HERALDO DO MONTE [2011]

Da viola à guitarra, de Dolores Duran ao Quarteto Novo e Grupo Medusa.

editor do gafieiras
Jun 14 · 78 min read
HERALDO DO MONTE: “O Brasil não tem uma linguagem de improvisação”. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

A máxima de que “se morasse nos Estados Unidos ou em algum país da Europa, ele seria rico” serve para Heraldo do Monte. Elogiado pelo guitarrista e jazzista norte-americano Joe Pass (1919–1994), que o considerou um dos maiores em seu instrumento, o músico nascido em Recife (PE) em 1o de maio de 1935 nunca pensou em cravar os pés fora do Brasil. Prefere até hoje ficar na zona norte de São Paulo, onde reside desde os anos 1960 com Lurdes, sua companheira de aventuras, decisões e lembranças.

Admirado pelos colegas de profissão e adorado pelos ouvintes de música instrumental brasileira, Heraldo do Monte não queria ser músico profissional. “Não falavam bem deles”, comentou nesta entrevista ao Gafieiras. Antes de assumir as cordas do violão, da viola caipira e da guitarra, tocou clarinete. Autodidata, construiu uma música que absorve e transforma o jazz, o clássico, a bossa nova e os ritmos nordestinos. Quando está em ação, seu toque e fraseado têm simplicidade e originalidade difíceis de se alcançar. É o solista que acompanha.

Sua ficha corrida registra participação em momentos importantes da música no país. Entre 1966 e 1968, com o Quarteto Novo, desenhou ao lado de Hermeto Pascoal, Theo de Barros e Airto Moreira uma nova linguagem de improvisação desapegada do jazz. O grupo colocou o Nordeste na pentagrama. Com o Medusa, conjunto também integrado por Amilson Godoy, Cláudio Bertrami e Chico Medori, colaborou para construir nos anos 1980 a história do selo Som da Gente, responsável por dois títulos de sua carreira individual, Cordas vivas (1983) e Cordas mágicas (1986). Antes disso, em 1981, com o cantador Elomar, o pianista Arthur Moreira Lima e o saxofonista Paulo Moura, levou o barroco, o clássico e o popular para o palco do Teatro Municipal de São Paulo com o espetáculo ConSertão. No ano seguinte, a empreitada ganhou registro por outro selo independente, a Kuarup.

Sua discografia é enxuta. Iniciada em 1961, tem menos de 20 títulos, contando com aqueles que lançou como integrante de grupo ou dividido coletivamente. Um deles, Guitarra brasileira (2004), explora um dos instrumentos que lhe deu fama. Em outro, compartilha com a cantora Teca Calazans canções de diferentes temporadas. Voz, violão e viola nordestina.

A entrevista a seguir foi realizada em uma noite de setembro de 2011 no apartamento de Max Eluard. Foi agendada pelo Facebook. Para ele, a Internet é uma ferramenta de trabalho.

Em duas horas de conversa, Heraldo do Monte tomou chá, lembrou das boates pernambucanas, da TV Tupi, de Walter Wanderley e Dolores Duran; resgatou Satanás, o músico, e Hermeto, outro sujeito endiabrado. Assistido por sua mulher, que o certificava das datas e dos nomes, o instrumentista estava à vontade. Assim, nada mais.




{…} expediente

produção Max Eluard e Ricardo Tacioli
entrevistadores Giovanni Cirino, Manu Maltez, Max Eluard e Ricardo Tacioli
fotos Jefferson Dias
registro audiovisual Manoela Ziggiatti
transmissão online Fellipe Ciccone
transcrição Fabiana Gallardo
edição de texto e texto de abertura Ricardo Tacioli
agradecimentos Eric Mantoani

Entrevista realizada em 14 de setembro de 2011, São Paulo/SP, residência de Max Eluard.


[Ricardo Tacioli fala sobre o Gafieiras enquanto o equipamento da entrevista é montado]

Heraldo do Monte — É um leque bem aberto.

Ricardo Tacioli — É. Nosso interesse é ouvir as histórias. Claro que a gente inova os temas, dá uma provocada, mas é um bate-papo. E essa entrevista pra gente é muito especial por dois motivos. Um, por entrevistá-lo, e outra porque é a primeira nossa transmitida…

Heraldo do Monte — Com imagem.

Tacioli — Com imagem para a web. A gente nunca fez. Então vamos ver como vai funcionar.

Heraldo do Monte — Principalmente porque o jogo é às dez. Eu estava preocupado rapaz. Ninguém vai assistir. Depois descobri que o jogo é às dez. [n.e. Realizado em Córdoba, na Argentina, o primeiro jogo da Copa Roca “Super Clássico das Américas” entre as seleções de futebol do Brasil e da Argentina terminou em 0 X 0]

Max Eluard — Chá do que você quer? Heraldo, chá do quê? Tem de boldo, cidreira, erva-doce…

Heraldo do Monte — Acho que de cidreira é legal, né? Quem gosta de cidreira? Só eu? Alguém mais quer chá?

Tacioli — Obrigado, Max.

Max Eluard — Acho que eu menti. Não tem de cidreira.

Heraldo do Monte — Olha que você tem aí?

Max Eluard — Tem camomila, erva-doce e hortelã.

Heraldo do Monte — Erva-doce.

Max Eluard — Hortelã?

Heraldo do Monte — Hortelã e erva-doce é uma parada dura. Hortelã!

Jefferson Dias — Vou ficar com o de camomila, Max, por favor.

[O fotógrafo Jeff Dias orienta Heraldo do Monte para a sessão fotográfica]

Jeff Dias — Pode abaixar um pouco o rosto. Dá uma olhada para dentro da cozinha. Isso! Agora, sem movimentar o rosto, olha pra mim. Ótimo!

Tacioli — Jeff, o Heraldo também trouxe o violão.

Heraldo do Monte — O violão para a fotografia…

Jeff Dias — Eu posso abrir (o estojo do violão)?

Heraldo do Monte — Pode. Isso aqui é a minha heraldola. Pode abrir. Isso aí era uma viola, mas depois disseram que ela não era uma viola.

Tacioli — Como assim?

Heraldo do Monte — Era uma viola. Mas aí eu coloquei uma… tá com seis cordas de [?] como se fosse um violão. Eu não gosto da viola porque… Alguém toca?

Giovanni Cirino — Toco.

Heraldo do Monte — Então, eu comecei a desgostar da viola quando fui fazer uma gravação. Você sabe que a viola tem duas cordas uníssono e o resto é oitavado. E o maestro, “Eu gostaria que você trouxesse uma viola”. Isso foi no tempo que a gente gravava muito. E tinha uma frase que você começava naquelas cordas de uníssono e depois pegava as oitavadas. E tinha uma frase que era quase uma escala…Estava escrito isso. Aí peguei a viola e… E na viola ficava…”Não foi isso que escrevi, Heraldo”. Mas você que pediu viola. Viola é um instrumento aleijado. É muito característico. Aí já comecei a dizer, “Esses instrumento não serve pra gravar”.

Cirino — Tocar junto fica difícil.

Heraldo do Monte — É, para esse tipo de coisa. O cara quer uma coisa específica. E não dá para…Você tem que oitavar mesmo. Você seguia tocando como se estivesse tocando qualquer outro instrumento e o som saia diferente. Aí era uma de dez. Eu tocava viola de dez, que é uma viola aceita. Aí eu estava ensaiando um negócio no Rio. Estava escrito um negócio assim… [Pega a viola para exemplificar] Como a viola não tinha a sexta corda. Olha o que eu tinha que fazer. Tinha que oitavar.

Cirino — Além de soar diferente, fica mais difícil.

Heraldo do Monte — Pois é. Você tá lendo e no reflexo ainda ter que oitavar o negócio.

Cirino — Às vezes a dicção do fraseado acaba mudando.
Heraldo do Monte — Pois é. Aí, pra quebrar esse galho, pra começar a ler as coisas mais sossegado, como se tivesse uma sequência de baixo, eu pedi, porque o cara fez pra mim de graça, Néris, um luthier de Campinas. Fez pra mim uma viola. Que é exatamente um corpo de viola, com madeira de viola, só que doze cordas. Para mim estava tudo certo. Porque eu continuava tocando viola e não tinha esse problema do baixo. Aí fui para fazer o Voa Viola [n.e. Projeto de mapeamento da viola no Brasil conduzido pelos pesquisadores e instrumentistas Paulo Freire e Roberto Corrêa. O Festival Voa Viola já teve duas edições, em 2010 e 2012]. Eu estava tocando essa viola não com essas seis cordas, mas com todas as cordas, com as doze, com as oitavadas e tudo. Eu estava passando o som e, de repente, uma pessoa fica de cócoras na minha frente. Eu com o microfone, sentado, e ela de cócoras com os olhos esbugalhados. “Não!” Era o curador do Voa Viola dizendo que a viola não podia ter doze cordas. Aí eu digo, “Meu Deus. O que é que eu faço?”. Pronto, não chamo mais de viola. Chamo de heraldola. Eu ponho as cordas que quiser, do jeito que quiser. Não é? [risos]

Tacioli — Heraldola…

Heraldo do Monte — Heraldola. Não é? Agora eu quero ver.

Tacioli — Ninguém enche o saco.

Heraldo do Monte — Só se tiver o Voa Heraldola.

Cirino — É aquela coisa do…tem um patrulhamento.

Heraldo do Monte — É, um patrulhamento. Ele disse que…Nesse show eu fui teimoso e fiz com ela. E o cara disse que o que tuitaram metendo o pau, porque foi ao vivo por Internet também. Era uma TV, acho que começou em Belo Horizonte. Disse que tuitaram metendo o pau em mim: que eu não podia, que não era doze, que tinha de ser dez. Eu comecei a dar entrevistas dizendo “Quando eu estiver tocando, vocês escutem a música e não fiquem contando as cordas”. Coisa estranha, o cara nem sabe o que eu toquei e ficou “uma, duas três…”. É um instrumento muito patrulhado.

Cirino — Porque tem um séquito de seguidores da tradição da viola que acaba…

Heraldo do Monte — É. O jeito é você fugir. Tô fora.

Tacioli — Subverter, tá certo.

Max Eluard — Heraldo, você toma chá puro, com açúcar? Como prefere?

Heraldo do Monte — Acho que puro. Nem sempre, mas agora eu quero.

Tacioli — Heraldo, você falou de futebol. Tirando o Corinthians, você torce pra quem?

Heraldo do Monte — Vem assim: Náutico, Flamengo, Santos. Náutico, Flamengo, Santos. De vez em quando eu empato comigo mesmo, ganho de mim mesmo, e assim vai. A Lurdes vai para o Sul. Eu fico por aqui. Náutico, Flamengo e Santos.

Tacioli — Você nasceu onde? Em Recife também?

Lurdes — Em Recife.

Max Eluard — E como é que chegou no Grêmio?

Heraldo do Monte — Pois é. Andou pra caramba, né?

Lurdes — De coração mesmo.

Max Eluard — Na hora que olha e identifica.

Lurdes — Olha e fala “esse é o meu”.

Heraldo do Monte — Tem umas posições que…Eu não estou com o Mal de Parkinson, não, aí eu me lascava. Não tocava nunca mais. Mas tem posição que fica engraçado.

Lurdes — É o cotovelo, né, meu bem?

Heraldo do Monte — Não, é o peso da xícara.

Manoela Ziggiatti — É pesada essa xícara.

Heraldo do Monte — E cheia de chá então…

Tacioli — E no Tucuruvi vocês moram há muito tempo?

Heraldo do Monte — Zona Norte desde que a gente chegou em São Paulo.

Max Eluard — Nos anos 50?

Heraldo do Monte — Bem fim dos anos 50, quase 60.

Lurdes — Cinquenta e nove.

Max Eluard — Naquela época era mais longe ainda o Tucuruvi. Hoje em dia não é mais tão longe. Antigamente era mais longe.

Heraldo do Monte — Naquela época tinha bondinho, né? Tinha bondinho. Ou tinha trem?Lurdes — Tinha bondinho que atravessava a Avenida Tucuruvi e ia lá para Cupu-Uva.

Heraldo do Monte — Como era o nome? [risos]

Lurdes — Cupu-Uva.Heraldo do Monte — Cada lugar de São Paulo, né?

Tacioli — E nessa casa que vocês estão faz muito tempo já?

Lurdes — Nessa uns três anos.

Heraldo do Monte — A gente muda muito.

Tacioli — Por que muda muito?

Heraldo do Monte — Pra essa casa a gente começou esses três anos. A gente estava vindo de dois anos em Recife. De vez em quando a gente muda pra Recife. Umas férias de um ano, dois anos, assim…

Max Eluard — Descansar de São Paulo um pouco.

Heraldo do Monte — Nossas férias são com móveis. [risos] Legal, né? Eu tenho uma porção de irmãos lá e amigos. Eu vim pra cá… Amigos de infância, de moleque. Eu vim pra cá adulto.

Cirino — Sempre quando você volta. Você sempre volta para o Tucuruvi.

Heraldo do Monte — Sim. Jardim São Paulo, Tucuruvi, Zona Norte.

Lurdes — Nossas filhas moram tudo lá no Jardim São Paulo.

Heraldo do Monte — Zona Norte.

Lurdes — E o Luís lá em Santos. [n.e. O guitarrista, compositor, produtor e educador Luís do Monte (SP, 1962)]

Heraldo do Monte — São Vicente, né?!

Lurdes — São Vicente.

Tacioli — Max, o Fellipe já está chegando na Vila Madalena. E o Eric falou que vai chegar dez para as oito.

Max Eluard — Eu vou ligar a câmera, então.

Tacioli — Tá bom. Eu trouxe uns petits fours.

Heraldo do Monte — Petits fours?

Tacioli — É, petits fours. Uns docinhos, sei lá… Docinhos, não, salgadinhos.

Heraldo do Monte — Petit four. Como é que escreve four? [risos]

Max Eluard — Acho que é fo-ur, né?

Heraldo do Monte — O-U-R?

Max Eluard — É. O-U-R.

Tacioli — Heraldo, tem mais um (entrevistador a caminho)… É o Manu
Maltez. Ele é músico como o Giovanni, desenhista e agora escritor também. Acabou de lançar um livro infantil. Daqui a pouquinho ele está aqui e a gente começa pra valer.

Heraldo do Monte — Tá legal.

Tacioli — Li que você ouvinte da Rádio Cultura. [n.e. Emissora mantida pela Fundação Padre Anchieta, a antiga Rádio Cultura AM (1200 kHz), atual Rádio Cultura Brasil, tem programação dedicada à música brasileira]
Heraldo do Monte — Sou.

Tacioli — O Vilmar Bittencourt, que é da Rádio, viria hoje também.

Heraldo do Monte — AM?

Tacioli — É, da Rádio AM.

Heraldo do Monte — Rapaz, eu tô com um problema lá onde eu moro. Não tô pegando a 1200.

Tacioli — Não pega, né? Ali é…

Heraldo do Monte — Tucuruvi.

Tacioli — O jeito de ouvir é pela Internet, Heraldo, porque a antena dependendo do lugar em que se está na cidade…
Heraldo do Monte — A FM pega que é uma beleza. [n.e. A Rádio Cultura FM (103,3), também da Fundação Padre Anchieta, é voltada à música clássica]

Cirino — Fica até melhor pela Internet.

Tacioli — Pra ouvir a rádio? Ah, sim, o sinal é limpo.

Heraldo do Monte — Além do sinal limpo, parece que ela vem em estéreo. Transmite em AM, que é mono, mas na Internet ela vem estéreo.

Tacioli — Ouvi a entrevista que a Lia Machado fez contigo. Foi no ano passado? [n.e. Para o programa Todos os sons, da Rádio Cultura Brasil]

Heraldo do Monte — Foi no ano passado, não foi?

