LOS HERMANOS [dez 2005]

Quarteto carioca é uma das principais referências do rock dos anos 2000.

Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Por Max Eluard

Já faz algum tempo que tentamos entrevistar essa banda. Mas eles moram no Rio de Janeiro e quando vêm a São Paulo é para shows e com a agenda sempre lotada.

Alguma insistência, a ajuda de Bruno Medina e a entrevista foi possível num encaixe, entre a passagem de som e o show que realizaram no Via Funchal, no dia 10 de dezembro de 2005.

No restaurante do hotel esperamos por eles.

A van encostou na recepção e foram descendo um a um, ainda rindo de alguma piada que começou no interior do carro.

A promessa era de uma entrevista sem motes ou ganchos, um bate papo (como todas do Gafieiras), uma promessa que se cumpriu em parte…

Marcelo se preserva, fala pouco. Rodrigo responde a tudo no limite do escárnio. Bruno reflete a cada pergunta e devolve respostas elaboradas. Barba fala sem o compromisso de ser um porta-voz.

Reflexos de um grupo que já passou por muitos dos infindáveis ciclos pelos quais podem passar uma banda no cenário musical. Começaram estourando nas paradas de sucesso, romperam com a gravadora no segundo disco, quase foram relegados ao ostracismo, voltaram à tona e hoje vão se firmando na busca por sua sonoridade.

A busca é o que melhor define a condição desse quarteto carioca. Ele está em busca, mas não para chegar a um ponto final, e sim para crescer nesse percurso.

A cada disco trazem novidades, a cada entrevista tentam se colocar e encontrar uma maneira de se relacionar com a mídia. De quem dependem, para que sua expressão artística transposta em produtos (DVD, CD, shows) encontre seu lugar (a emoção dos ouvintes — para eles; vendagem e retorno financeiro — para quem? não importa).

Oscilando entre momentos de descontração e outros com um quê de tensão, a conversa se construiu. Subjetividades, convicções, contradições, mas em todas as respostas se evidencia a busca.

O tempo passava rápido e estava contra nós, nos olhares cansados de quem já estava na estrada há dias, sem dizer textualmente, deixaram claro que preferiam que o tempo ali gasto fosse mesmo uma soneca antes de subir ao palco.

O papel da entrevista nessa história? Talvez apenas fazê-los perder algumas horas de descanso ou, na melhor das hipóteses, ter contribuído nessa busca.



Entrevista realizada em São Paulo/SP em 10 de dezembro de 2005 por Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Manoela Ziggiatti, Max Eluard e Ricardo Tacioli | Produção de Max Eluard | Fotos de Dafne Sampaio e Henrique Parra | Transcrição de Dafne Sampaio | Edição de Ricardo Tacioli | Registro audiovisual de Manoela Ziggiatti e Max Eluard | Agradecimentos a Bruno Medina


[ Enquanto Daniel Almeida registra em áudio a data, local e o nome do artista da vez, a banda Los Hermanos chega da passagem de som no Via Funchal, onde se apresentaria três horas depois. O quarteto se posta em frente à piscina, na área interna do restaurante do hotel ]

Rodrigo Amarante — Vamos dar um mergulhinho?!
Rodrigo Barba — A água deve estar quente.
Bruno Medina — Esse negócio de água quente é porque o tempo do lado de fora está frio e aí…
Amarante — Porque a água demora pra chegar à temperatura… Tanto é que a água nos mares nesse verão é mais gelada…
Bruno — Eu estava vendo um documentário sobre o urso polar, tadinho dele…
Amarante — É uma vida de merda que ele leva.
Bruno — É solitária, fudida, e agora o gelo demora para desaparecer, aí ele fica com fome, porque tem o aquecimento global… Tadinho dele! [risos] É sério!
Amarante — Tem um período, eu não sei qual é, um período horrível daqueles que não tem nada, somente gelo, né?
Bruno — Mas gelo é bom pra ele.
Amarante — Aí ele deita assim no gelo — porque aquele pêlo é tão denso, tão denso, que ele sofre de calor no Pólo Norte.
Marcelo Camelo — Mas nesses documentários o que sempre vale é o ponto-de-vista… Se fosse feito do ponto-de-vista da foquinha, o urso seria o maior filho-da-puta. [risos]
Bruno — São filhos-da-puta, mas tadinhos!
Barba — É a vida, é a vida! Você não come galinha, vaca?! [risos]
Bruno — Absurdo total! [risos]
Amarante — Eu preciso predar, preciso predar! Mensagem de paz no final!

Ricardo Tacioli — Somente para termos uma ideia, qual é o tempo que a gente tem para a entrevista?
Daniel Almeida — Vocês é quem falam.
Amarante — A gente?
Almeida — A gente pode ficar até às dez da noite. [risos]
Amarante — Não sei, não sei. Vocês pretendem fazer o quê? [risos]
Bruno — Vai depender do tempo…
Almeida — Se forem quinze minutos…
Barba — Tem gente que é mais rápido… [risos]

Tacioli — As entrevistas do Gafieiras não têm um mote, são um bate-papo…
Max Eluard — Já que vocês estão prestes a se apresentar [ no Via Funchal, em São Paulo ], tenho uma questão… A hora do show é a hora do tesão do músico, de tocar e de mostrar o que vocês fizeram em estúdio. Ao mesmo tempo, é um momento cansativo, ficar na estrada, longe de casa, repetir as músicas. Como vocês fazem para minimizar esse efeito negativo de uma turnê?

Amarante — A gente tenta diminuir o baque, mas tem uma hora que não tem jeito. Como se fosse um circo, ainda mais quando é um show depois do outro. Mas acho que a parte menos cansativa, pelo menos pra mim, e acho que pra eles também, é o de repetir as músicas. A sensação não é de repetir, porque a gente vai mudando as músicas, vai mudando os arranjos. Agora, a vida é essa mesma. A cara de cansado… Não tem o que fazer. Acorda às cinco da manhã, dorme duas horas, vai prum lugar, aí dorme mais três de dia, o que não vale nem meia hora da noite, come comida estranha…

Camelo — O fato de ser um grupo é bom. É que nem escola que você vai todo dia: tem sempre as mesmas pessoas, mas cada dia é diferente do outro. O bom é que varia, tanto entre a gente quanto com a equipe.

