LINDOMAR CASTILHO [2002]

Após alguns telefonemas, a entrevista estava confirmada com o Rei do Bolero.

editor do gafieiras
May 15 · 46 min read
Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Depois de alguns telefonemas, finalmente a entrevista estava confirmada. Lindomar Castilho sairia de Goiás para apresentar seu novo trabalho a algumas gravadoras em São Paulo e na primeira oportunidade conversaria com o Gafieiras.

Como de praxe, pedimos para o entrevistado sugerir o local da entrevista. Nada. Tentamos, então, descolar um lugar que retratasse um pouco o universo em que Lindomar Castilho reinou absoluto nos anos 1970 como o Rei do Bolero. Mas, onde?! Lógico, lanchonete Estadão, estabelecimento 24 horas, dono do melhor lanche de pernil da cidade e tradicional ponto da boêmia paulistana.

Na hora combinada, Lindomar chega, cumprimenta a todos e avisa, gentilmente, “Não pode ser aqui!” Mais rápido que o nosso espanto, o autor de “Você é doida demais” (com Ronaldo Adriano) apresentou a solução perfeita: “Vamos para a casa da Lola, minha amiga!”. Longe, mas tudo estava resolvido. Peguei meu violão e embarquei no automóvel da anfitriã.

Ouvir Lindomar me remete aos bons momentos da infância lá em Itapetininga, interior de São Paulo. No fogão à lenha, minha mãe preparando pratos especiais e saborosos e, no rádio, As Campeãs do Programa Barros “meninas segurem-se nas cadeiras” de Alencar. Quem era o primeiro lugar? Lindomar Castilho, é claro, soltando a voz que, como a fumaça do velho fogão, invadia todos os espaços e se perdia no infinito. Assim foi durante toda a década de 1970.

Quis o destino que depois de tanto tempo eu estivesse ali, cara a cara com o discípulo de Vicente Celestino. Confesso que esperava encontrar um senhor alquebrado, triste e magoado pelas peças que a vida lhe pregou — matou em 1981 sua ex-esposa, Eliane de Grammont –, mas à medida que a conversa foi fluindo, emergiu dali um homem forte, articulado e inteligente, que aprendeu e amadureceu com as reviravoltas que testemunhou e protagonizou.

Com esta entrevista, trouxemos à tona uma das mais emocionantes histórias da música brasileira, que daria uma película tão dramática como seus boleros, e viajamos ao passado, no tempo em que cantar era divino, era buscar a redenção. Com vocês, Lindomar Castilho.


{…} expediente

entrevistadores Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Flávio Monteiro, Giovanni Cirino, Max Eluard e Ricardo Tacioli produção Flávio Monteiro e Ricardo Tacioli transcrição e edição de texto Ricardo Tacioli texto de apresentação Flávio Monteiro fotos Dafne Sampaio agradecimentos Lola

Entrevista realizada em São Paulo em 12 de março de 2002.



LOLA — [distribuindo as bebidas] Sem gelo! Gelada! Vocês querem refrigerante? Coca-Cola? Querem um vinho?!

LINDOMAR CASTILHO — [afinando o violão com o diapasão] Gravei um tempão com o Noite Ilustrada na Continental. Bom, com essa viola vai ser meio embananado. [risos] Faz um favorzinho.

RICARDO TACIOLI — Claro.

LINDOMAR CASTILHO — Com uma folha dessa coloque o nome de cada um para que eu possa ler. [Volta a afinar o violão] O Noite Ilustrada toca um violão sarado! Sempre foi o dono da noite de São Paulo. Lembro-me de um de seus primeiros sucessos, “Toalha de mesa” [n.e. Composição de Dora Lopes, Carminha Mascarenhas e Chumbo]. [Canta o título da música] Ele deve ter cantado a vocês um pedaço dessa música. Conheci o Noite num bar perto de onde estávamos [n.e. Viaduto Nove de Julho, Bela Vista]. Depois tive o prazer de tê-lo no mesmo cast, primeiro na Continental, depois na RCA. Um cara bacana!

RICARDO TACIOLI — Faz tempo que você não fala com ele?

LINDOMAR CASTILHO — Vige, rapaz, um tempão! Ô Lo, você me arranja um copo de água, por favor?!

MAX ELUARD — Lindomar, como é que foi sua educação musical, como você tomou gosto pela música?

LINDOMAR CASTILHO — Bom, gosto pela música eu tenho desde criança. É de berço. Venho de uma família de músicos natos, mesmo de lá dos confins de Goiás. Os meus avós foram músicos do interior, lá de Santa Helena [n.e. Pequeno município goiano fundada em 1948; possui hoje cerca de 30 mil habitantes], cidade que fundaram com meus pais. A vó Dica — não confundam com vodka [risos] — foi uma grande violeira. Ela dançava catira, cantava e fazia qualquer vocal. Uma musicista! Isso da parte da minha mãe. Do lado do meu pai, também tem muitos músicos, todos natos. E tive a alegria de ter a orientação, já que desde criança tive tendência musical. Tocava flautim, aquelas flautinhas, hoje não mais existe, acredito. Toquei gaita-de-boca e, posteriormente, pé-de-bode, que é a sanfoninha, atualmente muito em voga. E estudando num colégio interno, o Arquidiocesano Anchieta, tive uma maior orientação musical, pois a música fazia parte do currículo escolar ginasial, bem como latim, que hoje não existe mais. Tive um bom professor de música chamado padre Jair Silva, que me ensinou muito em termos vocais, como usar o diafragma. Por aí comecei a ter uma noção do cantar, sem pensar que seria profissional. Gosto musical, portanto, tenho desde criança. Depois do acordeão, passei a estudar num piano muito velho que tinha no Ginásio Arquidiocesano Anchieta. Tinham também as peças teatrais, as festas do ginásio e as serenatas que já fazíamos em nossa cidade natal, Santa Helena de Goiás.

FLÁVIO MONTEIRO — Quando caiu a ficha “Tenho talento para a música”?

LINDOMAR CASTILHO — Bom, Flávio, não levou muito tempo, não! Estudando com os padres salesianos observei que eu tinha possibilidade de vir a cantar. Eu fazia serenata em Goiânia e numa dessas serenatas fui descoberto. E quando eu menos esperava, como seresteiro, somente, fui convidado a vir a São Paulo gravar o primeiro disco. O disco estéreo começava a chegar ao Brasil, ou seja, o de 33 rotações, o famoso LP, feito com vinil [n.e. O long play (LP) chega ao Brasil em 1951, três anos depois de ter sido lançado nos EUA. Carnaval em long-playing (Capitol/Sinter), com Oscarito, Irmãs Meireles, Heleninha Costa, Neusa Maria, Geraldo Pereira, Marion, César de Alencar e Os Cariocas, foi o primeiro LP produzido no país].

MAX ELUARD — Isso foi em que ano?

LINDOMAR CASTILHO — Em 61. Antes tive uma outra oportunidade que não abracei porque eu não acreditei. Por volta de 1960, o meu padrinho artístico, o Bariani Ortêncio — um paulista, hoje goiano, grande escritor, compositor, homem apaixonado por música e então dono do maior bazar de discos do Centro-Oeste, o Bazar Paulistinha — me convidou para gravar na Columbia, que veio a ser a CBS, hoje Sony. Meu pai ainda era vivo e não queria que eu fizesse carreira artística, porque representava uma carreira de pessoas não tão dignas. Como ele não permitiu e eu não acreditava que aquilo pudesse ser um convite sério para se fazer um primeiro disco, então 78 rotações, não apareci. Veio a segunda oportunidade em 61. Meu pai, infelizmente, havia falecido, e nesse caso, felizmente, eu fui lá. São duas situações incrivelmente distintas: infelizmente, ao perder meu pai, e felizmente, já que tive a possibilidade de vir a São Paulo, um sonho “possivelmente impossível” de ser realizado naquela época por mim, um estudante e trabalhador. Eu era frentista de posto de gasolina e pagava o meu estudo. Em 61 eu já cantava num lupanar. Vocês conhecem bem o que vem a ser um lupanar, não? Naquela época já se usava uma luz vermelha à porta para a identificação devida. [risos] Tratava-se de um cabaré! E ali o meu padrinho artístico — muito sério, não freqüentador do lupanar — levava alguns vendedores de discos de São Paulo para se divertirem, e eu cantava lá. Ele me ouviu novamente. “Mas rapaz, você não apareceu!” E marcou para que eu fosse ao seu bazar um outro dia. Ele iria me apresentar ao então diretor da Continental, Diogo Mulero, o Palmeira, da dupla Palmeira & Biá, criadores de “Boneca cobiçada” [n.e. Bolero sertanejo composto por Sebastião Alves da Cunha, o Biá, e Bolinha, lançado em janeiro de 1957], uma música imortal. “Bom, nessa eu vou! No mínimo fico conhecendo o Palmeira, meu Deus do céu!” Ele fazia um sucesso louco. A priori, está resolvida a sua pergunta?

DANIEL ALMEIDA — Lindomar, antes de seguir a carreira artística, qual era seu sonho?

LINDOMAR CASTILHO — Um sonho a ser alcançado? Ser médico.

DANIEL ALMEIDA — Era isso que seu pai queria?

