LENINE [2012]

Sua música híbrida, urbana e litorânea condensa rock setentista e mpb.

editor do gafieiras
Apr 21 · 60 min read
Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Ele tinha o hábito de colecionar, de compilar objetos. Tudo com seriedade de investigador. Também colecionou revezes. A maioria quando assumiu a vida artística no Rio de Janeiro na década de 1970. Coleção que começou a se desfazer depois de lançar seu segundo disco de carreira, Olho de peixe, em 1993, com o percussionista carioca Marcos Suzano. O álbum lhe garantiu cartaz, shows dentro e fora do Brasil e recarregou suas baterias. Mas para chegar até aí suou a camisa: dividiu moradia com “pessoas que também estavam procurando se expressar”, como o parceiro Bráulio Tavares, participou de um festival da TV Globo (MPB 81), integrou uma banda pop juvenil, atuou e roteirizou episódios d’Os Trapalhões e estreou em disco com o amigo conterrâneo Lula Queiroga no longíquo 1983: Baque solto, hoje item de colecionador.

Recifense nascido em fevereiro de 1959, Oswaldo Lenine Macedo Pimentel é baterista de origem, fã de quadrinhos e de ficção científica. Vocalista de suas criações, fez de seu violão um instrumento percussivo e de primeiro plano. Sua música urbana e litorânea condensa rock setentista, mpb e brisas do funk clássico, do baião e do hip hop. Led Zeppelin, Stevie Wonder, Miles Davis, Clube da Esquina, King Crimson, Jackson do Pandeiro. Algumas de suas referências. Esse estilo híbrido começou a ganhar corpo, espaço e fãs no citado início dos anos 1990. Os álbuns posteriores — O dia em que faremos contato (1997), Na pressão (1999) e Falange canibal (2002) — garantiram a visibilidade e o crédito que qualquer artista busca. Acumulou prêmios, shows internacionais, fez trilhas para novelas e espetáculos de dança e lançou outros discos.

A entrevista a seguir tem quase duas horas. Foi realizada em agosto de 2012 no Espaço da Revista Cult, em Pinheiros, São Paulo. Era tarde de segunda-feira. Lenine estava em meio à turnê de divulgação de seu álbum Chão (2011). De praxe, a entrevista não se fixou na novidade já tão exposta naquele período; procurou outros temas que rondam o músico. De todos, nenhum estranho ao seu paladar: infância, socialismo paterno, processo de criação, relação com o tempo e paixões subterrâneas à música. Uma delas é a sua conhecida atração pela cultura de orquídeas. E como uma coisa puxa a outra, foi esta que revelou seu lado colecionador. Para Lenine, o ato de colecionar é arterial, atravessa todas suas manufaturas. Assim, não é para causar estranhamento as primeiras partes da entrevista. Ali estão outras de suas pegadas.

Para compor a equipe foram convidados Edson Natale, músico, produtor e gestor cultural, Giovanni Cirino, músico e professor, além do fotógrafo Jefferson Dias e de Manoela Ziggiatti, responsável pelo registro audiovisual. Do outro lado, completaram a lista a assessora de imprensa Adriana Rielo, o empresário KK Mamoni e Anna Barroso, esposa de Lenine.


{…} expediente

entrevistadores Edson Natale, Giovanni Cirino, Manoela Ziggiatti, Max Eluard e Ricardo Tacioli produção, edição de texto e texto de abertura Ricardo Tacioli fotos Jefferson Dias transcrição Marllon Chaves registro audiovisual Manoela Ziggiatti agradecimentos Adriana Rielo, Espaço Revista Cult, Paula Gomes e KK Manomi

Entrevista realizada em São Paulo/SP em 6 de agosto de 2012.




MAX ELUARD | Chegou, chegou, chegou. (…) Vai lá, Tacioli. (…)

KK Mamoni (empresário de Lenine) — Boa tarde, boa tarde. Edson Natale — E aí, como está? KK Mamoni — Quanto tempo! Giovanni Cirino — E ainda por cima aqui tem umas orquídeas… Max Eluard — Vamos perguntar… Lenine — Onde é que eu vou? Max Eluard — Ali, Lenine. Lenine — Aqui mesmo, é? Eu pago a conta? A conta é minha… Garçonete — Açúcar ou adoçante. Lenine — Adoçante. [Lenine prepara o chá e a equipe testa o microfone do entrevistado] Lenine — Hoje eu achei que a fazer frio danado. São Paulo é uma loucura: amanheceu frio… Acordei umas oito e pouco, estava frio. Max Eluard — Ontem à noite parecia que ia virar de novo. Lenine — Tinha tudo pra dar aquela… Max Eluard — Em São Paulo a gente consegue ter as quatro estações do ano num único dia, né? Lenine — Aprendi isso muito cedo. Quando venho pra São Paulo, trago três mudas de roupa pra climas diferentes: ou verão, ou inverno chuvoso ou inverno, inverno. Max Eluard — Ou inverno seco. Lenine — É… [risos] Tá sempre preparado. Ricardo Tacioli — Lenine, sempre faço o prefácio (da entrevista), a abertura da conversa, explicando o que é o Gafieiras… Lenine — Tá bom… Tacioli — O Gafieiras é um site de longas entrevistas de música brasileira. Em novembro completa 11 anos… [a entrevista foi realizada em 6 de agosto de 2012] Lenine — Cacete, que bacana! Tacioli — As entrevistas sempre têm duas horas de duração e uma condução transversal: fala-se de diversos momentos do artista, estimulando uma reflexão sobre a vida e obra. Lenine — Tá. Max Eluard — Outra coisa importante falar é que a gente tenta levar para o texto da entrevista editada esse clima da conversa… Lenine — Sei. Max Eluard — A gente costuma dizer que a edição da entrevista é a própria conversa. Lenine — Ah, então tá bom, tá bom. Tacioli — Tem assuntos proibidos? Lenine — Não. Tacioli — A gente pode começar por eles também. [risos] Lenine — Pode, pode. Max Eluard — Lenine, tá dando uma interferência (no áudio). Lenine — E agora? Se eu colocar aqui, veja se melhora… Max Eluard — Estabilizou. Lenine — (…) Tá bom! Quando quiserem. Tacioli — Então, vamos lá.