Tacioli — Mas mudou algo dos shows do começo da banda, ali de 1998, 99, pra agora?
Amarante — Mudou tudo! A gente mudou, mudou o mundo, mudou a música…

Tacioli — Mas mudou algo daquele tesão de iniciante?
Amarante — Não acho que o tesão do iniciante seja maior do que o do iniciado. Eu hoje tenho mais tesão do que nunca! Tesão é meio feio, né? [risos] Me sinto nervoso falando essa palavra. [risos] Não é tesão, é amor, é “eu te amo”! [risos]
Bruno — Eu acho que tem um aspecto nisso tudo que é a transformação de uma expressão artística em produto. A gente não pode esquecer isso. Por mais que seja divertido, e é e tem que ser porque senão a gente não suporta, mas você gravar um disco é pegar sua arte que tá no ar e transformar num produto pra ser vendido na loja. E o show também tem um formato. Não posso chegar hoje no Via Funchal e tocar, de repente, seis músicas. Não posso fazer isso porque tem um formato, um horário mínimo. Eu estava olhando eles falarem isso e contemplando com esse olhar de contradição, porque a repetição às vezes cansa mesmo. Mas tem uma coisa genuína nisso tudo que é o que move isso, que é fazer música. Aí sai um disco novo e você quer, efetivamente, tocar essas músicas novas, ficar feliz com os desdobramentos. Elas se transformam. E tem a recepção dessas músicas em cada cidade. Enfim, é uma situação cíclica, mas que é um pouco diferente.
Tacioli — E como era o panorama sonoro da infância de vocês?
Daniel Almeida — Havia música em casa ou era um primo mais velho quem trazia os LPs…
Camelo — A gente ouvia rádio em casa…
Amarante — Os meus pais ouviam música. Lembro dos domingos de manhã quando eu pensava… “Porra, meu pai tem que ouvir essa parada agora tão cedo?!” [risos] Adolescente, né? Todo domingo era a mesma coisa.

Almeida — E o que era?
Amarante — De tudo. Tudo, não, era MPB e rock, oscilando aí. MPB, Error! Hyperlink reference not valid…. Duran Duran ele ouve até hoje. Um dia desses ouvi num lobby de hotel aquela música… [cantarola] “Don’t say a prayer for me now” [n.e. “Save a prayer”, do disco Arena, 1984]

Almeida — Opa, clássica.
Amarante — Essa música é boa demais! Tem aquela flautinha que parece uma flauta peruana.
Bruno — Deve ser um synth [sintetizador].

Tacioli — Mas e de som, além de música?
Amarante — Tem o peido do meu avô. Um som inesquecível! [risos] Rasgava a cueca e tal… [risos] Minha avó aparecia na sala e falava… “Imagina se isso não sai!” [risos], como se falasse que era legal peidar. Pode peidar! Eram os pais da minha mãe e minha avó era super erudita, apesar de não parecer… Erudita assim, foi bióloga, diretora do Instituto de Educação, foi atriz… Eles tiveram restaurante macrobiótico, comida natural, então o peido era uma coisa social… [risos] Só que meu avô tinha uma técnica de peidar com muito barulho. Ele apoiava na poltrona assim e… Era um show de som! Vrauuu!!!
Barba — Agora eu entendi suas guitarras! [risos]
Amarante — Eu sou a única pessoa séria da família.
Tacioli — Todos passaram a infância no Rio?
Barba — Não, eu passei em Minas.

Tacioli — E como era lá?
Barba — A mesma coisa. Meu pai escutava muita MPB e rock’n’roll. A infância foi assim. Aí na pré-adolescência, 10, 12 anos, comecei a comprar discos.

Almeida — E o que você escutava?
Barba — Na época eu escutava metal e hard-rock. [risos]
Camelo — Progressivo também. [risos]
Amarante — Eu ouvia rock triste… [risos] Tipo Smiths, Cure, U2…

Almeida — Mas tem uma semelhança, não tem? Não digo pelo som, mas de uma aura meio cult…
Amarante — É, o primeiro disco que eu comprei foi do Smiths, depois Cure e U2… mas aí logo depois tem aquela coisa anos 70… um pouco mais velho, cê já sabe de mais coisas… Aí cheira loló e quer ouvir Led Zeppelin! [risos]
Barba — The Doors. [risos]
Almeida — Maior junkie da parada. [risos]
Amarante — É normal. Depois tem a fase Ramones…
Bruno — Eu venho de uma casa pouco musical. Meus pais não eram de comprar discos. Havia uns discos de novela. Via muita televisão e ouvia rádio também, mas despertei pra música muito tardiamente. Vejo que as pessoas costumam comprar o primeiro disco aos 10 anos e comigo fui mais tarde. Brinquei até mais tarde. Só fui me envolver com música quando comecei a aprender teclado, com 14 anos. Quer dizer, fui ouvir música mesmo junto com produzir música. É engraçado porque as pessoas perguntam de influência de teclado e eu não tenho nenhuma. Minha história é muito fragmentada, mas eu acho isso ótimo porque não tenho vício nenhum. Pego as coisas de uma forma muito solta.

Manoela Ziggiatti — E você escolheu o teclado como?
Bruno — Não escolhi. Foi escolhido. Uma vez achei um tecladinho Hering na casa da minha avó. Era da minha tia. Aí eu peguei e fiz um “Cai, cai, balão” e minha mãe achou foda!
Almeida — O melhor “Cai, cai, balão”! [risos]
Bruno — Aí ela uma vez entrou num free shop… e havia essa onda nos anos 90… Meu tio trabalhava na Receita Federal e colocava minha mãe pra dentro pra comprar umas coisas dos Estados Unidos. Aí ela comprou um teclado e disse: “Comprei pra você”. Tá bom. Foi assim que eu comecei a ter aula de teclado. Talvez hoje em dia eu escolhesse guitarra ou algo assim, mas agora tá tarde pra mudar. [risos]
Barba — Nunca é tarde pra mudar, Bruno! [risos]
Bruno — Mas eu tenho preguiça de começar tudo de novo. E o emprego aqui é pra teclado. [risos] Guitarra já tem duas.
Amarante — Eu posso começar a tocar teclado um pouquinho!

Tacioli — Mas você tem noção de outros instrumentos?
Amarante — Ele sabe que tem umas cordas… [risos]
Bruno — É só me dedicar. Meu irmão mais novo começou agora a tocar guitarra e pegou super rápido. O básico.
Barba — Quando se é mais novo pega mais rápido mesmo.
Bruno — É mesmo. Mas o lance é começar, né? Tenho vários amigos que não tem carta de motorista. Porra, o Max [Eluard] tirou no ano passado! O negócio é começar.

