LUIZ MELODIA [2002]

Na mesa, bola de gude, Seu Baldo, Wally Salomão, Os Instantâneos, Torquato Neto, Caetano Veloso…

O cantor e compositor Luiz Melodia em sessão de fotos no elevador do hotel onde foi entrevistado em 2002. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

(20h30)
São Paulo, 5 de junho. Décima entrevista do Gafieiras. Rua Tutoia, 77, Hotel Pestana. Denise, assessora da Indie Records, nos recebe no bar do hotel. Logo ele chegaria. Um possível contratempo na gravação de um programa de televisão causara o atraso.

De bom grado tomamos algumas cervejas e uma boa conversa na companhia de Denise e de Jane, esposa e empresária do artista.

Os minutos passam e conjeturamos a demora. O atraso tem, naquele momento, vários significados para nós. Entre eles o de que Melodia chegaria cansado e de mau humor.

(21h10)
Luiz chega e passa apressado pelo saguão. Um aceno de mão faz Denise e Jane irem a seu encontro. Jane o acompanha até o apartamento, Denise volta para nossa mesa com a notícia de um banho e mais alguns minutos de espera.

É. Ele parecia cansado.

Nos acomodamos no mezanino do hotel, que só seria ocupado na manhã seguinte para servir o café.

Privacidade.

Conversa vai…

(21h40)
Tudo tem seu tempo. Quando nossa conjetura nos levava a crer que desistiríamos, ele surge. Banho tomado e no semblante um sorriso que tentava esconder o cansaço de uma rotina exaustiva de divulgação de disco. E foi esse o mote do começo da conversa. De cara, Luiz afirma que seu interesse em dar entrevistas não ultrapassa os limites de um trabalho de divulgação.

(22h)
Veleiro Azul. Partimos rumo às canções de Oswaldo Melodia e sua viola americana, aos tempos de pipa e bola de gude no Morro do São Carlos, Seu Baldo, Wally Salomão, Os Instantâneos…

(23h15)
Do objeto do homem parte mais um sonho. Uma emoção qualquer e tudo o que tange ao coração passa a fazer sentido, de Jovem Guarda a sandys. Idiossincrasias de uma alma inquieta. Eminência parda que ainda hoje parece ver o mundo do alto do Morro do São Carlos, colhendo cada gesto humano, cada movimento para compor sua melodia.

Assim, noite adentro foram-se cervejas, cansaços, conjeturas, para dar lugar a uma vontade sincera de conversar um bocado mais.

(meia-noite)
“Garçom, taças de cristal. Um brinde à décima entrevista do Gafieiras.”


{…} expediente

entrevistadores Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Max Eluard, Ricardo Tacioli e Sérgio Seabra 
transcrição, edição e produção Ricardo Tacioli 
fotos Dafne Sampaio
texto de abertura Max Eluard

Entrevista realizada em São Paulo/SP em 05 de junho de 2002.




[ Luiz Melodia chega do apartamento, de banho tomado, e senta-se ]