Lurdes — Foi. [Heraldo ri]

[Heraldo mostra as fotos do acervo pessoal que trouxe para a entrevista]

Heraldo do Monte — Ela era a rainha do tempo….

Lurdes — Tô ficando velha. [risos]

Heraldo do Monte — Pois é, agora nem eu, nem ela. Tem que pesquisar onde foi e colocar a data atrás das fotos.

Lurdes — Tem algumas coisas que me eu lembro.

Tacioli — Quanto tempo juntos?

Heraldo do Monte — Cinquenta e…

Lurdes — Cinquenta e três anos de casados.

Tacioli — É? De casado?

Lurdes — E dois anos de namoro e noivado.

Heraldo do Monte — Prelúdios. [risos]

Tacioli — Cinquenta e cinco anos.

Heraldo do Monte — Ela vai em todas as viagens. A única que você não foi, foi a da França, né?

Lurdes — Foi.

Heraldo do Monte — Não tem foto da França aí, não. A gente foi com o Edu Lobo e o Quarteto Novo.
Lurdes — Naquela época eu estava sendo mais mamãe.

Tacioli — Quantos filhos? O Luís…

Heraldo do Monte — O Luís, a Neide, a Gisele…

Lurdes — Tem quatro, mas o Heraldo já tá no andar de cima. Ficaram somente as duas meninas e o Luís.

Tacioli — E o primogênito quem é? O Heraldo?

Lurdes — Era o Heraldo. Morreu em 95.

Heraldo do Monte — Fumava demais.

Lurdes — Fumava demais.

Tacioli — Ah, é?

Lurdes — Faleceu a um mês de fazer 35 anos.

Heraldo do Monte — Alguém fuma demais aqui?

Max Eluard — Eu fumo bastante.

Heraldo do Monte e sua esposa Lurdes. Foto: acervo HM

Tacioli — E você já fumou Heraldo?

Heraldo do Monte — Não, nem maconha, bicho! É uma vergonha! É uma vergonha! Nunca fumei maconha. Não é uma vergonha? [risos]

Lurdes — Ai meu Deus do céu! [silêncio] Eu fumei, né?!

Heraldo do Monte –Maconha?

Lurdes — Não maconha!

Tacioli — Revelações.

Lurdes — Naquela época eu fumava dois maços de cigarro por dia. E ele: “Nunca mais você vai parar”. Falei, “Não? Tô parando agora”. Parei.

Heraldo do Monte — Ainda bem que você tem essa personalidade.

Lurdes — Eu tenho bronca de quem fala “Não é capaz”. Se a gente quiser a gente (consegue)… Na hora eu joguei o cigarro fora. Foi a melhor coisa que eu fiz.

Cirino — Cigarro é terrível. Eu fumo também. Eu sei como é.

Lurdes — Meu filho tá fumando tanto. Ele parou três anos.

Heraldo do Monte — Tem umas exceções. Eu conheci uma senhora bem velhinha que fumou a vida inteira e demorou a morrer que só a gota. Era muito velhinha. Ela fazia carteado com um bocado de viciado também. Ficava naqueles ambientes fechados. Todo mundo fumando e ela… Cada organismo (é de um jeito)…Tem organismo que aguenta até oitenta e tantos anos, 90, 100, sei lá.

Lurdes — O chato é que ele parou três anos.

Cirino — E voltou?

Heraldo do Monte — Isso é meio burrice, né?

Lurdes — É burrice mesmo.

Heraldo do Monte — É um troço tão difícil parar três anos.

Lurdes — Mas agora eu não falo mais nada. A última coisa que falei pra ele foi “Olha aqui (…) se você for para os cafundó…”, não foi isso?

Heraldo do Monte — Ela falou coisa pior: “Pra casa do…”

Lurdes — Pra casa do caralho… [risos] “Se você quiser ir pra casa do caralho, eu não vou estar mais viva, então, que se dane!” O que eu ia fazer, né? “Mas, mãe…”. “É isso que você ouviu!” E não falei mais nada. Cada vez que eu vejo ele fumando, me aperta (o coração) sabe…

[Equipe faz últimos ajustes nos equipamentos]

Heraldo do Monte — Não é nada religioso a pessoa saber que quando morrer vai pra casa do caralho.

Lurdes — Não é?! É terrível.

[Chega Fellipe Ciccone, responsável pela transmissão web da entrevista]

Tacioli — Entre! (…) Senhoras e senhores, Fellipe Ciccone.

Fellipe Ciccone — Olá, boa noite.

Heraldo do Monte — Cadê o apresentador? Como é seu nome?

Ciccone — Fellipe.

Heraldo do Monte — Oi, Fellipe, tudo bem?

Fellipe — Tudo. Boa noite… Ufa, cheguei!

Max Eluard — Quer deixar a mochila no quarto, Fellipe?

Ciccone — Beleza.

Cirino — Aquele é um instrumento japonês? [Apontando para uma das fotos]

Heraldo do Monte — É japonês. Tem o nome atrás: shamisen. [n.e. De origem japonesa, este instrumento de três cordas também conhecido como sangen é geralmente fabricado com couro de cobra, gato ou cachorro,
e seu formato e som lembram o do banjo]

Cirino — Não sei como se pronuncia.

Heraldo do Monte — Deve ser mais ou menos assim… Como não está em japonês deve ser shamisen.

Cirino — “Shamisen” ou “shamizen”?

Heraldo do Monte — Acho que é shamisen. Devia ter dois “s”.

Cirino — Três cordas?

Heraldo do Monte — É. E sem traste, rapaz. Pra afinar é difícil.

Cirino — Você lembra o que estava gravando?

Heraldo do Monte — Foi uma encomenda do governo de Natal. Eles pediram para colocar música numa poesia de Câmara Cascudo, que é de lá de Natal, que falava do amor de uma moça, uma japonesa, uma coisa assim. Lembra dessa poesia? Talvez não. Eu também não. [O poema “Kakemono”, do jornalista, folclorista e advogado Luís da Câmara Cascudo (1898–1986) ganhou melodia de Heraldo do Monte e foi interpretada por Paulinho Boca de Cantor]

Cirino — Não conheço, não.

Heraldo do Monte — Aí eu fiz a música.

Cirino — Em cima da temática pôs o instrumento.

Heraldo do Monte — Coloquei o instrumento para realçar a coisa da japonesinha. O cara me emprestou o shamisen uns dias antes da gravação pra treinar a afinação, calcular onde era.

Cirino — Foi difícil?

Heraldo do Monte — Olha, eu pensava que era mais difícil. Na hora de pegar você vê que não é. Foi legal. Compus a música e botei a letra na poesia do Câmara Cascudo…

Heraldo do Monte gravando com o shamisen. Foto: acervo HM

Cirino — A letra é a própria poesia?

Heraldo do Monte — É a poesia. E a gente gravou lá.

Cirino — Que legal.

Heraldo do Monte — Nunca mais eu ouvi essa gravação. A encomenda foi feita. Eles não me deram mais satisfação, somente pagaram.

Jeff — Heraldo, você tem ciúmes do instrumento? [sem querer, bate o instrumento na mesa]

Heraldo do Monte — Não, pode pegar. Já viu que eu não tenho, né? [risos] Pode pegar. Essas cordas são muito levinhas. Tem que tocar bem, senão desafina. Não é que ela desafina; ela desafina com o dedo, qualquer pressãozinha ela…

Jeff — Dá até medo de continuar aqui. O tamanho de uma viola é sempre esse?

Heraldo do Monte — Não, tem de diversos tamanhos. Tem uma que tem uma cintura bem pronunciada. Tem outras menores do que essa. Tem aquela de cocho…

Tacioli — De cocho, com corda de nylon.

Heraldo do Monte — De nylon também. Só não pode ter doze cordas, senão… Que coisa, né? E esse daí não é um violão folk americano, que eles (do festival Voa Viola) tinham medo que fosse… A única coisa que não é da viola é o mizão [n.e. A corda Mi, grave], que é oitavado normalmente. Eu tirei não sei porquê. Logo logo volta. Eu gosto tudo oitavado ou nada oitavado, pra não haver discrepância. Às vezes eu penso em fazer uma afinação que coloque na primeira corda…Vai ficar um instrumento em Mi bemol, um tom e meio acima da afinação normal. Pega o Solzinho oitavado e põe como prima, depois pega o Si oitavado… Aí fica tudo oitavado. Fica Sol, Ré, Si bemol, Fá, Dó, Sol. Uma afinação de violão: Sol, Ré, Si, Fá, Dó, Sol. Aí, pronto. Tá tudo oitavado. Não tem discrepância nenhuma. Ou então põe tudo uníssono.

Cirino — E pra montar um acorde fica também difícil?

Heraldo do Monte — O quê?

Cirino — Se for tocar um acorde…?

Heraldo do Monte — Ah, sim. Quando é o normal dela, o tradicional.

Cirino — As afinações de viola também são um capítulo a parte…

Heraldo do Monte — Rio acima, rio abaixo…

Cirino — Tem uns puristas que são…

Heraldo do Monte — São terríveis.

Cirino — São terríveis.

Heraldo do Monte — Eu tomei um susto quando o cara estava abaixado ali (na minha frente) com aquele olhar de terror, olhando para as cordas da viola. Ele era o curador…

Cirino — Contando as cordas…

Heraldo do Monte — É o Roberto Corrêa. [n.e. Violeiro, compositor e pesquisador nascido em Campina Verde, MG, 1957] Ele escreveu milhares de livros sobre viola e viu toda a teoria dele indo por água abaixo.

Max Eluard — Vou colocar as fotos ali pra gente escanear, Heraldo.

Heraldo do Monte — Tá.

Max Eluard — Heraldo, você pode voltar para cá, por favor?

Jeff Dias — Heraldo, por favor, a cadeira um pouquinho mais para trás; pode permanecer no mesmo lugar.

Heraldo do Monte — Preguiça de levantar. Tá bom assim? Muito relaxado?

Jeff Dias — A mão direita aqui… Isso!

Heraldo do Monte — Tá meio virado.

Jeff Dias — Pode girar o corpo mesmo e trazer os pés mais pra cá.

Heraldo do Monte — Essa foto tá meio retrato de documento.

Tacioli — Três por quatro. Levanta o queixo.

Jeff Dias — Só não pisca, por favor. Pode abaixar um pouco mais o queixo. Na verdade, traz as suas costas pra cá. Não fica encostado. Assim! Perfeito! Só um instante.

Heraldo do Monte — Continuo pra lá?

Heraldo do Monte posa com sua Heraldola antes da entrevista. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Jeff Dias — Olhando pra mim. Traz o rosto um pouco pra cá. Isso! (…) E agora aquela coisa: em vez de encostar na cadeira, traz o seu corpo um pouquinho mais pra cá. Perfeito!

Tacioli — A Lurdes está gostando, Heraldo. Agora faz uma careta!

Jeff Dias — Vou te pedir uma coisa mais chata.

Heraldo do Monte — Diga.

Jeff Dias — Para você sentar nesse banco.

Heraldo do Monte — Ao lado da heraldola? Fica quieta!

Jeff Dias — Você pode colocar a heraldola no chão e segurá-la?

Heraldo do Monte — Entre as pernas não, né?

Jeff Dias — Pode ser.

Heraldo do Monte — Pode botar o queixinho aqui?

Jeff Dias — Pode. Vira um pouco pra lá. Mas o olhar ainda em mim. Perfeito!

Heraldo do Monte — Esses óculos não estão dando reflexo?

Jeff Dias — Não.

Heraldo do Monte — Preciso trocá-lo.

Jeff Dias — Obrigado.

Heraldo do Monte — Tem que dar reflexo, né?

Tacioli — Se não der não tem graça.

Heraldo do Monte — Alguma coisa tá errada.

Tacioli — Você fez algum pacto pra tocar viola, Heraldo?

Heraldo do Monte — Rapaz, me deram um negócio de cobra. Falei: ”Quem foi que me deu?”. “Um violeiro lá de…” Como é o nome para o lado de Goiás?

Lurdes — Chapada dos Veadeiros.

Heraldo do Monte — Chapada dos Veadeiros. Teve um treco de viola lá e aí o cara me deu um negócio de cobra, de rabo de cobra.

Tacioli — O guizo da cascável?

Heraldo do Monte — É. “Bicho, não aceito porque eu soube que isso dá um azar desgraçado!”

Tacioli — Últimos ajustes aqui, Heraldo. E a gente já vai…

Heraldo do Monte — Tá legal. Como está o áudio?

Max Eluard — Fala só um pouquinho, por favor

Heraldo do Monte — Alôs, alôs, alôs!

Max Eluard — Tá ótimo, tudo certo.

Tacioli — Fellipe, tudo certo? Estamos ao vivo para todo o Brasil? (…) Heraldo quando eu te mandei o e-mail, logo você respondeu. Você gosta de Internet? É você mesmo que pilota o computador?

Heraldo do Monte — Sou eu mesmo. Eu gosto, eu gosto. Quando eu tenho uma dúvida eu ligo para o meu filho lá em São Vicente. Ele esclarece logo.

Tacioli — Facebook também é com você.

Heraldo do Monte — Comigo. Eu não sei quem fez o meu (perfil no) Facebook. Não foi nenhuma das pessoas conhecidas. Tanto é que está Heraldo Do, com “D” maiúsculo, Monte. Mas eu gostei. Seja quem for, obrigado.

Tacioli — Aí tem um intermediário, mas o restante é direto com você.

Heraldo do Monte — Minha filha disse, “Pai, você tem um Facebook!”. Então vamos nessa! “Foi você?”. “Não”. Eu gostaria de saber quem é e de agradecê-lo.

Tacioli — Heraldo, a Internet pra você foi um grande barato? Você gosta de navegar, de descobrir as coisas, de ouvir músicas pela Internet?

Heraldo do Monte — Gosto, gosto. Sem fazer propaganda, mas já fazendo, tem uma rádio, que não sei se é do Canadá, em que você escolhe a música por instrumento, por gênero e fica ouvindo somente aquele instrumento ou aquele gênero. É muito bom! Às vezes, quando vou para Joinville, os caras de lá dizem: “Heraldo, não tem dinheiro pra trazer o seu pessoal, mas tem uma turma aqui que lê música e tudo”. Então, peguei minhas partituras e mandei por e-mail. Que facilidade, né? Cheguei lá e os caras eram bons mesmo. O primeiro ensaio já parecia que eu tinha passado umas dez vezes.

Cirino — Dá uma boa agilizada, né?

Heraldo do Monte — Uma utilidade muito grande, senão eu teria que colocar tudo debaixo de braço, levar lá e aí eles iam começar a ver (as partituras). Mandei muitos dias antes. É muito bom! A Internet é um negócio.

Tacioli — Heraldo, quase sempre a gente começa perguntando de lá de trás, de quando tudo começou. Qual é a sua primeira lembrança musical, aquela mais remota quando você pensa em música? Ou melhor, quando pensa em sons, quais são os sons que vêm à cabeça quando você era menino?

Heraldo do Monte — Eu lembro de quando eu morava num bairro bem pobrezinho chamado Mustardinho, lá em Recife. Lá tinha muita gafieira e eu escutava muita música quando ia dormir… É engraçado, o vento traz a gafieira A, a gafieira B… É engraçado! Então, era Jacob do Bandolim, que eu escutava muito nesse tempo, que eles tocavam muito nas gafieiras. Era Luiz Gonzaga, Pixinguinha e Benedito Lacerda. Tanta gente boa. Jamelão com orquestra…

Tacioli — Isso quando?

Heraldo do Monte — Eu era super menino mesmo, sei lá, tinha uns 7, 10 anos…

Tacioli — Anos 40.

Heraldo do Monte — É. Eu lembro que veio parar na minha mão, não sei como, uma gaitinha que tinha uma oitava só. Foi o primeiro instrumento mesmo, de moleque. Com aquela gaitinha só dava pra tocar “Asa branca”, porque tem uma extensão pequenininha e não tem nota, não é cromática, e uma (outra) música que fazia sucesso na época, “Oh! Susanna”. Foi meu primeiro barato com música.