Almeida — Vocês estudam seus instrumentos, são CDF?
Amarante — Eu deveria estudar mais, mas ao mesmo tempo… me sinto CDF em outras coisas…
Almeida — Que outras coisas?
Amarante — Ah, outras coisas. [risos]
Bruno — Eu não sou CDF, não. Tenho pouca disciplina pra estudar qualquer coisa. Até hoje tenho pesadelo que tô na escola e que tenho prova. Acordo com o coração batendo rápido! [risos] Porra, aí eu penso “não tenho mais prova na vida, não preciso mais estudar!”. Quero mais isso, não!
Tacioli — Vocês têm ideia de quem é o público de vocês? Vocês conseguem identificá-lo?
Almeida — Fui a um show de vocês em Santos e o público era bastante jovem, fervoroso…
Amarante — O estereótipo é algo que você procura em um tipo de pessoas… Você pode até tentar ver isso pela maioria, mas…
Bruno — É muito difícil.
Amarante — … Porque a maioria é só a maioria, é apenas uma questão de quantidade.
Bruno — Tem também um público que vai aos shows e um outro que não vai. Tenho certeza de que existe quem gosta [do Los Hermanos] e não vai aos shows. Chegar 40 minutos antes, fica uma hora e meia em pé…
Amarante — Eu não iria a um show do Los Hermanos nem fudendo!
Bruno — Nem eu. Bando de malas! [risos]
Camelo — Nem se gostasse! [risos]
Bruno — No show do Strokes [n.e. Com três álbuns de carreira, o quinteto nova-iorquino surgiu no fim dos anos 1990 e se apresentou no Brasil em 2005], que é uma banda que gosto pra caramba, eu já tava ficando com dor nas costas e tal… Então, acho que o público que vai a show tem uma cara um pouco mais jovem. Um pouco. Mas há um público que compra o disco, ouve em casa, que é mais velho. Então por isso que é difícil… Por exemplo, se você pega a internet e entra na comunidade do Los Hermanos no Orkut, é claro que não vai ter um cara de 35 anos… É difícil precisar.
Amarante — Tem uma outra coisa também… Na geografia do show, os mais velhos ficam atrás e os mais jovens ficam animadamente na frente. Se você olha do palco acha que todo mundo tem 15 anos.
Barba — Jovem e empolgado.
Camelo — E mesmo entre os mais jovens têm tantas distinções… Tem uns que são mais sentimentais, outros são mais frívolos… Tem uns coroas querendo tirar onda de que se emocionam também, garotões…
Amarante — As mães… cada vez mais recorrentes… “Ah, o meu filho é seu fã!”… mas ela é fã também, ou é fã porque o filho é fã… É ótimo!

