INEZITA BARROSO [2005]

Papo de mais de três horas com a rainha da música caipira.

Inezita Barroso: “Não vendo a minha arte nem morta”. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Numa praça no centro de São Paulo há uma igrejinha. Dessas com bancos de madeira, Via Sacra nas paredes, confessionário e sacristia. No altar, bem, no altar não há nada. O santo que dá nome à igreja não está lá. Simplesmente a imagem de São Gonçalo não existe na cidade.

Essa foi uma das histórias que Inezita nos contou. E esse é um de seus projetos, localizar e presentear a igrejinha com a figura do santo protetor dos violeiros.

Histórias boas não faltaram na noite em que o Gafieiras ficou ali, ao pé de uma janela grande e alta, dessas que se derramam pela calçada. Janelas de casas do interior, de São Paulo de outro tempo. E nela, a moça de trajes da mesma cor do batom, com os olhos ligeiros mas menos que o sorriso, largo e eterno, disposta para conversar… Foi assim, ou melhor, mais ou menos assim, sem janela e sereno, mas numa pizzaria em Santa Cecília, bairro da capital paulista em que reside nossa entrevistada.

Inezita narrou o tempo em que assistia à passagem de Mário de Andrade pela rua de sua casa; o tempo em que ouvia as lições da professora de violão; em que fugia para as fazendas da família. Saltou para o agora, para as crônicas do Viola, minha viola — programa que comanda na TV Cultura –, dos discos de carreira, das aulas em faculdade e das miudezas do dia a dia. O bate-papo, pontuado por doses de uísque e imerso em bom-humor e contradições, passou de três horas e ainda deixou de visitar os ranchos de Raul Torres, Cornélio Pires e João Pacífico.

Inezita comemorou 80 anos de vida há pouco. Soltou fogos também para os 25 do Viola, marco na TV brasileira, tanto pela trajetória, quanto pelo tema — a música e os costumes do caipira. A idade não é um problema. Com fôlego de menina, ela dribla o descaso do Estado e dos meios de comunicação com as coisas da terra, do caipira, do Brasil. Não vai tirar seu time de campo. Tem mais o que fazer. Problema mesmo é a falta de tempo para tantos projetos. E eles têm um único fim: manter vivas todas as histórias que assistiu e que ouviu. Mais ou menos como se fosse uma protetora do caipira. Tá certo, São Gonçalo não é bobo. Ele correu para outras bandas porque sabe que aqui a Inezita toma conta.


{…} expediente

produção Daniel Almeida e Ricardo Tacioli 
entrevistadores Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Fernando de Almeida, Henrique Parra, Max Eluard e Ricardo Tacioli 
fotos Dafne Sampaio, Fernando de Almeida e Henrique Parra 
registro audiovisual Manoela Ziggiatti e Max Eluard 
transcrição Marllon Chaves 
edição de texto
Ricardo Tacioli 
texto de apresentação Ricardo Tacioli
agradecimentos Aloisio Milani, Raquel Zorzi e Rivaldo Corulli

Entrevista realizada em São Paulo/SP, 18 de março de 2005.


inezita barroso | Isso aqui é maravilhoso.

ricardo tacioli | Você mora nessa região há muito tempo?

Há 20 anos. Eu já morei no São Vicente de Paula, mas sempre por aqui. Nasci na Barra Funda, aqui do outro lado do Minhocão. Estou acostumadíssima com esse pedaço.

daniel almeida | Inezita, vou colocar o microfone.

[pausa]

almeida | Inezita, como foi a segunda-feira? [n.e. Festa de aniversário dos 25 anos do programa Viola, minha viola, realizado na Sala São Paulo]

Espetacular, mas vocês verão melhor amanhã e domingo.

Por que?

Porque vai pro ar o programa editadinho. Sempre tem umas coisinhas, umas falas a mais, uns branquinhos no meio. [risos] Já editaram, está muito bonito. O som está lindo! Amanhã vai ao ar o registro inteiro. Na segunda-feira não foram ao ar a segunda e terceira músicas. Acho que não passou a entrada do Sérgio Reis, que chegou depois. Eu quero tudo direitinho, bonitinho.

dafne sampaio | Durou quantas horas? Ele foi exibido ao vivo em apenas uma hora…

Foi uma hora, mas aí teve mais duas ou três músicas minhas com a Orquestra de Viola e no começo teve o Pena Branca [n.e. Nome artístico de José Ramiro Sobrinho. Ao lado do irmão Xavantinho (1942–1999) formou uma das duplas mais queridas da música caipira, responsável pela fusão do gênero do campo com a MPB], lá de Pirapora, que não foi inteiro também. O Pena sentou no meio do lago e começou a cantar. Aí demoraram pra ligar os botões, coitado, acho que cantou quase inteiro o “Cuitelinho”. [n.e. Artigo folclórico recolhido por Paulo Vanzolini e Antônio Xandó, e gravado por figuras como Inezita, Pena Branca & Xavantinho, Diana Pequeno e Milton Nascimento] Era pra cantar um tempo certo pra medir direitinho e no meio iam dizer que tinham instalado a parabólica, que era o maior presente para o interior, né? Parece que a demora tirou um pouquinho a emoção, mas amanhã vai estar bonito. E aí começaram a soltar os fogos lá [Pirapora], que emendaram com os fogos daqui. Teve também a chegada da carruagem… O cavalo somente deu três passinhos. [risos]

Estava parado e deu uma andadinha.

É. Eu queria dar uma volta naquele largo.

almeida | Não deixaram, Inezita?

Não, não dava, não cabia. Foi bonito, mas aquela carruagem está à disposição aos domingos pra dar umas voltas pela cidade. E eu quero!

dafne | É mesmo? Pode alugá-la?

É da Secretaria de Cultura. Ela dá uma volta no centro de São Paulo, mostrando as coisas, como um ônibus, mas é uma coisa bem paulista, aquela carruagenzinha linda, linda, linda!

tacioli | E hoje o que tem em São Paulo pra se ver de charrete?

Atualmente aqui na cidade… de paisagem? Muita coisa, começando pela Praça da Sé, que é linda, maravilhosa, apesar de todos os defeitos. Eu não acho defeito em São Paulo. Acho que tudo isso faz parte, tem que ter. A cidade cresceu muito, você não pode afastar, brecar nada disso mais. Isso é lindo! O rio Tietê é lindo! Eu filmei até para o exterior. Foi um su-ces-so! Cada um escolheu um lugar mais chique. Eu fiquei para o fim. [ri] Museu de Arte da Paulista, não-sei-o-quê-mais e não-sei-o-quê-mais. “O que você quer?” Eu falei, “O rio Tietê.” “Ah, aquele rio fedorento?” “Fotografia não cheira. Ele é lindo, faz de conta que é o Sena.” [risos] Foi lindo! Enfiamos o pé na lama, na beira do rio, até a canela. Mas não apareceu nada disso. [risos]

almeida | Mas onde vocês filmaram?

Na margem do rio, lá na Ponte Grande.

Eu nadei no Tietê, mas era ali perto de…

Eu também nadei. Você não nadou! [risos]

Nadei.

Juro por Deus que você não nadou, só se foi jogado. [risos]

Nadei, mas foi perto de Barra Bonita.

Ah, bom, no interior.

Por isso eu perguntei onde havia sido gravado…

Não, eu nadei na frente do Tietê, do clube. [n.e. O antigo Clube de Regatas São Paulo, hoje o Clube de Regatas Tietê, um dos mais antigos centros esportivos da capital paulista]

Não, esse tempo eu não peguei.

É lógico que você não pegou. Havia um cocho enorme, com uma rede pequena, porque havia muito lambari, do rabinho vermelho. E a gente saía da piscina do Tietê, a molecada, e ia nadar no rio. Era cercado, era lindo. Então passavam aqueles peixinhos vermelhinhos. Era lindo! Eu tenho uma saudade desse tempo. E você enxergava, enxergava os peixinhos nadando embaixo. Uma água cristalina.

Inezita, em relação ao rio Tietê, você se lembra quando começaram a falar que a coisa estava mudando, quando começaram a falar “Gente, o rio não está mais limpinho. Não tem mais peixe, não dá mais pra ver o fundo do rio”. Você se lembra?

Faz tempo também, mas mais por causa das fábricas que jogavam as coisas no rio. Jogam tudo naquele rio. Sofá, poltrona, cama. Tem um canal que vai desembocar no rio, que está eternamente entupido, que tem um carro Volkswagen dentro, não vai nem volta. [risos] Vocês estão rindo…? Acreditem em mim, é verdade! É pra lá da Casa Verde. Tem uma coisa de esgoto mesmo, aquelas manilhas enormes, né, que deságua no rio. E não vai, nem volta, entope tudo e volta tudo para o bairro, porque… [risos]

dafne | Porque tem um Volkswagen ali…

Inteiro! Já tentaram tirá-lo e tudo… Agora vão deixar apodrecer para desmontá-lo. É muito estranho, São Paulo tem uns negócios muito estranhos. Então tem muita coisa pra gente ver, muita, muita. Aquele bairro da Liberdade, aquelas coisas que vendem ali, comida japonesa, artesanato. A Praça da República é linda ainda, né? Viaduto do Chá é bonito, uma coisa histórica! Peguei quando não era nem asfaltado, era uma pontezinha. A gente saía da Caetano de Campos, arrancava os distintivos, puxava a meia e ia desfilar na Barão, que era chiquérrima. E o bonde Perdizes era do outro lado do Viaduto, pra lá da Praça Patriarca. Então a gente ia a pé da escola até lá. Nossa, era muito bom! Ele dava umas tremidinhas… E era o ponto do suicídio, né? Toda criatura desgostosa pulava lá de cima. Muitos caíam em cima de carros, escangalhava o carro e não morria. [risos]

almeida | E ainda não morria… Isso que era o pior.

Isso que é triste. [risos] Mas São Paulo tem muito pra ver, muito, muito.

tacioli | Você costuma andar ou passar de carro por esses lugares?

É, de carro você não pode entrar muito, porque aquelas ruas que têm calçadões são misteriosas, são lindas. Tem umas capelas ali pela Liberdade, atrás do Largo da Pólvora, na rua Liberdade, que ninguém sabe da existência. Elas ficam o ano inteiro fechadas, né? Tem uma rua sem saída que vai dar numa capela linda, só abre no dia do santo, que eu não sei qual é. E eu estou louca atrás de um São Gonçalo, porque existe uma Igreja de São Gonçalo na Praça João Mendes, mas não tem o santo. Estranho.

almeida | Por que, roubaram?

Não, é porque há uma briga. O São Gonçalo era português. Ele tocava viola e dançava. Ele é patrono dos violeiros. E o padres não gostavam muito porque… quer dizer, ele dava aquela desculpa de ir aos bailes com aquela mulherada pra catequizar as mulheres. [risos] Não, mas ele fazia mortificações, ele enchia a sola do sapato de prego e dançava a noite inteira, sangrava o pé. E ele tocava viola e cantava muito bem. E com isso ele conseguiu arrebanhar uma porção de gente pra Igreja, né? Mas os padres não acreditam muito, porque na própria igreja de São Gonçalo, o santo não está no altar.

dafne | Você está atrás da imagem pra colocar no altar?

Que tivesse a imagem com a viola, como tem em Cuiabá, que ele é padroeiro de Cuiabá, no Mato Grosso. Então, você chega lá, você se assusta, uma imagem quase de tamanho natural, de frade com aquela viola no colo. Ah, eu chorei!

Vi umas imagens pequenininhas.

Eu tenho.

Grande eu nunca vi.

No altar, no altar-mor, ele é padroeiro. Muito lindo! Eu levei até um susto no dia que eu vi. E vende muito essas pequenas, de todo jeito. É muito interessante isso, uma coisa pra gente também pesquisar porque que não tem na igreja com o nome dele. Em matéria de igreja tem muita coisa interessante.

max eluard | Você é católica, Inezita?

Eu sou.

De formação?

Formação, família inteira, primeira comunhão, filha de Maria, procissões, cantei no coro. Então vem vindo, né?

Você começou cantar na igreja ou…

Não, comecei cantar já muito pequenininha. Eu nasci num domingo de carnaval aqui na rua Lopes de Oliveira, do lado de lá, na Barra Funda, e estava passando na porta o cordão Camisa Verde. Nem se falava em escola de samba, mas hoje é a Escola Camisa Verde e Branco. Então, a primeira música que eu ouvi na minha vida, acabando de nascer, foi, do povão mesmo, que era música dos cordões; não havia ainda escolas de samba. Eles era mais pobres. E dali, já pegou no ouvido e foi indo. Depois com a ida pras fazendas de meus tios, me apaixonei pela viola caipira e grudei nela, né?

fernando de almeida | Pequeninha?

Desde cinco, seis anos.

almeida | Existia uma figura pela qual você se encantou?

Não, eram os caipiras em geral na fazenda, os caipiras. O caipira é muito humilde, é muito interessante isso. Tem muita música folclórica que você sabe quem é o autor da poesia. E as músicas, autor anônimo, autor anônimo, porque eles não tinham coragem de pôr o nome ao lado do nome de um grande poeta. Os poetas da Inconfidência foram todos musicados, você nunca soube quem musicou. Ele é muito humilde nisso. Mesmo na fazenda, se ele compôs uma folia de reis, uma coisa bonita aí, ele divide com a comunidade e sai fora. Você nunca ouviu dizer “é uma folia de reis do Sêo Manuel da Cruz”. Ele some, ele é humilde.

tacioli | Isso naquele tempo ou ainda se mantém?