Dia da Bandeira, 1951: registro da Filarmônica em que Heraldo (3o da dir. p/ esq., atrás do bumbo) começou a tocar clarinete. Foto: acervo HM

Tacioli — Como era sua formação familiar e como chegava o som em casa?

Heraldo do Monte — Então, na minha família nenhum deles era musical, a não ser meu pai, que não conheci muito bem. Ele era trombonista de uma banda militar lá de Recife. Fora isso, somente o pessoal do bairro. Mas aí fui estudar, fui fazer o tal do ginásio numa escola técnica lá de Recife chamada Escola Industrial de Pernambuco. Andava a pé pra caramba pra chegar lá. Lá era assim: de manhã, o ginásio; à tarde, profissão. Eu fazia Desenho Artístico. E estava somente nessa. De repente, houve uma reunião no pátio da escola: “Quem quer tocar na banda?” A escola tinha uma orquestra. Eu entrei na fila. A gente foi para uma sala com o maestro Mário Câncio, que foi regente da Sinfônica de Recife. [n.e. Maestro e soprista, Mário Câncio Justo dos Santos (1927–2008) é um dos criadores do Centro de Educação Musical de Olinda e da graduação em música na Universidade Federal de Pernambuco] Tocava muito bem fagote. Era um musicão. Musicão?! Existe isso? Ele chegava: “Fulano, canta uma escala de Dó”. Todo mundo, já por intuição, sabe dar uma entoada. Aí o cara entoava. Eu entoei a minha também. Fui para o lado de cá. Quem não conseguia de cara entoar a tal da escala de Dó ficava. A partir daí a gente começou a estudar música e teoria com o Mário Câncio. Eu fiz solfejo cantado, leitura musical. Ele escrevia os exercícios e a gente começava…Ele não pedia pra você comprar um método na loja porque você decora-se todas as lições. Aí você não lê mais, está mais ou menos decorado. Então, nessa época, o que ele fazia? Ele improvisava! Ele improvisava as lições, escrevia na hora (as lições). Teve uma época em que ele ficava maluco, porque enquanto estava escrevendo, eu já começava a cantar o treco lá. Ele olhava pra mim, meio satisfeito e meio irritado, e aí escrevia uma bem (lição) difícil. “Tá bom, vou estudar!”

Cirino — Foi aí que você escolheu o clarinete.

Heraldo do Monte — Sim. Eles escolheram pra mim. Era o que estava faltando na banda. “O que é que está faltando na banda?” Já estava montada quase a banda toda. Primeiro começou: “Tá faltando uma pessoa pra tocar requinta”. Aí eles me deram uma requinta, que é um clarinete pequeninho, agudo. Começou todo mundo a estudar e eu estudando a requinta. E não conseguia tirar som. Acho que essa história é pouco conhecida. Depois de um mês, o Mário Câncio chegou e (disse): “Heraldo, faz uma escala”. Já estava com a autoestima lá embaixo. Ele era um tremendo músico, tocava instrumento de palheta e tudo. Mas alguma coisa me acordou e falei: “Maestro, por favor, tira essa escala…”. Aí ele começou a tocar igual a mim. “Não precisa me imitar!” A gente olhou e tinha uma bolinha de papel dentro (da requinta). Aí a gente tirou a bolinha de papel. O meu primeiro dia foi nesse dia, um mês depois de todo mundo. O culpado era um cara que, na hora do recreio, (sacaneava) o seu sapato e depois todo mundo ficava tirando sarro. Ele era um tremendo saxofonista! O nome dele é Demétrio. Ele até está meio doentinho. [n.e. Demétrio Santos Lima, saxofonista de orquestras e big bands, criador do quinteto de saxofones Sax Brasilis]

Tacioli — Você não deu o troco nele?

Heraldo do Monte — Não. Eu o admirava muito tocando. Eu o perdoei depois de uns anos… [ri] Depois eu volto… Fui convidado pra ser fundador da Jazz Sinfônica. [n.e. Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo foi criada em 1989 durante o governo estadual de Orestes Quércia. Foi idealizada por Arrigo Barnabé, então assessor do secretário de cultura, o escritor e jornalista Fernando Moraes. O maestro Cyro Pereira (1929–2011) foi o principal regente da companhia] O primeiro ano eu toquei lá, depois cansei. E adivinha quem está de primeiro alto lá? Demétrio! [ri] Falei com uns colegas meus de trompete: “Aquele é o Demétrio?” “O quê? Satanás? É!” [risos] Comecei a tocar requinta na banda, depois fui para o clarinete…

Tacioli — Nessa época, o que representava pra você a música? Participar de uma banda dava um status na cidade, ali no bairro? Perdoe-me Dona Lurdes, mas o mulherio, as meninas o viam de forma diferente?

Heraldo do Monte — Eu ainda estava meio adolescente. Era muito tímido, muito na minha, era quase patológico. A gente tocava… Depois a banda foi progredindo e a gente tocava, não sei pronunciar, “Tannhäuser”, de Wagner. E era muito difícil porque a banda não tinha violinos. Os clarinetes faziam toda a parte de violinos, que é brasa. Aí comecei a progredir no clarinete. A gente tocava a “Protofonia”, do Guarani, que não se resume a esse pedacinho que tem na Hora do Brasil. É um negócio lindo! A gente tocava tudo. Naquela foto que te passei da orquestrinha — não era aquela da escola — depois comecei a ensaiar com essa. Era perto do Teatro Santa Isabel, lá de Recife, chamado Liceu de Artes e Ofícios. Eu comecei a fazer parte daquela banda. Depois de um certo tempo comecei a estudar, me interessar por instrumento de corda. Comprei um violão. Não era bem violão; eu já não gostava das coisas convencionais. Era um violão acústico, não era elétrico, mas tinha aqueles “f” em vez de ser o buracão do violão. Tinha os “f”. Eu comprei aquele treco e comecei (a tocar), só que eu não sabia. Só sabia que o violão era Mi, Si, Sol, Ré, Lá, Mi. Do agudo para o grave. Era a única informação que eu tinha. Não sabia nem um acorde. Nada, nada. Não tinha convivido com violonistas. Peguei o método do clarinete, que tinha uma escala cromática do clarinete. Comecei sozinho nisso. “O primeiro traste deve ser meio tom. Mi, Fá, Fá sustenido, Sol.” Comecei a decorar as notas do Mi, do Mizão. Como era a mesma corda Mi, já sabia as do Mizinho. Aí comecei a fazer as notas do Lá e, assim, de todas as cordas. Sabia a escala como se fosse um clarinete. Um clarinete em cada corda. O meu primeiro acorde de Dó maior foi feito assim: Dó maior é Dó-Mi-Sol-Dó, que eu já sabia, eu já arpejava no clarinete. Aí comecei: Lá, Lá sustenido, Si, Dó, na corda Lá. Aí no Ré, Ré sustenido, Mi… Lembro muito bem disso. Aí o Sol já está solto, o Si aperta meio tom. Dó, Mi, Sol, Dó. Foi a minha primeira [?], porque eu só arpejava. Dó, Mi, Sol, Dó. Daí comecei a montar os outros acordes, mas com muita teoria. E até hoje isso me ajuda porque (quando estou) improvisando eu sei cada nota que estou dando. Se eu já tocasse antes e fosse aprender [?] depois, talvez não tivesse tanta (desenvoltura)… “Isso aqui não é o terceiro traste, isso aqui é tal nota.” Foi muito bom por isso.

Tacioli — Você nunca mais tocou sopro?

Heraldo do Monte — Não, rapaz. Eu estava tocando num show do Hermeto na TV Cultura e depois do programa a gente saiu pelo corredor. Não sei se eles têm esse vídeo. Eu estava tocando saxofone. Mas como eu não tocava bem, eu estava de gozação. Um som horrível. Se eu caprichasse ia sair ruim; comecei a tocar mal de… O Hermeto não sabia se ria ou se tocava. Eu dava uma nota e ria também. Estava uma esculhambação. Eu nunca mais voltei a sério com instrumento de sopro.

Tacioli — Heraldo, ainda nessa fase adolescente, o que você imaginava seguir profissionalmente fora a música? Você tinha um horizonte: “Quero ser dentista!”?

Heraldo do Monte — Não. Eu era um perdidão. [risos]

Tacioli — Um perdidão?

Heraldo do Monte — É, um perdidão. E o pior era o seguinte: eu queria uma coisa pra mim, não ser um músico profissional, e sim músico amador.

Cirino — Pra sempre!

Heraldo do Monte — É, pra sempre. Só que eu gostava demais, mas não queria ser profissional.

Tacioli — Mas por que não queria ser profissional?

Heraldo do Monte — Acho que me falavam mal da profissão. Alguém comentava alguma coisa e eu ficava com medo e não queria ser. Mas fui… Comecei a fazer uns quebra-galhos. Fui caixa de bar, trabalhei numa fábrica de café por um tempo bem curtinho. Aí eu estava nessa, ganhando mal, não-sei-o-quê e chegou um cara: “Tem um lugar para guitarrista no Cassino Flutuante lá em Recife”. Aí eu digo: “Quanto é?”. O cara falou quanto era por mês. E era um negócio que eu nunca tinha visto, falar naquela grana. Devia ser ruim, mas eu estava pior. Daí fui trabalhar nesse cassino. Era uma barca que ficava no rio. Tinha uma ponte… Acho que era o Rio Capibaribe, se não me engano, ou Beberibe, não sei. E ela ficava assim, as pessoas iam e a gente tocava… Tinha um pianista que tocava mal pra caramba, um tal de Galvão. Ele tocava samba. Parecia um bonde em alta velocidade. A mão esquerda dele fazia… Isso é um bonde. E um cara dizia toda noite quando chegava: “Toca Brasileirinho!”. E eu tocava “Brasileirinho”. Até hoje não toco mais. Fiquei com trauma! Eu não sei mais. Eu tento, mas não consigo. Ficou lá dentro o negócio… Não dá, não dá mais! Não toco “Brasileirinho” por causa dessa época. É muito legal, olhando de longe. Uma vez a gente — eu e o Galvão — estava tocando e na janela da boate surge um cara todo molhado. Ele entra. O cara era um cobrador que tinha pegado o ônibus pra dirigir e tinha caído da ponte. [risos] Eu digo: “Meu Deus!”…

Max Eluard — O Monstro do Pântano!

Heraldo do Monte — É! E numa dessas noites, o rapaz que toca contrabaixo, o saudoso Saci, diz: “Rapaz, tu quer tocar com o Walter Wanderley? Sai dessa porcaria. O Walter Wanderley toca bem, não-sei-o-quê…”. Aí fui tocar numas boates mais classe A, classe média, né? Walter Wanderley foi para os Estados Unidos, casou com Isaurinha Garcia. É muito bom, tem uns discos de órgão. A gente fazia um som jazzístisco; já era outra coisa. Com o Walter já era um negócio de bom gosto. A gente fazia uma espécie de cover de um conjunto de um pianista inglês chamado George Shearing. Conhece? Já ouviu falar? [n.e. Pianista de jazz britânico (1919–2011), autor da melodia do clássico “Lullaby of Birdland”, sucesso dos anos 1950] Só faltava o vibrafone. A gente não tinha vibrafonista. Era um quarteto com aquele mesmo som. E era um troço de bastante bom gosto. [n.e. Organista recifense, Walter Wanderley (1932–1986) fez sucesso nos Estados Unidos em 1966 com o single “Samba de verão”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle]

Tacioli — Isso lá no Recife?

Heraldo do Monte — Nas boates de classe média, média alta, lá de Recife.

Max Eluard — Quando e como foi a vinda pra São Paulo, Heraldo?

Heraldo do Monte — É o seguinte: uma noite a gente estava tocando com o Walter e entrou uma moça. Uma cantora. Havia a Rádio Jornal do Commercio, ainda não existia televisão. E tinha uma rádio que tinha programas de auditório e mandava vir muito cantor da região sudeste. A cantora era a Isaurinha Garcia. [n.e. Fã de Carmen Miranda e Aracy de Almeida, a cantora paulistana (1919–1993) fez história no rádio nas décadas de 1940 e 1950, eternizando sucessos como “Mensagem” (1943)] Isaurinha foi fazer show lá. E a gente estava tocando nessa boate. Era uma dessas na beira da praia de Boa Viagem. Só que do lado de cá, Piedade. E entra Isaurinha Garcia. E uma coisa estranha: ela não conhecia o Walter. A Isaurinha chegou, olhou para o pianista da boate, que era o Walter, e falou: “Eu vou casar com você!”. Aí ficou todo mundo (de cara)… E não é que aconteceu? Ele veio pra cá, casou com ela e eu continuei lá. Foi aí que eu conheci o Hermeto nessa boate. Tinha um pianista lá, acho que era o Ely Arcoverde. Como a gente tem tempo: o Ely Arcoverde é pianista e organista. Veio para São Paulo para a extinta TV Excelsior. Entre os programas tinha um som (uma vinheta) que era do Canal 9. E o órgão que fazia [imita o som] “Canal 9”, sabe? Esse era ele, o Ely com aquelas coisas de registro do órgão. Ele conseguia e você entendia perfeitamente aquilo que o troço estava falando. Bom, o Ely saiu do nosso quarteto; ficamos sem piano. Aí tinha um cara que tocava acordeom no regional da Rádio Jornal. Eu escutava e gostava muito, porque era um cara super original. E mesmo no regional ele dava uns acordes bem dissonantes, mas com bom gosto. Não imitava ninguém. Todos os acordeonistas de Recife imitavam o Art Van Damme, que era o acordeonista de jazz da moda. E eu gostava do Hermeto por isso. Era o Hermeto, já falei. Cheguei na Rádio Jornal e disse: “Bicho, quer trabalhar na noite?” “O que, o que é?” “Tem um lugar de pianista lá na boate em que eu toco e eu quero que você vá!” “Mas, meu filhinho, não toco piano. Do piano eu só sei a mão direita!”

[Chega o músico e gravador Manu Maltez, o último entrevistador]

Tacioli — A gente tá no Recife.

Manu Maltez — No Recife?

Max Eluard — Tá começando a vir pra São Paulo.

Heraldo do Monte — Aí o Hermeto disse assim: “Rapaz, a mão esquerda de acordeom é completamente diferente da do piano”. Eu falei: “Vamos lá, no começo eu harmonizo, faço sua mão esquerda. E você finge que toca com a mão esquerda quando o dono da boate passar”. E assim foi feito. Ele tocava as melodias, improvisava e eu harmonizando com a mão esquerda. Quando o dono passava ele não tocava, ele ficava assim com a mão esquerda, e fazia desse jeito para escondê-la um pouco. Mas daí ele começou a ir à tarde para a boate para estudar piano.

Cirino — Para estudar a mão esquerda.

Heraldo do Monte — Acho que com menos de um mês ele já estava (tocando). Ele chegou pra mim e disse: “Meu filhinho, se quiser harmonizar pode, mas agora eu já passo”. Aí ficou tocando de tudo.

Tacioli — Como essa boate se chamava?

Heraldo do Monte — Delfim Verde.

Tacioli — Delfim Verde.

Max Eluard — E como foi sua vinda pra cá?

Heraldo do Monte — O Walter (Wanderley) casou com a Isaurinha e veio pra cá. Casou aqui. E chegou uma carta pra mim me convidando para vir para São Paulo — era carta ou telegrama naquele tempo, telefone não tínhamos. Aí eu contei para uns frequentadores de grana do Delfim Verde: “Olha, o Walter está me chamando pra ir para São Paulo”. Existia uma companhia chamada Cruzeiro. Eles me arranjaram uma passagem de avião. Falei, “Não vou de pau de arara não!”. Arranjaram as passagens de avião. Eu vim. A gente foi trabalhar no Michel, na Rua Major Sertório. Aqui tinha uma tal de La Vie en Rose, também na Major Sertório. Mas era aquele tipo de boate ainda que era atapetada, servia uísque, não-sei-o-quê….