Max Eluard — Qual é o nome científico daquela ali [apontado para uma orquídea do jardim do Espaço Revista Cult]? [ri] Lenine — Essa aí é uma Faleanópolis, mas é hibrida, misturada… Ela é mais fácil de hibridar… Eu posso falar disso? [ri] Max Eluard — Pode, claro! Lenine — [rindo] Porque quem está do meu lado não aguenta mais… Eu tenho umas quatro horas? [risos] Ninguém aguenta mais. Isso é um universo… Tacioli — A gente tem uma revista sobre orquídeas… [risos] Lenine — Tem editor? [risos] Essa eu encaro. É um universo muito inebriante. Ela é uma Faleanópolis, uma planta que não é daqui do Brasil, é do Oceano Índico, mas ela tem um metabolismo muito rápido e é fácil de hibridar. Neguinho gosta de brincar de Deus, porque isso é um bando de Frankenstein, né? Eu não gosto, não. Tacioli — Você brinca também de Deus? Lenine — Não! Engraçado que na história das orquídeas o que me fascinou foi — antes da gente começar a gravar, você falou de amplitude — justamente é o que mais me fascina nas orquídeas, essa diversidade. Pra você ter uma ideia, só no Brasil são duas mil e seiscentas (espécies) catalogadas, mais ou menos. A cada ano descobrem entre quarenta e oitenta novas espécies. Natale — Você chegou a conversar com o Itamar Assumpção a respeito de orquídeas? Lenine — Sim, visitei Itamar, eu vi as orquideazinhas dele. Natale — Olha que legal… Lenine — E a gente tinha isso em comum. É um universo muito inebriante, muito fascinante. São memórias vivas. Eu fui mapeando… Tenho desde o Falange canibal [n.e. Disco lançado em 2002] todas as turnês em forma de planta. Porque a cada lugar que eu vou, faço antes uma pesquisa, um endemismo; eu gosto da coisa endêmica. E elas têm uma peculiaridade: têm plantas que só ocorrem ali naquele quilômetro quadrado. Saiu dali não existe em canto nenhum. E cada uma com sua peculiaridade, cada uma com sua característica. E isso ficou associado aos shows. Os shows também ficaram associados aos “orquidoidos”, porque faço uma pesquisa — “São Google”, né, véio?! — para encontrar os orquidólatras. E pra uns, evidentemente, tenho que vomitar no início um bocado de conhecimento. Os caras desconfiam: chego assim meio cabeludo, com brinco, não sei que lá, e digo “Eu gosto de orquídea”… Para quase 70% (dos orquidólatras) é um hobby em um determinado momento na vida. Tive a sorte disso começar muito cedo. Então o cara desconfia quando eu chego. Muitos deles nem me reconhecem, porque é uma moçada que não gosta muito de televisão. [risos] Max Eluard — Que não ouve música… Lenine — É, é. E é até melhor que assim seja, porque é mais rápido. Max Eluard — A conexão se dá pelo ponto certo… Lenine — Em comum, a paixão. Porque quando um descobre no outro essa paixão, aí você entrega tudo, você troca, vira uma irmandade. Isso passou a se associar às minhas viagens. Cada planta, quando entra no meu orquidário, ganha uma etiqueta com a espécie, o tipo de substrato onde ela ocorre, a última floração, família, espécie e o show que fiz. Por isso que eu falei que é uma memória, que eu tenho um banco de memórias. Eu tô num universo de muitas plantas. Hoje eu tenho muitas, muitas plantas. Só de plantas brasileiras, tenho mais de 600 espécies. Isso é bem significativo. E eu tenho a qualquer hora, a qualquer momento, 40, 60, 80, cem flores diferentes, porque elas são de períodos também diferentes. Então, a cada momento que eu tô lá: “Ah, essa Sofronite peguei na Serra do Cipó, no show que eu fiz…”. É uma coisa muito bacana. E em decorrência dessa paixão, da coisa da taxonomia [n.e. Ramo da Biologia e da Botânica que descreve, identifica e classifica os seres vivos], eu virei um sebeiro pra achar tudo que tinha a ver com descrição de planta. E, pô, a busca é muito generosa, me leva pra todo canto, todo canto tem sebo, cara! Em todo canto tô pegando muito material de descrição. Então, fiz uma biblioteca muito bacana. E outra: por causa dessa amplitude, dessa diversidade de ocorrências e de substratos em que elas podem nascer, fui testando umas coisas, cara! Então, hoje, quase 60% do meu lixo industrial — não tô falando do orgânico, não, que faço compostagem, mas do lixo industrial –, não existe o lixo. Eu já resolvi isso com pet, isopor, vassoura velha. Eu misturo tudo, cara! E não pego lixo de ninguém, não! É só o meu! Cada um que cuide do seu. Tacioli — Lenine, você falou que não brinca de Deus… Lenine — Não, eu não gosto, eu gosto das espécies. Isso não quer dizer que, se você quiser me dar (uma orquídea)… Eu levo tudinho. [ri] Max Eluard — Você não é um purista. Em seu orquidário não tem só… Lenine — Não, tem tudo, mas eu tenho uma predileção… KK Mamoni — Pergunta quantas plantas ele tem lá. Max Eluard — Seiscentas, não? Lenine — Seiscentas espécies! Eu tenho de cinco a seis mil plantas. Tacioli — E quem é o zelador? Lenine — Ninguém, sou eu! KK Mamoni — Ele tranca tudo, ninguém entra… Lenine — É trancada. Eu construí uma coisa meio que inteligente… Foi fácil perceber que, como durante muito tempo essa coisa estava associada à hobby de rico, porque estava mesmo — ou o cara tinha que ser um cientista ou muito rico pra ter isso –, a maioria dos orquidários foram importados de britânicos, alemães ou franceses. Os caras inventaram o termo estufa, que é um ambiente fechado, pra tentar simular o que acontece de graça aqui pra gente. Os caras importaram isso e acabaram com as plantas. Aí tem fungo, dá todo tipo de bicho, porque tá tudo fechado, não tem ventilação. Percebi isso. E percebi outra coisa também: pelo fato delas serem aéreas, o eixo da planta tem uma importância fundamental. Eu não entendo como ninguém sacou isso. Você pega uma planta, se ela tá na natureza, ela tá agarrada numa árvore, ela não muda posição. Por exemplo: se você tá cuidando dela e a tira daqui e bota ali, ela vai passar um ano adormecida tentando entender o que aconteceu, porque pra ela a árvore caiu. Simples assim! Então, o eixo da planta é uma coisa fundamental. Eu saquei isso. Aí fiz um espaço pra cuidar das minhas plantas levando em consideração algumas coisas, como a hidratação. Você tem que equilibrar três elementos: um é o sol — ela adora o sol não direto, então você tem que ter um redutor; uso um de 50% –; a outra é a água — ela adora água, mas tem horror à umidade. É quase paradoxal. Ela tem que lavar mesmo. Aí, digo: “Porra, tem evaporar o tempo todo”. E aí depois eu explico porque essa sacada foi bacana. E a terceira é o vento. Ela precisa da ventilação, mas ela tem horror à vento direto. Aí fiz uma piscina hexagonal, dez centímetros (de profundidade), cobri de pedra, brita, a sete centímetros do ladrão, e a partir daí eu construí um lugar. Um metro e meio de grade, poro fino pra não deixar entrar muito bicho, em cima duas cúpulas de vidro com o hexágono. Essa foi a grande sacada! O mesmo um metro e meio de grade, tenho isso em vidro. Então o ar quente passou a circular ali. Fiz prateleiras e trilhos circulares. E aí tem uma evaporação de baixo pra cima. Todas as minhas plantas abriram duas, três frentes. Foi uma sacada! E tudo com um risco no cultivo, seja no jarro ou na pet: boto um risco que está tem sempre voltado para o sol nascente. Aí posso pegar (a planta), manuseá-la, mostrá-la pra quem quiser, e na hora em que eu vou colocá-la (de volta)… Max Eluard — (…) Você sabe pra onde ela tem que estar virada. Lenine — Simples assim! Não uso nada químico, nada! Não uso nem um tipo de nutriente a mais nas plantas. A floração não dá aquelas 12 flores estimuladas, não! A minha floração dá seis, sete flores. Max Eluard — E como nasceu essa paixão, Lenine? Lenine — Quando a gente comprou um sítio e os meninos começaram a crescer… E tem um momento que ter que ter um lugar pra você, sei lá… Eu sempre fui muito litorâneo. A minha história foi sempre com o mar. Essa era uma possibilidade de descobrir o outro lado. Tem até a ver com um grande embate cultural que existe no Brasil entre uma cultura litorânea e solar e uma cultura mais interiorana e lunar, né? Então, foi uma descoberta. Quando a gente achou o sítio, a primeira coisa que eu quis fazer foi um pomar, para ter fruta o tempo todo. Fui ver o que é que tinha na região e pra minha sorte tinha uma planta muito estranha agarrada numa árvore. O que é aquilo? O caseiro, disse: “é uma parasita”. Ele errou, mas naquele momento eu não sabia do que se tratava. Ali já tinha começado a Internet; uns 15 anos atrás. Eu cutuquei, tirei a planta e aí fui descobrir o que que era aquilo. Aí o vírus já tinha me pegado. KK Mamoni — Já tinha sido polinizado… Lenine — Já, já, já… Natale — Pô, eu fiz Agronomia por dois anos. Essa conversa podia render do meu lado, mas saí correndo da universidade… [risos] Lenine — É um universo inebriante. Quando você tem noção do ecossistema onde ela ocorre… Ela ocorre em qualquer lugar, até no deserto. Tem uma planta que é o desejo de todo orquidófilo: uma planta subterrânea, australiana, que a floração se dá debaixo da terra, porque o agente polinizador é uma formiga. O aborígene sabe (onde ela está) porque a superfície fica escura ali. E aí ele vai, “humn, humn” e come aquilo. Tem uso medicinal e tudo. Ela ocorre no Tibete, a qualquer altitude. São plantas muito evoluídas, hermafroditas; cada flor tem os dois sexos. Imagina que sinal de evolução! [ri] É brincadeira, né, bicho? Sempre fui meio colecionador de coisas. Tacioli — Qual foi a primeira coleção, Lenine? Lenine — Rapaz, eu paguei um mico quando vim pela primeira vez pro Rio de Janeiro. Eu lá com meus 22 anos, paguei uma grana só de excesso de pedra que eu trazia. Eu fazia um curso de Geologia e fiquei catalogando durante muito tempo… pedras. Depois foi a época dos fósseis. E aí eu fui fazer pesquisa, Serra do Araripe e toda aquela região. Eu tinha muito (material). Então, paguei… Eram caixas e caixas. [ri] No final da conta era caixa de pedras. Mas eu também tenho um desapego com essas coleções. Eu vou doando para os sobrinhos, os filhos, os amigos. Digo assim: “Não tô conseguindo.” Max Eluard — As pedras você não tem mais? Lenine — Tenho. Max Eluard — “Tenho?!” Lenine — Tenho principalmente todas as drusas, que é como ocorrem as semipreciosas. Tenho os fósseis. Max Eluard — Mas essa coleção está aumentando? Lenine — Não, parou! Tem uma hora que dá uma estagnada. Por isso que eu falei que as orquídeas corriam o risco de, como outras coleções, encher o saco, sabe? Mas não é o que acontece, não, cara… Tacioli — Qual coleção você passou pra frente e falou “foi ótimo ter me livrado dela”? Lenine — Várias, várias. A de chaveiro que eu dei pra um sobrinho. [risos] Era muito bacana! (O meu sobrinho) tinha muitas coisas. Uma coleção de moedas bem bacana, que começava do Império, com aquelas primeiras patacas de prata e tudo… Eu já passei. A coleção de selo passei pro Fabiano, que eu também tinha muitos. Enfim, eu saio passando pra família, mas algumas eu não consigo me desfazer. Max Eluard — Isso vem de menino? Lenine — Isso vem de garoto, cara! Catalogar as coisas, inventariar, sabe? Max Eluard — Tentar colher o mundo? Lenine — É, tentar ter o mundo junto de você, é mais louco… Natale — Como artista, você tem essa coisa de organizar o seu acervo pessoal? É tudo organizado: a produção, a primeira letra, o primeiro…? Lenine — Não, é um caos redondo. É a Aninha, a minha parceria, que faz assim: parece caótico, mas é redondo. Eu sei onde é que estão as coisas. Ou, pelo menos, acho que sei. [risos] Tacioli — Lenine, você falou que começou criança essa história de coleção. Tem alguma aventura desse período que você se lembra lá em Recife? Lenine — Ah, várias, cara. Tacioli — Uma inesquecível? Lenine — A Recife que eu trago na memória é uma Recife repleta de infância… A história dos manguezais… Não é gratuito que alguns anos depois surgiu o Mangue (Beat). Recife é construído palafitado em cima disso, de um ambiente (de manguezais). Qualquer garoto de minha idade, quero dizer, garoto de minha idade [ri], mas naquela época, qualquer garoto tinha uma relação muito próxima com o mangue. Qualquer um com nove, dez anos, sabia que, quando trovejava, era a hora de correr pro mangue para a andada. A história é muito bacana: quando começa rebombar os trovões, ele ecoa por debaixo, que são dutos que os crustáceos constroem. Aí, o som fica pior (mais forte) e eles não entram no buraco. Então, a coisa melhor do mundo é pegar caranguejo de andada. É só lama e “uhuuu” [risos], agarrá-los. Tive uma infância de muita natureza, de muito mar, muito mar, muita praia. Praia e mangue. Tacioli — Tinha um parceiro? Lenine — Muitos. Aí era de turma, era gangue, velho. Tinha aquela turma da rua, do bairro. Depois, com oito pra nove anos de idade, papai vai pra Boa Viagem. Boa Viagem naquela época ainda era um balneário da cidade de Recife. Aí começa a crescer exponencialmente. Eu já (curtia) pegar onda. Aí colei na moçada de pegar onda… Pegar onda, durante alguns anos, era descobrir praia. No Nordeste o que mais tem é praia e fui meio rato de praia. Era o cara que, além de pegar onda, tinha o violão, tocava e animava a história. Então foi uma infância e uma adolescência muito bacana. Tacioli — Com o violão, você acaba se tornando a figura central nessa turma? Existia isso mesmo, Lenine? Lenine — Eu era do violão porque tinha uma dificuldade muito grande de lidar como ser humano. O violão era o meu salvo-conduto, eu não podia explicar muito. Eu sou um