Almeida — Legal ser um elo de gerações…
Bruno — Logo vão falar que a gente é a banda da família brasileira! [risos]
Amarante — O rock da família brasileira. [risos]
Max Eluard — Mas nesses quatro discos vocês perceberam alguma mudança no público, nos fãs?
Amarante — No primeiro não era ainda um público do Los Hermanos. Era um público da música, um público de ocasião… Antes do primeiro disco havia o público dounderground que ia a um certo circuito de shows, porque, de outra forma, não havia como nos conhecer. Depois virou tudo… Televisão, tocava em todo lugar… A partir do segundo disco foi que um outro público, vindo dessa massa gigante, surgiu. No terceiro começou a consolidar… A gente ouviu muito nessa época que “Ah, eu tinha preconceito, mas hoje eu gosto”… Quer dizer, odiavam a gente por causa de “Anna Júlia” e tudo aquilo. Isso começou a acontecer com o Bloco, mas teve mais com o Ventura.
Barba — Também porque o Ventura teve mais espaço que o Bloco.
Almeida — No Ventura vocês já tinham conseguido furar o bloqueio…
Medina 
— Mas é que o Bloco foi catimbado pra caramba lá dentro da Abril. [n.e. Gravadora do Grupo Abril que funcionou de 1999 até 2003 com um elenco de artistas totalmente nacional e que lançou os dois primeiros discos do grupo, além de trabalhos de artistas como Ira!, Gal Costa, Titãs, Mundo Livre, Marina Lima, Capital Inicial, Frank Aguiar, CPM 22 e Maurício Manieri]
Almeida — Como foi isso? Foi complicado mesmo?
Bruno 
— Foi complicado, sim. A descoberta sobre tudo isso foi no final da turnê do primeiro disco e de uma forma muito agressiva. Porque mesmo uma banda que faz sucesso com a primeira música de trabalho não faz sucesso como a gente fez sucesso. Foi muito pesado em cima da gente. A solicitação vinha por todos os lados… A gente praticamente foi catapultada de aluno de faculdade para a Xuxa. Eu me lembro bem de um negócio ilustrador dessa época. A gente tava fazendo um programa de TV chamado A Cara do Rio… numa Bandeirantes local, super troncho… e duas semanas depois estávamos na Xuxa. Então, não deu tempo de pensar e aí os caras já vão indo, vão programando… Quando você vê já tem uma agenda…
Amarante — Nessa época o empresário era junto da gravadora num esquema… Era um empresário indicado pelo cara que, na época, era diretor artístico da gravadora… Era um cara honesto e tal, mas…
Bruno — Ele torcia pra tudo dar certo.
Almeida — Queria que fosse todo mundo feliz…
Amarante 
— Ele falava que a gente tinha que fazer tal programa, a gente não gostava e ele começava com “Essa é sua chance! Essa é sua chance!”… Esse era o fantasma… “Tem que ser agora porque não vai aparecer outra chance dessa”… Chegou uma hora que gente bancou. Vamos ver se acaba mesmo!
Bruno — O pensamento foi esse mesmo. A grande virada de mesa foi num programa que era volta do Gugu das férias. [risos] A gente tava no camarim com um cara que pilotava jet-ski e que havia posado nu na G Magazine… [risos]
Amarante — Eram camarins divididos!
Bruno — Já era uma fase braba e a gente não queria ter ido ao Gugu de jeito nenhum. Foi uma puta negociata mafiosa. Quando começou o programa, o Gugu tava de braço quebrado, entrou atrasado, jogaram a gente no palco, soltaram o playback e falaram “Vai! Vai!”.
Amarante — O Marcelo tinha guitarra, mas eu não tinha. O Bruno também não tinha teclado e nem o Barba bateria. A gente ficou de braço cruzado, abraçado, sei lá…
Almeida — Isso sem cantar nem nada?
Camelo 
— Eu fui tentar conquistar o Brasil! [risos]
Amarante — Mas é porque ele não tava se sentindo mal. Ele cantava a música, tava com a guitarra na mão, mas a gente… E não foi que a gente decidiu cruzar os braços?! Não havia o que fazer… O que a gente ia fazer naquela situação? Dançar?
Camelo — O melhor foi o recado da mãe do Bruno no celular… “Que absurdo!” [risos]
Bruno — “Que palhaçada é essa? Tá maluco?” [risos]… “Porra, mãe!”…
Amarante — Acho que o Bruno falou “Foda-se!” pra câmera… [risos]
Bruno — Não sei… Fiquei muito puto com aquilo. Foi tudo muito absurdo! E o sentimento foi o de “Se é assim acho que não quero”.
Amarante — Foi nesse dia que havia uma mulher pelada num chuveiro?
Bruno — Devia ser.
Camelo — Mas isso era o de menos… Como se as pessoas cheirosinhas, intelectuais, fossem melhor que o cara que posa na G Magazine…
Bruno — Mas o lance não é esse… Aquilo tudo mostrava que tipo de entretenimento tava ali pra ser causado… O cara tá ali pra falar da piroca dele e a gente pra fazer um playback!
Camelo — E o ruim disso também é o tipo de exposição que a gente ganha… Chegar lá e tocar uma música dublada e ficar desconfortável com isso…
Max Eluard — Qual seria a diferença se vocês não tivessem passado por tudo isso logo de cara?
Camelo — A maneira da gente descobrir o tamanho do nosso desconforto foi sentir o desconforto. Foi a maneira que a gente aprendeu. Ah, as discussões são muito subjetivas: “Fazer playback ou não fazer playback?!”, “É a sua música ali, é você, qual o problema?”. Pra tudo existe uma argumentação subjetiva… E a gente foi com espírito jovem e desbravador tentar fazer as coisas que diziam pra gente que eram importantes para a nossa carreira. E a gente foi tateando, descobrindo o que era tranqüilo fazer e o que nos dava desconforto. Hoje a gente tem essa medida com muita clareza. Acho que ter passado por isso nos dá o exato peso das coisas.
Bruno — A grande medida é tentar refletir sobre… Acho que só existe um jeito de fazer isso… porque é claro que você sempre pode fazer um pouco mais, ceder uma coisa aqui, fazer uma coisa desconfortável… mas a medida é essa, é o nosso Norte até hoje: o que eu sinto bem fazendo e o que não… Isso também pode mudar, claro, mas a medida é essa… “Ah, o programa tal tem 45 pontos de audiência!”… mas eu não quero aparecer desse jeito! E as pessoas em sua volta te cobrando, falando que vai ser uma merda porque se fosse ao tal programa era certeza de três meses de shows… É uma merda! E não tem nada de heroísmo, não, a gente não é uma resistência heróica… É simplesmente a medida que se você todo dia fizer uma coisa que não quer, uma hora fica ruim.
Amarante — Como esse caso do playback… A gente não faz playback. Então a gente tem um contrato com uma gravadora, a gente faz um disco e eles vendem esse disco. Pra vender o disco eles promovem… E aí é que tá a nebulosa, né? Mas nessa relação, que deve ser uma relação madura, boa, as pessoas tendem a achar que a gravadora é um patrão e o artista é empregado. Só é assim se o artista quiser e se sentir bem. Alguns se sentem bem assim. Mas a gravadora pergunta o que a gente prefere fazer e a gente prefere tocar. Aí entra outra questão porque o som da televisão é tratado como qualquer coisa, porque o playback é o praxe. Então, tocar na televisão é, normalmente, muito ruim. O programa que te chama não deixa seu técnico de som, que conhece sua música, mexer na mesa. E isso não faz nenhum sentido porque o técnico do programa não conhece o som que vai vir. É uma coisa meio arcaica, meio amadora. Precisaria ir mais vezes, conhecer os caras e, a longo prazo, conseguir fazer o som ficar bom. A gravadora pode dizer: “No playback o som é bom e se tocar vai ficar uma merda”. Realmente. Mas a gente até falou com a gravadora [n.e. Sony BMG] pra ver se não é possível conversar com as emissoras de TV e tentar mudar esse padrão. É um esforço de longo prazo.
Bruno — A qualidade tem pouca importância
Max Eluard — E em um mundo ideal como deveria ser a relação do artista com a gravadora? Sem pensar na relação que vocês têm com a gravadora ou no que ela não faz…
Amarante — A relação é conseqüência do contexto. Não sei como seria um mundo ideal. Não existe o ideal… O ideal é o agora. E agora as gravadoras têm menos dinheiro. O ideal é vender o disco e ganhar dinheiro. Ser justo pra quem fabrica e pra gente que grava. Agora, qual é a porcentagem justa? Qual a ação ideal? Tem muitos detalhes e é o contexto que diz.
Bruno — Acho que em termos de obrigações a gente tem uma relação muito boa já faz tempo, desde o Ventura. Não chega até a gente a sensação de obrigatoriedade de nada. Não foi falado em momento algum que a gente tinha que fazer um programa de muita audiência nesse disco. Se a gente quiser fazer eles correm atrás, mas se não falar nada… Pode até existir essa pressão, mas não chega até a gente, é filtrado. Hoje em dia estamos numa posição confortável.
Camelo — A gente é mais dono do nosso espaço agora. Antigamente as coisas eram impostas e hoje em dia são mais conversadas…
Bruno — Foi um espaço conquistado…
Barba — A gente foi juntando ao redor pessoas que gostamos. No começo não havia isso. Empresário, produtor, assessoria de imprensa… Elas é que não deixam chegar na gente essas pressões. Elas sabem o que pode, o que não pode.
Camelo — Mas isso foi conquistado por causa do êxito dos discos. No começo, quando você não tem nada a oferecer, existe pouco poder de barganha. Mas até que conseguimos alguma coisa…
Amarante — Uma das coisas que a gente conseguiu no primeiro disco foi não colocar foto nossa na capa… “Ah, vocês são banda nova e têm que aparecer na capa!”… A gente não via razão alguma pra aparecer na capa.
Camelo — Isso que o Barba falou da gente montar um time é coisa recente…
Amarante — E outra… O pessoal de gravadora também mudou muito nesses últimos cinco, seis anos… Não sei se pelo contexto ruim ou porque mudaram mesmo… Diretores artísticos mais novos, como é o caso do nosso [n.e. Bruno Batista, diretor artístico da Sony BMG]… Eles entendem que a gente sabe o que quer e sabe o que é bom pra gente. A gente não faz a música para o nosso público? Então a gente há de saber o que coloca no clipe, o lugar em que a gente quer tocar… É muito diferente do que era na época da Abril, que era uma gravadora…
Barba — Bem legal! [risos]
Camelo — Os outros diretores artísticos que a gente teve eram bem mais velhos e não entendiam… No nosso caso houve briga por causa do título da música… Havia um nível de intromissão que hoje é inaceitável pra gente… Mas isso era com todo mundo de lá [na Abril]…
Amarante — Lá era tudo errado. Tudo era pensado para o mês seguinte. Era tudo pensado a curtíssimo prazo. Tanto é que a gravadora surgiu, ocupou a maior fatia do mercado e depois faliu, em muito pouco tempo.

