, passei a gostar”. Foi esse o papel da Tecno Show. Aí o Hermano Vianna foi a Belém fazer um programa para o Fantástico sobre a moda brega, pra entrevistar o Wanderlei Andrade, que era um cara que tinha o cabelo colorido, que usava aquelas botas, aquelas roupas muito legais. Mas o Wanderlei em Belém já não era mais ninguém. Dois, três anos antes, o Wanderlei era o rei. O Hermano chegou atrasado. O Wanderley (Andrade), o Anormal do Brega, nem cantava mais…
Julio de Paula — O Anormal do Brega… [n.e. Persona artística do advogado Rubens Motta]
Gaby Amarantos — O Anormal do Brega saía de dentro de um caixão. Ele tinha uma música: “Ele é tarado por brega”. Ele saía do caixão, tinha um show pirotécnico de luzes e tal.
Tacioli — Mas o Wanderley era de qual (estilo)?
Gaby Amarantos — Era do brega-pop. O primeiro brega que estourou. Wanderley, Kim Marques, Edilson Moreno, Aninha — A Odalisca do Brega. Foi quando começaram essas bandas, como a Banda Cheiro Verde. Uma fase pós Frankito Lopes. Frankito já era o flash brega, que foi o primeiro de tudo. Por isso que essa galera do flash-brega é muito foda. Aí o Hermano chegou e se deparou comigo, meio gata-borralheira, no chão, costurando minhas roupas pra fazer a matéria da moda brega. Nós gravamos com o Hermano falando da roupa e tal. Minha roupa tinha espelho. Ele adorou a minha roupa… E caiu um toró em Belém, uma chuva. O Hermano ficou preso lá e começou a conversar com a gente: “E aí, o que está rolando aqui?” “A sensação é aparelhagem!” “Aparelhagem? O que é?” “Vai ter uma festa mais tarde. Você vai ficar até quando?” “Até segunda.” “Ah, vamos lá.” E levamos o Hermano na primeira festa de aparelhagem do Príncipe Negro. Quando o Hermano ouviu o imenso sound-system tocando tecnobrega, ele disse “Meu, aquilo que eu tava querendo fazer… É isso!”. Ele foi o primeiro cara a falar do tecnobrega para o Brasil.
Mauricio Pereira — Isso foi quando?
Gaby Amarantos — Ele gravou com a gente no início de 2003. Foi em fevereiro ou março. Dois ou três meses depois eu já estava no (Programa do) Faustão por indicação do Hermano falando do tecnobrega. Fiz o Fantástico.
Mauricio Pereira — E de quando é a aparelhagem? É uma coisa antiga? Ela foi aumentando de tamanho? Descreva uma aparelhagem.
Gaby Amarantos — Bom, a aparelhagem é um imenso sound-system que tem caixas de som, sempre tem uma cabine muito colorida com muita luz. Hoje em dia com a mais alta tecnologia que existe no Brasil. Com DJ sempre, na maioria das vezes, são uma dupla de irmãos. DJs Élison & Juninho são irmãos. DJs Edilson & Edielson são irmãos. E tocam nas festas pra cinco, seis, dez mil pessoas. Tocam cinco vezes por semana.
Mauricio Pereira — Mas pode ter banda ao vivo?
Gaby Amarantos — Não, não tem banda.
Mauricio Pereira — Nunca é banda. Aparelhagem é só a…
Julio de Paula — Só a discotecagem.
Gaby Amarantos — A discotecagem. Bem parecido com aquelas equipes de som Big-Mix do funk carioca.
Natale — Furacão 2000…
Gaby Amarantos — Furacão 2000. Parecido com isso, com as radiolas que têm no Maranhão. Só que quando toca uma aparelhagem de uma banda, tem um palco separado pra banda ou o artista pode subir e fazer uma performance em cima da cabine do DJ. A aparelhagem mais antiga se chama Rubi e tem 67 anos. Então, tem o Tupinambá que tem 50 e pouco. O Super Pop, que é a mais atual, tem 30 e pouco. É uma parada muito antiga. Os caras tocavam antes na grade de cerveja com um equipamentozinho, as caixinhas. E foi crescendo muito marginalizada, que veio bem vagarosamente. Também quando explodiu foi uma febre, um fenômeno. Hoje, a aparelhagem é o que há. As festas… Se não tiver uma aparelhagem na sua festa, a sua festa não bomba. E tem mais de 100 aparelhagens em Belém.
Natale — Quando você falou do pessoal da MPB: “Você poderia ser uma cantora de MPB e está louca de ir para o tecnobrega”. Na própria Belém existe preconceito ainda.
Gaby Amarantos — Sim, sim. Agora mais por parte das elites. Ainda existe, mas eu já sinto uma aceitação muito grande. Tem um clube que é a Assembleia Paraense, o clube top de lá, onde os caras já me chamaram pra fazer evento esse ano. Há quatro anos eu era proibida.
Julio de Paula — Isso é uma mudança…
Gaby Amarantos — Um marco. Lá tem a Estação das Docas, que é um ponto turístico. Era proibido tocar tecnobrega na Estação das Docas. Eu cantei no ano passado, fiz vários shows lá, até no aniversário da Estação eu cantei. E na Assembleia, esse clube que eu falei, antes de vir pra cá, eu estava fazendo um spa lá, e as pessoas — os funcionários e os sócios — quando me viram: “Cara, a Gaby aqui!”. Eu via essas pessoas ligando: “Olha, aquela cantora, Gaby Amarantos, tá aqui a piscina da Assembleia!”. Quando eu vi já saiu nota na coluna social que eu estava na Assembleia Paraense. Até a diretoria já mandou me convidar se eu quiser ser sócia. [risos] O maior preconceito da minha vida eu sofri nesse clube: num show, há dois anos, com o Monobloco. Eu fiz um show pra abrir o do Monobloco. Eu queria gravar um DVD, só que na mídia que foi feita na TV aparecia: “Participação: Gaby Amarantos”. Acho que as pessoas imaginavam que eu ia cantar junto com o Monobloco e não que iam chegar lá, ter uma aparelhagem no palco e que seria o meu show. Eu lembro de duas pessoas na bilheteria querendo quebrar tudo, pedindo pra devolver o dinheiro do ingresso porque não queria ver aquela porcaria. As pessoas reagiram até bem, gravei esse DVD, tem cenas do público, mas não é o calor do público da aparelhagem, aquela loucura que é. Mas reagiram bem, até dançaram. E depois teve um problema com a diretoria, com o pessoal que fez a festa, que mandou parar o meu show no meio porque tinha gente reclamando. Eu fiquei ofendidíssima, até saiu no jornal, foi a maior coisa. Dois anos depois, o grupo me acolhe. Aí a mulher do dono da afiliada da Globo de lá, TV Liberal, ela malha comigo, é minha amiga, me liga pra saber como estou e tal. Eu sempre tive essa coisa: só entro no Theatro da Paz pela primeira vez se for para cantar. Eu sempre tive isso: só vou entrar no Theatro da Paz se for para cantar. Nunca um artista de brega tinha cantado no Theatro da Paz. Eu fui a primeira. Até aqui, como no Prata (da Casa, do Sesc Pompeia), eu sou a desbravadora do movimento. Sempre vou primeiro. Tem um festival no Acre que se chama Varadouro. A galera tava no Twitter: “O que que essa Beyoncé do Pará vai cantar?”. Os roqueiros (diziam): “A gente vai jogar ovo nela porque não era pra ela tá aqui, isso é um festival de rock, tem que respeitar!”. Maior onda. E na hora do meu show, os camisas pretas pirando. Quando acabou, eles vieram me cumprimentar, pedir desculpa porque não sabiam que o meu show era legal. Rolou essa parada da Beyoncé, então quem não conhece nada do meu trabalho, liga a TV e me vê dançando “Single ladies”, pensa que eu sou uma pessoa que resolveu ser a Beyoncé e que estou querendo me aproveitar disso. É normal essa reação. Tinha um pessoal super de boa, mas é muito legal esse choque que causa, do depois as pessoas (virem e) “Pô, caramba, é outra parada, não é nada do que eu tava pensando”. Foi o que aconteceu no Rec-Beat, onde eu cantei no ano passado. O Rec-Beat foi o grande divisor de águas. Depois do Rec-Beat veio toda essa repercussão. Tinha um produtor do Faustão lá, todos os jornais falaram que foi o melhor show do festival. Queimou o meu teclado, fiquei sem base pra tocar, tive que me virar nos trinta lá. Acho que por isso que fui para o Faustão, ter de me virar nos trinta, né?! Nem sei como eu consegui: tinha uma base com a música da versão da Beyoncé, que nem é minha, as pessoas até hoje acham que é minha, e da “Beba doida”, que é uma música que também não é minha, mas que eu canto. As minhas músicas eu não pude fazer. Aí eu fiquei repetindo essas músicas. Cantei seis vezes cada uma. [risos] E nos intervalos, como eu estava com um guitarrista, eu pedi para ele fazer um loop de carimbó, eu dava os tons e cantava carimbó. E as pessoas dançavam carimbó sem a percussão, somente na guitarra. Até piada eu contei nesse show! [risos] Quando acabou o show, o DJ Dolores: “Gaby, você encheu a melhor linguiça que eu vi na minha vida”. [risos] Eu fiquei sem teclado pra fazer o show. Falei: “Gente, o meu teclado queimou!” E todo mundo: kkkkkk! “Gente, tô falado sério, não sei o que vou fazer aqui com vocês.” Aí eu comecei a brincar: estava com um maiô preto, estava meio que fantasiada de Beyoncé pra tirar um sarro, era Carnaval, e “Single ladies” estava estourada, era o hit do momento. E comecei: “Olha, vou fazer uma dancinha aqui da Beyoncé”. E as pessoas: “Beyoncé, Beyoncé, Beyoncé!”. O público foi recorde: 30 mil pessoas. Ainda não colocaram mais público no Rec-Beat. E no outro dia nos jornais: “A Beyoncé do Pará arrebentou em Recife! Ela é uma mistura de Tina Turner, Beyoncé e Tati Quebra-Barraco”. [risos] Pronto, me batizaram de Beyoncé, acharam essa semelhança não-sei-como. Aí o cara do Faustão liga: “Tu tá afim de vir aqui? Mas é o seguinte é pra vir como a Beyoncé do Pará”.
Mauricio Pereira — Eu vi esse Faustão no YouTube.
Gaby Amarantos — Eu falei: “Peraí, deixa eu pensar: ou vou foder minha carreira e jogar tudo pela janela ou eu me garanto. Eu vou!” E eu fui e tô aí.

Max Eluard — Gaby, de onde vem esse preconceito? E por que você a sua música conquista as pessoas? Onde a sua música quebra com esse preconceito?
Gaby Amarantos — Eu acho que essa coisa do preconceito me favorece, porque a pessoa já está ali com uma aversão, “Não quero ver isso”, aí vê e, nem que precise ser tão bom, mas vê que não é o que estava pensando e já começa a abrir. Acho que por eu vir de um bairro pobre eu sempre assumi muito isso. Não é coitadismo, “Ah, porque eu vim pobre”. Não! Eu não suporto coitadismo, mas quem é do Jurunas sabe o quanto é difícil você vencer. Quando gravei um DVD lá, que o Vincent Moon fez, foi um dos momentos mais emocionantes da minha carreira. Eu só queria dizer para as pessoas da minha rua, os meus vizinhos, a galera que tá fumando crack do lado de casa e a galera que está ali achando que “Nasci no Jurunas e não vou ser nada na vida”, “Cara, eu venci! Vocês também podem.”. É só isso: eu queria dar de recado para as pessoas de lá.