Até hoje, até hoje. Ele faz porque é humilde. Ele faz ou por religião ou por estar apaixonado. É uma coisa de dentro pra fora. Ao passo que na música popular é o inverso, a pessoa faz uma música ou porque encomendaram ou porque querem gravar aquilo; já faz a música do tamanho da faixa do CD. O caipira, não, por isso é tudo longo, ele está despreocupado. Se ele faz uma moda, dura cinco, dez minutos, é muito normal.

fernando | Não precisa tocar na rádio…

Não precisa tocar… Ele nem gosta.

dafne | E onde eram essas fazendas, em que região?

Aqui no interior. Minha mãe tinha 18 irmãos.

Cada um tinha uma fazenda?

Metade homens e metade mulheres. Os homens todos foram fazendeiros. Itapira, Mogi-Mirim, Campinas. Do outro lado, do meu pai, Matão, essa era a mais longe, Santa Cruz do Rio Pardo, e vai por aí a fora. Eles amavam! Mas primeiro meu avô fazia estudar e se formar em alguma coisa. Naquele tempo era bonito ser farmacêutico, dentista. Era chique. Então, todos se formaram, mas foram embora pra fazenda.

almeida | E todos saíram daqui?

Saíram daqui.

dafne | Havia alguma fazenda em que você ia mais? Você via alguma diferença entre essas regiões?

Completa, completa. Por isso que era bom. Cada ano a gente passava as férias numa. E você podia comparar. Até a afinação de viola é diferente nas várias regiões. Então é muito interessante, são muitas afinações e aquilo chamou muito a minha atenção. Desde muito pequena eu já ia direto pra colônia ouvir música de viola. E era muito feio mulher tocar viola, machismo. Vem dos índios, né? Eles gostavam que eu assistisse, e eu me metia a cantar juntos com eles, com sete, oito anos. E eles achavam a voz muito bonita, até a hora em que eu pedia para tocar um pouquinho de viola. Aí um olhava pro outro. Demorou, viu? Porque aquilo também é um instrumento de paixão. Eles não emprestam, é uma coisa, faz parte deles, do corpo deles. É um amor brutal pelo instrumento. E aí pra emprestar… Eu comecei a arranhar um pouquinho, a querer tocar, né? E quando eram mais velhos, um olhava feio pro outro, como quem diz: “Quem emprestou pra ela?”. Eu comprei uma viola com 16, 17 anos e comecei a tocar mesmo, mas não era bem aceita.

fernando | Você já tocava violão?

Já, violão tocava, porque mandaram aprender violão, que era tudo de ouvido a viola, o violão mesmo. Como é ainda hoje. Recentemente é que se escreve música de viola na pauta, né? Roberto Corrêa [n.e. Violeiro, compositor, pesquisador e escritor mineiro nascido em Campina Verde em 1957, dono de vários discos de carreira, entre eles Voz e viola (1996) e Caipira de fato(1997), que dividiu com Inezita Barroso], o Rui Tornezi [n.e. O maestro Rui Tornezi de Araújo, regente da Orquestra Paulistana de Viola Caipira e professor de viola do Centro de Estudos Musicais Tom Jobim], todos esses grandes violeiros, então isso é muito recente, método de viola. Tudo era transmissão oral, né?

E aí você aprendeu a tocar sozinha?

Aprendi olhando também, transmissão oral.

tacioli | Mas nessa época, Inezita, nos anos 1930, você era uma menina?

Tinha uns sete, oito anos.

Apesar do rádio, o violão não era ainda um instrumento tão bem visto, né?

Era mal visto, dizendo: “Violão era um instrumento de vagabundo, de desocupado, que vai tocar de noite na rua, fazer serenata. O cara não trabalha!“. Não era nada disso, mas o povo, sabe como é? E mulher… Mas daí veio uma professora pra São Paulo, que era paulista, a dona Meire Buarque. Ela chegou aqui, havia feito um curso nos Estados Unidos, e veio dar aulas pra nós. Ela morou e morreu em São Paulo. Era paulista. Foi estudar nos Estados Unidos e trouxe a novidade.

fernando | De mulher tocando violão?

Mulher tocando violão. Mas ela misturava com poesia, com pequenas pecinhas de teatro, com esquetes. Era muito gostoso. E havia aula de boas maneiras também. Nessa eu caía fora. [risos]

tacioli | Mas essa era a forma do violão ser bem visto…

Ser bem visto. Aí eu comecei a cantar…

fernando | E o piano…

O piano foi com nove anos. Não, meu pai bronqueou: “Tudo de ouvido? Não vai pegar amor pelo palco, não quero. Vai estudar música!”. Aí eu torrei mesmo. Fiz três cursos de piano.

E seus pais apoiavam assim…

Música, sim, mas não muita coisa de palco…

almeida | Eles queriam que você fosse pra academia?

Dona de casa, bonita, prendada. Aí eu aprendi tudo. Dona de casa, tratar de criança. Tudo bem, mas lá dentro… [risos]

Henrique Parra | Entre o aprendizado com o caipira e aquele vindo do estudo formal, como você se sentia?

São duas coisas diferentes, raízes diferentes, né? Porque no piano você estudava coisa erudita e todos aqueles compositores, Chopin, Bach, Brahms, e na viola eram as modas caipiras do João Pacífico [n.e. Nome artístico de João Batista da Silva (1909–1998), um dos ícones da música caipira. Foi parceiro de Raul Torres, com quem compôs “Cabocla Tereza”, um de seus sucessos mais sonoros], Raul Torres. Eu ficava louca, vidrada, principalmente pela poesia caipira, que eu amo até hoje. Agora para declamar eu não era muito boa, não. Eu era só a menininha prodígio, aí me punham em cima da mesa, depois que acabava o jantar. Era uma mesa quilométrica, em que havia muita gente. E a criançada ficava quietinha, porque meu avô era muito bravo. “Música, a gente ouve em silêncio.” Não podia andar. Alguns até faziam pipi na calça. [risos] “Falou que não podia levantar daqui!” Mas a criançada era muito engraçada. E elas todas, as filhas do meu avô, as minhas tias todas, tiveram educação musical. Não se tornaram profissionais, nem chegaram a tocar muito bem. Aprenderam até harpa. Meu avô gostava muito de ópera, música erudita. Ouvia aqueles discos de dar corda, gramofone. Todo dia depois do jantar ele ficava sozinho com as filhas que gostavam mais. E eu tinha a minha sessãozinha em que declamava.

tacioli | O que você declamava? Você lembra de alguma coisa?

Ah, lembro sim. Era Corrêa Júnior. Guilherme de Almeida ainda era muito novinho, não era bem famoso, mas mais tarde eu aprendi muita coisa dele, principalmente na Revolução, né? “Bandeira da minha terra / Bandeira das três listras.” Eu achava lindo. E meus tios foram pra Revolução, todos. Os moços, todos os adultos. E teve um que não quis ir, que era o mais moço, que era mais malandrão. Ele gostava de ouvir rádio e ficava com uma caixa de fósforo batucando. E a minha avó foi para o quartel alistá-lo. Obrigou-o a ir.

A sua família, Inezita, era uma família de posses?

Era, o meu avô era rico demais. Mas depois, sabe como é, é muita gente. E vai casando e vai esparramando, nem todos têm sorte pra ganhar dinheiro ou jeito. Então a coisa foi abaixando. Já no tempo da minha mãe, meu pai já não era rico, não era de família rica também, mas amava música e gostava muito de fazenda também. E a gente vem dessa criação.

O que não deixa de ser curioso você, com esse berço nobre, se encantar com o campo, ter o privilégio de visitar essas fazendas e perceber as diferenças.

Exato, mas a gente era muito bem recebida, né? A molecada toda. Éramos em 18 irmãos, quantos primos? Depois de muitos anos, uns 20 anos, a gente resolveu dar uns jantares de primos. Meu Deus, em um jantar lá em casa foram 68 primo-irmãos. E tanta gente esparramou que, às vezes, eu encontro uma prima nos lugares mais estranhos. Um dia fui pra Recife. O avião era internacional, e ele parava em Recife. E a aeromoça olhava pra mim, olhava pra mim. “Você não é a Inezita?” Falei: “Sou.” “Eu sou sua prima-irmã.” “Ah, não acredito!” “Sou, trabalho aqui como comissária internacional.” E, nossa mãe, a gente ficou amiga! Essas vidas que não combinam… Ela viajando e eu também e nunca mais nos encontramos. Outro dia no recital do SESC, há uns dias, encontrei uma delas. Mas é tão engraçado reencontrar depois de adulto, de velho.

fernando | Com vidas completamente diferentes…

É, uma era professora de matemática da USP. Essa era o crânio da família. A gente respeitava, mais velha, já faleceu. E um outro era médico. O pessoal estudava também. Estudava e gostava. Lia muito. Meu avô tinha uma biblioteca imensa. Era muito gostoso esse convívio com os primos. Havia pouquíssimas mulheres. Todo mundo: “Quantos filhos você tem?” “Quatro homens.” Quantos filhos você tem?” “Oito, duas mulheres e seis homens.” Então, o meu contato foi mesmo com a molecada.

Com os meninos…

Com os meninos…

E eles tocavam?

Tocavam, alguns deles tocavam, sim. A casa do meu avô era aqui na Conselheiro Brotero, onde era a Escola Panamericana. Ela começava na Conselheiro Brotero e ia até a rua Tupi lá embaixo; um quarteirão. Havia pomar, havia um porão enorme. Alguns empregados moravam no porão. E a gente ia pro porão porque lá em cima era muito chato. Tinha uma velharada muito chata, não podia sujar nada. Então a gente ia lá e aprendia tocar violão com eles, samba. Era muito divertido. Mas sempre com os primos. E esse que morava em Santa Cruz do Rio Pardo veio para a casa da minha avó aqui, ficou hospedado uns tempos e foi fazer Medicina no Rio. E esse aí tocava muito bem o violão. Mas, coitado, ele tinha um violão desgraçado. Naquela época custava 10 mil réis.

Era muito ou pouco dinheiro?

Duro, aquela madeira horrível. Aí no aniversário dele, eu patrocinei o presente, catei um dinheirinho dos primos e demos um violão bom. Ele chorava, deu até dó. Levou esse violão com ele pro Rio. Depois a gente desliga… Ele já faleceu. E eu tenho grandes lembranças dos primos, muita. E assim sendo meu irmão também, só tenho um irmão, então eu brincava muito de brincadeira de moleque.

Eram só vocês dois?

Somente nós dois. E ele não tem jeito, não, não canta nem o Hino Nacional.

Max Eluard | Inezita, como era lidar com eles, tendo esse machismo junto? Houve um momento em que você conseguiu o respeito deles?

Total, total, porque era mulher justamente. Eles achavam que eu era mais fraca, que eu não ia dar soco na cara de ninguém, mas se precisasse eu dava. E era aquela brincadeira de subir em árvore, estilingue… Tudo, tudo. A casa do meu avô era muito grande, tinha um jardim enorme. E quando chegou a moda dos patins… Era uma coisa fina, bonita! Era chique patinar, bem vestida, de noite. E também havia bicicleta, patinete, tudo, tudo. Depois veio a mania do ioiô, bilboquê, que mais? Papagaio! A gente fazia no porão quatrocentos papagaios pra festa de São João. E balão também! Não era proibido. Não havia tanto fio, tanto perigo. As festas de São João eram bárbaras!

almeida | Como eram?

Eram maravilhosas, uma comidaiada…

Eram aqui ou nas fazendas?

Na fazenda era muito melhor. Mas havia aqui também, no quintal. Era época de férias, porque a gente tinha férias em junho e da metade de dezembro, janeiro até depois do carnaval. E quem queria voltar pra São Paulo? Choradeira, choradeira total. Sumia na estação do trem na hora de embarcar. Dava trabalho mesmo.

henrique | Inezita, enquanto você construía sua trajetória musical, como era a sua relação com as mulheres da família?

Havia poucas mulheres, poucas primas. Tias umas seis ou sete. Umas já casadas, com filhos. E havia uma que era a minha madrinha, que aprendeu a tocar violão, justamente. Mas não se deixava apresentar em lugar nenhum porque não era bonito. Eu cheguei a me apresentar muito porque era um grupo de meninas. Foi a Dona Meire quem inovou com isso. A gente cantou em clubes finos aqui de São Paulo, festa de benefício, Teatro Municipal de Campinas. Era muito gostoso me apresentar. Mas fui crescendo e aí meu pai falou: “Agora pára tudo. Vai estudar música direito!”. E fui. Mas eu sempre tocando no meu quarto, ou na quermesse da Igreja São Geraldo aqui, ou em aniversário de amiga. Era assim, convidavam e a gente ficava lá tocando e cantando.

fernando | Quando seu pai falou “Vai estudar música de verdade” já era dando apoio para sua profissionalização ou…

Meu pai sempre apoiou. A minha mãe era mais fechada. Ela dizia: “Quer cantar? Então não vai pro palco!”. Aí eu já tinha uns 15, 16 anos. “Então não vai cantar em palco, vai cantar no coro da igreja!”. Eu cantei muito no coro, aqui e na de Santa Cecília. Era muito gostoso. Foi suave, não era uma proibição. Às vezes um vizinho pedia pra ir cantar à noite. Aqui em São Paulo havia muito serão. Os serões estavam muito em moda. Juntava uma que tocava piano, com uma cantava que cantava música lírica, com outra que cantava música popular, violão…. E em casa fechada a gente ficava até onze da noite, meia-noite. Sarau, com declamação junto.