cara muito tímido. Não tinha muitos amigos, não. Tinha uma incapacidade de lidar com as pessoas. Giovanni Cirino — Você surfava? Lenine — Surfava, mas eu era mais do jacaré. Gosto é do peito. Na época era madeirite. Pegava um compensado, dobrava. Eu tinha tanto o sonrisal, que era pra folha d’água, e a madeirite simulando uma tábua de passar. (Uma tábua) arredondado: você amarrava na ponta, no fogo, e ia dobrando. [ri] De vez em quando pegava na costela. Max Eluard — Essa tendência antissocial durou até quando? Lenine — Acho que todo adolescente é meio assim. A não ser o cara mais bonitão, mais gostosão, o cara do esporte tinha uma facilidade de lidar… Não foi o meu caso, não. Eu tinha uma certa dificuldade. Max Eluard — Mas era uma timidez ou era uma falta de interesse nas pessoas? Lenine — Não, tinha interesse e tudo. Eu estudei durante muitos anos num colégio salesiano, um colégio só de homem. Só segundo ano científico começou a ficar misto. E era um misto maluco: em cada sala, 30 homens e três meninas. Era uma loucura. Eu tinha uma incapacidade de lidar com sexo oposto naquele momento. [risos] Não quer dizer que eu resolvi isso, não! Até hoje eu tenho uma certa dificuldade. [risos] Mas quando descobri a música, ela facilitou muito a coisa da relação com as pessoas. Natale — Como foi essa descoberta da música, do violão? Lenine — Lá em casa todo mundo tocava um pouco. E uma história que eu já repeti pra cacete: meu pai acreditava que a música era a conexão com o divino. E a gente, aos domingos, ficava em casa ouvindo música. Era um ritual mesmo! Max Eluard — Quase religioso… Lenine — Era religioso! Não canso de falar: o ateísmo do meu pai vem pelo cristão. Ele chega ao socialismo pelo cristianismo. Ele está pra ser padre, bicho, e aí se apaixona pela minha mãe. Resultado: ele foi o primeiro cara que me chamou a atenção para a diferença entre o cristão e o socialista. É simplista, obviamente, mas é poético, é bonito. Ele diz que a diferença entre o cristão e o socialista é a morte. Como assim? Um batalha pra depois da morte ter o paraíso. O outro está querendo o paraíso antes de morrer. [risos] É poético. Natale — Genial Lenine — É poético. [ri] [n.e. A admiração do pai de Lenine, Seu José Geraldo, pela Revolução Russa de 1917 e por um de seus principais líderes, Vladimir Lenin (1870–1924), rendeu ao filho seu nome de batismo e artístico] Max Eluard — Agora, essa coisa política ficou muito em você, esse olhar pro mundo politicamente. Lenine — Ah, sim, ah, sim, porque foi um exercício diário. O lado do almoço era com minha mãe. É mais sagrado e ele respeitava, mas a plenária era no jantar e gente conversava sobre tudo. Era um exercício bacana. Max Eluard — Você lembra de alguma dessas discussões do jantar que te despertou, que te fez sacar uma coisa? Lenine — Muitas! Eu não tenho nem como eu te (contar). Foram muitas porque meu pai queria o socialismo na sociedade. Não rolou, ele pregou em casa. Tadinho, o cara sofreu. A gente podia tê-lo poupado tanto. Mas talvez eu não tivesse, como tenho até hoje, dois grandes amigos, além do pai e da mãe, sabe? Ele com 90, a mãe com 87, uma lucidez danada… Mas ele tinha isso: no jantar a gente conversava de tudo. Eu me lembro quando ele me aplicou Augusto dos Anjos numa mesa. Ele era apaixonado por Augusto dos Anjos. [n.e. Poeta pré-modernista paraibano, 1884–1914] Aí ele falou: esse cara só fez uma (poesia), não-sei-o-quê. “Pô, mas eu quero ler isso!” Ele disse: “Ah, tá bom, tem que ler isso aí, mas tem que ler também João Cabral…”. Ele já desviou a atenção e deu dois destinos: “João Cabral é o meio do caminho entre Drummond e… [risos] Natale — Pô, ligeiro… Lenine — Ele tinha isso de cultivar a curiosidade nos filhos. Natale — Que legal… Max Eluard — De atiçar… Lenine — É. Tacioli — Mas antes desses escritores, quais eram os seus ídolos? Lenine — Rapaz, é engraçado, porque eu não tinha ídolo. Nessa época a gente não tem ídolo. Tô falando de nove, dez anos, tudo é conversa. E a gente conversava sobre tudo. Ele é que, por ser um cara da literatura, da poesia, que estava sempre declamando alguma coisa. Eu me lembro do impacto dele declamando: “Eu, filho do carbono e do amoníaco, sofro desde…” [n.e. Trecho do soneto “Psicologia de um vencido”] Eu me lembro que Augusto dos Anjos impregnou, embora eu não dimensionasse o que era Augusto dos Anjos, nem aquelas palavras. Marcou minha vida aquele momento de reunião. Só vim entender Augusto dos Anjos muitos anos depois. Mas ele estava lá desde a infância, assim como [declama]: “Meu coração é um velho alpendre em que se escuta pela noite morta / Som de um passo e o gonzo de uma porta que a umidade dos tempos enferruja / Quem vai passando por essa estrada torta que leva ao alpendre / Dessa estrada, fuja! / Pois lá se encontra a fúnebre coruja e a dor que a prece o caminhante exorta / Mas se um dia, entrares no casarão sombrio, e um abrigo buscares contra o frio / Doce criatura lúgubre / Fugirias, tremendo, vendo ao lado a crença morta / O sonho estrangulado / E o cadáver do amor banhado em sangue.” [n.e. “Coração”, de Jonas Fontenele da Silva, 1880–1947] Pra uma criança ouvir isso é uma coisa dantesca. Aquelas palavras me tocavam sem a compreensão. Tanto era isso como era Patativa do Assaré, tanto era isso como era ver os maracatus. Eu morria de medo, porque aquilo era muito poderoso para uma criança. Me lembro de ver no domingo à noite, com meu pai, o Velho Faceta. [n.e. Personagem criado pelo pernambucano Constantino Leite Moisakis, 1925–1986] [canta] “Mamãe eu quero me casar…” Meu pai deu isso pra gente, deu estímulo pra cacete. Durante anos, a gente se correspondia por charada, olha que loucura! Então ele estimulou a nossa curiosidade, de não se satisfazer com a primeira. Isso é tão bacana! Max Eluard — Como pai, ele conseguia se livrar de alimentar uma expectativa (profissional) em relação a vocês? Lenine — Ouvi dele quando disse que estava pensando em ir pro Rio. Estava no terceiro ano de Engenharia Química. Ele olhou pra mim: “E por que está demorando tanto?” [risos] Em contrapartida, ele jogou toda a responsabilidade na minha mão. Pela confiança, né? Os dois são muitos especiais. Até porque, na época em que eu era adolescente, isso faz muitos anos — tô com 53 — todos os meus amigos queriam ir lá pra casa, bicho! Papai tinha uma ligação com a dialética… Se a gente estivesse num papo aqui, e alguém tivesse com um argumento mais frágil, ele colava (nessa pessoa). Aí começava a dizer, “Mas, veja bem, o que ele está falando” [risos] e começava a dar gás, o exercício (da dialética)… Manoela Ziggiatti — Qual era a profissão dele? Lenine — Olha que loucura! Queria ser padre e terminou contador da Bolsa de Valores. [risos] Max Eluard — Socialista trabalhando na Bolsa de Valores. Lenine — É muito bacana… Max Eluard — O segredo é saber conviver com a contradição… Lenine — É, equilibrar as coisas. Tacioli — E sua mãe… Lenine — Mamãe é que é a grande história. Levei anos para entender isso, porque é fácil a gente se inebriar com o carisma do meu pai. Mas quem segurou a peteca foi ela, bicho! [risos] Natale — E você costumava ir pro sertão, Arcoverde, aquela região, ou a sua infância e a adolescência foram distantes do sertão? Lenine — Fui depois, já com 16, 17 anos. Aí o rock já tinha acontecido e aquilo chacoalhou a minha vida. Mas a coisa era mais litorânea. Era bem mais litorânea! Depois fui ver Missa do Vaqueiro, Serra Talhada… Aí você tem a história de toda a zona canavieira, distrito da cana. Isso fez com que acontecessem outros tipos de expressões populares bem interessantes e bem mais misturadas, bem mais contemporâneas. E a gente ia atrás das coisas estivessem acontecendo. Mas continua fazendo parte dessa área do interesse, da curiosidade… Tacioli — Lenine, você falou que está com 53 anos. Falamos sobre a infância, adolescência… Como é a sua relação com o tempo, com o envelhecimento? Lenine — Um pouco frustrado, porque eu queria ter uma cabeça assim, grisalha, mostrando os cabelos (brancos)… [risos] [n.e. Referência à cabeça prateada do entrevistador] Eu tô dizendo sinceramente. Tem (amigos que dizem): “Cara, tá pintando o cabelo?”. “Não, meu irmão, tenho pelinhos brancos aqui (no rosto)…” Max Eluard — Mas não aparece… Lenine — Eu tenho esse problema também: imberbe. Não tenho barba e o meu desejo de adolescente era ter uma barba fechada. [risos] Tacioli — Karl Marx. Lenine — É, não era nem pelo Marx, mas sei lá, tem um sentindo de virilidade… Tacioli — Uma barba vistosa… Lenine — Eu nunca tive, cara, nunca tive. Eu tô brincando. Eu só comecei a fazer conta depois do nascimento do primeiro neto. Te digo de coração: nunca tinha parado pra fazer conta assim, mas quando vi meu filho sair com o filho, eu fiz conta. Desejei ficar o máximo de tempo! [risos] Eu não fazia esse tipo de conta, não! Tacioli — Mas tem algum tema interior, algum mistério que te aflige? Lenine — Que me aflige? [silencia] Não, o mistério não me aflige não, cara! Eu sou louco pelo mistério, adoro o mistério. Isso não é uma coisa que me causa aflição. Aliás, eu sou aquele cara que adora desmistificar, mas sou louco pra essa minha desmistificação ir por terra. Eu fico procurando o tempo todo, mas tô sempre questionando. Então, o mistério é uma coisa fundamental. Pra mim, até hoje é um mistério como ainda eu me divirto fazendo o que eu faço há tanto tempo. É um mistério isso de eu estar com pessoas há tanto tempo; casamento é difícil, imagina. E você conviver trabalhando com uma pessoa há mais de 20 anos e isso ser celebrado a cada dia que se encontra é um mistério! A música é um grande mistério. Tem uma corda interna que eu vivo procurando tocá-la e eu não sei como. Eu sei quando ela ressoa, quando você acha a canção, faz aquele show, ela toca internamente. Você sente que tocou! Mas você não sabe qual a mecânica… Max Eluard — O que disparou… Lenine — O que disparou! E você passa a vida toda tentando tocar essa corda. [risos] Max Eluard — Acertar de novo… Lenine — É isso. Tacioli — Então vou mudar (a pergunta): você tem algum medo? Lenine — Medo? [silencia] Medo, medo eu tenho. Em pequenas dosagens é um companheiro bacana. Você também não pode ser tão louco de se atirar nas coisas sem ter um pouco de receio, um pouco de medo, né? Natale — E você teve muito receio quando saiu de Recife? Afinal, já era para mergulhar na música, não? Lenine — Era mais ou menos pra isso. Não, aí eu não tinha medo, não, não tinha receio, não. Essa confiança foi o que me trouxe aqui, porque durante muito tempo o mundo sorriu amarelo pra mim. Como outros parceiros e outros amigos, eu poderia ter facilmente optado por outro caminho. Eu não sabia onde eu chegaria com isso, mas eu tinha certeza da qualidade do que fazia, cara! Eu tive um laboratório pra fazer isso, eu mensurava, eu tinha um berço. Eu tinha informação suficiente para fazer analogias, equiparar as coisas. E aí muito cedo eu também disse assim: “Ah, eu tenho que fazer. Foda-se o resto!” Eu tenho é que continuar fazendo o meu (som), sendo honesto com esse ímpeto, que é o desejo de fazer. É ser honesto com orgulho e se sentir bem pra tocar alguém com aquilo que você faz. Sentir-se útil. Era sempre esse o objetivo da história. Max Eluard — Essa coisa que você falou do mundo ter sorrido amarelo pra você, percebo um pouco isso na evolução da sua carreira, que você nunca teve um momento de estourar; a construção foi muito gradativa, pela insistência, né? Lenine — Cabeça dura! Eu fui cabeça dura, todo mundo dizendo: “Não, não vai, não vai!” “Eu vou!” [ri] Max Eluard — E mesmo com o mundo sorrindo amarelo. Lenine — É, mas veja bem: sempre achei que o que eu faço é muito coletivo também, né? Eu não estava sozinho naquele momento quando cheguei no Rio. Tinha um núcleo de pessoas que, assim como eu, também estavam procurando se expressar. E que a gente conviveu esse tempo e talvez esse tempo tenha maturado um filtro. Tacioli — Quem eram essas pessoas? Lenine — O Bráulio Tavares, o Lula Queiroga, o Ivan Santos, o Dudu Falcão. Era muito mais gente. Teve um momento em que morávamos Alex Madureira, Júlio Ludermir. Era um núcleo, era quase uma Faixa de Gaza, sabe? [risos] Era um território ocupado de paraíba. Max Eluard — De resistência… Lenine — É! [risos] E aquele núcleo foi um exercício muito bacana: primeiro de coletividade e de criação, porque era um estímulo diário de um com o outro. Durante muito tempo, a gente se encontrava no final da tarde pra contar o que viveu em forma de verso, no improviso… Natale — Que legal. Lenine — E isso era diário, cara! Então, isso fez com que o sarrafo ficasse alto, sabe?! [risos] Até hoje, o que eu faço, faço tentando agradar essas pessoas, para que elas digam “É isso mesmo!”… Max Eluard — Uma fidelidade… Lenine — É quase canina. [risos] Mas é de uma turma… Cirino — Uma matilha… Lenine — É, que conviveu, que pensou muito aquilo que fazia, que não era somente intuição, não! Tinha muita conversa. Eram pessoas de nichos completamente diferentes se estimulando… Se (o cara era) estimulado, ele queria fazer aquela pra chegar no outro e dizer: “Ah, é?! Agora olha o que eu fiz aqui…”. “Pô, ah, é, então vê essa que eu fiz.” Então, não por acaso, esses caras continuam sendo meus parceiros mais assíduos. Max Eluard — E nessa época, pra viver, tinha que pagar as contas, o aluguel. Como era essa batalha? Lenine — Era difícil, amigo! Até vender livro eu tentei. Você lembra do Círculo do Livro? Natale — É? Lenine — Olha que roubada, bicho! No primeiro mês, descobri que estava devendo, porque a primeira coisa que eu fiz foi pegar duas enciclopédias que eu queria, inclusive uma de Química! [risos] Já comecei devendo! Aí, a Aninha, minha mulher, disse: “Bicho, isso não vai dar certo, não!” [risos] Tacioli — Mas, com você batalhando a música, teve um momento que deu aquela “Será que é isso mesmo?”