Max Eluard — Mais um preconceito social…
Gaby Amarantos — É. Um preconceito social, acho que também racial, que é uma coisa que eu enfrento desde garotinha, hoje em dia eu posso usar os artifícios que deixam o meu cabelo loiro, mas quando eu era criança isso não existia. Eu queria ter franja. Eu não entendia porque minhas coleguinhas tinham o cabelo liso e loiro e o meu era preto, porque o meu cabelo era enrolado. E eu sofria por ter cabelo enrolado e por ser um pouquinho mais escurinha. Nem sou tão negona, mas tenho traços de negra. A minha mãe ralava pra pagar a escola em que eu estudava. Era uma escola particular. Eu era a filha da lavadeira que estudava na escola particular. Podia não ter comida na mesa, mas tinha que estudar. Eu digo, “Mãe, infelizmente a senhora jogou esse dinheiro fora, porque não estudei mais, só quis cantar”. [risos] E ela, “Não, minha filha, foi com prazer! Com a formação cultural que você tem, você sabe enfrentar determinadas situações porque já as enfrentou na infância”. Na escola eu era a atração, eu e a Adriana, uma amiga que era mais escurinha. Éramos as duas únicas alunas mais escurinhas da escola, que era a Santa Maria de Belém, uma escola top de Belém. E as pessoas separavam a gente.
Max Eluard — Separavam como?
Gaby Amarantos — Separavam assim: as crianças não queriam brincar com a gente, ficavam afastadas da gente. Eu lembro que me chamavam de “nega maluca” e eu ficava p da vida. Eu batia nos meninos, eu brigava. E tinha um amigo que tinha um jeito afeminado e chamavam ele de bichinha. Então, era a gangue dos excluídos.
Max Eluard — Essa pressão do preconceito não te intimidava.
Gaby Amarantos — Imagina! Isso me fez enfrentar esses festivais em que eu toco hoje. Até o próprio Se Rasgum, que é um festival de Belém, na primeira vez em que eu (tocar), falei “O que eu vou fazer aqui? Os caras vão me jogar lata igual fizeram no Carlinhos Brown no Rock in Rio. O que eu tô fazendo aqui?”. Mas eu já sabia lidar com a situação de você não ser querida num lugar e você chegar e conquistar o espaço. Então, essas situações pelas quais eu passei na infância, de eu ser do Jurunas, (me fortaleceram). O meu pai ficava feliz! Ele me levava na escola, era um pouco longe, e tínhamos de sair cedo, porque íamos a pé para não pagar um ônibus. E de lá ele só pegava um ônibus pra ir para o trabalho. Meu pai era guarda de banco que virou gerente do banco. E ele saiu do banco porque os amigos ficavam com preconceito, não aceitavam um negro comandá-los. Então, armaram uma parada lá e ele foi demitido com 28 anos de serviço. Foi a primeira vez e única que eu vi o meu pai chorar como uma criança. Ele dedicou a vida toda ao Banco Mercantil do Brasil. Começou de guarda, foi crescendo, era um profissional incrível, mas o fizeram sair como se fosse um ladrão…
Max Eluard — E ele falava disso pra você?
Gaby Amarantos — Sim, sim. Sempre fui meio da madrugada. Então, lembro de acordar, quarto colado e casa de madeira, e escutar ele conversando com a minha mãe. E, como eu era a mais velha, com seis, sete anos de idade já cuidava de dois irmãos menores. Tinha que cozinhar. Minha mãe trabalhava fora e meu pai (no banco). Então, a responsabilidade foi desde cedo. Vendia “chup” na escola, já vendia picolé na igreja pra ajudar a igreja. Eu trabalho desde garota.
Tacioli — Vendia o que na escola?
Gaby Amarantos — Vendia chup. Chup é um geladinho, gelinho. [risos] Lá a gente chama de chup de frutas. Fazia bolo pra vender na rua. E eu sempre fui virada. Então, tudo isso, vir do Jurunas, ter essa infância…
Max Eluard — Mas quando isso aconteceu com o seu pai, você tinha quantos anos?
Gaby Amarantos — Tinha uns 12 anos. Foi quando passamos para a escola pública. A gente até passava necessidade, mas a minha mãe prezava a educação. Nunca passei fome, mas, por exemplo, “Não vamos jantar, mas hoje vamos comer um café com pão, vamos diminuir a comida pra poder pagar o colégio dos meninos, pra poder construir a nossa casa”. A minha mãe sempre foi a guerreira da família. O meu pai é boêmio até hoje. A cena do meu pai é: frente de casa, uma cadeira e uma mesa e meu pai tomando uma cerveja. Hoje em dia, minha mãe bota (a cerveja) na geladeira pra ele não ter que tomar no bar, pra ele ter que ficar em casa. Os meus amigos todos se apaixonam pelo meu pai porque ele é uma figura. Você chegava lá dois meses antes, “Cadê a Gaby?”. Agora, “Cadê o seu Conrado?”, porque ele vira um amigo. Ele nunca quis crescer, já se acostumou com essa condição, porque ele veio do interior do Anapu do Rio pra morar em Belém, fez o meu papel na infância, teve que cuidar dos irmãos, porque o pai dele morreu cedo e ele catava cabeça de peixe no Ver-o-Peso. A história do meu pai é linda. Ele vendia pirulito de cana-de-açúcar que eles faziam no Ver-o-Peso; passava fome, apanhou na rua. Então, ele é um grande exemplo pra mim. E a minha mãe de acreditar que você pode mais.
Tacioli — Gaby, como você transporta essa sua história e os preconceitos sofridos para a sua música, você que é autora de mais de 300 composições?
Mauricio Pereira — Vou pegar carona. Então, qual que é sua parte Beyoncé, qual que é sua parte Tati Quebra-Barraco e qual que é sua parte Tina Turner? Cada uma tem uma pegada diferente.
Gaby Amarantos — Sim, sim. Caramba! Eu sempre procuro ter uma parte total de Gaby. Até não gosto de assistir a esses DVDs de cantoras e tal, não pra não me influenciar, prefiro ouvir a música, mas prefiro não ver aquele visual para, de repente, não querer fazer um figurino parecido ou querer jogar o cabelo igual… A Tina Turner é uma grande diva e tem uma história de vida que já pesquisei, assisti a filme e eu gosto muito. Já tive também uma história de ter um ex-companheiro, que não me espancava, mas que tinha também uma história meio parecida com a que ela viveu com o Ike. Acho que o lado Beyoncé é o que estou vivendo hoje, de poder ter mais esse glamour de fazer no meu show um pouco do que eu quero, mas sem pegar nenhuma referência. As pessoas me chamam de diva. Agora tá na moda chamar (alguém) de diva. Eu digo que sou uma diva malaca, porque eu não quero jogar o cabelo chique, eu quero mostrar a periferia de onde eu vim, quero chegar marrenta e aí nessa hora entra a marra da Tati. Eu conheci a Tati no Rio. Ela não se abre pra qualquer pessoa. Lembro que até tentei me aproximar, conversar, e ela não deu bola, é uma pessoa fechada, porque já sofreu preconceito pra caramba e entendo totalmente a postura dela de ser assim. Foram bem citadas pelo jornalista essas três referências de cantoras. Sou talvez um pouco delas misturadas, mas colocando a coisa da Gaby nisso, porque para os meus figurinos procuro fazer algo que não se pareça com a roupa de ninguém, mas bebo na fonte da Tati, bebo na fonte da Beyoncé, bebo na fonte da Tina, bebo na fonte do Thierry Mugler, que é um estilista maravilhoso de vanguarda. E é saber lidar com o preconceito, de talvez ter um potencial para ser uma cantora de MPB, mas querer cantar um estilo que começou marginalizado, mas que agora está sendo descoberto e devidamente respeitado, não somente pela classe musical, mas pela elite. Em Belém esse preconceito ainda existe, mas ele é mínimo perto do que já foi.
Mauricio Pereira — Você está falando do preconceito musical e você tem feito muito festival de rock, nessa onda do Fora do Eixo, Varadouro. Como você lida pra chegar onde tem caras que querem ouvir rock and roll? Você tem de chegar com um som mais suingado? Em São Paulo o rock and roll é rock and roll. Realmente, se o Carlinhos Brown aparecer vai tomar lata se o público for de rock and roll. Por que você acha que você nesses festivais não rolou isso com você? Qual foi o xaveco que você deu nos caras? O que o seu som tem? Ou o povo é mais aberto fora do eixo Rio-São Paulo? Aqui o pessoal é cabeçudo…
Gaby Amarantos 
— Acho que é muito por ter oportunidade de fazer o show com a banda. A minha banda vem de uma banda que fez muito sucesso em Belém, que fez muito festival, que era o antigo La Pupuña. O som que eu sempre quis fazer, e que estou podendo fazer de um ano para cá, depois do Rec-Beat, tem uma pegada heavy metral misturada com a base do tecnobrega. Você não vai ouvir no meu show o repertorio de um disco de coletânea de aparelhagem.
Mauricio Pereira — Quer dizer então que o seu tecnobrega não é um tecnobrega comum?
Gaby Amarantos — Ele é diferente!
Mauricio Pereira — Fora do padrão.
Gaby Amarantos — Ele é mais ousado, não que seja fora do padrão, mas a galera toca com computador, DJs e os meninos lá na frente, como MCs. Fui a primeira a pegar e “Vamos botar uma banda e misturar com o computador, com a batida.” A gente tinha um instrumento lá que chama curimbó, que é um instrumento especifico para tocar carimbó, um tambor grave. Então, quando eu tentei fazer a dois anos atrás a coisa da batida, ela não ficou pesada com bateria. Eu falava: “Pô, vou ter que voltar pra batida da aparelhagem, porque a bateria não está respondendo do jeito que eu quero”. E há seis anos eu conversava com o Miranda que falava “Tem que colocar o curimbó. Curimbó tem grave. Curimbó vai dar a batida da aparelhagem”. Aí, esse ano, eu cheguei no ensaio e tinha o curimbó no lugar do bumbo da bateria. “Cara, isso é genial!” A gente até brinca que inventou o curimbumbo, um instrumento novo. E, aliado a batida, ficou mais pesado que na aparelhagem.
Mauricio Pereira — Então, qual que é a formação da banda?
Gaby Amarantos — Bateria, teclado, baixo, duas guitarras, percussão eletrônica e acústica, e o tecladista solta as batidas no computador. A gente toca misturado.
Mauricio Pereira — Quando você foi no Faustão, essa vez agora, você foi com a sua banda?
Gaby Amarantos — Não, foi com a banda deles.