Tacioli — E um desses vizinhos era o Mário de Andrade? Isso foi durante a infância?

Foi na infância. Eu tinha uns 9, 10 anos. E foi na rua Lopes Chaves, que agora foi cortada pela rua Mário de Andrade, que passa no meio, que vai dar aqui na Conselheiro Brotero. Ele morava ali na esquina. A casa ainda está lá. Era um museu, não sei se ainda continua. Acho que não está mais. Ele morava ali e chegava toda tarde às cinco horas, cinco e meia. E eu tinha uma tia da parte do meu pai que tocava um piano maravilhoso. Havia estudado com ele no conservatório musical aqui. Ela falava miséria. “O meu vizinho é um deus. Ele é adorado no conservatório. Ele é um intelectual perfeito, maravilhoso!” E eu e minha prima — que tinha a mesma idade — ouvíamos aquelas coisas, né? Aí eu dizia: “Vamos patinar perto da casa dele? Eu quero olhar pra ele de perto.” “Ai, tenho vergonha.” Eu disse: “Eu não tenho. Vou patinar lá”. E íamos toda santa tarde… Eu não sei o que ele pensava de nós, duas loucas.

Fernando — Era uma paixonite infantil?

Não, era uma admiração por tudo que a minha tia contava. A gente já gostava de música e ficou uma coisa, né?

Fernando — Pra saber quem era essa pessoa.

Não, a gente tinha 10 anos de idade e ainda morria de medo de fazer barulho na calçada dele. Ele devia detestar. Aí ele chegava, meio morenão, corpulento, bem altão, e chegava andando devagar.” E a gente ali, “Crrrrrr”. [risos] Eu dizia pra minha prima: “Um dia eu vou dizer boa tarde pra ele”. Eu era muito tímida, né? No dia que eu chegava mais perto, ele me olhava assim: “O que essa menina quer?” E nunca consegui. Daí se mudaram de lá. E eu também fui crescendo, crescendo. Nunca mais vi… Somente ouvia falar. Semana de Arte… Aí a gente queria saber o que era aquilo, quem estava lá. Aliás, naquela novelinha [n.e. A mini-série da TV Globo, Um só coração, dirigida por Carlos Manga e produzida em homenagem aos 450 anos de São Paulo, completados em 2004 ] ele estava muito bem representado. A figura dele era aquilo mesmo. (…) Ele morreu muito cedo. E nesse tempo eu já estava noiva. Meu cunhado era ator do TBC, o Maurício Barroso. Ele falou: “Vou levar você pra conhecer o Mário. Mas logo que ele sarar; está doente”. Era um grupo muito bom que freqüentava o TBC, recém-fundado. E o Rui Afonso Machado, que era um grande intelectual também, “Não, nós vamos levar você pro Mário conhecer”. Eles não eram muito mais velhos que eu, não. Éramos da mesma idade, mas a gente respeitava muito esses colegas pela sabedoria deles. Meu cunhado era muito inteligente, estudou filosofia. Era um tempo muito gostoso. São Paulo era outra coisa, outra coisa.

O poeta, musicólogo, escritor, novelista e pesquisador Mário de Andrade (1893–1945), uma das chaves da Semana de 22. Foto: Fundo Mário de Andrade

Tacioli — Mas, pra você hoje, qual é imagem do Mário? Qual a sua importância?

Ah, a minha visão ampliou bastante, porque estudei Biblioteconomia. E a primeira turma da USP! Funcionava no terceiro andar do Caetano de Campos. Aquele prédio nunca saiu da minha vida, do jardim de infância até o fim. Tinha aquela biblioteca enorme. Aí o professor já deixava um monte de livro pra dar uma lidinha, examinar, classificar, bater a fichinha. E eu chegava uma hora, uma hora e meia antes do normal. Batia aquilo tudo como um raio. Punha tudo no lugar, classificava tudo, daí eu ia ler. Havia tudo do Mário de Andrade. Eu comia aqueles livros todos não sei quantas vezes. Depois saiu uma boa edição da Martins Editora e aí comecei a comprar os livros. Agora, você empresta e some… Está fazendo uma falta uma edição nova. Não somente do Mário, mas de todos os outros. Então, eu li tudo o que eu podia de autor brasileiro.

Fernando — Já como pesquisa sobre folclore?

Já como pesquisa. Foi aí que eu tomei gosto por isso também, porque você pesquisa quando é criança, mas não sabe o que é aquilo que você quer, tomar nota da letra, por exemplo, “O boi amarelinho”, aquela moda enorme. Eu sabia inteira, mas de ouvir os caipiras cantando. Cada dia eu escrevia um pedacinho. Depois saiu gravado várias vezes com o nome do Raul Torres. Uma música folclórica mesmo. Depois encontrei uma outra versão em Minas Gerais.

Fernando — E essa primeira versão foi recolhida onde?

Era em todos os cantos. Era uma música muito querida dos caipiras. E depois, muito depois, ela veio por meio do rádio, pelo Raul Torres. Aí tem uma coisa, talvez não fosse culpa dele, mas quem cantava uma música, quem cantava em um programa de rádio, o povo acreditava que era do Raul, porque era o sistema folclórico. Imagine, vai cantar uma música do outro? Nunca! Como eu vi o “Boi amarelinho”, anos depois, nos 60, 70 e 80, falavam “Canta o Lampião de gás, da Inezita Barroso”. “Gente, não é meu. Não estou roubando nada. A mulher está viva! Maravilha! Linda!” Aliás, foi uma emoção no SESC… Porque no dia do meu aniversário eu dei um show e ela subiu no palco, me deu um abraço e cantou inteiro o “Lampião de gás”. Ela está com 92 anos. Também outro que era assim, era o João Pacífico. Ele subia as escadas do palco cantando e entrava correndo. [ri] Nessa época ele já tinha quase 86. Ele morria de rir, contava piada, fazia graça com todo mundo. Uma criatura divina! Ele tinha até o segundo ano de grupo da roça. E fez todas aquelas poesias, “Cabloca Tereza”, “Pingo d’água”, e muitas… Coisas fabulosas!

Tacioli — É correto a gente falar em “folclore”?

Eu falo errado. [ri] O pessoal caçoa de mim, porque todo mundo diz fol-clo-re.

Tacioli — Não digo pela dicção, mas a palavra folclore o que define?

Define as mais profundas tradições de um povo em todos os seus aspectos e está ligada a muitas ciências. Por isso que inventaram essa palavra. Foi um inglês que era arqueólogo, ficou aborrecido porque chamavam essa parte de Antigüidades Populares. Como grande cientista que era, disse: “Que é isso? Não estão dando valor pra uma coisa tão importante! Que antigüidade? Antigüidade da idéia de uma coleção de xicrinhas, de quadrinhos”. Ele propôs o uso da palavra Folklore, que é uma palavra anglo-saxônica. No inglês moderno você não a encontra mais, nem no alemão. Ela define costumes, manias e tradições de um povo.

Tacioli — Então, folclore, por tratar dos costumes, que mudam com o tempo…

Mudam.

Tacioli — Mas quando se fala de folclore, não se passa uma idéia engessada, de coisa estática?

Não, não! Tem quem pense isso e fala: “Uma coisa antiga!” Mas que antigo?! É uma coisa tradicional! É muito diferente de antigo. E tradição nada mais é do que um elo que liga o passado, o presente e o futuro. Depois vai caminhando, não pára. O que é presente hoje, amanhã será passado. O que é o futuro hoje, amanhã será o presente. É uma linha que não pára! A gente até admite instrumentos mais aperfeiçoados, mas não alterar! Você não vai sair na rua com um teclado pendurado cantando folia de reis que matam você! [ri] É uma coisa assim… As violas eram todas feitas a canivete. Aquelas madeiras vagabundas, aquela boquinha de coração, era um coraçãozinho… São as primeiras. As cravelhas de afinar de madeira… Aquilo voltava conforme o clima.

Fernando — E eram os próprios tocadores que…

Eram eles quem faziam. Era a glória fazer o próprio instrumento, as violas e as rabecas, que eram os violinos domésticos. Então aquilo não tinha firmeza. Depois que veio o rádio, a gravação tinha que ser perfeita… Perfeita não vai chegar nunca. Mas as gravações foram evoluindo. Então você permite que o caipira compre uma viola maravilhosa, com madeira linda, do jeito que ele quiser. Até, de vez em quando, permite que ele ponha um plugue, né? Porque a viola é um instrumento muito delicado, muito soturno, muito baixinho em solo. E ao ar livre era assim, mesmo, não tinha plugue, não tinha nada. Até hoje não tem. Em cantigas de rua, folias de reis, terço de São Gonçalo, terço de Aparecida, procissões, não se usa microfone de maneira nenhuma. Eles cantam e o povo faz silêncio. Isso é lindo, é um respeito muito grande!

Fernando — Não precisa do plugue.

Não é um espetáculo no Pacaembu, de rock, nunca foi. E pode haver muita gente junta. Eu assisti folia de reis em Minas Gerais, no sul de Minas. Era a cidade inteira na rua na hora de cantar. Assisti congada, coroação de Rei Negro, Rainha Negra, a coisa mais linda! Havia um microfoninho porque o padre faz a benção. Então havia um coreto em que subia o rei velho e a rainha velha. Do outro lado, o rei novo e a rainha nova. Você olhava aquela praça, dava até aflição. Parecia um jogo no estádio, aquelas cabecinhas. Um silêncio, mas uma coisa bonita. Aí o padre, com o microfoninho, “Em nome de Deus eu vou coroar…” Ainda é tradicional em Minas, como São Benedito é importante na congada. Era na frente da igreja dele, mas não se usava microfone. Eu chorava muito! O rei levantava, de luvas brancas, tirava a coroa da cabeça e punha no rei novo. E o padre benzia. Aí vinha a rainha. Nessa hora todo mundo chorava! A rainha tirava a coroa da cabeça, também de luva, e punha na cabeça da outra. E uma delas que eu vi, essa rainha, negrinha, negrinha azul-marinho de preta, linda, com uma cinturinha assim, era a rainha.

Fernando — A antiga?

A antiga. E ela foi pôr na cabeça de uma senhora desse tamanho, feioza. A coroa ficou meio dançando na cabeça. Essa senhora era riquíssima e havia patrocinada toda a festa.

Fernando — Como são escolhidos o rei e a rainha?

A sucessão é um tipo de uma eleição popular. “Vamos eleger a dona fulana porque ela é muito piedosa, porque ela não-sei-o-quê.” Não se falava em dinheiro.

Fernando — Somente em atributos morais.

É. E os festeiros são obrigados a dar comida e doce de graça. Então tem que ter uma pessoa pra bancar. Às vezes, a prefeitura é paupérrima, não tem nada. E sempre há uma pessoa da sociedade, rica… “Ah, vamos convidá-la.”

Tacioli — A piedosa.

É impressionante, viu? E o povão ficou muito quieto. Eles são muito respeitosos, porque é uma festa religiosa, né, as duas: a congada e as folias. Mas foi muito bonito, porque quando põe a coroa e o padre acaba de abençoar, estouram os tambores todos da congada. Você treme no chão. Você não pode deixar de chorar. Depois fica todo mundo cantando aquela letra. E todos aprendem porque se repete. Ai, ai, ai, é muito linda essa parte!

Fernando — E o seu interesse começou na biblioteca?

Foi, foi e na fazenda. Eles faziam lá procissões, catira e festa de São Gonçalo. A gente não ia bater o pé, mas na festa de São Gonçalo podia, né? Não precisava ser um catireiro ensaiado. Você fazia uma promessa e falava: “Eu quero entrar porque quero pagar a promessa. Prometi dançar”.

Fernando — Ah, é um….

É o pagamento. Aconteceu a coisa, e o agradecimento é ir dançar. E é a noite inteira! Tem criança, tem velho, todo mundo dançando. É muito lindo! É muito puro! Aquilo é muito brasileiro!

Tacioli — Inezita, como foi a primeira vez em que você subiu no palco pra cantar?

Já moça assim… Demorou bastante tempo. Só fui retomar a carreira e ser profissional depois que me casei, em Pernambuco.

Tacioli — Quando?

Em 1953. Fui pra lá pra fazer pesquisa. Não levei violão, nem nada, não sabia como era o ambiente. Quando cheguei lá vi que era totalmente diferente de São Paulo. Era lindo cantar e tocar. Era abençoado uma mulher tocar e cantar, fazer teatro. Coisa que aqui já… [risos]

Fernando — Por causa dos europeus, provavelmente.

Sim, claro. Mas lá era maravilhoso. O meu marido era cearense. No Ceará eu era tratada como rainha mesmo. Todo mundo dando presente, querendo mostrar música pra mim… Um tocava piano, outro tocava violão, outro compunha. Eu me senti no céu. De lá nós fomos pra Pernambuco.

Fernando — Mas você já era profissional?

Não, não. Eu não fui pra cantar, mas quando eu cheguei em Pernambuco…

Fernando — Mas as pessoas ofereciam músicas?