? Lenine — Dá até hoje, cara! O “será?”? Tacioli — É?! Lenine — Eu não tenho essa certeza toda. Eu tenho certeza de algumas coisas, mas quando você tá frágil… O ser humano é o ser humano, velho! Quando você acorda com ovo esquerdo, porra, desculpa! [dirigindo a palavra à Manoela Ziggiatti] Mas quando você… Tacioli — Acorda com o ovo esquerdo… [risos] Lenine — O ser humano tem essas coisas, tem um relevo, a vida tem um relevo, você tem o dia em que está frágil, e quando você tá frágil, você tá frágil, bicho! Você não acredita em nada, você duvida de tudo. No outro dia você é o tampa. [ri] É assim, cara, é assim! Eu continuo tendo certeza de que minha opção foi certa, tendo certeza de que o que faço realmente, quando eu faço, eu me entrego nesse fazer. É muito coerente o que eu faço, tem uma utilidade além de entreter. Isso também com certeza. Então, eu sei dos desdobramentos. Hoje eu posso mensurar isso… E me orgulhar… Tacioli — Quais são os desdobramentos? Lenine — Me orgulho, por exemplo, de a cada mês ter um livro didático me pedindo uma autorização para imprimir uma música minha, uma letra… Ô, cara, isso é o melhor! Natale — Engraçado, pessoalmente, eu te encontro muito pouco… Lenine — Ahã. Natale — Acompanho sua carreira à distância, mas eu me lembro de uma vez, na gravação do (disco) Aos vivos, do Chico César, em que emprestei meu violão pra ele. Foi quando eu te conheci. Depois a gente foi de carona, todo mundo para casa do Chico ali na Apinajés… Lenine — Isso… Natale — Eu estava tirando seu violão do carro, quando te perguntei: “Pô, Lenine, você vai ficar um tempo aí?” “Não, eu vou embora amanhã cedo”. Já era madrugada… “Tenho que fazer isso e aquilo!” A gente tinha conversado um pouco, mas você me pareceu muito determinado. Achei que era uma pessoa que estava realmente querendo e construindo alguma coisa. Lenine — Ah, que bom! Natale — E eu nunca esqueci disso: dessa sua… Lenine — (…) Determinação! Natale — Convicção! Lenine — É, é… Natale — Você estava construindo algo, você não tinha chegado… Lenine — Não sabia, nem sabia. Natale — De uma certa maneira, tinha uma fragilidade… Lenine — Total! Natale — Mas tinha uma disciplina, né? Lenine — Tinha uma disciplina e tinha, sim, esse objetivo de querer levar além. Não me contentava fazer aquilo; eu sempre persegui uma certa estranheza, cara! Eu não gostava da posição muito cômoda. Cirino — De se encaixar numa gaveta… Lenine — De se encaixar numa gavetinha. Sempre isso me incomodava. Então, das músicas, parei processos infinitas vezes porque aquilo me remetia a alguma coisa. Sabe uma coisa de perseguir outra beleza? Não sei se eu tô falando alguma… [risos] Max Eluard — Não, faz sentido. Lenine — Mas tinha uma coisa de perseguir uma certa estranheza no fazer, na associação de palavras e de sons, na criação de uma melodia, de uma ponte harmônica ou de um riff. Max Eluard — Isso é claro nas suas músicas, mas, ao mesmo tempo que tem uma busca pela estranheza, tem um diálogo com o pop muito forte, né? Lenine — Ah, sim! Aí é Zeppelin na cabeça, né, velho? Eu sou Zeppelin, Zappa: o Z & Z… Max Eluard — É o rock! Tem que ir pra galera, tem que dar mosh, tem que pular e tem que ter gente embaixo. Lenine — É essa coisa de entrega mesmo, de uma atitude! Essa coisa de voz e violão é sem banquinho comigo, entende? Não tem banquinho, velho! Tacioli — E em casa, você ouvia o Zeppelin e o Zappa e seu pai ali? Lenine — Lógico, cara! Meu Beatles é uma mistura de Zeppelin, Police, Zeppelin, Police. Tem momentos em que é mais difícil de você digerir Zappa, né? Não é o caso do Zeppelin, que a discografia é toda muito boa. O caso do Police… Max Eluard — Só tem lado A. Lenine — Só tem lado A! O Zappa foi muito transgressor, tinha umas coisas que ele não queria (fazer), queria só encher o saco de todo mundo. Era meio chato, né? Não sei, pra mim era chato ali, naquele momento adolescente. Tacioli — Lenine, em uma entrevista, você disse que depois de gostar do progressivo afirmou que ele era cafona demais, né? Lenine — É verdade! [risos] Essa palavra “progre” ficou associada àqueles tecladozinhos, aquelas coisas meio… Max Eluard — Rick Wakeman. Lenine — Caraca, talvez por isso, não sei se vocês perceberam, mas nunca toquei muito com tecladista. Max Eluard — É verdade. Tacioli — Nesse sentido: você já produziu algo que, anos depois, falou “Aquilo era cafona pra cacete!”? Lenine — Pô, não quero nem levantar isso, lógico que sim, cara! E se eu puder você não descobre isso de jeito nenhum… Tacioli — Fale duas… Lenine — Eu não vou falar, não! [risos] Eu quero que esqueçam! Eu quero que esqueçam disso, cara! Agora a gente fazendo uma temporada no… KK Mamoni — [interrompe a fala de Lenine e cantarola] “Não se reprima!” Lenine — [risos] A gente está fazendo uma temporada e chega um cara todo dia no show no Sesc… KK Mamoni — Todo dia o cara vai lá. Lenine — Todo dia o cara vai lá com uma pérola dessa: Xarada, uma banda que eu… KK Mamoni — Vou achar… Lenine — Não faça isso! É, faça isso! [risos] KK Mamoni — Eu vou achar… [risos] [procura no banco de imagens do celular] Lenine — Tem várias coisas no processo (que são cafonas), lógico que sim. Agora tenho certeza que qualquer criador é assim… [risos] KK Mamoni — Lógico, demais! [mostra uma foto da banda Xarada, da qual Lenine foi um dos integrantes. Lançou em meados dos anos 1980 três compactos. Tinha a seguinte formação: Lenine, voz e guitarra, Caxa na guitarra e vocal, Fábio Girão no baixo e vocal, Duda, bateria e vocal, e Sartori, teclados e vocal. O quinteto protagonizou a banda Heavy Trap’s no filme Os Trapalhões no Reino da Fantasia, de 1985] Lenine — Demais de ruim, né? [risos] KK Mamoni — Menudo com… Max Eluard — Pré-Menudo! Natale — Genial! Gente, não tô achando Lenine aqui. Vige Maria, rapaz, charada com X! Nunca se sabe… Lenine — É! E a música [canta]: “Droga, droga, droga / Nós somos dependentes da droga”. [risos] Mas da droga do dinheiro que melhora tudo, da droga do relógio que controla a hora, da droga do cigarro que se joga fora. [risos] Não, não é legal, não, cara! Max — Mas o que foi esse momento? Foi uma tentativa de estourar? Lenine — Momento de tentativas, momento de tentativas. Na verdade, depois de muitos anos, eu assimilei o golpe e entendi o que se deu… KK Mamoni — [Interrompe] Tem outra! Está ficando mais sério! Tacioli — Pô, demais! Natale — [risos] Deixa eu ver… KK Mamoni — Aqui, ó, no cantinho. Tem Elba, Alceu, uma galera aí. Lenine — É um disco de frevo. Natale — Ah, tá. Tacioli — Mas você não estava sozinho aí, né, Lenine? [risos] Lenine — Tinha vários iguais a mim. Aí eu posso dividir… [risos] Tacioli — Dividir o boleto. Lenine — Depois eu tentei entender o que se deu. É um achismo: apesar de ser um lote de paraíba, porque a maioria (desse núcleo de pessoas) era nordestina, a gente só se entrincheirou porque se viu estrangeira no Rio. Era uma maneira de se fortalecer. O fato é que a gente nem fazia rock, nem fazia mpb, nem fazia samba. A gente fazia festa e gostava da história de misturar as coisas, de não se contentar em repetir fórmulas. Isso foi basicamente o que me empurrou. Passei a ouvir rádio de mpb dizer “Mas o som dos caras é meio rock and roll”; as rádios de rock and roll, “Isso é muito mpb!”. Aí no samba. 1981, Rio de Janeiro, caio de paraquedas no Cacique de Ramos antes de estourar, antes de Beth Carvalho. Então, meus primeiros amigos foram Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Sombrinha, essa moçada do Fundo de Quintal. Eu fui lá e dei uma de paraíba. Estava louco querendo voltar, porque eu não via a dificuldade da história… Teve muito isso, uma certa falta de diálogo pelo tipo de hibridagem que a gente fazia. Acho eu… E isso terminou sendo o plus da história. Hoje eu vejo a música intercambiando ideias por todo o canto. Tacioli — Você falou de vários amigos que estavam com você nesse percurso. Quem tinha ficou pelo caminho que tinha talento… Lenine — Não, ninguém ficou pelo caminho, vários… Max Eluard — Tomaram outro caminho… Lenine — Tomaram outro caminho, é isso aí, descobriram outros caminhos e sobreviveram de outras maneiras. Tacioli — Quem você (destaca)? Lenine — Por exemplo, Bráulio Tavares. Vocês não conhecerem o trabalho fonográfico de Bráulio é um débito emocional meu. Eu tenho certeza que Lula sente a mesma coisa, eu tenho certeza que Ivan sente a mesma coisa. Ivan já fez pelo menos dois discos. Lula Queiroga fez discos premiados e tudo, mas o Bráulio, não. E Bráulio é autor de umas pérolas como essa: “Pioneiro não é quem descobriu primeiro / Pioneiro é quem sempre soube”. [risos] Pérolas como essa: “Não existe ineditismo capaz de resistir a uma boa pesquisa bibliográfica”. [risos] Pérolas como essa: “Era um rapaz chamado Boris / Que não tinha um pau dos maiores / Um dia num livro de anatomia / Descobriu que não tinha pau / Tinha um clitóris”. [risos] Bráulio Tavares. Tacioli — O que te chateia depois de tantos anos de profissão? Lenine — Me chateia o despreparo, me chateia chegar numa roda para dar uma entrevista e o cara fazer uma pergunta que revela uma falta de preparo. Eu me preparo, cara! Pra fazer esse papo com vocês, eu sabia onde eu vinha, o que iria fazer. Eu cobro o mínimo. Isso é a única coisa que me tira do sério. E já me tirou algumas vezes. Max Eluard — O cara tá ali cumprindo tabela. Lenine — É, eu acho isso desrespeitoso, extremamente desrespeitoso. Max Eluard — A rotina de entrevistas e ter que falar sobre você e sobre o seu trabalho te incomoda? Isso é tranquilo pra você? Lenine — É, me incomoda. Me incomoda, sim, porque falar sobre o que você faz é uma temeridade. Eu preferiria não ter que falar. Mas eu sei que isso é impossível: na hora em que está lançando um disco, você tem que falar sobre ele. É a maneira de você chamar a atenção das pessoas, dizer “Olha, tô com um produto novo, ouçam! Ele foi feito assim, dessa maneira…”. Então, eu me preparo pra fazer isso. Nem sempre consigo me expressar bem ou ser lúcido o suficiente pra dar para as pessoas as pedras que eu uso pra fazer o que eu faço. Mas é muito ruim quando você está fazendo várias entrevistas num mesmo momento e você pega ali, numa sequência, uma, duas e aquela terceira o cara vai lá e manda aquela. Porra! Aí dói! Não que as pessoas tenham feito isso nesse sentido, mas o sentimento é de desrespeito. Max Eluard — Porque você já está fazendo algo que você preferia não fazer… Lenine — É. Max Eluard — Você tem o esforço de se preparar pra aquilo e aí… Lenine — Eu sou gentil, cara! Eu sou um cara generoso, eu ouço. Eu não sou de monologar, eu ouço. E aí tem uma coisa também: quando você olha no olho de alguém e sabe que aquilo não está acontecendo ali de fato. Quando eu percebo isso: “Ei, tu está aqui?”. O despreparo é uma coisa que me incomoda. Tacioli — E no processo de criação, tem algum momento que se repete e você preferiria que aquilo não se repetisse? Lenine — Não. O momento de criação é muito volátil. Eu não preciso de um ritual pra compor. É mais assim: vou fazer. Mas nem sempre você faz. É por isso que eu tô dizendo: todos grandes, ninguém conhece… Tu acha que Chico mostrou tudo que compôs? [risos] Não, senhor! [ri] Eu tenho certeza que ele tem um baú que ele vai tocar fogo, se não já tocou, pra não deixar caco pra ninguém! Mas outra coisa: poucos tiveram, como o Chico, independentemente da qualidade do que ele faz, a possibilidade de ser documentado desde os 21, 22, 23 anos de idade… Max Eluard — Isso é impressionante. Lenine — É outra época, é outra coisa, é outra história. Compor tem a ver com o objetivo que você tem, ainda mais eu que exercita a composição pra outros. E outros, não somente outros intérpretes, mas outros veículos mesmo. Agora eu tô fazendo a trilha no novo espetáculo do Grupo Corpo, que me chamou de novo. Eu fiz Breu e foi uma experiência maravilhosa lá com os Pederneiras! [n.e. O espetáculo Breu estreou em 2007 com trilha sonora de Lenine; Triz, o segundo espetáculo da companhia mineira de dança contemporânea musicada pelo artista foi apresentado em 2013] E agora eles me chamaram de novo. É um outro tipo de (trabalho). Eles primeiro esperam a trilha para criar a coreografia. É muita liberdade, é liberdade demais, cara! O cara diz assim: “Olha, são uns 50 minutos. Pensa na gente, quando achar que tu deve mostrar, tu mostra!”. Tacioli — Esse é o briefing? Lenine — Esse é o briefing. Max Eluard — E você sempre fala que seu estímulo para compor é visual, né? Lenine — É. Max Eluard — Aí você vai fazer a trilha de uma coreografia, que é algo totalmente visual, antes de vê-la. Lenine — Você agora abriu uma janela pra eu falar de uma coisa que foi um impacto. Quando eu entreguei a trilha do Breu, ele disse: “Quer ver o ensaio?”. “Não! (Vejo) quando você achar que eu devo ver!” [risos] E já estava ali nos 70%, 80% do espetáculo quando fui a BH pra ver (o ensaio). Levei um soco no estômago, cara!