Max Eluard — Aquele tipo de boate.

Heraldo do Monte — Boate mesmo.

Max Eluard — Isso nos anos 50?

Heraldo do Monte — Já era quase 60.

Max Eluard — Haviam várias boates assim (como essa).

Heraldo do Monte — Que não era muito esculacho. A gente tocava mais bossa nova, jazz. Aí veio fazer esse tipo de negócio aqui em São Paulo.

Max Eluard — Mas já não estava contrariando aquela sua ideia de ser músico amador pra sempre?

Heraldo do Monte — Sim. Mas o negócio começou quando o cara disse, “Vamos trabalhar no cassino flutuante”. Quando eu vi o ordenado que era no cassino [risos], aí comecei a ser músico profissional e a vida foi me levando.

Tacioli — Mas qual era o repertório quando você estava na banda?

Heraldo do Monte — Eu lia o que mandavam.

Tacioli — Como foi essa evolução do repertório? Você chegou em algum momento a escolher ou tocava o que pediam?

Heraldo do Monte — A gente tinha o nosso repertório. Se ninguém pedisse, a gente ia tocando o nosso repertório.

Nos anos 1960, Heraldo do Monte também participou dos grupos Corisco e os Sambaloucos e Os Cinco-Pados. Fotos: reprodução

Tacioli — O que tinha nesse repertório?

Heraldo do Monte — “Indian summer”, alguma bossa nova, continuamos com as coisas do George Shearing aqui em São Paulo. Coisas do famoso bom gosto da classe média da época.

Manu Maltez — Que era mais jazz e bossa nova.

Heraldo do Monte — Jazz e Bossa Nova.

Manu Maltez — Bebop…

Heraldo do Monte — Bebop. Improvisos bopianos.

Manu Maltez — Eu estava vendo aquele grupo Corisco e Os Sambaloucos. Você fazia parte também. Isso foi um pouco depois…

Heraldo do Monte — Foi, foi. Foi quando eu comecei a gravar. Quando eu estava com o Walter nessa boate ainda não havia entrado em estúdios.

Manu Maltez — Isso foi em 60 e… Ou mais pra frente?

Heraldo do Monte — É, começo de 60.

Max Eluard — E você vê a importância desse período para sua formação, para sua carreira, Heraldo? Esse período de tocar em boate, de tocar tanto cover.

Heraldo do Monte — Era principalmente para o meu desenvolvimento como instrumentista. Por exemplo: a gente tocava uns arranjos desse treco, desse negócio do George Shearing. Eu tocava com determinado dedilhado. Na outra noite eu queria treinar… Estudando e ganhando dinheiro… E outro dedilhado. Outro dedilhado, outro dedilhado, porque a guitarra tem isso.

Manu Maltez — Porque também não é bem essa coisa do cover. Era um repertório que vocês improvisavam e criavam também, né?

Heraldo do Monte — Sim. Tinha o tema que era do George Shearing e o improviso era nosso.

Manu Maltez — Essa coisa de tema-improviso, tema-improviso.

Heraldo do Monte — A tradição do jazz, né? Aí você vai ganhando dinheiro e progredindo, progredindo, progredindo.

Tacioli — Você veio para São Paulo em 59. A bossa nova, principalmente em São Paulo a partir dos anos 60, já toma espaço. A bossa nova te interessou profissionalmente como um caminho, “Com isso aqui vou longe”?

Heraldo do Monte — Eu estava em Recife ainda quando tive contato com o Chega de Saudade, o disco do João Gilberto. Foi amor à primeira vista. Amor à primeira vista! Verdade!

Tacioli — Mas o que tanto chamou a atenção ali?

Heraldo do Monte — As harmonias que eram mais sofisticadas daquelas do samba tradicional. E a voz do João que é uma coisa… O Miles Davis falou: “Ele soa bem até lendo um jornal”. [risos] E Miles Davis sabe das coisas. A voz do João… era uma coisa toda nova quando você tem um parâmetro só de samba tradicional. Eles mexeram em tudo: a batida, a calma, a economia de instrumentos, a batida de violão, a harmonia. A harmonia bem feita.

Tacioli — E o Jobim?

Heraldo do Monte — Também faz parte. O que me encanta no Jobim é que ele é muito teórico. Ele é coração, mas você não percebe nada de errado no que ele faz teoricamente. Tem uma introdução dele, não lembro de qual música, que é engenharia de música. É uma linha que sobe e uma linha que desce. Movimento contrário. Isso e o jeito que ele compõe também. Ele procura não repetir nota. A gente não gosta de repetição. A gente nasceu numa terra em que ninguém repete nada. Em Pernambuco não se repete nenhuma letra. A gente é obrigado a não se repetir.

Tacioli — Mas esse impacto que causou em você o Chega de Saudade e o João Gilberto, teve com o Galvão?

Heraldo do Monte — O Galvão era…

Cirino — Ele não foi (impactado pela bossa nova)?

Heraldo do Monte — Não. Ele é um pré-histórico. [risos] É verdade! Ele não tomava conhecimento de nada. Ele queria dirigir o bonde dele. Verdade!

Tacioli — Mas (a bossa nova) repercutiu em Recife?

Heraldo do Monte — Muito e muito nos músicos que já curtiam o Stan Kenton de uma orquestra de jazz que tinha naquela época na Rádio Jornal do Commercio. Uma porção de gente boa naquela orquestra. Então, esse disco repercutiu nesse pessoal do bom gosto, digamos. É bom gosto, sim. Sem isso, sem aspas. Eu concordo! É bom gosto mesmo. Infelizmente hoje a gente tem muita vergonha de falar “mau gosto” para certas coisas, porque é politicamente incorreto, mas tem coisas de mau gosto e tem coisas de bom gosto, não é? Toda música que um músico pode passar um mês sem tocar, chegar lá e fazer um show legal, essa música não presta. É verdade! Uma música que presta você tem que estudar todo o dia, senão você não consegue tocá-la. Então, essa é a música de bom gosto. Pode ser até ruim, mas pelo menos… Você não pode comparar uma OSESP com uma… Nem vou dizer as coisas ruins que têm por aí, não é ético.

Max Eluard — Heraldo, todo mundo que vem pra São Paulo tem uma história de batalha. Parece-me que você chegou numa situação diferente, já tinha trabalho garantido…

Heraldo do Monte — Graças a Deus.

Max Eluard — E como foi essa chegada? Você logo se adaptou à cidade, à vida em São Paulo? Você demorou quanto tempo pra voltar para o Pernambuco depois que você veio pra cá? E como ficou sua relação com Pernambuco depois que veio morar aqui?

Heraldo do Monte — A princípio é aquele negócio da descoberta, você quer conhecer. Você é o novo. Então, você não está muito pensando… Eu só pensava na minha mulher, que eu precisava casar com ela. Passei um ano sem…

Tacioli — Você deixou a Lurdes lá? Você veio pra cá e ela ficou?

Heraldo do Monte — Isso. Depois voltei pra casar. Então, era um mundo novo. A gente gravou com Dolores Duran, com o Walter Wanderley, que estava no Michel com a gente. Um disco com “A noite do meu bem”… Era um disco de duas músicas só.

Capa do EP Dolores Duran no Michel de São Paulo. Foto: reprodução

Tacioli — Era um compacto?

Heraldo do Monte — Um compacto: de um lado era “A noite do meu bem” e do outro era “My funny Valentine”.

Tacioli — Um 78 (rotações).

Heraldo do Monte — Acho que era. Inclusive no “My funny Valentine”… Estou misturando um pouco. Eu conheci o Jim Hall aqui em São Paulo, um guitarrista de jazz muito bom. [n.e. James Stanley Hall (1930–2013), guitarrista e jazzista norte-americano que viajou com a cantora Ella Fitzgerald à América Latina entre 1960 e 1961] Meu preferido, porque dá poucas notas, sabe muita teoria e escreve para orquestra. Eu gosto desse tipo de cara. Jim Hall… Ah, sim. Ele ouviu o disco da Dolores e descobriu que “My funny Valentine” tinha um pedaço que ele não sabia. Tinha uma introdução no “My funny Valentine” que é pouco tocada pelos jazzistas. E a Dolores o gravou completo. A Dolores era uma tremenda improvisadora. Na gravação desse disco a gente fez uns cinco takes… Era “A noite do meu bem”?… Não sei como qual é o nome disso. Ela improvisava. Tinha um chorus que ela fazia… Ela fazia um negócio com as notas. Em cada um dos cinco takes ela fez diferente. Cada um mais bonito que o outro. Como se fosse um jazzista mesmo, um instrumentista. Eu adorei isso dela.

Tacioli — Tudo isso em São Paulo?

Heraldo do Monte — Em São Paulo. É a sequência do negócio do Walter Wanderley.

Cirino — E tinha mais gente e músicos de Pernambuco em São Paulo nessa época?

Heraldo do Monte — Fora o Walter Wanderley? Um tempo depois chegou o Hermeto e começou a trabalhar numa boate chamada Stardust. Eu também fui trabalhar com ele nessa boate. O Hermeto é muito gozador. Eu tô pulando etapa…

Tacioli — Tudo bem.

Heraldo do Monte — A gente continua nas boates, na noite paulista.

Tacioli — A gente vai e volta, não é cronológico.

Heraldo do Monte — Continua na noite paulista. Vou falar um pouco. Não vou falar um pouco, não! Pausinha.

Tacioli — Heraldo, você quer água, suco?

Max Eluard — Lurdes, você quer uma aguinha, um suco? Tá tudo bem?

[Chegam Eric Mantoani e Eleonora Ducerisier]

Heraldo do Monte — O Hermeto… Fui trabalhar com o Hermeto no Stardust. O Walter tinha ido para os Estados Unidos já. Deixou a Isaurinha aqui. Foi tentar a vida lá. A gente trabalhava no Stardust…Vou contar só uma coisinha da personalidade do Hermeto. O Stardust começou na Praça Roosevelt. Isso aconteceu no Largo do Arouche, no segundo Stardust, que era de um judeu chinês [ri], o Alan — o cara nasceu na China, mas era judeu — e de um baterista que eu não sei de onde era, o Hugo. Foi nesse Stardust do Largo do Arouche. Estava no intervalo. Tinha uma escadinha que a gente descia pra descansar e, em cima, estava o pessoal dançando. O Hermeto subiu primeiro; eu ainda fiquei descansando um pouco. Quando subi estava o Hugo, que era baterista, e o cantor. Ele estava com o microfone aqui e cantando um negócio, acho que era “Mack the knife”. Um negócio que era sucesso na época. Estava em Mi bemol, digamos, e o Hermeto fazendo uns contrapontinhos bem bonitinhos, em Mi bemol mesmo. Estava um clima. O cara cantando com um [?]. E eu falei: “Mas que diabos está acontecendo? Não tá legal!”. Aí o Hermeto chegou. Eu ia passando pra pegar a guitarra. “Vem cá, vem cá!” Eu fui. Aqui estava em Mi maior, e a mão dele, mas bem suavezinha. Esse é muito doido. [risos] O Hermeto na época em que não era famoso e que tocava em boate, ele era uma desgraça…

Tacioli — Ele e o Satanás juntos?

Heraldo do Monte — É verdade. Bom, a gente tocou um bocado em boate. Aí começou… Interessante…

Tacioli — Tirando o Hermeto, quem mais você lembra de Pernambuco?

Heraldo do Monte — É, não lembro mais de ninguém. Tinha um acordeonista chamado José Carlos que veio de Recife, mas a gente tocou muito pouco. Calhou muito pouco de tocar junto. Acho que somente o Hermeto, por enquanto.

Tacioli — Heraldo, da vinda de vocês para São Paulo: vocês traziam o som de Pernambuco, alguma coisa de Recife?

Heraldo do Monte — Ainda não. Estava aqui só, na cabeça. Isso só veio despertar quando a gente fez o Quarteto Novo.

Tacioli — Mesmo o Hermeto?

Heraldo do Monte — Também. Era jazz.

Cirino — Comportadinho.

Manu Maltez — Não tinha nenhum resquício no repertório de boate dessa música…?

Heraldo do Monte — Nordestina? Não!

Tacioli — E como foi a virada, Heraldo?

Heraldo do Monte — Então já vamos para 67. Ah, lembrei de um época! [ri]

Tacioli — A Lurdes aprovou.

Heraldo do Monte — Sessenta e sete. Tinha uma companhia de moda… [fala baixo] A Rodhia! Tem que pagar? [ri] O Lívio Rangan era o diretor desse lance. Eles queriam fazer um desfile de moda pra correr o Brasil todo. A moda baseada em coisas brasileiras. Uma moda bem brasileira, até um pouco sertaneja, sertão aqui do Sudeste. E chamou o Geraldo Vandré para arregimentar os músicos. E o Vandré chamou o Airto Moreira, que chamou o Hermeto, que me chamou. Não existia o Quarteto Novo até agora. Nem a ideia de fazer o Quarteto Novo. A gente foi fazer esse serviço. Ou seja, a gente tinha que tocar num palco. Eles mandaram fazer uns ternos super maneiros…

Tacioli — Fashion.

Heraldo do Monte — Fashion. Quando chegou na hora de uma reunião, o Lívio Rangan, o diretor, disse: “O Hermeto é muito feio, não-sei-o-quê. Não dá!”. [risos] O Airto ficou louco, a gente ficou maluco. Mas e aí, “Vamos viajar somente os três?!”. Os três mais o Vandré. O Vandré cantava e a gente acompanhava. E aí a gente começou a viajar sem o Hermeto.

Tacioli — E cantavam o quê?

Heraldo do Monte — Música do jeito do Vandré, uma coisa meio sertaneja. Ainda não era política, não! Não tinha nada a ver com mulher desfilando e “O povo unido jamais será vencido”. Aí a gente começou a conversar nos hotéis, os três. O Theo de Barros, o Airto e eu. “Rapaz, esse negócio… A gente pode fazer um som a partir daqui. Tem umas coisas originais aí, como a viola, que não era usada na música brasileira, e caveira de burro.” O ditador da época era o Costa e Silva. Ditadura era assim, corria boatos…Ditadura se fala tudo assim com medo. Não sei se vocês viveram esse tempo. Você chegava num táxi e não podia conversar com o cara porque ele podia ser um espião. E você podia pegar uma cana. Vocês não viveram isso. É muito ruim, bicho! É muito ruim mesmo. Diziam que (a caveira de burro) era o maxilar do Costa e Silva, maxilar de burro. [risos] A gente começou: “Vamos fazer um som quando a gente voltar pra São Paulo. Logo que acabar esse negócio, vamos montar um quarteto. Vamos fazer uma linguagem bem brasileira”. Eu falei: “Tá certo. O que vejo no Teatro Record são esses trios de bossa nova. Eles tocam música brasileira, mas quando vão improvisar, improvisam bebop, eles improvisam jazz. Como a gente faz com isso?”. “Precisamos criar uma linguagem!” E eu falei: “Mas improvisar é um negócio bem imediato e vem lá de dentro. Daqui. Então a gente precisa interiorizar uma linguagem”. Isso já em São Paulo. Aí já começou com o Hermeto. O Vandré falou: “Para de gravar. Para de escutar música!”. Quero dizer, essas ideias não foram todas de Vandré; algumas eram dele e outras eram nossas mesmo. A gente tinha um objetivo e precisava alcançar. “Vamos parar de gravar…” Aí o Vandré começou a pagar um ordenado pra gente, do bolso dele. Não-sei-onde ele arranjava dinheiro. “Vamos ensaiar!” A gente parou de escutar música e começou lembrar de violeiros, repentistas, frases de repentistas, o ambiente dos repentistas, frases de pífanos. Falei: “Esse negócio é muito pobre harmonicamente. Como é que a gente faz?”. Os violeiros são quase uma coisa árabe, ficam numa corda só. “Peraí, vamos escutar Luiz Gonzaga!” O Luiz Gonzaga tinha harmonia, “Que nem jiló”, aquele negócio todo. “Então, pronto!” Luiz Gonzaga é folclore também, é brasileiro pra caramba. “Então, fica sendo Luiz Gonzaga o suporte harmônico dessa a linguagem.” E os outros fazendo esse clima. E a gente começou. A gente fazia os temas. Não levava nada pronto. Por causa disso, o Quarteto Novo demorou um ano pra aprontar um disco. A gente chegava lá, um dava uma ideia, o outro dava outra. Você ensaiava aquela ideia e quando estava começando a decorar, alguém falava: “Mas escuta, e se fizer assim?”. A minha tática foi dizer: “Vou deixar, vou sair das ideias, vou somente realizar as ideias deles pra ver se facilita mais”. Aí ficou somente três (músicos) para (dar) as ideias. E eles não notavam que eu não dizia nada. “Vamos fazer assim. Vamos fazer assim!” Até que um dia, depois de uns meses, eles falaram: “Heraldo, o que é que você diz?”. “Não, tá ótimo. Eu vou tocar. O que vocês querem?” Aí eu tive que fazer um treco lá, que é justamente “Fica mal com Deus”, aquela introdução e alguma coisa do meio também. Tem um prelúdio muito bonito que é harmonizado pelo Theo. O Theo foi quem fez. E foi a vez que eu entrei. Já estava quase no fim, estava quase tudo pronto.