Luiz Melodia — Dessa cervejinha também quero uma!
Denise Souza — Vou pedir para o menino vir aqui. Espere só um pouquinho, Luiz!
Melodia — E um pouquinho de água, também.
Daniel Almeida — Luiz, e o programa do Gordo? [n.e. Gordo a go-go, programa de entrevistas da MTV apresentado pelo vocalista dos Ratos de Porão, João Gordo]
Melodia — Rapaz, é divertido, né?!
Denise — Foi com o Mário Velloso. [risos]
Melodia — Quando eu estava subindo, o cara falou “Mário Velloso!” [n.e. Cantor paulistano estreante, integrou a Casa dos Artistas 2, do SBT, e lançou recentemente seu primeiro álbum, homônimo, pela Sony Music] Caralho! Mas já que estamos aqui, fazer o quê?! [risos] Vambora!
Max Eluard — Mas esse dá para levar no bom humor, né?
Melodia — E a gente tem esse bom humor do caralho, não? Acho que o brasileiro tem essa coisa. Às vezes, o Gordo perguntava coisas absurdas, ou, senão, falava coisas absurdas. Ao mesmo tempo, ele ficava preocupado, “Você está legal, né, Velloso?!” “Não, tudo certo!” E o cara ficava todo… Eu, do lado, ficava só… [risos] Muito divertido, muito divertido. Bacana pra caramba!
Ricardo Tacioli — Você sabe quando vai ao ar, Luiz?
Melodia — Rapaz, não perguntei a ele. Engraçado, sempre faço trabalho de televisão e nunca pergunto. Nem quando vai sair em jornal. Geralmente estou viajando e não tenho muito pique para assistir.
Almeida — Nem quando é uma entrevista que você gostou?
Melodia — Não, não. Dificilmente.
Almeida — É uma bronca com a TV?
Melodia — Não. É uma coisa à-toa. Só quando acho “Porra, devo assistir, devo ouvir”. Prefiro mais rádio.
Tacioli — Ah, é?
Melodia — É, prefiro mais. Por exemplo, se eu for fazer uma gravação, prefiro ouvir, acho que por não ter imagem, fico mais à vontade. [ri] Sei lá, mas não tenho essa curiosidade, não. Faço o trabalho que tenho que fazer de divulgação de disco, e depois não me preocupo em… Até quero que alguém fale “Luiz, foi legal!”
Almeida — Se repercutiu ou não.
Melodia — É, pode crê.
Tacioli — Você assiste à MTV?
Melodia — Assisto. Não sou de ligar pra ver a MTV, mas passo, olho. Rap, mesmo, assisto, através do meu filho que gosta de rap. Então, ele me convida. “Pai, isso aqui é um acontecimento, uma novidade”. Aí, fico com ele junto à televisão e vejo. Mas de ligar e ficar vendo a MTV, não!
Jane Reis — Luiz!
Melodia — Oi!
Jane — A cerveja.
Melodia — Obrigado.
Sérgio Seabra — Como é que as novidades musicais chegam a você?
Melodia — Às vezes, em casa, às vezes, viajando. Geralmente, viajando, né?! Pelo fato de estar em vários lugares. E por ser musical, vejo mais a MTV. Tem momentos em que estou no quarto de saco cheio da televisão, que é um horror, mesmo sendo a cabo.
Max Eluard — A cabo é pior, né?! Só multiplica o que tem na TV aberta.
Melodia — Não sei o que é pior. Embora, na TV a cabo tenha um canal que eu gosto pra caramba, que é um dos que mais assisto, a Discovery. O 51 e 52. E, como é o outro?
Almeida — National Geographic?
Melodia — Isso mesmo. National Geographic. É o que mais curto, o canal em que mais estou ligado. Então, o que eu estava falando, por amor de Deus?
Seabra — De música, como é que você se informa?
Melodia — Sim. Tenho mais contato por meio das viagens.
Max Eluard — Como foi sua infância, Luiz?
Melodia — [silêncio] Tive uma infância legal pra caramba. Humilde, porque sou cria do morro, Morro do São Carlos, divisa com Estácio. A época de garoto talvez tenha sido um dos momentos mais legais, embora difícil, família humilde, condições pequenas, porém honestas.
Max Eluard — Seus pais faziam o quê?
Melodia — Meu pai, Oswaldo Melodia, [ri] era funcionário público. Minha mãe era costureira, uma costureira de mão cheia. Sempre comento isso, inclusive sempre falo que eu desenhava as minhas roupas e minha mãe as fazia. Era um barato! Tive uma infância maravilhosa! A pipa, a bola de gude, enfim, aquela ligação mesmo de menino de bairro, de favela, que corria. Liberdade, passarinho.
Max Eluard — E a música já estava presente?
Melodia — Já, já. Meu pai era compositor. Os primeiros acordes aprendi com ele. Ele tinha uma viola de quatro cordas que se chama “Viola americana”, com aqueles bojos. Não eram bojos, eram…
Tacioli — Como umas rodelinhas.
Melodia — Isso, violão que os nordestinos usam muito, os caras do repente. Ele tinha essa viola, que eu achava um barato. Ele cortava a minha de tocar porque tinha o maior ciúme. Era uma relíquia do meu pai!
Almeida — Mas essa viola tinha uma história, por isso esse apego?
Melodia — Não. Acredito que era uma viola que ele curtia. Ele e seu instrumento, e que jamais um menino de treze anos, porra, podia pegá-la. Já imaginou? Até que um dia quebrei a porra da viola.
Max Eluard — Quanto mais você não pode pegar, mais dá uma merda na hora em que você pega.
Melodia — Minha vontade de pegar a viola era imensa.
Almeida — Proibiu, né?
Melodia — Proibiu, fudeu, né?! [risos] E minha mãe sempre cortando ou vigiando. Porque quando eu pegava a viola, ele não estava em casa, ou estava trabalhando, ou, na Igreja. Esses eram os momentos em que eu pegava a viola para aprender alguns acordes. Inclusive, foi com ela que eu fiz minhas primeiras músicas, as músicas mais inocentes. Enfim, fazia umas canções que [ri]… Descobri que compunha, não importasse a letra. Às vezes, canto, mas acho vergonhoso. [ri]
Dafne Sampaio — Você se lembra da primeira que você fez?
Melodia — Ah, não faça isso, não, velho! [risos] Não faça isso, que não é legal. Já cantei no Jô Soares, mas é uma coisa bem tola, sabe?
Max Eluard — Seu pai freqüentava a Igreja. Sua família era muito religiosa?
Melodia — Era. Meus pais eram batistas. Eles iam, meus irmãos e eu também. Sou o único homem. Quatro irmãs. Então, todos íamos para a 1ª Igreja Batista, que ficava na Ladeira do Estácio. Até hoje ela se encontra lá, não sei se vocês conhecem? 1ª Igreja Batista, lá no Largo do Estácio, monumental, aquela beleza. E lá eu cantava também. Lá já esboçava um profissionalismo, porque era não-sei-o-quê dominical em que tinha um grupo, não era gospel, porque a 1ª Igreja Batista não tinha esse lance de gospel. No Brasil, nunca vi um som igual aos dos americanos. Mas eram hinos que eu cantava, participava do grupo. Era interessante. Eu gostava porque me libertava mais para poder cantar. Eu gostava pra caramba. Essa coisa fortificava pra caramba minha vontade.
Max Eluard — Mas você tinha uma relação forte com a religião ou estava ali apenas para cantar?
Melodia — Estava lá pela música. [ri] Pela religião, nada. Mas sempre respeitei a conveniência dos meus pais em relação ao Evangelho. Eu era um pouco rebelde diante disso. Era um ateu, ainda mais jovem demais. Na verdade, eu ia mais para cantar. Naquela época já cantávamos no morro. Eu lembro que tinha um primo meu chamado Gilson, que a gente fazia uma dupla em casa, mas era só de brincadeira. Eu cantava muito.
Max Eluard — Hoje em dia toda molecada que nasce na periferia, no morro, vê na música uma salvação. Todo mundo quer ter uma banda de pagode, de funk, de rap. Na sua época existia isso, de encarar a música como uma porta de salvação?
Melodia — Não sei se era a salvação, porque havia uma molecada da minha idade que gostava de música sem ter essa expectativa. Era um prazer, realmente. Inclusive, havia alguns grupos. Lembro-me dos Instantâneos, que foi um dos primeiros grupos que organizamos, que tinha porrada pra caralho. O grupo era formado por mim, pelo Mizinho, que era baterista — ele não tinha as pernas, que as perdeu nas traquinagens nossas de bonde, mas tocava bateria legal pra caramba –, Manuel, guitarra, e Nazareno, que era irmão do Manuel, no baixo. Era divertido porque tocávamos em tudo quanto era lugar. Desde casamentos às festas juninas ou do bairro mesmo — festa humilde, mas de uma fortaleza. A gente tocava até amanhecer.
Almeida — E qual era o repertório?
Melodia — De Jovem Guarda ao que estava acontecendo, ao que era sucesso. Cantávamos também Beatles, embora não sabendo de porra nenhuma. [risos] Ninguém sabia inglês.
Max Eluard — Imitava o som, o fonema.
Melodia — É, exatamente.
Seabra — Você tinha 17, 18 anos?
Melodia — Por aí. Era muito divertido porque não havia nenhum compromisso em aprender inglês, até porque não havia condições, pessoal humilde, pobre, apesar de alguns terem uma certa condição, mas na verdade era mais uma diversão, era mais uma vontade de ser um astro, ou de admirar um cara e “quem dera se um dia eu…” [ri]. Era a onda! [ri] E desses pop stars que faziam sucesso, a gente cantava as músicas deles. Também fiz uma dupla com o Mizinho. Na verdade, quando saí do morro para poder tentar uma coisa maior, foi com o Mizinho. Formamos uma dupla que, por sinal, era muito interessante. Ele fazia uma oitava acima. Depois é que veio o grupo Os Instantâneos. Eu já havia falado dos Instantâneos, mas eles vieram depois.
Max Eluard — E com o Mizinho, qual era o repertório?
Melodia — Composições nossas e tudo. Chegamos a fazer televisão, ir a estúdios de gravações fazer testes. Eu me lembro que fomos à CBS, que era o máximo. Até queria ir à CBS porque havia o Roberto Carlos, que era um dos nossos ídolos. Eu era fã do Renato e seus Blue Caps. Jovem Guarda pra mim era um barato, até pelo romantismo. Sempre fui um cara romântico pra caralho. Embora tendo outras rebeldias.
Max Eluard — Você gostava muito da Jovem Guarda, mas deve ter sido bombardeado pelo samba. No morro não tinha como se livrar do samba, né?
Melodia — Impossível. Havia as escolas de samba, inclusive a Estácio. Mas existia um lance até legal. Meus pais tinham uns grilos com o samba. Talvez fossem os lugares mais barras-pesadas. Eles não queriam que eu fosse. Então, não davam muita força para que a gente freqüentasse a quadra, né?
Max Eluard — Isso era em que década?
Melodia — Tudo em 60. Depois, na de 70, que Luiz Melodia foi descoberto ou, Luiz Melodia descobriu o Wally Salomão [n.e. Poeta, compositor, produtor e diretor artístico baiano]. “Tem uma rapaziada ali no São Carlos que é maravilhosa”. Uma turma fantástica. Eles subiam no morro, até porque tinha novidade, tinha algo interessante que não havia na zona sul.
Max Eluard — E não estavam indo atrás do samba, especificamente.
Melodia — Não, é ruim ir atrás do samba. Iam atrás de outras coisas. [risos] Não estou falando nem de drogas, não! Estou falando mesmo de cultura, de estar lá. Filmavam, fotografavam e tudo era novidade.
Almeida — E como esse bando de branquelos era recebido?
Melodia — Bem. Não havia nenhuma arrogância. Até hoje não tem, mesmo com a bandidagem, com AR-15, drogas e o caralho. Nunca houve uma arrogância assim, a não ser se você mexer agora, ou tiver qualquer relação diferente que esteja envolvida com a droga. Mas naquela época os caras chegavam lá. Iam cedo. O Wally mesmo era uma das primeiras pessoas a chegar. E ficava direto, né? Tocava muito, quando não era eu, eram outros músicos, outros que tocavam ou apresentavam música. Aquela troca. Foi quando aconteceu de conhecer a Gal Costa.
Sampaio — Quando essa turma subiu, você estava fazendo o que exatamente?
Melodia — Eu já estava quase desistindo de música. Isso porque eu já tinha tentado muito. Inclusive, ia pra programas de calouros da Rádio Mauá, Rádio Roquete Pinto. Fui muitas vezes, e sozinho. Já freqüentava essa onda, tentando. Mas quando Wally Salomão e aquela turma surgiram, parece que caíram do céu. Numa boa.
Almeida — E você estava pensando em fazer o quê, depois de ter desanimado da música?
Melodia — A estudar. Sempre gostei de Zoologia. Eu estava pensando em parar, desistir da música, e fazer Zoologia.
Sampaio — Taí o Discovery Channel e a National Geographic.
Melodia — Pois é, taí o lance! [risos]
Tacioli — Os Instantâneos chegaram a transitar em espaços profissionais?
Melodia — Não. Era uma tentativa. Até porque quando você fazia show nos bairros, nos bailes, nada mais era do que uma tentativa de aparecer. Mas, por exemplo, nunca saímos — essa banda, Os Instantâneos — para fazer qualquer televisão, coisa desse tipo. Não. Só pelos bairros, morros. Coroa, todos esses morros onde o bicho pega ultimamente, que vocês devem estar sabendo. Coroa, Alemão. A gente fazia esses morros todos. Na época era lindo, não era essa onda de agora. Mas, nesses morros sempre tocamos na época, na nossa adolescência, 17, 18 anos. Porra, a gente já circulava fazendo casamento, festas juninas. Enfim, em todo evento que acontecia, a gente estava.
Tacioli — Tem uma história curiosa dessa época com Os Instantâneos?
Melodia — O curioso é que a gente namorava pra caramba, compadre. [risos] Tinham as gatinhas que eram um barato. E os pães com mortadela, que eram o coquetel, antes de começar o baile. Era pão com mortadela, guaraná e cervejinha, logicamente, ou senão, “cuba libre” [ri]. Era o que mais a gente curtia.