Max Eluard — Não era a coreografia que você fez quando criou a música. Lenine — Não, mas eu vi! Ele foi tão fiel ao relevo sonoro que a gente tinha criado, que eu vi os arranjos tridimensionalmente. As sucessões de ritmos, as pontes harmônicas! Ele fez tudo com os corpos! As polirritmias… Quando era em (terceira), “tcha”!; em primeira, “tcha, tcha, tcha, tcha, tcha, tcha”! E eu via tudo aquilo! Pela primeira vez eu vi a música que eu faço. Eu saí dali com essa certeza. Mudou a minha maneira de criar. A partir do Breu, eu nunca mais entrei no estúdio com música pronta. E me impus, pra ser fiel ao meu momento, (criar) a partir do nada. Vou fazer um disco: vai ser chão. [n.e. Referência ao disco lançado em 2011] Só tem o nome, porque eu gosto da palavra chão. E liguei pra Lula: “Vamos fazer uma música?” “Vamos!” “Chão, o chão que a gente pisa, o chão que…”, assim… O Labiata foi a mesma coisa. [n.e. Álbum de 2008] Tacioli — Tiveram outros momentos na carreira como essa virada, esse cavalo de pau? Lenine — Rapaz, eu acho que foram algumas viradas. Primeira: a virada que eu chamo espinha na bunda. Espinha na bunda é aquela coisa que só você sabe que tem, porque só você sente, ninguém vê, né? [risos] Eu fiz um disco espinha na bunda com Lula Queiroga chamado Baque solto. [risos] Foi na Polygram em 83. Isso foi uma virada. Perceber o invisível; eu estava invisível. Eu tinha feito um disco com o Lula e era invisível. Isso foi uma virada. Depois de dez anos eu fiz Olho de peixe. Foi outra virada… Foi uma virada fundamental, porque eu disse: “Ê, esperaí, eu não estava tão errado assim por um lado e nem estava tão certo assim por outro. Foram dez anos!”. Natale — Mas é um disco que quando chegou, causou muito impacto. Max Eluard Causou, eu me lembro. Natale — Esse disco é um disco que quem ouviu não esquece. Lenine — Ali eu descobri que a minha música dialogava com o mundo. A partir dali eu passei a fazer turnês anuais. Foi ali uma grande virada. Natale — Calculo que a mesma importância que teve pra você, teve pra Suzano, né? [n.e. O percussionista carioca Marcos Suzano, com quem Lenine dividiu a autoria do disco] Lenine — Com certeza… E pra Denílson, que era o terceiro, era o quinto Beatle na história. [risos] [n.e. Denílson Campos, engenheiro de som responsável pela gravação do álbum] Mas, pô, aí eu faço O dia em que faremos contato. Ganhei todos os prêmios possíveis. Foi três anos depois. [n.e. Seu primeiro disco individual, de 1997, em que apresentou os sucessos “A ponte”, parceria com Lula Queiroga, e “Hoje eu quero sair só”, com Caxão e Mú Chebabi] Aí fiz Na pressão, primeiro Grammy. [n.e. Trabalho produzido por Tom Capone, lançado em 1999 e dono dos hits “Jacksoul brasileiro”, “Paciência”, “A rede” e “Relampiano”] Falange canibal, ganhei dois Grammy. [n.e. Com participação especial do grupo norte-americano Living Colour e de Eumir Deodato, este foi o segundo disco produzido por Tom Capone] Tenho cinco Grammy, cara! Ou seja, tô gramado faz tempo! [risos] Prêmio é muito bom quando a gente ganha. Porra, é muito bom porque reafirma a sua conduta. Max Eluard — A gente sabe que não vale nada, mas quando a gente ganha é do caralho. Lenine — É, mas vale tudo! É ruim quando você não ganha… [risos] Cirino — Mas é o reconhecimento dessa insistência que você falava antes. Quero dizer, não teve nenhum super sucesso, mas foi galgando um espaço e um carreira muito… Max Eluard — Sólida. Cirino — Consistente. Lenine — É, eu acho que foi uma sedimentação. E as pessoas passaram a associar: “Pô, aquela música da Elba (Ramalho) é dele! Ah, aquela música de fulano é dele! Aquela, pô, ah, aquele negócio!”. Foi realmente sedimentando. Já falei isso algumas vezes: eu achei a sacada do meu filho muito boa. Ele disse que eu não tenho fã, eu tenho seguidor e esses seguidores estão aumentando a partir do momento que eles estão se propagando. Max Eluard — Se multiplicando, se procriando… Lenine — É, é, é. Eu acho bacana. Natale — E com essa consolidação de sua carreira, algumas pessoas te assediam para (ingressar na política)? O Chico César agora é secretário de Estado… Lenine — Comigo não cola, não! Natale — Mas não chegam…? Lenine — Cola, não! Natale — Você tem uma visão política… Lenine — Chegam algumas vezes, mas não cola, não. Natale — Você rejeita? Lenine — Eu rejeito porque eu estou aqui por causa da minha isenção. O que eu faço é política, não é partidarismo. Tenho que fazer o que eu sei fazer. E o que sei fazer é música, música, cara! Não tenho competência pra isso. Max Eluard — E o que você achou do Gil como ministro? [n.e. O músico Gilberto Gil foi ministro da Cultura do governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva de janeiro de 2003 a julho de 2008] Lenine — Ah, eu acho maravilhoso. Mas ele tem a competência de fazer isso ou não. Ele tem essa aptidão de lidar com a coisa. Não é o meu caso. A minha área de atuação é muito ali. Eu, apartidariamente, tenho meus trabalhos de fundo social, de fundo ambiental; tenho grandes parceiros: (Projeto) Tamar, WWF, S.O.S. Mata Atlântica. E aí eu tenho uma atitude política como civil que sou, como cidadão que sou. Natale — Não pra apoiar a sua carreira, né? Lenine — Não, ao contrário. Max Eluard — Não faz propaganda disso. Lenine — Não, não, não! Mas eu me sinto incapaz de atuar em outra área que não seja a do entretenimento. Max Eluard — Lenine, eu queria te fazer uma pergunta sobre um assunto… Tá falhando o microfone de novo? Lenine — Sou eu? Ah, encostou aqui, espera aí, agora vai melhorar. Opa, fritou… Max Eluard — Queria que você falasse do Ramiro Musotto, como o conheceu e o que ele trouxe para a sua música. [n.e. Percussionista, compositor e produtor argentino radicado em Salvador e Rio de Janeiro desde a década de 1980; trabalhou com importantes nomes da mpb e pop. Destacou-se também ao unir percussão e música eletrônica. Morreu em 2009, aos 45 anos, vítima de câncer] Lenine — A gente aprende o tempo todo, né, velho. A música pra mim sempre foi coletiva. A música que eu faço é um somatório de pessoas; sempre foi assim. Nunca fiz um disco sozinho, um egodisco. Na verdade, eu convidei o Ramiro porque em 99 eu tinha sido convidado pelo Caetano que, na época, tinha recebido o “Carte Blanche”, que o Cité de La Musique, em Paris, uma vez por ano pega um artista popular — porque é um universo acadêmico — e o convida pra fazer um show inédito. E aí abre uma carta branca (“carte blanche”) para esse artista. Caetano estendeu o convite a mim e a Haroldo de Campos. E fomos participar do show de Caetano. Três anos depois, o Cité de La Musique me convida pra fazer um “Carte Blanche”. Mas o quê que que vou fazer? Eu estava com uma banda azeitada, a gente estava no meio (de uma história), enfim, eu digo: “Bicho, fazer um projeto novo? Tá bom, vou fazer um projeto novo!”. Eu tinha ido em 2000 pra Cuba pelo Festival do Cinema de Havana, quando fui homenageado por uma turma lá. Robertico Carcassés fez uma big band, uma puta orquestra pra tocar a minha obra. [n.e. Pianista e compositor de jazz cubano nascido em 1972, filho do célebre músico Bobby Carcassés, é o bandleader da Orquestra Interactivo] Foi uma das maiores experiências que eu tive. E naquela orquestra tinha uma baixista, a Yusa. No primeiro ensaio em que eu estive lá na ilha, ela me chamou num cantinho e disse: “É assim que tu toca ‘Jacksoul’?”. Aí tocou muito melhor do que eu. Eu disse: “Não, não é assim que eu toco, não!” [risos] “É de outra maneira que eu toco”, mas eu fiquei impressionado. E ela, na verdade, não era baixista, ela era pianista formada, uma compositora. Bom, voltei aí à história do “Carte Blanche”. Sempre falei da história do isolamento, da culpa do famigerado Tratado de Tordesilhas no isolamento cultural que a gente teve. São gerações que fazem uma certa ligação: o rock teve muito isso, Paralamas faz com Fito (Paez), teve Caetano, João Gilberto na Argentina. Tem esses intercâmbios que são muito bacanas. Digo: “Vou fazer um trio panamericano”. O Ramiro estava acabando de fazer Sudaka [n.e. Primeiro dos dois álbuns autorais de Ramiro Musotto, lançado em 2001], um disco belíssimo, a gente tinha tocado junto em algumas gigs, eu fazendo uma participação com o Lulu (Santos), com o Kid Abelha… A gente se encontrou duas ou três vezes. Eu tinha ouvido o disco dele. “Porra, que coisa linda!” E quando disse: “Vou fazer um show inédito?! Então vou criar um repertório!”. Para o inCité o repertório é todo novo, criei para ali, nunca mais eu gravei aquele repertório. E chamei esses dois pra fazer um encontro panamericano. Por um lado a Yusa, vindo de Cuba. Deu dificuldade pra trazê-la, muito difícil. Eles ficam com medo. Então, ela não podia ganhar nada. Eu não pude remunerá-la. Não pude remunerá-la. Tiveram essas coisas, enfim. Mas a gente conseguiu. E o Ramiro. E o engraçado foi que, quando eu o chamei, no primeiro dia, ele chegou com DVD, com os eletrônicos todos. Ele vinha do Sudaka e eu estava pensando outra coisa. Nada daquilo, velho! Ele chegou e foi descarregando. Digo: “Ê, ê, ê, pare, pare! Nada de eletrônico! Não quero nada plugado, meu irmão!” Max Eluard — Quero só seu berimbau… Lenine — “Quero seu berimbau, seus braços, suas pernas!” “Por quê?” “Porque a gente vai botar vários tipos de sons pra eu ter os beats com você fazendo, e suas mãos soltas pra você ora tocar um não-sei-o-quê, ora…” “É mesmo?” “É!” Então, pra ele também foi um estímulo maluco, porque ele vinha com todos os presets prontinhos. “Ê, não quero nada disso, não!” E foi muito bacana e muito intenso também, porque quando começou a se delinear, eu me perguntei: “Por que eu não vou gravar isso?”