Ofereciam. Havia um compositor famoso, o Paurillo Barroso [n.e. Com músicas cantadas por Bidu Saião, o compositor e agitador cultural cearense (1894–1968) foi um dos fundadores da Sociedade de Cultura Artística do Ceará e dirigiu, de 1944 até sua morte, o Theato José de Alencar, em Fortaleza], que era tio do meu marido. Ele tinha umas coisas bonitas, composições sem canto e outras com canto, canções lindas do Ceará. Ainda cantam as coisas dele, porque são lindas. Aí fomos pra Pernambuco. Em Pernambuco conheci toda a turma do Teatro de Amadores. E tem o Teatro Santa Isabel, que é a coisa mais deslumbrante do mundo. Um teatro todo cor-de-rosa, lindo, lindo! E essa turma ensaiava e se apresentava lá. Era quase uma família inteira. Eram os avós, os pais, os filhos, os netos. E quando havia criança na peça, era da família também, bisneto. Eu fiquei louca, maravilhada. Isso não tinha aqui. “Você vai dar um recital!” Me apresentaram pro Capiba, que era o mestre do frevo e compositor. Eles eram muito unidos, o teatro com a música, com tudo. E eu freqüentava aquelas reuniões todas noites. Aí o Capiba disse: “Eu trabalho na Rádio Clube. Você vai cantar um pouquinho pra nós!” [risos] [interrompe a conversa para apresentar o Rivaldo, que acaba de chegar] Esse aí é o diretor do Viola, minha viola, embora não pareça! [risos] É o famoso Rivaldo Corulli. [risos] Voltando… Nesse tempo o governador era o Agamenon Magalhães, 1952, 53, acho. E a senhora dele tinha obras sociais, como sempre. Ela disse: “Eu quero conhecer essa moça”. Aí teve uma festa grã-finérrima — pernambucano quando dá festa é um exagero, né? E eles estavam lá. Ela falou: “Você não poderia dar um recital pra nós no Teatro Santa Isabel em benefício das minhas obras?” Eu comecei a tremer. “Convite impresso! Nossa, que honra!” Aí, saí dali e fui emprestar um violão, mandar fazer um vestido até o pé na costureira, que eu não tinha nem levado roupa, não ia cantar. E eu fiz um recital. Estourou a lotação! Ficou gente pra fora. Eu dei três recitais seguidos. Aí o Capiba falou: “Não, você vai cantar na Rádio Clube, nem que seja uma semana”. Resumindo: fiquei lá dois meses. Percorri o interior inteiro de Pernambuco, porque havia filiais da Rádio Tupi, que era a rainha do Nordeste.

Foto de 1957 registra o jipe customizado de Inezita Barroso com o qual viajou pelo Nordeste. Foto: Acervo Sinésio Sisinio Filho

Fernando — E era tudo ao vivo, não?

Tudo ao vivo. Era muito interessante, coisas muito diferentes. Por exemplo, técnico de rádio, aquele pessoal que mexe com os microfones, que fica lá nos botões, na mesa de som, tudo mulher! Não havia um homem! “O que essas moças estão fazendo aí numa mesa de som desse tamanho?” Eles eram bem equipados; a Tupi tinha dinheiro. [Rivaldo traz a bebida da Inezita] Não pode sair no filme! Vão falar mal de nós. [risos]

Tacioli — Eu já escondi. [a bebida]

Rivaldo — Ninguém grava agora. [risos]

É que estou falando muito e água piora. [risos] Mas daí fui estrear na rádio. Fiquei louca com o teatro, foi um sucesso, todo mundo me conhecia na rua. Foi a primeira vez que eu fiquei famosa. Presente e mais presente, o nordestino é muito carinhoso. E fui visitar as principais cidades do interior. Passei dois meses viajando pelo interior de Pernambuco. Caruaru, fiquei louca, louca.

Fernando — E o seu marido?

Ele foi comigo.

Fernando — Junto?

Foi, ele me incentivava muito, senão não teria começado a carreira. Se dependesse da minha família, nunca teria começado, né?

Tacioli — O que ele fazia, Inezita?

Advogado.

Almeida — Você teria aberto mão da sua carreira artística se o seu marido não tivesse apoiado?

Jamais. Trocava de marido. [risos] Verdade! Mas eu levei um empurrão pra cima no Nordeste. Eu ia muito assistir os repentistas, os violeiros nordestinos, completamente diferentes dos nossos. Inclusive a viola e a afinação são diferentes. Coisas lindas pra você prestar a atenção. E aquela verve de nordestino… O cara dava uma palavra, um mote, como eles chamam, e ele desenvolvia aquilo rimando.

Max Eluard — Nessa viagem pelo interior, o que você cantava nas rádios?

Música de São Paulo, do Rio Grande do Sul. Era um sucesso, porque ninguém antes de mim foi.

Fernando — Eram músicas tradicionais do sul?

Era “Tristeza do Jeca”, o próprio “Boi amarelinho”. Quando eu peguei na viola e cantei uma moda, aquilo veio abaixo, porque é muito diferente.

Max Eluard — E eles gostavam, eles queriam ouvir essas músicas?

Amavam, amavam, porque nós fizemos um tipo de uma troca, foi quase a mesma época em que o Luiz Gonzaga veio pro Sul. Foi aquele sucesso. E eu fui pra lá. Depois encontrei muita gente que viajou o mundo inteiro, principalmente japoneses que vinham pra cá sem saber falar nem A, com intérprete. A intérprete: “Ela chegou agora de Tóquio. Veio ver o seu recital aqui em São Paulo. Ela queria um autógrafo no seu disco”. “Que disco? Ela comprou algum disco?” “Não, disco do Japão!” Aí eu olhava aquele disco! Pra você ver como a pirataria já vem de longe, não é na 25 de Março, já vem de longe! Era um LP de 12 polegadas, com o mapa do Brasil, havia uma divisão diagonal, lá em cima o Luiz Gonzaga de sanfona e chapéu de vaqueiro, e aqui embaixo eu de chapéu de caipira e viola. “Mas onde ela achou isso?” “Sucesso no Japão!” Tudo escrito em japonês.

Max Eluard — Isso foi recentemente?

Não, foi na década de 60, 70.

Fernando — E a senhora nem ficou sabendo disso?

Imagine, aqui não avisam, porque eles vão avisar? [ri] E um cronista, que era do jornal Última Hora, também foi fazer um trabalho na França, e de lá ele escreveu pra mim, fez um escândalo, porque ele passou numa vitrine de música e a vitrine inteira era disco meu, com violão. Já se usava fazer isso. Nunca vi um tostão disso na minha vida.

Fernando — E eram discos diferentes dos seus?

Eram, eram coletâneas do que eles gostavam mais. Porque eles não são bobos. Quem inventou é que… nem quero ver. Por isso eu não fiquei odiando esses caretas que vendem discos na 25 de Março. A maioria das gravadoras não paga direitos. Agora estou numa séria, que é a Trama, que me paga. Mas até agora, com 51 anos de carreira, somando tudo, com grandes sucessos como “Lampião de gás”, “Moda da pinga”, eu posso dizer a vocês que eu recebi R$ 20.000,00 em cinqüenta anos. Recentemente eu gravei numa, que eu não vou xingar porque é muito recente. Gravei três discos e de vez em quando vem a conta dos direitos autorais… Da última vez eu recebi R$ 6,00.

Fernando — Seis?

Meia dúzia. Eu falei: “Mas não é possível, estão brincando comigo”. Não, ainda tinha que receber na fábrica, que era na estrada não-sei-das-quantas… Daí essa gravadora sumiu também, nunca pagou. Gravei na Victor, RCA Victor, que pagava era direitinho. Depois passei pra Copacabana, onde fiquei 18 anos. No fim eles já lançavam discos [coletâneas] em que eu não participava da seleção. Eu ia passando na rua e via numa vitrine: “Nossa, que moça parecida comigo, deve ser a minha filha, mas ela não é cantora”. Eu chegava perto. A minha filha é muito parecida comigo. Antigamente era mais. Daí eu entrei e falei: “Que disco é aquele?” “É Inezita Barroso.” A fotona na capa lá, ainda era LP, vinil. A foto, a contracapa igual, mesma coisa que eles tinham e tudo. Inezita Barroso desse tamanho.

Tacioli — Inezita, a senhora falou que os estrangeiros gostavam e eles lançavam seus discos, mas você não sabia. Que tipo de música eles gostavam?

Esse tipo de música brasileira, folclórica, regional, caipira, nordestina. Você vê que o Luiz Gonzaga fez muito sucesso por lá também. Eu lembro da Dalva de Oliveira [n.e. Uma das cantoras mais famosas dos anos 1930 aos 60, a paulista Dalva de Oliveira (1917–72) vocalizou sucessos como “Errei sim”, “Tudo acabado”, “Segredo”, “Olhos verdes”, “Ave Maria” e “Bandeira branca”], que gravou o primeiro baião com a orquestra do Roberto Inglês na Inglaterra. Arrasou, né? [canta] “Calú, Calú / Tira o verde desses ói de riba d’eu.” Nossa, aquilo foi um sucesso na Inglaterra. Mas ninguém falava em milhões de discos, isto aí é meio furadão. Acho que a única criatura que vendeu milhões de discos na carreira foi o Frank Sinatra. Aí pegou a moda, né? ”Porque vendeu não sei quantos”, sem contar que quando não fazia sucesso, era devolvido. Então não vendeu. Enchia a vitrine, a pessoa ia lá: “Não quero, só tem duas músicas boas”. Como sempre, LP, CD. Aí o lojista devolvia pra fábrica. Esse pedaço eles não contam. Eu fui fuçar, sou xereta. Devagarzinho vou indo, vou indo. Chegava na Avenida São João: “Tem disco da Inezita?” “Ah, tem. Tem uns três aqui no escaninho.” “Três, só três?” “Não, porque já vendeu tudo.” “E quantos o senhor vendeu?” “Ah, vendi isso, vendi aquele.” Aí vem a conta, vendeu quatrocentos, é assim, seis, oito discos. Uma vez eu gravei “A Moça e a banda” com a Banda da Força Pública, cuja banda eu adoro de paixão. Canto com eles toda hora. Agora é a Banda da Polícia Militar. Eram os hinos brasileiros. E aí saiu o disco perto de 7 de setembro por aí. [Barulho de carro arrancando, cantando pneu] Epa, Fittipaldi! São uns loucos! Isso é carro roubado, viu? Aqui no bairro, ó. O de vocês está na porta? [risos] Então eu estava contando. O presidente era o Juscelino, que eu amava de paixão. Ele gostava de mim também. Toda hora me chamava pra cantar em Brasília. Brasília não tinha nada, apenas uns quatro prédios. E era muito gostoso isso. Aí falei: “Meu Deus do céu, manda uma caixa desse disco com a banda pra ele.” Porque são os hinos brasileiros, Hino à Bandeira, Hino da Independência, da Proclamação da República, Cisne Branco. Era lindo esse disco. Vende até hoje. E eles mandaram uma caixa desse tamanho pras autoridades. “Agora você autografa e nós vamos distribuir pra eles.” Veio com um selo branco: “Exemplar especial para divulgação. Invendável”. “Não posso mandar um disco desse para o presidente, para o governador de um estado.” Aí eu comprei mais duas caixas. Chegou com o rótulo normal, de público, de vender na rua. Aí eu autografei, foi entregue, eles amaram e pediram mais. Chegou a conta. Eu havia comprado quase cem discos. E o relatório dizia “A moça e a banda, 21 discos”.

Fernando — Que foi a quantidade vendida?

Aí fui lá, né? Falei: “Vinte e um discos? Será que eu comprei… Está ao contrário, né? Foram cento e vinte e um e não vinte e um!” Tirava um sarro também, fazer o quê? Você não tem defesa. Não tem nota fiscal. Nota fiscal é tudo misturada. O lojista mostrou pra mim: tantos discos da Copacabana, tantos discos da RCA Victor. “Desses, quantos foram meus?” “Ah, não sei, está misturado, não sei se são os da senhora?” É uma coisa triste… Essa história de mexer com dinheiro acaba com tudo, acaba com tudo.

Tacioli — Nos anos 50, logo que voltou pra São Paulo, a senhora era a musa da intelectualidade paulistana, não?

Era.

Tacioli — Como era isso?

Era por causa do TBC [n.e. Fundado em 1948 pelo industrial italiano Franco Zampari, o Teatro Brasileiro de Comédia foi um dos responsáveis pela modernização do teatro no Brasil], por causa da Vera Cruz, onde eu filmei seis, sete filmes, né? E por causa dos estrangeiros, principalmente, que vinham para o Brasil trabalhar. Todos eles vieram para a Vera Cruz, eram importados, não havia ninguém, porque ninguém daqui tinha prática de cinema. O diretor que veio foi o Alberto Cavalcanti.

Dafne — Você filmou com ele?