Tacioli — Quanto tempo durou o grupo?
Melodia — Os Instantâneos? Parou instantaneamente, velho. [risos]
Max Eluard — Fez jus ao nome.
Melodia — Muita pancadaria. Os irmãos — o Manuel e o Nazareno — brigavam muito. Tínhamos que ficar separando os caras. Mas o pouco que durou foi legal pra caramba. Depois fui para um grupo chamado Filhos do Sol. Fui eu e o Mizinho. O Nazareno e o Manuel, não. Eu e o Mizinho cantávamos nessa nova banda. Ficamos um tempão. Depois nos separamos com o acontecimento do Wally Salomão, Exército. Teve uma confusão forte, depois.
Seabra — Você falou que já estava desanimado quando essa turma do Wally Salomão chegou, que andava rodando os programas de calouro. Você foi nesses programas com “Pérola negra”?
Melodia — Eu não cantava música minha, não.
Max Eluard — Por quê?
Melodia — Não sei.
Max Eluard — Insegurança?
Melodia — Rapaz, não me lembro precisamente. Foi a primeira pessoa que me perguntou. [ri] “Você não cantava por quê?” Eu não me lembro, velho. Mas eu já tinha umas composições e tal, mas não cantava. Engraçado isso. Com a banda, eu e o Mizinho cantávamos.
Tacioli — Então, você e o Mizinho cantavam músicas de vocês?
Melodia — Isso. Mas não tinha “Pérola negra”, “Estácio, Holly Estácio”, que vim compor depois.
Seabra — Então, como é que foi mostrar para essa turma uma coisa sua? Qual era o ambiente, na casa de quem?
Melodia — O ambiente era dos melhores. Comecei a ter um contato com o pessoal da zona sul que, talvez, devo ter percebido, foi a grande chegada. Os caras tinham contato! Na época, o Wally Salomão ia dirigir o Gal a todo vapor. Foi quando ele foi ao morro e a gente se conheceu. “Porra, se você apresentasse esse menino, Melodia, à Gal Costa…”, disseram. Quer dizer, a música. Eu e a música, Luiz Melodia. [risos] Nisso, o Torquato Neto [n.e. Poeta, jornalista, cineasta, roteirista, ator e produtor cultural, Torquato Pereira de Araújo Neto, 1944–1972, nasceu em Teresina, PI, e foi um dos pilares do movimento tropicalista] já estava escrevendo sobre o meu trabalho, antes de eu mostrar minhas canções à Gal Costa. Não mostrei uma só, mostrei outras, independentemente de “Pérola negra”. Mas o Torquato Neto já falava do meu trabalho naquela Geléia Geral, uma coluna que ele tinha no Última Hora [n.e. Coluna assinada entre 1971 e 72]. Ele e Daniel Maia já falavam do meu trabalho. Inclusive, ele colocava assim: “Tem um negro magrinho no Morro do São Carlos que faz umas coisas mais interessantes!” Ele [ri] me punha na maior… Fiquei muito amigo do Torquato. Ele deixou umas letras comigo e logo depois se suicidou. Ele já tinha essa loucura de suicídio que, porra, é muito chato. Ele era uma pessoa muito interessante, muito inteligente, muito rápida. Me surpreendeu, “Caralho, que pessoa rápida!”. Na verdade, o pessoal que subiu o morro era muito rápido. Wally Salomão, cabeça é uma loucura, a mil por hora. Torquato Neto, Hélio Oiticica, eram todos rápidos, velho! E também de olho, “Tem uma rapaziada interessante!” Claro, intelectuais, o caralho, lógico! Eu lembro do Luiz Otávio, um cineasta, também era gente boa pra caralho. Era uma turma que marcou pra caramba minha carreira.
Almeida — Luiz, você cantava música dos Beatles e não sabia inglês, “éramos pobres, não tínhamos condições”. Em algum momento você sentiu que tinha que correr atrás para estar de igual para igual com outros artistas que já atuavam?
Melodia — Eu não me preocupava com isso. Eu via que a gente tinha bagagem, não só eu, mas muitos compositores lá do São Carlos. Muitos compositores! E na mesma idade que eu, 17 anos, compunham bacana pra caralho. Cheguei junto, mas muitos ficaram. Agora, chego lá, uns bêbados; muitos morreram. Toda a garotada da minha época, que compunha bacana, e que nunca mais vi. Eu tinha bagagem para chegar junto, mas sem essa preocupação, até porque já respeitava os caras. Eles já estavam, né?! Quando conheci o Jards Macalé [ri]… “Esse é o cara!” [risos]. Esses eram os caras. Wally Salomão, Hélio Oiticica. Era uma turma que se identificava com a periferia.
Tacioli — Nessa época você já usava o Melodia como nome artístico?
Melodia — Já. Porque, quando garoto, bem gurizinho, 12 anos, os caras me chamavam de Melodia e minhas irmãs ficavam revoltadas e retrucavam. Quando me chamavam “Melodia!”, elas “O nome dele não é Melodia. É Luiz Carlos dos Santos!”. “Vamos jogar bola, Luiz Melodia?!”, e eles se escondiam, porque elas vinham reclamar. Aí, depois vi que é tão bonitinho. E herdei do meu pai. Nunca tive a oportunidade, quando ele estava vivo, de perguntar “Por que Oswaldo Melodia?” Nunca consegui. “Pai, por que Oswaldo Melodia?!” Nunca consegui perguntar a ele “Por quê?” Morreu e não consegui perguntar, mas imagino que deve ser lance de boêmia, porque o cara era boêmio, era danado!
Tacioli — Como era o relacionamento com seu pai?
Melodia — Com meu pai?
Almeida — É. Era uma coisa “Aqui eu não posso ir”?
Melodia — Meu pai era, na época, repressor pra caramba, no sentido de querer bem o filho dele. Tanto que o meu pai jamais quis que eu fosse um músico. Nunca, velho! Nunca.
Max Eluard — Não tinha futuro.
Melodia — De jeito algum! Que pai com 60 — não sei com quantos anos — que vai dizer “Siga a música!”? Isso, jamais! Ele queria que eu fosse um doutor. Eu me lembro claramente que ele via o Jair Rodrigues, “Olha, só!” O Jair Rodrigues se apresentava de terno. “Jair Rodrigues, que maravilha!” Bem que eu admirava o Jair Rodrigues, só que a minha onda era outra. Porra, não tinha nada a ver com aquela situação do Jair Rodrigues. Porra! Mas, por ser um cara que gostava de samba, de música boa, principalmente do samba bom, [canta] “Ah! Que samba bom!”…
Max Eluard — Seu pai só fazia sambas?
Melodia — Mas não era um sambista, conforme dizem, “Pô, seu pai, Oswaldo, era um sambista!”, não! Ele compunha várias coisas, desde canções, boleros. Tem muitas coisas dele que precisam ser registradas.
Tacioli — Você tem esses registros, essas músicas?
Melodia — Dele?
Tacioli — É.
Melodia — Claro, claro. [ri]
Almeida — Você nunca pensou em…
Melodia — Agora estou pensando em gravar um disco de samba em que eu quero fazer algumas coisas dele. Inclusive tem uma que ele deixou que se chama “Linda Teresa”. Eu nem sei quem é essa Teresa, mas quero terminá-la. Tem um refrão que é bacana pra caramba. Quero terminá-la. E tem outras mais.
Tacioli — Dele você só gravou “Maura”?
Melodia — Gravei “Maura”, e tem uma outra, como é que é? Esqueci o nome. Mas foram duas. Daqui a pouco eu me lembro. Uma no Pintando o 7, que é a “Maura”, e a outra… me deu branco. [ri] [n.e. Gravou também “Ser boêmio”, no álbum 14 quilates, em 1997]
Max Eluard — Se você pensar, morro é samba. É uma associação automática com o samba.
Melodia — Agora, por que isso, velho?
Max Eluard — Pois é, essa já é uma outra questão.
Melodia — Engraçado! E negro, também, né?
Max Eluard — Opa! Negro e samba.
Melodia — Dá licença. Isso foi a primeira coisa, quando saí do morro, quando gravei o meu disco Pérola negra, recebi umas críticas, “Por que essas músicas?”
Max Eluard — Pois é, aí é que eu queria chegar, sobre essa vigilância.
Melodia — A pessoa, inclusive, me pediu desculpa. Não quero comentar o nome. Comentei tantas vezes, ele já deve estar arrasado, já está tão envergonhado ultimamente… [risos]
Sampaio — Trinta anos de vergonha.
Melodia — Vou poupá-lo, vou poupá-lo! A última vez em que nos encontramos foi com a Cássia Eller, quando estávamos fazendo o Casa de samba. Esse jornalista se encontrava lá. [ri] Ele veio, “Pô, você me desculpe, naquele começo de sua carreira e tal…”
Tacioli — Começa com “S”?
Melodia — Hein?!
Tacioli — Começa com “S”? [risos]
Melodia — Não, começa com “R”. [risos] Não é só um, não. Tem outros.
Max Eluard — E tinha essa vigilância…
Melodia — Esse que você falou começa com “S”. [risos] Não, com “C”! É Sérgio! Vou acabar falando! [risos]
Max Eluard — Como surgiu essa liberdade em seu trabalho? Foi uma coisa consciente, de você falar “Não quero fazer só samba. Fui criado no morro, vivo no morro, mas quero outras coisas!”. Como que foi isso?
Melodia — Olha só, a comunicação era o rádio. Televisão, só quem tinha grana, só quem tinha bala. No morro, apenas um ou dois tinham televisão. Lembro-me de Seu Danilo, que era um senhor, não sei se capitão, militar, ou senão o Seu Paulo Pé, que era um detetive. Esses eram os caras que, vira e volta, faziam as festas lá no morro. Eram os caras que tinham a grana, porque o resto… Mas, geralmente, militares. O que você me perguntou mesmo?
Max Eluard — Como surgiu essa liberdade para não ficar preso somente ao samba? Como você construiu essa liberdade para compor, para fazer a sua música?
Melodia — Pois é, eu queria ligar uma coisa a outra e… Enfim, eu ouvia muita rádio, todo mundo ouvia rádio pra caramba…
Almeida — Você estava falando que o rádio era o veículo.
Melodia — Foi isso, né? O rádio era o meio de comunicação. Só que quem tinha televisão eram essas pessoas, militares. Não era todo mundo que tinha essa liberdade, não. Então, como eu ouvia muito rádio, isso fez com que se ampliasse o meu lance musical, até porque eu ouvia de tudo. Não tinha televisão. O rádio era o único jeito. Ou senão, aos domingos, quando tinham uns grupos que se encontravam todo final de semana e faziam boleros. Na época, o bolero estava no auge, assim como música italiana. 60, 70, porra, era demais, era impressionante! Então, tinha uma rapaziada que gostava. Toda essa coisa da informação geral, velho. E com o rádio eu ouvia Jackson do Pandeiro, um programa chamado Hora sertaneja, tinha Jovem Guarda, Hoje é dia de rock, que era com o Jair de Taumaturgo [n.e. Programa veiculado na Rádio Mayrink Veiga carioca]. Uma série de programas. Esse Hoje é dia de rock era voltado para a música americana.
Max Eluard — E você não tinha bronca de música americana, que a esquerda e a vigilância repudiavam?
Melodia — A gente vivia pela música, velho. Acho que não dávamos essa importância, porque era tudo novidade, todo mundo aprendendo o primeiro, o terceiro acorde, ré maior.
Max Eluard — Então, pelo fato de não existir uma vigilância ideológica ali, aceitava-se muito mais…
Melodia — Mas havia censura.
Max Eluard — Mas não uma vigilância ideológica da oposição, da esquerda.
Melodia — Não, não, não. Mas tinha, de uma certa forma…
Max Eluard — Tinha quando você desceu o morro, quando o jornalista lhe cobrou sambas.
Melodia — Nada, velho! Não, não! Existia uma repressão no morro, compadre, de policiais. Os caras subiam o morro e era uma repressão fudida. Pra mim, era a mesma coisa de censura. Você não podia estar com um violão na rua. Quando os caras chegavam era pé na porta, uma coisa desse tipo. Embora tivéssemos até uma tranquilidade diferente de hoje, mas havia uma certa pressão, porque a Ditadura estava foda! Quero dizer, a gente nem descia o morro. Não podia nem descer! Agora é que descem. Nego brinca, tira onda e rende. Agora, fudeu! Abriram mão, fudeu! Mas existia também uma repressão, não sei se era mais leve, porque a gente ficava ali, preso naquele espaço e o couro comendo lá embaixo, o couro comendo no Brasil em geral.
Tacioli — Mas antes da Gal gravar “Pérola negra”, quando ainda você fazia dupla com o Mizinho, ou mesmo com Os Instantâneos, como você imaginava que era ser artista? O que significava para você?
Melodia — Imagina que ser artista era se dar bem, não estar naquelas condições em que estava vivendo. Você gostaria de ter um carro, você queria ter uma vida melhor, você queria ter mais condições de vida. Na minha família, eu tive tias muito mais fudidas que eu, que eu via no dia a dia, quando ia a Bangu, nos bares, e ficava na casa delas. Era uma pobreza imensa. Éramos milionários comparados com certas tias minhas que moravam na Zona Norte. Até porque meu pai era funcionário público e podia bancar um estudo pra mim. Eu é que não quis porra nenhuma! Estudei até… Fiz admissão. Você lembra de admissão, velho?
Sampaio — Entre a quarta e a quinta séries, não?
Melodia — É.
Almeida — Daí você parou, Luiz?
Melodia — Daí parei. Isso porque a música já estava acontecendo. Eu via que podia me dar bem, não me dar bem de grana, mas estar acontecendo, e isso logo depois que Gal Costa gravou. Mas antes eu servi ao Exército. Lá eu ainda tinha as minhas dúvidas, “Será que dá?”
Seabra — Você serviu em 1969?
Melodia — Foi. [sem muita convicção]
Seabra — Que ano, hein?
Melodia — Barra-pesada. Vi uns lances sérios pra caralho. Ditadura! Você sabe como é escoltar os caras, todos encapuzados, terroristas, o caralho? Aquelas situações desagradáveis. Até porque não queria viver aquilo.