Mauricio Pereira — Meu, ela se virou lá…
Gaby Amarantos — Tive que me virar…
Mauricio Pereira — Você cantou a da Beyoncé, depois você saiu cantando…
Gaby Amarantos — Uma música que eu tinha composto lá na hora. Era alguma coisa do Brasil. Peguei e já fiz aquela música. Lá, (no Pará), a gente tá com uma técnica que eu digo que é um novo estilo musical: a galera faz muita música somente com uma nota. Os DJs, que são os DJs produtores — porque tem o DJ de aparelhagem e tem o DJ produtor, que tá com um computadorzinho na casa dele fazendo música — não são músicos. Então, eles não sabem fazer a variação, criar uma harmonia e colocar os acordes corretos. O que eles inventaram? Colocam uma nota só para a base inteira e o cantor é que tem que improvisar na melodia vocal pra poder parecer que é uma música. Então, é um exercício difícil pra caramba.
Mauricio Pereira — Ela pediu um tom e saiu chutando…
Gaby Amarantos — Eu já exercito isso lá… Vocês devem conhecer o Pio Lobato, né? [n.e. Guitarrista e produtor musical é um estudioso da guitarrada, gênero musical paraense fruto do iê-iê-iê, merengue, choro e surf music. Criou o projeto-grupo Mestres da Guitarrada, conduzido por Mestre Vieira] O Pio fala uma coisa engraçada: o Stravinsky, que é um compositor alemão que fez ópera…
Julio de Paula — Russo… [n.e. Pianista, compositor e maestro russo, Igor Stravinsky (1882–1971) é autor da célebre “A sagração da primavera” (1913) que, anos depois, ambientou a animação “Fantasia”, de Walt Disney]
Gaby Amarantos — O cara inventou uma parada meio parecida com isso. Ele tocava algumas músicas num acorde só e fazia uma parada lá. Às vezes, para gravar, os DJs gravam errado. Gravam o baixo num tom, grava a guitarra num outro tom e grava a batida num outro tom. Somando fica alguma coisa audível, mas é louco. Aí, o Stravinsky é gênio e os meninos aqui do Pará são doidos. Por quê? O Pio foi o primeiro a levantar essa questão. O que tem de DJ que manda base pra mim: “Mandei uma base pra você. Vamos fazer uma aparelhagem tal?!”. Lá tem música tipo a Galera da Laje, que é um grande sucesso que vai estar no meu disco, é um grande hit, é uma música de uma equipe — equipe é um fã-clube de aparelhagem. Cada aparelhagem tem 200, 300 equipes, 200 equipes. A galera da Gang do Eletro vive de fazer música pra equipe. Eles cobram 300, 500 e por dia faz duas ou três músicas. Você tá lá e tem: a equipe dos jornalistas que vai pra festa do Super Pop. “Vamos tocar a música da equipe dos jornalistas. E vocês estão lá bebendo e “Vai tocar nossa música”. É mais ou menos assim. Hoje em dia eles fomentam a cena daquela galera que tá ali e tem que tocar a música de todas as equipes. E é isso que fez eles virarem esse grande fenômeno, porque você vai pra ouvir. Se você quiser: “Ah, eu vou fazer a minha música. Vou fazer a música do Pedro. DJ, toca a música do Pedro aí!” Vai tocar a música do Pedro. Isso é muita interação, isso é muito louco! E tem todo um momento: eles usam um telão de LED, eles têm as logomarcas das equipes e na hora que vai tocar a música da equipe, o cinegrafista filma a equipe e ela aparece no telão. Então, para os caras, estar numa festa de aparelhagem, aparecer no telão, o DJ tocar a música da equipe e ainda mandar um abraço pra eles, é a glória.
Natale — É uma lógica de gincana que a gente tinha na escola…
Julio de Paula — … e é um mercado também: as pessoas pagam pras festas, pra entrar nas festas.
Gaby Amarantos — E outra coisa que eu digo: o Pará também reinventou essa coisa de levar a música para o pirateiro.
Julio de Paula — É isso que eu ia te perguntar…
Gaby Amarantos — A música para o camelô. A coletânea do Vetron, que é a coletânea do momento, que é uma aparelhagem pequena que está se tornando gigante, os caras vendem cem mil cópias de CD pirata.
Julio de Paula — E como é essa história de você gravar o disco e entregar na mão (do camelô)?
Gaby Amarantos — Essa história já é antiga, de quatro anos atrás. Agora, com a internet, basta mandar por e-mail, né?! [risos] Mas, antes a gente pegava e “Gravamos! Vamos lá”. Fazia 20 cópias da música num CD e a gente já sabia quais eram os pirateiros, os camelôs, os DJs e já pontuava. A gente saía num dia de viração e ia a pé porque não tinha grana pra ir de carro, nem de ônibus. Eram muitos ônibus. Quando começou a Tecno Show, íamos eu e o Maluquinho pelo comércio. Tinha a rádio do comércio, tinha o camelô do comércio e deixava pra galera. Ainda dava uma entrevistazinha na rádio e anunciava “Amanhã, a galera da Tecno Show vem aqui lançar música nova”. Para os caras que fazem coletânea, levava o disco, gravava umas 12 músicas, dava para o cara, ele reproduzia, botava nossa foto na capa e botava pra vender por 2 reais, 1 real. Botava pra vender.
Mauricio Pereira — No duro você estava falando de antropologia. É uma sociedade diferente de uma sociedade Rio-São Paulo, que é mais institucional, mais europeia. No duro, se a gente for pensar, não é nem pirataria. Pirataria é você copiar um disco que já existe cinco milhões e aí dar para o camelô. O camelô não é pirata! Ele é…
Max Eluard — É uma rede de distribuição. Não é pirataria!
Julio de Paula — Ele tá distribuindo. É uma rede de distribuição que só tem lá.
Gaby Amarantos — E pra gente era confortável…
Julio de Paula — A lógica é: as pessoas conhecerem o trabalho de vocês e irem para os shows.
Gaby Amarantos — Isso. Porque eu não vou precisar estar lá, porque até os nossos CDs a gente gravava pra vender nos shows. A gente tinha uma torre que gravava sete de uma vez. Eu ficava gravando e eu embalando. E era muito artesanal o trabalho. Foi muito bom pra me formar: eu desenhava meus figurinos, compunha minhas músicas, ia para o estúdio pra fazer o arranjo, sei tocar um pouquinho de teclado, “Eu quero um solo assim”, e ia lá no teclado fazer. “Eu quero o solo da guitarra assim.” Eu tinha que ser a minha produtora porque as pessoas ligavam pra mim pra fechar o show. O telefone de contato que estava lá (era o meu). ”Eu quero fechar um show da Gaby.” [muda a voz] “Você quer fechar um show da Gaby? É aqui mesmo e tal. Qual é a data?” Eu fazia a minha empresária, a minha produtora, e vendia o meu próprio show. [risos] E muita gente falava comigo e não sabia que estava falando comigo porque eu fazia uma voz diferente.
Tacioli — Você tinha um nome?
Gaby Amarantos — Cara, era Viviane, Vanessa, era o que vinha na cabeça. [risos] Depois que eu comecei a ter uma produtora, mas não confiava de deixar alguém com o meu telefone pra atender. Eu continuava atendendo, mas eu dava o nome da pessoa. Aline, Joana. E eu ficava fechando os shows. Lá, Baixo-Amazonas, a gente anda muito de barco. Faz muito show pelos interiores para os ribeirinhos. Então, ia lá no barco pra despachar tantos CDs e cartazes. Era uma viração. Então, tinha que aprender ser um pouco empresária, estilista, produtora, porque não tinha quem fizesse, não tinha ninguém pra acreditar. Alguém pra chegar e “Pô, vou pegar essa menina, vou investir dinheiro nela, vou transformar…”. Não, não tinha. Se não fosse eu disponibilizar a internet, eu correr atrás, acreditar, é o que a galera faz lá, mas é bom porque forma. Hoje a gente tá bem, é um treinamento muito forte, a gente precisava trabalhar.
Max Eluard — Gaby, você tem formação musical?
Gaby Amarantos — Nada.
Max Eluard — Você fala com tanta propriedade…
Gaby Amarantos — É porque eu sou abusada mesmo. Mas nada. Na igreja eu lembro só o que eles ensinaram, que foi legal, foi aprender a aquecer a voz pra não ficar com a voz rouca depois de cantar. Isso foi o máximo que estudei. De violão, somente revistinhas de violão de tudo que eu comprava, Legião Urbana, eu ia olhando e tocando…
Tacioli — Mas você tem noção: se você pega um violão sai um (acorde)…
Gaby Amarantos — Sim, sai alguma coisa, sim. Quando eu componho a minha música, eu componho toda no violão, já boto os acordes, levo para o Félix, que corrige algumas coisas, acrescenta mais se precisar. Teclado eu gosto mais, porque é mais fácil. “Olha, Félix, é aqui. Fiz uma música!” Canto pra ele e ele já cifra. Ele é músico formado, escreve e tal. [n.e. Referência ao guitarrista e percussionista Félix Robatto (ex-La Pupuña), que integrou a banda de Gaby até julho de 2013]
Tacioli — Se você pensa em um negócio e não consegue expressar isso musicalmente, você sente falta de algum conhecimento, de algum elemento?
Gaby Amarantos — Quando eu canto, eu consigo. Se eu não conseguir fazer o acorde, vou fazer a linha melódica e vou gravá-la no celular. Eu vou mostrar: “Tá aqui”. Então é tranquilo, mas eu gostaria. Eu tô muito querendo estudar. Eu quero estudar piano, porque é uma parada que eu gosto muito, queria tocar. Não quero fazer um número só pra tocar uma música no show e dizer que é bonitinho. Não! Eu quero estudar mesmo. Não tô falando de ninguém, gente! Mas eu quero muito estudar. Eu lembro dos meus sete anos eu tinha um pianinho de brinquedo. E eu tocava essas coisinhas “Parabéns pra você” e “Noite feliz” de ouvido. Já dedilhava as músicas. Sempre gostei muito. Pretendo ter tempo pra isso agora.
Natale — Gaby, o termo brega é diferente no Sudeste/Sul do que é para o Norte. Isso te incomoda isso? Você sente ainda no Sudeste essa taxação de brega ser uma coisa agressiva e não uma referência ao Frankito, Carlos Santos… Às vezes a referência é meio…
Gaby Amarantos — Negativa.
Natale — Isso chegou a te incomodar em algum momento?
Gaby Amarantos — Já, já me incomodou no início. Eu ficava assim: “Por que as pessoas não entendem?”, mas quando eu ainda estava em Belém, somente em Belém. Às vezes alguém vinha me entrevistar e perguntava. Eu não tinha vindo ainda pra cá. Ainda lá!
Natale — Te perguntavam da maneira perjorativa
Gaby Amarantos — Eu pouco viajava, ainda não tinha saído e eu não entendia o porquê. Aí quando comecei a vir pra cá, pro Recife… Lá tem uma cena que eu brinco que é o “Reverbero de Belém”. Eles gravam uma música em Belém, estourou uma música da Tecno Show em Belém, uma banda em Recife vai gravar a mesma música e vai também estourar.