LINDOMAR CASTILHO -Não, o meu pai queria que a gente estudasse. Ele trabalhava para nos sustentar. Depois que faleceu, as coisas dificultaram muito, embora todos nós trabalhássemos desde criança. Todo mundo tinha que trabalhar, fazia parte da vida de toda família. O meu sonho era ser médico, mas não pude realizá-lo. Depois passei a estudar Advocacia, mas também não terminei. Caramba, hein?! [risos]

FLÁVIO MONTEIRO — E a história do futebol?

LINDOMAR CASTILHO — Futebol! Pois é! Joguei futebol quando eu era criança, como qualquer outra. O primeiro rádio de Santa Helena era um baita de um aparelho desse tamanho, com uma pilha maior ainda. [risos] Era nosso esse rádio. Ouvíamos as emissoras do Rio e algumas de São Paulo e juntava gente no alpendre de casa, um alpendre alto. Era um negócio maravilhoso ver aquela caixinha falando. Naquela época as emissoras já estavam começando a irradiar o futebol de São Paulo e do Rio. Então jogo futebol desde criança. Quero dizer, joguei! Hoje não jogo mais, não, calma lá! Fomos para o internato do colégio e fazia parte do currículo uma série de esportes. Pratiquei vários deles, mas o que eu gostava mesmo era o futebol. Sou um santa-helenense de Rio Verde — quando nasci em Santa Helena era tudo Rio Verde [n.e. Município goiano fundado em 1854, hoje com mais de 100 mil habitantes] –, que ofereceu ao Brasil, entre outros craques, Goiano (Washington), centro-médio do Corinthians e da seleção brasileira. Um baita de um jogador! Era amigo da família e quando ia passar as férias em Goiás jogávamos juntos. Numa dessas surgiu o papo de levar tanto eu como o Coelho — um primo dele, da mesma família, evidentemente, por ser primo é uma redundância doida! [risos] — para fazermos um teste no Coringão. Se isso tivesse acontecido — infelizmente não aconteceu — eu não seria o palmeirense que sou hoje! [risos] O Corinthians é uma doença! Depois do internato fomos a Goiânia dar seguimento aos nossos estudos. Terminado o Ginasial, passamos para o Científico, quando poderia me preparar para as profissões mais exigentes, como Medicina, Engenharia e Advocacia. E sempre jogando futebol, claro! Estive em vários times da várzea, no Atlético Goianiense e em um chamado Sírio Libanês, que pertencia à Primeira Divisão do semiprofissionalismo goiano. O Sírio Libanês depois se juntou a outros times da mesma categoria e formou o Vila Nova, hoje um time até muito bom, ao lado do Goiás. Cheguei a jogar contra Os Milionários do Rio, uma partida memorável! Rapaz, não era brincadeira! Didi, Garrincha, foi um negócio de maluco para quem teve essa oportunidade de estar lá dentro do campo.

DANIEL ALMEIDA — Vocês conseguiram jogar?

LINDOMAR CASTILHO — Pois é! [risos] Era um combinado do Goiânia com o Sírio contra os Milionários. Coube ao Saci — que era o nosso lateral-esquerdo, também de Rio Verde mas que jogava no Goiânia — marcar o Garrincha. [risos]

MAX ELUARD — Ele virou saci antes ou depois do jogo? [risos]

LINDOMAR CASTILHO — Morávamos na mesma pensão. Quando saímos para o jogo, ele falou: “Bom, aquele cara não vai passar pela minha esquerda! Ele terá o resto do campo para passar, mas pela minha esquerda, não vai!” O Garrincha driblava somente pela esquerda do adversário, pela direita dele, Garrincha. Disse que se plantaria em cima da linha! [risos] Saci, um crioulo claro, alto e forte, jogava bonito, era um tremendo marcador. Mas ele não sabia o que acontecia: o Garrincha o tirava da linha e passava! [risos] Eu vi! Eu era ponta-esquerda, já estava quase saindo do time. Joguei muito pouco.

RICARDO TACIOLI — Quando foi isso?

LINDOMAR CASTILHO — 60, 61.

RICARDO TACIOLI — Pouco antes de gravar o primeiro disco.

LINDOMAR CASTILHO — Eu gravei o LP em seguida.

DANIEL ALMEIDA — Existiu o dilema “jogar bola ou vir para São Paulo?”

LINDOMAR CASTILHO — Não, eu gostava mais de cantar. Fazia serenata dia e noite. Estudava e trabalhava! Daí saí do Vila, que havia se formado, era um time mais exigente. Havia horários de treino, segunda, quarta e sexta. [risos]

MAX ELUARD — Não dava para conciliar com a serenata.

LINDOMAR CASTILHO — Não dava, bicho! Não era brincadeira! Serenata era toda noite. Não era mole!

FLÁVIO MONTEIRO — O que você cantava nessas serenatas, Lindomar?

LINDOMAR CASTILHO — Eu cantava música da época, que acabei gravando, e boleros. O espanhol entrava no Brasil com muita nuança. Acabei gravando uma porção de coisas em espanhol. Cantava serestas de Orlando Silva, e como minha voz era mais para fora, eu cantava muita música do Vicente Celestino. O negócio era brabo! É lá em cima! O Vicente Celestino [n.e. Compositor, cantor e ator carioca, 1894–1968, dono de sucessos dos anos 30 como “O ébrio”, “Coração materno” e “Patativa”] foi, talvez, o maior tenor que o Brasil ofereceu ao mundo, um tenor popular, um grande autor, ator e um intérprete sem tamanho.

Monteiro — O Vicente Celestino é sua maior influência musical?

Lindomar — É. Mas tinha um punhado de músicas estrangeiras. Como os jovens hoje seguem a turma de fora, eu também me dei muito bem com o bolero advindo da Espanha, e principalmente, do México, com seus trompetes. O bolero mexicano que entrou no Brasil superou o tango argentino, que era lindo, um sucesso extraordinário em todo o Brasil. Fui muito influenciado pelos nossos seresteiros.

Max Eluard — Como eram as serenatas em Santa Helena?