Seabra — Você como soldado…
Melodia — Escoltei várias vezes.
Almeida — Você sabia quem eram, Luiz?
Melodia — Não, nunca. Porque aquilo era muito forte para a minha realidade. Eu já tinha a minha realidade de morro, então procurava não… Pode ser até covardia, ou me fazia de covarde. Era muito cruel, porque depois vinha o couro. Lembro-me de escoltar os caras até uma clínica lá em Madureira.
Seabra — E foi no Exército que você se tocou do que estava acontecendo no Brasil, ou você já tinha essa consciência?
Melodia — [ri] Eu procurava não querer participar, porque eu via tudo. Via o meu pai — que era muito político. Meu pai era chegado pra caralho.
Seabra — De direita?
Melodia — [ri] Era um pouco das duas [risos], dependia muito de como… Era um cara que ficava em cima do muro, porque negro…
Sampaio — Funcionário público.
Melodia — Funcionário público. Era foda! Quando a coisa apertava, “Vou ser da direita”. Quando a coisa apertava, “Vou ser da esquerda”. [ri] É engraçado, mas, porra, era visível essa coisa, ele queria proteger os filhos, como muitos queriam proteger os seus, e poucos conseguiram.
Max Eluard — Você ingressou no serviço militar como? Obrigatório?
Melodia — Obrigatório, não teve jeito.
Tacioli — Última baixa?
Melodia — Última baixa, lógico! Quase fui expulso e tudo. Eu não estava a fim de servir ao Exército, porra nenhuma! Lá também toquei muito, gostava de ficar com o violão. Conheci muitos amigos interessantes, legais, embora não encontre mais com eles, mas foram amizades legais pra caramba. Tenho até saudade de alguns. Você pode parar um instante? Posso dar uma mijadinha?
Almeida — Claro.
Melodia 
— Vamos continuar?
Max Eluard — Você falou que tinha uma ligação muito forte com o esporte. Futebol?
Melodia — É. Sou um jogador frustrado. [risos]
Max Eluard — Tem mais cinco aqui. [risos]
Almeida — Além da Zoologia e da música, o futebol chegou a ser uma opção?
Melodia — Acho que o futebol era o que vencia a minha cabeça. Porra! Era o que mais eu estava a fim, até porque toda a garotada… Independentemente de música, também era louco para ser um profissional, velho! E tinha muitos que treinavam no São Cristóvão, que era pertinho lá do São Carlos, do morro. Lembro do Murilo, que era um craque, Tic-Tac, de toda rapaziada de lá. Jogavam bola mesmo! Ourinho, Cutelo…
Almeida — Cutelo é ótimo!
Seabra — Era zagueiro! [risos]
Melodia — Cutelo era o maior craque, era o mais interessante, mas não aconteceu. As pernas dele dançaram por causa de drogas.
Max Eluard — Qual era a sua posição, Luiz?
Melodia — Ponta-direita. [risos]
Max Eluard — Do tempo em que ainda exista ponta.
Melodia — Ponta-direita. [ri] Mas o futebol sempre foi interessante.
Tacioli — Mas era um ponta-direita driblador?
Melodia — Os caras achavam que eu era o maior driblador. [risos] Achavam, mas não tenho bem a certeza. O futebol era uma das coisas, depois da música, mais legais que existiam no São Carlos. Dia e noite. E íamos a uns jogos em outras cidades…
Max Eluard — Havia um time estruturado em que você jogava?
Melodia — Sim. O responsável era o Seu Luís, que, inclusive, está doente.
Almeida — Como o time se chamava?
Melodia — Guanabara. Havia outros clubes também. Quanto tempo! Nunca comentei, mas a coisa mais interessante que existia no São Carlos, a coisa mais fantástica, era o Seu Baldo. Um senhor chamado B-A-L-D-O. Dentro da cultura maravilhosa do morro, foi ele que me deu uma das maiores alegrias. Ele construiu um cineminha pra gente, e todo o fim de semana havia uma sessão. Bacana!
Almeida — O que rolava, você se lembra?
Melodia — Rolavam uns seriados de mocinhos e bandidos, geralmente western. E clássicos também, Sansão & Dalila [n.e. Filme de Cecil B. de Mille, 1952, protagonizado por Victor Mature e Hedy Lamarr], aquela coisa. Também as chanchadas, com Oscarito e Grande Otelo. Na verdade, a maior programação era da Atlântida, com Zé Trindade, Dercy Gonçalves e outros. Era demais! Seu Baldo foi uma das pessoas mais interessantes que surgiram no morro. Ele deu muita alegria para a garotada de lá. SE-NHOR BAL-DO! [aproxima-se no microfone] SE-NHOR BAL-DO! Fantástico! Era uma pessoa para quem quero compor uma música. Já era para ter composto há muito tempo. Um cara genial! Sempre comento com a minha mulher que eu nunca falei sobre o Seu Baldo. Ele veio a falecer por agora, aos 90 anos. Havia aqueles cartazes, que eram interessantérrimos!!
Almeida — Luiz, fale dessa transição do morro com o Wally Salomão para quando “Pérola negra” iria ser gravada. Como é que foi quando você se ligou que a Gal iria te gravar?
Melodia — Eu tinha certeza, até porque já tinha ficado bem amigo dessa turma que ia no morro.
Almeida — Você tinha certeza de que dali sairia alguma coisa?
Melodia — Com certeza. Porque, com o Wally Salomão e alguns amigos eu já descia e circulava pela Zona Sul com mais liberdade. Até então, eu era bem desconfiado da Zona Sul. Não tinha muita ligação, não tinha muita coisa. O nosso terreno, o nosso espaço era… Eles é quem iam lá. Depois é que eu vim a conhecer as meninas de cabelos compridos. A primeira namorada branca [ri] que tive, que foi a namorada do Wally Salomão, foi a Deda, para quem compus uma música. Ela morava na Colômbia, não? Chile? Enfim, era uma menina que veio de algum lugar e que depois vim a namorar. Muitas coisas aconteceram. Muitas! A novidade de descer para a Zona Sul, conhecer Gal Costa.
Almeida — Como foi esse encontro?
Melodia — Pois é. Fui à casa dela — morava ali em Ipanema e conheci a dona Mariá, a mãe, aquela chata [risos], que cortava tudo. Tinha até razão, porque era muita gente em cima da filha dela. Maria das Graças, aquela gostosinha! Cheguei lá, mostrei o trabalho. E muita Coca-Cola. Ela tomava Coca-Cola pra caralho! E não teve outra, velho! Ficamos muito amigos! Lembro que ela foi morar no Tambá e eu ia muito para lá, ficávamos sozinhos, batendo papo. Ficamos muito amigos depois que o Wally Salomão nos apresentou. Não teve nada demais, a não ser “ficar amigos”.
Tacioli — Vocês têm se falado nos últimos tempos?
Melodia — Agora mesmo ela ligou lá para casa dizendo que está cantando “Ébano”. Ela queria o arranjo original. Foi minha mulher que falou pra mim. Até então eu não sabia. “Que bom!” Mas estava muito tempo sem falar com ela.
Almeida — Ela não te pediu nada novo, Luiz?
Melodia — Pediu, eu mandei, mas ela não gravou. “Cuidando de você”, foi uma música que eu fiz. Foi quando ela falou que não havia nenhum compositor e tal, sobre esse papo. Porra, ligou pra mim e pediu uma música linda, maravilhosa. Como é que não tem compositor na praça? Mas não gravou. Nem sei, e não perguntei por que ela não gravou. E agora ligou pra casa dizendo que vai cantar “Ébano”. Eu sabia que isso ia acontecer. Porque ela é a minha madrinha, não sei se vocês sabem? Desde a gravação de “Pérola negra”, ela fala “Sou sua madrinha!”. Ela quem mandou “Agora sou sua madrinha!”. Que bacana! Aí gravou outras coisas. “Presente cotidiano”, gravou… [pensa] O que mais que ela gravou? Só. “Pérola negra” e “Presente cotidiano”. Poderia gravar mais coisas.
Tacioli — Luiz, como foi o processo para se chegar ao seu primeiro LP?
Melodia — Foi natural, porque eu já tinha tantas composições, que o Guilherme Araújo — na época, o meu empresário, ou que ficou sendo o meu empresário — falou o seguinte para o Menescal, “Vamos gravar um disco com o menino”. Entramos no estúdio, convidei o Perinho Albuquerque, que na época fazia arranjos para Maria Bethânia, por sinal, muito bons. Mostrei as minhas pequenas harmonias, pobres, mas originais. Perinho Albuquerque fez umas mudanças nesse disco. A maioria das harmonias foram alteradas. E me dei bem, porque gostei pra caramba do disco, embora não aceitando. Não falei pra ninguém que eu queria muito participar do disco, mas quando você está começando, você fica meio “Porra!”.
Tacioli — Participar que você fala é ter voz ativa?
Melodia — Participar, tocar. Não tinha… De repente, um falava aqui, outro ali, e quando comecei a ver, “Não! Pô, fudeu!” [risos] Um começou a se meter, outro também. E que tem o lance do maldito. “Ó, dessas coisas não tô a fim, não!” Aí, foi que começou a implicância. “Mas não tô a fim de fazer isso!” Com o Sérgio Sampaio a mesma coisa. Virou uma briga.
Almeida — Luiz, você nunca pensou assim: “Tô aqui no meio desse povo todo, numa gravadora, e aqui está a minha subsistência. Se eu for deixado de lado, posso ser prejudicado”. A forma como você pensava artisticamente poderia lhe tirar desse meio?
Melodia — Quando essa coisa começou foi muito louco pra mim, mas eu tinha uma segurança tão forte diante do que eu fazia — e do que faço –, que isso não me assustou. Caso contrário, eu poderia ter saído da música há muito tempo, bem mais rápido do que entrei. As pessoas que estavam ao meu lado, e que sempre estiveram — Wally Salomão, Hélio Oiticica ,– falavam do meu trabalho, e isso me fortificou. As pessoas gravavam também. Bethânia. Isso fortificou. “Vou ficar tranquilo!” Mas, mesmo depois disso, até hoje é “E maldito?”É uma coisa que repete. “Ai, meu Deus!”. “Por que você é maldito?” Já cansei de falar, repetir a mesma coisa da época, mas mesmo assim é uma insistência. Na época, era bonitinho, lindo, “Pô, maldito!”, mas depois as pessoas ficam perguntando. Um dia desses li no jornal o cara dizer que “eu nego ser maldito”. Não é que eu negue, nem tenho nenhuma preocupação com isso, velho!
Max Eluard — Não foi você quem deu esse rótulo, veio de fora.
Melodia — Pois é, dos jornais que falavam na época. E o cara achando que eu nego. Aí repete essa coisa de novo. E tem uma garotada que não sabe o que está acontecendo. “Que porra de maldito é essa?” Embora essa juventude nunca tenha me perguntado.
Max Eluard — O que você acha dessa história de maldito?
Melodia — Não sei. O que você acha dessa história de maldito? [pergunta à Jane] [risos] Tenho que perguntar às pessoas.
Jane — O que eu acho do quê?
Melodia — Dessa história de maldito.
Jane — [ri] É um rótulo.
Sampaio — Lembro-me de uma música do Itamar Assumpção que falava que as pessoas achavam que ele era você, os dois malditos…
Melodia — Mas essa coisa continua, 200 anos… É uma besteira!
Max Eluard — O Itamar tem uma saída para isso, que fala “Eu sou maldito? Maldito é o Hitler, o Bush!”
Melodia — Eu não tenho nenhuma saída.
Sampaio — Mas você acha que te consideram maldito, ainda?
Melodia — Eu sou maldito. Sou cria do Morro do São Carlos. Não reparem nisso, não! Cria do Morro do São Carlos. Já antes de fazer música, antes de tudo, todos os quilombos já eram malditos. Então, pronto! Só que faço música. Acho que faço músicas legais.
Max Eluard — O que a música significa para você, Luiz?
Melodia — Significa muito, embora eu não esteja compondo assim. Tô tão de saco cheio que não tenho composto. Mas tenho escrito, tenho mandado minhas… [ri] Nos dois últimos discos meus fui eu que escrevi tudo. Nunca fiz isso. “Vai, musique aí?” Geralmente, faço, vou escrevendo, pá!”
Almeida — Quem são esses parceiros?
Melodia — Perinho Santana. Nunca nenhum conhecido, porque não sei se os caras vão fazer. Eu mandei uma vez para o Caetano Veloso e não tive resposta. Aí, o Renato Piau musicou “Morena da novela” [n.e. Incluída no CD 14 quilates, de 1997]. Mas eu havia mandado essa letra para Caetano Veloso. Não mandou recado, não falou nada. Beijinho, beijinho, tchau, tchau! E tenho escrito com o Ricardo Augusto, que é um parceiro que eu gosto.
Almeida — Que é o baiano.
Melodia — Que é o baiano. Na verdade, são todos baianos, menos o Renato Piau. Mas a maioria dos compositores com quem ultimamente tenho composto é baiana. Já pensaram, inclusive, até que eu fosse baiano, mas não sou baiana. Baiana é a Jane, de Jequié.
Sampaio — Jequié?
Melodia — Conhece Jequié?
Sampaio — Conheço.
Melodia — Vou passar a Festa Junina lá. Estamos marcando de ir. Sempre vou pra lá. Acho o máximo. Ninguém me conhece, ninguém me enche o saco, é bom pra caralho! Ela já não curte. Cria de lá, né? O Wally Salomão é de lá. Ele e o Jorge, lógico, são irmãos. Cidade pequenininha, mas maravilhosa. Gosto pra caramba.
Tacioli — Mas essa relação nos grandes centros te incomoda?
Melodia — Ah! Incomoda. E outra: comentei um dia desses que tem horas que o sucesso é repugnante. Legal, sucesso, sucesso e tal. Mas, porra, gosto de uma vida simples, nasci e fui criado no morro, então… Gosto de entrar em um boteco, “Alô, compadre”, trocar uma idéia, jogar um futebol, enfim, de não ter pessoa me enchendo o saco.
Max Eluard — Tudo vira um evento.
Melodia — É, velho, aí não dá pra mim, não consigo, me dá agonia. Me dá muita agonia.