Manu Maltez — Depois disso vocês chegavam a escrever todos os arranjos ou a coisa ficava mais na memória mesmo?

Heraldo do Monte — Ficava na memória porque a gente repetia tanto que… Uma vez o Hermeto levou quatro compassos escritos, que é o comecinho de…

Manu Maltez — “Algodão”?

Heraldo do Monte — Não…Esqueci. Era uma música do Vandré. Esqueci o nome. Era um arranjo sobre uma música do Vandré. Não lembro qual.

Manu Maltez — Mas foi a única coisa escrita.

Heraldo do Monte — Foi a única coisa escrita. O Hermeto levou esse pedacinho. Mas eram quatro compassos somente. O resto era tudo feito na hora. Decorado, apagado e redecorado.

Cirino — Como foi pra você se adaptar a essa nova linguagem, porque até então você tocava jazz? Como foi improvisar nessa linguagem?

Heraldo do Monte — Então, a gente começou criando nesse ano. Nesse tal ano aí. A gente também improvisava e tinha aquele negócio, de um patrulhar o outro. “Opa. Essa frase é de jazz!” “Essa frase é de bebop!” “Essa frase é de não-sei-o-quê!”

Max Eluard — Foi um exercício se livrar de um arcabouço…

Heraldo do Monte — Foi. Hoje, não. Acabou o Quarteto, mas ficou a semente. Agora a gente tá livre pra tocar bossa nova, jazz, improvisar do jeito que quiser.

Max Eluard — Mas, nesse momento, depois da experiência com o Quarteto Novo, sua carreira mudou de caminho musical.

Heraldo do Monte — Sim, sim. A gente é livre pra tocar o que quer, mas, de vez em quando, volta e usa… Como a gente já tinha dominado essa outra linguagem, já tinha feito e tudo, a gente pode tirá-la do bolso quando quiser…

Max Eluard — Nos anos 90 foi moda essa fusão da música popular e os ritmos nordestinos, como fez o Chico Science. Você fez essa fusão de uma maneira tão trabalhada e consciente para se alcançar um objetivo. Como que você vê essa onda?

Heraldo do Monte — Chico Science? Isso?

Max Eluard — É, essa garotada que mistura sons nordestinos tradicionais com música popular, rock.

Heraldo do Monte — Talvez a gente tenha um pouco de culpa nisso, porque a gente abriu o leque, abriu a estrada. Abriu a portal pra esse pessoal. Abriu o portal.

Max Eluard — Mas você vê com generosidade ou…

Heraldo do Monte — Ah, sim.

Max Eluard — Você vê com bons olhos.

Heraldo do Monte — Sim, sim. Vejo. Porque cada um tem o seu caminho. O Chico Science tinha uma cabeça roqueira e fez essa fusão dessas coisas que a gente viveu e que ele continuava até vivendo, porque ele estava morando em Recife. (Fusão) do rock dele com aquela tremenda percussão que já vinha da Bahia. E já tinha em Recife no maracatu. Eu acho legal! Me chocou a primeira vez que ouvi o Chico Science, mas depois eu acostumei, eu gostei mesmo. E qual o outro que você falou…? Chico César?

Tacioli — Tem outros, como o Fred 04, da Mundo Livre, o Siba com o Mestre Ambrósio…

Heraldo do Monte — O nosso era uma mistura dessas informações misturadas com o erudito e o Jazz. Misturadas ou vindas de pessoas que tinham essa formação. E eles é a mesma coisa vinda de uma formação mais rock e pop. Só o background deles que é diferente, mas o…

Manu Maltez — Eu estava vendo você tocar com o Lenine só violão e viola…

Heraldo do Monte — Sim, foi no Voa Viola.

Manu Maltez — E a linguagem bem próxima. Você até colocava umas frases mais rápidas, frases que tinham a ver o com jazz. Você estava falando dessa liberdade que você via no mesmo improviso essa mistura de coisas; não é somente música popular, jazz, mas é uma coisa mais misturada mesmo.

Heraldo do Monte — É verdade, mais misturada, liberdade.

Tacioli — Antes do Quarteto Novo, você tocava muito jazz ou nessa linguagem, chegou a gravar alguns discos individuais. E era época da ditadura, do nacionalismo… Havia algum tipo de patrulhamento com relação a música que você fazia? O fato de empunhar a guitarra, de tocar jazz, (era motivo para ser patrulhado)? Tem algum evento que marca esse momento?

Heraldo do Monte — Não. Você me fez lembrar de uma coisa que não foi com a gente, mas foi interessante. [ri] O Teatro Record estava cheio… O Gabriel Bahalis é um contrabaixista…

Manu Maltez — Foi meu professor…

Heraldo do Monte — Isso. E o Chico de Moraes foi um grande maestro. Chiquinho de Moraes. O Teatro Record estava cheio. Não existia Internet, mas parecia que eles marcaram (de se encontrar lá). Gente da esquerda nacionalista, jovens da esquerda nacionalista. Estavam todos lá. Era no auditório. E o Chiquinho chegou atrasado para o programa…Tinha um noneto, nove músicos, e um deles era o Gabriel… E ele não estava sacando o tipo de programa que era e chegou atrasado. Ele estava vindo de um show do interior e já foi para o palco. Eles iam acompanhar uma moça chamada Madalena de Paula. Os caras esperando e a esquerda lá. A Madalena chegou, o noneto deu a introdução e ela fazendo assim com o dedinho (estalando)… “‘S wonderful! ‘S marvelous!”Aí começou aquela vaia estrondosa, que foi crescendo. Todo contrabaixo (acústico) tem uma espiga. Ele estava tocando em pé. O Gabriel estava no palco e o troço fazia assim na madeira do palco (imita o som da espiga arranhando o piso) Foi muito engraçado! [risos]

Manu Maltez — O Gabriel tocava com você na noite.

Heraldo do Monte — Tocava. A gente se juntou também na Jazz Sinfônica. Toquei um ano na Jazz Sinfônica.

Manu Maltez — Ele toca até hoje na Jazz Sinfônica.

Heraldo do Monte — Ainda tá, né? Legal.

Tacioli — Esse foi um evento que a esquerda nacionalista…

Heraldo do Monte — Foi, foi, vaiou com tudo o que tinha.

Max Eluard — Você trabalhou na fundação da Jazz Sinfônica. Como foi? Foi por quem, pelo Cyro?

Heraldo do Monte — Tinha o Cyro e o Luiz Arruda Paes. Graças a Deus que tinha esses dois. Na minha época, no meu ano, somente eles.

Os maestros Luiz Arruda Paes e Cyro Pereira. Fotos: reprodução/CEDOC FPA

Tacioli — Por que “graças a Deus”?

Heraldo do Monte — Porque tinha uns caras ruins também. [ri] Eu trabalhava com ele… Trabalhei sete anos na Tupi, olha que paciência! [risos] E era mais porque o maestro era o Luiz Arruda Paes. Ele escrevia coisas lindas. Onde eu estava?

Cirino — Na Jazz Sinfônica.

Heraldo do Monte — Então, a gente só lê lá. Eu só lia. Tinha arranjos lindos. O Cyro é uma brasa porque ele não escreve muito cifra, os acordes são todos cabeça de nota. Em vez de escrever a cifra de Dó, ele escreve Dó-Mi-Sol-Si…

Manu Maltez — Escreve as aberturas mesmo.

Heraldo do Monte — Ele escreve só assim. Você tem que ler como um pianista mesmo. É difícil. Era difícil. O Cyro é bravo ensaiando. Uma vez a gente estava ensaiando. Ele respeitava algumas pessoas, mas quando ele pegava no pé… Eu estava livre até que uma vez ele chegou e começou a reger o ensaio; ele com a cara assim, olhando pra mim, meio desconfiado. E eu, tranquilo. Aí ele falou: “Heraldo, você não tem um solo, um negócio, junto com não-sei-quem?”. Falei: “Maestro, eu tenho 38 compassos de contagem, mas estou prestando uma atenção desgraçada!”. [risos] Aí ele olhou, todo mundo começou a rir, e ele foi para o copista…Toda a ira dele foi para o copista. O copista tinha esquecido de colocar a música que eu ia tocar pra ele. Coisas de Cyro. Já o Luizinho é um amor, com tremendo bom gosto. O Cyro também, mas tinha esse temperamento.

Tacioli — Mas (a Jazz Sinfônica) foi uma experiência que acrescentou?

Heraldo do Monte — Sim, era gostoso. O ambiente da Jazz Sinfônica e da universidade em geral era muito ruim. O Satanás estava lá de saxofonista. Ele chegava no intervalo do ensaio e falava: “Olha, hoje tem reunião de todo mundo para derrubar o Cyro”. Sabe? Eu sempre faltava. “Hoje tem reunião para derrubar o Luiz Arruda Paes”. Aquele tipo de coisa muito ruim. Eu dei umas aulas lá nesse ano. Coisa de política: eu tinha que escolher cinco alunos. Vê se pode. Eles publicaram. Fizeram publicações, mil negócios. A fila rodava… Falei, “Mas como é que eu posso escolher cinco pessoas com tanta gente aí? Só tem cinco vagas”. “Tem que ser assim pra fazer um auê”, disse a diretoria. Para escolher foi muito chato. Tudo era muito chato nesse ponto. Eu aguentei um ano. O Amilson Godoy também fazia parte, era meio da diretoria, não sei. Uma vez eu estava indo para a universidade onde tinha a Jazz Sinfônica e o Amilson vinha quase entrando. Ele me viu e eu estava todo satisfeito, feliz, com uma cara legal. Ele falou: “Oi, tudo bem, Heraldo? Tá feliz, tá legal?!” Eu falei: “Eu saí! Eu saí!”. [risos]

Max Eluard — Leve, né?

Heraldo do Monte — Nossa, que coisa gostosa! Ele demorou uns três meses: “Saí! Saí!”.

Manu Maltez — Mas essa parte da música sinfônica te ajudou como arranjador?

Heraldo do Monte — Ajuda, ajuda a escrita, ajuda a ter o seu reflexo de leitura de primeira vista. Se bem que, como era ensaio, você podia errar e voltar, essa prática mesmo vinha na televisão. O Arruda Paes escrevia uns negócios meio complicadinhos e na televisão não tinha tempo. Era uma passagem só e já estava perto da hora do programa. Na TV Tupi a gente tinha contrato para dois programas, e geralmente só estava no ar um tal de Clube dos Artistas à noite, com Lolita Rodrigues e Ayrton… esqueci o segundo nome. A gente ganhava um ordenado pra fazer dois programas e fazia um. E de vez em quando a Tupi tentava colocar mais um programa. Tinha um músico lá que era catimbozeiro, macumbeiro. Ele fazia catimbó para o outro programa não dar certo. E não falhava, bicho! O programa dava zero de Ibope. Em duas, três semanas já era. O cara era bom! [risos] A gente continuava ganhando pra dois e fazendo um.

Manu Maltez — Você sempre ouviu música erudita…

Heraldo do Monte — Sempre, sempre.

Manu Maltez — Vi você falar de Stravinsky numa entrevista.

Heraldo do Monte — Sim, eu gosto.

Manu Maltez — Desde Recife você já ouvia? Ou foi uma coisa aqui em São Paulo?

Heraldo do Monte — Quando eu tocava clarinete lá na banda, quando era moleque, a gente já tocava Wagner. Para clarinete era uma desgraça, porque lá na orquestra da escola não tinha violinos. Então, as partes de violino eram todas para clarinete. Eu lembro de duas coisas que me impressionaram e que ficaram na minha memória: Wagner e “O Guarani”. Do Wagner era aquela “Tannhäuser”, a abertura. Não sei como estou pronunciando… “Tannhäuser”! E o clarinete tinha um fraseado no meio do negócio…

Max Eluard — A experiência de professor começou na ULM ou você já tinha antes?

Heraldo do Monte — Já tinha tentado ser professor particular em casa, mas nunca dava certo. O Almir Sater foi lá, fez uma aula e não me pagou. [risos] Aí não dava certo. Mas essa da Jazz Sinfônica, da Universidade Livre de Música Tom Jobim — merecida homenagem! –, deu certo porque tinha um ordenado. Então, era o Estado que pagava. O Almir não pintou lá. [risos]

Max Eluard — Mas como que você era como professor? Você herdou o jeito do seu mestre de improvisar as aulas e os exercícios?

Heraldo do Monte — Herdei, herdei. Eu passava também na hora. Alguns alunos não sabiam ler música, então tinha aquela coisa de dedo, “Tira o dedo aqui! Bota o dedo ali!”. Era um trabalho meio burocrático.

Max Eluard — Você não gostava.

Heraldo do Monte — Não, não gostava muito, não, mas fazia porque estava nessa…

Max Eluard — Casado com a Jazz Sinfônica…

Heraldo do Monte — … com a Jazz Sinfônica. Quando fui pra lá não falaram em aula, depois, quando cheguei…

Cirino — Tinha que dar.

Heraldo do Monte — Tinha que dar, pois é.

Tacioli — Heraldo, você falou dessa experiência mais difícil da Jazz Sinfônica e, um pouquinho antes, da alegria de participar do Quarteto Novo. Tiveram outros grupos que você viveu de uma forma tão feliz, tão entusiasmada, como foi com o Quarteto Novo?

Heraldo do Monte — Não. E como o Quarteto Novo não rolou nada melhor. Por causa dessa coisa do objetivo, de alcançar o objetivo e de contribuir com uma linguagem nova. Pegou quem quis. Quem não quis…

Max Eluard — Uma busca que os movia.

Heraldo do Monte — É, isso! A gente gravou um disco para a EMI-Odeon. Fomos gravar no Rio. Não existia playback na época em que a gente fez o Quarteto Novo. Ainda não se fazia playback: “Você grava agora e se não ficar bom, você põe somente a viola.” Isso não existia. Por exemplo, aqui tinha o piano do Hermeto. O Hermeto com uma flanelinha pra colocar a flauta para quando fosse o solo de flauta. Ele pegava a flauta com cuidado para não fazer (barulho)… Ele tocava a flauta ou o piano. Eu com a guitarra, às vezes, com a viola. Sem fazer barulho. E tudo assim. A gente fez aquele disco instrumental. Como o Vandré era uma espécie de tutor do Quarteto Novo, ele chegou para o Airto e falou: “Como é que eu participo desse disco?”. [risos] “Mas, rapaz, é um disco instrumental…”. Tinha uma música do Hermeto, a primeira faixa, chamada “O ovo” e a gente deixou ele fazer [imitando] “Aha!”… Ele ficou feliz da vida! [risos]

Manu Maltez — Os shows eram muito mais extensos que o disco…

Heraldo do Monte — Sim, porque no disco não tinha muito espaço para improviso. Essa linguagem que a gente estava buscando só tem um pouco no meu solo em “Algodão”.