Lindomar — Hoje a gente fala “Vamos fazer uma serenata?”, que é se reunir com a turma ou com a família — que é muito saudável, muito bacana. Agora, serenata na época era a serenata propriamente dita, na janela da sua namorada ou do amigo, ou do namorado da amiga que estava ali, ou do esposo, da esposa, e por aí afora. À noite, num silêncio de uma cidade pacata como era Goiânia ou Santa Helena, acordar com uma serenata, com uma música ao vivo lá da rua, era maravilhoso. Em Goiânia, o pessoal chegava a colocar um piano em cima de um caminhão para fazer serenata [risos], mas era serenata para o vice-governador. [risos] E sempre aquela pessoa que ganhava a serenata, ou alguém de sua casa, ou saía com a turma engrossando o coro, ou pegava um litro de uísque, pinga ou vinho e ia carregando. “Não canto, mas carrego a garrafa!” [risos] A serenata terminava às 5, 6 horas da manhã. Um negócio muito bacana que hoje não existe mais! Eu me recordo bem quando saiu essa lei do silêncio, que faz com que os bares e as casas noturnas tenham seus sons medidos em decibéis. É um negócio muito certo, mas foi uma perda para a serenata. Os decibéis da serenata são comedidos, são bonitos, são harmoniosos. Não iria se fazer uma serenata com uma música funk, né?! [risos] De repente hoje, por que não?! [risos] O famoso bate-estaca! Certamente essa música não serviria para fazer uma serenata. Acho que foi a partir daí que surgiu essa tal lei do silêncio, que é uma necessidade, mas para a serenata da época não seria preciso. Monteiro — Mas volte à sua primeira gravação. Lindomar — Pois é, veja bem! O Bariani Ortêncio estava no local de luz vermelha à porta e, naturalmente, ninguém poderia saber que ele estava ali. Ele falou: “Apareça amanhã, às sete horas da noite, no Bazar Paulistinha. Termine seu expediente e vá para lá!” Bom, às 6 horas terminou o meu expediente — eu trabalhava na Segurança Pública –, peguei meu lambretão velho e fui para lá. “No mínimo fico conhecendo o Palmeira!” E Goiânia, de uma ponta a outra, fazíamos em 15 minutos, no máximo. Cheguei antes do horário combinado, mas como eu conhecia todos os bares e cantava neles todos, fiquei no bar em frente ao Bazar Paulistinha fazendo uma horinha. Aliás, tem uma moda do Tião Carreiro que diz [canta ao violão] “O bazar do Waldomiro em Brasília o soberano” [n.e. “Pagode em Brasília”, composição de Teddy Vieira e Lourival dos Santos, sucesso de Tião Carreiro e Pardinho]. Então, o Bazar do Waldomiro é o Bazar Paulistinha, que é do Waldomiro Bariani Ortêncio [n.e. Escritor e contador de causos, autor de Cozinha goiana, em que esmiuça a culinária de Goiás]. Eles puxando o saco do maior revendedor de disco do Centro-Oeste brasileiro. [risos] Claro, ninguém é besta! E aquilo foi uma homenagem maravilhosa! Bom, no bar existia o violão dos seresteiros e um biombo separando o “Reservado” [risos], para quem quisesse tocar violão. Fui direto para lá. Tô lá cantando algumas músicas do Vicente Celestino [dedilha o violão] com um violão afinado [risos]. Tudo do Vicente Celestino foi sucesso, tipo Roberto Carlos. No momento em que eu estava cantando, a turma do Palmeira chegou ao Bazar Paulistinha. “Ô gente, vamos comprar um cigarro ali!”. E o Palmeira ouviu um cara cantando lá dentro. [Solta o vozeirão] “Acorda Patativa, vem cantar / Relembra as madrugadas que lá vão” [n.e. “Patativa”, clássico de Vicente Celestino, de 1937]. E em seguida “O ébrio”, e outras do Vicente Celestino. Ele falou para o João Leite — que era o diretor de vendas da Continental — “Você fica aí e leva esse cara para a nossa reunião com o Waldomiro. Vou mostrar como é que se descobre um talento nas barbas dele”. E fui junto com o João Leite. “Vamos ali, vamos ali!” “Ué, gozado, eu também tenho que ir para lá!” O Bariani havia marcado às sete e meia ou oito horas comigo. Ainda eram sete horas. “Bom, vou adiantado mesmo com esse cara!” E fomos. Logo que entrei, o Bariani disse, “Esse é o rapaz”. Aí o João Leite, “Esse era o rapaz que estava cantando!” “Você canta Vicente Celestino?”, perguntou o Palmeira. “Canto.” Todo mundo cantava. Cantei uma ou duas músicas e eles foram ao Bazar — estávamos na casa do Paulistinha, que era no fundo da loja. Canta uma, canta outra, tinha uma pinga boa lá, a festa estava legal, conheci o Biá, que era o parceiro do Palmeira, o João Leite, que era o diretor de vendas — não sabia o que vinha a ser um diretor de vendas de uma gravadora. De repente, eles voltaram com uma lista de 12 músicas do Vicente Celestino. “Você aprende e tira os tons. Waldomiro, você passa por telegrama, porque por telefone de Goiânia a São Paulo leva uns dois dias”. [risos] Fiquei com a lista e cantamos até quatro, cinco da manhã. Depois, o Palmeira foi embora com o João Leite, ficou o Biá e o Haroldo José, um cantor de tango da época, que era guarda civil em São Paulo. Mais tarde, tomei minha lambretona sem luz e fui embora. Tinha que levantar cedo para ir à aula. Mas aconteceu um negócio doido com essa lista, que só há uns dois anos contei ao Waldomiro Bariani, que é o meu padrinho artístico. Morávamos num setor em Goiânia que estava começando, e a nossa casa era praticamente dentro do mato. E como eu estava muito pingão, havia comido muito, o intestino embananou e eu usei a lista! [risos] “Esse povo tá tudo é doido, como é que vou gravar um LP? Não tenho nem eletrola que toca Long Play — a gente não falava direito Long Play –, tenho apenas a vitrola de 78 rotações. Esse povo está doido! Onde é que já se viu? Não sou de rádio, não sou de nada aqui. Como é que eu vou gravar lá um LP, pô?! Pela Continental? Com o Palmeira? Isso é besteira!” Usei a lista e pronto! [risos] Fui embora para a escola, para o meu serviço, sumi! Quinze, trinta dias passados, o Waldomiro aparece no meu serviço. “Bicho, olha aqui! Chegou o telegrama: ”Mande relação com as tonalidades das músicas. Traga cantor dia tal, estúdio marcado. Abraço, Palmeira””. “Mas isso é sério?!” “É, venha comigo, vamos tirar esses tons porque preciso passar o telegrama para São Paulo”. Giovanni Cirino — Quer dizer, você precisava passar esses tons para os músicos de São Paulo. Lindomar — Para as músicas serem orquestradas. Maestro e estúdio marcados. Era o Élcio Alvarez, o maior maestro da época. Fiquei apertado com esse negócio porque eu não tinha mais a lista. Fiz uma. Pegamos um acordeonista para afinar o meu violão na tonalidade, ou seja, no diapasão, tiramos os tons, e o Bariani mandou a relação para São Paulo. Max Eluard — Que não era a mesma lista que eles haviam te dado? Lindomar — Peguei as principais músicas do Vicente Celestino. Ninguém se lembrou, porque era tudo sucesso. Monteiro — E em São Paulo… Lindomar — Daí uns tempos chegou outro telegrama: “Venha, estúdio marcado”. Era o estúdio da Bandeirantes, que já estava mudando da Paula Souza, do outro lado do rio Tietê, de frente ao Mercado Municipal, quando este ainda era uma atração turística. Acabamos indo para lá porque os dois ou três estúdios estéreos de São Paulo estavam sendo usados pelo Vicente Celestino, pela Ângela Maria, pelo Cauby Peixoto, enfim, pelas estrelas da época. “Grava o goiano lá!” E fui direto, cara! Tudo junto, tudo de uma vez, orquestra… Eu nunca tinha visto uma orquestra. Monteiro — Era uma orquestra completa? Lindomar — Grande orquestra! Seis violinos, três cellos, três violas, trompa, por aí. E tocava tudo de uma vez. E tinha também o coral da Eloá, amante do Élcio Alvarez, uma baita de uma musicista e cantora extraordinária. “Chamem o cantor!” Eu estava num canto do estúdio. Entrei e o maestro disse “Veja se está bom!”. Na verdade, ele queria saber se o andamento da música estava bom, mas eu lá sabia que porra era essa! [risos] Rapaz, quando ele contou 1, 2, 3 e 4, baixou a mão, que entrou aquela massa de violino, o Poly [n.e. Músico paulista, multi-instrumentista das cordas, virtuoso em guitarra havaiana] tocando violão, e o Mário Casali no piano, que depois veio a ser meu amigo, fiquei impressionado! Olha, uma das coisas mais bonitas que pode acontecer na vida de uma pessoa! Eu nunca havia ouvido aqueles acordes ao vivo. Monteiro — Nessa época o Poly já tinha disco gravado ou era somente um instrumentista de estúdio? Lindomar — Não, o Poly já mandava disco para o Japão, para tudo quanto é banda do mundo. Quando ele não estava fazendo nada, ele ia tocar no estúdio, fazer um solo. Como a gravação era direta, tinha-se os melhores músicos, que era para não errar. Se um errasse, meu Deus! Eu estava morrendo de tanto tremer, Nossa Senhora!, e ele me perguntando se estava bom. [risos] “Tá maravilhoso, maestro!”. Eu não sabia que ele me perguntava sobre o andamento, mas conhecia os originais. São coisas que acontecem na vida da pessoa que são “incrivelmente indescritíveis”! Ouvi a orquestra pela primeira vez quando eu estava na sala da técnica, mas tudo estava convertido para mono, já que o estúdio era mono. Mas quando entrei, com um monte de instrumento que eu nunca tinha visto, foi um negócio incrível. E para pegar a embocadura, fui até o carro do Bariani e tomei uma lapada de uma pinga que ele tinha [risos], senão eu não gravava. Não dava conta! Em síntese, voltei ao estúdio e gravamos dez músicas. E já no final da décima — “Não vou dar conta de gravar as doze músicas!” — os músicos já não agüentavam mais. Eu pensava que se gravava tudo de uma vez. [risos] Já estava rouco, tanto que a décima música não valeu. Ficaram nove boas. No outro dia gravamos as três que faltaram para finalizar o LP. Almeida — E quando você caiu em si de que havia gravado o primeiro disco? Lindomar — Rapaz, um monte de “nuvem de sonhos” passou pela minha cabeça. Voltei para Goiás e levou quase um ano para esse disco ser lançado. E os meus amigos, “Como é que é?” [risos] “Você gravou ou não gravou?!” Eu cheguei a pensar que aquilo tudo havia sido grupo! [risos] Eu era da Segurança Pública, então andava desconfiado de tudo e de todos. Max Eluard — Hoje em dia fala-se muito da pressão que as gravadoras exercem sobre os artistas populares que vendem muitos discos. Mas você, na década de 70, chegou a 500 mil cópias de um único álbum. Como era essa época? Lindomar — 400 mil e depois 500, mas tive mais de um álbum que vendeu mais de 500 mil cópias. Max Eluard — Existia essa pressão? Como era lidar com as gravadoras? Havia liberdade? Lindomar — Veja bem: tive a sorte de entrar numa gravadora de muito crédito, com um dos maiores, senão o maior descobridor de talentos da época, o Palmeira, que descobriu o Poly, Nilton César, Carmen Silva, Petrônio, Os Incríveis e um monte de gente. Ele punha o dedo, virava ouro! E na parte sertaneja então… Ele foi o primeiro a gravar com a orquestra do Municipal, no próprio Municipal. Foi um negócio espetacular, sabe?! Então tive muita sorte em começar numa Continental dirigida pelo Palmeira, com o João Leite como diretor de vendas. E também com o Alfredo Corletto — que é vivo, e que depois da morte do Palmeira se transferiu para a RCA, levando uma turma muito grande, da qual eu fazia parte — e o Alfredo Lessa, os criadores da divulgação de discos no Brasil. Fiz 12 LPs na Continental. Lá eu tive um dos meus maiores sucessos, “Ébrio de amor”. Foi o meu primeiro sucesso fora do Brasil. Uma vez ao receber o Roberto Carlos em Goiânia, junto com Arthur Rezende — nosso empresário atual, cronista social e amigo pessoal do Roberto –, ele me trouxe uma notícia espetacular. “Olha, estou chegando do México e seu bolerão está em primeiro lugar! O Marcos Lázaro deve te levar lá!” E realmente me levou. Max Eluard — Então era tranqüila sua relação com a gravadora. Não existia uma pressão para você fazer mais sucesso ou para gravar determinadas músicas? Lindomar — A gente tinha que trabalhar dia e noite. O trabalho do artista era mais acentuado. Hoje é mais acentuado o trabalho da gravadora, porque ela faz dirigido, faz um negócio comercial, ela compra o espaço e manda ver. Max Eluard — Antes o que ganhava o ouvinte era o talento do artista. Hoje é um trabalho de mídia da gravadora. Lindomar — Exatamente, um trabalho de mídia, faz-se um marketing e ali se desenvolve o trabalho do artista. Não sou especialista nisso, não, mas é por aí. Almeida — Mas não existia alguma indicação da gravadora ou algum tipo de veto? Lindomar — Na época do Palmeira, a gente levava um punhado de música. “Olha, tenho mais essas aqui!”, ouvia as nossas, escolhia e era isso aí. Depois fomos para a RCA e o Corletto era o diretor artístico. Ele seguia os mesmos caminhos do Palmeira, com quem trabalhou por muito tempo — ele era diretor de promoção na Continental quando o Palmeira era o diretor artístico. Depois ele nos levou para a RCA. Almeida — Isso foi em que ano? Lindomar — 69, salvo engano. Aí veio o senhor Adail Lessa, outro grande homem da promoção, da divulgação, que se chamava Departamento de Divulgação. Depois é que se criou — me lembro bem — a Promoção, os promotores de divulgação, e que hoje é o marketing da gravadora. Substituindo-o veio o Osmar Zan, que está aí na ativa e é filho do sanfoneiro Mário Zan. E com o Osmar e o produtor da minha área fizemos uns 15 discos pela RCA, hoje BMG. Pelo que estou sabendo, a BMG tem explorado muito bem a turma da minha época. Monteiro — Na carreira artística muita gente se perde nesses primeiros caminhos. E você estava contando de seu espanto quando a orquestra começou a tocar. Você acha que isso mexe com a cabeça do estreante, “Puxa, essa orquestra vai me acompanhar!”? Lindomar — Flávio, mexe com a cabeça, mas não pensando que vai ou não ser sucesso, porque o negócio da música em si é algo divino, é um negócio trans-cen-den-tal. Toda a arte é um fato que nos aproxima do nosso Criador. Sobre aqueles acordes eu não me recordo de ter pensado em termos de sucesso, porque o acorde era tão maior, tão grandioso, tão maravilhoso, que não daria tempo de uma cabeça inexperiente, mas de uma pessoa aficionada à música, pensar em comércio. Possivelmente o diretor de vendas, o João Leite, ao ouvir uns acordes daqueles, “Opa, ali pode dar certo!” [risos] Não foi o meu caso, não! Max Eluard — Para você, santa-helenense, com a música no sangue, cantar era uma coisa muito natural. Mas quando você começou a vender 400, 500 mil cópias, como foi esse sucesso, essa fase? Lindomar — Santa-helenense de Rio Verde! Pois é, e isso aqui no Brasil! Porque lançava-se, como acredito que lançam os sucessos do pessoal de primeira linha, como o Roberto Carlos — essa maravilha que Cachoeiro nos ofereceu! — e o Zezé Di Camargo & Luciano, por todo o mundo, nas mais diversas línguas. Começava-se a fazer isso naquela época, pelo menos entendia que sim. Fui lançado para o mercado latino, ora em português para os países de fala portuguesa como nossa pátria-mãe Potugal, ora em espanhol para os países latino-americanos. E tem gente que não é brincadeira, bicho! Vendemos muito disco nas três Américas, em parte da Europa (Portugal e Espanha) e fizemos uma experiência em italiano, que não deu certo, mas a experiência foi feita. Max Eluard — E como se manifestou essa grandiosidade toda? Lindomar — Não acredito que o Zezé Di Camargo pensasse que viria a ser o cantor, o autor capaz de fazer o Julio Iglesias ainda em seu auge, e outros tantos cantores, gravar suas músicas pelo mundo afora. Naquela época, apareceu um sucesso em inglês de um menino nosso. Aqui ele participou de um festival, e a música se tornou um dos maiores sucessos do mundo, meu Deus do céu… Monteiro — Morris Albert. Lindomar — Isso. Tacioli — Com “Feelings”. Lindomar — “Feelings”. O Morris era cabeleireiro ali no centrão, era nosso amigo, lutador. De repente, a música veio de lá para cá, ganhou o festival, e de Frank Sinatra para cima e para baixo foi todo mundo. Pô, não é brincadeira, um negócio incrível! E lá fora os direitos autorais são mais direitos que os nossos. O cara ficou rico de repente. Através de uma música, um turbilhão de riqueza aconteceu na vida dele. Tacioli — Lindomar, depois que você gravou seu segundo disco, teve algo que lhe mostrou que você estava para se tornar um artista de grandes vendagens? Lindomar — No primeiro disco gravei somente Vicente Celestino, portanto, regravações. Vicente Celestino estava vivo e eu o conheci. Era uma pessoa muito exigente. Na época tive que fazer uma “amostragenzinha” para ele, caso contrário, não autorizaria as gravações. Era muito sério! Certa feita, dizem, ele não deixou o irmão Pedro Celestino, que cantava igual ou melhor que ele regravar, suas músicas. Um homem exigente como hoje é o Roberto Carlos. Esse primeiro disco teve sua aceitação a ponto de eu vir a gravar um segundo. Aliás, esse primeiro álbum, tempos atrás… Quem comprou a Continental? Monteiro — A Warner. Lindomar — A Warner relançou esse disco em CD, foi legal. Puxa, como é que se ganha dinheiro, porque esse disco se pagou na época, tanto que fiz um segundo (compacto simples), com “Margarida”, uma música do Lupicínio Rodrigues, que certamente vocês já ouviram falar, um crioulinho lá de Porto Alegre, que, por incrível que pareça, escrevia para as louras. Lupicínio foi uma maravilha da nossa música. Gravei “Margarida”, em que ele versa sobre uma namorada dele, uma loura. Uma toada-baião que foi um sucesso! Em seguida fiz o terceiro disco, Alma, coração e vida. A música-título foi regravada uns tempos atrás pela Joanna [n.e. Música de A. Flores e Wilson Brasil, registrada em 1993 em disco homônimo da cantora] e pelo Trio Irakitan. E uma outra música, “Somente uma flor”, uma rancheira com timbres de mariaches. Tacioli — Foi a partir desse momento que você começou a se utilizar de elementos da música mexicana? Lindomar — Eu diria que sim, porque o outro bolero não era tão mexicano, era mais para o lado da Espanha, do tango argentino. Menos metais, mais cordas, e cordas de todas as espécies, violão, violinos, etc. Era mais harmonioso, o outro era mais agressivo, mais simples, mais popular, voltado para o povão. Em “Somente uma flor” o meu formato começou a ser desenhado. Depois, o meu grande sucesso nacional e internacional veio com o “Ébrio de amor”, que é bem mexicano. Quer dizer, mexicano com o nosso balangandã. Tanto é que o disco que entrava lá não podia ser igual ao deles, “Porque se for igual, já temos o nosso, pô!” Seria a mesma coisa do americano tentar fazer samba. Se ele fizesse igual ao nosso ia sair pior, na minha forma de ver. “Martinho da Vila é melhor, peraí!” Monteiro — Aí é que você enxerga essa transição? Porque na casa da luz vermelha, você tocava… Lindomar — Ah, rapaz, a casa era do Edil. Até hoje não se pode falar em Edil para vereador nenhum [risos], entendeu?! Tem essa marca in-de-lé-vel! Se falar para o Bariani que ele me descobriu no Edil, “Que é isso, rapaz?! Larguei os vendedores e fui embora!” [risos] “Não, ninguém está falando que você dormiu lá, não!” Ele fica louco, é muito sério! Monteiro — Mas nesses lugares você cantava Vicente Celestino e músicos da época. Lindomar — Orlando Silva. Aí logo começou a aparecer o Miguel Aceves Mejia e Lucho Gatica, no bolero romântico, que veio este a ser a escola para mim e para um grande amigo que tive, o Altemar Dutra. Ele, o Carlos Alberto, do Rio, e eu viemos da escola do Lucho Gatica, Pedro Vargas, lá do México, e dos cantores românticos do Brasil.