Almeida — O Bruno falou dessa pressão… mas vocês chegaram a entregar o disco, né?
Barba — O Bloco? A gente terminou, entregou… tudo certo.

Almeida — Mas se era uma marcação tão próxima como vocês conseguiram?
Barba — A gente enrolou eles.
Bruno — A gente foi pro sítio e disse que não queria ninguém lá. A gravadora era em São Paulo e o sítio em Piraí [n.e. Interior do Estado do Rio de Janeiro], então o cara tinha que pegar avião até o Rio e depois um carro até o sítio. Eles não queriam, mas como estavam também curiosos, deixaram. Depois a gente escolheu gravar no estúdio do Chico Neves que é mínimo, do tamanho de um quarto. É um estúdio que não comporta visitantes. Se for uma pessoa já fudeu! E tudo isso era uma escolha consciente… ou insconsciente. Então a gente foi protelando o máximo que podia. Quando mostramos a primeira coisa, eles não gostaram e aí começou o cabo de guerra. Foi foda!
Barba — Faltou uma malandragem… Se a gente tivesse mostrado de pouquinho em pouquinho… mas não dá pra saber…
Amarante — É… e o Chico [Neves] também já conhecia aquelas cobras todas… Ele ficou muito do nosso lado, chegou até a esconder o HD… [risos]
Camelo — Foi maneiro.
Amarante — Depois os caras [da gravadora] pegaram o HD, né? [risos]
Tacioli — O segundo, o terceiro e o quarto discos de vocês têm uma unidade forte. O primeiro destoa um pouco mais, apesar de coisas em comum…
Amarante — O primeiro disco… a gente nunca havia pensado em gravar disco. Tocava as músicas pelas ruas e alguém falou… “Querem gravar essas músicas?”… “Queremos!”. O segundo foi… “Querem gravar um disco?”.
Bruno — Aí foi pensado como disco.
Amarante — O Marcelo compôs músicas pensando em um disco… e que poderiam ser gravadas outras, e que poderiam ter outros instrumentos…
Barba — O primeiro foi mais um projeto para o qual a gente foi chamado… Um momento-projeto… e depois foi ganhando vida…
Camelo — Mas consigo ver no primeiro disco uma identidade melódica e temática da gente.
Barba — Não tô dizendo que não havia, mas foi uma coisa mais sua, que você centralizou, porque eu não conhecia o Ruivo [Amarante], nem o Bruno… A gente tava se conhecendo…
Amarante — E as músicas eram praticamente todas suas… Claro que tem mais a ver com você porque você continua compondo… mas era mais cru.
Tacioli — Lembro de uma entrevista na época da Abril que vocês definiram o disco como lovecore…
Camelo 
— Porra!
Amarante — A gente falava isso de sacanagem! [risos]
Tacioli — Mas havia uma verdade ali porque se falava muito de amor, de tristeza…
Camelo 
— Quando a gente começou a tocar a maioria das bandas fazia uma relação direta entre a agressividade e o rock. Como se essa energia que o rock evoca somente fosse canalizada para uma direção… essa indignação jovem só poderia ser canalizada para a raiva…
Amarante — Mas isso era mais o hardcore…
Bruno — Era um pouco em tudo… Falar palavrão era do caralho!
Camelo — E o nosso primeiro disco já olhava as coisas de outro jeito, mais emotivo… Então, falar de amor era um diferencial nosso. Hoje em dia é até banal! Tem muita banda fazendo isso, mas naquela época não havia, não.

Max Eluard — Vocês pensam em vocês, no papel que desempenham, na evolução do trabalho…
Camelo — Não. Acho que a gente só consegue fazer porque tá distraidão [risos], pensando em ser feliz. Gostar do que está tocando! Mas, ao mesmo tempo, há uma avaliação diária por causa dos shows, porque a gente vai ali numa cidade e apresenta… então a gente precisa fazer umas avaliações, sim…

Tacioli — E na hora de gravar, na construção de um álbum… como vocês definem essa unidade?
Camelo — A gente vai fazendo os arranjos…
Amarante — A gente toca.
Camelo — Até ficar bonitão! [risos]
Amarante — Tá bonitão! Vamos fazer outra! [risos]
Bruno — No início a gente não planeja nada. A gente vai tocando e fazendo.

Max Eluard — Mas o primeiro momento é solitário, de vocês como compositores? O Marcelo faz as dele. O Rodrigo faz as dele. E depois trazem pra discutir com o grupo, fazer os arranjos…?
Amarante — Mas a discussão é musical, entendeu?
Barba — É assim. A gente vai tocando.

Almeida — Vocês dois [Bruno e Barba] não se arriscam a compor?
Camelo — Ô, como se arriscam!
Barba — O Bruno compõe!
Bruno — Não componho, não. É uma coisa muito específica. As pessoas acham que, por eu ter um blog eu poderia também fazer umas letras, mas é totalmente diferente. Acho uma arte complicada essa coisa de você dizer o que quer dizer e, ao mesmo tempo, respeitar uma métrica. Não me esforço muito, não… Até poderia fazer, mas por enquanto eu tô bem representado. [risos]

Tacioli — O Barba…
Barba — Não. Passo longe! [risos] Essa eu passo.
Camelo — E, ao mesmo tempo, são muito responsáveis por tudo que a gente toca.
Amarante — Falando nisso agora parece que a gente tá querendo compensar… Mas a verdade é que a gente faz as nossas músicas junto. As pessoas só conhecem nossas músicas nesse contexto de nós quatro. Se não rolar entre nós quatro, a gente não grava. É difícil separá-los [Bruno e Barba] das composições. As músicas são apenas um embrião, mas somente acontece mesmo o que a gente chama de Los Hermanos quando a gente toca. Nós quatro!
Tacioli — E projetos individuais?
Amarante — Eu queria ter uma companhia de dança… [risos]
Camelo — Tem várias coisas, mas é difícil arcar com compromissos, mas também é bom demais ter isso da banda.
Bruno — É muito amplo. Parece apenas uma banda, mas é uma empresa com todos os detalhes. Vai desde a escolha da estampa da camisa que vai ser vendida no show até negociação do clipe…

