HERMINIO BELLO DE CARVALHO [2005]

Poeta, produtor, compositor, provocador cultural e boêmio: de Aracy a Cartola.

editor do gafieiras
May 4 · 43 min read
Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

“Missão, não!”. Foi assim, de bate-pronto, que Herminio Bello de Carvalho respondeu a uma das perguntas no Filial, bar paulistano da Vila Madalena. A interrogativa tentava elucidar como ele definia sua paixão pela música brasileira e o vigor com que vive por ela. E, numa fração de segundo, a resposta já estava esparramada sobre a mesa. Não era missão, não, essa coisa de super-heróis, de religiosos ou de homens-de-farda. Todos esses têm algo a cumprir. Uma meta. Seja salvar um gato, um planeta, umas almas ou defender fronteiras. Para Herminio, não. Não, pelo menos quando o assunto é música.

Ele é uma daquelas figuras-chave na história da música produzida no país. Homem das artes, sacumé? Para entender, basta dar uma rápida passada de olhos por sua biografia. No meio musical desde sua juventude imberbe, produziu uma centena de shows e de discos obrigatórios. Teceu letras para outro punhado de melodias criadas por gente como Villa-Lobos, Jacob do Bandolim, Paulinho da Viola, Dona Ivone Lara, Cartola, João Pernambuco e Baden Powell. Amigo íntimo de cantoras como Aracy de Almeida e Elizeth Cardoso, descobriu Clementina de Jesus, quando a expôs no Rosas de Ouro, espetáculo antológico que ainda returbinou a vida artística da vedete Araci Cortes e revelou o jovem Paulinho da Viola. Herminio tem dessas coisas…

Também criou dezenas de projetos, como o Pixinguinha, que une um artista veterano a um outro com menos estrada e circula pelo Brasil em shows gratuitos. Um outro que privilegiou a publicação de livros sobre MPB, outro que valorizou a edição de partituras e por aí afora. Empreendimentos que firmou quando dirigia a Funarte entre os anos 1970 e 1980.

Herminio é assim, meu camarada. Com 70 anos — e comemorando o lançamento da caixa Timoneiro–, mantém os ouvidos e os olhos de menino, não pára de produzir e está atento ao novo. Não aquele gratuito, de qualquer sorte, arremessado pelo mercadão. Tenta identificar e entender essas novidades. Assim fez com o rock (é parceiro de Frejat) e com o hip hop. Isso não quer dizer que vista uma camiseta do Barão Vermelho ou do Pavilhão 9, mas sabe que a música brasileira tem um montão de braços, de caminhos.

É, a conversa de uma hora e meia com o poeta, produtor e compositor carioca esbarrou nisso tudo, nessas lembranças e nas histórias que desenha diariamente. Como se tivesse que proporcionar aos outros tudo aquilo, todas as oportunidades que um dia se apresentaram a ele. A oportunidade de conhecer. Por isso, Herminio não guarda histórias na gaveta, na cachola. Publica, conta, inventa, produz, canta. A música brasileira circula. Assim, Clementina aparece. Elizeth, Aracy, Dalva e outras. Assim, Teresa Cristina, Pedro Miranda e a rapaziada nova da Lapa dão a mão a Zélia Duncan, Ed Motta, Lenine e Zé Renato. Mas, para Herminio, isso tudo não é missão, não. É só um jeito de levar a vida, dá para entender?!


{…} expediente

entrevistadores Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Max Eluard eRicardo Tacioli transcrição Marllon Chaves produção, edição de texto e texto de abertura Ricardo Tacioli fotos Dafne Sampaio agradecimentos Julio Moura

Entrevista realizada em São Paulo/SP em 21 de maio de 2005.


Herminio Bello de Carvalho — Podemos começar? Ricardo Tacioli — Podemos. Herminio — Vou primeiro contextualizar o porquê de São Paulo e o porquê daqui. [em referência à entrevista no Bar Filial, na Vila Madalena] Sempre tive uma profunda relação com bares, né? Desde a infância, mas não por freqüentá-los, e sim por uma sedução natural. Quando eu era garoto passava pela Taberna da Glória… Eu me lembro daquele mármore rosa, daquelas mesinhas como essas daqui e, na porta, um vai-e-vem que dava pra uma outra história. Eu nunca me lembro pra onde dava essa outra porta, mas era uma porta que me fascinava. Daí que nesse meu livro (sobre o Mário de Andrade), as Cartas cariocas, eu avento a hipótese de tê-lo visto. Isso porque a figura do Mário na minha cabeça é tão forte, aquela logomarca do queixão, do dente, do riso, aquela coisa que não é improvável que, sendo eu um menino que saía muito fugidio de casa e ia sempre pra taberna — eu morava na Glória –, de tê-lo visto um dia. Eu tenho uma memória assim… Eu guardo coisas… Como a dona Cristina descendo a ladeira, que pegou uma música minha e do Maurício. [n.e. Compositor carioca (1943–1995), Maurício Tapajós dividiu com Herminio a paternidade de músicas como “Mudando de conversa”] São fragmentos da minha infância que eu colho e, de repente, surge o Mário. Então, é uma coisa que eu apresento no meu livro como uma hipótese pouco provável, mas sinto que pode ter sido… Um dia, conversando como Sérgio Cabral [n.e. Jornalista, escritor e pesquisador de música brasileira, autor de biografias de Pixinguinha, Elizeth Cardoso, Nara Leão e Tom Jobim ], eu dizia assim: “Sérgio Cabral, eu tenho a impressão de que eu ouvi ainda na Galeria Cruzeiro, lá no Rio de Janeiro, o Pixinguinha tocando no carnaval”. Ele disse: “Claro, ele tocou”. E deu a data, contextualizando tudo certinho. Então, estava correto. A minha sensação tinha uma base histórica correta que o Sérgio Cabral, que é um expert, logo localizou. Então, esse bar aqui [Bar Filial] responde à minha memória de outros bares que eu freqüentei, não somente a Taberna, que foi um bar muito forte na minha vida, até porque eu morei na esquina da Taberna da Glória durante algum tempo. Ali eu bebia com Aracy de Almeida, com Ismael [Silva]. E ali o Ismael bebeu com Noel, a Aracy bebeu com Noel e com Mário de Andrade e com Fernando Sabino. Em São Paulo, quando veio o Vou Vivendo, com o Helton [n.e. O produtor musical Helton Altman fundou, em 1984, ao lado de seus irmãos e do músico Eduardo Gudin, o bar Vou Vivendo. Com o encerramento de suas atividades, inaugurou o Bar Filial, na Vila Madalena], eu vim a ser padrinho do bar, a convite dele. Esse e outros se incorporaram à minha memorialística dos bares… O Vou Vivendo, que acabou, o Gargalhada, que acabou, foram dois bares em homenagem ao Pixinguinha. E vim trazendo algumas coisas do Pixinguinha que eu tenho, dando pro Helton, como a caricatura do Pixinguinha que está aqui. Tenho uma coleção do Pixinguinha na minha casa. Então, hoje estamos aqui. Escolhi porque eu me sinto um pouco em casa. Eu me sinto protegido pelos meus amigos. É uma forma de ficar um pouco mais à vontade. Só contextualizei porque o bar tem essa história. E havia o Simpatia, que é um bar que vocês não conheceram. Era um bar que tinha umas cadeiras de vime e uns sucos, de tamarindo, de coco… Não eram sucos, eram frapês. Era uma coisa engraçada que vinha com uma espuma desse tamanho. Era uma delícia! Esses bares foram muito fortes na minha vida. Tacioli — Qual a sua primeira lembrança de ir ao bar como frequentador? Herminio — Eu acho que, pela proximidade, já que eu morava ali, foi a Taberna o bar que eu mais freqüentei. Depois freqüentei um pouco o Recreio, bastante o Lamas… O Lamas foi muito forte. No Recreio eu tinha amigos mais velhos, e o Walter Wendhausen, um artista de vanguarda, era um deles. Ele e o Luís Canabrava, que são autores de capas de discos da Elizeth. Aquela capa do disco Elizeth sobe o morro é do Walter Wendhausen. O Elifas [Andreatto] diz que aquela capa influenciou todo seu trabalho gráfico. E o Luís Canabrava fez diversas capas para a Elizeth e para a Dalva de Oliveira. Eram amigos meus. Eu tinha 16, 17 anos de idade. E eu ia pro Recreio e me encantava. Eu não tinha grana pra tomar o que eles bebiam, então pagavam pra mim um copo de chopinho. Eles tomavam gin Gordon. Eu tomava um gin nacional. Imagina, um gin já era um atentado! De repente, eu vi o Ary Barroso com a Elizeth