Mauricio Pereira — Na Bahia também tem uma banda…
Gaby Amarantos — Na Bahia tem uma cena também de brega, tem aquela banda Deja Vu que pegou as músicas de lá de Belém, então rola muito isso, tudo começa em Belém. Até essas bandas de forró grandes, como Aviões (do Forró), essa galera do A3, do forte esquema do forró, é uma galera que fica ligada se tem algum sucesso na parada. Se tem algum sucesso, eles gravam. Então essa é uma forma de fazer com que a gente não saia de lá, porque se uma música como “Beba doida”, que foi um sucesso, já é de forró, aí começou a rolar o contrário, a galera de Belém começou a pegar os sucessos de forró e gravar no melody. O que eles chamam de melody, eu até entendo que se queira colocar um nome diferente pra fazer o que a Calypso fez, colocou calypso e conseguiu ser o que é devido a isso, e isso contribuiu muito, porque se disser pra eles que eles são brega, eles ficam com raiva. “Não, a gente não é brega. A gente faz calypso!” Eu sempre assumi o tecnobrega porque acredito que, em algum momento, as pessoas não vão ser tão ignorantes de entender de que existe o estilo musical e que existe o adjetivo, que é pejorativo. Acredito que as pessoas serão inteligentes pra entender isso, mesmo que demore. Eu sou a única que fala de brega, a única que assume o brega. As pessoas da cena, os meus colegas, todos ficam chateados “Por que a Gaby ainda fica falando de brega? Por que a Gaby fica queimando a gente com esse negócio de brega?”. Até lá…
Mauricio Pereira — Isso eles chamam de melody?
Gaby Amarantos — Eles chamam de melody.
Mauricio Pereira — Mas a música é a mesma?
Gaby Amarantos — É a mesma música. Rolou uma variação: o tecnobrega foi ficando muito acelerado, cada vez mais acelerado, acelerado, acelerado. Aí surgiu um ritmo que era um pouco mais lento que o tecnobrega e que se chamou de melody. Só que hoje em dia o melody também foi acelerando e ele está no mesmo bpm do tecnobrega de sete anos atrás. É a mesma coisa! Só que é mais bonito falar melody, que é uma palavra internacional, que eu acho horrível, eu acho que brega é tão legal.
Julio de Paula — O tecnobrega é um movimento?
Gaby Amarantos — Sim, um movimento porque existe diversas bandas, inclusive até a Som Livre fez um DVD mostrando a cena, escolheu dez bandas e quatro aparelhagens, e é um DVD que tá aí no mercado. Somando, no geral, devem ter uns 300 artistas desse movimento de banda e de aparelhagem trabalhando no Estado.
Tacioli — Só em Belém do Pará?
Gaby Amarantos — No Estado.
Mauricio Pereira — E tem público pra todo mundo?
Gaby Amarantos — Cara, a galera se mata. Eu sou a primeira que está conseguindo sair, conseguindo levar e conquistar outros públicos, porque as pessoas pensam que eu sou uma coisa e quando elas vão ver o show, elas entendem que eu trabalho com música popular brasileira. Às vezes, as pessoas, até jornalistas e curiosos, por meio de tuítes, dizem “Por que você não volta a cantar MPB?”. “Gente, mas eu canto música popular brasileira. Tecnobrega é música popular brasileira! “ É um processo que eu sei que não vai rápido, mas eu acredito que uma hora (vai rolar)… Uma vez o (DJ) Malboro falou uma coisa pra mim bem legal em relação ao funk, que são movimentos bem têm uma história parecida, mas tecnobrega não tem a coisa do proibidão e da apologia ao crime…
Julio de Paula — Pra quem tá de fora vê muita semelhança…
Gaby Amarantos — Muita, muita semelhança…

Joelmas: em cima, capa do disco da cantora capixaba que fez sucesso nos anos 1960 e 1970; abaixo, a cantora paraense ao lado do guitarrista Chimbinha, da banda Calypso. Fotos: reprodução

Dafne Sampaio — A distribuição também…
Gaby Amarantos — É bem parecido. Aí o Malboro falou uma coisa assim: “Gaby, com o funk foi assim. Começou a se falar, aí deu uma apagada. Aí de repente surgiu uma música ou algum fato e aí começou a se falar mais. Aí foi e deu uma apagada. Aí, de repente, surgiu aqueles meninos do ‘cachorra, sei-lá-o-quê, eguinha pocotó’ e explodiu. Mas sempre o funk tá aí, ele vai crescendo aos poucos. Então, acreito que vai ser a mesma coisa com o tecnobrega. Você apareceu em 2002. Em 2003 você estava no Faustão. Você deu uma sumida. Apareceram outros artistas. A coisa vai vai vai. Acredito que até o momento em que a coisa vai realmente estourar. No meu caso é muita informação. É uma artista nova, é um timbre vocal diferente, porque enquanto todas cantoras de melody querem ser Joelma, eu sou a única que tem uma voz mais grave que não quer cantar igual a Joelma, não que eu não goste da Joelma, eu adoro, mas…
Mauricio Pereira — Joelma é aquela da antiga?
Gaby Amarantos — Da Calypso.
Mauricio Pereira — Que susto! Entreguei minha idade! [risos]
Julio de Paula — Joelma? Que Joelma?
Gaby Amarantos — Essa Joelma eu não conheço…
Dafne Sampaio — O edifício? Joelma? [risos]
Mauricio Pereira — O velho Joelma. Pegou fogo!
Gaby Amarantos — Todo mundo querendo ir por aqui, e eu sempre indo por aqui. É um figurino que é diferente — eu até brinco com essa coisa que é um pouco chata de “Lady Gaga”…
Julio de Paula — E o LED no sapato!
Gaby Amarantos — E o LED também, sempre. Se você usa um figurino mais extravagante, você tá querendo imitar a Lady Gaga. Eu falo: “Gata, pega vídeo meu de dez anos atrás e veja se eu já não usava o sol na cabeça, se eu não usava uma roupa que já tinha…”.
Julio de Paula — É a Lady Gaga que viu os seus vídeos… [risos]
Mauricio Pereira — Só de ver a cara de uma aparelhagem maluca daquela, cheia de lâmpada, você já saca que tem uma estética…
Gaby Amarantos — Que já é uma parada muito diferente. E essa história de moda também: as minhas roupas eu quebrava espelho, colava espelho, pregava paetê, pegava glitter e passava nos meus lábios. Então, até o meu visual é diferente do dos meus colegas. São todos normais! Eu sou a anormal do brega. Eu sou a única, anormal. Então é muita informação: uma cantora, um visual, uma música, um estilo novo que as pessoas estão conhecendo. Não vai ser rápido.
Tacioli — Você comparou o tecnobrega com o funk, mas a lambada teve também um movimento, muita gente e depois sumiu.
Gaby Amarantos — Eu não vejo muita gente…
Julio de Paula — A lambada tinha uma coisa da indústria fonográfica…
Max Eluard — Não era uma coisa que surgiu…
Julio de Paula — … que se espalhou pelo Brasil.
Natale — Foi uma coisa meio Beto Barbosa. [n.e. Considerado o “Rei do balanço”, o paraense Beto Barbosa foi um dos pioneiros do “movimento do ritmo brega” e o principal nome da lambada nos anos 1980, com sucessos como “Adocica” e “Preta”]
Dafne Sampaio — Foi uma coisa restrita mesmo, foi meio de moda. Era uma coisa que estava rolando em vários lugares, veio um artista, explodiu, aí começou a rolar um monte de genéricos.
Tacioli — Mas isso acontece com o tecnobrega?
Gaby Amarantos — Mas tem um grande exemplo pra mim essa história da lambada, porque o Beto é de lá. A galera tem uma mágoa com ele porque ele dizia que era de Fortaleza. Ele foi o primeiro artista a estourar, mas como a galera que vinha do Norte sofria muito preconceito, pra ele era mais cômodo dizer que era de Fortaleza. “Gente, não vamos julgar o cara. Isso aí foi quase 20 anos atrás. O cara surgiu e era muito difícil você dizer era do Pará.” Então, o que foi que aconteceu com o Beto? O Beto estourou, mas não veio ninguém decorrente, somente o Kaoma que não era nem daqui, e morreu com ele. Outra coisa do Pará que estourou: Calypso. Calypso também, boom, uma explosão, um fenômeno, mas não tem ninguém pra passar o bastão, alguém pra dividir, como os baianos já fazem, eu uso muito os caras de exemplo em relação a isso. Vai sempre reciclando. O que eu digo pra galera do tecnobrega? Pode pegar as minhas entrevistas — eu sou a odiada da galera, porque só a Gaby aparece, porque só a Gaby vai para o Faustão, só a Gaby faz isso, tudo só acontece com a Gaby. Gente, não é assim! É um trabalho que eu já venho fazendo e eu sou corajosa. Eu vim pra São Paulo da primeira vez com uma mão na frente e outra atrás. Larguei tudo e “Vou pra São Paulo”. E vim tentar fazer contatos que são importantes hoje por eu ter vindo aquela primeira vez. Eu já estou aqui, mas falo de toda a cena porque é uma cena incrível, não somente por querer fomentar, mas porque é foda, é uma cena muito incrível! Se você pesquisar a cena paraense, os ritmos… Você já ouviu falar em samba de cacete? Já ouviu falar em banguê? Já ouviu falar em samba de criolo doido? Isso tudo tem em Belém do Pará e as pessoas não conhecem, além do carimbó, do siriado, do retumbão, do lundu, do brega, do flash-brega. É muita coisa que tem. E eu sempre falo: tem a galera da Gang do Eletro, que é genial, que são meus colegas, que eu quero que cresçam, tem a galera da banda Quero Mais, então eu estou aqui, mas tô querendo trazer o Waldo pra tocar aqui comigo, porque a gente precisa realmente rotativizar a coisa. Não cometer o erro que a lambada e o Calypso (cometeram). A Calypso até quis fomentar uma cena, mas uma cena que não deu muito certo porque não foram os artistas certos. Por exemplo: eu estourei e agora quero que meus amigos estourem. Não é. Eu tenho um monte de amigo, gente que eu adoro, que eu amo de paixão, mas quem tá fazendo um trabalho genial? A Gang do Eletro, Waldo, Maderito. “Vamos fazer a coisa junto, vamos fomentar!” Eu canto no DVD deles e eles tocam no meu disco. “Vamos pegar quem mais que tá fazendo um negócio legal: Dona Onete.” Dona Onete tem uma música no meu disco, pra mim a música mais incrível do meu disco, que é uma música que uma senhora de 78 anos fez pra mim. A música é inacreditável e não tem nada a ver com o tecnobrega. É outra coisa, até pra mostrar a diversidade de ritmos que é uma música que é o novo “Canto das três raças”. É uma música incrível! E o disco vem com essa pegada. Tem tecnobrega, tem um pouco de zouk eletrônico, o Waldo umas coisas novas, a Fernanda Takai vai gravar uma música comigo, então tem um pouco (de tudo) pra mostrar que não é só isso, que é muito além, e que com essa batida dá pra fazer coisa pra caramba e abrir o leque. Acho que esse foi um passo que o funk não deu. O funk ficou naquela coisa roots, que é muito legal, mas não se experimentou outras coisas com o funk. Teve aquele funk cult, que foi a galera cultzinha querendo fazer funk, mas…

Capa do disco Treme, o primeiro “título oficial” de Gaby Amarantos. Com produção de Miranda e participações de Fernanda Takai e Dona Onete. Foto: reprodução

Julio de Paula — Que passou…
Gaby Amarantos — Que passou também.