. Eu não ia gravar, cara! Ia ser somente um show. “Por que não gravar?” Ninguém quis. O sorriso amarelo de novo. Ninguém quis. [ri] “Ah é? Tá bom, eu faço!” Como sempre, todos os meus discos foram feitos assim, alguns no final eu cheguei até a vender a master, outros, não, eu só licenciei. Mas todos foram feitos assim e foi assim que eu fiz o inCité. Mas a gente já sabia desde o início que não ia ter prossiga. Eu não abri essa possibilidade. Digo: “Olhe, não é inédito, é inédito e vai ficar inédito”. Teve muita procura pra gente reunir o trio, mas eu não queria. Max Eluard — Por que? Lenine — Porque a ideia não era aquela, eu estava no meio de um processo. A maneira que eu pude exorcizar aquilo, conseguir realizar e não prejudicar os outros planos… Max Eluard — Foi um parênteses. Lenine — Foram umas aspas ali. Natale — Começo, meio e fim. KK Mamoni — Mas fez o DVD e o CD… Lenine — Aí fiz o DVD, fiz o CD. Evidentemente gerou um show chamado inCité, mas a formação era rock and roll, o repertório migrou de tal maneira que virou outro projeto. E ele tinha essa coisa maravilhosa do “el juego de cintura”, porque era… Max Eluard — “Yo soy brasilero!” Lenine — Porque era duplamente baiano, que é de Bahía Blanca e da Bahia, “entonces isso é increíble!”. [risos] Era uma pessoa muito querida. Tacioli — Lenine, você falou da carta branca e das gravadoras. Hoje ainda você não tem a carta branca quando fala “Tenho um trabalho novo”? Lenine — Ah, mas não ofereço mais, não. Há muito tempo que eu não ofereço nada. Tacioli — Mas tem essa procura? Hoje a indústria vive um momento totalmente contrário daquele dos anos 80. Lenine — É, eles não sabem fazer o que eu durante anos fiz, que é trabalhar o micro. Mas eu não preciso dividir isso mais. Na verdade, está um momento de muita mudança, cara! Qualquer coisa que se diga, pode dar em nada. O fato é que tá tudo mudando e mudando muito rápido. Indústria? Que indústria, né? Natale — Mas a música nunca esteve tão forte. Lenine — Nunca se ouviu tanta música. KK Mamoni — Mas é o que está em crise é a indústria, não a música. Lenine — A música nunca! Max Eluard — E nem é a indústria de música, é a indústria fonográfica como a gente conheceu. Lenine — Justamente, por isso que eu boto o adjetivo aí: fonográfico. Tacioli — Nunca se vendeu tanto instrumentos também, né? Lenine — Nunca se vendeu tanto instrumento, nunca se tocou tanta música. E eu sempre tive a impressão que no Brasil não tem rádio nem televisão suficientes pra escoar o que se produz. E aí pega alguns nichos de rádios que se copiam e que só tocam a mesma programação, aí eu não entendo, realmente não entendo! Não entendo até hoje se é amostragem. Brincadeira! Tacioli — Lenine, você falou no começo que, em 83, você estava invisível. E continuou invisível mesmo quando lançou o primeiro disco. Qual é o preço dessa superexposição que você tem? Você acha que você tem uma superexposição? Lenine — Eu acho que não tenho, não! Tacioli — Não? Lenine — Não! Tanto é que não chegam malas junto a mim. Eu digo assim porque eu já estive em turnês com alguns amigos populares, extremamente populares. E eu sei que é difícil de lidar com esse tipo de assédio, de como as pessoas chegam até você. Mas talvez pela própria trajetória que eu fiz, não sei te dizer, mas é raro chegar alguém sem delicadeza, sem gentileza, sem medir o que fala, porque se chegar muito excêntrico, vou dizer: “O que foi que aconteceu?”. Aí já dá aquela: “Opa, espera aí!”. Eu não sei, acho que eu não tenho uma superexposição, não. E ela é meio diluída, porque tem a ver com o que eu componho, tem a ver com o que eu canto, tem a ver com o que eu produzo. Aí isso é meio diluído. A gente já queria fazer essa entrevista há muito tempo. Você viu quanto tempo eu relutei, porque eu tenho que ter um objetivo também… Eu só falo quando eu tô com um produto novo, porque realmente não acho que tenho muita coisa pra falar, não, nem quero ter essa incumbência. Quem trilhou esse caminho sofre até hoje uma superexposição. Aí tem que achar tudo sobre tudo. Não, comigo, não! Natale — E essa coisa que você falou de produtor. Como você mira para produzir? Você procura um pouco o espírito do Lenine dos anos 80, alguém com aquela convicção da quase da invisibilidade, e você fala “Eu vou apostar nesse cara”. Você tem isso? Lenine — Não. Eu só me sinto capaz de produzir se eu me apaixonar. Isso é uma condição sine qua non pra eu produzir. Pra eu produzir alguém, eu tenho que estar com uma relação emocional, passional… Natale — Então, você se apaixona primeiro pela música ou por aquilo que o cara tem (“Ele tem o que eu tinha…”)? Lenine — Pela música primeiro. Na maioria das vezes, primeiro é pela música. Blick Bassy, Tcheka…, foi pela música primeiro. [n.e. O primeiro é cantor, compositor, guitarrista e percussionista camaronês. Lenine participou de seu álbum Hongo calling, dividindo a faixa “Fala português”. O segundo é cantor, compositor e violonista de Cabo Verde. Seu terceiro disco, Lonji, de 2007, foi produzido por Lenine] Eu primeiro ouvi a música dos caras. Mas a Maria Rita, não, pô! Um Pedro Luís, não, é meu irmão, porra! Mas o emocional está sempre envolvido. Não me sinto capaz de produzir qualquer coisa, não. Até porque o meu processo não foi acadêmico. Eu descobri uma maneira de produzir pra documentar o que eu fazia. Então, essas funções estão muito interligadas com o exercício da composição e do cantar. Cantautor, eu acho que eu sou isso, cantautor. É uma palavra que não existe muito na língua portuguesa, mas sim em todas as línguas latinas… Max Eluard — Mais no Uruguai, na Argentina… Lenine — É, cantautor… Max Eluard — A tradição dos cantautores é muito forte. Lenine — Século 11, Bernard Ventadour, Arnaut Daniel, os caras que inventaram a redondilha maior! Somos todos ecos disso. [n.e. Importantes trovadores franceses do século 12] Tacioli — Um pouquinho antes dessa pergunta, quando você tem um produto para apresentar, este é o momento de… Lenine — De falar… Tacioli — De falar! Mas como você se vê na história da música brasileira? Lenine — Como eu vejo? Tacioli — Você se vê um… Lenine — Eu sou míope, visse. [risos] Tacioli — Mas até os deficientes visuais veem também, né? Lenine — É verdade, mas veem um borrão. [risos] É sem definição. Tacioli — Mas, dentro dessa linha da música brasileira, não linha evolutiva, mas dentro desse caminho da música, que é muito diverso, onde você se coloca assim? Lenine — Pô, meu, sacanagem, isso é sacanagem… Tacioli — Não, porque isso… Lenine — Não, eu sei, mas é uma tentativa maluca… Eu não sei. Eu posso dizer o seguinte: primeiro, eu faço parte de uma linha evolutiva do violão brasileiro, sim. Tacioli — Aí, já está definindo. Lenine — Eu percebo. Por quê? Porque está associado a muitos desses cantautores que a gente está falando, a expressão através do instrumento violão. Isso parece que veio do árabe, do alaúde, tal, mas aqui requisitou a cidadania, todo mundo toca violão. É o instrumento da expressão brasileira. E são muitos os que têm no violão uma extensão do corpo. De Mão de Vaca, Dilermando Reis, Canhoto da Paraíba, aí você vem aqui, pega Djavan, João Bosco… Egberto Gismonti, Baden Powel… Tem uma linha evolutiva, não tô me botando no meio deles, só estou dizendo que eu, assim como eles, tenho no violão o meu instrumento de expressão. É cheio de suingue, que é outra marca do violão brasileiro. Jorge Ben, meu irmão, foi quem primeiro formatou uma música brasileira pro mundo, desculpem os outros, mas pra mim foi Jorge Ben. E de Jorge Ben até cá, ninguém chegou perto. Eu tenho no meu DNA isso aí, tenho. Tacioli — Já se posicionou… Lenine — Consegui, eu achei que ia ser mais difícil porque parecia “Como você se acha, como você se vê?”. Não, pelo que é, o violão é o timão da história, é quem guia. E, sim, aí tem uma linha evolutiva clara na história da música brasileira. E isso o mundo já percebe. Com certeza, o mundo percebe, é evidente esse olhar diferente que nós temos agora. Não é só mais festa, bunda e batuque, não, gente, mudou. Cirino — Nessa história com o violão, você compõe usando somente o instrumento, sem a voz? Lenine — Sim, sim, muito. Todo o Breu foi instrumental. Aí uso só o instrumento. Mas acontece também das canções “psicofonadas”. Parece que elas já existiam em algum lugar, num limbo… Natale — Você foi somente o cavalo… Lenine — E que você, num momento propício, foi só o cavalo. Você foi só a antena. E essas canções independem do instrumento. [Canta] “Ninguém me contou / Foi o meu mano que viu na marujada / Meu amor botou meu nome no pano da jangada.” [n.e. “No pano da jangada”, parceria de Lenine com Paulo César Pinheiro, faixa do CD Falange canibal, 2002]. Não precisa de instrumento. Já nasce meio como grito de guerra. São formas diferentes. Mas, em contrapartida, sempre quando eu falo em composição, falo do outro lado também, da procura. Tem músicas que ficam pra serem terminadas durante meses. E você não acha aquela ponte que está procurando; ela está aqui e você não conseguiu expressar, ou aquela melodiazinha que…, que não tocou aquela corda que a gente falou, sabe? E você fica persistindo até aquilo, de alguma maneira, aparecer, eclodir, mas nem sempre a gente acerta. Max Eluard — Você acredita muito na intuição? O processo racional está à serviço da intuição. Lenine — É, depois. O racional vem depois. Primeiro, deixa o negócio ir, cara, deixa o negócio ir. Max Eluard — Já vi você falar algumas vezes que não consegue trabalhar e fazer as coisas se não for a partir de uma motivação, de um tesão. Lenine — É. Max Eluard — E o que provoca essa motivação, que dá esse impulso? Lenine — É você se impor, simples assim. Lógico que têm alguns mecanismos pra você poder mergulhar de cabeça. Tô em casa de bobeira e “Ah, vou fazer uma música que vai fazer assim…!”