Manu Maltez — Uma pena não ter um registro ao vivo do Quarteto Novo.

Heraldo do Monte — É verdade.

Manu Maltez — Pra ver um show com as coisas abertas…

Heraldo do Monte — (…) com essa linguagem com mais tempo de exposição.

Manu Maltez — Porque era o principal que vocês estavam procurando.

Heraldo do Monte — É verdade, é verdade.

Max Eluard — Mas nos desfiles tinha espaço pra isso ou tinha que ser mais quadradinho?

Heraldo do Monte — Não, era mais quadradinho. Era mais acompanhar o Vandré. Era um trabalho mesmo, mas serviu pra gente planejar o Quarteto.

Manu Maltez — E nos shows vocês abriam mesmo, as músicas eram maiores…

Heraldo do Monte — Nos shows do Quarteto Novo?

Manu Maltez — Isso.

Heraldo do Monte — Abríamos.

Tacioli — Heraldo, teve um evento que marcou o fim do Quarteto Novo? Como foi sua reação? Parecia que era “Agora vamos faturar”.

Heraldo do Monte — A gente foi para a França acompanhando o Edu Lobo. A gente foi tocar num cassino, numa cidade lá da França. Uma cidade de banhos, uma coisa estranha. A gente foi tocar num cassino e ficou na casa de um amigo do Edu. E esse amigo arranjou pra gente ficar mais dez dias. Dessa vez em Paris, para tocar numa boate lá de Paris. Eu sei que durante essa viagem comecei a observar todo mundo e dizer assim, “Mas será que vou querer o meu destino ligado ao dessas pessoas para o resto da minha vida?”. Sabe? E comecei a ter esse tipo de pensamento. E eu acho que em todo deve ter vindo por igual. Não sei. O Theo é uma pessoa mal-assombrada. Nessa casa que o amigo do Edu arranjou, a gente ficava embaixo, o Airto, o Hermeto e eu, e o Theo dormia lá no quarto, lá em cima, acho que no quarto do cara que estava emprestando a casa pra gente. E ele era um dos primeiros que dormia, que pegava no sono. A gente ficava conversando um pouco. Depois a gente começava com aquele negócio [faz voz de assombração]: “Ehrrrrr! Ehrrrrr!”. Não sei, tenho a impressão que o Quarteto acabou por causa disso. [risos] Não, isso é brincadeira, mas começou realmente porque o Airto estava querendo ir para os Estados Unidos, viver nos Estados Unidos, e estava todo mundo querendo se desligar. É chato você ter…Tem muita gente, tem muitos conjuntos que ligam a vida e ficam por anos e anos…

Max Eluard — Uma existência só.

Heraldo do Monte — É muito tempo para o seu destino ficar ligado ao de outras pessoas.

Max Eluard — E a experiência do ConSertão?

Heraldo do Monte — Foi legal também.

Max Eluard — Foi um outro momento, vocês muito mais maduros, mas também um grupo com quatro que se juntaram…

Heraldo do Monte — É verdade.

Max Eluard — Como foi?

Heraldo do Monte — Eu estava em casa e chegou um telefonema, acho que do Faro, Fernando Faro. Não foi isso? Acho que sim. Acho que foi o Faro. “Baixo, tu quer tocar aqui com o Arthur Moreira Lima e Elomar?”. Ainda não tinha o Paulo Moura. “Eu quero! Vamos nessa!” O Arthur tinha um apartamento na Avenida São Luís. Fui pra lá. Estava o Elomar… Comecei a escutar o Elomar na rádio, achava que a música dele era muito fechada em si mesma. Ele já compõe como se fosse uma peça de violão com voz. Fui no ensaio, a gente escutou, depois fui para casa e telefonei, “Olha, não dá, porque as músicas do Elomar não têm espaço pra nada”.

Max Eluard — “Onde vou entrar?”

Heraldo do Monte — Pois é. “Não, vem!” A solução foi o Elomar dar mais espaço, espaçar mais a coisa dele. Aí começaram a entrar prelúdios com o Arthur, a gente começou a escrever as harmonias e terminou saindo o ConSertão. A gente viajou por diversas partes do Brasil com o ConSertão, Espírito Santo, Salvador…

Max Eluard — E na criação foi um processo coletivo, assim como foi com o Quarteto Novo?

Cirino — Como foi a escolha do repertório?

Heraldo do Monte — Era tudo em cima do compositor, do Elomar. A gente fazia só o embelezar. Não somente o embelezar, a gente fazia arranjos mesmo. A gente foi para casa do Elomar em…

Max Eluard — Vitória da Conquista?

Heraldo do Monte — Isso, na casa dele lá. A gente ensaiou um bocado. O Arthur tomou cachaça de um jeito. [risos] As particularidades do ensaio. Desculpa, Arthur! Ele tem um jeito de guardar a cachaça aqui (na boca)… [risos]

Max Eluard — Igual a pelicano!

Heraldo do Monte — E ele fica falando, explicando coisas do arranjo e cachaça não desce. Que bonitinho! [risos] Foi bonito porque o Elomar é muito bom, o Arthur também. A gente fez, ensaiou, gravou um disco somente os três primeiro, e depois entrou o Paulão, o Paulo Moura.

Tacioli — Mas tem outras particularidades aí, né?

Heraldo do Monte — Por exemplo?

Tacioli — Não sei. [risos]

Heraldo do Monte — Deixa eu ver… [ri] Deixa eu caçar. Ah, sim! Quando a gente estava ensaiando, lá na casa do Elomar, a esposa do Elomar — qual era o nome dela?…

Lurdes — Dalmara.

Heraldo do Monte — Dalmara! Aí a gente fez um show lá em Vitória com o Arthur, com todo mundo. Aí estava todo mundo almoçando. O Arthur estava precisando de uma grana e nada de sair o dinheiro do show. A gente estava almoçando todo mundo junto [ri] e o Arthur começou a cantar: “Viola, forria, amor, dinheiro não”. [risos] Até que desencavaram a grana lá, pelo amor de Deus!

O antológico ConSertão (1982), disco que reuniu Elomar, Heraldo do Monte, Paulo Moura e Arthur Moreira Lima. Foto: reprodução

Cirino — Mas foi tranquila a relação…?

Heraldo do Monte — Sempre.

Cirino — … com os arranjos, porque a música do Elomar não só é hermética, mas também tem muitas narrativas de dificuldade de trabalhar com o Elomar nesse sentido.

Heraldo do Monte — Ele estava bom nessa época. Ele estava bom. [risos] Foi legal durante essa época, durante o ConSertão e tudo. Eu me lembro que a gente estava viajando — acho que foi em Espírito Santo –, a gente estava numa festa e foi jantar com um pessoal conhecido, fã do ConSertão. O Elomar estava numa rodinha… O Elomar é muito machista! O Elomar é um negócio…tudo o que você pensar. Ele estava conversando, e com aqueles pontos de vista encalacrados dele, aí uma moça passou por nós e disse: “Eu vou mijar no chapéu dele!”. [risos] Imagina o jeito que ela estava. Ele é muito machista! Tinha um negócio pra ir para Cuba pelo Itamaraty, Festival de Música Caribenha. Quer dizer, a gente não tocava música caribenha, mas foi convidada. E era pra ser o ConSertão, mas aí o Elomar, “Meu Deus não permite que eu vá em país comunista!”. [risos] Então, tá, fomos só nós três. E a última dele é a seguinte: houve uma reedição do ConSertão patrocinada por uma cerveja. E a gente ensaiou tudo normalmente com o Elomar numa casa. Bom, o Elomar agora tá cismado que se pegar a imagem dele a alma dele não-sei-o-quê. [risos] Não pode mais filmá-lo. No máximo filmar a mão dele… [risos]

Cirino — A mão não tem alma!

Heraldo do Monte — (…) A Cultura ia fazer um take do show ConSertão, da reedição, e coitada da diretora, era uma nissei, uma japonezinha, a gente subindo no palco e ela: “Elomar, deixa…”. “Não, não!” Resultado: filmou só a parte instrumental, senão a alma dele dançava.

Max Eluard — Que figura…

Heraldo do Monte — É, figurão, figuraço, mas ele acredita nisso.

Max Eluard — Ele tem uma fé forte, rigorosa.

Heraldo do Monte — É, é muito complicado.

Tacioli — Heraldo, vamos falar de um outro período, o do Som da Gente. Foi uma experiência importante em São Paulo para a música instrumental, dos anos 80 ao início dos 90. Como foi isso pra você que integrava o Grupo Medusa, não?

Heraldo do Monte — A gente gravou com o Medusa no Som da Gente. E gravei disco meu também: Cordas vivas e Cordas mágicas. O legal do Som da Gente é que eles davam total liberdade, não tinha aquele negócio de “Eu vou produzir”, não! Inclusive tem uma música num dos discos que a gente chama “Monte Pascoal”, eu e o Hermeto. A primeira coisa que a turma fez quando chegou no Brasil foi conhecer o sobrenome dos rapazes. [risos] Haja tino, haja liberdade pra deixar. Era uma coisa assim: eu e o Hermeto. Também tenho um pouco de loucura. Eu com um violão Takamine de cordas de aço e o Hermeto de piano. Agora, a aventura: a gente não ensaiou uma nota. “Vamos começar a tocar assim que acender a luz vermelha.”

Max Eluard — Não combinaram nada.

Heraldo do Monte — Nada, nada.

Max Eluard — Quem deu o primeiro acorde?

Heraldo do Monte — Só ouvindo a gravação, só ouvindo a gravação. A gente começou um a responder ao outro, mas da maneira mais maluca, e a mulher deixou, a Teresa deixou…

Heraldo do Monte — Até chegar uma solução o dinheiro fica difícil. Enquanto isso vou quebrando uns galhos aí. Domingo vou com o Dominguinhos para aquela cidade…

Tacioli — São Luiz do Paraitinga.

Heraldo do Monte — É. Como é que você sabe?

Tacioli — Semana da Canção, né?

Heraldo do Monte — Isso. Vou lá.

Tacioli — Vai tocar no coreto? Na praça?

Heraldo do Monte — Não sei.

Tacioli — O Dominguinhos está melhor?

Heraldo do Monte — Ele tá na luta, mas quando chega no palco, ele senta lá e manda ver.

Cirino — Ele senta lá e esquece tudo.

Heraldo do Monte — Manda ver. Teve um dia que a gente tocou, há pouco tempo, e ele estava bem ruinzinho. Ele ia fazer só três músicas. E vai tirar o homem do palco? Começou e tocou um tempão. Quando ele entra em contato com o público, o pessoal começa a cantar as músicas dele, ele fica forte.

Tacioli — A gente gostaria muito de conversar com ele também. Ele é uma figura importantíssima. [n.e. Entrevista foi realizada com Dominguinhos em 27 de outubro de 2011]

Heraldo do Monte — Legal, é importantíssima.

Tacioli — São Luiz do Paraitinga, domingo, então.

Heraldo do Monte — Isso. A gente vai sair daqui…

Show de lançamento em São Paulo do primeiro disco do Grupo Medusa. Foto: acervo HM

Cirino — São Luiz do Paraitinga.

Heraldo do Monte — É aquela cidade que a chuva acabou com a igreja, não-sei-o-quê.

Lurdes — Onde é?

Tacioli — Você vai pra lá também?

Heraldo do Monte — Quantos quilômetros?

Max Eluard — É perto daqui, não é muito longe, cerca de uma hora e meia.

Heraldo do Monte — Ah, tá.

Lurdes — Ele falou que era 200 km pra você.

Heraldo do Monte — O empresário do Dominguinhos…

Max Eluard — Acho que é um pouco menos.

Heraldo do Monte — Só sei que a gente vai almoçar lá no domingo. A gente sai antes.

Cirino — Eles fazem concurso de marchinha lá até hoje.

Heraldo do Monte — É? Legal.

Tacioli — Tá valendo, Max?

Max Eluard — Vamos retomar o segundo tempo, Heraldo.

Heraldo do Monte — Diga.

Tacioli — A gente já está na prorrogação. Não vamos assustar o Heraldo.

Heraldo do Monte — Sim… E as fotos, mostrou alguma? Não?

Tacioli — Não mostramos, vamos escaneá-las.

Tacioli — Heraldo, tem uma frase na Internet, fala se é sua: “Quando você vai amadurecendo, você vai ficando mais romântico, menos rítmico e mais melódico”.

Heraldo do Monte — Pode ser, pode ser.

Tacioli — Pode ser sua essa frase?

Heraldo do Monte — Pode ser minha.

Tacioli — E faz sentido? Como músico, como você percebe a evolução do tempo em volta de você? Como ficar mais velho influencia sua forma de tocar, sua forma de compor, sua forma de ver música?

Heraldo do Monte — É mais a forma de viver do que de ver música. Mas agora tem, como tudo meu, uma vertente contra. Quero dizer, estou fazendo músicas rítmicas mais do que nunca. Então, não liga para o que eu falo. Talvez (seja) para combater a velhice, não é?

Tacioli — Mas tem algo que você faz que o faça se sentir mais jovem? Tocar com o Hermeto, por exemplo.

Max Eluard — Mais renovado?

Tacioli — Tem algo? O que é esse algo?

Heraldo do Monte — Acho que só tocar mesmo, tocar com outras pessoas, principalmente. Não gosto de tocar sozinho. Aquela solidão… Primeiro, porque o violão não foi feito pra tocar sozinho; quando você faz um baixo em um acorde, os dedos, você perde, a não ser que seja uma peça que tem uma melodia sozinha… Aí um acorde… E depois… Que você possa interpretar. Agora, uma coisa que é cheia de acordes de baixo que é…Sabe? Não fica…Fica uma coisa virtuosa, “Poxa, o cara tá fazendo a harmonia, melodia e os baixos”. Mas fica uma coisa de mostrar que você faz as três coisas. Mas você não fica com dedos livres para interpretar. Por isso que eu não gosto de tocar sozinho. Gosto de tocar sempre com um acompanhamento. Algumas coisas eu toco sozinho. Mas eu escolho alguma coisa que eu possa interpretar e dar os acordes e os baixos na hora certa. Mas essas peças, eu ouço violonistas tocando e é uma coisa sem expressão alguma. É verdade.

Max Elaurd — As “pessoas comuns” dividem a vida e o trabalho, né? Como é essa questão pra você que faz música?

Heraldo do Monte — Minha mulher reclama muito. É muita obsessão. Estou sempre estudando, compondo. E estou sempre escrevendo.

Max Eluard — Não tem esse limite, essa separação.

Heraldo do Monte — Não. Eu tenho que botar na minha cabeça: “Chega! Agora vou viver um pouco”. Agora estou mais: “Talvez eu precise estudar mais”. Antes eu achava que a música ficava muito fria se você ficasse num quartinho estudando um instrumento e não fosse numa praia. Isso era o que eu pensava e o que eu fazia realmente. Agora, não tem praia em São Paulo. Tudo o que eu falo você pode pensar no contrário…

Max Eluard — É meia verdade.

Heraldo do Monte — É verdade. Tudo o que eu falo é… Fica com o que eu estou dizendo e também…

Max Eluard — Não desconsidere, mas considere o oposto também. Tá certo!

Heraldo do Monte — Exatamente, porque não gosto de bater o ponto, de carimbar um tipo de atitude que eu sei que não vou ficar com ela três dias.