Filmei. Eram diretores super exigentes. Aí a Vera Cruz fechou e começaram a surgir as televisões. Todos esses técnicos ficaram no Brasil e se empregaram nas televisões, inclusive maquiadores. E eles eram muito exigentes. Nesse tempo a televisão era ao vivo, havia ensaio de tarde, cinco horas da tarde, com a roupa do programa, o técnico lá em cima, na casinha dele. Iluminadores, fotógrafos. A câmera tinha trilho, como no cinema, “Você vai passar por aqui.” Ensaiava-se tudo, som, luz. Depois quando começaram aqueles programas de auditório, que o César Alencar inventou, aí misturaram alhos com bugalhos, que eu sou contra isso até hoje, é um pianista, depois um humorista, depois um samba, depois uma música erudita, um soprano. Então, não é televisão, é um café-concerto onde você vai pra ver várias coisas. E pegou porque isso era mais barato. Todo mundo com a mesma maquiagem, todo mundo com a mesma luz, todo mundo no mesmo palco. “Agora você!”, aí entrava. Acho que foi aí que a televisão começou a minguar, a perder aquela seriedade. O nego estava lá às quatro horas da tarde já iluminando pra não cansar, porque era ao vivo. Você não podia errar. Teatro, Cacilda Becker morreu de fazer teatro na Record, no comecinho, né? Não dava pra errar, não havia ponto, não havia nada, não havia falsidade, não tinha microfone, eram aquelas girafas. [risos] Então, eram outros tempos. Depois foi popularizando e foi mudando. Teve uma época em que me chateei… E fiquei quase oito anos fora da televisão.

Tacioli — Quando foi?

Foi na década de 60, 70, quando entrou a Jovem Guarda, aquela coisa de…

Tacioli — A Jovem Guarda te chateou, Inezita?

Não, não é que eu não gostasse deles, é um gênero. Mas era muito mal feito o programa. Quem está acostumado com uma classe de técnicos de primeira… E você via aquilo lá que era “Agora entra você” e entrava a Wanderléa. “Agora o Roberto Carlos!”, “Vamos, Roberto! Vamos, Roberto!”. Depois foi facilitando, porque daí já havia vídeo, já era colorido, o nosso era fogo. Tinha que ver a imagem branco-e-preto, que era dificílimo. Era cinema. Maquiagem diferente. Então eu aprendi muito, muito, muito.

Almeida — Inezita, na época do rádio muita gente conhecia somente a sua voz. Com a TV isso talvez tenha se invertido, já que as pessoas começaram a ver a dona daquela voz. Você sentiu essa diferença?

É, e tem um detalhe engraçado… O Vinicius de Moraes, na primeira vez que ele veio pra São Paulo, ele me ouviu, mas não sei se foi em disco ou pela televisão em branco-e-preto. Ele falou: “Quem é essa preta?”. Ele estava com a Tônia Carrero. Ela falou: “Não, ela é branquíssima. É a Inezita Barroso”. “Ah, não, isso é voz de negra.” Depois eu fui apresentada a ele, ele ficou olhando assim pra mim. “Você nasceu com a voz errada.” [ri] Mas muda, sabe, porque nem sempre quem opera o som e a luz é um craque, é um profissional super competente. Então, você cada dia saía com uma cara, cada dia com uma voz ou então a orquestra abafava sua voz… E quando me ouvia no palco, sem microfone, “Pô, olha que voz!”. [ri] Eu estou atrelada aos técnicos, o que eu vou fazer?

Dafne — Inezita, você estava no começo da televisão no Brasil. Como é que os artista viam, ou como você via essa nova mídia? Vocês davam importância ou achavam que era somente mais uma coisa?

Não, todos queriam fazer, menos alguns artistas de teatro que achavam que aquilo era de segunda, televisão não era arte. No fim muitos se dobraram e fizeram novela. Mas no começo não, quem era de televisão, era de televisão, quem era ator ou atriz de teatro, não se misturava.

Tacioli — Mas a maioria gostava?

Gostava. Cantores e tudo, era muito diferente, todo mundo queria aparecer.

Tacioli — E quem era de rádio gostava, via uma possibilidade diferente na TV, Inezita?

Quem era de rádio? Vou te dar um exemplo… O Moraes Sarmento. O Moraes Sarmento quando entrou pra Televisão Cultura já tinha muitos anos de rádio Bandeirantes, de todas as rádios. Ele era um rei na rádio. E aí ele dizia pra mim, “O que eu vim fazer aqui? Eu não gosto de televisão. Eu tenho tantos anos de rádio!”. “Sarmento, vá em frente. Isso aqui é uma coisa moderna, diferente. Você tem que andar pra frente”. No fim ele já estava gostando. Aí ele aceitou bem, já estava à vontade. Mas nos primeiros programas, nervoso, lendo a ficha, porque em rádio você pode ler. “Senta em cima dessas porqueiras e fale com as suas palavras! Não tem que decorar vírgula”. Mas havia uns produtores muito chatos na Cultura…

Tacioli — … E tinha que ler a vírgula.

Uma vez ele parou o Sarmento, que tinha o dobro da idade dele e era um homem consagrado em rádio, e falou: “Pára, pára, pára!”. Já era na era da gravação. E o auditório lá. “Sarmento, repita essa frase!” Eu queria pular no pescoço dele. O Sarmento ficou meio vermelho, mas repetiu a frase. “É porque aqui você errou uma vírgula.” Na cara do auditório. Tem gente que não se manca, somente pra se exibir. Ele ficou mais de 10 anos comigo apresentando o Viola. No fim ele já estava acostumado. E foi muito bom apresentador. Apresentar não é tão difícil, você aprende. É só você conseguir localizar as pessoas direitinho, saber o que vai perguntar pra elas; conhecer o elenco é muito importante, porque tem lugares onde você vai cantar ou dar entrevista e nêgo nunca ouviu falar do seu nome… então, fica um diálogo de louco, né? E quantos que a gente pegou em que a própria pessoa se arvora de apresentador de TV. Sempre tem uma ciência por trás disso, não é assim. Então durante um certo tempo não se exigia uma qualidade especial pra ser apresentador. No começo, a televisão pecou um pouco por isso, porque um apresentador de rádio tinha que pronunciar as palavras, falar um português bem falado, passar uma emoção pro ouvinte, até chegar a era das carinhas bonitas e, atualmente, das bundas, né? Então, pronto, qualquer um é apresentador, é atriz… Então fica assim aquela repetição, você liga um canal, vira pro outro, é igual, vira pro outro é igual, só muda a loira para a morena e roupa.

Fernando — Às vezes, você encontra o mesmo entrevistado nos dois programas, ao mesmo tempo.

Exatamente. O que é muito chato.

Tacioli — No começo da TV, em seus primeiros dez anos, havia algum programa similar ao Viola, Minha Viola, ou algum que falava de folclore?

Não, na TV tinha muita orquestra, grandes orquestras. A Tupi tinha duas orquestras, a Record tinha duas orquestras, uma pra rádio e outra pra televisão. Tinha quatro maestros. E aí veio vindo. A rádio Nacional tinha várias orquestras, várias formações de orquestras. E vinha maestro do Rio. O Gaó trabalhou aqui, o Espártaco Rossi, que era daqui, e grandes maestros do Rio de Janeiro vinham reger a Rádio Nacional. Aí na TV eles já contratavam os maestros, não era avulso. Então foi uma era muito boa. Cantores muito bons, cantores populares ótimos, repertórios maravilhosos, música popular brasileira no auge, com Elizeth Cardoso, com grandes cantoras e cantores, Nelson Gonçalves. Isso era gente que abria o bico e cantava. Agora tem o Lacraia…

Dafne — O Jackson do Pandeiro tinha um programa de TV.

Tinha, tinha, ele fez muito sucesso aqui. Veio muitas vezes.

Dafne — O programa dele conseguia dar visibilidade para os ritmos regionais?

Conseguia, conseguia. Ele veio depois do Luiz Gonzaga, bem depois, mas ele fazia muito sucesso aqui, porque a gente não conhecia direito a música nordestina, não havia muitos discos.

Fernando — Eu ia te perguntar isso, Inezita. Na época em que você estava no Nordeste, com a turnê pelo interior, como aquela música te influenciou? Ou isso foi importante para você ver que o negócio era a música daqui?

Eu escolhi as daqui porque eles não conheciam. Era uma novidade pra eles que não conheciam “Tristeza do Jeca”, por exemplo. E eu cantava misturava com canções brasileiras, como “Guacira”. Eles ficavam deslumbrados.

Fernando — Mas como a música de lá te influenciou?

A música deles? Eu trouxe um repertório muito grande. Comecei logo o Viola, e o Viola é essencialmente paulista e mineiro, mas a gente convida muita gente de outros estados, muita gente boa. Daí eu fiquei muito centrada nisso. Mas quando eu gravo mesmo, como nesse último disco da Trama, não tem nenhuma música caipira. São canções brasileiras com arranjos do Téo de Barros, produzido pelo Faro. Então é uma coisa que eles admitem em mim, porque eu sempre fiz assim desde o começo, sempre lidei com a popular, com a folclórica. [ri ] Às vezes eles chiam porque a pessoa mudou de estilo… Não mudou, meu Deus, se cantar bem em qualquer estilo está ótimo, contando que não seja cowboy ou estrangeiro. Uma coisa que eu odeio é versão. A música retrata a alma de uma criatura única, de uma região única, com um pensamento único, em um local único… Então, se o cara compôs aquilo… E aí chega no Brasil, bota em português… Quer dizer, não pode sentir igual, não pode ser transmitido… Mesmo os grandes que fizeram versões, como o Zé Fortuna que o Cascatinha & Inhana cantaram muito… [canta] “Índia, seus cabelos…” É bonito, muito bem cantado, a voz da Inhana sensacional, combinava com a dele. Fez um sucesso! Ninguém sabe que é uma versão. A outra… [canta] “Meu primeiro amor…”. Guarânia paraguaia, chama-se “Lejania”. [n.e. Música de Herminio Gimenez e versão de José Fortuna e de Pinheirinho Júnior] O que ficou como “Meu primeiro amor” é o amor à terra no original.

Tacioli — E o Bob Nelson era um versionista?

Não. O Bob Nelson fazia um tipo de cowboy escrito por ele e aqueles humoristas da época que eram muito queridos… É uma classe que sumiu.

Tacioli — Inezita, o que mudou nesses 25 anos de programa, do começo, da época do Moraes Sarmento até hoje neste aniversário? Quais foram as mudanças positivas e aquelas não tão positivas?

Certo. As positivas… A gente conseguiu a duras penas trazer esse programa nesse meu estilo até hoje. A gente procura não ofender os outros, mas dizer “não cante música de cowboy, cante música caipira” ou “não cante versão! Tem tanta música brasileira com letra bonita, por que fazer uma versão?!”.

Tacioli — Chegou a munição. [Rivaldo traz uma dose de uísque para Inezita]

Não deixe fotografar senão vai pegar mal. É que meu estômago a essa hora pede e o aparelho só lubrifica com uísque mesmo… [risos]

Almeida — Inezita, quer pedir algo?

Não, não. Então, é o seguinte: eu entrei no terceiro programa [Viola, minha viola ]. Era apresentado pelo Moraes e pelo Nonô Basílio, que era um grande compositor caipira, mineiro, e ele cantava também com a mulher. Era Nonô & Naná. Aí eu falei: “Esse programa é pra mim!”. Não tinha nada parecido na TV, porque todo mundo tinha vergonha de ser caipira, tocar viola. “Eu vou quebrar esse negócio. [ri] Eu vou conseguir nem que leve 100 anos!”. Aí o produtor dizia: “Ah, vamos chamar a fulana que canta bem”. Falei: “Canta caipira?” “Não, porque não-sei-o-quê…” “Mas não tem nada folclórico nessa cidade? Não tem catira, não tem folia?” “Ah, mas isso não é pra televisão!” “Por que? É música! É preferível eles se acostumarem com isso a ficar ouvindo versão ou coisinha de cowboy!”

Tacioli — Mas esse tipo de colocação que você teve foi em que momento?

Ah, foi desde de o começo…

Tacioli — Como era o programa até sua terceira edição?

Não, quando eu peguei já era caipira…

Tacioli — Já era…

É, outro dia nós passamos o primeiro programa… 1980, do estúdio lá em baixo… Era Tônico e Tinoco, Liu e Léo, as Irmãs Galvão, que estão desde o primeiro, o Nonô Basílio e o Sarmento apresentando. Então quando eu vi aquilo, aquele primeiro em que eu ainda não estava, falei: “Meu Deus, é aí mesmo que eu vou. Essa é a minha estrada!”. Aí, no segundo eles me convidaram para cantar. Tinha que ser a “Moda da pinga”. Aí eu fui lá mais pra ver o jeitão. [ri] “Ah, aqui dá pra eu cantar o que eu quiser caipira!” Aí no terceiro programa ou no quarto, o programa passou para o teatro, porque lá em baixo não tinha público, não havia estúdio que comportasse. E quando estreou no Teatro Zampari, na Avenida Tiradentes, eu estreei com uma orquestra de violeiros que era de Guarulhos e que já se desfez. Aí cantei o “Rio de Lágrima” (me lembro até da primeira música…). E vim vindo… Aí, sempre o produtor conversava comigo, o Sarmento… O Sarmento odeia esse tipo de música sertaneja, moderninha, que ele chamou de “sertanojo”, esse termo é dele… [risos]

Tacioli — Foi ele quem deu essa…

Foi, foi… “Não, sertanojo eu não deixo entrar aqui!” A gente discutia: “Quem vai chamar?”. Aí começaram a se aproximar os grandes nomes: Tião Carreiro e Pardinho, Zico e Zeca, Leôncio e Leonel, que cantaram no domingo passado, são os mais antigos dali, tem uma voz ardida, mas bem afinada, né? Aí começou a aparecer… Aí o programa teve uma fase idiota, assim, “vamos modernizar!”…

Tacioli — Quem falou isso?

O produtor da hora lá… Eu falei: “Escuta, modernizar o quê? Uma música que vem dos índios, dos jesuítas? Quer modernizar como?” “Não, vamos chamar umas duplas mais moças…” “Não é questão de idade. Isso que é importante!”.