Almeida — Luiz, você vê alguma contradição nisso, do cara batalhar pra conseguir uma notoriedade, independentemente de sua origem, e quando isso rola, nego vem pedir autógrafo e, “Porra, mas que saco, estou andando aqui na calçada, quero ficar sozinho!”?
Melodia — Posso falar por mim? [risos]
Almeida — Aliás, porque de notório aqui só tem você. [risos]
Melodia — Às vezes, têm uns caras que estão interessados em fazer sucesso, de botar pra foder… A minha intenção é fazer o meu trabalho. Quando saquei que compunha, que eu fazia um trabalho legal e que as pessoas gostavam — como o Wally Salomão ficou tão encantado com o que eu escrevi –, falei “Que barato!” Então, quero mostrar o meu trabalho. Mas nunca pensei que fosse tão mesquinho, velho! E que pudesse, nesse tempo todo de música, me fazer quase parar com a música. Parar, parar de viajar, da mídia, ir embora. Fazer música, lógico, mas sem… Entendeu o que eu quis dizer? Sem estar ligado com a música. Várias vezes, essa coisa me deixou bem enojado.
Seabra — O que ou que situação te deixou enojado assim?
Melodia — Essa situação de “Você é maldito!”, uma coisa de 200 anos. E aí “Você é maldito ou não é?” Ou, de repente, você está à vontade com a sua mulher ou com amigos, os caras chegam “Alô, é o seguinte…” Eu me sinto sufocado, velho! Essas situações, essas relações me deixaram assim. E de você fazer um trabalho, que me parece digno, que muita gente está a fim de ouvir, e que não chega em suas casas. Isso porque a gravadora, simplesmente, não faz nada, velho! Você entra em um estúdio, grava — já gravei por várias gravadoras — e não acontece porra nenhuma! Aí, você que é um filho-da-puta. Essas besteiradas! Enquanto, que porra, componho, vamos trabalhar. Assinei contrato com a gravadora, faço o meu trabalho, compadre, e você, faça o seu, porra! Vamos chegar junto, como estou fazendo agora. Estive em várias gravadoras consideradas grandes, e não aconteceu nada, velho! Picas! E acho que gravei uns discos legais. E nada. O que é? Um hobby. “Vou trazer Luiz Melodia.” Um hobby! “Vou trazer Luiz Melodia para a minha gravadora!” Hobby! “Odeon.” Hobby. “Philips.” Hobby. Não, velho, enche o saco! Essas coisas começaram… E tem me deixado, porra, chateado.
Denise — Você quer mais alguma coisa, Luiz?
Melodia — Traga mais cerveja.
Tacioli — Você vê a música como um produto cultural?
Melodia — Vejo, claro.
Tacioli — Mas na hora da composição, você a encara assim? Muitos antigos sambistas de morro compunham para contar uma história para seus pares. Como isso nasce em você, Luiz?
Melodia — Rapaz, eu me vejo tão sincero quando componho. Eu me lembro de muitas composições que fiz, embora inspiradas nisso ou naquilo, mas me sentia sincero no que eu estava fazendo. Um sambista, um cara de raiz, como os compositores do Zeca Pagodinho são interessantes — não estou nem falando do Zeca Pagodinho, embora seja o cara mais interessante do samba, que está mantendo aquele samba de raiz, aquele pagode. Você pode observar as canções, as composições deles são interessantes. Rufino, da Bahia, puta de um compositor. Luiz Carlos da Vila. São caras que você pode ouvir. É diferente desses pagodinhos de beira-de-ralo, né, velho? Não dá!
Max Eluard — Li uma entrevista sua em que falava de uma música desse disco que você fez e que havia mandado para Sandy & Junior. Dizia, também, que você pensou em não incluí-la no CD, porque a achava muito comercial. Você vê algum problema nisso? Quando li, pensei, “Pô, o Melodia não deveria nem pensar em mandar para Sandy & Junior. Quando viu que a música era comercial, era de fácil aceitação, ele mesmo deveria ter gravado”. Isso é legítimo e não diminui o trabalho artístico. Pelo contrário, é muito difícil você encontrar uma fórmula que faça você atingir todo mundo, de A a Z.
Melodia — Mas nesse disco eu me questionei em relação a isso. O disco estava vindo romântico pra caramba. Aí eu perguntava para a Jane, “Será que é isso aí, mesmo?” E ela falava, “Mas qual o problema?” [risos] Mas era uma coisa muito particular, até!
Almeida — Era como estava saindo.
Melodia — Era como estava acontecendo. E tinha essa música que compus com o Perinho Santana aqui em São Paulo. O Perinho ligou para mim, “Luiz, estou com uma melodia interessante. Venha cá! Sobe aqui!” Aí, subi e começamos a compor. Logo depois que terminamos, falei “Seria lindo se Sandy & Junior cantassem!” Achei naquele momento! E qual o problema? [ri] Depois disso, escrevi a letra, e aí começou o grilo. [ri] Começou aquela maluquice comigo mesmo. Aí eu perguntava a Jane inúmeras vezes, e ela “Porra, manda logo para os caras!” “Não sei se vou mandar. Acho que não vou gravar essa música. Acho muito comercial.” Aliás, eu estava achando muitas coisas comerciais nesse disco. Mas, engraçado, que eram coisas que eu queria gravar.
Max Eluard — E por que desse policiamento?
Melodia — Percebi que era loucura. Depois fui me policiando também…
Max Eluard — O contra-policiamento.
Melodia — É que eu estava preso. “Rapaz, você está em cana!” [risos]
Tacioli — Mas que elementos davam essa conotação comercial?
Melodia — A letra.
Tacioli — Não era a melodia?
Melodia — A melodia também tinha um… principalmente essa que eu pensei em mandar para Sandy & Junior. Mas também tinha uma ternura nessa melodia e letra que fez com que eu achasse que eles poderiam gravar. Olha só como coincidiu. Vim fazer uma gravação aqui, um clipe, não foi um clipe [perguntando-se]… Jane, foi um comercial que eu vim fazer aqui na época? [pergunta para a mulher que está em outra mesa conversando com a Denise]
Jane — Da C&A?
Melodia — Pois é, eu queria lembrar quando eu encontrei com o músico da …
Jane — Ah, não! Foi um comercial da Natura.
Melodia — Isso. Aí, o menino que estava no violão tinha um companheiro que trabalhava com Sandy & Junior. E batendo papo, “Pô, rapaz, é o seguinte…” [risos]
Sampaio — “Eu tenho uma música!” [risos]
Melodia — “Eu tenho uma música! Olha que loucura!” Ele falou “Maravilha, vou estar com eles agora. Vamos ensaiar semana que vem. Manda, Luiz!” “Vou mandar para você. Ficarei muito feliz de ver eles cantarem!” Não acreditava muito que eles fossem… não acreditava mesmo! Ainda mais Melodia. Jamais! Mas mandei o CD. Nunca mais, nunca mais. Não sei nem se eles receberam.
Tacioli — Você acha que eles conhecem o Melodia?
Melodia — Com certeza. Conhecer, eles conhecem.
Tacioli — Mas a obra do Melodia?
Melodia — Nada, nisso não acredito.
Tacioli — Nessa entrevista, você disse que “eles nem chegaram a ouvir”, mas fiquei com a impressão que a música estava meio no fim da fila, e se eles conhecessem a obra do Melodia…
Melodia — Não, não, acho que a política é diferente. Pô, totalmente diferente se Djavan mandasse. É uma outra onda. Com certeza.
Tacioli — Você não teve resposta. Que sentimento passou por você?
Melodia — Eu tinha a maior vontade de vê-los cantando essa música, com certeza. Mas posso me decepcionar, porque, de repente, os caras têm um CD lá e estão guardando a música. De repente eles gravam! [risos] Já imaginou minha cara desse tamanho, cara de nordestino do caralho que vou ficar, né, compadre! Mas não faço fé, não! Talvez fosse Veloso… Coisa de mídia, velho. Melodia não está nesse patamar a ponto de… Acredite se quiser!
Max Eluard — Como você vê o cenário da música brasileira hoje, Luiz?
Melodia — Rapaz, tenho as minhas dúvidas, sabia? Até porque não vi nenhuma segurança musical que eu pudesse falar, “Mais tarde vou sentar em minha casa e vou ouvir fulano de tal, fulano de tal”. Tá muito rasteiro ainda. Tem o Jairzinho, uma turma aí, mas ainda estão engatinhando. Não vou botar o meu dedo e falar “Alô, porra, é o cara!” É um músico legal esse menino, Jairzinho. Esse lado musical dele é um barato, mas nada que possa me surpreender.
Max Eluard — Nem te animar?
Melodia — A mim, não.
Max Eluard — Nem rap?
Melodia — Rap só meu filho, Mahal, que está viajando agora para os Estados Unidos e vai fazer um curso. Dei maior força. Engenharia de som, não é isso? E quando ele voltar vai ser o meu escravo. [risos]
Max Eluard — Vai pagar o investimento.
Melodia — A verdade é essa, pagar o investimento. Se não vier com muita amarra.
Max Eluard — Acho que a grande amarra é a tecnologia, ficar preso à questão tecnológica.
Melodia — É. Mas, de qualquer forma, com um pai autodidata, essa coisa combina pra caralho.
Tacioli — Luiz, você estava falando da reação que você tem com o sucesso. A partir do momento em que você gravou, teve suas músicas gravadas e teve um reconhecimento público, me parece que você tinha um certo medo do sucesso. Esse conflito em ser uma pessoa pública existia mesmo? Parece-me que você foi para a Bahia.
Melodia — É o lance do sucesso, porque nunca tive uma segurança de um empresário que me acompanhasse, aquele cara que faz uma coisa legal, o Guilherme Araújo. Então, era uma coisa meio…, talvez até hoje, sabia? Essa coisa me assustava muito. Eu me lembro que em 80 viajei a Salvador quando estourou aquela música “Juventude transviada”. Saí, fiquei realmente assustado. Eu não tinha ninguém. O Guilherme Araújo não estava comigo.
Sampaio — Era tema de novela.
Melodia — Tema de novela. Eu, sozinho. Aquele babaca… “Melodia está sumido!” Como é o nome daquele bêbado, como é? Escrevia umas coisas absurdas, não sabia nem o que estava acontecendo comigo, nada. É o Bôscoli! Escrevia besteiras no jornal. Foi quando viajei a Salvador, Bahia. E foi quando fiquei lá um tempo.
Max Eluard — Fugiu mesmo?
Melodia — Saí batido. Fugi, em termos. Fui para um lugar onde eu estava bem acomodado com a Jane. Eu a conheci novinha, linda, maravilhosa, morenão, um cabelão. É ruim de não ficar lá! [risos] Foi quando escrevi todo o Mico de circo, um LP meu. Cheguei ao Rio e o concluí. Foi quando homenageei toda a bandidagem do Morro do São Carlos, de Mineirinho a Mico Sul, e acabou entrando Angela Maria, Jamelão. Eu queria somente homenagear a bandidagem, mas acabaram indo todos os bandidos. Foi toda a marginalidade. Inclusive, coloquei “Tributo a…”, aí comecei a escrever “Fulano de tal”, “Fulano de tal”, Cara de Cavalo. Tinha umas senhoras que me viram miudinho no Morro do São Carlos, e aí também pus o nome, Dona Moca, Dona Eurídice. Sabe, saí botando o nome de várias senhoras que moravam no morro. E com esse Mico de circo, “fugi” e voltei à liberdade. Estava liberto quando me encontrei com a Banda Black Rio. Chamei o Oberdan [n.e. Flautista e saxofonista, o maestro Oberdan Magalhães comandou a Banda Black Rio em três discos, Maria Fumaça, Gafieiras universal eSaci Pererê. A banda se desfez logo após sua morte, em 1984]. “É o seguinte: o disco já está em cima, é isso que eu quero.” Entramos no estúdio. Chamei o João Donato, que fez os arranjos também. Quem mais escreveu na época para mim? Perinho Santana.
Sampaio — Saiu por onde?
Tacioli — Som Livre.
Melodia — É um disco legal pra caramba.
Tacioli — Está fora de catálogo?
Sampaio — Maravilhas contemporâneas voltou, né?
Tacioli — Saiu em CD, mas não sei se continua.
Melodia — Mas você encontra nessas coletâneas. Coletânea é uma desgraça.
Sampaio — Mas o Maravilhas saiu o álbum mesmo.
Melodia — O CD?
Almeida — É, o CD.
Melodia — O Nós, por exemplo, que é da Warner, não saiu. O único CD meu que não saiu. Fizeram uma coletânea que tem todas as músicas do Nós. Foi o único em CD que não foi apresentado na praça.
Almeida — Luiz, você tem algum controle sobre as suas músicas que entram em coletânea?
Melodia — Pô, acho que todos queriam. Tim Maia queria… [risos]
Almeida — Eu li…
Melodia — Tim Maia foi um dos caras que…
Sampaio — Que mais fizeram coletâneas…
Melodia — Não, quero dizer, o Tim Maia foi uma das pessoas que mais pensavam nessa coisa de numeração. Tanto que ele começou a gravar o disco pela Vitória Régia [n.e. O selo Vitória Régia Discos], mas não dava certo.
Sampaio — Disco numerado.
Melodia — Só que não dava certo. Não conseguia. Aquela loucura dele. Ele mesmo levava os discos para vender. Mas, porra, acabava dando…
Tacioli — Agora é o Lobão quem está à frente.
Melodia — Mas não sei como é que está rolando, não. Às vezes, encontro com ele, mas não sei se está vencendo, não. Embora, eu ache que é uma solução legal. Você tem mais precisão que quanto está vendendo.
Almeida — Rola sempre uma dúvida entre o que se vende e o quanto se fala que se vendeu?
Melodia — A dúvida é, principalmente, do compositor, o cara que escreve. É uma dúvida imensa. [ri] É um grilo! [Silêncio. Olha para o lado e posa para Dafne Sampaio] Perdeu!
Sampaio — Não perdi, não! [risos]
Tacioli — Luiz, você estava falando da sua relação com o sucesso e do medo. O que é um sucesso saudável?