Max Eluard — Vocês cuidam de todos esses detalhes? De todos os produtos que saem da banda?
Bruno — É. Às vezes é um inferno…

Almeida — Mas vocês se dividem em gerentes…
Bruno — Assim não, mas existem interesses específicos que acabam levando…
Camelo — É a democracia da vontade.
Bruno — Gostei! [risos] Por exemplo, eu lido mais com o site porque causa da minha relação com a Internet. Então, sou mais crítico com o site. Assim vai…

Almeida — Em relação a releases e textos…
Amarante — O Bruno é o nosso biógrafo.
Barba — A regra é clara!
Bruno — A gente é como a Holanda de 1974.
Camelo — O carrossel.
Bruno — Ninguém tem função fixa. [n.e. A antológica seleção holandesa de futebol, de Cruyf e Neskeens, que, na Copa da Alemanha de 1974, apresentou um esquema tático em que os jogadores não tinham uma posição definida. Esse esquema ficou conhecido como Carrossel Holandês]

Max Eluard — Vocês pensam a longo prazo ou é algo como fazer o disco, depois os shows e depois pensa no que vier pela frente?
Bruno — É difícil pensar a longo prazo. É frustrante até. Estabelecer metas…
Amarante — O que a gente faz é em função ao que a gente não sabe direito… que é o que a gente vai ser, o que a gente é… É muito legal a sensação, quando a gente tá no sítio, de ver o ponteiro da hora girando… A gente sente que virou uma outra hora, mas é somente porque a gente tá retratando aquilo, entendeu? Cara, a gente só descobre o que tá fazendo, fazendo. Não é da boca pra fora.
Bruno — Acontece muito isso. Depois de um tempo,“Nossa! Eu fiz isso porque tava ouvindo tal disco na época!”, mas na hora não se percebe. É legal isso.
Amarante — Ou descobrir umas coerências que pintam, anos depois.
Camelo — “Nossa, essa música é igual àquela outra!”

Almeida — Isso acontece?
Camelo — Acontece, mas deixa pra lá! [risos]

Almeida — Mas, Rodrigo, você tem mesmo uma relação com dança ou foi uma piada?
Amarante — Eu tenho. Quer dizer, é meio piada, meio sério. Tipo eu! [risos]

Max Eluard — Mas você disse que era um cara sério…
Amarante 
— É que minha irmã também dança muito bem…
Barba — … “Também dança muito bem” é ótimo! [risos]
Amarante — Já viu ela dançando, cara?
Max Eluard — Mas voltando à questão da distração. Vocês sentem em algum momento que precisam se distrair, relaxar, e não prestar muita atenção nas coisas?
Camelo — Acho que o jeito que nós quatro, o jeito que a gente vê o mundo tem um equilíbrio ótimo… A gente não precisa ficar preocupado com nada, porque é nosso próprio jeito de ser… A gente é muito diferente, olhamos coisas diferentes no mundo, escolhemos coisas diferentes pra prestar atenção e é por isso que funciona… Posso estar descuidado em um momento, mas o Bruno está atento, e vice-versa. A gente ouve muito um ao outro. É natural! A gente é muito fruto do que a gente é, do nosso jeito de ser.
Amarante — A gente não é a mesma pessoa, não mesmo! Imagina, quatro Brunos!
Bruno — Porra, quatro Brunos seria o Devo! [risos] [n.e. Uma das bandas mais importantes do new wave norte-americano que estreou em 1978 com o disco Q: Are we not men? A: We are Devo!, produzido por Brian Eno]
Amarante — Quatro Barbas seria o ZZ Top! [risos] [n.e. Trio de blues-rock surgido nos Estados Unidos na década de 1970] Quatro Marcelos seria a Al Qaeda! [risos]

Tacioli — E quatro Rodrigos?
Amarante — Quatro Rodrigos… os Ursinhos Gummy! [risos]

Tacioli — E a relação de vocês com a cidade de São Paulo? Já existia antes da banda?
Camelo — Visita de colégio ao Instituto Butantã.
Barba — Rolou isso? Você veio mesmo?
Camelo — Vim.
Amarante — Morei aqui quando era pequeno…
Camelo — A gente gravou o primeiro disco aqui. Ficamos uns dois meses.
Amarante — Chegamos de ônibus em Santana… Um puta frio!
Camelo — A gente parecia retirante. [risos]
Bruno — Lembro que cheguei depois porque tinha prova na faculdade. Aí cheguei na Rodoviária do Tietê… Haviam explicado que Santana era tranqüilo de se chegar… Aí peguei um táxi, falei que era pra ir pra Santana e o cara… “Puta que pariu! Tô há três horas nessa fila e você quer ir aqui do lado?!”… “Porra, desculpe, cê quer que eu pegue outro táxi?”, “Não, beleza, tem que servir o passageiro!” Cheguei em São Paulo!
Tacioli — No primeiro disco tem participação do Roger, do Ultraje, né? [n.e. O líder do Ultraje a Rigor divide os vocais com Camelo na última faixa do CD, “Bárbara”]
Amarante — É mesmo? Não lembro. [risos]
Bruno — É aquela coisa que a gente falou do primeiro disco… A gente queria cooperar… Tava feliz por gravar um disco e aí vem o pessoal da gravadora e diz que seria ótimo se tivesse uma participação… “É mesmo?” O Roger era da mesma gravadora e acabou rolando de ser ele…
Camelo — E ele apareceu pra dar uma força… “Os moleques começando…”, mas não havia nenhuma relação dele com a gente.
Amarante — Não tinha nada a ver. Nada contra. A gente gosta do Ultraje, mas é aquela coisa de participação que a gente sabe como é… Não tem nada a ver com música. Era pra dar um gás e tal.