Fernando — Já que você falou em mudanças, como foi a mudança da música nesse tempo?

Não mudou nada. A raiz não muda…

Fernando — Mas mudam as histórias… Os conflitos continuam os mesmos?

A mesma coisa… Agora, nessa que eles chamam de sertaneja, eles têm liberdade de fazer as letras que quiserem. Eu não gosto, mas tem gente que gosta. Eu acho paupérrima, sempre a mesma letra, sempre o mesmo ritmo. Nós temos milhões de ritmos no Brasil!

Tacioli — Mas como que foi esse desfecho, já que o produtor queria essas novidades no programa?

Ah, não, ele brigava muito comigo. Inclusive um dia nós estávamos lembrando, a Raquel [n.e. Raquel Zorzi, atualmente produtora do programa Vozes do Brasil, da Rádio Eldorado FM] estava junto. Eu saí do palco, acintosamente, porque eles resolveram, eles sabiam que eu não gosto desse negócio de misturar as coisas. E não é questão de idade, de modernismo, nem de nada, é um estilo de música inventado que não tem o pé no chão, é um modismo! E por que não trazer uma música chinesa? É a mesma coisa, não tem nada a ver conosco. Traga uma boa música chinesa! Eu sou meio desaforada… [ri]

Tacioli — Mas, Inezita, qual foi o momento nesses 25 anos que mais se aproximou dessa…

Foi o auge desses meninos…

Tacioli — Mas eles chegaram a se apresentar?

Não…

Tacioli — Mas quem se apresentou ali que fugiu um pouquinho dessa…

Não, ali…

Henrique — O Leandro & Leonardo se apresentou no Viola, minha viola, não?

Apresentou muito mal, você viu que porcaria! [risos] Aquele lá não é desse mundo, hein? Ele botou aquilo lá só de raiva! Vamos mostrar como é que eles eram: tudo humilde, né? Tocando! Quando que eles tocaram violão na vida? Então a gente firmou o pé e falou: “Não, não vamos deixar, eles tem um campo muito maior que o nosso! A mídia apóia, ganha o dinheiro, está tudo milionário. E nós os pobrinhos aqui…”.

Tacioli — O Chitãozinho & Xororó…

Eles cantam muito bem, são de família caipira. O Zé do Rancho, que é um dos maiores violeiros do Brasil, é sogro do Chitãozinho, sabe? Mas a mídia “Você vai ganhar mais! Imagina, você vai ganhar uma porcaria cantando isso!”. Aí, inventaram aquele tremido da voz que não tem nada a ver, que eu chamo de “esquadrilha da maleita” [risos], estão com 42 de febre. [imita o vício vocal dos intérpretes sertanejos] Ai…” [risos] Não, apesar de tudo isso, eles gostam de mim. [risos] Eles não são contra, eles respeitam, eles sabem onde estão pisando…

Tacioli — Mas eles já se apresentaram no Viola…

Chitãozinho e Xororó? Acho que nunca. Eu já cantei em programas com eles na Record e na rádio, mas um tinha 13 anos e o outro 11.

Tacioli — Mas um outro caso…

Eles eram queridos do Zé Betio. O Zé Betio promovia os dois. Eles eram umas gracinhas, tocavam mesmo viola, violão e cantavam bem, aquela vozinha de criança… Aí sumiram um pouco. Daqui a pouco me aparecem como uns cabritos! [risos] Eles são assim com o meu sobrinho querido lá de Itatiba. Falo, “Pergunta por que eles tremem? Não são repentistas nordestisnos, não são cabritos! É o frio?!” [risos] Eles mesmos morrem de rir. Alguém inventou aquilo e vieram quatrocentas duplas cantando igual atrás… Por quê?

Tacioli — E, curiosamente, a ascensão deles foi quando incorporaram isso. “Fio de Cabelo” é de 1979…

Foi… Quando não tremia muito ainda… E eles quebraram também um pouco aquele assunto família do caipira, né? Porque todos daí começaram a colocar as asinhas de fora, cantar música de amor meio pesado, né? Então, ficou ruim. E a gente chiava muito por trás dos bastidores: “ Não chama!”. Umas duas ou três cantoras que chamaram lá também, Nossa Senhora… Então, falei: “Vai depor contra a gente! Tem um campo aberto pra elas, pra eles; a mídia apoiando, dando dinheiro, a gravadora pagando pra eles entrarem nos programas. Mas aqui não vai pagar, não!” Tentaram, viu? Nessa época foi uma ameaça: “Ah, põe fulano e fulana!” “Quem é?” “Ah, a gravadora está promovendo, ela paga!” “Não, aqui não é caixa de coisa nenhuma, pode ir embora. Aqui é na raça e no peito!”. E outra coisa: de entrarem instrumentos assim, como uma banda. O que é uma banda? Pra mim uma banda é uma banda militar! Então falar “banda” ficou bonito porque era moderno, né? Havia no rock, então tinha que ter lá. Havia teclado, baixo elétrico, guitarra e tudo aqui em baixo… “Põe esses negos sentados, manda tocar direitinho…”. [risos] E várias vezes artistas consagrados já levaram isso, e eu não deixei entrar. Por quê? Porque eles estão fazendo cocô no meu trabalho de 70 anos, né? Se eu pegasse essa linha, eu poderia estar trilionária, mas não quero, não vendo a minha arte nem morta. Eu peguei essa trilha caipira e eu vou nela até o fim. Quando quero cantar popular, eu gravo um disco popular. Quando eu quero cantar as modinhas brasileiras, eu gravo um disco de modinha, mas não vou me apresentar dia-e-noite com um estilo que não seja caipira.

Tacioli — Mas, Inezita, você acha que a instrumentação ajuda a definir o estilo?

Muito!

Tacioli — Vou pegar um outro exemplo… Pode-se cantar samba com instrumentos até não percussivos, né?

Exatamente!

Tacioli — Se define o samba pelo ritmo, pela…

Exatamente. O ritmo do samba é muito forte, é uma coisa muito marcada, né?

Tacioli — Mas os estilos de campo permitem isso, de cantar música caipira com guitarra?

De jeito nenhum, de jeito nenhum! Uma vez saiu uma folia de reis com gravador em Minas Gerais. Só faltaram linchar os negos! Gravador, eles dublando, bem alto, porque eles cantam na garganta mesmo, sem microfone, mas dublando… E aquele negócio num volume e o cara carregando o transmissor… Aí, quando o povão viu aquilo! Sabe por quê? Essas danças têm origem católica, jesuítica, é um ensinamento de padre pros índios, dos índios pros caipiras…

Fernando — E eles estavam atrás da música que era um coisa muito presente…

Exatamente. Catequizaram trilhões somente com música. Então, eles amavam música, tinham aptidão pra música. Agora vai esculhambar no século XXI? Que é isso? Cada país desse tamanho, a tradição… Vai lá no Paraguai ver se você entorta a guarania? Nem morto! E aqui é um negócio… Eles pensam que é tudo descartável. Música de raiz não é, não. Ela mora dentro, é de dentro pra fora, não é de fora pra dentro. E essa coisas que estão aí são de fora pra dentro. Eles aprendem, floreiam, fazem outro ritmo, não pode!

Tacioli — Mas e o Daniel?

O Daniel é o único que tem ordem para pôr os pés no Viola [ri], porque ele vai com o pai, toca viola e canta em dueto com o pai.

Tacioli — O pai é o passaporte?

É, não…

Tacioli — Se ele for sozinho…

Mas ele é um amor de pessoa. Ele também é muito amigo desse meu sobrinho de Itatiba, caipirão também…

Tacioli — Quem é o seu sobrinho?

O Marcelo Aranha de Lima, advogado, doido por música de viola…

Henrique — Mas qual é a diferença do Daniel para o resto?

Porque ele sabe cantar o que é raiz. Ele não canta porque ele quer ganhar dinheiro de vez em quando. [ri] Então, deixa o menino ganhar dinheiro… Mas noViola ele não entra com aquela banda, com aquelas dancinhas… Nem morto! “Ô, vai dançar lá no palco! Aqui, não!” [risos] E ele morre de rir. Ele adora a gente. Aí a gente brinca… “Traga a viola, traga o violão!” Logo no começo, ele esteve no Viola com o João Paulo, viola e violão.

Tacioli — Era uma boa dupla?

Nossa! Maravilha! E moços…

Tacioli — Mesmo saltando? Por que eles cantavam e saltavam no palco, né?

Não, nunca, nesse tempo nunca…

Tacioli — No meu palco, não!

No meu eu salto. [risos] No meu palco não tem Lacraia, não! [risos]

Max Eluard — Inezita, houve algum momento de baixa em sua carreira em que você falou “Eu preciso fazer alguma coisa, está ficando difícil…”?

Teve.

Max Eluard — Como foi?

Foi na época da Jovem Guarda e da Bossa Nova. Eu acordava às seis horas da manhã, começava a dar aula de violão e de canto às sete, levantava meia hora pra comer uma coisinha no almoço e ia até meia-noite, todo dia. E com isso eu paguei a PUC pra minha filha.

Max Eluard — Por que viver de gravações, shows e apresentações não dava?

Não, gravar era: “Meu Deus, essa música caipira é antiga!”. Mas o que é antigo? Bar é antigo, chope é antiqüssimo e nós não estamos aqui? [risos] Que é isso? Antigo! Música não é antiga, é boa ou ruim, né? Tem muita música moderna linda, maravilhosa.

Almeida — O Sivuca falou a mesma coisa…

Falou?

Almeida — Tem música boa e música ruim…

Bem tocada e mal tocada. [risos]

Tacioli — Tião Carreiro também falava isso, né?

É, né? Tião Carreiro foi um deus, foi um deus. O pessoal o ama até hoje.

Tacioli — Mas a senhora apontou dois momentos: a Bossa Nova e, posteriormente, a Jovem Guarda…

É, aí deu uma baixa porque as gravadoras não queriam gravar música caipira, imagina! Na hora da Jovem Guarda era tudo muito… Eu sou agradecida a Papai do Céu, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, porque pude ganhar dinheiro com a música deles. E era assim… Dava aula de violão… Um menininho de oito anos queria aprender aquelas coisas [canta] “A namoradinha de um amigo meu”… Era a primeira, segunda, primeira, segunda… E em três aulas o bichinho já estava tocando tudo! [risos] Aí a mãe chegava: “Mas a senhora é um fenômeno!” “Não, seu filho que é!” [risos] Agradeço a Deus, me fez pagar a PUC, a faculdade inteira, né? [risos]

Henrique — Inezita, dava uma amargura por ter que ensinar a música deles e não outra?

Não, não dava, não, porque era uma criançada que estava na hora, na vez de Roberto Carlos, Erasmo, Wanderléa. Eles queriam tocar aquilo. Quando descobriram que era fácil e que era muito chato tocar uma música no violão como “Luar do sertão”, essas coisas, eles queriam aquilo. Aí iam pra escola tocar e todo mundo aplaudia. Eu tenho até gravação em fita de audição desses aluninhos que agora são médico, advogado, engenheiro… [risos]

Almeida — Não teve nenhum que virou músico? Ou continuou…

Não, quem enveredou, mas não é desse tempo, e sim antes, foi a Eva Vilma. Ela foi minha aluna, e é muito bacana, porque toda entrevista que ela dá, ela fala: “Eu aprendi com a Inezita! Depois na época da bossa nova, eu aprendi um pouco com o Toquinho…” Essa é bacana, ela é uma atriz, né? Fantástica! Ela tinha quinze anos, uma voz muito afinadinha, bonitinha. Toda vez ela agradece, fala de mim.

Tacioli — Nesse tempo a senhora cantava “Calhambeque”?

Tinha que ensinar, tinha que conhecer, né? Aí veio Gilberto Gil com aquele no “Domingo no parque”. Todos queriam cantar o “Domingo no parque”. Veio Chico Buarque, aí já ficou mais difícil, porque já é mais elaborado, somente um aluno que já toca mesmo e já sabe cantar, porque essas coisinhas repetidas qualquer criança adora cantar porque é fácil! Chico, Tom Jobim… aí começou a apertar, mas eram os bons alunos que queriam continuar e tocar… É gozado isso. Às vezes eu fico pensando… Agora vocês me fizeram voltar a pensar nessa coisa… Enquanto isso a música caipira estava desprestigiada, o caipira estava desprestigiado… E eu dou aula em faculdade há 24 anos. Os primeiros alunos que eu peguei eram terríveis: “Ah, folclore?! Ah, a senhora fala em folia de reis, blá, blá, blá…” Aí eu pegava tudo, alugava um microônibus, enfiava todos dentro e levava pra Mogi da Cruzes na Festa do Divino. “Vai cair na prova! Quero uma pesquisa de vocês…”. Não havia ainda computador, graças a Deus, né? “Eu quero pesquisa de vocês, trabalho individual…” Aí eles começaram a crescer. Hoje em dia tem uma que é secretária de cultura no Espirito Santo, uma ex-aluna que é professora de um negócio importantíssimo na Bahia, tem um aluno que montou uma loja de passagens aéreas, porque o meu curso é de turismo, né? Ele me agradece todos os anos, me escreve cartão de Natal. Ele está trilionário.

Fernando — E como está o espaço para a música caipira na TV?