entrarem no bar. Nessa época, a Elizeth namorava o Evaldo Rui, irmão do Haroldo Barbosa [n.e. Jornalista, letrista, compositor, humorista e dramaturgo carioca (1915–1979)]. E eu via os meus ídolos entrarem no bar. Mas sempre eu fazendo o papel daquele menino assustado com a vida, com a descoberta da sexualidade e tudo. Era uma coisa maravilhosa! E vivendo dentro de uma casa, onde havia a Eneida, o Paschoal Carlos Magno… Atores, pintores… Era uma casa onde se discutia muita arte. Então, o meu sonho de criança, que era a minha formação de menino que foi privilegiado pela escola pública quando havia o canto orfeônico, quando se faziam exercícios físicos… A gente podia freqüentar o Teatro Municipal, assistia os Concertos para a Juventude. [n.e. Série idealizada em 1942 pelo maestro Eleazar de Carvalho para a Orquestra Sinfônica Brasileira, fundada dois anos antes] Assistias as aulas da Magdalena Tagliaferro. [n.e.Uma das mais destacadas pianistas brasileiras (1894–1986)] Ia pro Siena, pro Trianon ver aquelas sessões de passatempo que, aliás, virou até o nome de um show que fiz, que era um recorte de coisas que aconteciam. Eram filmes curtos, curta-metragens. Então, a minha vida, aos 16 anos, teve essa surpresa de encontrar dois homens bem maduros, um egresso da FEB e o outro pintor; os dois pintores modernos e que, sobretudo o Walter, me abriram uma porta imensa, eu que tinha somente a cultura da Rádio Nacional e aquela paixão pelos seus cantores. Passei a entender, a ouvir jazz, a ler Fernando Pessoa, Drummond de Andrade, e me encantar com Chagal, Picasso e Modigliani. Então foram descobertas que se acrescentaram à minha vida e à minha visualidade, e também ao meu palato, de ir para um bar e comer coisas que eu não conhecia, já que o cardápio restrito da minha casa não me permitia conhecer. Tudo isso foi assim… Comecei a desgutar a vida. Tacioli Mas como seus pais viam um adolescente já nos bares? Herminio — Eu saí de casa cedo. Saí de casa aos 15 pra os 16 anos. Saí de casa, fui ganhar a vida. Daniel Almeida — Mas como foi essa saída? Herminio — Vou contextualizar a minha casa. O meu pai era calista, pedicuro. Ele tem uma história muito linda, que ainda não sei direito. Meu irmão, que morreu há pouco tempo, tinha um material que descobri recentemente. Encaminhei tudo para o Alexandre Pavan, que está fazendo a minha biografia. O papai inventava. Ele foi um cara que, pobre, foi um dos primeiros a ter telefone em casa. O primeiro rádio que surgiu, rádio Galeno, ele comprou. Ele lutava muito, era um grande batalhador e, segundo a minha cunhada, um fato que eu desconheço totalmente: ele teria tido uma barbearia perto do Simpatia, onde o Getúlio ia fazer a barba com ele. Depois ele foi pra Petrópolis atender também o Getúlio. Mas, ao mesmo tempo, como pedicuro, como um cara que tratava de unhas, ele tratou dos pés e das mãos da Carmen Miranda e da Carmen Costa. Sempre falei pra Carmen Costa: “Além da grande admiração por você, tenho uma gratidão porque você botou muito pão na minha casa por causa dos seus pés e das suas mãos”. Papai tinha um sitiozinho em que ia pra lá numa época em que ele se separou da minha mãe. É uma história que está muito difusa na minha cabeça. Mas o meu pai era aquele cara de olho azul, azul. Loiro de olho azul. Minha mãe, mulata. Na minha família, parte da minha mãe é de origem negra. Eu tenho tio retinto, negro retinto. Esses olhos verdes talvez, não sei, vieram de meu pai. Mas minha mãe era uma escamadeira de peixe, como meus tios, que viviam da pesca na Ilha da Jipóia. Dali vem a coisa do palato que falei. Fiz um poema sobre isso agora. Não havia padaria na ilha. Guardava-se carne de porco, lingüiça em uma lata de banha. E o café da manhã, era às 4 e meia da manhã, quando o pessoal saía pra pescar. Então a minha avó, que adorava uma cachacinha, fazia angu… Vinha pra mesa aquele angu maravilhoso, aquele café feito na cana-de-açúcar e, de repente, aquela banha naquela frigideira negra, a banha estalando, aquele ovo estrelado. Esse era o café da manhã! E aí cada um saía no seu barco. E meu avô, que eu não conheci, era violeiro. O vô Gregório era violeiro, violeiro afamado, segundo diziam, lá pelas cercanias de Angra dos Reis. Então, quando ele tinha um desafio de viola qualquer, a minha avó preparava um matulão, descia com ele, e ele ia temperando, temperando e afinando a viola. E ela ia remando pra ele não se cansar. Ela remava, deixava ele lá na vila e que voltasse somente quando fosse vencedor. [risos] Almeida — A musicalidade de sua família vem de seu avô? Herminio — Eu acho que vem. A minha casa era uma casa muito festeira. Papai era muito festeiro, mas sobretudo concentrado, porque éramos em seis irmãos e uma só irmã, que era o xodó da família. A economia interna da casa permitia que se guardasse um dinheirinho pra gente festejar aquele aniversário, ou o Natal, rabanada. Papai era um bom cozinheiro. Ele fazia coisas ótimas. O macarrão dele era famoso. O macarrão não é tão difícil de fazer, mas têm uns pratos que são muito melhores que os outros, não têm? Tem essa história… E eu tenho a sensação de que minha mãe não cozinhava bem. Meu irmão disse que ela cozinhava bem. Eu não me lembro da minha mãe cozinhando bem. Ela era aquela mulher braçal, que ia para o tanque lavar toda a roupa dos filhos, passar, cozinhar, entendeu? Era uma dona de casa em tempo integral. Dona Francisca… Dona Chica foi uma grande companheira do Seu Inácio, e se separaram depois de 50 anos de casados. Almeida — Que loucura! Herminio — Separaram e foi definitivo. Almeida — Mas a separação foi anterior à sua saída de casa? Herminio — Não, foi posterior. Sou o mais novo da família. Tacioli — Você é o caçula? Herminio — Sou o caçula. Dizer que eu sou o caçula aos 70 anos de idade é ridículo, mas o que eu vou fazer? Almeida — Como foi essa separação pra você? Um casamento com cinquenta anos parece eterno, não? Herminio — Pra mim não chegou a se constituir em uma surpresa. Foi traumático porque o papai saiu de casa repentinamente por uma discussão dessas que a gente não sabe como elas se dão. É uma gaveta que cai, um copo que se quebra… Ela disse: “Ó, Inácio, mais uma vez!”, uma coisa assim. Ele saiu de casa e foi encontrado três dias depois perdido. Ele pirou, surtou com aquilo e foi encontrado dois ou três dias depois. A gente distribuiu fotos dele pelo caminho até Rio Bonito. Ele foi encontrado muito queimado de sol. Ele caminhava, adorava caminhar. Não pegava ônibus, bonde, nada. Ele ia a pé. Pegou a barca pra Niterói andou a pé. Com muito sol no caminho ficou queimado. Foi encontrado ainda meio no estado de torpor. A gente levou certo tempo pra entender que aquilo já era o início de uma esclerose que logo avançou… E aí foi o fim. Almeida — Mas você falou dos aniversários, dos natais em casa… Como eram esses aniversários? Herminio — Sempre havia um cara que tocava frevo e todo mundo cantava. A minha irmã estudava piano e canto com o professor Faini, que era pai da Suzana Faini, atriz que até hoje é nossa amiga. Além de ser uma casa musical, se ouvia muito rádio, muito rádio mesmo. Ouvia-se música clássica, até porque eu freqüentava o canto orfeônico. Adorava aquela coisa do canto orfeônico do Villa-Lobos. Eu estudava em uma sala em que, às vezes, o Villa-Lobos com a Mindinha e o Lorenzo Fernandez, apareciam para inspecionar. Era um encanto isso pra mim! Na minha casa havia essa coisa musical, muito musical. Não que a minha irmã viesse a ser uma pianista famosa, nem uma boa pianista, nem uma boa cantora, mas eu ia às aulas com ela, acompanhava as aulas e adorava ver aquelas vocalises, aquelas escalas que ela fazia e, sobretudo, ficava trêmulo de medo quando ela cantava uma escala que tinha uma nota aguda. Eu tremia diante daquela paixão que tinha pra ela não errar aquela nota. Era uma maravilha, uma maravilha! Então, era assim uma família musical nesse ponto, mas acredito que essa musicalidade tenha, sim, me influenciado. Fui o único cara da família que se direcionou mais para a arte. E, agora, um sobrinho meu, o Saulo, filho da minha irmã que toca violão muito bem e que tem um estúdio. Pela primeira vez ele vai me ver atuando. Nunca tinha me visto. Na família houve certa diáspora, mas não muito violenta. Almeida — E você sente isso? Herminio — Não, porque tenho muitos amigos, né? Vir pra São Paulo significa estar com outras famílias. A minha vida foi sendo tateada, né? Numa certa época eu conheci a família Castilho Carino, que é uma família bem italiana e que, de repente, me adotou como um filho. Então, era tia Mena, tia Iolanda… Sabe, eram as tias, novas tias. Depois, lá em Três Rios, já era a família Vileri. Então, sou tio e primo de uma porção de gente que não são nem meus tios, nem meus primos. E nessa outra família tem uma menina, já tem uma filha médica, e que é uma pessoa bastante modesta que, quando foi a um show meu, tomou uns gorós a mais e chegou à mesa e “Essas músicas todas são do meu primo!”