Mauricio Pereira — Mas o funk tomou muita pancada pelo fato de estar aqui no eixo Rio-São Paulo. Uma vez eu fui num programa da TV PUC sobre canção. Éramos eu e um professor da PUC. Enquanto a gente falou do Dorival Caymmi estava tudo lindo. Aí eu falei do Bonde do Tigrão, só faltou alguém me segurar e o cara me bater na cara. Eu penso: o funk está muito perto da “cultura”, então fica mais fácil esticar o braço e dar uma bifa no funk.
Gaby Amarantos — Ainda bem que estou lá em Belém do Pará. [risos]
Mauricio Pereira — Num certo sentido, estar longe preserva. O eixo Rio-São Paulo é como um um monstro comilão: primeiro ele comeu a Bahia, depois Pernambuco, o Maranhão foi bola da vez aqui nos anos 90, maracatu — São Paulo tem mais grupo de maracatu que o Maranhão inteiro, só aqui na zona oeste de São Paulo… O Sul vai descobrindo as coisas. E estar longe é ruim porque não sei se é fácil ganhar a vida lá sem vir para o Sudeste, mas é bom porque vocês se livram, aqui o comércio manda, faz parte da nossa cultura. Aqui o dinheiro fala alto, gira muito. Somente em São Paulo são 23 milhões de pessoas, então…
Gaby Amarantos — Já vi alguns DJs tentando produzir (tecnobrega), até fazendo coisas assim louváveis, mas…
Julio de Paula — Não chega.
Gaby Amarantos — Nem no dedo do pé.
Natale — A primeira aparelhagem tem 67 anos. No fundo, talvez a diferença que tenha do Calypso, por exemplo, que é uma coisa que foi inventada ontem, adaptada de um gênero, e o tecnobrega ou o brega, é porque o brega é da região. Na verdade, não tem como você tirar, é como você tirar o Ilê Aiyê da Bahia. Não tem jeito, tá ali impregnado.
Gaby Amarantos — Mas eu já vi algumas produções de funk carioca feitos por outros DJs que ficaram assim bem próximos. Acho que é uma música fácil de ser produzida. Se o Waldo Squash quisesse fazer um funk, ele podia fazer alguma coisa bem próxima do que é lá (no Rio de Janeiro), porque é uma música simples de se entender. O tecnobrega também é uma música simples, mas tem uma experiência que é o que preserva e protege a gente, que é a coisa do DJ da aparelhagem tocar pra multidão. Então, quando toca uma música, ele sabe qual a música que é gol e qual a música que não rolou o gol. Ele solta a batida e quando começa o solo a galera quebra tudo. Essa experiência da gente ir pra festa desde criança e saber “esse timbre aqui funciona, esse não funciona” é uma coisa que deixa a gente bem mais a frente das pessoas. Já me mandaram coisa do Rio, de DJ de funk que tentou produzir tecnobrega, que ficou com timbre de funk na batida do tecnobrega. Tem até alguns DJs que estão morando em Belém pra tentar…
Julio de Paula — Pra tentar aprender.
Gaby Amarantos — Pra tentar sentir isso, entender e ir muito pra festa de aparelhagem para poder chegar nessa coisa que a gente, tanto eu quanto o Waldo, escuta desde criança. Não quer dizer que não chegue. Gente, eu quero é que gravem! Não tenho essa coisa “É nosso, ninguém tem que tocar!”. Eu quero mais é que expanda e que a galera produza mesmo.
Max Eluard — Preciso interromper pra tocar a bateria.
Tacioli — E também não sei quanto tempo temos ainda de entrevista.
Max Eluard — “Gaby Amarantos, take um.”
Tacioli — São dez e vinte.
Dafne Sampaio — Qual é o deadline?
Tacioli — Diga pra gente, Gaby.
Gaby Amarantos — Mais trinta minutos tá bom?
Max Eluard — Não! [risos]
Gaby Amarantos — Mais trinta minutos pra eu sair daqui onze horas?
Tacioli — Tá.
Gaby Amarantos — Tá tranquilo?
Tacioli — Eu falei pra você que a coisa vai…
Gaby Amarantos — Né? O tempo…
Julio de Paula — O tempo passa e tem várias perguntas. Algumas mais… Só uma pergunta pessoal. Você falou dos ritmos…
Max Eluard — Peraí, peraí, só pra eu não perder…
Julio de Paula — Mas essa não vale.
Max Eluard — Vale. Todas valem.
Tacioli — Os offs valem.
Julio de Paula — É bom porque a gente come enquanto isso.
Max Eluard — Pra comer, quem quiser ir ao banheiro. Preciso tambémm trocar a bateria do gravador de áudio.
Tacioli — Quer alguma coisa pra comer?
Gaby Amarantos — Não, só quero ver onde está o meu carregador.
Max Eluard — Tá aqui na cozinha, Gaby.
Gaby Amarantos — Deixa eu ver, porque tá vermelho aqui e a pessoa…
Max Eluard — Tá azulzinho.
Gaby Amarantos — Tá azulzinho? Mas vou deixar lá…
[O fotógrafo Renato Nascimento se despede]

Gaby Amarantos — Pronto, gente! Agora tá carregando. O fotógrafo já fez foto bastante, já tá liberado. Eu até vinha com um figurino…
Tacioli — Qual figurino?
Gaby Amarantos — Eu vinha com um figurino com a cabeça, com um olho de pirata para falar de pirataria. Pensei, “Não, vai ser muito chegar lá (assim)!”.
Dafne Sampaio — Achei legal a sua camiseta.
Gaby Amarantos — É da Kumbia Queers.
Dafne Sampaio — É da Kumbia Queers? Ah, da Kumbia Queers, agora vi!
Gaby Amarantos — Eu as conheci no Rec-Beat esse ano.
Dafne Sampaio — Ah, mas você não foi tocar…
Gaby Amarantos — Não, fui somente pra curtir o festival, e elas cantaram no sábado, foi incrível. Já ficamos amigas, elas vão pra Belém em junho e vamos fazer um show juntas lá.
Max Eluard — Gaby, voltando pra história que a gente estava falando do funk e do tecnobrega, tem uma outra manifestação sutil do preconceito, quase fofa, que é quando esses ritmos são adotados pela elite como uma coisa exótica. Aquelas festas de bacana, todo mundo dançando, indo até o chão e tal. Como você vê e se relaciona com isso, de você virar produto de consumo pra essa galera, mas como uma coisa exótica, quase engraçada?
Gaby Amarantos — Olha, isso é uma coisa que já acontece comigo há um tempo. É engraçado, estava pensando nisso quando você fez essa pergunta, mas de uma forma diferente. Tem (caso) quando um produtor, um músico ou alguém do meio musical fala que aquilo é legal, e todo mundo acha legal porque o cara falou que é legal, e tem umas festinhas moderninhas, alternativas, de uma galera que acha que aquilo é engraçado e quer tirar sarro daquilo. No início, quando vi essas manifestações, comecei a saber: “Ah, tá rolando uma festa assim em tal lugar. A festa ‘Quero não-sei-o-quê, a festa…”. Esse povo está aproveitando consumir uma coisa que eles consomem de uma forma que eles acham que é certa, mas em vez de ir pra festa de aparelhagem, fazem a sua festinha de aparelhagem aqui, restrita pra os amiguinhos.
Dafne Sampaio — Sem precisar se juntar com aquele povo…
Gaby Amarantos — … com aquele povo todo! Já tiveram alguns eventos… [ri] Às vezes eu fico pensando muito em mim, porque sou uma pessoa tímida no dia-a-dia. Eu sou calada, falo com poucas pessoas. Eu tô falando muito agora porque eu preciso, mas eu sou muito calada. [risos]
Dafne Sampaio — Porque estão me perguntando…
Gaby Amarantos — Aí eu subo no palco e eu faço o que eu fiz ontem. Ontem foi um show em que a performance “Caramba! Foi outra coisa que eu senti!”. Aí eu estava numa festa dessas, era uma festa gay. Em Belém eu sou a rainha do movimento gay. Me adotaram: em todas as paradas gay eu toco. É um outro público, que é uma outra coisa difícil pra mim, de entrar num público cult, que é underground, que é alternativo, um público gay, eu tenho um público infantil, eu tinha um programa infantil em Belém…
Tacioli — Você teve um programa?
Gaby Amarantos — Tenho um público infantil.
Natale — Você teve ou tem?
Gaby Amarantos — Eu tive. Meu apelido lá é Xuxa do Jurunas. [risos] É um dos meus apelidos. Fiz show em Belém no ano passado. Tive que fazer duas sessões: uma às oito da noite, porque tinha alguém que queria levar criança, queria levar adolescente e não podia. Fiquei até às dez. Lá eu tenho esse público. Tem o público povão, que foi de onde eu vim, e tem esse público elitizado lá que tá começando a aceitar. E, caramba, não sei se tem algum artista no Brasil, se tiver, me ajudem a fazer essa reflexão, que consiga transitar em todos esses públicos. E isso não é fácil, porque eu me sinto pisando em…
Mauricio Pereira — Roberto Carlos…
Gaby Amarantos — Eu nunca vi o Roberto Carlos cantar num festival de rock.
Natale — Não, e nem em Parada Gay.
Gaby Amarantos — E nem Parada Gay.
Mauricio Pereira — É uma falha dele. [risos]
Gaby Amarantos — Pode ser corrigida, né?
Mauricio Pereira — Pode ser, ainda tem carreira. Nunca é tarde.
Gaby Amarantos — Por favor, não estou dizendo que eu sou mais popular que o Roberto Carlos, mas é uma coisa difícil pra eu lidar, porque eu ainda estou encontrando o público o qual pertenço. Por quanto tempo vou ficar transitando por todos?
Tacioli — Mas isso te preocupa na hora de trabalhar artisticamente, de saber quem é o seu público?
Gaby Amarantos — Eu faço músicas sem pensar especificamente em ninguém. Eu faço a música do jeito que eu gosto, aí ela acaba atingindo. Eu não (penso): “Vou fazer essa música para o público gay. Vou fazer essa música para o público cult”.
Natale — Gaby, você reflete muito sobre isso? Você está cada vez mais entrando, expandindo o seu público, a sua área de atuação e, no fundo, talvez seja quase inevitável pensar mais em estratégia de mercado. Por exemplo: vai ter que escolher entre esse show e aquele, você vai ter que, daqui a pouco, viabilizar outro tipo de transporte pra você chegar mais rápido, fazer mais shows.
Max Eluard — Quando eu perguntei da relação dela com esse público era um pouco nesse sentido, de como se relacionar e encontrar sua estratégia de existência.
Natale — Pelo ponto de vista filosófico, é uma estratégia até pra você se resguardar. Vou fazer um apêndice: não sei se alguém assistiu ao filme VIPs. Vocês sabem a história, do cara que fingiu que era o filho dono da Gol e as pessoas recebendo aquele cara de um jeito… Tanto é que ele dá uma entrevista depois em que fala “Escroto sou eu que menti ou foram as pessoas que me receberam bem porque acharam que eu era o que eu não era?”. É muito doido isso.