Monteiro — Aí você citou bem, românticos. Você consegue dizer em que momento houve essa divisão na música que deixou de ser popularesca, mas que vendia bem, e virou o que o pessoal chama hoje de música brega? Lindomar — Que veio a ser música brega hoje. Esse negócio de brega é uma coisa séria. Se você chamasse determinada música de brega, nego virava a cara, “Vai ser besta!” Nunca me importei, não! Porque sempre fui cantor de brega. Brega é exatamente o lupanar [risos], que tudo mundo sabe que é putaria. [risos] Esse negócio de música brega apareceu quando as FMs estavam começando por aqui, e naturalmente, tocando outro tipo de música que não o nosso, 90% importado. Um exagero! 90% de música importada e o resto era de música de cabaré, de brega! O negócio era pejorativo, só que a voz do povo, como já dizem, é a voz de Deus, ela é mais forte. E brega já está no dicionário, já é papo de qualquer roda, e brega hoje é chique. Veja só que volta que o mundo dá! E nossa música era assim consumida nos lupanares e nas feiras, pelo caminhoneiro, pelo homem da fazenda, do sítio, pelos taxistas, pelos bares como o Estadão — embora o pessoal do jornal O Estadão freqüentasse o bar, mas havia a Avenida 9 de Julho. Aquilo ali era entupido dia e noite, 24h. Almeida — Lindomar, quero voltar um pouquinho. Quando você retornou à sua cidade, todo mundo disse “Pô, cadê o disco?!” Como foi isso? Lindomar — Voltei, e como esse tal disco não aparecia, comecei a cair fora da turma, porque eu não sabia explicar. Perguntava para o meu padrinho artístico (Bariani Ortêncio), “Escuta, e o disco?!” “Vou passar um telegrama!” [risos] Era na base do telegrama. Almeida — E dois dias para a resposta chegar. Lindomar — Dois ou três, quando passavam logo. Em síntese, uma vez eu estava entregando um expediente da Secretaria de Segurança e passava em frente a um bar. Tinha uma roda em cima de um radinho. E o radinho a toda. “Ué, conheço essa voz?!” [risos] Fora de brincadeira, lembro do bar até hoje. Esse bar virou uma loja e ficava na avenida Anhanguera, nossa principal avenida. O vendedor levou uma amostra do disco para vender ao Waldomiro. Esse disco também foi para uma emissora de rádio da época, uma das principais, chamada Rádio Brasil Central. E o pessoal estava tocando o disco inteiro num programa da tarde. Daí encostei na turma e fiquei ouvindo. “Pô, companheiro, me dá uma Chora Rita!” [risos] Eu estava todo arrepiado! E os caras comentando “Esse é um cantor novo”. Porra, bicho, foi um negócio ouvir o disco no radinho do bar!”Meu Deus do céu, olha o disco aí!” Caí fora e voltei para o serviço, “Vocês me dão licença, parece que o meu disco chegou”. Fui para o Bazar Paulistinha ver o que estava acontecendo, já que eu havia ouvido umas três faixas no rádio. “Não, rapaz, o disco está lá na Rádio Brasil Central. Você até podia ir lá!” Fiquei esperando, porque o disco ia voltar, mas só tinha um, que iria ficar com o revendedor, o meu padrinho. É por isso que eu falei para evitarmos o Estadão, porque não é brincadeira esse negócio de bar. [risos] Sou super a favor, mas já passei da conta. Monteiro — Seus maiores sucessos, principalmente da fase 70, são composições suas. Quando você começou a compor? Lindomar — Composições minhas e de um parceiro, que está novamente na ativa, o Ronaldo Adriano. Ele esteve um pouquinho fora com o ocorrido comigo em 81. O baque foi muito grande para ele também. Ele foi embora para Uberlândia, passou para uma religião que o proibiu de compor música popular como daquelas que compúnhamos. Ele também ficou um tempão afastado. Bom, comecei a compor ainda na Continental, uma música mais ou menos sacra, que é a “Aleluia ao amor”, que depois a gravei na RCA e para fora do Brasil. Fiz algumas músicas sozinho e só depois firmei essa união com o Ronaldo Adriano.