. Tanto que no último dia de um dos shows que eu fiz agora, eu fiz uma homenagem a ela, pra dizer que sou primo dela. Na verdade, ela não é prima de sangue, mas é mais do que isso. Isso é importante! E tenho aqui o Helton, que é um irmão. A Elenice, minha irmã querida. E os filhos deles. Sou o tio Herminio, que eles abraçam, beijam. Tenho essa família. Até fixando uma teoria, que não está provada cientificamente, que é a do Julato, dos judeus mulatos, né? Talvez eu seja o primeiro julato! [risos] Isso é do marido da Cristina Buarque, o Homero, que tem essa teoria dos julatos. Eu tenho, em homenagem aos meus sobrinhos, a cruz de Davi. Eu ganhei esse cordão da Simone no dia do meu aniversário e agreguei essa estrela de Davi em homenagem aos meus sobrinhos. Embora eu não seja judeu, faço questão de homenagear, porque tenho horror do que aconteceu, daquela guerra terrível, do Holocausto, que é uma marca muito funda na minha vida. Tacioli — Você tem as lembranças dos efeitos da Segunda Guerra no Brasil? Herminio — Horror. Tacioli — Você tinha uns 10 anos. Como era? Herminio — Sempre havia o susto de ver os meus irmãos mais velhos convocados para a guerra. Então, sempre que saía uma convocação, a gente via no jornal se era convocado ou não. Era um susto meu, pessoal, uma coisa forte. Eu ficava assustado com essa possibilidade de ver meu irmão ir pra guerra e voltar mutilado. Eu me lembro que, quando acabou a guerra e os pracinhas voltaram, eu fui ver aquilo. Era garoto. Era uma alegria ver aquilo, mas também tristeza em ver aqueles mutilados. E, sobretudo, aquela visão dos cadáveres sendo jogados, ou caminhando nus para a incineração, ou, ainda, sendo jogados naquelas valas. Isso é uma imagem que eu não consigo ver sem entrar numa depressão horrorosa. Max Eluard — E o que a guerra influenciou no seu dia-a-dia? Herminio — A guerra terminou em 45, né; eu tinha dez anos, mas peguei a guerra, de tomar conhecimento dela dos sete aos dez anos de idade. Evidentemente que você é bombardeado pelos jornais. Na época havia as rádios. Eu ouvia rádio quando podia, estudava… Eu não tinha muito acesso. Hoje, não, você tem as guerras, o Iraque é transmitido, é lincado direto, você vê o cara, o homem-bomba lá. É uma informação muito mais direta hoje em dia. Max Eluard — Porque você viu a guerra bem no período em que as pessoas começam a tomar consciência de que é uma pessoa, com seis, sete anos de idade. Herminio — E, sobretudo, a coisa da família, de ter irmãos na faixa etária que poderiam ser convocados. Era um pavor perder um irmão! Era essa a coisa. Sobre a guerra em si, o conflito ideológico, eu não tinha muito conhecimento. Eu não tinha idéia do judaísmo, o que isso significava. E hoje eu tenho. Aí o horror é acumulativo. Eu consigo ter esse horror permanentemente revisitado quando vejo uma cena. E tanto que até há pouco tempo, eu tinha um livro sobre o Holocausto e eu dei. Me vazia tão mal. “Não quero, não!” e passei a informação pra uma pessoa que estuda isso. Não queria mais saber daquilo, porque me fazia mal. Isso faz com que eu sinta pelo ser humano, por uma parte do ser humano, certo desprezo, certo horror. Almeida — Foi um trauma, né? Herminio — Foi, foi. Como também todas essas coisas que aconteceram, pelo amor de Deus, lá no Harlem. Tudo que acontece, como a chacina de Vigário Geral. Os 111 mortos do Carandiru… Tudo isso são coisas que massacram. A convite de um amigo, fui conhecer um grupo de samba de lá. Eu relutei, mas fui. Fui lá e passei por aquela praça onde ficaram expostos os caixões da chacina de Vigário Geral. Passei por ali e localizei o local, evidentemente. Dali passei para um estudiozinho mixuruca, onde os meninos de um a dezessete anos ensaiavam, um grupo de samba que é um braço do Afro Reggae, é o Afro-Samba. E o Afro Reggae é um movimento do MV Bill, em que ele tenta uma inserção dos jovens dentro da sociedade por meio da música, do hip hop. Fui assistir os meninos. Tanto que esse meu novo disco incorpora alguns segmentos que admiro. Aí, quando fui lá, vi os garotos… Essa última faixa é uma incorporação desses segmentos sociais. É o “Siri na lata”, que é um grupo que acompanha o José do Manguezal na luta pela preservação do manguezal da Ilha do Jequiá. Tem o pessoal do Afro-Samba que eu trouxe pro disco, tem os Meninos de Cordeiro, da Escola Portátil de Música, tem a Luciane representando um pouco o Jongo da Serrinha. Enfim, nessa ultima faixa eu agrego essas correntes de tempos que escoam na minha vida. E, pontuando isso e que me deu uma força quase telúrica, tem a voz do Zé Bentinho, Zé Bento Farias Ferraz, que foi secretário do Mario de Andrade e que está vivo aqui em São Paulo. Ele lê um poema meu, um trecho do “Timoneiro”. Então, você tem ali exatamente o que eu penso da música, agregando sempre coisas novas, juntando as coisas passadas… Não sei se aquele menino que canta o “Timoneiro”, com aquela vozinha infantil, vai ser um grande cantor… Eu não sei! Mas aposto que alguma coisa vai acontecer com ele… Eu sei que isso é a marca da minha vida… Agregar! Sempre juntar! Um traço de união! Eu gosto disso. Tacioli — Existe uma missão pra você? Herminio — Ah, missão?! Eu não gosto dessas coisas. Missão parece aquele negócio do cara que vem esfarrapado, cabelo… Almeida — Um salvador. Herminio — Salvador, não… Max Eluard — Como manter esse interesse pela música que está sendo produzida no seu tempo? Herminio — Primeiro lugar: você não pode ser preguiçoso. Tem que buscar as coisas onde elas estão acontecendo. É preciso ter um certo filtro pra saber se é um modismo e não ter muito interesse histórico. Você, às vezes, não tem capacidade de determinar se aquela coisa será reassimilada, se ela vai ser reformatada, reformulada e vai virar uma outra coisa. Quando o iê-iê-iê, a música jovem de fora, chegou ao Brasil, era uma coisa ingênua, mas que foi tomando uma forma mais agressiva até chegar aos Titãs, ao Barão Vermelho, com mensagens mais agressivas, chegando até ao hip hop. Também não conheço bem o hip hop, mas algumas coisas que eu vi são muito interessantes, como o rap do Gabriel, o Pensador, que é um versador da melhor qualidade que, numa outra escala, ele faz o que o Aniceto fazia, o que a Clementina fazia, inventar versos, contar histórias, como os contadores, os repentistas. Tanto que no espetáculo O samba é minha a nobreza colhi depoimentos não somente dos sambistas sensacionais, como Dona Ivone Lara, Elton Medeiros e Monarco, como também colhi do Frejat e botei o Gabriel, o Pensador, que convocou os meninos para as sessões pedagógicas. Então, há três anos quando eu fiz O samba é minha nobreza, uma turma da Lapa que estava começando a aparecer — Teresa Cristina, Paulão, Pedrinho Miranda, Pedro Paulo — capitaneada pela Cristina Buarque, uma pessoa muito