Gaby Amarantos — É muito doido.
Natale — Mas, de qualquer maneira, tem uma estratégia do ponto de vista emocional e tem uma estratégia do seu ponto de vista do negócio. Você é uma pessoa, você é uma artista que cada vez mais tem poder de arrecadar recursos financeiros pra você e pra sua equipe. Isso te apavora? Você se acha preparada pra isso? Você tem uma equipe que está amadurecendo tanto artisticamente quanto sob o ponto de vista da gestão da sua vida financeira?
Gaby Amarantos — Pela primeira vez aconteceu uma coisa comigo: aceitei uma pessoa vir a cuidar de mim. Eu sempre fui uma fera indomada. Sempre quis fazer tudo sozinha, não queria ter empresário. É um gestor de carreira, é um amigo pessoal, que já me conhece há muito tempo, e que já estava, de certa forma, observando isso e vendo uma forma de “Gaby, tu és muito difícil de se trabalhar”. O dilema: sempre trabalhei atrelada à pirataria e agora estou lançando um disco. “Cara, como é que eu vou fazer isso?”
Natale — Um bom dilema esse.
Gaby Amarantos — Gravadora? Vou lançar o meu disco eu mesma? Nunca gastei 200 reais para fazer uma música. Esse meu disco já está batendo os cem mil de investimento: disco profissional, que vai ser mixado, vai ter diretor e tal. Então, eu tô passando de um processo que era totalmente informal pra a profissionalização. Gravadora é um outro dilema. Não sei como é trabalhar com uma gravadora, quais são as vantagens…
Natale — Você assinou um contrato com a gravadora?
Gaby Amarantos — Não. Não assinei com ninguém, porque ainda tô analisando tudo, tem selo até internacional, porque estou numa coletânea. O cara manda e-mail pra mim sempre, manda DM, quer lançar o disco lá fora. Já tem uma galera interessada. E eu fico: “Gente, como vou lidar com isso?”. Isso é bem novo pra mim. Estou analisando muito. Primeiro, eu tô concentrada em deixar o disco pronto, porque não tem nenhuma previsão, mas espero lançar no primeiro semestre. É muita coisa nova, e na minha vida acontece isso, sempre vem uns retumbões que eu tenho que saber como lidar. Aí falei, “Cara, agora não vou dar conta sozinha. Preciso chamar alguém”. Aí o Marcel, que já é gestor…
Natale — O Marcel Arêde?
Gaby Amarantos — O Marcel Arêde que já estudou, que é muito bem relacionado nesse meio e tal. Tenho também não sei se é sorte ou consequência do meu trabalho, tipo, o Miranda vai em Belém pra ouvir todo mundo, e ele gosta do meu trabalho. O Hermano foi, ouviu, gostou (do meu trabalho). Pô, que bom que essas coisas acontecem. Os meninos do Móveis me indicaram pra tocar com eles no Rock in Rio. Sempre que vejo entrevista deles, eles falam de mim. Os meninos do Macaco Bong… Então, essa coisa de eu transitar nesses festivais, convenções, Porto Musical, em coisas em que vai se discutir música, sempre gostei da Feira da Música, me fez ter know-how para eu ir pesquisando porque eu sabia que uma hora esse negócio ia bater. “E agora? Eu você vai se profissionalizar ou você vai continuar nesse mercado informal.” E continuar a trabalhar com a Internet como aliada. Inclusive, a gente já fez o disco com faixas a mais: vamos lançar 11, mas gravamos 16. E essas extras são pra gente ficar trabalhando na Internet, porque eu preciso continuar aquecendo esse mercado que sempre me divulgou, mas também tenho que dar um jeito de trabalhar com uma gravadora. É tudo novo. Já tenho conversado com algumas pessoas, como o Miranda, que é alguém que tem experiência pra caramba, Kassin e Berna, que são meus amigos, Thalma (de Freitas), que já vieram desse esquema, Fafá (de Belém) é uma guru, uma pessoa com quem sempre converso, “Fafá, eu tô com uma dúvida aqui. Fafá me ajuda aqui? O que tu achas?”. É uma cantora que conseguiu se firmar num patamar das cantoras top do Brasil, que veio do Norte. Ela fala: “Olha, Gaby, eu não quero que você cometa os erros que eu cometi”. Ela tem um carinho, sempre está ali me pontuando. Procuro ouvir pessoas que são amigas, pessoas em que eu acredito. O Pedro é uma pessoa com quem eu sempre converso, gosto de trocar ideia. O Emicida é um cara que eu tenho conversado, a gente quer fazer umas coisas juntos. É parecida a coisa de onde a gente veio, ele também trabalha com um estilo que tem discriminação. Então, procuro muito ouvir. Eu sou uma pessoa muito reflexiva. O meu trabalho é um vício. Se eu não estou trampando, eu estou pensando. Ou estou trampando ou estou pensando. Coitado, o meu filho nem me vê.
Natale — Quantos anos tem seu filho?
Gaby Amarantos — Dois anos.
Natale — Ah, por isso que ela fala dois anos.
Gaby Amarantos — Dois anos! [risos] Meu filho tem dois anos! Gente, parece piada…
Max Eluard — Tá na hora de ter outro.
Gaby Amarantos — Não! Tá bom só esse. Deixa eu trabalhar, quero trabalhar mais.
Tacioli — Como ele chama?
Gaby Amarantos — Davi. E minha mãe é o meu suporte. (Ela) cuida dele. Eu sou mãe solteira. Ela é a gestora da minha vida. A minha família é muito boa. Minha irmã me ajuda; agora eu tô construindo a minha casinha, então é a minha irmã que cuida dela pra mim. Meu irmão cuida da minha habilitação, porque eu tô tirando habilitação. Minha mãe cuida (do Davi). Só para o meu pai não dou nada pra cuidar, senão ele vai tomar tudo em cachaça. [risos] Minha família é muito boa. Não é uma relação comercial, de empresa, não, é tudo informal, mas que me ajuda por amor e sabe que eu tô crescendo e ela está comigo também.
Tacioli — Você disse que o Rec-Beat foi um capítulo importante. O que essa exposição afetou sua vida cotidiana?
Gaby Amarantos — Eu tive o Davi. Quando fui cantar no Rec-Beat, o Davi estava com quatro meses, eu estava recém-parida. Estava numa fase deprê, não queria mais, estava pensando em largar o tecnobrega e ficar cantando em barzinho, estava pensando em voltar a estudar, porque esse negócio de música não tava dando. Isso antes de eu ter o Davi. Aí, de repente, o Davi nasce. E Davi foi o sol que trouxe tudo, trouxe toda a sorte, toda a vibe positiva pra essa fase nova. E esse lugar que estou almejando chegar — não quero muito, somente quero esse reconhecimento por esse movimento porque ele merece. Eu represento isso, mas por trás de mim tem dezenas de artistas que vêm trampando por isso. Então, não quero ser a rainha da cocada preta. O Miranda fala: “Tu és a ponta da lança. Tu és a responsável”. Me conscientiza muito pra não ter estrelismo, pra trazer comigo essa cena para que ela possa ser duradoura. E fazer um trabalho social no meu bairro, que precisa muito, que é uma coisa que eu preciso fazer…
Natale — Nesse sentido você se espelha um pouco no trabalho do MV Bill?
Gaby Amarantos — Ia falar do MV Bill agora, nesse momento.
Natale — É um modelo político?
Gaby Amarantos — É muito do que eu quero fazer, mas investimento em Belém pra qualquer coisa é praticamente zero. Apoio de governo é muito mais difícil; aqui ainda que se tem essa coisa de ter alguma ajuda até por lei, que esses caras já sabem como fazer, mas a gente tá caminhando. Eu sou uma artista que se posiciona, boto a boca no trombone. Quando tenho que reclamar, vou e reclamo. Sempre que tem alguma polêmica me chamam porque sabem que eu vou falar. Tento não me posicionar muito politicamente, que foi uma coisa que eu fiz da última vez e vi que não é legal, justamente pra poder fazer um trabalho social. Não quero ser política, não quero fazer nada, só quero ajudar um pouco o lugar de onde eu vim. E, terminando de responder aquilo que você perguntou ainda agora, eu vou cantar nessas festinhas alternativas e tiro sarro. “É engraçado! Vocês não gostavam de tecnobrega e agora tão tudo tremendo com o tecnobrega, né?”. Eu fico tirando uns sarros quando participo dessas festinhas porque eu gosto de participar e sou até mais exigente do que se eu estivesse em um outro evento. Até dou uma de estrela nessas horas e peço um monte de coisa somente pra tirar sarro dos caras e para respeitarem a coisa. [risos]
Max Eluard — E é engraçado que você faz isso e eles te respeitam mais, né?
Gaby Amarantos — Sim, respeitam mais. Ontem o menino falou, “Pô, a galera de uma festa tal quer te levar, mas eles estão juntando grana porque dizem que seu cachê tá caro”. “É pra eles juntarem grana mesmo!”
Max Eluard — Gastar a mesada do papai.
Gaby Amarantos — É pra juntarem a mesadinha, trabalharem pra pagar o meu cachê. É engraçado essa coisa. E eu tiro sarro, mas eu tiro um sarro porque é bacana que isso esteja acontecendo mesmo que seja dessa forma. O.K., ótimo, o importante é que a música esteja chegando e que eu chegue lá e mostre pra eles que não era um bicho de sete cabeças como estavam pensando.
Max Eluard — Mais uma pergunta sobre preconceito. Você falou dos seus ídolos, dos seus mestres, das suas referências, e são todos homens, como aqui, com seis homens te entrevistando. Como você lida (com isso)? Foi uma questão pra você em algum momento?
Gaby Amarantos — Não. Sempre tem cinco homens, mas tem uma mulher, como a Dona Onete, que é a diva da música paraense. Essa coisa de diva não sou eu; diva é a Dona Onete! Tem a Francis Dalva, uma cantora que teve um papel importantíssimo, que me ligou semanas atrás dizendo que estava passando dificuldades. Pensei, “A gente precisa de um Retiro dos Artistas em Belém”. Eu sempre fui a Gaby no meio da macharada, sempre tive amigos homens. Os amigos que confio são sempre homens. Tenho amigas também. E sempre tem aquela coisa de você (homem) estar conversando um assunto e, como tem uma mulher (na conversa), você não quer falar.“Ah, na frente da Gaby a gente fala!” Sempre tive essa relação com os homens. “A Gaby é da galera!” E eu digo, “Vocês tão pensando que eu sou macho também é?”, mas eu sempre tive essa relação com os meninos desde a época da igreja. O meu grupinho era eu, mais uma menina e tudo homem. O meu filho é homem, ainda bem, eu queria que fosse homem, não que eu não tenha essa relação também com mulher, mas os meus amigos de confiança são mais homens.
Tacioli — O nome Davi também vem da influência da…
Gaby Amarantos — Da Bíblia.
Tacioli — Hoje, como essa formação religiosa se manifesta no seu trabalho artístico? Ela te limita em algum aspecto quando você vai compor alguma coisa ou fazer uma dança?