O cantor e compositor mineiro de Capinópolis Ronaldo Adriano. Foto: Reprodução

Tacioli — Que outros sucessos você compôs com o Ronaldo? Lindomar — Nosso maior sucesso foi “Eu vou rifar meu coração”. Max Eluard — De que ano, Lindomar? Lindomar — Em 78, 79. Esse negócio de época sou meio… Acho que foi na década de 70, quando as gravadoras começaram a colocar no LP “Produção 1971”, sabe? Antes não punham, não! Guardo à toa uma coletânea para a minha filha, porque o negócio dela é música clássica. [risos] Mas estou guardando. Cirino — E como era seu processo de composição? Lindomar — Às vezes estávamos batendo um papo e pintava uma idéia. Anotávamos aquilo. Ou da conversa com o Ronaldo saía um tema. Como o Lupicínio Rodrigues, o Ronaldo também é crioulo e só gostava de loura. [risos] Tínhamos que guardar seu dinheiro para ele não torrar tudo. [risos] A loura!! Uma loura dessa, namorada dele, tinha um ciúme doido, e uma vez tentou contra sua vida. Jogou álcool no corpo e botou fogo. O negócio foi feio, mas um lençol na hora abafou o fogo. “Essa mulher é doida demais!” E saiu a música. Quer dizer, não descrevemos o fato real, mas sim a causa. Ela pegava no pé do crioulo, não era mole! Tacioli — E como foi composta “Eu vou rifar meu coração”? Lindomar — Antes nós não estávamos rifando coração nenhum. Estávamos rifando um violão da serenata. [risos] “Pô, bicho, se a gente rifasse o coração?” [risos] Aí mudamos a temática da música. E “Camas separadas” é uma música muito séria, que versa sobre um casal com filhos que se desentende. A música diz que esse casal deve continuar junto em função direta de seus filhos. [recita] “Até que os nossos filhos cresçam e possam seguir suas estradas”, e por aí afora. Diz respeito a conviver na mesma casa, ainda que em camas separadas. Naquela época não existia essas camas separadas que existem hoje. Cama de casal era cama de casal, mesmo! Monteiro — Essa é aquela [canta] “Na frente deles vou te chamar de querida, e você vai me chamar de meu amor”? Lindomar — Na frente deles, é na frente dos filhos. “Eu amo a sua mãe” “Não, a minha, não!” “Não cara, a gente está falando com o filho da gente. Ó meu filho, ó minha filha, eu amo a sua mãe! Não é a mãe de ninguém, não!” [risos] “Eu amo a minha esposa, que é a sua mãe, que me deu você!” E turma na época, “Mas esse título?”…