importante nesse processo, porque é uma cabeça pensante, tem a inteligência e a argúcia da Aracy de Almeida, selecionei o que eu gostava, ouvi o que eles faziam e fui agregando. Essa é a posição do cara que não é o dono da verdade. Tenho horror dos donos da verdade ou dos caras que pensam que inventaram a roda. Ninguém inventa porra nenhuma! A minha vida é ouvir e, de repente, fazer com que essas coisas tenham um pouco a minha cara. Quem viu o Rosas de ouro em 65 e viu O samba é minha nobreza em 2003 percebeu no fundo era quase a mesma coisa. No Rosas de ouro tinha uma coisa inovadora, que foi a projeção de slides de um filme do Cartola, com depoimentos do Pixinguinha, do Almirante, da Elizeth, do Luís Rangel, enfim, os grandes baluartes, os grandes nomes da música popular brasileira. Na pesquisa, Sérgio Porto e o Sérgio Cabral. Hoje há o contraponto disso, fazer um espetáculo com projeção de filme em que você pega uma outra geração, misturando Ivone Lara, Monarco, Elton Medeiros, Frejat e Gabriel, o Pensador, e faz uma coisa bonita, entendeu? E no fundo o ponto ideológico que eu queria abordar está nos dois espetáculos, com todos esses anos de diferença, quase 40 anos de tempo… Mas como é que você vai fazer com que o jovem se interesse? Pensei numa coisa assim: havia uma amiga minha, a Felícia, que ela trabalha com criança. Ela forma platéias de cinema. “Felícia, quero fazer umas seções extras de O samba é minha nobreza para a rede escolar.” Se você não formar platéias, você vai ter somente aquelas cabecinhas brancas, como vejo no programa da grande Inezita Barroso, que não renova a platéia. Então, o que fizemos? Fizemos 24 sessões pedagógicas, que eram peças que abordaram dez mil crianças da rede escolar, crianças que não teriam capacidade de ir ao teatro e que foram levadas, incluindo grupos de jovens que estavam presos em sistemas carcerários. A gente mexeu com essa história, a gente botou isso para as crianças verem. E esse grupo, o Afro-Samba, nasceu ali. Eu soube depois que eles foram ver o espetáculo diversas vezes. Teve gente que viu o espetáculo trinta vezes. Isso era lindo! Eu acho que esse trabalho que a gente fez, como há na Escola Portátil de Música, que é uma outra história e que tem a mesma proposta de gerar o interesse no jovem e de valorizar sua inteligência que, às vezes, está adormecida, entorpecida pelos processos de imbecilização dos meios de comunicação, abre uma porta pra ele poder, minimamente, escolher o cardápio que quer ouvir. E não um cardápio que lhe é imposto. Tacioli — E não impor também… Herminio — Não, não impor, mas apresentar… Ele pode gostar ou não. Geralmente ele sai fascinado, porque vê um espetáculo bem feito, bem iluminado, com projeções lindas e também com gente contemporânea, que eles gostam, como o Barão Vermelho. Aí passam a admirar também aquela turma linda que está no palco e que é jovem — o Pedrinho Miranda, o Pedro Paulo, a Teresa Cristina, a Nilze Carvalho, o Paulão, que é um cara super versado. Além do velho Roberto Silva, com 84 anos de idade, esbanjando vitalidade, e a irmã do Delegado, dançando miudinho no palco e levando a platéia ao delírio. Infelizmente o espetáculo não pôde vir pra São Paulo, mas ele é em síntese daquilo que eu trabalho, daquilo que tento e que vou fazer agora na quarta-feira, no último dia do espetáculo Timoneiro no Rio. Haverá uma sessão pedagógica. Será um espetáculo curto, de uma hora, precedido de um documentariozinho em que a Bethânia e o Chico me apresentam, uma coisa bonitinha que fizeram. E a garotada vai vendo um espetáculo dos mestres tocando pra eles. Tacioli — Pelo que diz, o papel que você vê hoje pra música é o social. Ele é o mesmo que você via há 40 anos, Hermínio, ou é foi uma coisa que você percebeu depois? Herminio — Como eu dizia a você, nada se inventa. Por exemplo: alguém tentou esse estímulo com o pessoal da Escola [Portátil de Música], da qual sou conselheiro. Eu disse assim: “Olha, vocês estão falando de certas coisas que esses meninos nunca ouviram”. Porque eles não encontram nos livros, não encontram na televisão, sobretudo, na televisão. Essa é a minha grande batalha! Não esqueçam, por favor, de’u falar bem mal da televisão, da TVE. Eu tenho que falar bem mal da TVE. Então, imagine um garoto com quinze anos hoje, estudando violão, estudando choro… Que lembrança ele tem do Raphael Rabello, que morreu há 10 anos? Ele tinha cinco anos de idade. Se ele não pegar um tape do Raphael, se não ouvir uns discos, qual será o interesse que ele vai ter no violão dele? Se ele não pegar um tape do Dino, do Meira, do Bonfá, do Baden… Então você tem que ter instrumentos, suportes paradidáticos para que você possa ilustrar o que falta pra essa garotada, o que a televisão, os meios de comunicação não estão fornecendo. Aqui em São Paulo tem o maravilhoso programa do Faro [n.e.Ensaio, programa de entrevistas com figuras da música brasileira exibido na TV Cultura], que é exemplar pra mim. Mas eu deixei na TVE centenas de programas, que a minha vida de 1976 a 90 foi registrar Nelson Cavaquinho, Cartola, Canhoto da Paraíba, Camerata Carioca, Radamés, Elizeth, Aracy de Almeida, Moreira da Silva, tudo que você possa imaginar. E não tenho acesso! Eu fui dar uma entrevista para o Globo na semana passada, página inteira, quando falei que eu não consigo entrar na TVE. Aí o cara da direção da TVE pegou essa frase pra contestar, dizendo: “Como não consegue entrar na TVE se ele esteve aqui dando uma entrevista?”. Eles pinçaram a frase, descontextualizando-a. Eu quis dizer: “Não consigo entrar nos arquivos da TVE”. Era isso o que eu queria dizer. Então estou pedindo um direito de resposta ao Globo. Se não me derem, paciência, vou botar na Internet essa coisa toda, que é a parte podre dos meios de comunicação. E um garoto de 15 nos não pode ter essa informação. Na minha casa tenho uns tapes que, quando coloco, os jovens ficam enlouquecidos vendo Baden, Pixinguinha… O Pixinguinha para eles é uma coisa… Com 108 anos eles nunca viram o Pixinguinha na televisão, não viram o Pixinguinha falando, conversando; nunca ouviram a voz do Villa-Lobos, o Villa-Lobos regendo. Esse seria o maravilhoso papel da TVs educativas. Tacioli — Mas esse olhar que você tem é o mesmo de quando você fez o Rosas de Ouro? Herminio — Não, não, eu não respondi direito ainda… Vocês perguntaram se há 40 anos… Há 40 anos é aquilo que falei no início, contextualizando a minha vida. Eu tinha a Escola Deodoro, eu tinha o Canto Orfeônico, eu tinha a opção de ir aos Concertos da Juventude, e eu freqüentava espontaneamente as aulas de interpretação da Magdalena Tagliaferri como ouvinte. Ficava lá vendo aquela mulher de cabelo vermelho, derrubando os teclados, que maravilha era! Fui privilegiado! O que a gente tenta fazer hoje não é reviver aquela época, é reformular aqueles procedimentos, adequando à realidade de hoje. Hoje você tem uma mídia, tem mídias fortes que pode usar. Tem outras mídias que você que a tecnologia criou, como agora eu estou falando em MP3, vocês estão filmando, que é uma coisa maravilhosa que não pude fazer na minha época quando perdi depoimentos importantes. A minha casa era uma casa freqüentada pelo Tom, Caetano, Pixinguinha, Elis, Elizeth, Capiba, Luiz Gonzaga. Era uma casa para onde ia muita gente. Almeida — Não há esse registro nem em áudio? Herminio — Em áudio eu tenho muita coisa. Muita coisa que posso perder daqui a pouco, porque sou um cara que, aos 70 anos de idade, não conseguiu fazer dinheiro. Sou um cara que vivo modestamente, porque nunca tive por objetivo ser um cara rico. Eu devia ter sido um pouco mais cuidadoso para ser menos fudido [ri], mas não fui. Então vivo hoje modestamente. A minha vida, embora ela tenha esse vulto de realizações, de discos, uma coisa vasta, nunca me rendeu grana, entendeu? Num determinado momento eu até ganhei bem, um dinheirinho. Tenho o mesmo apartamento que eu tinha há 30 anos, modesto. E vivo, faço trabalho como compositor, o que me rende muito pouco; me rende também se uma música faz mais um pouquinho de sucesso, como há um tempo o “Timoneiro”, com o Paulinho da Viola, o “Chão de esmeraldas”, em parceria com o Chico que me rendeu algum dinheirinho. Mas isso é muito pequeno em relação aquilo que se ganha lá fora, numa sociedade mais bem organizada. Me lembro que uma vez eu estava com o Bardotti na Itália. Fui com o Oscar Cáceres pra Europa. Fui numa conferência, uma coisa assim, e resolvemos passar o Natal vendo a Missa do Galo no Notre Dame e passar o fim do ano na Itália. Na catedral de Notre Dame foi um horror, porque era quase um mercado persa. Antes de começar a missa vendia-se santinhos, terços, era uma coisa assim, um mercado persa! Eu saí: “Não quero ver essa missa!”