Melodia — Saudável?
Tacioli — É.
Almeida — Boa ressalva. [risos]
Melodia — Sabe o que eu acho um sucesso saudável? É você fazer a sua música, ela ser veiculada em todas as cidades, para que as pessoas saibam do seu trabalho — o que você está escrevendo, independentemente de melodia. A sua letra, a sua mensagem. E ter uma vida sem frescuras. Sem, porra, ir a muita televisão, rádio. Toda hora estar ali, isso não curto muito, não! Quando em quando fazer algo e uns trabalhos como esse aqui, agora, “Vamos dar entrevista?” Pô, para a rapaziada ca-be-ça! [risos] É, compadre, sem um chato. De vez em quando tem umas pessoas que não sabem nada de mim. Nessas viagens que faço por aí, não sabem do que está acontecendo, ou nunca souberam. Aí, é muito chato. Mas é isso. Conforme o Dorival Caymmi tenta viver. Tran-qui-li-da-de! [risos] É, sem pressão.
Almeida — Luiz, o que você tem visto pelo Brasil, por meio de suas caminhadas?
Melodia — Muita música boa. Tenho uma quantidade de discos da rapaziada que não gravou, que não tem uma gravadora independente, posso dizer assim. E quando ouço em casa é um barato. Umas canções bacanas pra caramba.
Sampaio — Você compra muita coisa quando viaja?
Melodia — Mais ou menos. Tenho comprado muito disco africano que eu nem sei o nome. Chego na loja e “Quero esse”, “Quero aquele”. E Chet Baker [n.e. O trompetista e cantor americano Chesney Baker, 1929–1988], compro todos!
Max Eluard — O homem que tocava toda canção como se fosse a última?
Melodia — Chet Baker é fantástico! Compro sempre. Às vezes, até repito, compro uns que já tenho em casa. [ri] Mas o meu filho aproveita para samplear. Aí, você não sabe onde está, porque ele tira… [risos] Outro dia encontrei com o Jair Rodrigues, “Pô, não agüento aquele Jairzinho. Ele sampleia a porra dos meus discos.” [risos] “Pô, lá em casa é a mesma coisa!”
Max Eluard — Mas é legal ver a molecada fazendo isso.
Melodia — Acho.
Max Eluard — Subvertendo uma coisa que, de certa forma, era o que você fazia.
Melodia — Como é que é?
Max Eluard — Essa subversão do seu filho, do Jair Rodrigues, com a música que você leva para casa, ou mesmo com a sua música, de certa forma é a mesma transgressão que você cometia quando estava no morro e não se preocupava somente com o samba.
Melodia — Eu acho mais transgressor agora. Há uma facilidade tão imensa para você transgredir, porque está tudo na sua cara, velho. O seu pai tem uma grana para poder comprar… O Mahal compra as coisas, não importa se eu tenho… [risos] Outro dia, ele veio aqui — São Paulo — e quase me deu um derrame! [risos] Aquele negócio de… [esfrega a mesa como se estivesse fazendo um scratch]. Caraio, não-sei-quantos! E quando encontrei com o Jair, ele “Porra, o cara pegou os meus discos. Estava com umas aparelhagens que trouxe não-sei-de-onde [ri] e só metendo na porra do computador para samplear… EU!” [risos] O Jair Rodrigues estava injuriado, revoltado. “Porra, ele vai samplear EU!” “Lá em casa é a mesma coisa, compadre.”
Jane — Tem uma coisa engraçada. Ele sampleou esse pedaço de “Giros de sonho” [canta] “Você passa o tempo todo a sonhar”, aí ele colocou [entoa] “Mahal!” “Você passa o tempo todo a sonhar… Mahal!” [risos]
Melodia — E aí por diante.
Jane — Muito engraçado.
Max Eluard — Mas você entende essa música, essa criação de seu filho?
Melodia — Claro! Ouço rap desde quando o Mahal tinha 13 anos. Agora, com mais ferocidade, né? Mas dependendo da hora em que ele chegar… Por exemplo, se ele for a uma balada, como falam aqui em São Paulo, ele pode chegar às 6h30, 7 horas e meter a porra dos discos e [sonoriza os scratches] “Uaca, uaca”, alto pra caralho! Tem que ser anormal! [risos] Porra, tô dormindo! Ou acordar meio-dia e meter o som e tal. Bom, tem um negócio bem interessante, mas tem horas que é um saco, fica muito repetitivo. Acho que tudo é música, mas se você colocar, mesmo, Chet Baker o tempo todo acho que fica meio foda, né? Pára, volta. Isso direto, direto, compadre. Aí, ele vem e “Meu pai, o que você acha disso?” Porra! [risos] Mas, geralmente, gosto das fusões, que é mais a minha onda. Quando tem uns trompetes, uns metais, aí já conto 8/12. “É bonito, Mahal! Porra, legal!” “Eu sabia que você ia gostar, meu pai!” [risos] Mas tem umas coisas complicadas pra caralho. Mahal só ouve coisas… As coisas simples não estão na lista. Ele tem uns discos de mil fusões, compadre. É uma loucura! Nem sei o nome, mas eu curto, curto. [ri]
Max Eluard — Mas o seu trabalho também primou pela fusão.
Melodia — Quero fazer um disco agora com o Mahal. Já falei com o Mahal e com uma turma de rap lá do Rio, que eu gosto. Tem um grupo chamado Hermanos, que quero fazer um trabalho com eles, com o D2 [n.e. O vocalista da banda Planet Hemp, Marcelo D2], que eu gosto muito, acho interessante. Seu Jorge [n.e. Ex-vocalista do grupo Farofa Carioca, lançou seu primeiro CD, Samba esporte fino, em 2001, pela Regata Música] também. Uma rapaziada que é legal, que eu vejo que é da mesma tribo da minha quando eu era da idade deles.
Max Eluard — Mesma visão.
Melodia — Porra, mesma onda. Não tem jeito. O Mahal, nesse próximo disco meu. E um disco de samba, velho. Um disco de samba tenho que gravar. Se eu não gravar um disco de samba, não sou do São Carlos.
Max Eluard — Por que essa necessidade?
Melodia — Hein?
Almeida — Um disco com as músicas do Oswaldo, seu pai?
Melodia — Também do meu pai, minhas, de compositores do São Carlos e de outros lugares, da Cidade de Deus. Você havia falado o quê?
Max Eluard — Por que essa necessidade?
Melodia — Não é necessidade, não! Estou a fim, mesmo. Se fosse necessidade, eu estaria gravando amanhã. Mas não é necessidade. Vou fazer daqui a… Até quero que esqueçam para quando lembrarem, o disco… “Porra, o Melodia já gravou!” Aí, já está na fita.
Max Eluard — Compor e fazer música não é uma necessidade vital? O que eu quero dizer é que você faria música independentemente de quantas cópias você vendesse.
Melodia — Lógico, eu acho que sempre foi isso. Se não for nessa onda, fica estranho pra caralho. Mas, se tenho que subir lá e fazer uma música para poder integrar um LP daqui a 20 dias, isso é muito chato!
Tacioli — Mas já teve música de encomenda, não?
Melodia — Já. [ri] Isso já. Mas só fiz para a Gal Costa, velho. [ri] Sério, ela foi a única pessoa para quem compus de encomenda.
Almeida — Ela é a única que tem esse privilégio ou que tem essa intimidade?
Melodia — Deve ser tudo isso, porque nunca me liguei. Deve ser isso. Também nunca pensei “Pô, estou fazendo porque…” Sei lá, deve ser tudo isso. Por ela ter gravado a minha primeira música. Acho que é por tudo, por gostar da voz, por ser minha madrinha, umas besteiras assim.
Seabra — Você trabalha a composição ou ela vem pronta?
Melodia — Rapaz, quando você compõe ela já vem, de uma certa forma, pronta, sabia? Pronta, assim, você já tem um lance. Muitas vezes já acordei e estava em cima.
Max Eluard — Intuitivo.
Melodia — É.
Seabra — E a letra, também?
Melodia — É. Nunca tive dificuldade em escrever quando estou com o violão. Nunca tive. Mas quando estou só escrevendo, pintam mais barreiras, porque você fica pensando, “Pô, o que eu vou fazer aqui?” Mas quando estou com o violão, tudo ao mesmo tempo agora, é mais fácil, já sai normalmente. Pô, faço um sol maior. “Nan ri dum / tó tó / ih ru” “Ó meu amor…” Não é isso.
Max Eluard — Um acorde chama um verso…
Melodia — É, aí vai. Mas para escrever já rabisco. Inclusive, já fiz muitas letras que ela ali [aponta para a Jane] guarda. Às vezes, rasgo.
Tacioli — Existe alguma referência literária ou mesmo de um compositor que te estimule a escrever?
Melodia — De vez em quando acontece. Teve uma época em que eu estava tão apaixonado pelo Herman Hesse que, porra, toda hora eu…
Almeida — O que saiu dessa leva?
Melodia — [canta] “Dessa boba brincadeira, flor / Que o tempo só para acalmar / Muito tombo na ladeira, horror / Machuca, até faz chorar / Linda vista, baronesa / Musical do mar / Soa limpo com firmeza / A gente tenta escutar / Ah! Portugal, Bahia / Ah! Meu São Carlos / Fado é na ponta da língua, olelê / Samba é na ponta do pé”. Essa foi uma das. Lia o Hess e me inspirava. Pô, são tantas.
Tacioli — Muitos consideram surrealistas suas letras, pelo menos as de algumas épocas. Você concorda com esse tipo de classificação?
Melodia — Tudo bem, não me incomodo com isso, até porque não tenho outra maneira de escrever, velho. Escrevo assim. Não é afirmação, mas é assim. Desci o morro e os caras curtiram. Quando Wally Salomão viu, “Que interessante a maneira como ele escreve!” O surrealismo é uma maneira… Até o Hélio Oiticica. [ri] Mais surrealista que esse compadre, né? E ele falou, “Lindo, que coisa mais interessante!” Pô, não tenho outra maneira. Mas tenho vontade, gosto de escrever. Não gosto de ter um vínculo. Gosto de jogar as palavras sem metas ou com metas.
Sampaio — Você tem todo o Chet Baker. De seus álbuns que eu ouvi, Retrato do artista quando coisa é o mais romântico que achei. Mencionou, também, que sempre foi romântico. Que romantismo é esse?
Melodia — Talvez venha do rádio, velho. Eu ouvia muito bolero e muita música romântica rolava. Principalmente na Jovem Guarda esse sentimento foi muito marcante. E até o sentimento do morro, dessa coisa que todo mundo queria tanto resolver. Então, havia esse romantismo, um sofrimento, uma vontade de resolver coisas. Geralmente a música mais doce era a que mais pegava, era a que acentuava os nossos corações, pelo menos o meu. Essa coisa foi muito marcante. Na maioria das minhas músicas, se você perceber, as letras são bem porradas, mas a linha melódica é bem legal, é bem interessante.
Sampaio — De música brasileira romântica, o que você gostava e gosta de ouvir que te influenciou de algum modo?
Melodia — Chris Montez, mas não é brasileiro. [ri] Você não conhece Chris Montez? [n.e. Cantor americano de rock, intérprete dos sucessos sessentistas “Call me”, “The more I see you” e “Let”s dance”] Ninguém conhece Chris Montez! [dirige-se à Jane]
Jane — Eles não conhecem Chris Montez?
Max Eluard — Um bando de desqualificado, Jane.
Jane — [canta] “The more I see you”…
Sampaio — “The more I see you”? Opa, opa. Agora bateu.
Jane [canta] — “Sunny”. Esse é o disco romântico de lá de casa.
Melodia — Esse é o disco romântico de lá de casa.
Jane — Anísio Silva, bem! [n.e. Cantor e compositor baiano de Catulé, 1920–1989, despontou em 1957 com o bolero “Sonhando contigo”. Em seguida, cravou os sucessos “Interesseira” (58), “Quero beijar-te as mãos” (59), “Alguém me disse” (60), “Onde estarás” (61) e “Ave Maria dos namorados” (63)]
Sampaio — Chris Montez era somente intérprete?
Melodia — Intérprete, não era compositor, não. Ele gravou, inclusive, aquela música… [canta com voz anasalada e fina “The girl of Ipanema”] [risos] A voz e o timbre dele era tão doce. Na verdade, curto mais a voz dele do que a… E quando garoto eu ouvia muito no São Carlos. Era o cara que na época fazia muito sucesso, junto com aquele [empolgado, canta] “La la la la la bamba”. [ri]
Sampaio — Ritchie Valens? [n.e. Morto em 1959, aos 17 anos, vítima de um acidente aéreo em que também morreram os astros juvenis Big Bopper e Buddy Holly, Ritchie Valens foi um dos principais nomes do rock dos anos 1950 e autor dos clássicos “La bamba”, “Come on, let’s go”, “Ooh my head”, “Donna” e “We belong together”]
Melodia — Hein? Ritchie Valens? Que Ritchie Valens!
Almeida — “La bamba”?
Melodia — [canta novamente o refrão]
Tacioli — Trini Lopez?
Melodia — Trini Lopez! [ri]
Sampaio — Trini Lopez trabalhou em Os doze condenados. [n.e. Película de Robert Aldrich rodada em 1967, com elenco formado por Lee Marvin, Ernest Borgnine, Charles Bronson, Jim Brown, John Cassavetes, Richard Jaeckel, George Kennedy, Ralph Meeker, Robert Ryan, Telly Savalas, Clint Walker, Robert Weber, Donald Sutherland, Tom Busby e o próprio Trini Lopez]
Melodia — Eu ouvia toda essa turma. E o Chris Montez era o maior romântico. O timbre de voz dele era igual ao do Chet Baker.
Sampaio — Você havia falado do Anísio Silva.
Melodia — Anísio Silva, das vozes mais lindas, tanto que João Gilberto ouvia Chet Baker, ouvia Anísio Silva. Comprem Anísio Silva. É um cara da velha guarda, mas ele cantando é uma suavidade. Roberto Carlos também gostava pra caramba…
Tacioli — Dos cantores de dó de peito você não…
Melodia — Qual?
Tacioli — Todos da velha guarda. Francisco Alves, Orlando Silva…
Melodia — Tudo. Olha só, quando eu tinha 11 anos já ouvia… Negócio de rádio era impressionante porque tinha [canta] “Algum dia eu direi / Que te amo com fervor / Que não sei viver / Longe do seu A-MOR”, que era a música do Francisco Alves. [n.e.”Algum dia te direi”, valsa de Felisberto Martins e Cristóvão de Alencar, sucesso de 1942] Era uma programação, não sei se era de seresta, que só tocava essa rapaziada, velho. Orlando Silva, Nelson Gonçalves. Eu já ouvia essa turma. Sempre curti essa rapaziada, até hoje. Pô, você falou bem.
Tacioli — Curiosamente, você nasceu um ano antes da morte do Francisco Alves.
Melodia — É. Mas tinha um lance dos meus pais cantarem também. Quando não eram os meus pais, eram os tios. Então, a informação musical era poderosa, velho.