Gaby Amarantos — Ontem eu entrei no Sesc de peito de fora. Pra mim é arte. Religião é uma coisa e arte é outra. Isso é um esclarecimento mais recente, porque se fosse na época da igreja eu não faria, ficaria neurada de fazer. Mas, se tiver que colocar um palavrão em uma música… Isso não quer dizer nada, porque tem muita gente que nasce em família de gente (religiosa) e vira doidão. O Dani fala uma coisa engraçada. Eu falo muito do Daniel, que é um amigo daqui e a gente tem uma história parecida.
Tacioli — Daniel Sampaio?
Gaby Amarantos — Daniel Peixoto. Ele fala uma coisa engraçada: “A Gaby é a única artista que eu conheço que é doida de pedra, maluca, e não cheira e não fuma nada”. Não que eu seja careta, porque eu já falei, “Dani, eu não curto mesmo!”. Não estou aqui pra dizer, “Não às drogas, porque eu abomino…”. Não, cada um com a sua onda, mas porque eu não curto, eu não preciso. Se eu cheirar alguma coisa, não sei o que eu vou fazer mais, porque eu já sou maluca no palco, faço umas coisas que nem acredito. E totalmente sóbria. Talvez a minha formação tenha ajudado: crack do lado de casa, boca, tudo na rua de casa, e eu não enveredei por essa onda porque não gosto. Mas, claro, eu tenho uma fé imensa. Sou uma pessoa que reza, sou uma pessoa que vai à igreja, que gosta de ficar de joelhos. Tenho uma relação mesmo com o Pai. Deus é uma palavra que eu não gosto, tem vários deuses, é uma palavra banalizada. Pra mim é um Pai e eu tenho uma relação de estar ali sempre, “Ai, Pai, socorro!”. Eu sou muito conectada, 24 horas, eu tô aqui pensando, mas tô pensando sempre em Deus. Eu vejo ele me observando. E eu gosto de ter essa relação e gosto de assumir. Agora, não vou para o palco cantar de peito de fora com strass na periquita e ficar pregando, falando de Deus. [risos] Pra tudo tem o seu momento. Se eu tiver que falar em algum momento, tudo bem, mas a hora que eu tô no palco é a hora da minha piração. Não vou ali pra pregar! Vou ali pra cantar pro povo pirar o cabeção.
Tacioli — Você não voltou mais pra igreja depois do sucesso?
Gaby Amarantos — Para cantar, não, mas a igreja eu frequento até hoje. A igreja é do lado de casa, no Jurunas. Eu vou a pé pra igreja. Sempre vou às missas! O padre já nem me olha feio porque a igreja ficou popular. Muita gente já foi fazer entrevista lá, matéria pra ver o lugar em que eu nasci. Hoje ele até sorri, já me abraça, “Gaby, vem aqui. Ela é a nossa estrela da igreja”.
Dafne Sampaio — Mudando um pouquinho de assunto…
Tacioli — A gente tem mais uns dez minutos.
Dafne Sampaio — Do ano passado pra cá que você está atingindo mais gente fora de Belém. Você tem algum receio de enfrentar um certo mal estar local? Algo como “A Gaby agora…”.

Max Eluard — Bateu asas, não é mais nossa.
Dafne Sampaio — É, a Gaby não é mais nossa
Mauricio Pereira — Como a Carmen Miranda quando foi aos Estados Unidos?
Dafne Sampaio — Isso, disseram que ela voltou paulistanizada. [risos] Tem algum receio disso?
Gaby Amarantos — Não! Eu sempre tive essa coisa de andar com a bandeira do Pará, vou com roupa com a bandeira do Pará, falo que eu sou do Pará. O Calypso faz isso, a Fafá faz isso, mas acho que faço de uma forma que eles (os paraenses) se sentem representados, não sei explicar como. Não tô dizendo que o que eu faço é melhor que o que os outros (fazem). Mas as pessoas (dizem), “Poxa, eu fico feliz que a Gaby tá indo. Tomara que ela vá, ela tem mais é que ir!”. Claro, tem os contras que são normais. Mas, por exemplo, o Twitter é uma ferramenta muito bacana, eu gosto por isso, por estar ali interagindo e tenho muitos seguidores que são do meu estado. As pessoas (escrevem): “A gente fica feliz quando te vê num programa, quando te vê numa entrevista. Fulano de tal estado me ligou falando que sua música estava tocando. Ah! Você tocou na posse!”. Nossa, quando eu toquei na posse, fui homenageada pela Ordem dos Advogados do Brasil de Belém com uma condecoração, porque eu tinha cantado na posse da Presidente e isso era uma coisa histórica. Então, já perceberam que a gente precisa mostrar essa cena.
Julio de Paula — Você cantou de roupa vermelha.
Gaby Amarantos — Cantei de roupa bordô.
Julio de Paula — É, bordô. [risos]
Gaby Amarantos — Não era vermelha, era bordô.
Julio de Paula — Vi num vídeo que estava meio ruim.
Gaby Amarantos — Era bordô.
Max Eluard — Sem contar que a Fafá cantou e imortalizou o Hino Nacional na morte do Tancredo.
Gaby Amarantos — Sim, sim. Cantoras paraenses fazendo a história.
Julio de Paula — Você falou um pouco como o resto do mundo te vê e tal. Acho que com bons olhos ou bons ouvidos, porque as pessoas não têm justamente o preconceito que a gente tem aqui. Até isso ficou bem claro naquela compilação Oi. Você tá lá, né?
Gaby Amarantos — Do Lewis. Tô na do Lewis e tô numa do (DJ) João Brasil. A gente gravou “Águas de março” em tecnobrega. [n.e. Oi! A nova música brasileira é uma compilação lançada em 2011pela gravadora independente inglesa Mais um Discos, do produtor Lewis Robinson, reunindo nomes como o de Instituto, Curumin, BaianaSystem, Burro Morto, Maderito e Gaby Amarantos]
Dafne Sampaio — Fiquei sabendo dessa história.
Gaby Amarantos — Será lançado agora segunda que vem, mas as faixas já estão disponíveis. [n.e. Disco Viagem ao mundo da Lua, produzido pelo DJ João Brasil, em que o DJ carioca Marcelinho da Lua remixa 13 faixas, incluindo “Águas de março”, com Gaby Amarantos]
Julio de Paula — E aí, você já tem algum retorno de fora?
Gaby Amarantos — A gente tá traçando um caminho pra gringa porque os caras têm uma mente mais aberta. E já está se falando bastante. Onde tem chegado (a música) tem chamado a atenção. Eu vejo um futuro muito bacana pro tecnobrega na gringa, até de ir e causar um rebuliço pra voltar com mais respeito para o Brasil. Aconteceu isso no Pará. Se eu sou respeitada lá como eu sou foi porque saí, conquistei programas, e aí eu voltei: “A Gaby agora…”. Então, acho que com o Brasil também vai acontecer isso. A gente está com conexão com gente de moda de Londres, estão querendo colocar música na pista, já estão querendo que eu vá tocar, abrir desfile de não-sei-quem e fazer shows em boates. E vai indo, vai indo, e quando vai ver, a coisa tá hypada. E as pessoas “Pô, aquela menina que era a Beyoncé está tocando na Europa”. Isso é normal acontecer e espero que aconteça mesmo. Estou vendo que a coisa está caminhando pra isso. A gente já tá se preparando. Tem umas sementes bacanas plantadas lá fora.
Julio de Paula — Outra pergunta que não tem nada a ver com isso. Você falou lá de ritmos. Você chegou a ver os Pássaros?
Gaby Amarantos — Sim, claro.
Julio de Paula — Cantou?
Gaby Amarantos — Eu já dancei Pássaros. Antes de cantar, eu tinha quadrilha junina e um grupo folclórico. Então, no grupo, a gente dançava todos os ritmos, desde os Pássaros ao Boi-Bumbá. Tem o Boi de Belém, tem o Boi de Parintins, tem o Boi do Maranhão. Sempre fui pesquisadora, nesse ponto eu estudei muito os ritmos paraenses, porque eu era educadora e dava aula sobre ritmos.
Julio de Paula — As músicas são lindas, né?
Gaby Amarantos — São lindas. E é uma cultura tão desvalorizada lá, tá bem abandonada. Eu pretendo pegar um Pássaro e gravar com tecnobrega, com uma batida. São esses resgates. Não posso chegar de uma vez. Eu tenho que ir aos poucos, chegando, porque o que eu quero apresentar para o Brasil é a riqueza que o Pará tem. “Pô, caramba, que legal que isso existe!”
Julio de Paula — São umas melodias super trabalhadas.
Gaby Amarantos — É lindo aquilo! Não sei nem se tem vídeo. Vou ver se tem registro até pra colocar…
Julio de Paula — Nunca achei.
Gaby Amarantos — Acho que não tem nada de registro.
Julio de Paula — Eu tenho duas gravações somente, duas canções.
Gaby Amarantos — Que é um absurdo! Você viu os bonequinhos cabeçudos?
Julio de Paula — Nunca vi nada, somente esses dois registros de áudio.
Gaby Amarantos — No Terruá eu vou avisar vocês. Acredito que vá rolar e também é lindo.
Dafne Sampaio — Vai ter Terruá em maio?
Gaby Amarantos — Vai ter Terruá em junho.
Dafne Sampaio — Junho.
Gaby Amarantos — Vai ser outra equipe. Eu fiz o primeiro e agora vai sair o DVD do primeiro junto com o disco. O Miranda quer lançar os dois produtos. E vai ter o Terruá 2, que vai ser em junho. Vai ser lindo!
Tacioli — Gaby, estamos nos finalmentes. Da mesma forma que você traçou uma linha evolutiva do brega, você consegueria traçar uma linha evolutiva do seu figurino?
Gaby Amarantos — Legal!
Tacioli — Da (época da) MPB, do Chibantes… Já tinha um figurino ali ou em que momento esse figurino surge? E como ele chega no que ele é hoje, em que desperta atenção para eventos de moda?
Gaby Amarantos — Bom, a MPB foi um processo pra eu avaliar: eu chamava atenção pela voz, cantava, mas as pessoas estavam ali no barzinho, me aplaudiam, mas não paravam pra me olhar. E eu queria que as pessoas ficassem me olhando. [risos] Eu usava roupas normais, mas pessoas não me olhavam. Aí comecei a sair da MPB. Já usava uns acessórios, umas coisas, mas não era um figurino…
Tacioli — Quais acessórios?