. Saímos revoltados com o mercantilismo. E fomos para a Itália de trem. Nos hospedamos num quarto que podíamos pagar. E avisaram o Bardotti da minha presença. Essa época, 1974, 75, eu estava já na Sombrás, lutando por direitos autorais. Eu era vice-presidente, o Tom era o presidente. A diretoria era formado pelo Gonzaguinha, Maurício Tapajós, Aldir Blanc, Victor Martins, Macalé; aquela turma toda. Aí o Bardotti foi para o hotel e nos levou pra casa dele, uma casa suntuosa, perto de um castelo. A gente conversando, um almoço maravilhoso, quando ele disse: “Vem cá, os hotéis estão lotados?”. Eu digo: “Por que?” “Por que vocês estão naquele hotel?” “É o que nós podemos pagar!” Ele parou: “Você não é rico?” “Não!” Aí contei a história toda. Ele fala bem português, é tradutor do Chico, do Vinicius. Fizemos até um samba juntos nesse dia de porre, uma meia versão. E ele me deu pra trazer de subsídio seus próprios holerites. Um gesto muito nobre, muito aberto; uma fortuna! Ele não entendeu como eu, já um compositor cujas músicas ele conhecia bem, não era rico e havia ficado naquele hotel. Isso aí não é um atestado de miserabilidade, nem de pobreza; é um atestado de um artista que teve de tempo 25 anos numa empresa de comunicação e o que veio de arte… Sempre foi uma coisa muito pequena, de muito sacrifício, muito mal paga. Embora eu reconheça que tenham colegas meus que tiveram uma carreira exitosa, porque fizeram somente isso, e fazem muito bem e merecem ter o que têm, a minha atitude é outra… É o que sempre falo: em uma entrevista que dei, o jornalista ficou meio confuso com a história da imagem difusa que tenho diante do público, da minha invisibilidade ou da pouca visibilidade difusa. Um cara que ora está lutando pela memória da Clementina de Jesus, ora produzindo os discos antigos da Elizeth; aquele cara que produziu os últimos discos do Pixinguinha, que ora está na Sombrás, ora está fazendo a Escola Portátil de Música, e que, de repente, dizem “Ah, ele é letrista? Ele é poeta também?”. Então, essa quase invisibilidade atesta bem o Brasil. Max Eluard — Essa invisibilidade se deve a quê? Herminio — Você tem que pegar como espelho o que, bem ou mal, fazem os Estados Unidos. Vou dar um exemplo: quando morreu o Sammy Davis Jr., apareceu no Jornal Nacional uns belos cinco minutos sobre a morte dele. Mas ele apareceu: primeiro já bem ruim… Não sei se foi câncer, o que foi, mas apareceu numa festa que fizeram em homenagem a ele, com a Ella Fitzgerald cantando, a Sarah Vaughan, os grandes astros cantando em homenagem a ele. E, logo em seguida, ele apareceu sapateando aos cinco anos de idade. Eu estou, desde que o Jacob do Bandolim morreu em 69, procurando uma imagem dele em movimento e não consigo. Vou começar a falar mal da TVE [ri]… Estou brigando! Vi essa entrevista no Globo, que foi distorcida… Já mandei uma carta para a presidenta da TVE denunciando issoe e que o meu acervo está perdido lá, assim como o acervo do Jacob do Bandolim estava no Museu da Imagem e do Som. Uma parte dele já foi perdida. Ele microfilmava a partitura e ia no avião estudando. Tem uma foto linda dele estudando! E ele nem pegava o instrumento. Chegava lá e tocava. Era um gênio! E esses microfilmes estão todos corroídos pelo tempo, perdidos, assim como algumas fitas do meu programa estão mofadas, e eu não tenho dinheiro para recuperar isso. Acho que era um dever da TVE, já que não coloca em circulação. Era uma obrigação fazer um programa dedicado ao próprio acervo que ela construiu. E uma forma de você manter o acervo é usá-lo. Usar e mudando de mídia para que você tenha suportes novos para poder mostrá-lo futuramente. O acervo é a coisa mais importante de uma emissora. Ontem, aqui em São Paulo, na Bandeirantes, o irmão do Paulinho da Viola me telefonou para dizer que um cara da rádio não-sei-de-onde havia achado um material imenso de fotos que foi jogado no lixo, que era, acho, da Gazeta, que foi da TV Cultura, não sei direito o que era. Eu estava num outro telefone. Passei notícia para o Pavan. Talvez ele saiba. Jogam no lixo ou não tratam e põem num depósito. Aí, volta e meia tem um incêndio, como já teve o da TV Globo, do Museu de Arte Moderna, aquele da TV Record, e essa coisa se perde. Acham que aquilo é um incômodo. Aquilo é uma fortuna que eles não sabem. Ele não têm competência para aproveitar, esse é o problema. Tacioli — Recentemente a exposição do Chico, que esteve em São Paulo, e vi imagens que nunca havia visto, como aquela do Pixinguinha com o Donga, com o Chico, e com a Hebe apresentando. Herminio — Aparece até o Valfrido Silva e o Gabé, mas não os identificaram. Ninguém sabe quem foi Valfrido Silva e o Gabé, dois compositores importantíssimos. Tacioli — De uns anos pra cá se acentuou os relançamentos em CD. Várias gravadoras, algumas assumindo isso como importante, outras aproveitando essa onda. Os seus relançamentos, como o Timoneiro, como você coloca isso… Herminio — Primeiro vamos analisar o que aconteceu antes. O Timoneiro é, por sorte, o disco da Alaíde que foi produzido na época pelo ex-marido dela. O tape pertencia a ela. O disco do Vital é de uma gravadora que terminou, mas o cara concedeu, autorizou… Tacioli — O master? Herminio — O master, não, ele fez uma autorização… Não, tem um nome que se dá a isso… Recebi uma autorização… Daqui a pouco a palavra vem. Almeida — Cedeu gentilmente. Herminio — Não, houve 11%, não foi gentilmente. Então, dois discos me pertenciam, que foram discos patrocinados e que não havia sido lançados comercialmente. Eles me pertenciam. E tem mais esse disco que a Zélia Duncan produziu agora, novo. Então foi fácil fazer essa caixa, mas não está sendo fácil eu tentar recuperar, ou pelo menos lançar condignamente os discos que produzi pela EMI-Odeon, que foram discos e mais discos… Eles saem e não me pagam, pra começar, pelos direitos de produtor. Quero dizer, os discos saem em coleções, completos, até bem feitos, mas não vejo a cor do dinheiro… Até o Gavin, dos Titãs, está fazendo um trabalho muito bonito de recuperação disso, da memória do vinil para o CD. Não que me interessasse, mas para alguns discos que nunca foram lançados, que eles nem sabem que existem, e que sei onde estão, gostaria que me chamassem para que eu pudesse colaborar. Almeida — Você nunca quis tomar a frente de uma série de relançamentos? Herminio — É o seguinte: eu brigo muito! Ontem percebi que eu estava com duas brigas ao mesmo tempo. Eu estava na televisão. Eu tinha mandado uma carta violenta para a TVE de manhã, peguei o avião e vim para cá. Aí disse uns desaforos para o Arnaldo Niskier, que é o imortal que está na frente da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro e que, de repente, sustou a autorização para sair os discos da Elizeth e do Jacob do Bandolim. Aí foi uma coisa estranha. Qual é o impedimento jurídico que faz com que um disco importante como aquele da Elizeth, do Jacob, do Zimbo e do Época de Ouro não saia? Qual é o impedimento jurídico? Tacioli — Já foi um parto pra sair. Herminio — Já foi um parto. Foram anos e anos pra sair. Então, são essas lutas que não vêm a público, entendeu? São lutas pequenas mas que são terríveis, quero dizer, não consigo tirar da TVE cópias dos meus programas. E quando fiz O samba é minha nobreza precisei usar um tape do Pixinguinha e eles não me deram. O tape foi feito pelo Jean-Claude Guiter, que é um amigo meu da França, pra utilizar uma imagem que havia no Saravah, do Pierre Barouh, que é amigo e sócio dele. Só que tem que o Pierre Barouh não estava em Paris, estava no Japão. “Herminio, me passa um e-mail.” Passei um e-mail pra Paris, daí ele mandou pro Japão e cinco ou seis horas depois o Pierre Barouh carinhosamente autorizou. Mais fácil, né? Um cara que veio em 68 ao Brasil para registrar Pixinguinha é um cara excepcional, não é? Reconheçamos, ele teve esse cuidado. Almeida — Você lembra alguma dessas imagens que você produziu? Herminio — Eu tenho a carreira inicial da Simone, a não ser o primeiro disco, os quatro discos iniciais da Simone, os últimos do Pixinguinha, o primeiro do Paulinho da Viola, o primeiro do Roberto Ribeiro, o primeiro do João de Aquino e o acervo da Copacabana que foi adquirido pela EMI-Odeon, todos os discos, dez, doze discos que produzi para a Elizeth. É uma coisa bastante forte… Elza, muita coisa, Miltinho, todos os discos da Clementina, à exceção de um feito pelo Faro. É uma coisa respeitável! Dalva está saindo… Tacioli — Da Clementina saiu em caixa, mas… Herminio — Saiu pela gravadora que se negou a lançar porque dizia que não era comercial… Tacioli — Esse era um projeto especial da Petrobras. Herminio — E já estava pago, tudo estava pago, fotolitos, o projeto… É muito barato fazer isso, mas eles não apostam em um público que existe. Existe um público que acolhe, há um nicho onde essas coisas são absorvidas e são imediatamente apreendidas… Max Eluard — O mercado fonográfico desaprendeu a vender localizadamente? Ele não pensa em outros segmentos que possam ser trabalhados mas em menor escala? Herminio — Salvo as exceções, que sempre existem, mas tem gravadoras independentes ótimas aí. A grande indústria do disco, uma parte considerada, não toda, tem o mesmo comportamento da indústria bélica, da indústria farmacêutica, da indústria do tabaco, da indústria do tráfico de droga. É a mesmíssima coisa. Não vejo nenhuma diferença. Atuam como gerentes de supermercados que vendem produtos. “Esse produto é descartável mas vende muito. Vai liquidar o artista daqui um ano? Foda-se o artista!” Max Eluard — Herminio, você acha o que Estado oferece em termos de política cultural, de mecanismos para se produzir cultura colabora com isso? Herminio — Colabora, mas entenda bem… Em 73 fui expulso da Rádio MEC pelos militares. Em 90 saí da TVE expulso pelo Collor, que me colocou em disponibilidade. E quando o Collor desestruturou, acabou como Ministério da Cultura, eu vaticinei o seguinte: “Isso aí vai levar uns 20 anos para consertar”. Muitos erros que estão acontecendo atribuo aquele momento. Estou muito bravo! Desestrutura! É como você desmontar uma casa e, sem recursos, tentar reconstruí-la. Se é uma casa que tem afresco, com suas platibandas altas, é mais difícil você construir. Então, esse é o problema. Sei que existe uma euforia, mas falta uma política. Acho que a política cultural quer se esboçar mas está emperrada porque os recursos humanos foram embora. A equipe técnica da FUNARTE está aposentada. Digo da FUNARTE porque é uma coisa que eu conheço mais de perto pelos meus amigos que estão lá ainda. Alguns, já que o resto foi tudo embora. Também não existe no Brasil cursos que formem produtores, gerentes culturais com conhecimento de causa do mercado que trabalha, pelo menos não conheço. Por isso respeito muito o animador cultural do interior, que é aquele cara que quando faz o evento é um sacrifício enorme. Aí você vai ver que o cara telefonou para o artista, que foi ali, catou dinheiro pra pagar a passagem dele pagar a gasolina, um cachezinho… É o mesmo cara que, de noite, a mãe fez os docinhos e os salgadinhos pra botar no camarim do artista, entendeu? Aí o cara emprestou o carro para ir buscar a equipe. Isso existe e eu valorizo demais! Enquanto na França há a profissão do animador cultural, aqui é uma arrumação técnica. Tacioli — Essa formação poderia ser dada pelas universidades? Herminio — Por que não? O problema é o seguinte: o Estado se distraiu e não tomou conta dos bandidos de alto coturno, de alto gabarito, e se despreocupou com a bandidagem dita marginal. Qual é a diferença entre aquele estuprador, aquele bandido que matou a família, que chacinou ou que roubou um bombom e que está preso atrás das grades desse cara que achaca publicamente o governador, que faz um discurso moralista na Câmara? São bandidos diferentes, mas são todos bandidos! A gente não sabe o que está acontecendo. Eu fico perplexo quando ligo a televisão e vejo essas cenas horrorosas, essa coisa “severina”, no sentido de um comportamento absolutamente imoral. Isso me ofende! Ofende o menino que fui e que se orgulha muito de ter começado a trabalhar aos nove anos de idade — oficialmente aos dezesseis. Aos nove anos de idade eu tinha que tirar um urinol do Seu Corrêa debaixo da cama e despejar; eu vivia fazendo entregas, fazendo um trabalho informal. Eu ajudava em casa. Vejo isso com muita tristeza. Anteontem, lá no espetáculo que estou fazendo, o pessoal aplaudia quando, de repente, ouvi um barulhaço. “Tá, tá, tá, barará!” Quando vi eram os meninos da Escola Portátil de Música entrando, tocando música. Eu fiz um discurso: “Olha, nós somos a banda, vocês são o alto clero; nós somos a parte luminosa desse país! Por favor, não misturem alhos com bugalhos. Não somos aquelas pessoas!” É preciso ter isso em mente. Tacioli — Mas em sua visão sobre a produção cultural existe um otimismo? Herminio — Existe, é claro que existe. Eu, como artista que tem a noção exata do espaço que ocupo nesse país, nesse estado de semi-visibilidade que, somente quando faz 70 anos, ou 60 ou 50 — não tenho muita esperança de chegar nos 80 pelas coisas que já passei, pelos enfartos — tenho uma visão bastante clara de que tenho que ter esperança, sim, porque trabalho com a esperança. Vocês têm que sonhar! Tenho provado que, sendo um bom profissional e sonhando direito você consegue fazer as coisas. Era isso que você perguntou? Tacioli — Era. Herminio — Consegue. Eu tenho somente que colocar esse nojo pra fora publicamente, me expor. Posso ser processado amanhã, não sei se hoje já mesmo… A presidenta vai me punir como eu fui punido muitas vezes, não sei, mas eu tenho que dizer, tenho que deixar isso bem claro que é possível sonhar, que sonho sempre, que construo sempre… Tenho milhares de coisas… Quarta-feira vou a uma sessão pedagógica antes de seis, sete da noite… Levarei umas alunas do teatro, pessoal do Manguezal de Jequiá; levarei o pessoal de Vigário Geral, juntar os meninos pra ver nosso espetáculo de graça. Vamos trabalhar de graça, vamos pagar pra trabalhar pra eles terem oportunidade de ver. Serão 200 pessoas. Tacioli — Herminio, você falou dos áudios que tem em casa. Em que formato foram captados? Herminio — Eu tenho muita fita cassete, muita fita magnética… Os vídeos não consigo tê-los todos porque a TVE me nega. Agora deram com a desculpa de que a Petrobras está recuperando, que está digitalizando tudo. Eu gostaria de saber como fazem isso, porque estou fazendo… O Luís Ribeiro, meu parceiro que tem um estúdio de som, está recuperando, digitalizando a obra do Maurício Tapajós, meu parceiro que morreu há dez anos exatamente, no dia 21 de abril. A obra vai se perder daqui a pouco se não for recuperada. Ele está digitalizando. Praticamente 80% do trabalho já foi feito. Não sei se tenho tempo, já estou meio cansado de brigas… Duas brigas por dia não agüento, mas sempre quando vou dormir programo a briga do dia seguinte. Tacioli — E qual é a de amanhã, Herminio? Herminio — Eu já construi o meu epitáfio. O meu epitáfio já está pronto pra eu colocar na minha lápide. Tacioli — E qual é? Herminio — Não vim ao mundo pra fazer gracinhas. Alguém falou em missão… Não é missão. Não vim ao mundo pra fazer gracinhas. Tem caras que não vieram ao mundo pra fazer gracinha, que levam a vida a sério e que pagam por isso. Eu pago. O preço é alto, mas quando vejo, aos 70 anos de idade, que estou no palco cantando meus sambas com meus amigos, que me chega essa garotada pra me oferecer uma música chamada “Herminíades”, um choro que compuseram pra mim, vá a merda o resto! Quero que o Severino se foda! Tacioli — Herminio, queria saber como era a sua casa na infância. Que imagens você tem dessa casa? Herminio — Eu estava na Escola Portátil de Música, lá em Ramos, numa unidade do SESC, onde fui fazer uma espécie de palestra chamada “Levando um lero”, que era uma palestra em que se dizia assim: “hoje vamos falar sobre…”. E aí disse “vamos falar sobre epistolografia. O que é epistolografia, quem sabe?”