Almeida — E vocês nunca mais repetiram isso de “chamar” ilustres para os outros discos…
Bruno — Não.
Amarante — Não. Mas até poderia se fosse o caso…

Almeida — Ainda mais por ser um processo de isolamento de vocês…
Bruno — Com certeza. Acho que não tem espaço mesmo para o quinto elemento, não!
Amarante — Mas gente sempre tem os amigos que vieram se juntando… o Bubu [n.e. Gabriel Bubu, baixista e guitarrista], o Kassin… [n.e. Produtor dos discos Ventura e 4]
Barba — O Stéphane… [n.e. Stéphane San Juan, percussionista]
Amarante — Várias pessoas participaram dos nossos discos, mas são amigos, não são ilustres, nada de adesivo na capa do disco… “Participação de…”
Barba — A gente vai esquecer alguém… [risos]
Amarante — Se esquecer, desculpa, viu? [risos]
Almeida — Mas já aconteceram encontros informais? Numa outra cidade? Em show?
Bruno — Já aconteceu com o Pato Fu… O Catatau participou desse disco… [n.e.Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, tocou guitarra em “Fez-se mar”, do disco 4] A gente participou de disco da Adriana Calcanhotto [n.e. Tocaram em “A mulher barbada”, do CD Cantada, de 2002], shows com o Moreno, Domenico e Kassin… Vai acontecendo…
Barba — Mas é sempre quando alguém, ou todos da banda, têm um vínculo com a pessoa que convida, ou que é convidada…
Camelo — Precisa haver uma empatia…

Tacioli — Também na época do primeiro disco lembro que vocês abriram o show para o Ira! aqui em São Paulo… [n.e. A recepção paulistana para o grupo carioca não foi nada calorosa]
Bruno — A mesma coisa… Nós tínhamos na época o mesmo empresário e estávamos na mesma gravadora… Eles tavam voltando de um período de ostracismo e a gente começando… Então, colocaram a gente junto, porque talvez na época uma banda só não lotaria o Palace… Mas, imagine, o Ira! com aquela pegada super São Paulo, meio punk, uma coisa tradicional daqui, sons que vocês ouviam quando eram moleques, e a gente de camisa florida cantando “Anna Júlia”… Foi um horror! Mas não tem jeito, só assim mesmo pra aprender…
Camelo — A gente adquiriu cancha diante das câmeras…
Bruno — A gente aprendeu no picadeiro.
Amarante — Porra, que imagem triste… [risos] A gente aprende no picadeiro… [risos] Mas nossa vida é mesmo um circo. A gente vive com uma porra de um saco nas costas, com umas camisas… Tem que sempre estar bem-humorado. Ninguém entende, em nenhum lugar, que você possa estar cansado… “Como tá cansado? Tá fazendo o que gosta, rapá!”
Bruno — “Tu é um babaca!” [risos]
Almeida — Lembro de uma vez, quando eu trabalhava na 89 FM, que vi vocês visivelmente cansados e o pessoal da rádio insistindo pra vocês fazerem um pocket-show. Estavam sem dormir, shows um atrás do outro e, mesmo assim, vocês acabaram tendo que fazer…
Camelo — É, a gente fez. E não fez e comprou briga. Cada caso é um caso porque envolve relações humanas e, às vezes, a pessoa até pede uma coisa idiota, mas é de um jeito tão bacana que não tem saída. Bem coisa de fã que chega com telefone e pede pra você falar com alguém. Tudo depende do jeito que a pessoa pede — pode ser a coisa mais estúpida ou mais simpática do mundo…
Amarante — É. Ontem na FNAC uma menina veio e “Telefone pra você”… rindo…
Bruno — Ainda bem que eu nunca tive que fazer isso. [risos] Não ia ter assunto. Coisa difícil. Mas ontem eu tava lá e tava simpaticão! [risos] Assinando uns 50 CDs, super simpático, e aí me pediram pra tirar uma foto… Porra, hoje em dia todo mundo tem câmera digital. É o problema do mundo, eu acho… Todo mundo quer registrar o momento…
Barba — Celular…
Amarante — Vai na padaria e tem uma câmera…
Bruno — É um inferno isso! Aí eu fui tirar uma foto e a menina… “Ah, mas dá um sorriso!” [risos] Ah, mas vai me convencer a rir? Mas eu ri porque achei engraçado, mas não queria porque fiquei irritado, fiquei puto! [risos] Me senti um koala! [risos] Muito ruim isso. O Marcelo até ficou com pena de mim…
Camelo — Falei… “O Bruno é legal!” [risos]
Max Eluard — Mas sobre essa agenda de divulgação… Vocês fazem porque tem que fazer? Há algum prazer nisso?
Amarante — Acho que é 99% de obrigação… A gente tem que falar alguma coisa, alguma vez…
Camelo — Mesmo não achando importante a gente sabe que faz parte do processo, mas é difícil porque a gente já fala muito entre a gente e acaba não levando a lugar nenhum.
Amarante — Às vezes é bom porque verbalizar concretiza o pensamento, né? Quando a gente vê que a pessoa tem uma curiosidade legítima e sincera sobre algo é bom, mas quando a pessoa chega com a cabeça feita é a pior coisa do mundo… Por exemplo: esses dias a gente tava com uma promoção no site em que algumas pessoas iam no camarim falar com a gente. Ganhou um casal. Eles me perguntaram algo que eu já devo ter falado umas 200 vezes, mas era uma questão tão genuína pra eles que não teve jeito…

Max Eluard — Pensando nessa empresa Los Hermanos. São 19 pessoas envolvidas. Como é pensar em sustentar isso tudo?
Camelo — É uma equação que se faz…
Amarante — Não é mole, não, mas também a gente conta com pessoas que pensam nisso e todo mundo sabe de tudo: o que cada um ganha, os impostos…

Max Eluard — Mas esse gerenciamento é feito também por vocês?
Bruno — Diretamente não. Tem o Alex que cuida disso [n.e. Alex Werner, produtor da banda], mas a gente sabe de tudo, conversa sobre tudo. Tem também o Simon [n.e. Simon Fuller, empresário da banda desde 2001].
Amarante — Porque tem muitas coisas, tem shows que a gente tem que bancar a produção, ficar com bilheteria…
Bruno — Tem três tipos de show: o bancado, o contratado e o feito em parceria.
Amarante — Geralmente uma turnê é feita de uma combinação desses três tipos. É um quebra-cabeça.
Bruno — Tipo um War da música… [risos] Como vamos invadir o Espírito de Santo de ônibus? [risos]
Tacioli — E como é fora do Brasil?
Bruno — A gente começou a construir uma história em Portugal, muito lentamente… Várias dificuldades, todas as possíveis… As coisas que pegam mais lá também são as extremamente populares aqui. Axé ou então uma coisa bem MPB, raiz. E a gente é uma coisa híbrida, louca, que não tem muito sentido lá. Mas apostamos porque tem a ver… As letras… Começamos aos poucos. Nos últimos dois anos fomos para lá quatro vezes e em 2006 iremos pra ficar um mês [n.e. Durante o mês de março, com shows em Beja, Porto, Faro, Viseu, Farmalicão e Braga], fazer uma turnê conjunta com um banda de Portugal mesmo. A gente está construindo. O 4 foi nosso primeiro disco lançado oficialmente lá. O primeiro chegou importado por causa de “Anna Júlia”. O segundo, nenhum registro. O terceiro, importado. Vamos ver como vai ser.