. Não, não é assim. É assim como eu falei: daqui a três dias vou ter que começar gravar a trilha do Grupo Corpo. Simples assim. Então, o calendário, o taxímetro tá rolando, a contagem tá rolando, e é uma luta entre descobrir a tempo essas coisas. Aliás, como é pra vocês também, bicho. Vocês têm prazo pra entregar o texto. Você tem aquele tempo. Max Eluard — Claro. Lenine — Tem uma hora em que você tem que abandonar. Se fosse pela gente, ficaríamos ali martelando até descobrir, mas não tem mais tempo. Aí você abandona, você nunca termina nada, a gente abandona as coisas… Tacioli — Lenine, a sua obra está sempre em paralelo com outras manifestações artísticas contemporâneas? Lenine — Porra, sim, eu sempre achei que fazia cinema musical. Aí eu me reconheço… Pode soar maluco o que eu tô dizendo aqui, mas tem algumas coisas de expressão no cinema em que eu me reconheço a ponto de achar que eu poderia transitar ali se fizesse cinema. Max Eluard — O que, por exemplo? Lenine — Ah, vai soar pretensioso, vou dizer não… [ri] Max Eluard — Somente pra materializar, não pra dizer que era isso. Lenine — Mas, sabe uma coisa: quando eu olho pra minha discografia, eu acho bacana ver as coisas pontuais terem atirado para coisas díspares, distantes. E aí eu me recordo: o maior olhar da humanidade que eu tenho conhecimento foi o do Kubrick… Max Eluard — O cara fez dez filmes e todos… Lenine — Espionagem, Lolita. Ficção, 2001… Terror: O iluminado. Violência urbana: Laranja mecânica. Ele é uma inspiração, digamos assim pra não soar capcioso. Ele é uma puta inspiração! Tenho os filmes dele e eventualmente os vejo de novo; sabe aquela história “já podia ter me desfeito?”. Mas eu tenho isso também com A guerra do fim do mundo, do Mario Vargas Llosa. Tenho isso com O Aleph, do Jorge Luis Borges. Eu tenho algumas coisas que é como… Natale — Um poço em que você vai pegar… Lenine — É, eu preciso ter materialmente, eu não consigo me desfazer, tem que estar ali pertinho. Max Eluard — Essa relação com o Kubrick tem a ver com você. Era um cara que, em todos os filmes, tem um quê de estranhamento, mas todos dialogaram com o público, todos fizeram grande público. Foram dez, né?! O cara fazia um filme a cada cinco, dez anos… Lenine — Essa periodicidade é outra coisa que eu me impus. Tem muita gente que é muito capaz e faz um disco por ano. Eu, não, faço a cada dois, três anos, mais ou menos… Max Eluard — Tem uma coisa dele [do cineasta Stanley Kubrick] que é totalmente diferente de você: pelo que eu li, você gosta de trabalhar sempre com as mesmas pessoas, tem um núcleo que você sabe que é fiel. Lenine — É, é. Max Eluard — Já o Kubrick, ele desmanchava a equipe inteira… Lenine — Ele mudava tudo. Mas ele tinha uma dificuldade de lidar com o ser humano. Max Eluard — Tanto que o Malcolm Mcdowell, que fez o Laranja mecânica, é super grilado com ele até hoje. Lenine — É, todos que passaram… Max Eluard — “Como que ele nunca mais me chamou pra fazer um filme?” Ele nunca chamou ninguém pra fazer dois filmes. Lenine — Ele não tinha uma coisa que eu tenho, que é a relação humana. Pra mim é muito importante essa coisa meio familiar, de núcleo, de segurança… Max Eluard — A casa, né? Lenine — Eu sou, eu sou, não sei se é bom ou mal, mas é assim que eu trabalho. E preservo muito isso, esse tipo de fidelidade. Natale — Quando eu falei dos artistas em que você aposta, você citou o Tcheka. Não sei de qual país do África ele é? Lenine — É de Madeira. Natale — Agora você está fazendo uma parceria com o Stewart Sukuma, de Moçambique, não? [n.e. Um dos mais populares músicos moçambicanos. Nascido em 1963, lançou o primeiro disco em 1983] Lenine — É, a gente está vendo a possibilidade de… KK Mamoni — Tá no namoro ainda… Lenine — É. Natale — Entendi. Lenine — O fato é que eu tô — não tô reclamando, não –, mas eu tô trabalhando como um doido, rapaz. Eu nunca trabalhei tanto na minha vida. E isso é bom, não é ruim, não, isso é bom acontecer… A gente tem que priorizar algumas coisas e eu tenho algumas muito importantes pra fazer. Tô no meio de um processo muito bacana que é o Chão. A gente está viajando quadrifônico. Eu fui fazer isso em todo o Brasil, cara, eu rodei pra fora… Max Eluard — Você fez o disco no fim do ano passado… Lenine — Fiz em outubro. Max Eluard — Mas somente agora o show está saindo… Lenine — A gente estreou em março. Levei um tempo até porque a gente foi estudar como fazer. Max Eluard — Fala um pouco do processo, então? Lenine — Deixa então eu situar o Chão. Chão surge com esse meu desejo de fazer um projeto novo. Era um projeto que desde o início ia se chamar Chão. E teriam algumas peculiaridades. A primeira: não ter bateria nem percussão. Eu me impus isso. Nada contra Pantico (Rocha). Pantico é meu baterista há mais de 20 anos e ele sabe disso. (…) Voltamos aos estímulos… Tacioli — Sair do confortável… Lenine — É, de sair do conforto e de procurar outros caminhos para ficar atraente a história. Aí teve uma intervenção divina: eu tinha feito as primeiras duas músicas, na verdade, eram três, mas uma delas caiu depois, e fui gravá-las pra ouvir numa versão diet: violão e voz, boto um beat e vou ali, faço umas coisas e tal. Aí a primeira música é “Amor é pra quem ama”. É uma homenagem, porque a frase “Qualquer amor já é um pouquinho de loucura” é do Guimarães Rosa. É uma fala de Diadorim. [n.e. Ao lado de Riobaldo, é uma das protagonistas do livro Grande sertão: veredas (1956), clássico de João Guimarães Rosa] E eu fui trabalhar essa música. A porta do estúdio estava entreaberta e, como vocês sabem, vazou o (som do) passarinho, o Frederico VI. O Bruno (Giorgi) me chamou a atenção: estava no tom e ele (o passarinho) estava evoluindo com o arranjo. Aquilo foi tão importante e impactante na gente. E ele disse: “Pai, a gente tem que assumir isso! Vamos assumir?” “Bora assumir. Pede silêncio na casa, bota com um puta microfone valvulado na gaiola, silêncio total! Deixa o áudio bem baixinho pra gente quase não ouvir e grava olhando pra tela o tempo da música. Está lá a onda (de frequência), você sabe quando vai terminar. [Imita o Frederico VI] E ele trinava e rodava e tudo, lindo maravilhoso. Terminou a música, bota pra ouvir, e é o que vocês ouvem, não teve edição. Max Eluard — Não mexeu em nada? Lenine — Não. Essa é uma peculiaridade que passou despercebida para a maioria das pessoas. É que difere o Chão de qualquer disco eletrônico: nada foi manipulado! Nada dos sons ambientes foram manipulados. As músicas foram construídas em cima dos áudios de ambientação. Então, foi uma diversão esse “fazer” pra gente que estava envolvida ali. É impossível as pessoas perceberem o grau de profundidade que foi esse negócio. Até a gente chegar a esse tom… Max Eluard — Aí volta para o orquidário. Lenine — Tanto é que Chão começa em volta do meu orquidário. Aqueles passos que você ouve… Max Eluard — Ah, os passos à noite, né? Lenine — Por isso que é circular. Dividi em quatro pontos cardeais dentro do meu orquidário. E você ouve aquilo “tcho, tcho, tcho, tcho” em volta de você. Então tudo foi a partir do Frederico. Os sons do meu cotidiano vão cumprir as funções rítmicas das canções. Tacioli — Mas esse sons do cotidiano têm a ver com os sons da sua… Lenine — Da minha vida diária. Tacioli — Da sua vida? Lenine — É a chaleira! Eu vivo a café com leite, cara! Café com leite o dia inteiro e eu mesmo que coo o meu café. Então, eu boto a água no fogo, a chaleira, e fico esperando. “Siiiii”, quando o tom dá ali, eu já sei se tá na hora. Então na música “Uma canção e só” é o Bruno tentando chegar no tom com a abertura do gás. Ali não tem edição, cara! É tudo “siiii”. [Imitando o som da chaleira] Tudo teve essa não manipulação dos áudios. E aí foi um tiro certeiro descobrir — já no processo do disco — “o show tem que ser surround!”. Nasceu pra ser assim. Nasceu pra ser uma experiência sensorial diferente, porque descolava essa ambientação das músicas. As canções ficaram totalmente despidas. Eu nunca me senti tão exposto na vida quanto nesse espetáculo, porque é uma harmonia, uma voz e ambiência. No verão, as cigarras no Rio são ensurdecedoras. É a máquina de lavar em casa, na centrifugação, e os seres estranhos, “tcho tcho”. Não foi editado: não existe o looping, é a máquina, “tchan tchan tchan”. Max Eluard — No tempo dela. Lenine — No tempo dela, no tempo dela. Tacioli — Você acha que esse trabalho influencia os próximos? Lenine — Ah, não sei. Eu sei que esse trabalho foi influenciado pelos outros. Isso eu digo e explico o porquê: porque o tempo sempre foi fundamental. Se você ouvir todos os meus discos, desde o Olho de peixe, a pausa entre a primeira música e a sequente é o mesmo beat da música que precede. Isso é uma norma que eu não mudo desde então. Max Eluard — Um toque. Tacioli — É um toque. Lenine — É um beat, é um beat. O beat não pode perder, todos os meus discos são assim. São fusões. Talvez em Chão seja mais evidente, porque além disso eu não repeti uma letra, não tem um refrão dobrado e foi todo concebido pra ser uma música só. Aí eu fui mais intransigente. Max Eluard — Um álbum mesmo. Lenine — De conceber o disco como uma suíte até, eu diria. Quase uma suíte, as músicas se sucedem e tem um porquê, eu tô contando uma história ali que é importante pra mim, não precisa ser compreendida por todos. Mas é uma história e essa história foi construída com esse tipo de “não aqui”, “entra aqui”… O som da derrubada da árvore em “Me vergo, mas não quebro” está intencionalmente três DBs mais alto do que todo o disco. E o texto está dizendo: “Envergo, mas não quebro / Mas o que isso significa diante de uma motosserra”. Então eu conto com esses pequenos links; eu não dou tudo mastigado, cara! Eu quero ousar acreditar que as pessoas, numa primeira audição, entendem uma coisa. Na segunda entendem outra, na terceira elas podem entender outras coisas. Os elementos estão lá: eu os coloquei e tudo tem um porquê. Eu sou chato nisso, realmente! Tem um porquê, foi tudo muito alinhavadozinho assim, sabe?! E tem os produtores que são chatos pra cacete: JR (Tostoi), que há muitos anos está comigo, e Bruno. Pra você ter uma ideia do que é trabalhar com filho. [risos] Teve um momento em que ele (Bruno) chegou pra mim: “Pai, essa aqui não tem nada a ver com o disco que a gente está fazendo. Essa aqui parece irmãzinha daquela…”. Cortou seis. Estava com 12 ou 13 músicas. “Porra, vai fazer outras músicas!” [risos] Assim! E eu fui fazer. A primeira que eu fiz foi “De onde vem a canção?”