. E eu dei pra cada um questionário pra depois responderem, fazer uma avaliação da palestra. Então, epistolografia é a arte de escrever cartas, uma coisa que o Mário de Andrade fazia muito, o Drummond,; hoje você troca e-mail. Em música popular se faz epistolografia? Aí liguei pra uns amigos meus, o Maurício, a Luciana, o Zé Paulo, o Pedrinho e cantamos o “Cordiais saudações”, de Noel Rosa, o “Antonico”, que é a maior carta de solidariedade humana que eu conheço, o “Caros amigos”, que é uma carta política, a carta do Vinicius e do Toquinho, aquela “Rua Nascimento Silva, se você ir ensinando pra Elizeth, as canções do Canção do amor demais”… É uma carta! E a garotada foi se entusiasmando… “Agora escrevam alguma coisa enquanto converso aqui, enquanto toco música”. Escreveram e me entregaram os papéis. “Vocês acabam de exercer a arte da epistolografia.” É uma forma simples, entendeu? Essa coisa é a minha grande frustração: não ter sido um educador, que essa era a função da minha vida. Teria sido um educador. Eu tenho um grande respeito pelo Darcy, pelo Mário que era sobretudo um educador, pelo Paulo Freire, por todas as pessoas que pensaram no Brasil e que pensaram na criança… Do Villa-Lobos, a educação musical. Almeida — Você já fez alguma coisa dirigida — disco ou show — ao público infantil? Herminio — Os livros que escrevo… Almeida — [interrompendo] A sua produção não alcança esse público? Herminio — Não, eu não saberia fazer assim diretamente. Nunca tentei. Por exemplo, uma música que eu fiz com o Maurício virou um hino de escola, que é uma música de esperança, [canta] “e se a gente desse as mãos / o mundo seria melhor”, virou um hino de escola na época. Mais do que isso, o trabalho pra criança, as sessões pedagógicas eram pra crianças, criançada de sete aos quinze anos. Claro, cantava com crianças nas sessões pedagógicas. Foram 24 sessões com dez mil crianças na rede escolar. Foi um trabalho pra criança. Tacioli — Como foi a entrevista no programa do Ronnie Von? [n.e. “Todo seu”, transmitido pela TV Gazeta] Herminio — Foi engraçado, foi engraçado! Fui mais pra falar da Elizeth. Acho que ele não estava sabendo muito dessa minha atividade do disco, do que era aquela caixa, então acabei não podendo falar muito do disco. Achei que seria uma parte da entrevista, mas acabou não sendo. Foi engraçado. Tacioli — O contato com o Ronnie já existia? Herminio — Não, não conhecia ele. Ele é um amor de pessoa, um amor de pessoa: muito doce e muito respeitoso, mas ele não sabia da caixa. Já estava no final do programa e ele não sabia da caixa e não pude falar muito, mas falei bastante da Elizeth, o que pra mim foi maravilhoso falar dela. Sempre digo: de cinco em cinco anos tenho como uma meta de vida, como objetivo, falar da Elizeth, da Clementina, do Jacob do Bandolim, da Aracy de Almeida. De uma forma ou de outra estou escrevendo um livro sobre a Aracy, estou tentando reeditar o disco da Elizeth pra manter viva essa memória que se apaga naturalmente. É um processo de apagamento. E isso é uma coisa que sempre permanece na minha vida, uma preocupação, aí vem a parte do animador, do agitador cultural que sou. Eu não consigo parar! Penso obsessivamente nisso, sempre! É uma coisa que eu tenho. É inerente a mim me preocupar! Almeida — Eu queria saber como foi a sua entrada na rádio. Você disse que em casa vocês ouviam muito rádio. Herminio — É, a Rádio Nacional ficava permanentemente ligada em casa, uns programas ótimos. Eu tinha aqueles ídolos, como Paulo Roberto, Manoel Barcelos, César de Alencar, Renato Lúcio… Alguns programas do Renato Lúcio e do Paulo Roberto eram importantes de informações, ótimos, como Um milhão de melodias… Esse universo todo entrava no meu ouvido. E o carnaval? O cancioneiro do carnaval me fascinava… Tacioli — Você brincava o carnaval? Herminio — Brincava o carnaval. Eu me fantasiava. Geralmente a minha fantasia durava três anos, que era herdada dos meus irmãos. Era índio num ano, um índio do outro de outro e sempre um índio meio surrado. Mas era engraçado. Eu adorava o carnaval. Tinha perto de casa um casal, Burlamarqui, que fazia umas sessões de música. Com cinco, seis anos, eu ia e cantava em cima “O jardineira / Por que estás tão triste?”… Eu cantava música de carnaval. Eu digo até que a semente tenha sido plantada na escola pública quando repeti o terceiro ano. Nunca fui um bom aluno. Tacioli — Você aprontava ou era um aluno disperso? Herminio — Não aprontava. Tacioli — Não aprontava? Herminio — Não aprontava muito, não. Eu era um menino muito quieto. Por ser o mais novo e muito mimado, eu devia ser meio afeminado. No quarto ano eu recebi o diploma de melhor aluno da escola, porque foi no quarto ano que fui o presidente do centro cívico Carlos Gomes, onde eu escrevia textos quando eu fazia esquetes. Eu fazia, eu produzia. Tacioli — Quando foi essa virada? Herminio — Já era produto daquele negócio de canto orfeônico. Era uma inquietação! Então fui imitar um pouquinho no centro cívico Carlos Gomes o que eu ouvia em rádio. Acho que era um processo. Hoje eu penso que tenha sido isso, reproduzir aquilo que o rádio me dava de alimento, e isso era fantástico! Era uma coisa rica! Aí, dos quinze aos dezesseis anos de idade, quando saí de casa pra viver sozinho, fui numa revista de rádio, porque eu freqüentava a Rádio Nacional. Eu comprava ingresso de lá. Eu conseguia um dinheirinho pra ver a Rádio Nacional… Volta e meia ia ao programa do Sérgio Alencar, que era uma coisa maravilhosa. E, de repente, eu vou e chega uma revista que havia sido inaugurada, uma revista péssima por ser rádio-entrevista. Aí me disseram: “Queria que você escrevesse crítica sobre rádio. Você escreve?”