Tacioli — E como é essa banda que vai se apresentar com vocês?
Bruno — Chama-se Toranja. É uma banda que tá no segundo disco. Não conheço muito…

Almeida — Tem a ver com o som de vocês?
Bruno — Dá pra rolar, não é um negócio impensável, não. É uma coisa meio rock e piano, uma mistura de Coldplay com alguma coisa. É bacana… [n.e. Toranja é um quarteto formado por Tiago Bettencourt, Ricardo Frutuoso, Dodi e Rato. Lançaram dois discos, Esquissos (2003) e Segundo (2005), ambos pela Universal Music portuguesa]
Camelo — Tem relação.
Bruno — Não é uma coisa louca, não. Faz sentido de alguma forma.

Tacioli — E na América do Sul?
Bruno — Difícil.
Amarante — A gente fez um show muito bom na Argentina com o primeiro disco. Lotado e surpreendentemente todo mundo sabia todas as músicas. Um lugar onde a gente nunca tinha ido e é outra língua! Na platéia havia gente mais velha e muito adolescente, e uns brasileiros que conheciam “Anna Júlia”.
Tacioli — E o que vocês estão ouvindo? Dá tempo pra ouvir alguma coisa ou quando sobra tempo o negócio é ficar quieto?
Camelo — Não, a gente tem mais coisa pra ouvir do que tempo pra ouvir, mais interesse do que tempo.
Amarante — É.
Camelo — Eu mesmo compro CD e deixo lá no plástico um tempo, porque não dá tempo…
Bruno — Eu também.
Camelo — Ainda mais a gente que recebe várias coisas…
Amarante — Vinil, então, que é mais barato…
Camelo — Tô ouvindo aquele do Dorival Caymmi, Caymmi também é de rancho[n.e. Álbum lançado em 1973 pela gravadora Odeon], que é um disco que ele não gosta. Diz que foi pra cumprir contrato com a gravadora. Aí decidiu gravar as músicas dele em ritmo de marcha-rancho. [risos] É bonitão, mas ele não gosta.

Max Eluard — E por falar em não gostar da própria obra, que avaliação vocês fazem…
Camelo — Ah, uma merda! [risos] Até agora não tem nenhuma que presta…
Amarante — Ainda não conseguimos! [risos] A gente tá tentando, o pessoal tem dado apoio às nossas tentativas… [risos]

Max Eluard — Mas essa insatisfação é real mesmo?
Camelo — Nego fala que Deus dá o dom e o chicote. Nego é um filósofo desses quaisquer… [risos]
Amarante — Meu nego! [risos]
Camelo 
— Mas é isso mesmo. Acho que a gente se relaciona muito com as coisas que a gente fez e tocar as mesmas músicas todo dia firma muito uma relação nossa com as elas. A gente mexe muito com isso.

Max Eluard — Mas em algum momento essa relação, em vez de levar pra frente, segura, atravanca, atrapalha o andamento?
Amarante — Acho difícil medir.

Max Eluard — Porque você nunca vai ter o outro lado, né?
Amarante — É, pois é. Esse “se” não dá pra saber.
Max Eluard — Rodrigo, e como surgiu essa história de pintura? [n.e. Rodrigo Amarante é autor da pintura que está na capa do CD 4] Já existia?
Amarante — Eu brinco, cara. Eu sou amador. Sempre gostei de pintar. Minha mãe era professora de pintura, estudou Belas Artes, então lá em casa sempre teve tinta. Sempre gostei de desenhar e pintar, mas tudo diversão minha. Nunca fiz nada que fosse profissional. Faço camisetas… Adoro artes plásticas, pintura, mas me senti um profissional quando eles encomendaram.

Almeida — Ah, eles pediram?
Amarante — Foi a primeira coisa que serviu… Deu uma sensação de ser útil. [risos]
Camelo — Agora você imagine se todos os profissionais do mundo fossem que nem esse amador! [risos]
Bruno — Com esse capricho, pensado…
Amarante — Nunca havia feito nada geométrico e nunca havia feito nada que fosse parecido com aquilo. Pensei no 4… A gente conversou sobre cor, porque a gente conversa sobre cor pra se vestir no show, ou fala da cor de um filme. Pude, mais ou menos, fazer a coisa como se estivesse de fora. Foi uma sensação boa!

Almeida — Mas foi a primeira vez?
Amarante — Na verdade, meu primeiro emprego foi fazer camisetas e estampas para uma marca de surf wear de Fortaleza… [risos] Eu vendia os desenhos. Vinte reais o desenho… Coisas jovens… [risos]
Barba — Você não tem esses desenhos, essas camisetas?
Amarante — Não.
Barba — Porra, você tinha que ter uma camiseta dessas! [risos]

Almeida — Mas eu perguntei se a primeira que você fez pro disco já foi a aprovada? Ou teve que fazer várias opções?
Amarante — Eu fiz assim: primeiro pintei o que resultou na capa e depois fui mudando. Parti pruma coisa figurativa e pintei seis troços enormes que ficaram uma merda! Aí voltei pra primeira idéia, porque foi o seguinte: era uma paleta de cores que fiz e tinha uma coisa de azulejo — adoro azulejo, tenho coleção de fotos de azulejos -, enfim, e quando olhei pra aquele lance geométrico achei que tinha tudo a ver com a gente. Um lance meio português, meio árabe… Acho sempre que essa conversa acadêmica, essa de referências, é meio conversa fiada, né, não?

Almeida — Isso de fazer e depois ficar explicando?
Amarante — Do inconsciente e tal… É meio fetiche, né? Mas eu também tenho interesse em fetiche.
Camelo — Quem não tem interesse em fetiche? [risos]
Bruno — Deixa eu só fazer uma colocação. Temos que encerrar no máximo umas oito porque vamos sair daqui umas nove e meia e ainda temos que comer, tomar banho, dar uma descansada…
Amarante — Não é fácil essa vida.

Tacioli — Beleza, gente.
Max Eluard — Vocês tão afim de dar uma descansada, né?
Amarante — Eu tô. [risos]

Max Eluard — Valeu, gente, pela disposição de dar essa entrevista entre passagem de som e show.
Camelo — Valeu vocês!