Gaby Amarantos — Se uma cantora normal usava uma pulseira, eu queria colocar três. Se usava uma flor no cabelo, eu queria colocar quatro, eu queria botar um jardim na cabeça. Mas era um desperdício fazer aquilo, então foi por isso que eu comecei ir pro palco. Eu não tinha grana para comprar a primeira bota. Aí começaram os meus figurinos. Peguei um couro de camurça, cortei, pedi pra costurarem o zíper e eu fiz minha primeira bota. Se eu tinha um vestido, eu ia e colava, customizava, quebrava vidro. Eu já fiz roupa com resto de carro, mas coisas que eu tinha que fazer porque não tinha quem fizesse, não tinham profissionais em Belém que fizessem esse processo. Aí veio a Tecno Show e fui podendo criar mais. Aí já tinha uma costureira que me ajudava e o figurino foi crescendo. A Tecno Show acabou e eu sou só Gaby Amarantos. De um ano pra cá, quando veio esse outro boom, eu comecei a ter condições de ter peças de estilistas e de chamar estilistas pra trocar ideia comigo, como Sandra Machado e Bruno Muniz. Hoje em dia eu canto com uma peça do Valério Araújo na cabeça, que é o estilista da Cláudia Leitte, da Daniela Mercury. Só não faz pra Ivete (Sangalo) porque tem a rivalidade das duas. [risos] Já me consegue roupa do Reinaldo Lourenço. André Lima já tuita comigo e quer fazer roupa pra mim. Hoje já tô chegando, mas não quero perder a minha essência de ter a coisa com a minha cara, de ter uma peça (minha). Eu sempre desenhei, desde criança. Eu tinha um caderno de desenho que era um caderno de estilista. Tinha um monte de roupa que eu já desenhava. Gosto muito de moda. Ontem um pessoal de um site de moda que foi fazer uma matéria comigo disse que eu sou a única cantora fashionista do Brasil. E falando sobre it girls e tal… [risos]
Dafne Sampaio — Ai, São Paulo!
Gaby Amarantos — Normal, né?! E sabe o que é legal? As pessoas puxam a pergunta e pensam que você não sabe. Acho que eu surpreendo um pouco por isso. “O que é it girl, Gaby?”. “Eu sei. É isso, isso e isso!” “Olha, ela sabe. Porra, pensei que ela não ia saber responder.” É normal! O Pedro (Alexandre Sanches) até brincou: na Virada (Cultural) me parece que eu vou estar no palco do Nordeste. Ele falou: “É bem São Paulo isso. Tem o palco do Norte, mas te colocam no palco do Nordeste, porque eles são burros e não sabem que o Norte…”. O Pedro Alexandre Sanches é quem fica mais revoltado. É bacana isso, mas eu sempre busquei ter a minha identidade. Não vou usar nada que Lady Gaga usa. É muito legal o que ela usa, mas quero usar o que ela faz. Quero usar um figurino do Valério, mas algo que tenha a ver comigo. Sempre tem um toquezinho meu. “Vamos tirar isso, vamos colocar aquilo!” Também gosto de costurar, de fazer as coisas.
Tacioli — Mas teve algum figurino dessa fase “Gaby costureira” não deu certo?
Gaby Amarantos — Tem umas trasheiras horrores lá em casa. Tem um baú! [risos]
Tacioli — Você foi dançar e…
Gaby Amarantos — Caiu? Já!
Julio de Paula — Não, foi tudo muito bem costurado! [risos]
Gaby Amarantos — De figurino que caiu, não, mas eu já caí muito no palco. Digo que se eu não cair no palco, o show não foi legal.
Mauricio Pereira — Salto muito alto, né?
Gaby Amarantos — Não, eu me libertei do salto alto agora. Não uso mais. Agora tô usando um outro estilo de sapato que é muito confortável e tô adorando. (Salto alto) não é saúde, ninguém merece usar aquele salto.
Natale — E nessa expansão dos negócios, você pensa em um dia ter uma grife?
Gaby Amarantos — Eu ia achar legal, mas eu quero me concentrar muito na música. Tive uma fase primeira em que estourei. Fui no Faustão duas vezes, em 2003 e agora. Então, na primeira, quando a coisa bombou lá e comecei a ganhar dinheiro, eu perdi tudo porque eu nunca tinha ganhado grana antes e comecei a gastar dinheiro com coisa que não devia, comecei a querer fazer e investir em não-sei-o-quê e acabei com o dinheiro e fiquei numa fase ruim pra caramba. Agora estou tendo a oportunidade de me capitalizar. Sei que tenho que investir muito na minha carreira e não tenho empresário com grana pra fazer isso, então eu que tenho que investir. E sei que preciso de um monte de coisas. Então, tô muito focada na carreira. Talvez, daqui a algum tempo, quem sabe… Já estou com um pessoal de uma grife de calçados que queria fazer um sapato com LEDs para comercializar… [risos] Um menino daqui me procurou pra fazer uma grife de roupas com luzes, fazer umas coisas com o cinto de castidade que eu uso com um cadeado na calcinha. “Não, vamos devagar. Deixa primeiro a música realmente acontecer…” E se tiver que rolar mais na frente, eu vou curtir pra caramba também.
Max Eluard — E o que é “realmente acontecer”, Gaby?
Gaby Amarantos — É o meu disco ficar pronto e, quando eu for tocar num show, que eu cante um hit que seja um hit meu, a música da Gaby. Que as pessoas me conheçam pela minha obra, que seja grande, que seja única, que eu seja uma hitmaker, mas que seja (a Gaby). Que eu tenha uma música que as pessoas saibam em qualquer lugar que eu vá, que pelo menos no meu país as pessoas conheçam o meu trabalho. E o meu trabalho não pela “Beyoncé do Pará”, mas que me conheçam pelo meu disco, pelo meu show. Que me avaliem depois de me assistirem. “Dá uma chance pra eu mostrar primeiro? Aí, depois, se vocês não gostarem, tudo bem, eu vou entender, mas deixa eu mostrar.” Quero fazer com que as pessoas entendam que o Norte existe lá no mapa, que não é o Nordeste. E que eu sou do Pará, que eu não sou da Paraíba. E que lá tem essa cena da aparelhagem com vários artistas. Que as pessoas olhem mais para cima e que percebam…
Natale — Essa ignorância geográfica é avassaladora.
Gaby Amarantos — Isso é muito complicado. E é uma coisa tão simples, né?
Julio de Paula — Uma bem fácil: como nasceu o seu nome?
Gaby Amarantos — Ah, legal essa, muito boa! O meu nome é Gaby Amarantos, meu sobrenome é Amaral dos Santos.
Dafne Sampaio — Amarantos é…
Gaby Amarantos — É uma junção…
Julio de Paula — Ela juntou os dois nomes…
Gaby Amarantos — Eu queria ser Gaby Amaral, mas e a minha família Dos Santos? Eu queria ser Gaby Santos, mas e…? Eu queria uma forma de homenagear…
Max Eluard — Mas Gaby Amaral e Gaby Santos não têm a força de Gaby Amarantos.
Gaby Amarantos — Não tem a força de Gaby Amarantos. É Gabriela Santos. Sou Gabriela! “Quando eu vim para esse mundo / Eu não me atinava em nada / Hoje eu sou Gabriela!” [risos] E tem o Gabi com “i”, porque era com “i”, e depois eu mudei o Gabi com “i” para “y”, porque teve um cara que fez uma numerologia e falou que o “i” era infantil, que representava uma fase sem sucessão, e o “y” seria o alfa e o ômega…
Natale — Ficou melhor.
Gaby Amarantos — Falei: “Com o ‘y’ ficou melhor, vou colocar”!”. Depois que eu mudei de Gabi com “i” para “y”, a coisa bombou.
Natale — Gente, eu vou colocar também.
Tacioli — Edyson!
Gaby Amarantos — O povo brinca lá, porque Calypso tem “y”, Gaby tem “y”, e que tinha que trocar o “i”, de açaí, e colocar “y”, que é para o açaí fazer sucesso. [risos] As pessoas brincam lá em Belém.
Tacioli — Gaby, muito obrigado pela entrevista. Tem alguma coisa que nessas dois horas você não falou? [risos]
Gaby Amarantos — Olha, já conversamos bastante. Agradeço a volta do Gafieiras, espero que continue.
Mauricio Pereira — Precisa ser Gafieiras com “y”. [risos]
Gaby Amarantos — Dou essa sugestão.
Dafne Sampaio — Faz dois anos que a gente não entrevista ninguém.
Gaby Amarantos — Pois é, sou pé quente, já falei.
Mauricio Pereira — É isso aí…
Gaby Amarantos — Dois anos? Tá vendo!
Dafne Sampaio — Bienal.
Natale — É primeira vez que eu participo de uma entrevista para o Gafieiras, então quer dizer que daqui dois anos posso ter a esperança de ser escalado de novo, é isso?
Julio de Paula — É.
Gaby Amarantos — Dois anos de sucesso.
Mauricio Pereira — Tenho uma sugestão pra uma entrevista nova de vocês. Ontem eu fui ao Boldrin [n.e. Programa Sr. Brasil, da TV Cultura, apresentado e dirigido por Rolando Boldrin) e cantei com o Roberto Luna. Ele já falou com vocês?
Tacioli — Não, não.
Natale — Você me dá uma carona?
Mauricio Pereira — Pode ser.
Tacioli — Gaby, obrigado.
Gaby Amarantos — Eu que agradeço. E em junho se puderem ir ao show da Virada. E vai ter o Terruá Pará.
Julio de Paula — Em junho é o Terruá Pará. É um festival?
Gaby Amarantos — É no (Auditório) Ibirapuera. É uma sequência de três shows: sexta, sábado e domingo mostrando a cena paraense.
Julio de Paula — E o Pio Lobato…?
Gaby Amarantos — Sim. O Pio é meu amigo pessoal. O Pio vai estar no Terruá Pará. Ele tem um trabalho incrível, é um gênio. Muito bom, incrível!

[Enquanto Max Eluard e Ricardo Tacioli recolhem os equipamentos, Gaby conversa com Julio de Paula, Dafne Sampaio, Mauricio Pereira e Edson Natale]

Gaby Amarantos — Queridos…
Natale — Obrigado.
Gaby Amarantos — Eu que agradeço.
Natale — Muita sorte. A gente se fala, né?
Gaby Amarantos — Sim, sim. Vocês tem o meu e-mail? Gaby com “y”.Você me segue (no Twitter)? Lê as besteiras que eu falo? Obrigado, viu?!
Mauricio Pereira — Muita sorte.
Gaby Amarantos — Obrigada.
Mauricio Pereira — Tem que aproveitar enquanto ela ainda pode andar de metrô, porque quando tiver aquela limusine…
Gaby Amarantos — Bem, Missy Elliot.
Dafne Sampaio — Quem vai descer?
Tacioli — Todo mundo vai descer?
Dafne Sampaio — Maestro…
Max Eluard — Cara, obrigado.
Gaby Amarantos — Não posso abrir a porta porque eu tenho que voltar.
Tacioli — Eu posso abrir a porta.
Gaby Amarantos — Então abra, sou supersticiosa.
Julio de Paula — Eu vou chamar o táxi.
Mauricio Pereira — Pra que lado você vai? Quer carona?
Julio de Paula — Eu vou para o centrão. Vocês vão pra lá ou para o outro lado?
Mauricio Pereira — Você vai de metrô?
Julio de Paula — Não, eu pego um táxi aqui.
Natale — Falou, galera, obrigado!
Mauricio Pereira — Até mais, cara.
Julio de Paula — Até mais.
Max Eluard — Tchau, senhores. Obrigado!
Julio de Paula — Tem um ponto de táxi aqui?
Max Eluard — Tem, sim. “Boa noite, amigo. Eu tô precisando de um carro aqui na Aimberê. Isso, é um prédio. Tá joia, obrigado!” Logo estará aqui.
Julio de Paula — Me chamem mais.
Max Eluard — Claro, sempre.
Julio de Paula — Na retomada.