. [ri] Todas as canções que vieram em sequência, foram canções que eu fiz sozinho letra e música. Também eu me impus um tempo. Eu não queria depender de ninguém. Então, a ponto do meu garoto dizer: “Vai fazer outras, velho!” [risos] Muito bom, cara! Max Eluard — E o som quadrifônico está funcionando nos shows? Lenine — Porra! Max Eluard — E não dá pra deixar de lembrar do Quadrophenia, do The Who. Lenine — É, cara, mas não precisa ser Pink Floyd pra fazer um quadrifônico, sabe? O que foi muito bacana e foi surpreendente, e foi uma novidade também, não somente pra mim, mas pra todos da equipe, foi brincar com essa espacialidade de todas as maneiras. A gente faz pra cada música um desenho. Ora de fundo pra frente, ora de lado pra lado, ora em cruz. Agora, e o mais louco, está sendo fazer isso no Sesc Pompeia, porque é aberto dos dois lados. Então, são dois quadrifônicos espelhados. Isso quer dizer, um oito deitado, é infinito. [n.e. Projetado no fim dos anos 1970 pela arquiteta Lina Bo Bardi e com capacidade para 800 lugares, o teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo, é diferente dos convencionais: o palco é cercado por duas frentes de plateia. O público vê tanto os artistas, como também a outra metade dos espectadores] Max Eluard — Que é o símbolo do infinito… Lenine — É. As três primeiras músicas dá uma certa… fica todo mundo sem saber o que fazer até entender. [ri] Quando a ficha cai: “Não, bicho, a gente está mergulhado no som!”. E continua… Aí os caras esquecem de prestar atenção nos passos que estão por ali e focam. Por isso que eu falo sempre que o Chão talvez tenha mudado a ordem da conjugação dos verbos do espetáculo, que tinha se transformado em “ver, ouvir”. Chão é “ouvir e ver”. Fecha o olhinho, velho, ouça! [ri] Tanto é que o Paulo Pederneiras fez uma luz e um cenário que ilumina o suficiente pra mostrar como a gente está fazendo a música, só. Tacioli — Você viu que a gente trouxe a nossa corte também, né? [n.e. Referência ao canto dos pássaros próximo ao local da entrevista] Lenine — Eu ouvi, tô ouvindo. [ri] Tá foda, bicho, som da porra! Tacioli — É o Henrique V. Lenine — Vou contratá-lo! [risos] Tacioli — Lenine, a gente está quase encerrando… Só tem mais uma (pergunta)… Lenine — Mas o papo foi bom pra caralho… Tacioli — Lenine, de Lênin a Deus, do material ao espiritual, qual a sua relação com esses dois planos. Natale — Pergunta bem simples. Cirino — Só pra fechar. Tacioli — Só pra fechar… Lenine — Digamos que eu sou um cético tentando destruir meu ceticismo. Tacioli — Está conseguindo? Lenine — Eu tento. E me aprofundo cada vez mais. Continuo cético. Max Eluard — Um cético sem convicção nenhuma. Lenine — É. Max Eluard — Ou com convicção, mas querendo que as convicções sejam rompidas. Lenine — Com algumas convicções… É, justamente, louco pra destrui-las, louco pra destrui-las. Tacioli — E uma outra coisa, Lenine, agora sobre divisão rítmica. Olhando para sua obra, noto a presença da divisão do ritmo na sua forma de interpretar, às vezes na condução do instrumental, como foi para Jackson do Pandeiro, Jorge Veiga, essa turma toda… Lenine — Jorge Veiga, Miltinho… É de uma importância… Tacioli — É um elemento que diferencia sua música? Lenine — Talvez… Eu tenho um negócio: eu evito muito de interpretar músicas dos outros, mas isso porque eu esqueço as letras. E quando é minha, se esqueço, faço outra na hora e tudo certo, é minha obra. Quando você canta (a música do outro) é uma responsabilidade muito grande. Não é que eu evito, eu faço, participo. Agora mesmo a gente fez um projeto bacanérrimo com o Pedro Mariano que foi o Elis, por eles, em Curitiba. Ele reuniu um bocado de gente bacana. Eu me senti muito orgulhoso de estar ali no meio de intérpretes como Emílio Santiago. Sou compositor mas tem uma cadeira ali como cantor. Mas a minha coisa no cantar é muito intuitiva mesmo quando eu faço uma participação. Aí o cara diz: “Ah, vou te mandar a música pra você dar uma estudada”. Eu digo: “Não mande, não!”. Porque se eu ouço, prefiro preservar o impacto da primeira audição. Ou alguém me chama: “Ah, vamos fazer uma participação numa coisa assim? Vou te mandar a música”. Eu digo: “Não mande, não! Não quero ouvir”. O tom é mais ou menos esse, o registro é esse, esse e esse. Lá, sob esse impacto, a possibilidade d’eu chegar mais próximo da emoção é maior do que se eu estivesse sozinho em casa, construindo uma coisa unilateral. Então eu evito. Não é uma questão de não confiar no meu taco, mas por confiar nesse impacto que a música pode causa e ser fiel à esse impacto. Naquele momento você vai se pôr de uma maneira diferente. Então é assim que tem sido, eu opto muito pela intuição. E preservo essa coisa: não sou muito de cantar outros autores por incapacidade minha, por achar que não sou um intérprete, que sou cantautor, como reivindiquei aqui, mas eventualmente eu canto. Mas é difícil pra mim. Tacioli — Lenine, tem um Lenine cover? Lenine — Lenine cover? [ri] Tacioli — Tem os fãs que te seguem? Lenine — Tem, tem muitos, cara. Tacioli — Tem? Lenine — Tem, mas também não é Lenine cover. É engraçado porque a moçada fã termina se transformando de alguma maneira em amigos. Tem um cara, o Alexandre Pontes, que conhece a minha vida profundamente, mas ele é um cara casado, tem o trabalho dele. Não tem aquela coisa frenética. É um cara que gosta do que eu faço. Procura tudo que eu faço, tem tudo que eu jamais ousei fazer, ele tem tudo catalogado. Ele sabe de tudo e de todos. Então, tem algumas pessoas assim. Mas são pessoas muito bacanas, que têm sua vida, têm sua história pessoal, apenas têm (essa paixão) — como eu tenho por orquídeas. Alexandre é um cara assim, que terminou sendo um amigo nosso. Todo mundo conhece, ele chega finíssimo, sabe? Por isso que eu tô dizendo que sou mal acostumado até nessa moçada que se aproxima. Cirino — Talvez a diferença entre o fã e o seguidor. Lenine — Talvez, talvez. Tem um clima de “Eu sabia, sabe?”. Toda vez que se faz um disco novo, vem os comentários: “É, tá vendo? Eu sabia!” [risos] É muito bacana isso, né? Voltei a Bráulio: “Pioneiro não é quem descobriu primeiro / Pioneiro é que sempre soube”. [ri] Tacioli — Lenine, acho que é isso, obrigado pela entrevista. Max Eluard — Não sei se tem alguma coisa que a gente não perguntou? Lenine — Porra, velho, a gente falou sobre tudo… [risos] Max Eluard — O time do coração… Natale — A escalação do Náutico, do Santa Cruz… Lenine –Não, futebol gosto mais ou menos. Eu gosto das Olímpiadas; tô aí vibrando. Vocês viram o ouro nas argolas hoje? [n.e. Conquista do ginasta paulista Arthur Zanetti na Olímpiadas de Londres de 2012; é a primeira medalha olímpica da ginástica brasileira] Natale — Então, eu li, mas não vi. Max Eluard — O menino ganhou…. Lenine — Bicho, sem tradição nenhuma nas argolas! KK Mamoni — A trajetória dele… Lenine — Um ano, do zero a ser ouro. Natale — Quero ver isso hoje. Lenine — É uma redenção, né, velho? Natale — E é novíssimo: o cara tem 18, 19 anos, não é isso? Lenine — E o depoimento dele? Lindo, cara, de uma delicadeza! E a Adriana, a pugilista, vocês viram? Max Eluard — Não, não… Hoje também? Lenine — Pô, já garantiu o bronze. [risos] Tacioli Mas você tem alguma predileção por esporte, além da prancha? Lenine — Não, gosto de tudo. E durante as Olimpíadas eu fico nos quatro SporTV. Fico zapeando tudo… Max Eluard — E a vinheta que você fez para o SporTV? Lenine — Na verdade não é uma vinheta, é uma canção: “Do it”. Max Eluard — É, sim, sim… Lenine — “Do it” gravei no inCité. Tacioli — A primeira faixa… Lenine — É, por isso eles vieram pedir: “A gente queria fazer ‘Do it’”. Eu digo: “Bicho, mas a gravação é ao vivo. Eu nunca gravei essa música”. Max Eluard — Aí eles produziram… Lenine — Aí, não, eu produzi. A gente foi parceiro. “Então deixa eu produzir, velho, que eu vou fazer diferente”. Chamei parte d’A Parede, do Pedro Luís e a Parede, juntei o JR (Tostoi) e Bruno e, porra, foi bacanérrimo! O projeto todo foi bacanérrimo! E aí ninguém aguenta mais, é só ouvir Brasileirão… [risos] Max Eluard — Não para de passar. Lenine — E é bacana porque a canção é toda no imperativo. Max Eluard — É. Lenine — “Tá cansada, senta / Se acredita, tenta.” Assim, tem algumas coisas mais subliminares, né? A história do “derreta”, que é Jules Rimet, né? [n.e. A taça Jules Rimet que ficou em poder definitivo da Seleção Brasileira de Futebol após conquistar sua terceira copa do mundo, em 1970. Exposta na sede da CBF, foi roubada no dia 20 de dezembro de 1983 e, posteriormente, derretida] Max Eluard — É verdade, cara! Lenine — Ninguém sacou, olha aí, dei essa bola. [risos] Max Eluard — Derreta a taça. Lenine — É, é. Tacioli — Lenine, obrigado! Lenine — Falou, cara! Obrigado a vocês, cara! Eu achei que ia doer. [risos] Tacioli — Dói depois. Lenine — Não, bicho, não dói, não, dói, não! Quando é assim, não dói, não tem possibilidade. Mas eu falei de orquídea pra caralho! [ri] Que bom, velho!

[Enquanto Lenine se levanta e a equipe recolhe os equipamentos]

Max Eluard — Lenine, sabe qual foi a coisa que mais me surpreendeu sobre você durante a pesquisa: que você era dos Trapa heavis. [n.e. Na verdade, o nome da banda era Heavy Trap’s] Lenine — [risos] Você se lembra disso?! Max Eluard — Pô, eu vi os Trapa heavis! Lenine — Os Trapalhões mesmo. Max Eluard — E clareou você lá. Lenine — Era, bicho, entre outras coisas. Tá vendo como era? Natale — Que doideira! Lenine — A gente nem falou. Tacioli — Ficamos no Xarada! [risos] Lenine — Ó, mas é seis por meia dúzia. Max Eluard — Mas o Xarada tinha os dois na frente. Lenine — Tinha os dois na frente, porque no Xarada também são os filhos de Renato (Aragão): Duda e Caxa. Max Eluard — Ah, cara… Lenine — Que são amigos! Bom, eu frequentei o grupo familiar, fiz duas trilhas de filmes do Renato, trabalhei com eles, trabalhei como roteirista do Renato. Então, tenho uma relação com a família. Natale — Muito bom! Lenine — Com certeza, velho, muito bom.

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