Max Eluard — Não acredita em verdades absolutas.

Heraldo do Monte — Não! Nunca! Nunca acreditei nisso.

Tacioli — E qual é a sua relação hoje com Pernambuco e Recife?

Heraldo do Monte — Há uns três anos eu passei dois anos lá. Minhas férias são assim: eu levo os móveis e vou fazer o que eu chamo de “uma atualização cultural”. A gente já foi, sei lá, umas 15 ou 20 vezes nessa…

Cirino — De mudança.

Heraldo do Monte — É, de mudança. Sempre.

Max Eluard — Mas sempre sabendo que vai voltar.

Heraldo do Monte — Sim, sim. Dessa última vez os caras botaram uma foto bem grande no Jornal do Commercio, “Heraldo voltou para ficar”.
Cirino — Tem uma campanha lá pra te reaver.

Heraldo do Monte — Provavelmente. “Voltou para ficar”. Eu falei: “É, quem sabe”.

Tacioli — Quais foram as novidades dessa última “atualização cultural”?

Heraldo do Monte — Eu escutei os novos maracatus. São muito parecidos com os antigos, com alguma diferença. Convivi com um pessoal: com Duda, um mestre do frevo, os meus amigos de sempre, com o Spok. Fiz parte de um disco em que o Sandro Haick, guitarrista daqui, e o Luciano Magno, guitarrista de lá, criaram para homenagear o Dominguinhos. Eu participei de duas faixas. O Spok participou de outra…

Max Eluard — E qual é a sua relação com a tradição, Heraldo? Dá pra ver que você a respeita muito, mas, ao mesmo tempo, você também a subverte. Qual é a sua relação com a tradição da música?

Heraldo do Monte — Algumas coisas me irritam. O Paulo (Moura) me disse uma frase que não é dele, mas que é muito boa: “O folclore não é estático. Ele é…”, como é o termo que ele usou? Esqueci. “Não é estático, é…”. O contrário de estático…

Max Eluard — Dinâmico.

Heraldo do Monte — É, dinâmico. “O folclore é dinâmico!” Se você fecha com um folclore estático…

Cirino — Morre.

Heraldo do Monte — Morre. Exatamente. É exatamente isso aí.

Tacioli — O Paulo Moura que falou isso?

Heraldo do Monte — Foi.

Max Eluard — Uma vez, quando a gente entrevistou os meninos do Cordel do Fogo Encantado, o Clayton, violonista do grupo, falou sobre tradição: “Rapaz, quem tem raiz é arvore. E árvore não se mexe”.

Heraldo do Monte — É verdade, é isso mesmo. Por isso que eu não entendo como as pessoas não querem que eu ponha mais duas cordinhas na viola.

Cirino — Você falou que estava compondo bastante coisa rítmica. Você pensa num ritmo de antemão, como um xote ou um baião? Ou o ritmo vem com a linguagem melódica, harmônica, já é um ritmo misturado?

Heraldo do Monte — A maioria já penso um ritmo. É até mais fácil, né? Mas as outras eu começo a fazer uma série de células rítmicas à toa e depois não sei o que vai ser aquilo.

Cirino — Uma célula rítmica que não tem essa característica de um gênero.

Heraldo do Monte — É, isso. Por isso costumo dizer: por causa das patrulhas, eu nunca digo que minha música é um choro. Eu digo que é uma “espécie de…”. É uma espécie de choro, meio samba. Aí desarma os caras.

Manu Maltez — Heraldo, como é o seu processo de composição?

Heraldo do Monte — Varia. Tem duas músicas que eu fiz que foi interessante (o processo). Foi dado de graça. Eu acordei com ela na cabeça. Acho que estava sonhando com ela. Cheguei e escrevi. É o “Esperando a feijoada”, aquele chorinho, e “Doçura”. Você acorda e só escreve o que já está pronto.

Manu Maltez — Você fez dormindo ou alguém fez pra você, se você acredita em alguma coisa de fora?

Heraldo do Monte — Sei lá, tem o negócio do sonho e tem a coisa também calculada, matemática.

Manu Maltez — Racional.

Heraldo do Monte — Racional, que é uma busca da beleza por meio do negócio certinho, mecânico. Mas tem uma música minha que foi gravada num disco… O André Geraissati tinha uma gravadora e eu fiz um disco nessa gravadora.

Tacioli — Na Tom Brasil?

Heraldo do Monte — Isso, Tom Brasil. Nesse disco tem uma música chamada “Pablo”, que é para um filho do Luís. É meu neto, então. Que é assim: uma série de movimentos contrários. Foi feita no computador mesmo. Mas não o computador. Eu escrevi no computador naqueles programas que tem de escrever música.

Tacioli — Uma equação mesmo.

Heraldo do Monte — É, uma equação tendo um certo cuidado para ter alguma beleza naquilo. Eu tomei a decisão de fazer em movimentos contrários sem nunca haver movimento paralelo. Fiz esse “Pablo” todinho assim. Essa é uma das matemáticas, das (músicas) feitas matematicamente.

Tacioli — Heraldo, quando a música mais vulgar, os sons da rua, os músicos da rua ou qualquer tipo de som te atrai? Tem alguma coisa que chama a sua atenção que não essa (música) feita para o disco, feita para o show? A música que circula… Tem alguma que te atrai? Você anda com os ouvidos abertos pra isso?

Heraldo do Monte — Ando, ando. Mas como a gente usava no Quarteto Novo, a gente escutava, e escuta, esse tipo de coisa, mas tem que passar pelo nosso crivo. Eu vejo até, inclusive em Recife, não vou citar, mas alguns caras que estudaram em conservatório e fizeram a faculdade normal, eles fazem um trabalho em que fingem que tocam mal pra poder parecer se com o povão. Eu acho isso falso. É fake, super fake! Isso não gosto de fazer. Eu ouço o cara. Mas, afinal, eu estudei um pouco. Não pode, tem que passar pelo meu crivo, senão, o que adianta, né? Fica falso, só isso. Tem que ser uma releitura. Mal comparando, como Chopin fazia do folclore polonês. E como desse cara. Não e possível que vou esquecer… O russo…

Manu Maltez — Bartók?

Heraldo do Monte — Não. Um russo mais romântico, que fez “Romeu e Julieta”…

Manu Maltez — Tchaikovsky?

Heraldo do Monte — Pois é. Esse cara pegava, ouvia o pessoal das balalaicas. Mas não fazia igual.

Manu Maltez — Filtrava.

Heraldo do Monte — Ele filtrava e passava por um cara…E era um maestro com toda a teoria do mundo.

Cirino — Tinha que passar pela erudição dele.

Manu Maltez — O Villa também.

Heraldo do Monte — É, o Villa também. O Villa não finge que toca mal, só pra ficar parecendo com…

Tacioli — Heraldo, me parece, pela sua fala, seu discurso, que você é perfeccionista.

Heraldo do Monte — Eu acho que sim.

Tacioli — Isso te incomoda? Já te incomodou?

Heraldo do Monte — Às vezes me dá um pouco de cansaço. Mas eu fico satisfeito depois. Por exemplo, esse negócio da música do Villa, se eu conseguir a tal notinha e as outras, der uma conferida e ter certeza do que está, ter certeza que está gravando uma do Villa mesmo, do jeito que ele pensou, eu vou ficar feliz. Mas enquanto isso eu estou atrás.

Tacioli — Você ouve uma gravação sua dos anos 60 ou dos 80 e fala “Poxa, faltou uma notinha ali que eu podia ter posto”. Incomoda?

Heraldo do Monte — Você sabe que eu curto! Eu curto mesmo! Eu curto as coisas que eu fiz antes.

Tacioli — Todas?

Heraldo do Monte — Todas. É. Não tem nada que eu…

Tacioli — Mesmo antes do Quarteto, não tem nada que não te agrade?

Heraldo do Monte — Não, nada que me desagrade, só que agrade. Eu gosto de tudo que eu fiz. Acho bonito. Eu não sou perfeccionista a esse ponto de “Puxa vida, que coisa horrorosa!”.

Cirino — A gente nota até nas gravações uma certa sujeira, no bom sentido, que é cada vez mais difícil de encontrar. E que é essa coisa da espontaneidade. E isso conta com uma certa imperfeição e com uma…

Heraldo do Monte — Claro. Principalmente se você está improvisando. Se você está improvisando…

Cirino — Você está sujeito a isso.

Heraldo do Monte — É. A ter aquele momento, aquela fração de segundos, principalmente…Tem uma fração de segundos que você vai fazer uma frase e na sua cabeça parece três frases, por exemplo, no mínimo. E você tem que escolher uma delas pra tocar e depois a outra nota, e depois a outra…É muito difícil. Dali tem que passar por isso. E você ainda realizar aquilo da maneira mais limpa possível.

Cirino — Mas é uma música que conta já com essa imperfeição que, na verdade, é ate mais difícil.

Heraldo do Monte — É, os improvisos… Improviso que é muito limpo dá a impressão que o cara estudou em casa, que decorou o improviso. Era improviso na hora que ele fez. Aí ele escreveu aquilo ou decorou aquilo e vai tocar na hora de improvisar. Aí deixa de ser improviso, né? Eu, como todo mundo que improvisa, tenho repertório. Repertório não, tem uma base… Como agora: estou falando e usando palavras que já existem. Só estou colocando numa ordem, numa determinada ordem, para expressar um pensamento. Então, se eu não soubesse nenhuma palavra eu não estaria falando. Então, todo o improvisador tem uma coisa que chamo de [?]. Você tem um repertório de coisas que estão embaixo do seu dedo. E quando você está improvisando vai usando as palavras, que você conheceu quando era criancinha. E vai formando um pensamento com aquilo. Mas você conhece as palavras. Se você não soubesse nenhuma palavra, você não conseguia falar. Então é a mesma coisa do improvisador. O improvisador tem alguma coisa embaixo do dedo que ele vai por em ordem para fazer um pensamento musical.

Manu Maltez — Essa coisa do improviso acaba entrando também nos seus arranjos, no próprio jeito de arranjar. Eu estava ouvindo um arranjo seu de “Bebê”, daquele disco de 1980, que começa todo solto e depois entra com ritmo e aquilo tudo. É um arranjo, mas foi todo improvisado.

Heraldo do Monte — Aquele começo… O começo do “Bebê”, a exposição do tema foi feita em casa.

Manu Maltez — Tem uma coisa blocada.

Heraldo do Monte — É, blocada.

Manu Maltez — Mas a gente vê que tem uma coisa também de interpretação.

Heraldo do Monte — Tem. E mesmo na coisa feita em casa… Cada vez que eu toco, coloco no meio da coisa feita em casa, uma coisa diferente. De cada vez que eu faço. Mas uma coisa que não atrapalha o fluxo, porque estou expondo um tema blocado, como você disse, e não posso ficar aéreo ali. Tem que seguir aquele esquema. Agora só na hora do improviso mesmo. Mas mesmo quando estou tocando sozinho alguma coisa, mesmo na exposição do tema, fica entre essas coisas. Aquela coisa que foi feita em casa por garantia…

Manu Maltez — E o modo como você conjuga isso…

Heraldo do Monte — Isso. Senão fica chato pra mim. Eu não gosto.

Manu Maltez — Eu gosto muito da sua música. Acho que tem uma sujeira. Esse tipo de sujeira me agrada.

Heraldo do Monte — Legal.

Tacioli — Heraldo, você lida com Internet, mexe com computador. Já teve flertes com a música eletrônica, teve interesse em trabalhar com outras texturas?

Heraldo do Monte — Nunca pensei em misturar (a minha música) com música eletrônica. Talvez entra aí o romântico. Talvez eu ache ainda, não sei, um pouco mecânico ou eletrônico demais, ou o que seja. Talvez, não. Talvez brigue um pouco com o meu sentimento romântico, com o meu Chopin interior, meu Stravinsky interior.

Tacioli — É que me parece nos discos que há uma limpeza (sonora): não tem pedais, não tem efeitos. O som é sempre limpo.

Heraldo do Monte — Nunca eco demais. Ou um pouquinho só. Um pouquinho de delay, às vezes. Mas só mais recentemente estou usando. Gosto mais do natural. Tiro delay, boto delay. E assim vai.

Max Eluard — Você passou por baile, boate, rádio. Como instrumentista, você pegou diversos tipos de serviço porque precisou. Claro, os serviços variam de época para época, mas as épocas trazem tipos de serviços diferentes. Queria ouvir você falar sobre o mercado da música instrumental, porque, como você mesmo disse, é uma música difícil comercialmente, e você vem sobrevivendo disso.

Heraldo do Monte — Então, estamos aí. Esse ano está ruim, mas não parei totalmente.

Max Eluard — Mas, como instrumentista, teve um momento legal comercialmente em que você disse “Poxa, o aluguel está garantido e a geladeira está cheia”? Qual foi esse período?

Heraldo do Monte — O ano passado. O ano passado foi ano de eleição. Aí teve trabalho bem pago pra caramba.

Tacioli — E o contrário, Heraldo, um momento difícil?

Heraldo do Monte — Nunca tive, não.

Tacioli — Nunca passou por uma…?

Heraldo do Monte — Não. Quando tem isso eu arranjo um trabalho com carteira assinada. Sabe que eu trabalhei com carteira assinada? Eu fui me aposentar e tinha não-sei-quantos anos na Delfim Verde, que é essa (boate) de Recife. Sete anos na Tupi. Eles pagavam INSS, carteira assinada. Aí me aposentei.

Tacioli — Penúltima pergunta: o que te dá medo, Heraldo?

Heraldo do Monte — Medo? Não sei. Tô querendo ser espírita pra não ter medo de morrer. Ainda não fechei o negócio.

Tacioli — Dá medo morrer?

Heraldo do Monte — Dá, claro. Sabe lá se existe esse negócio de eternidade. Será que existe? Será que não existe? Se existir é bom. Tem uma frase de Jesus para o ladrãozinho que diz “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”. Essa frase é legal. O Nando Cordel, que é espírita mesmo, chegou e (disse): “Não! Essa frase foi traduzida errada”. “Como é? “ “Em verdade, vos digo…”. Só sei que ele acabou com a esperança. “Em verdade, em verdade vos digo. Hoje…”. Não sei, só sei que o cara não vai estar no Paraíso coisa nenhuma.

Tacioli — Tá lascado, vai pagar pelos pecados.

Heraldo do Monte — Pois é. Eu não lembro como é a frase, como é a tradução que ele viu. Aí é de lascar. Dá medo de morrer mesmo.

Tacioli — Mais alguma pergunta, gente? Heraldo, obrigado pelo papo. Foi ótimo! Essa foi nossa primeira entrevista transmitida (ao vivo).

Heraldo do Monte — Foi um prazerzão. Um prazerzão.

Tacioli — E Lurdes, obrigado pela paciência.

Heraldo do Monte — Ela está acostumada.

Max Eluard — Ela foi fundamental. Fez toda a consultoria aqui.

Heraldo do Monte — É, a consultoria. É a memória.

Tacioli — É um HD externo.

Heraldo do Monte — Obrigado.

Tacioli — Heraldo, você falou da Dolores Duran, da música que ela cantava. Era uma música que a eternizou como aquela figura triste, mas dizem também que ela era uma muito divertida. Na real, como era a Dolores Duran?

Heraldo do Monte — Eu só a conheci no estúdio. Não deu tempo de conviver muito com ela. E ela estava concentrada no trabalho. Só soube que ela era uma tremenda improvisadora.

Tacioli — Ela morreu moça, com 29 anos.

Heraldo do Monte — De problema no coração, né? Jazzista, rapaz!

Tacioli — Mas isso também é fruto do cantar na noite.

Heraldo do Monte — Do contato com músicos de diversas tendências, mais jazzistas, porque naquela época o pessoal do Rio, daquele Beco das Garrafas, todo mundo tinha uma linguagem sofisticada. Todo mundo improvisava. E ela sacou.