Max Eluard — Que é engraçadíssima. [ri]
Melodia — Puta. Tá sabendo da parada, né? Pintaram um cara.
Tacioli — E te anunciaram.
Melodia — Bom, isso eu não me lembro se anunciaram. Acho que não anunciaram, não. Mas tinha o áudio que era eu cantando. E quando rolava o áudio…
Tacioli — Surgia a figura.
Melodia — Vergonhoso, né, cara?!
Max Eluard — Esquisito.
Melodia — Muito esquisito.
Max Eluard — Não sei, a única justificativa que vejo para isso, é o fato de na capa do disco ter um cara, ao fundo, pintado de preto.
Sampaio — Não, não é um cara pintado de preto.
Max Eluard — É.
Almeida — É um negão.
Sampaio — É um negão.
Almeida — É.
Max Eluard — É? Não sei. Fiz essa associação porque achei que na capa tinha um cara pintado de preto…
Almeida — Ele está de perfil e tem um negrão atrás.
Melodia — Pintado.
Sampaio — Pintado?
Todos — Na capa?
Melodia — Não, na capa, não! Estou falando no vídeo.
Almeida — No vídeo, sim. É que na capa do disco tem um negão na praia.
Melodia — Mas isso não tem nada a ver. Isso é a capa do disco. Estou falando do clipe. Eu não entendi.
Almeida — Você não chegou a conversar com ele. “Ô, Caetano, era isso mesmo, um branco pintado de preto?”
Melodia — Compadre, não chego para conversar com o Caetano, porque morro de medo dele, sabia? [risos] Não sei em qual ele pode entrar. Não, não é comigo, não! Não é com medo de chegar. Comigo, não, porra! Sou do São Carlos, dá licença! [risos] Comigo, não! Ou se ele não soube disso. O cara pode nem saber, ou não está interessado. Ele nunca falou comigo sobre isso, não tem interesse. Eu não sei. Estou falando do que vi, do que alguém também deve ter visto, e não somente eu. Chato, feio, por fora. Só.
Tacioli — Luiz, você tem alguma bronca ou ressentimento com esses medalhões da música que acabaram sendo intitulados de MPB (Caetano, Chico, Gil)?
Melodia — Bronca?
Tacioli — Bronca não é a palavra, mas uma certa…
Melodia — Mágoa?
Tacioli — Não digo pessoalmente, mas pelo que eles representam dentro do mercado.
Melodia — Não é mágoa, mas para essas viagens fora do país, há uma seleção. Impressionante! E a música brasileira é maior que essa turma, porra! Essa coisa é meio “indignante” — será que essa palavra é certa? Deixa você indignado, até quem trabalha contigo, como empresário, porque ele sempre manda trabalhos, sempre está se comunicando com os caras lá fora, e nunca acontece. São sempre essas mesmas pessoas. Aí, fica meio estranho. Mas elas, essas pessoas…
Max Eluard — Não é pessoal?
Melodia — De jeito algum. São pessoas que mereceram pelo que fizeram, pô! Fizeram e fizeram bem pra caramba. Admiro-os, mas tem essa situação. Não é somente com esses medalhões, tem mais pessoas.
Max Eluard — Não é julgar a pessoa ou seu trabalho, mas o mecanismo que os elege para representar o país.
Melodia — Exatamente o mecanismo. Vou fazer um xixi.Almeida — Luiz, o Caetano gravou uma música de sua autoria pela primeira vez em Noites do Norte? [n.e. O tropicalista registrou “Magrelinha” no CD duplo Noites do norte ao vivo, lançado pela Universal Music em 2001]
Melodia — Demorou, hein, seu Caetano Veloso? [risos]
Almeida — Está registrado.
Melodia — Deixa registrado! [ri] Já falei que ele poderia cantar mais coisas minhas. O cara canta bem, gosta de mim e do meu trabalho. Já o conheço há um longo time, uma porrada de tempo. Mas, independentemente disso, sou muito amigo do Caetano.
Max Eluard — E o “Vamo comer”?
Melodia — Essa música é do Toni Costa. Não sei se o Caetano tem parte nela. [n.e. Composta com Toni Costa, integrou o LP Caetano, Polygram, 1987]
Max Eluard — E ele te chamou para gravar.
Melodia — Foi legal.
Tacioli — E rolou aquela história do vídeo. [n.e. Em um clipe produzido para o programa Fantástico, da TV Globo, além de Caetano Veloso, há um ator branco pintado de preto que dubla o trecho cantado, originalmente, por Melodia]
Melodia — Você é de onde, velho?