Bem, graças a Deus, está bem, está muito mais aberta, muito mais. Eu só lamento que tem muitos programas que começam e duram dois, três meses. Por que? Porque eles misturam alhos com bugalhos. Porque não tem um diretor, um produtor que entende como aquele louco que está sentado lá [aponta para o Rivaldo Corulli], que é caipira de Botucatu, que diga assim: “Isso não é música raiz. Isso não é, isso aqui é sem valor, essa poesia é uma droga. Você mudou o ritmo da música”. Não tem. E é assim de gente querendo entrar. E agora eles acham que “Puxa, fez sucesso o Viola, hein? Então vamos fazer um programa caipira igual ao dela!”. O primeiro programa é lindo. Aí vão as Irmãs Galvão, Liu e Léo [ri], Zico e Zeca, Daniel às vezes. E aí vai… Lá pelo quarto programa é Bruno & Marrone misturado com Irmãs Galvão, Rio Negro & Solimões misturado com Zezé de Camargo & Luciano e um violeiro maravilhoso… Falei: “Gente, não é por aí. Vocês vão cair sentados!”. E não dá outra…

Henrique — Fica sem cara.

Fica sem cara.

Tacioli — O Chitãozinho tem um programa de TV, não sei se continua ainda…

Acho que continua. Sei que é um negócio que não é nem da Record, é de uma produtora extra, né? Misturado também. Agora é muito engraçado, porque você fala: “Vamos fazer um cenário com fogão a lenha, uma cozinha da fazenda, vamos fazer?” Aí a Cultura se entusiasma: “Então vamos!”. E aí faz a maquete pra gente ver. “Puxa, está lindo. Vou fazer uma roda de violeiro. Aí vem a estréia do Sérgio Reis na Record!” “Ah, vamos ver essa estréia…”. Aí ligo e… fogão de lenha no meio da cozinha [risos], os negos vão lá de orelha! “Ela vai fazer, faz antes!” Mas a cabeça está cheia de idéias, né? É pra isso que a gente pensa… Eu já tenho mais 400 idéias só que agora eu não abro o bico. [ri] Somente com o cenógrafo! [ri]

Henrique — Você tem projetos, Inezita?

Tenho.

Henrique — Você pode falar ou você acha que a concorrência vai roubar sua idéia?

Não, não chega lá. A concorrência mistura, meu Deus; às vezes precisam estudar um pouco, saber a divisória, são dois trecos paralelos, não vão se encontrar nunca. E essa conversa de dizer que essa música “sertanojo” veio da nossa, daí somente matando, não tem nada a ver. Não tem um ponto de ligação… Começa que não tem viola, é banda. Começa que as roupas, chapéu de cowboy, não-sei-o-quê, não-sei-o-quê pegou, né? Mas não justifica, poxa!

Max Eluard — Inezita, mudando um pouco de assunto… Você gosta muito da cidade de São Paulo, né?

Amo de paixão!

Max Eluard — É engraçado porque há uma idiossincrasia com a música do campo que foge a cidade de São Paulo, né?

Nem quero falar nesse assunto porque envolve muita gente importante que não merece a gente lembrar porque já morreu. [risos] Gente de muito crânio, gente muito importante. A primeira coisa que eu falo quando dou a primeira aula: “Caipira não é mendigo, tá bom? Esse é o meu lema, vamos escrever aí…” E daí eu começo. Porque aquela criancinha, figurinha na festa de São João, chapéu tudo esfiapado, sem dente, pinta de preto, banguela; agora ainda existe chapéu de cowboy pra criança, né? Quando não existia, era aquele chapelão de gente grande, dava um pulo, aquilo vinha até aqui… [risos] Enchia de jornal dentro… Ridículo! Ou então esfiapado, o dente preto, a calça remendada… E jeans, jeans remendado… Pelo amor de Deus, é muita ofensa pra mim! É duro de tirar da cabeça… Não é de criança, é da cidade inteira. Cidades do interior que queriam ver caipira de longe. Se eu disser: “Você é caipira!”. “Eu não!” “Você não é do interior?” “Ah, mas eu não sou caipira!”. Então ficou uma coisa feia…

Fernando — Que surgiu da organização do Brasil, essa negação do campo e a vocação da cidade, não?

É, mas depois houve outros fatos… Mas sempre calcado em dinheiro. Isso é triste. E daí a gente quer tirar essa imagem. Sempre que dou palestra pra professor, falo: “Não pinte o dentinho das crianças! Tem dentistas bárbaros no interior. Isso aí é coisa boba, não fica nessa aí!”.

Tacioli — Mas o caipira está em extinção com essa urbanização?

O caipira vive dentro, dentro do coração da pessoa. Tem caipira com cem anos, tem caipira com quinze, tem caipira com dez. É um modo de ser, uma tradição guardada a sete chaves que ele não mostra por causa dessa depreciação do caipira.

Fernando — E o que é, Inezita, ser caipira?

Ah, é uma criatura fora do normal, é a criatura melhor que existe no Brasil!

Fernando — Pela natureza, pela…

Ele é bom, ele é ligado à família, estupidamente ligado à família. Se precisar ele morre por um filho. Ele é trabalhador, não é avarento, não quer “grandes dinheiros”, não faz tramóia. É raro você ver o nome de um caipira legítimo enrolado nessas tramóias. Então, é uma coisa pura. Quando ele não gosta ele não briga, ele vira as costas e vai embora…

Tacioli — Mas a senhora acha isso bom? Assim, “não gosta de uma coisa, concorda com aquilo e vira as costas”?

Não é bem concorda, ele não quer brigar, ele não gosta de brigar…

Henrique — Mas você acha positiva essa passividade?

Acho. Melhor do que isso que está aí, quando se fala: “A vaca do meu amigo…”; “Vaca é a sua mãe!” E já mata, dá dez tiros na boca… Pra quê isso?

Fernando — Não é uma passividade, é uma…

É malícia. Tem letras com duplo sentido, mas isso não tem na música paulista, caipira. Isso foi inventado por gente que veio depois, palhaço de circo, tanto que, quando um Barnabé vai no programa, a gente tem que: “Essa não!”, “Ah, mas essa é mansa…”, “Não, não é mansa, não. Essa você não vai contar, corta!”…

Tacioli — Mas o Alvarenga e Ranchinho, o Jararaca e Ratinho, eles não cantavam essas letras maliciosas?

Cantavam, cantavam muito, muito. Mas não é bem de Alvarenga e Ranchinho, que eram mineiros, né? Isso é muito nordestino, é uma provocação de repentista nordestino. Tem uns desafios mineiros completamente diferentes do nosso. O nosso é o cururu, que é religioso. Quem sabia mais vida de santo ganhava o cururu. Você canta duas horas e está lá: “Porque Santa Catarina…”; e vai, e vai, e vai, porque é sabedoria. Aí veio a desgarrada portuguesa, que é um desafio que acaba em morte e pegou em Minas e no Nordeste, que é aquele de quadrinha, né? “Eu não vou, eu vou na sua casa…”; “Eu vou na sua casa…”; não sei, como era? “Sentado no cachorro do seu pai, a sua irmã, a cachorra da sua irmã…”; já tem e vai esquentando e vai esquentando. Agora, falou em mãe dá morte. Mãe dá morte!

Henrique — Inezita, há um bom trabalho de pesquisa instrumental?
Inezita — Tem.

Henrique — Isso também contribui com um novo aprendizado da viola…

Claro. Roberto é sensacional. Pereira da Viola, o (Ivan) Vilela. Tem muito violeiro bom, muito violeiro. O Braz da Viola…

Henrique — Dá um outro fôlego, né?

Dá, só que eles não saem, eles nunca vão tocar uma música sertaneja no Viola que, aliás, não é um termo nosso. Foi inventado para tirar aquele ranço de chamar de caipira. Houve uma época em que o locutor não dizia: “Nós vamos transmitir um programa caipira!”. Seria um lixo, ninguém ouviria nada. Então aproveitaram que o Luiz Gonzaga era sertanejo… Sertanejo é uma condição geográfica, é um local do país, é um tipo de gente com seus costumes, suas tradições. Então ele era um sertanejo e falou: “No sertão da minha terra, o sertão tem seca…”, né? Agora aqui você nunca ouviu dizer: “Eu vou pro sertão de Limeira, eu vou pro sertão do Jabaquara…” Quando tem é uma coisa mais nova, é coisa muito importante.

Henrique — Há duas semanas, eu não me lembro exatamente se foi no dia do seu aniversário, mas eu a vi no Bar do Alemão…

Ah, é, fui com o Pelão. Ele não sai de lá.

Henrique — Não somente na história de São Paulo, mas os bares foram um ótimo lugar ambiente de encontro, né?

É. Mas morreu…

Henrique — Você acha que isso mudou muito assim?

Mudou, mudou muito, muito, muito. Haviam choperias, no tempo dos estudantes de Direito, onde se cantava em coro em mesa, como na Europa, Alemanha e França, né? Isso aí acabou. Havia um restaurante muito bom que era o Parreirinha, em São Paulo, onde a gente se reunia. Todo carioca, nordestino, gaúcho, que vinha fazer um show em São Paulo ia jantar no Parreirinha depois. Naquilo ali juntava uma raça de gente tão bacana — publicitários, cantores, atores, gente de teatro — e o pessoal que ia pra lá pra ver essas figuras. Era muito bom…

Tacioli — Parreirinha fechou faz pouco tempo, Inezita?

É, há uns dois anos.

Almeida — Você tinha uma mesa lá, né?

Tinha, está lá em casa… [risos] Cadeira especial, está tudo lá em casa…

Tacioli — Inezita, a senhora chegou a frequentar o bar Jogral?

Cheguei… O Jogral é um dos culpados pela volta da boa música popular brasileira. Foi um marco divisório maravilhoso, porque foi justo nessa época do nhém, nhém, nhém, tudo igual, né? Música pra criança praticamente. O Roberto Carlos depois cresceu e resolveu cantar coisas de mais conteúdo, por isso que ele ainda está aí, né? Quando sumiram, arrastaram pra baixo, porque o Jogral era um ponto de encontro de grandes compositores, grandes regionais, músicos. Era Carrasqueira e daí pra cima. E todo músico bom que vinha de fora ia bater lá. Você não conseguia nem sentar de tanta gente. E essas coisas são engraçadas porque depois que o Paraná morreu, ficou na mão de outra gente e era um lugar bem amplo aqui na Consolação…

Tacioli — Você lembra quando o Paraná morreu? Como foi…

Era assim, “Ai, é um horror, é um inferno. Não tem ar condicionado! Os banquinhos que não têm encosto!”. Mas lá era o quente, era lá que você ia ver o Adauto Santos, ia ver um monte de gente bárbara. E aí mudou pra cá e perdeu a graça. Ficou esparramado o pessoal nas mesas, sentadinho em sofá… A gente sentava no chão… Quando a coisa é boa, quando mistura teatro, cinema, música, uma coisa chama a outra e se entrelaça. Agora, o que sobrou disso é uma coisa odiosa e eu não gosto. No dia que botarem música aqui [na Pizzaria Lenharetto], eu não atravesso mais a rua, porque acho que restaurante é pra comer. O Parreirinha tinha uma música desse tamaninho de fita, suave… E aí quando alguém queria cantar e a gente juntava cinco, seis loucos lá: “Então vamos cantar!” e aí desligava aquilo e “Vamos cantar!”. Eu gosto muito de comida brasileira. Aí fui num, ou melhor, íamos com um amigo nosso que é compositor e cantor, o Durval Solto. Ele é do interior da Bahia, já gravou alguns discos, mas agora ele se mudou de São Paulo, está morando lá no Vale do Ribeira, está trabalhando com teatro, bonecos e teatro pra criança. Mudou um pouquinho a profissão. Mas quando ele pisa em São Paulo, fala: “Vamos comer uma carne de sol?”. “Vamos embora!” E tinha um restaurante bárbaro perto da cadeia do Carandiru, na Avenida Cruzeiro do Sul. Era lindo! Artesanato nordestino. Uma musiquinha gostosa, até uns cantores que você nunca tinha ouvido falar, em fita. Aquilo era delicioso. Daí começaram a vir tocar na mesa, e eu morro de dó, sou incapaz de comer enquanto a criatura está na minha frente cantando. Tem gente que está conversando, deixa o infeliz lá em pé… “Não pode, é muita falta de respeito!”. Aí vinha na mesa, e aquela história de pôr dinheiro dentro do violão, dá muita, muita aflição. E falei: “Não venho mais!”; “Não, vamos lá…” Passamos um tempão sem ir. E o cara é amigo desse baiano, daí fomos lá uma vez, agora, recentemente, e o cara arrumou uma banda, tem duas sanfonas com plugue, dois violões com plugue, viola, guitarra, baixo e uma zabumba do tamanho dessa mesa. Aí quando cheguei lá com ele, ele olhou pra minha cara… e falei, “Acho que nós não vamos ficar aqui!”. Aí o dono da casa: “A Inezita está aí, a Inezita está aí…”

Fernando — Vamos mostrar uma música pra ela…

E a zabumba na minha orelha! [risos] Ficou feio, viu, nunca mais fomos. Que judiação, a comida uma delícia, um ambiente gostoso, bem freqüentado, mas não dá mais. Não mistura, são coisas que não casam…

Tacioli — E hoje há algum espaço que lembra o astral do Jogral, do Parreirinha?