Monteiro — Mas as pessoas entenderam de outra forma? Lindomar — Com certeza. “Nós somos dois sem-vergonhas” é interessante. [recita] “Nós somos dois sem-vergonhas / Em matéria de amar / Você porque vai e volta / Eu por lhe deixar ficar”. Isso acontece até hoje e vai acontecer direto. Parece que essa música anda por aí porque a dupla Rick & Renner regravou. Foi um outro estouraço! No programa dominical do Silvio Santos tinha o horário dos calouros. O Silvio também levava cantor profissional para lançar suas músicas. E tinha o corpo de jurados, composto, dentre outros, pela nossa maravilhosa Aracy de Almeida, que era autêntica em tudo, no cantar, no compor, no falar, no proceder, no dar uma nota. Seriíssima. Ela era linda interiormente, linda artista. Agora, em termos físicos, ela não era bonita! [risos] E um jornalista metido a músico, que falavam que era maestro, mas não era nada, somente pianista, o Zé Fernandes, que fazia o tipo mau. Tinha a Aracy que dava a nota, que era dela mesma, nota séria, na concepção dela. Tinha também a mocinha que só dava 10 e o Zé Fernandes que só dava zero e brincava e brigava demais com a Aracy. A Aracy ficava com raiva e saía de cena. E o Silvio precisava ir lá, “Não, calma!”. “Aquele sem-vergonha”, a Aracy xingava o Zé Fernandes no ar. [risos] E aquilo era o maior sucesso da parada! E o Zé Fernandes, sabedor disso, pegou o ponto. Então imaginamos um idílio entre o Zé Fernandes e a Aracy [risos], vocês estão entendendo?! Todo domingo eles saíam brigados, mas no outro eles estavam de volta. “Você vai e volta / e eu por lhe deixar ficar”. E aí nós gravamos a música na RCA. A gravadora levou o Silvio no estúdio para ouvir a música. Falávamos que era o idílio, que eles namoravam. Claro que o Silvio sabia que tudo isso era brincadeira. O Zé Fernandes achou bom pra caramba. “Nessa nós arrebentamos!” E não falaram nada para a Aracy, não! Bom, chego lá e canto um sucesso. “Agora é um lançamento da RCA. Essa música foi composta por mim e pelo Ronaldo, e foi baseada na vida de dois participantes do corpo de jurados”. O Silvio adora isso. “É fulano?!” “Nãoooo!” “É sicrano?!” “Nãoooo!” [risos] Rapaz, quando sobraram somente o Zé Fernandes e a Aracy de Almeida… “Eu sabia! Isso é para eu ir embora!” Aí a cercaram. E o Silvio, “Mas qual é o nome da música?” “Nós somos dois sem-vergonhas” [risos] Ela virou bicho! Foi um sarro! Seguraram a Aracy na marra. Eu tinha que ir lá e cantar para ela. Tenho um respeito pela Aracy! Mas tinha que ir, porque fazia parte do lançamento. Esse negócio foi um “tirombaço” nesse Brasil afora. Nasceu estourado. “Pooooom!” Segunda-feira, a música estava em primeiro lugar. Já se fazia promoção. Segunda-feira todas as rádios meteram a música em um horário só. Max Eluard — E como sua carreira estava no final dos anos 70 e começo dos 80? Lindomar — Estava bem. Anualmente, eu ia a todas as Américas, pelo menos nos principais países. Com certeza na Argentina, México, Estados Unidos e na Venezuela, na época um poderio por causa do petrodólar. Pagavam bem pra danar! E também na França, Portugal e em alguns lugares da África. Em Luanda, Angola, existe um busto meu, com cavanhaque e tudo. [risos] Max Eluard — Honras de estadista! Lindomar — Exato. Tenho uma réplica em madeira que o artista que fez me deu. Eu estava embarcando para lá quando eclodiu essa guerra que continua até hoje. Já acabou a guerra e eles continuam guerreando. O negócio na Angola é bravo demais. Estive lá no ano passado, retrasado, Nossa Senhora, como é que pode?! Max Eluard — Em que momento da sua vida aconteceu aquela tragédia? Lindomar — Foi um momento que não gosto de me lembrar, que não desejo a ninguém. Um momento que não tenho registro. Pessoas que se dizem entendidas em termos de neurologia já me explicaram. Disseram que existe um afastamento de um determinado nervo de outro, e o cara fica, “pluft”, fora do ar. Nem na época da minha defesa consegui me lembrar. Hoje faço questão de não me lembrar. Max Eluard — E o que acontecia em torno da sua vida? Não daquele momento específico, mas em que contexto sua vida estava? Lindomar — Ué, eu vinha trabalhando, estava lançando uma música que veio a ser um dos meus grandes sucessos, “Santa Maria do Brasil”. Estávamos lançando um compacto simples como se faz hoje um single. Então naquela época haviam feito um simples, mas com a mesma música dos dois lados. Um disco promocional. Estávamos trabalhando a música e o lançamento do LP, quando me aconteceu o desastre. E aí foi uma hecatombe total na minha vida. “Santa Maria do Brasil” estava em primeiro lugar e desapareceu da parada porque eu estava fora. Max Eluard — E o tempo que você passou no cárcere mudou sua vida? O que você repensou? Lindomar — Como acontece até hoje, nossa Legislação Penal favorece, na minha forma de ver mui sabiamente, aquele cara que é primário, ou seja, não é bandido! Se acontece uma situação em que é pré-observado por quem é de direito, ou seja, pelos senhores juizes, magistrados de um modo geral, essa pessoa pode responder o processo em liberdade. Acho isso muito certo, porque até que seja provado legalmente, toda pessoa tem que ser considerada inocente. Do momento em que ela é legalmente considerada culpada, ela é culpada. Perfeito? Então, essa faculdade da pessoa responder em liberdade, aquela pessoa que tem uma família, aquela pessoa que tem coisas que garantam que ela não vá desaparecer, fugir aos ditames da própria lei. Isso aí eu acho certo, e eu passei por aí. Fui preso em flagrante e esse flagrante foi relaxado daí uns tempos, três ou quatro meses, coisa assim, e respondi o restante em liberdade até sair minha condenação. E tem cada passagem incrível! Quando fui colocado em liberdade, não tive como ficar em São Paulo, tal era o assédio da imprensa brasileira, que também precisava mandar esse negócio para fora. Max Eluard — O furor em cima do fato também foi em função das questões feministas da época. Lindomar — Na época o movimento estava nascendo e ele precisava se escorar, precisava de pessoas públicas… Acho um movimento muito certo e sério, mas que não, necessariamente, precisava se escorar em fatos lamentáveis. Elas não precisariam… Hoje já é um movimento sagrado e consagrado. Todos nós, com certeza, sempre fomos feministas, pois entendemos que somos iguais, que somos regidos pela nossa cabeça, pela nossa inteligência, pelo nosso formato de trabalhar. Em cabeça nenhuma passou que a mulher não deveria fazer isso ou aquilo. É certo que ela vem de uma luta, que nós não temos nada com essa luta, porque não fomos nós que impusemos que elas não deveriam votar. Não foi da nossa época. Mas a luta delas vem desde então, como outras tantas, trabalhistas e de cidadania. Mas tenho certeza absoluta de que, principalmente pela cabeça dos artistas, do pessoal de imprensa, que são pessoas sensíveis, são artistas da notícia, nunca passou que mulher não deveria votar, ser isso ou aquilo, que eu nem sei o que bem que proibiam que elas fossem. Sinceramente, eu nunca havia pensado nisso! Até por ignorância, por falta de cultura, eu nem sabia que elas não podiam votar! Vim a saber através do movimento delas. “Poxa, fomos votar só não-sei-quando! Temos que ganhar igual”. Sempre achei que uma pessoa pensando igual à outra tem que ganhar igual, seja homem ou mulher ou transexual. Mas movimento é movimento. É um movimento consagrado, e mais do que nunca continuamos feministas, pois entendemos que somos iguais. Mas cada um com seu formato dado pelo Criador, o homem e a mulher, cada um com suas obrigações. Então, foi realmente muito violento, muito forte. Max Eluard — Mas o que passou pela sua cabeça na época? Lindomar — Isso passou. Já era, não importa se sofri ou deixei de sofrer, porque se sofri, já sofri. E hoje isso não mudou a minha cabeça, continuo o mesmo feminista de antes, quando não sabia que existia o feminismo, e ele já existia na França. Eu não sabia por ignorância cultural, por falta de aprendizagem. Dafne Sampaio — Então você não guarda nenhuma mágoa dessa condenação? Lindomar — Não, não! Acho que todo o movimento é válido, mas que não precisa apelar para situações calamitosas, para situações “terrivelmente angustiantes” tanto para a família da vítima como para a família do acusado, para o acusado, para todo mundo. Quando é uma situação normal, não é só a família da vítima que sofre. Nós sabemos que todo mundo erra, todo mundo é passível de erros. O que não se pode é insistir no erro. Então qualquer um pode errar e um erro sempre prejudica todo mundo, não só uma família, mas toda a sociedade. Sempre que me é dada a oportunidade peço perdão não só à família Grammont, que é a família da vítima, da Eliane, mas a toda a sociedade. Não tem nada que justifique, nada! Não existe! Porém, existiu, aconteceu! Fui julgado pela nossa sociedade através da nossa Justiça. Nunca faltei a um compromisso com a Justiça, portanto, com a nossa sociedade. E o que me foi imposto foi cumprido porque eu queria cumprir. Eu estava superatordoado, com quatro dias e quatro noites em julgamento, Nossa Senhora, o cara sai do ar. Tem hora que você não vê nada, sinceramente! Não estou falando que isso acontece com todo mundo, mas o meu caso foi assim. Só posso falar do meu caso, do meu problema, do julgamento que me impuseram, muito natural e logicamente. Tanto é que quando minha condenação saiu, o doutor Valdir Troncoso Peres, meu maravilhoso defensor, uma pessoa íntegra, falou para meu irmão Osmar, “Já foi impetrado não-sei-o-quê, não-sei-quanto, e você pode levar o Lindomar para a casa. Amanhã nós conversamos”. Aquilo foi um