Tacioli — Você não teve vontade de ir para o Rio?

Heraldo do Monte — Não. Eu vim direto pra cá por causa do negócio do Walter (Wanderley). Eu não tenho vontade de ir. O Paulo Moura, coitado, me chamava, “Vamos para o Rio. Vamos para o Rio. Vamos para o Rio”. Aí teve um dia que ele falou assim: “Não precisa ir mais para o Rio, não!”.

Tacioli — Para o exterior você não teve esse convite?

Heraldo do Monte — Tive convite, tive convite, mas não fui. Eu pensava assim: “É muito longe do Recife”. Primeiro, tive um (convite) do Walter Wanderley, quando ele foi pra lá. Depois o Airto (Moreira) ficou muito amigo do Wayne Shorter; eles estavam formando o Weather Report com aquele tecladista…
Manu Maltez — Com o Joe Zawinul. [n.e. Tecladista e compositor austríaco (1932–1997) integrou as bandas Weather Report e Zawinul Syndicate]

Heraldo do Monte — Isso! E o Airto, “Olha…”. Qual é o nome do saxofonista que eu acabei de dizer?

Manu Maltez — Wayne Shorter.

Heraldo do Monte — “Tô aqui com o Wayne Shorter. Ele é casado com uma portuguesa. E ele ouviu o lance do Quarteto Novo. Eles querem montar um conjunto novo que não tenha, exatamente, o que a gente não queria, bebop, com uma linguagem diferente. Eles estão querendo você aqui junto com o
Airto.” Aí eu falei: “Não!”. Sabe por quê?

Cirino — Não foi?

Heraldo do Monte — Não fui, não. Eu falei assim, “Rapaz, eu não sou músico 24 horas por dia. Quando a gente estiver ensaiando e tocando vai ser legal. Mas depois eu não vou gostar de estar num travesseiro americano”. Não!

Tacioli — Mas você lamenta?

Heraldo do Monte — Não! Nunca lamentei. Nunca me arrependi disso. Agora então, que eles (os Estados Unidos) estão ferrados. Mas, realmente, nunca me passou pela cabeça nenhum arrependimento. Adorei não ter ido. Você já vai com má vontade para um lugar. Aí chega lá e vai que pega um cara com preconceito com você. Já pensou? Uma coisa que você não tem aqui. É uma coisa que eu estou livre, de preconceito. Estou no meu país. É muito bom. Nunca quis morar em lugar nenhum fora daqui.

Manu Maltez — Eu tenho o mesmo sentimento.

Heraldo do Monte — É isso aí. Uma vez, a gente estava em Paris, quando a gente foi fazer esse negócio com o Edu Lobo. A gente estava passando, o Hermeto, o pessoal do Quarteto…

Manu Maltez — Qual disco do Edu Lobo? Era o Cantiga de longe?

Heraldo do Monte — Não era disco, era show. Era um show, sem disco. A gente ensaiou um repertório com ele e foi… A gente ia passando em Paris; tinha um café aberto. E estava cheio de gente. O Airto com aquele jeito… A gente com esse jeito diferente, o Hermeto foi querer tomar um café. Os caras falaram que tinha acabado o café. O café cheio e todo mundo tomando café. Os caras tiveram coragem, não queriam servir a gente. Era num negócio aberto, quase na rua, com uns degrauzinhos… Quer dizer, morar num lugar desse? Deus me livre!

Manu Maltez — Você não chegou a ficar dois meses para gravar ou alguma coisa assim?

Heraldo do Monte — Não, somente para fazer show.

Manu Maltez — Só show mesmo? Gravação nunca?

Heraldo do Monte — Fui pra Montreal essa vez, mas fiquei uns quatro dias só, já doido pra voltar para cá. Eu estava morando em Recife nessa época. Engraçado. A gente tocou… Estava o Alemão com o grupo dele…

Cirino — O Alemão?

Heraldo do Monte — É, aquele. A gente se encontrava lá. Saiu uma vez pra comprar afinadores, cordas, esse tipo de coisa. Eu estava lá já para o segundo ou terceiro dia, estava vendo a televisão deles em francês. Em Montreal só se fala francês. Falam inglês e francês, mas o que eles gostam mesmo é o francês. É o oficial. Eu estava vendo a televisão e estava passando Boa Viagem… “Que sacanagem é essa? O que isso está fazendo aqui?” Aí voltei pra Recife.

Manu Maltez — E o que São Paulo tem ou tinha que te cativou? Lá em Recife tinha praia, tinha aquela vida de contemplação. O que São Paulo tem? Ou é somente trabalho?

Heraldo do Monte — Rapaz, é o seguinte: passei dois anos em Recife há três anos. Cheguei em Recife acostumado a ver televisão aqui (em São Paulo). Minha TV tem um negócio que diz (se o som está em estéreo ou mono). Bom, liguei na Globo. E o que me aparece escrito na minha televisão? “Mono!” “Peraí, mas a Globo não é em estéreo?” — e a Globo é a televisão mais rica do Brasil. “Mono!”. Aí falei: “Eu não! Vou embora!”. Agora pode até ter mudado, mas quando passei por lá a Globo era em mono e o resto em mais mono ainda, se é que é possível. Meio-canal, sei lá. Adoro São Paulo, pelo amor de Deus! Aqui você vai comprar corda! Tem as cordas que você quer. As palhetas que você quer. A televisão é em estéreo. Daqui a pouco vai ser 5.1. E assim vai…

Cirino — Já é. Já tem coisa transmitida em 5.1.

Heraldo do Monte — Pois é. Tô aqui.

Tacioli — Heraldo, você sente falta de reconhecimento? Você acha que poderia ser mais reconhecido no seu trabalho?

Heraldo do Monte — Rapaz, não. Muito músico de jazz e desse tipo de música embarca pelas drogas porque não entende uma coisa: a gente nunca vai entrar no coração de uma pessoa que gosta de Não-Sei-O-Que-Santana. Como é esse cara do sertanejo?

Tacioli — Luan Santana?!

Heraldo do Monte — Luan Santana. Esse tipo de pessoa, se forçar a barra porque o namorado a levou para assistir a um show da gente, ela vai sair na segunda música. Ela não entende que você está improvisando não-sei-o-quê, não-sei-o-que-lá. E é muito ruim dela (embarcar), porque é uma pessoa que não teve uma formação musical na escola. E se teve, hoje em dia o curso de formação musical é somente percussão… Aí como o menino vai curtir Mahler ou Chopin? Ou jazz e Miles Davis? Como se ele não teve base nenhuma para isso?

Manu Maltez — Fiz faculdade de música e seu filho estuda música. A minha (faculdade) misturava um pouco de música popular e erudita, que eu achava uma coisa legal. Mas como ensinar música popular? Sempre foi uma questão, porque ainda é muito em cima do jazz; tem poucos livros sobre música brasileira, sobre improvisação. E tem outra coisa que incomoda: estudar e transformar uma linguagem popular em música erudita, que é teorizar toda a música popular e passá-la como uma matéria. Aí surge Improvisação I, II, III e IV, entendeu? Você deu aulas… Então, como você vê um curso de música popular no Brasil hoje? Como é possível fazer isso? É difícil, né?

Heraldo do Monte — É, é difícil, porque se você quiser formar guitarristas bons, você tem que ensinar modos e não-sei-o-quê. E enveredar um pouco pelo jazz mesmo. Jazz e erudito.

Manu Maltez — Como fugir do jazz?

Heraldo do Monte — A gente não tem uma linguagem de improviso. Tem agora, depois do Quarteto Novo, mas a gente não tem como a Índia. A Índia tem uma linguagem de improvisação, uma linguagem deles, que não tem nada a ver com o jazz. É uma coisa antiga, antes do jazz. Então, não pode ter influência do quê? Mas a gente não tem uma linguagem de improvisação.

Tacioli — O choro não é uma linguagem?

Heraldo do Monte — O choro é… A improvisação do choro é a seguinte: não são improvisações, são ornamentos, variações sobre um tema. Bem pertinho do tema, senão a patrulha cai em cima, né?

Cirino — No Rio tem uma escola do choro. Na origem, o choro tinha essa coisa de estar sempre mudando. Agora, ficou uma academia do choro, a coisa fica fechada em si. E tem uma fama de que as pessoas tentam preservar uma identidade da música frente à globalização. Mas, por outro lado, tem esse negócio de fechar (o gênero às transformações).

Heraldo do Monte — Eu gosto do Hamilton de Holanda porque ele improvisa bastante, ele improvisa mesmo. Só que, quando improvisa, deixa o tema pra lá. Faz uns improvisos na linguagem do choro. E, ao mesmo tempo, não está preso. Ele está solto porque é uma linguagem que ele domina e ouviu a vida inteira. Então, você pode improvisar, fugir, deixar o tema pra lá. Toca o tema, toca o chorinho e segue a harmonia. Fica livre, faz as suas acentuações de choro e improvisa. Depois volta para o tema normal. Isso não vai subverter o choro de jeito nenhum. Se ele acabasse de tocar o choro e fosse tocar jazz, aí sim, aí ficava perigoso. Mas do jeito que alguns chorões fazem, inclusive e principalmente o Hamilton, acho que não. Espero que ele não tenha sofrido o que eu sofri, porque ele fez um bandolim de 10 cordas.

Manu Maltez — Você sofreu essa patrulha?

Manu Maltez — Mas isso na década de 60?

Heraldo do Monte — Não. Fui fazer o Voa Viola e estava passando o som. Esse (instrumento) aqui estava afinado como viola, só que tem mais duas cordas para tocar solos. Já contei pra eles. [Aponta para parte da equipe] Eu estava passando o som e quando vejo tem uma pessoa de cócoras na minha frente, com os olhos desse tamanho. Era o Roberto Corrêa. “Não!” E eu falei: “O quê?”. “Doze cordas! Você não trouxe uma viola?” “Isso aqui é uma viola. É madeira de viola, é tamanho de viola.” “Doze!” Que é isso, meu Deus?!

Manu Maltez — Que loucura!

Heraldo do Monte — É. Então, espero que o Hamilton nunca tome esse susto. “Não! Dez!”

Manu Maltez — O engraçado é que isso parece uma volta: ao mesmo tempo que existe um movimento de total abertura, em que às vezes é uma coisa que não sobra nada, como um samba do criolo doido, por outro lado, tem uma coisa de proteger o negócio tanto que fica neurótico.

Heraldo do Monte — É o que eu falei pra ele. No outro dia teve reunião. Ele (Roberto Corrêa), ao lado de uma moça, é curador desse movimento Voa Viola. Falei: “Vocês estão dando muita importância a mim. Se eu tocar com uma viola de 12 não significa que o instrumento vai sumir somente porque toquei umas musiquinhas. Quem toca, quem ama viola de dez, vai continuar amando a viola de dez!”.

Manu Maltez — É a sonoridade da viola.

Heraldo do Monte — Não é? Claro! Aí ele disse não-sei-o-quê. E eu terminei fazendo, tocando. No meu Myspace tem um negócio lá do YouTube em que acompanho o Lenine tocando essa (viola) com 12. Para o desespero dele!

Lenine e Heraldo do Monte interpretam “Leão do Norte”, composição de Lenine e Paulo César Pinheiro, no show Voa Viola realizado no Palácio das Artes, Belo Horizonte/MG, em 1º de dezembro de 2010.

Depois teve uma reedição do Voa Viola aqui em São Paulo. Falei: “Não vou passar por isso de novo”. Eu estava sem viola de dez. Mandei um e-mail para o Mário de Aratanha, que era o produtor, um cara da Kuarup. Ele acreditou naquilo que falei. Eu estou rindo agora, mas… Mandei um e-mail assim: “Fala para o Roberto que estou com saudades de tocar viola de dez”. Eu estava querendo era pegar o cachezinho que era bom pra caramba. Aí ele me emprestou (a viola). Falei: “Só que (ela) precisa vir antes para minha casa para me acostumar com ela”. Ele foi muito legal. Mandou pelo correio, sei lá, mas chegou em casa. Mas chegou com as cordas duras pra caramba; aí coloquei as minhas cordas.

Manu Maltez — Você coloca chacoalho de cascável dentro da viola?

Heraldo do Monte — Não, porque eu sei que aquilo me dá um azar desgraçado.

Manu Maltez — Falaram que é muito bom.

Heraldo do Monte — Tá louco, não dá, não!

Max Eluard — Heraldo, este é o segundo fim. Vamos acabar de novo a entrevista. O táxi chegou.

Heraldo do Monte — Então é inevitável.

Max Eluard — É inevitável o fim.

Heraldo do Monte — Quem é? É o Max de novo? Não, o Flávio de novo?

Max Eluard — Não, é outro. Agora é o Ivanildo que tá lá embaixo. Obrigado.

Heraldo do Monte — Você já escaneou as fotos?

Tacioli — Acho que o Eric já terminou.

Heraldo do Monte — Tá legal.

Tacioli — Depois, Heraldo, pego as informações (das fotos) contigo.

Heraldo do Monte — Tá. Se estivesse escaneado o verso, as costas das fotos, tem algumas informações lá.

Tacioli — Ele anotou a informações.

Heraldo do Monte — Ah, legal. Então, tá perfeito.

Manu Maltez — Heraldo, quando foi a última vez que você falou com o Hermeto?

Heraldo do Monte — Eita.

Manu Maltez — Faz tempo?
Lurdes — Foi naquele último show no Sesc.

Heraldo do Monte — No Sesc. É, fui assistir a um show com ele no Sesc. Acho que faz um ano, não?

Lurdes — Não, faz uns seis meses, mais ou menos.

Heraldo do Monte — Uns seis meses?

Lurdes — Faz uns seis meses.

Manu Maltez — Ele aprontou alguma ali? Alguma daquelas antigas?

Heraldo do Monte — Não. Aquilo ele só fazia quando era só um músico… Era revoltado quando não tinha feito sucesso.

Tacioli — Agora não apronta mais nada.

Heraldo do Monte — Não. Só quebra piano, esse tipo de coisa.

Manu Maltez — E aperta porco no palco. Ele gosta disso também.

Heraldo do Monte — Até isso?

Max Eluard — Deixa tirar o microfone. Dá licença.

Heraldo do Monte — Tá legal. Aquilo era do tempo em que ele era revoltado. Um cara chegou pra cantar com ele, eu estava na guitarra, ele no piano e acho que o [?] no baixo. Aí o cara chegou, com uísque, e falou pra ele: “Me acompanha aí! Começa em Fá esse tango”. Ele fez a introdução. Aí ele pegou quatro Fá sustenidos do piano — aqui (na viola) não tem tantos — e ele fez isso aqui. Mas tão forte, bicho! Ele apertou aquele acelerador de sustenido do piano, que fica forte pra caramba. Fá sustenido, Fá sustenido, Fá sustenido, Fá sustenido. Conservou aquela nota e o cara parecia uma sirene. Eu me diverti muito com o Hermeto nessa época. Moleque que só ele. E as fotos? Tchau, tchau, gente!

Max Eluard — Vou descer com vocês. Lurdes, muito obrigado pela paciência. Heraldo, um prazer enorme. Obrigado. Espero que tenham gostado.

Heraldo do Monte — Eu gostei. Eu adorei.

Cirino — Tchau.

Heraldo do Monte — Tchau, tudo de bom pra vocês. Vai dar Brasil ou Argentina?

Manu Maltez — Você torce pra quem em São Paulo?

Heraldo do Monte — Eu sou assim: Náutico, Flamengo…

Tacioli — E Corinthians.

Heraldo do Monte — Não! Náutico, Flamengo e Santos.

Tacioli — A última coisa: a autorização (de voz e imagem), senão todo esse papo não pode existir. Tem uma caneta, Max?

Max Eluard — Tenho.

Heraldo do Monte — O.K. Aqui, né?

Tacioli — Obrigado.

Heraldo do Monte — De nada.

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