Acho que não, porque eles estão misturando também, é muito rock e pouca música brasileira. Tem um que ainda é bom, mas é que a gente não pode ir muito porque é muito caro. [risos] Eu não trabalho na Globo, né? Então, na frente da Família Mancini, é a coisa mais fina do mundo pra você levar um estrangeiro, um francês, um americano. É do filho, chama-se Walter Mancini. Tudo em cristal, uma uma comida maravilhosa, e tem um conjunto que toca de tudo, desde música de câmara até música popular brasileira. Mas é tudo super baixo, discreto, sabe? É tudo na surdina. Não tem aquelas coisas de gritar, de berrar. É muito bom. Fico esperando meus amigos me convidarem [risos] pelo menos duas vezes por ano, porque é muito caro. Merece porque é uma coisa muito fina. É pra estrangeiro mesmo. Mas o conjunto tem músicos famosos. Daí eles vêm: “O que você quer ouvir?”. Tem um flautista maravilhoso… O conjunto tem metal, aquela surdina que somente o Araken, irmão do Cauby, sabia tocar…

Gafieiras — Inezita, o que você tem ouvido?

Ah, ultimamente, como eu ando muito nervosa, muito estressada [risos], estou ouvindo aqueles discos com sons de água. [risos] Aquilo é bom, gente! Amansa pra chuchu. Tenho que ter secretária eletrônica, porque se eu pegar o telefone: “Ah, escrevi uma moda pra senhora: [canta] lá, lá, lá, lá…”. Você não vai desligar, né? O nego canta no telefone. E fico ali. Bom, aí fui numa loja homeopática, que tem remédios naturais e encontrei esses disquinhos… Os CDs são maravilhosos…

Gafieiras — O que te estressa? O que te deixa fora do prumo?

Não poder cumprir. Eu tenho um lema que foi meu pai quem carimbou na minha cara e na do meu irmão: “Cumprir, sempre!”. Então, se você promete e não faz, eu morro, eu morro…

Gafieiras — Mas cumprir é… É realizar esses quatrocentos projetos que você tem? Essas suas idéias?

Tudo isso, tudo isso, tudo isso. Se eu estiver cantando aqui… “Pô, estou em falta com a faculdade. Pô, eu não pedi o projetor, faltou botar aquele carretel, prometi aos meninos…”; aí vai. Começa…

Gafieiras — É falta de tempo?

Eu levanto às quatro horas da manhã quando eu lembro dessas coisas e vou lá, né? Escrevo, deixo tudo pronto. Aí eu durmo até às oito…

Gafieiras — Mas o caipira é assim, Inezita? Ele fica preocupado?

Fica, fica, conheço bem… [risos] É verdade…

Gafieiras — Imagino…

A gente tem muito essa coisa do patrão… Eu já perdi bastante, mas ainda tenho essa coisa da hierarquia, uma palavra que incomoda muito. Sou incapaz de dizer: “Eu preciso falar com o presidente!” Subir a escada e ir lá falar: “Eu preciso falar com o presidente da Cultura”. Eu tenho isso. Estou com 80 anos, pô, e não perco isso, que me preocupa muito. O caipira tem isso. Se o fazendeiro disser: “Olha, amanhã você vai limpar o pasto lá, vai até pra lá da cerca…” não-sei-o-quê, não-sei-o-quê lá, o nego vai, acorda às duas, três da manhã e vai lá cumprir. E faz tudo. É engraçado isso. Acho que fica na raça da gente, como qualquer coisa; meu irmão é igual.

Gafieiras — Seu irmão é mais velho ou mais novo?

Mais novo um ano e meio… A gente se dá muito bem, mas ele é completamente diferente, o gênio, tudo, completamente diferente. Engenheiro… [risos] Agora que ele está indo assistir as minhas coisas…

Gafieiras — Somente agora?

Agora, porque ele está com setenta e tantos anos também, né?

Gafieiras — Ele não gosta?

Não é que ele não goste, não. Ele casou com uma moça do interior, mas que era contra caipira. [risos] E eu tenho um sobrinho que desafiou a família inteira. Ele é caipira desde que nasceu, tinha dois anos de idade e já era caipira. Ele ia para a fazenda…

Gafieiras — Filho do seu irmão?

Filho dele. E o outro é um grande psiquiatra. Estudou muito, muito, muito. É um crânio…

Gafieiras — São somente dois?

São só dois. E sempre debocharam do caipira, né? Aí meu irmão dizia: “Você fez um cursinho de merda no Mackenzie. Isso é cursinho de vagabundo!”; e ele quieto, quieto. Aquela paixão por fazenda, viola… Ele é amigo do Daniel. E meu irmão, “Você só sai de noite, você não faz nada, é vagabundo. Sai à noite e chega tarde!”. E um belo dia, ele chegou pro meu irmão e falou: “Pai, vim trazer pra você o meu convite de formatura!”; quase matou o meu irmão. “Está aqui o convite, né? Você vai com a mamãe, minha avó, minha tia, todo mundo!”. Ele fez o curso inteiro só pra ter um diploma de advogado. [risos] O meu irmão valorizou, claro, quase matou o pessoal. Aí pegou o diploma, advogou três meses, aquelas questões de terra, e falou: “Ah, não dá!”. Aí, começou a criar cavalo, fazer não-sei-o-quê-lá. Ele é muito gozado, mas a opinião de criança, como quem diz:” Eu não sou vagabundo! Fiz esses cursos rurais aí, porque eu gostava! Então você quer um diploma na parede? Está aqui!”. [risos]

Gafieiras — Você nunca pensou em se mudar de São Paulo e ir morar na fazenda?

Não. Eu passei um ano no litoral, na praia que eu amo também, né?

Gafieiras — Passou um ano?

Passei, porque eu estava muito cansada. Foi nesse tempo que eu larguei a televisão. Fiquei somente com o teatro, disco e tal. Morei um ano lá mas não agüentei. Voltei voando, não dá, não dá… O microbinho pegou e vai até o fim…

Gafieiras — Você sente falta?

Sentia muita falta…

Gafieiras — A gente está conversando há mais de duas horas e estamos pra encerrar a entrevista. Alguém tem mais alguma pergunta?
Gafieiras — Eu tenho.

Pode perguntar…

Gafieiras — Me diz só uma coisa, como é seu cotidiano, além de todos esses outros projetos?

Não, desde que eu me atirei de cabeça no Viola, que eu vi que valia a pena, desde que eu amo dar aula em faculdade, amo esses alunos todos, não vivo mais a minha vida, né? Eu vivia mais folgada. Ia pra praia muito, todo final de semana, ia ao clube. Hoje eu não consigo ir nadar no clube. Eu estou verde, amarela, não tomo sol mais, porque é sempre a tal história do cumprir. “Ah, vou pro Paulistano!”… E arruma aquela mala, maiô, não-sei-o-quê, toalha… O meu irmão é sócio de lá também. “Você passa aqui pra me pegar?”; “Passo! Vamos tomar um sol porque você está desbotada…” Aí lá vou eu. Aí tem um papel em cima da escrivaninha com “assunto tal, assunto tal”. E falei pro meu irmão: “Ih, vai na frente que depois eu te encontro”. E acabo não indo. Aí ele liga de lá: “Você tem que sair, vamos almoçar!” Aí eu vou almoçar e volto pra fazer aquilo que eu ainda não havia feito. Porque tenho que entregar na segunda-feira, porque tenho que bolar coisas, escrever coisas… É muita coisa, é muita coisa…

Gafieiras — Só mais uma questão. Com as comemorações de aniversário de 80 anos, do sucesso do Viola, hoje você se sente totalmente prestigiada e vê a música caipira reconhecida como ela deveria ser?

Vejo, vejo, mas é um cristalzinho, você não pode largar até [risos], sabe? A primeira fresta que você der, pode arrebentar tudo.

Gafieiras — E quando você não conseguir mais segurar tudo, você tem alguém, sabe de alguém que pode segurar essa bronca?

Não tem mais ninguém louco no mundo, já pára com 40, 50 anos… Desiste…

Gafieiras — Mas figuras como o Rolando Boldrin…

É, ele tem somente um mau gênio. Rolando Boldrin poderia fazer um trabalho muito sério, não sei porque, acho que é o jeitão dele, né? Largou aquele programa tão bom que tinha, não dá, não sei o que ele tem… É o gênio da pessoa. Ou ele ficou desencantado com alguma coisa, e aí a gente não pode entrar na vida do outro pra saber o que é e nem perguntar. Eu estou seguindo a minha trilha, vou até onde der…

Gafieiras — Nessa época do Som Brasil, o Viola, Minha Viola também estava na ativa…

Ao mesmo tempo…

Gafieiras — Então, como era, o público se dividia?

Não, porque ele sempre fez muita música nordestina…

Rivaldo — Vou interferir… Você merece um bom uísque…

Você está querendo me embebedar? Que duplinha moderna você está querendo colocar no programa? [risos] Ai, brincadeira, eu amo esse cara! Essa pessoa caiu do céu pra trabalhar comigo…

Rivaldo — [canta] “Inezita, minha pepita”…

E, meu Deus, já vai começar! Sabe o que é isso? É o Pescuma, um artista de Mato Grosso que fez uma música pra mim e cantou no programa, e ele aprendeu somente esse pedaço. [risos] Aí ele canta o dia inteiro… [risos]

Rivaldo — Faz quatro anos que o Pescuma fez uma música muito linda, [canta] “Inezita, minha pepita…”. Eu canto pra ela todo dia… [risos]

É, só podia ser esse cara o diretor do Viola… A gente briga, discute, nunca porque ele quer pôr porcaria no programa, são assuntos variados, mas no fim a gente concorda. Se você não trabalhar assim, não sai nada…

Rivaldo — Estou um pouquinho preocupado por conta do amor dela, por conta do seu trabalho, mais de 50 anos de carreira, sua garra, sua pesquisa, sua luta… E se eu for interferir nesse momento nós vamos ficar até de madrugada e vocês também. Então, vamos botar essa mulher pra comer uma pizza [risos], uma polentinha… Vocês estão aí conversando com um bom uísque, não é?

Não, outro dia eu fui ao Gigeto. Sentei. “A senhora está esperando alguém?” “Não”. “Não vem o diretor da senhora, né?” “Não, não se assuste, não tem que fechar as quatro da manhã!” Tem assunto até o amanhecer, impressionante! E a gente está sempre em comunicação, né? “Lembra daquilo?”; “É mesmo, não cuidei daquilo…”; e vai, vai, vai…

Rivaldo — É muito maravilhoso…

É porque você é caipira mesmo…

Gafieiras — Mas ele não convida a senhora para ir ao Paulistano?

Não, ele já foi comigo uma vez, foi bonito, um espetáculo muito lindo…

Rivaldo — Somos amigos, companheiros, é uma coisa muito bonita, é uma…

A gente não tem tempo de viver normalmente como os outros, né? Então é assim, o programa Viola ninguém sabe a que horas acaba, nunca! Ou é às sete, às oito, ou à meia-noite, né? A gente sai de lá com o estômago grudado nas costas. “Vamos comer uma pizza?” É difícil em São Paulo agora, uma coisa aberta até meia-noite. Então não dá, vai pra casa com fome, me dá um ódio… Quando você entra antes no restaurante, aí eles não fecham. [risos] Aí a gente come, conversa da caipirada de Botucatu…

Rivaldo — De todos os lugares…

Gafieiras — Você quer pedir alguma coisa, Inezita?

Rivaldo — Só um brequinho pra gente continuar aqui…

Vamos pedir aquela pizza cortada, porque eu não posso cortar…

Rivaldo — É uma coisa assim, eu acho que alguém…

Acho que depois de amanhã já vou conseguir cortar… [risos]

Gafieiras — O que aconteceu na mão? Quebrou?

Quebrei o pulso.

Gafieiras — Quebrou?

Na classe, olha que vexame!

Gafieiras — Mas caiu?

Cai da carteira do aluno, ele quis ser gentil comigo: “ A senhora já está dando aula de pé há algum tempo…”. “Mas eu gosto de dar aula em pé. Não sei sentar… Vocês começam a conversar, me irrita!”. “Não vai cansar? Senta na minha carteira!”; tirou uns livrinhos assim, e quando apoiei naquele bracinho amaldiçoado, veio tudo a baixo… E eu cai com a mão virada pra trás, né? Pra apoiar somente nessa mão, é livro, é caderno, é tudo em cima de mim. Eu deitadona no meio da classe, coitados…

Gafieiras — O aluno foi reprovado! [risos]

Não, coitado, eles até choraram. As meninas: “Não bateu a cabeça?” “Não, é dura, não quebra!” “Ai, a senhora ainda está brincando!”. Me carregaram para o hospital que fica atrás da faculdade, me levaram para o Santa Cruz. Aí chegamos lá. Era um japonês. “Vamos tirar radiografia!” E os alunos todos esperando a radiografia na porta. Não agüentei. “Vão embora, meu Deus, que coisa de criança!”. Aí vem ele: “Quebrou mesmo, quebrou mesmo!” Eles ficaram todos espantados. E na outra semana fui dar aula. “A senhora veio dar aula com gesso e tudo?” “Lógico, eu quebrei aqui, não foi perna, não foi nada!” Eu morro de rir com eles. São muito bacanas. Quando cai, eles apareceram com tudo: gelo no plástico, esfregavam o gelo no braço. “Ih, está inchando!” Eles se preocupam comigo nas duas faculdades. É muito gostoso. Amo dar aula!

Gafieiras — Obrigado pela entrevista…

Obrigada vocês…

[…]

Pede uma pizza daquela cortadinha…