negócio esquisito demais para mim, porque eu queria sair dali e começar a cumprir a pena. “Não, já estou cumprindo!” Assim eu estaria saindo daquele turbilhão, gente brigando lá fora, homem contra mulher, mulher contra homem, um negócio doido. E fomos para a minha casa. “Mas, gente, tenho que cumprir a pena, o que estou fazendo em casa?! Já fui condenado!” E lógico que não dormi nada. E eu caí fora! Todos os meus irmãos dormiram, já que estavam todos mortos de cansaço, depois de quatro dias e quatro noites sem dormir, sem comer, sem tomar banho. Para mim, não, eu tinha banho, tinha tudo organizado. Mas é muito pesado, para todo mundo, para as duas famílias, não é só para a família Grammont, não! Para todas as famílias! Cedinho caí fora de casa e fui bater à Casa de Detenção. Fui me apresentar, mas o diretor ainda não havia chegado. “O senhor espera aí!” Todo mundo me conhecia. Deram-me café. “Vocês estão sabendo, fui condenado!” “Você vai falar com o diretor, nós não podemos fazer nada. O senhor não passe da sala de visita!” Aí chega o diretor, que ligou para o doutor Valdir. “Olha, o seu cliente está aqui”. Nessa altura, o doutor Valdir já sabia que eu tinha sumido. Tinham pensado que eu havia fugido! “Seu cliente está aqui, está querendo que eu o prenda. Como é que eu faço, não posso?!” De lá da salinha ouvi o nego falar. “Não pode? Que história mais besta é essa?” Tudo quanto é trem do mundo dava a tal condenação. Todos os jornais em cima da mesa dele. “Doutor Luís, o senhor não está sabendo?” “Sei, mas já vem seu irmão e você vai voltar para casa”. Aí não agüentei! “Aqui não é a Casa de Detenção?” “É” “Pois estou me apresentando” “Mas ninguém pode te prender!” Não tinha uma tal carta de guia, e só depois eu me lembrei, “Puxa, é mesmo, não pode!” Essa tal carta levou uns quatro, cinco dias, moço! Nossa Senhora! Mas saiu. Fui ao Doutor Valdir e ficamos até a tarde, quando o doutor Neto me levou. Apresentei-me e comecei a cumprir a sentença. Max Eluard — Você pensou em abandonar a carreira quando cumpria a pena? Ou você esperar cumprir a pena e voltar em seguida à carreira? Lindomar — Não, não pensei, não! Eu abandonei. Max Eluard — Mas não pensava que poderia voltar? Lindomar — Não. Eu tô careca assim porque a minha família tem tendência, tem careca pra daná, mas até há pouco eu estava com bastante cabelo ainda. Nessa época de cumprir a sentença, eu pegava no meu cabelo, puxava e saía tudo na minha mão. Existe um negócio chamado “cabeça quente”. A cabeça pega fogo, o cabelo cai tudo, e se você arrancar, sai tudo! Tanto é que os médicos “Você vai ficar careca! Depois nasce, mas para quê ficar com essas peladonas na cabeça?” Eu tinha uma rodelas, assim. Então, cabeça quente existe, porque fica fervendo. Não há como estar pensando em disco, não tem jeito, não! Ali com um ano de cumprimento, pedi para trabalhar, para ocupar a vida, senão o cara morre! E a lei de cumprimento de sentença, a lei de execução penal, muito sabiamente, favorece ao sentenciado que trabalha. Se ele trabalha três dias, ganha um como redução de pena. É muito sábio. Por que? Aquela pessoa que trabalha desde criança, como era o meu caso, por exemplo, se de repente parar de trabalhar, o cara endoida, enforca, mata, morre. E essa não é a finalidade da lei. A finalidade é educar. E tem aquele monte de irmãos que não estudaram e que são, em sua maioria, negras, e estão cumprindo sentença. Então, se eles trabalharem, coisa que eles nunca tiveram oportunidade, porque não tiveram família, não tiveram nada, eles não sabem nem como trabalhar, não! Para eles é uma novidade doida! Então, se você trabalhar três dias, você ganha um, cai fora mais rápido. É contado só os dias úteis, mas, poxa, já é uma baita ajuda. E comecei a dar aula de violão e canto. Escola Canto e Violão do Lindomar Castilho, do “Ébrio de Amor”, “Doida demais”. E a “Santa Maria” era o maior sucesso da época, e eu, preso. Poxa, os outros pavilhões exigiram que a escola fosse para lá também. Fiquei conhecendo todos os pavilhões. Existia, não sei se ainda existe, o pavilhão 4 que era dos chamados ocasionais. Foi lá que cumpri parte da minha pena. Existiam outros, bem diferente dos residentes. Residentes, meu Deus, o cara apenado a 100, 200 anos! Com essa escola tive que delegar poderes aos outros e eles não quiseram esse negócio. Foi um problema lá dentro, mas um problema sadio, porque nós levamos teatro para a penitenciária. O Raul Gil ajudava muito até ser assaltado umas quinhentas vezes. Aí parece que ele parou de ajudar os sentenciados. Ele ia à cadeia antes de eu ir preso. Estive com ele umas duas vezes cantando. E quando estive preso ele foi lá. Ajudou muito os colegas cantores. A Gianinni e a Di Giorgio mandaram um monte de violão, violões com probleminhas. Com um mundo de violões fizemos duplas, trios, peças, corais. Fui transferido, minha mãe não dava conta de vir até aqui. Então, pelo menos ali eu estava mais perto. Mas o regime continuou o mesmo. E o diretor da penitenciária: “Nós conhecemos sua escola. Vamos formá-la aqui!” E isso foi feito. Existem três pessoas, e que não digo os nomes, não interessa dizer, que vivem com que aprenderam comigo. Hoje tem sua escolinha, faz sua musiquinha no barzinho, na seresta, seja lá onde for. Tacioli — Lindomar, nesse período em que você esteve preso, quem do meio artístico te visitava? Lindomar — O Raul Gil. Tacioli — Quem mais? Lindomar — Sérgio Reis me visitava sempre, um cara batuta, né?! O Nelson Ned e nosso saudoso Nelson Gonçalves, que passei a ser colega de gravadora. Compus uma música pra ele chamada “Milésima seresta”, quando o Ayrton e a Lolita Rodrigues fizeram, junto com a RCA, um movimento para a gravação da “Milésima seresta” pelo Nelson Gonçalves. Ele gravou. Também gravei, como outros. Ele me deu muito apoio. O mineiro de Ituiutaba, que não é o Moacyr, somos grandes amigos. Ele é um cara espetacular, autor de “Receba as flores que lhe dou”? Monteiro — Nilton Cesar! [n.e. Cantor e compositor mineiro projetado nacionalmente em 1970 com a autoral “Férias na Índia”] Lindomar — Nilton Cesar [risos], a minha comadre Carmen Silva e tantas outras. Essa grande nordestina, autora de um dos grandes sucessos do Jair Rodrigues, era cantora da noite em São Paulo… Monteiro — Roberta Miranda! Lindomar — Um dia a Roberta Miranda, a Aida e seu marido, o Zeca Diabo, que começou comigo, foram lá me visitar. Aí ela me mostrou, “Nós vamos gravar essa música, Lindomar! O que você acha?!” E cantou o “Sabiá”. “Mas rapaz, que música bonita!” “Com o Jair Rodrigues!” “Com o Jair? Vige!” [risos] “Sem erro, o Cachorrão véio! Espetacular!” Então muitos artistas me deram muita cobertura, como o pessoal das rádios AM. Já o pessoal das FMs era um pouco afastado do nosso gênero, nos apelidavam. [risos] Tive a sorte de contar com esses apoios! A Giannini e da Di Giorgio, como eu disse, mandavam violões para nós. Max Eluard — E quando você saiu da penitenciária, Lindomar, qual era a sua perspectiva de vida? Lindomar — Rapaz, acalentar um pouquinho a minha mãe, que ainda era viva, e passar a olhar as minhas coisas que os meus irmãos estavam tomando conta, coisas que eu gostaria de segurar para minha filha que estava sendo criada pela família Grammont. E assim foi e está sendo feito até hoje. Tacioli — Como ela se chama, Lindomar? Lindomar — Liliane. Mas deixem ela para lá, tenham paciência. [risos] Se ela um dia procurá-los, eu lhes peço que a acolham bem, por favor. Ela merece! Mas não a procurem, não! Ela faz balé e estuda Psicologia a meu pedido. Max Eluard — E como você voltou a se dedicar a carreira? Lindomar — Tem a ver com a minha filha. Uma vez ela me ligou e sentiu vontade de conhecer o pai. Por que? Até os 18 anos quando então ela telefonou, ela teve namoradinhos da escola e normalmente os primos, os tios, os pais desses namorados tinham meus discos em casa. Os namorados dela, pelo menos os dessa época, eram pessoas da classe média. E como ela ia almoçar com o maestro Pepe Ávila, seu padrinho, ele dizia, “Filha, olha o disco que fizemos com o seu pai na RCA!” A música dela não é essa, de forma alguma, mas ela ouvia, e aquilo aguçou sua curiosidade. E ela ligou e disse sua intenção de me conhecer pessoalmente. Eu disse que isso poderia acontecer se ela fosse para Goiânia, mas não sem o consentimento da família dela. E isso graças a amigos da minha família que são da família Grammont. Assim, acabamos por organizar isso sem que eu falasse com a família. A gente tem que ter respeito, no mínimo, a essa família tão indultada. Em síntese, na véspera do meu aniversário — não sei se foi coincidência, ou se ela sabia e fez de propósito — ela quase matou o velho. [risos] O negócio foi sério! Fomos apanhá-la em caravana da família no aeroporto. Como todo mundo ficou encantando, ninguém se lembrou que eu não deveria guiar. E eu também não lembrei! “Entra aqui, filha!” Era um fusquinha. Era o que eu tinha, melhor que esse não existia. Foi uma das primeiras vezes que bati um carro. Guio há muito anos e não sou de bater carros. Mas foi no afastar que arregacei o de trás [risos], e eles “Ô, bateu!” “Peraí, você não deve guiar. Saia daí!” Saí, mas já havia estragado o carro do amigo. Fomos para a casa de um tio dela, e no outro dia eu fiz uma festa para ela e também por que era meu aniversário. Nunca fui de comemorar aniversário. [risos] Acho que é uma marca que anuncia o meu passamento. Vou no dos outros, gosto, bato palmas, canto, mas no meu, não! Mas nesse dia foi uma festa maravilhosa! E como permitiram, levei-a para a fazenda dela, em Santa Helena, Rio Verde. Fomos montar