. “Escrevo muito bem.” Almeida — Com dezesseis anos? Herminio — Por sorte o cara era quase analfabeto. Era fácil pra ele. Ele já morreu. Então, posso falar isso. Não vou dar o nome dele, mas eu sabia que ele financiava a revista desviando dinheiro da Casa Canadá, onde ele era o contador. [risos] Almeida — Uma boa causa. Herminio — Uma boa causa. E eu, em 1951, ganhei uma coluna de discos. Os Cariocas, Zezé Gonzaga, Heleninha Costa… eu, que era aquele fã, passei a conviver com meus ídolos por ser repórter dentro da Nacional… Entrevistava bem… Tacioli — Mas você falava da sua inserção no meio radiofônico junto às estrelas. Esse foi o momento? Herminio — Esse foi o momento… Quero dizer, aquela mulher à quem eu ia pedir autógrafo, “Ô, me dá um autógrafo aqui”, que me ofereceu um retratinho, é a mulher que abre hoje o meu disco… Ela, aos 78 anos de idade, cantando maravilhosamente. É a Zezé Gonzaga! A madrinha desse lançamento ia ser a Heleninha Costa, uma cantora que eu adorava, uma amiga querida, mas morreu duas semanas antes. Então são essas perdas que me fazem ter a noção de tempo, que exigiria uma longa dissertação sobre a noção de tempo que eu tenho. O tempo que eu dispus até agora pra fazer as coisas com força, com energia, batalhando, suando muito e vencendo muitos obstáculos, e o tempo que eu disponho daqui pra frente. Mas eu que sempre tive os meus velhos, os meus gurus, os meus baobás me guiando, que era os mesmos pensadores, como Mário de Andrade, que eu não conheci ou conheci, e o Villa-Lobos, o Portinari que eu admirava, o Niemeyer, ou outros com os quais convivi, como o Drummond, o Mozart Araújo, o Luís Rangel, o Mignone, a Oneyda Alvarenga. Eram meus ídolos, meus paradigmas. Hoje eu me vejo aos 70 anos de idade com uma garotada linda, companheiros meus… Eles eram garotos mais jovens do que eu, eram bem garotos, como o Maurício Carrilho, a Luciana Rabello, o Raphael [Rabello], que teria hoje 42 anos de idade. O Raphael chegou na minha vida com 13 anos de idade, o Maurício com 17, 18, e hoje eles são oficineiros da Escola Portátil de Música. Hoje os filhos deles me chamam de “tio” e estudam nessa escola. Hoje eu tenho um parceiro com 27 anos de idade, parceiros jovens e seguidores. Mas o tempo que eles têm pela frente é enorme. São muito jovens. Eu tenho que ter… Detesto essa coisa da morbidez, “ah, vou morrer daqui a pouco”. Não é isso! Mas tenho que ter a noção certa de que meu tempo é bem menor do que o deles. Por isso o tempo é uma coisa com a qual eu tenho que ter cuidado. Tacioli — Dá agonia? Herminio — Dá, dá, porque eu tenho muita coisa que eu queria fazer e que eu não consegui. Almeida — Liste algumas dessas coisas. Herminio — Eu listo uma só. Recuperar o meu acervo para repassar pra essa garotada. Isso é uma fixação que eu tenho, uma luta permanente. Não sei se será realizado… Essa é a noção de tempo. O meu tempo é esse, que é um tempo que eu meço todo dia. E seja um amigo meu que manda um poema pra musicar e ele quer fazer aquele poema, ele quer aquela música que, às vezes, não tenho tempo porque estou ocupado, mas aí tento fazer, tento fazer… Depois que terminou esse disco, eu já fiz umas músicas. Umas quatro. Fiz com o Zé Renato, mais uma com o Vital e não-sei-o-quê, e já musiquei uma outra coisa. Aí me encomendam um texto sobre o Baden pra Bethânia ler na abertura do Prêmio TIM. Aí tenho que brigar… Eu tenho que ter um tempo pra brigar! Eu tenho que escrever carta brigando. Eu tenho que brigar pra ter idéia, eu tenho que dizer desaforo. Eu morro se não botar pra fora o que sinto. É uma coisa que eu não consigo controlar, entendeu? Eu não consigo controlar. Tacioli — E que outros medos você tem, Herminio? Herminio — Que outros medos? Olha, medo… Tacioli — Abre o seu coração, Herminio. [risos] Herminio — Olha, no outro dia o meu psicanalista perguntou assim… Caiu o assunto sobre inveja, porque eu encontrei o Zuenir Ventura. Brinquei até com ele: “Zuenir, você está me confundindo a cabeça, eu havia um negócio de inveja na minha cabeça e você mudou o meu conceito?”. Ele riu muito, brincou comigo, pessoa adorável… Aí o cara perguntou: “Você tem inveja?”. Eu pensei bem. Fui pra casa, fui ler meus livros. Eu não consigo ter inveja. Aí falei pra ele o seguinte: “A única inveja que eu poderia ter na minha vida seria do pau do Garrincha, que era enorme”. Qual é o homem que não tem inveja do pau do Garrincha? [risos] Então foi uma brincadeira que eu consegui fazer. Eu não tenho esse sentimento de inveja. Aí ele disse: “E rancor, você tem?” “Não. O rancor eu não sei o que é. A raiva e o rancor podem ser, de repente, uma revolta.” Eu não tenho rancor pelo Severino, entendeu? Eu não tenho rancor pelo Renan Calheiros ou pelo Jefferson. Eu não tenho rancor. Tenho vergonha. Tenho vergonha de pertencer à mesma nação onde eles têm uma identidade de brasileiros. Tenho vergonha pelos meninos que possam amanhã achar que eu faço parte dessa máfia. Rancor também não tenho. Acho que isso nem interessa muito, porque eu tenho outras coisas com as quais sonho. Sonho bastante e detesto que as pessoas não entendam que sonhar é importante, realizar sonhos. Quando há um sonho desse tamaninho ajuda o cara a fazer algo… Sabe, essa capa do meu disco tem um menino… Eu fui beber com o meu editor, que é o Rodrigo Ferrari, e a gente sempre se encontra com uma turma muito boa. É um pessoal que adora música. O Loredano, que é fantástico, muito amigo meu. Chamo-o de “o rapaz que mal sabe desenhar”. Aí um menino chegou lá. “Loredano, pede pra ele mostrar o desenho!” O garotinho é da entregadora da livraria. A capa do meu disco tem uma caricatura dele, uma caricatura minha… É o que posso fazer. Você tem que dar oportunidade. Não adianta você somente falar “Está bom!”. Isso é muito fácil. Eu odeio elogio fácil, odeio. Quando você, além do elogio, pode fazer e não faz, aí é uma coisa detestável. É um egoísmo, sabe?! Falei pro Louredano: “Olha que lição linda!”. Ele é um cara que estimulou o menino a fazer e que adorou; está feliz da vida! Tem a caricatura do Sábato, do Nasser e tem do menino. Não adianta você falar assim “Ah, é bom!” Dá oportunidade. Vai lá, mostra que isso é viável. A inserção no mercado não é essa coisa que o governo anda alardeando por aí. É na prática que se faz. Eu pelo menos vejo assim, não consigo ver de outra maneira. São procedimentos práticos na vida. Na verdade, não estou fazendo nada de novo, estou simplesmente cumprindo uma obrigação, porque foi o que fizeram a vida inteira comigo. Na hora em que fui mostrar um artigo para o Lúcio Rangel, uma carta resposta ao Manuel Bandeira, uma resposta que ele não pediu, um artigo que ele escreveu sobre literatura e violão, estava defasado, mas o Lúcio publicou. Escrevi uma carta ao Manuel Bandeira contestando uns dados. O Lúcio olhou aquilo, olhou pra mim, olhou pra carta: “O que é que você está fazendo?”. “Eu vim entregar, mas está tudo aqui.” “Você pode me acompanhar?” Abro a porta e dou de cara com aquele dentuço, de hobbie… Era o Manuel Bandeira. Aquela carta me abre a porta para a Rádio MEC, do Mozart Araújo. Quero dizer, Lúcio Rangel, Manuel Bandeira, Mozart Araújo… Em seguida passo a ser colega da rádio, funcionário da Rádio MEC, ao lado do Drummond de Andrade e de todos nesse ciclo de amigos do Mário de Andrade, meu ídolo. Eu somente estou devolvendo. Não precisa ser bonzinho. Eu não sou nada bonzinho. Sou um horror! Sou um capeta! Mas estou devolvendo à vida essa oportunidade que me deram. Foi assim que fizeram comigo, nada mais. A ideologia de vida é assim. Não é missão, não. Missão deixo para os missionários. Tenho horror de missionários. Tacioli — Herminio, pra fechar. Percebe-se, pela entrevista, que o seu cotidiano é extremamente envolvido com a música. Mas fora isso, como ele é? Você falou que seu pai andava muito… Herminio — É, meu pai era um andarilho. Tacioli — E você também anda pelo Rio? Herminio — Não, mas eu andava bastante. Até por obrigação, já que o médico queria que eu andasse. Tive que fazer uma angioplastia há três anos. Isso me obriga a ter uma vida assim, fazer exercício, mas eu não tenho feito. Sou um cara que, permanentemente, anda no fio da navalha. Eu não cuido disso. Cuido muito pouco da saúde. Durmo muito pouco. Tomo 4070 comprimidos por ano. Tacioli — 4070? Herminio — Pra manter esse negócio funcionando. E tenho insônia. Às vezes acordo à uma da manhã, vou pro computador e trabalho, trabalho e durmo um pouco mais — tomo remédio pra dormir. Aí já acordo, trabalho mais. Trabalho o dia inteiro. Eu produzo muita coisa. Tacioli — E o computador é um aliado? Herminio — Um aliado e também um inimigo. Ele me odeia. Também, dou porrada nele. Tem coisa que ele faz que eu não sei o que ele está fazendo. Ele não me obedece muito. É muito desobediente! [pausa] Meus amigos, adorei dar essa entrevista… Se faltou algo, podemos fazer em outro dia, e com o maior prazer. Agradeço a vocês.

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