Max Eluard — Daqui de São Paulo.
Almeida — Ribeirão Preto.
Tacioli — Jundiaí.
Seabra — São Paulo, mas com criação em Jundiaí.
Melodia — E você?
Sampaio — Fortaleza.
Melodia — Ah! Você já é do outro lado.
Almeida — Mas a gente se conheceu em Ribeirão.
Max Eluard — Nós três.
Melodia — Eu estava em Natal, sabia?
Sampaio — Agora?
Melodia — É, vim de lá para cá. Sol lindo, maravilhoso. Não estava com porra nenhuma de vontade de vir para cá. [risos] Ainda chegou a Jader lá para fazer uma gravação.
Max Eluard e Sampaio — A Jader? [risos]
Melodia — A Jader e a turma toda do Clone lá.
Sampaio — É o fim da novela.
Max Eluard — Luiz, o que você sente quando você chega a São Paulo, você que foi criado no Rio de Janeiro? O que você acha dessa cidade?
Melodia — Depois do Rio Janeiro, acho uma cidade maravilhosa. Porque, na verdade, foi aqui que aconteceu mesmo tudo. O primeiro show que fiz aqui. Tinha dez pessoas! Foi naquele teatro… Celso…
Tacioli — No Oficina?
Melodia — Sim.
Tacioli — Zé Celso.
Melodia — É, Zé Celso. Eu me lembro que uma das primeiras apresentações que fiz foi ali. Tinha pouquíssimas pessoas.
Tacioli — Quando? Você já estava com disco?
Melodia — Não. Era um hippie na época. Um hippie no bom sentido, porque era eu e o Renato Piau, que me acompanha há 200 anos. Aí aconteceu um show. Não tinha ninguém. Pois é, aí teve essa ligação afetiva com São Paulo que foi um barato. Não deu para esquecer mais. Lembro que tinha uma rua que eu queria conhecer que era a rua Augusta. Porra, como eu queria conhecer a rua Augusta! Como ouvia falar! Até pela Jovem Guarda. Tem todo esse carinho. E foi a rapaziada que me acolheu de uma maneira positiva pra caralho. Até hoje tenho a maior firmeza. E em um dos momentos mais difíceis meu, de loucura, de não estar bem, aqui me aplaudiram. O Rio de Janeiro é preconceituoso pra caralho!
Max Eluard — É mais provinciano.
Melodia — Provinciano, é verdade. E aqui, não. Essa lembrança é muito marcante. Gosto pra caramba de São Paulo, sem demagô, numa boa. Tenho muitos amigos, de médicos a mendigos. Verdade! Muita gente conheci aqui, mas me casei com uma baiana. [risos]
Tacioli — Luiz, como você olharia para a sua carreira, do começo, em 1973, a 2001/02? Que mudanças houve nesse percurso que você consegue pontuar?
Melodia — Houve muitas coisas positivas, mas ainda hoje acho que poderia ter uma atenção voltada ao que eu faço, uma mídia mais merecida. Essa coisa nunca vi positiva, embora sendo respeitado até por jornalistas. Porra, nunca tive qualquer reclamação, também nunca vou ter, jamais, ainda mais agora, imagina. Mas eu acho que foi positiva durante esses 30 anos de carreira. Eu me mantive, com os meus esforços e os de quem estava participando comigo, bem legal.
Max Eluard — Mas você vê momentos que marcaram uma transformação, uma mudança na sua carreira?
Melodia — Cada dia é uma mudança, velho. Não cada dia, mas cada vez que eu gravo um disco existe uma mudança. Principalmente em cidades grandes como São Paulo. Como vou dizer?
Seabra — Onde você acha que sua mensagem circula mais, é isso?
Melodia — É. Com certeza.
Tacioli — E musicalmente, que mudanças você vê do primeiro disco a esse?
Melodia — Estou sempre procurando mudar no sentido musical, isso por ser eclético, né? Então, acho que nunca vou ter obstáculo no que eu faço, até porque é variável: faço samba, faço reggae. Então, as mudanças estão por aí, sei lá.
Tacioli — Mas você acha que existe essa cobrança de quem escreve, de quem te ouve, sempre comparando seu trabalho mais recente aos primeiros discos? Você sente isso, Luiz?
Melodia — Ah! Isso sempre acontece, principalmente com o primeiro disco, Pérola negra. Vira e volta estão fazendo essa comparação, que é um dos melhores discos que fiz na minha carreira, mas acho que não é por aí. Tenho certeza de que cada um é uma coisa, embora sendo o Pérola negra marcante pra caramba, né? Esse, o Retrato do artista quando coisa, não tem nada a ver com nenhum deles, pelo contrário, acho superautêntico, até porque ele é explicitamente eclético. Tem um samba, tem um reggae. Talvez tenha sido o mais eclético de minha carreira. Tem samba, samba-canção. Não é romântico, é um disco que tem tudo.
Tacioli — Ele é o retrato do compositor aos 50 anos?
Melodia — Ah, não sei se é não, acho que tem mais coisas. Estou pensando em fazer mais alguns trabalhos. Posso até dizer que este Retrato do artista quando coisa é uma coisa tão distante do que ainda vou fazer, tão fora da realidade do que ainda vou fazer. E o próximo será só com músicas minhas, o que minha mulher mais gosta. “Eu gosto que você componha, você e você, mais ninguém!” [risos]
Jane — Olha, os seus parceiros vão brigar comigo! [risos]
Almeida — Ele jogou a bola para o seu lado, hein, Jane?
Melodia — Sempre jogo a bola para o lado dela.
Denise — Meninos, daqui a pouco…
Tacioli — Já estamos fechando, Denise.
Melodia — Garçom, mais umas quatro cervejas, por favor.
Tacioli — Luiz, quais são os seus conflitos hoje? O que te aflige? As suas aflições são as mesmas daquelas dos anos 70, quando você estava nos primeiros discos?
Melodia — Não, embora eu esteja bem mais calmo do que no começo. Agora estou mais tranquilo, mas essa coisa de que todo mundo é cantor, de bandas uma atrás da outra — e todas ruins, ou senão, repetitivas, até pela facilidade que você tem de ter um estúdio em casa –, me incomoda, porque todos são artistas. E não é só em São Paulo, Rio de Janeiro. É em todo o Brasil. Você vai para Salvador e o que tem de artista, cantor…
Max Eluard — É uma coisa que o Mauricio Pereira falou pra gente: que por um lado a tecnologia trouxe a arte mais perto das pessoas, facilitando a produção, por outro lado, a música perdeu o sagrado, virou uma punheta.
Melodia — Perde-se, logicamente. Numa época, o sujeito tinha que cantar realmente, tanto que tinha calouros, você é ou não é. Eu lembro que tive que fazer testes [ri] para eu poder receber carteirinha de músico. Você tinha que fazer teste! É foda, compadre!
Tacioli — Nessa mesma linha, você acha que hoje dá para se ter clássicos na música?
Max Eluard — Serem produzidos clássicos, né?
Melodia — Está bem mais difícil. Clássicos, de composições?
Max Eluard — Sim, composições populares.
Melodia — Por quem? Uma geração de agora?
Tacioli — Eu não limitaria a uma geração.
Melodia — Não, isso é fácil, tranquilo. Qualquer um, Chico Buarque, Melodia, faz um clássico numa boa.
Max Eluard — Essa geração que está mais distante disso.
Melodia — Eu acho. Se sentar um Melodia e tiver a fim de fazer… Não se tiver a fim de fazer, “Vou sentar e fazer um clássico”, mas faz na continuidade do seu trabalho. Faz! Mas tem umas coisas… Folclorizam muitos os caras! A mídia inventa umas histórias que não existem. Eu lembro do Chico César quando ele chegou. As artistas todas “Eu quero gravar!”. Porra!, eu nem sabia quem era Chico César. Caralho, olha o cara! Eu me lembro, fui ao show da Gal Costa, e falei “Pô, você que é o Chico?”, “Você quer música?”, “Não, velho!”
Max Eluard — Você quer música! [risos]
Melodia — Ele estava viajando tanto. “Pô, Chico, pô!”
Max Eluard — “Eu quero te conhecer!”
Melodia — “Não, só quero te conhecer!” Então, fica essa situação de endeusar os caras, aí pinta umas besteiras dessas. Agora, acho que o Brasil é capaz pra caralho. Isso, em relação à criatividade. As pessoas que não estão gravando, ou melhor, que não têm acesso — no Morro de São Carlos tem vários caras que compõem lindamente. Tem um que vou gravar no próximo disco meu, chamado Mago, que é um puta dum compositor, um sambista de escola de samba. Quando eu era garoto, eu já ouvia coisas dele. Aí tem, aí você encontra.
Max Eluard — É que tem muita coisa soterrada.
Melodia — Pô, falou bonito. Soterrada! Ô, bacana pra caralho! [risos] Eu gosto dessas coisas bem pesadas. Soterrada. É isso!
Tacioli — Enfim, para fechar. Você sente saudade de quê? Dos anos 60, 70, da infância?
Melodia — Ah, tenho, pô! Principalmente da minha infância. Você não tem, não?
Max Eluard — Porra!
Almeida — Rapaz, eu não tenho.
Melodia — Só se foi muito ruim. É mesmo? Não sei se muito ruim, sei lá, qual o trauma? [ri]
Max Eluard — O que dá saudade da infância é aquela sensação de que tudo estava para acontecer ainda, né?
Melodia — Acho que infância, você não precisa dizer o que é. Infância é infância, porra, como é que você vai falar? Talvez seja a nossa época mais mentirosa. [ri] Sério, não é isso?
Tacioli — E do que mais você tem saudade?
Melodia — Olha só, na minha infância, do Seu Baldo, desse cineminha que tinha lá no São Carlos, da minha vó, que morava no Jacarezinho, que era maravilhosa. Eu ia sempre pra lá soltar pipa. Saía do São Carlos, do Jacarezinho, porque era assim, de quilombo pra quilombo, e encontrava com a minha vó. Ela morreu com 104 anos.
Almeida — Pelo amor de Deus.
Seabra — Oloco!
Jane — 112!
Tacioli — 112?
Melodia — 112?
Almeida — Nossa, é coisa, hein?
Melodia — Então, é marcante, uma lembrança fantástica. Eu lembro que em cima do barraco tinha umas abóboras, uns pés que cobriam o barraco, mas era muito foda…
Max Eluard — Aí, tirava a flor e a fritava. Era isso?
Melodia — Era impressionante! Cortava a abóbora para cozinhar, ou senão os brotos e… Ô menino esperto! [risos] Tinha essa onda! Eu adorava ficar na casa da minha vó! Vó é vó, né?! A gente se dava maravilhosamente bem.
Max Eluard — Vó é a parte boa dos pais.
Melodia — Então, é uma lembrança bacana, muito marcante. E os mergulhos na praia, no Calabouço, que era uma praia que tinha no Flamengo, junto ao Santos Dumont. Não sei se vocês ouviram falar no Calabouço? E o bonde, né? Bonde era foda!
Max Eluard — Luiz, hoje a música significa para você a mesma coisa que ela significava quando você começou a carreira?
Melodia — Tem! Lógico que de maneira diferente. Hoje, sou menos fissurado. Antigamente, eu era mais fissurado. Estava toda hora… Hoje sou mais preguiçoso. [ri]
Max Eluard — É a história do Caymmi, né?
Melodia — [ri] Ele está sacando tudo! [risos] Mas não que eu esteja de bobeira. Estou ligado! [risos] Pô, o Caymmi já é um senhor.
Jane — Não sei, mas você parece com ele. [risos]
Max Eluard — Isso foi um elogio.
Almeida — Luiz, e como você se vê lá para a frente, a sua velhice. Você vê uma velhice produtiva, ainda?
Melodia — Ah! Claro! Creio que a produção não seja em quantidade, mas o trabalho que você faz, acho que é mais ou menos por aí.
Almeida — Você não se vê como um cara que “Agora, aposentei. Parei, já fiz o que eu tinha que fazer. Vou deitar na minha rede!”?
Melodia — Não, não, não.
Seabra — Viver da renda da aposentadoria privada…
Melodia — Sou inquieto. Parece que sou uma coisa meio Caymmi, mas não, sou inquieto pra caramba. Jamais. Fico pensando coisas, é impossível eu parar. É uma coisa que não cabe em mim. Por exemplo, penso nesse disco de samba. Aí, fico pensando em um disco interessante, em fazer…
Seabra — Você está falando em projetos de dois discos. Decididamente, não está em clima de calmaria.
Melodia — Pois é, porque a cabeça funciona. É como estou falando, a qualquer momento posso entrar no estúdio e mudar tudo. [silêncio]
Tacioli — Maravilha.
Max Eluard — Tá ótimo.
Almeida — Ótimo.
Max Eluard — Tem alguma coisa que a gente não perguntou e que você gostaria de falar?
Seabra — Use a liberdade.
Max Eluard — Como diz o Abujamra, “enforque-se com a corda da liberdade!”
Melodia — Pô, o meu disco está aí, Retrato do artista quando coisa, isso é uma composição, ou melhor, um poema do Manoel de Barros, uma das músicas mais interessantes desse disco. Se eu fosse você… [risos] eu compraria e ouviria o restante. É maravilhoso! Muito bacana! Tem duas canções: uma ofereço a mim mesmo, que é de um compositor chamado Oswaldo Nunes. Eu, quando garoto, gostava muito dos sambas dele. “Levanta a cabeça” é uma canção que transpus para reggae e que você também precisa ouvir. Tem uma outra que ofereço a minha mulher, Jane Pinto Reis — eu sou o Tarzan [risos] -, que é uma música do Anísio Silva…
Jane — O que você falou?
Melodia — Que é uma música do Anísio Silva, “Sempre comigo”. Beijos, Melodia.
Tacioli — Maravilha.
Almeida — Tá ótimo.
Sampaio — “Levanta a cabeça” é muito legal.
Melodia — É um samba, um sambão que eu transpus para reggae.
Sampaio — Ela já havia sido gravada?
Melodia — Pois é, estou falando pra você…
Sampaio — Por ele mesmo?
Melodia — Oswaldo Nunes [n.e. Autor de sambas como “Vem ouvir”, “Chorei, chorei”, Estou gamado por vochê”, Samba do saci”, com Lino Roberto, e “Virou bagunça”, incluídos no LP O melhor do Bafo, Mocambo/Rozenblit, 1967], um sambista de um bloco chamado Bafo da Onça, que era o maior sucesso nos anos 60, 70. Só dava o Bafo da Onça. E o Oswaldo Nunes era o compositor direto do bloco. Essa é uma das paradas.
Tacioli — Luiz, você gostaria de ter participado mais da criação, da gerência do primeiro disco. Que coisas que estão no disco que você tiraria ou melhoraria? Você consegue ver isso?
Melodia — Nesse novo?
Tacioli — No Pérola negra.
Melodia — Sabe um lance que acho que foi um fracasso nesse disco? A sonoridade. O som dele. Acho um horror!
Max Eluard — Da qualidade técnica?
Melodia — Da qualidade técnica, de tudo. A sonoridade não é legal. Agora soa até bonito, maravilhoso, mas na época, quando gravei… Tenho essa loucura, quando gravo. Não sei se é com todos os caras, mas fico muito preocupado. Acho que está faltando coisas, sei lá.
Max Eluard — Mas isso é inquietação do artista, não tem como.
Melodia — É. Mas, por exemplo, na música em que o Altamiro Carrilho participa [n.e.”Estácio, eu e você”], a mixagem foi horrorosa. Era um disco que eu mixava total, tudo outra vez, mas, ao mesmo tempo, é assim que gostam, né?
Sampaio — É assim que está grudado.
Almeida — Registrado.
Max Eluard — Não acabe com o meu disco, não! [risos]
Seabra — Não acabe com a minha fita!
Melodia — Pô, é verdade, é verdade. Quando gravei “Estácio, Holly Estácio” com outro arranjo, nego queria me bater. [risos]