cavalo! E na fazendo do meu irmão, também em Santa Helena, fizeram uma pamonhada para ela. Colheram o milho na roça, tudo natural, ela nunca tinha visto aquilo e acho que nunca mais viu. Sei que num determinado momento me deu um negócio de chorar, e fui lá para o fundo do quintal. Fui chorar sozinho. E esse choro durou mais de duas horas. Não dava conta de parar. Descontrole emocional. Sei que o pessoal começou a me procurar, porque se passaram mais de duas horas. Hoje ela faz balé e faculdade, graças a Deus. Tivemos a oportunidade de mandá-la a uma das maiores escolas de balé do mundo, nos EUA. Ela ficou por dois anos. Max Eluard — Mas faltou contar como ela te convenceu. Lindomar — Ah! É! Numa dessas lá, a gente sozinho na fazenda, tinha um violão do agregado, “Ô pai, canta um negócio, o padrinho Pepe me falou…” “Estou parado, não mexo com isso mais, não!” E cantei alguma coisa para ela. Aí ela me contou esse negócio dos pais e tios dos namorados dela. “Você deveria voltar, é a sua profissão. Eu não deixo a minha profissão por nada. A minha profissão é dançarina”, e foi me contando. “Ah, é?!” “É” “Mas você tem que estudar, hein?!” Sempre participei muito de shows beneficentes — muito, não, nunca é muito — e enquanto eu estava recluso, vira e mexe, um juiz me cedia para cantar no Hospital do Câncer, em abrigos de velhos e de crianças. O cara que me levava, era o mesmo que me devolvia à penitenciária. Naquela época eu não havia deixado de fazer esse tipo de participação artística. Já que eu não podia me ajudar com dinheiro, eu ajudava com arroz, feijão, milho, que eu plantava na roça e levava. E a turma “Vamos cantar no dia tal” e a gente ia, não tinha outro jeito. Com o pedido dela, “Vou pensar”. Pensei e achei interessante tentar. E estamos aí. Monteiro — Depois de cumprir a pena, você sofreu alguma represália? E existe ainda algum tipo de patrulhamento? Tacioli — Da imprensa ou do meio artístico? Lindomar — [risos] Existe até hoje. Tem gente que não gosta. Acho que é um direito pessoal, simples. Tem gente que faz até hoje campanha “Não contrate o Lindomar”, usa o veículo dele e prega o pau. Almeida — Mas você já se sentiu prejudicado? Lindomar — Prejudica, prejudica, mas não chega a acaba com a gente, não. A força do trabalho é maior. Isto tem que ter um valor! E o trabalho do cantor é difícil para diabo. Tacioli — O momento quando você ouviu pela primeira vez no radinho a sua música assemelha-se ao momento quando você ficou sabendo que “Você é doida demais” seria o tema de abertura da série Os Normais, da TV Globo? De forma ou de outra, Os Normais te proporciona uma nova e relativa projeção nacional, não? Lindomar — Poxa, até projeção internacional, porque as novelas e a Globo vão para todo lado. Aquela que me deu uma pressão tão braba na época, e hoje lança Os Normais com a minha música, “Você é doida demais”. Nunca vi uma música tão exata! [risos] Fora de brincadeira! Não assisti a todos porque eu estava trabalhando, mas alguém sempre está gravando para mim. Ri demais numa delas, quando dois casais, a querendo participar de um samba, vão parar num morro daqueles do Rio de Janeiro, são assaltados, ficam nus e param num motel. Monteiro — Como surgiu esse disco pela Sony? Lindomar — O diretor da Sony, o Miguel Plopsch, soube que eu estava fazendo showzinhos pelo Sul, pelo Nordeste, pelo Centro-Oeste, e me chamou para bater um papo no Rio de Janeiro. Ele tinha uma proposta. O Miguel foi meu diretor na RCA quando fui preso. Na época eu estava com a “Santa Maria”, que foi um sucesso, e eu ainda devia dois discos para a gravadora. E eles não abriram mão. Falaram com o doutor Valdir e, enquanto eu estava respondendo em liberdade, gravamos os discos. Naquela época tive um contato maior com o Miguel. A gente se conhecia, ele liderava uma banda, e depois se tornou diretor da gravadora. Em síntese, gravei os dois LPs que, aliás, foram lançados. O Miguel sabia o que eu vendia, “Santa Maria” estava lá e os dois discos que deixei não foram mal. Almeida — E tinha clima, Lindomar? Lindomar — Rapaz, o artista… Morre a filha e a mãe, o palhaço vai lá no circo e faz a parte dele. E a parte dele é fazer graça. Aí é duro, mas é a sua arte. Tacioli — Mas como é que surgiu esse disco ao vivo? Lindomar — Como ele ficou sabendo que eu estava fazendo um showzinho pelo interior, mandou a turma me caçar. Localizaram-me em Santa Catarina e fui ao Rio de Janeiro. Tinha uma coletânea da BMG, nesse momento concorrente dele, que estava vendendo para danar, com “Você é doida demais” e aqueles meus originais. “Escuta, você quer fazer essa coletânea ao vivo?” “Poxa, vamos fazer, sim!” O Reginaldo Rossi estava estouradão. “E vamos melhorar essa seleção da BMG. Vamos colocar uma popular mesmo!” E assim foi feito. Gravamos no Teatro Goiânia, que nos foi cedido gentilmente pelo hoje Diretor de Cultura do nosso Estado. Deixa eu ler o nome dele, porque se chamá-lo de turco, ele fica bravo. [risos] Nars Chaub, uma pessoa realmente muito importante em nosso Estado, não só em função desse disco, que foi no começo da gestão dele, mas por que ele continua com um trabalho muito grande no Estado. Mas quando comecei a realizar essa gravação, desafortunadamente, caiu toda a direção da Sony. Isso foi ruim demais para o lançamento desse disco, porque mudou tudo. Monteiro — Esse não é o primeiro seu primeiro disco ao vivo, é? Lindomar — É. Na verdade, foi também o meu primeiro CD e o primeiro no formato ao vivo. Monteiro — É verdade, antes disso você só havia lançado, originalmente, em vinil. Lindomar — Antes era tudo em vinil. A RGE lançou um CD, mas havia saído em vinil. Um disco bom, até! Bom, nós combinamos que o disco seria ao vivo mesmo, porque estavam fazendo muitos ao vivo de estúdio, que fazem até hoje por aí. E foi isso que fizemos, realmente. Tem as nuances de semitonações, muito natural, principalmente para quem estava fora como eu, né? Realizamos dois shows e foram escolhidas as melhores gravações, naturalmente. Hoje estou preparando um outro lançamento. Monteiro — Você tem músicas inéditas? Lindomar — Pois é, nesse disco ao vivo foi tudo regravação. Agora a gente pretende fazer um de música inédita para tentar, quem sabe, um sucesso. Monteiro — Já tem alguma coisa? Lindomar — Já, várias coisas. Sou muito ruim, não decoro fácil. Acho que os meus neurônios foram torrados. [risos] Eu teria que estar com o meu caderno aqui, mas tem umas músicas interessantes dentro da minha praia, dentro do que eu vinha fazendo antes quando eu fazia sucesso. Não sei se estou caminhando certo. Vou falar agora com gente especializada. Tacioli — Então você vai manter a mesma linha que… Lindomar — A linha que eu criei, que sempre tive. Por acaso, nesse tempo todo em que eu estive afastado, não apareceu ninguém na minha praia. Tanto é que os meus discos sempre tiveram meio sozinhos por aí. Deve ser em função disso. Tacioli — Mas Lindomar, como esse período turbulento pelo qual você passou interfere na sua atual forma de composição? O que muda? Lindomar — Olha, para compor a música popular, pelo menos do jeito como eu a entendo, não existe uma regra. Cada um compõe da sua forma, do seu jeito. De um tema ou de um papo nosso, como já falamos, pode sair um tema. De um fato pode ser descrito um outro, como foi com “Você é doida demais”. Gravei um disco que, por certo desafortunadamente, há de ser um disco antológico, já que o gravei dentro da penitenciária. Foi composto na Casa de Detenção, em São Paulo, no final do meu cumprimento, e as outras músicas terminadas no CEPAEGO, que é o Centro Penitenciário do Estado de Goiás, para onde fui. Lá, numa cela improvisada, foi montado um estúdio onde gravei o disco Muralhas da solidão. O saudoso Bolinha Cury achou que a música era boa e pediu para que a Copacabana fizesse um clipe. Ele queria executar a música no programa dele. E esse clipe foi feito aqui na Casa de Detenção, já que era mais fácil para a turma filmar. Depois se deslocaram para Goiânia e completaram as filmagens comigo. Nessa música falo sobre uma carta que recebi da minha mãe, entre as tantas que ela me escrevia diariamente. Uma música muito forte e que o Bolinha pôs no ar. Teve gente que não gostou. As feministas não gostaram, e ele encrencou com elas, pelo que me consta. Eu não assistia televisão, mas me disseram. “Aqui quem manda sou eu. Quem vai tocar sou eu!” Quanto mais diziam para ele não tocar, aí é que ele tocava, porque o povão estava pedindo para que ele tocasse. Essa música foi um sucesso graças ao Bolinha, a minha homenagem, a nossa saudade daquele cara tão bacana, como foi o Chacrinha, para todos nós, artistas da época. Está aí uma prova que a força do povo é muito grande, a voz do povo é a voz de Deus, já diz o dito popular. Para essa música eu tive que me preparar, porque eu não dava conta de cantá-la. Todas as vezes que vou a um show tenho que cantá-la, porque tem sempre alguém que pede. Hoje já resolvi fazer um quadro dentro do meu show chamado “Momento sublime”, em que homenageio as mães presentes, e por que não, as ausentes. E aí, rapaz, é uma choradeira que não é brincadeira, porque o negócio é sério. Tanto é que depois disso tenho que pôr uma música mais “movida” para a turma pular, dançar. Max Eluard — Lindomar, nós estamos encerrando. Lindomar — Gostaria de agradecer a oportunidade e deixar o seguinte recado: se um dia você pensar em fazer alguma besteira, não conte até dez ou vinte, mas sim até 100, mil, 100 mil, um milhão, vá à praia e conte os grãos de areia. Não vale a pena. É isso. Muito obrigado.

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