MAURICIO PEREIRA [2001]

Quando usou a primeira pessoa do plural, logo entendi, ele se referia a todos os músicos independentes.

editor do gafieiras
Jun 15 · 71 min read
Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Conheci o Mauricio Pereira em novembro de 2000, quando o convidei para compor a trilha de um documentário que eu havia produzido. Liguei, deixei recado, ele ligou de volta: “Alô, Max? Aqui é o Mauricio, tudo bom?”. Mais ou menos assim: um mano-brejeiro-zen. Então o levei à produtora para assistir ao filme e foi que ele se interessou pela feira na rua de trás; até lá fomos. Pastel, caldo de cana. Mauricio falava das pessoas da feira, das bandas de garagem do Cambuci, o som da rua e de sua fascinação pelas imagens da vida cotidiana. Mais ou menos assim: um flaneur-mano-brejeiro-zen. Ponto.

Dois anos se passaram, surgiu o Gafieiras e esta entrevista. Conversei com o Mauricio pelo telefone e sua sugestão (acatada) foi de fazermos a entrevista no SESC Pompeia. Alegou uma ligação afetiva e profissional. “Lá eles sempre nos trataram muito bem, com respeito.” Quando usou a primeira pessoa do plural, logo entendi, ele se referia a todos os músicos independentes. Marcamos às 19h30. Lá fomos nós. Aos poucos o time do Gafieiras ia chegando, todos cansados depois de um dia de trabalho, mas com disposição para entrar em campo. Mauricio demorou um bocado, chegou de cabeça raspada, camiseta, calça jeans e aquela cara de paulistano atrasado que todos já fizemos um dia.

Parafraseando Dorival Caymmi, todo mundo é paulistano, mas Mauricio Pereira é paulistano mesmo! Assim pode ser definido esse corintiano romântico de 42 anos: músico por acidente, cronista por natureza, mas paulistano acima de tudo. Mauricio ficou conhecido ao protagonizar, na década de 1980, com André Abujamra, Os Mulheres Negras. Em 1988 estrearam com o álbum Música e ciência, pela gravadora Warner Music. Um disco autoral e de vanguarda, sem dúvidas. Elementos eletrônicos visitavam a música brasileira em samba, funk, soul, música caipira, reggae, uma miríade de sons e sotaques musicais, uma banda tão heterogênea quanto a capital paulista. Dois anos e muitos shows depois, lançaram Música serve pra isso (Warner Music) e o crescimento musical da dupla foi bastante significativo, tão significativo que um ano depois a separação foi inevitável, sem mágoas, com direito a show de despedida.

Mauricio em carreira solo seguiu diversos rumos: fez trilha pra filme, programas de TV, produziu discos, liderou a banda Fanzine do programa homônimo exibido pela TV Cultura, colaborou em discos de Skowa, Jorge Benjor, Tetê Espíndola, foi repórter, foi o primeiro artista brasileiro a transmitir um show ao vivo pela Internet, além de lançar dois álbuns independentes. A uma hora dessas deve estar debruçado sobre o material que irá compor seu terceiro disco, este pela Lua Discos.

Mauricio Galacci Pereira é mais um japonês que um gênio (como se autodenomina Tom Zé), mas um poeta trabalhador, nada de linha de montagem, trabalho duro sim, mas como um arquiteto que constrói um belo castelo carregando as pedras com as mãos. Assim vai seguindo: alimentando-se e afogando-se com a música o futuro feliz proprietário de um boteco em Pindorama.

Primeiro tentamos nos acomodar na biblioteca na área de convivência do SESC. Estava na hora de fechar e um segurança rondava-nos e dizia através do olhar desconfiado: isso vai longe? Mauricio começava a falar sobre o relançamento de seu segundo disco solo, o Mergulhar na surpresa. Ao perceber que não fazíamos menção de deixar a confortável mesa redonda, o segurança pediu que trocássemos a biblioteca pela lanchonete. Sinal de que ainda tínhamos uma hora e meia de conversa.

As batatas fritas estavam espalhadas na bandeja, a cerveja em copos de plástico, enquanto outras aguardavam num saco de supermercado com gelo ao pé da mesa (nessa altura até a lanchonete já havia encerrado o expediente), aliás, o único lugar gelado, pois a conversa seguia animada. Mauricio falava, lembrava, leve. Futebol, faculdade de Jornalismo, literatura marxista, produção independente, a música paulistana, terrorismo, timidez, a cidade, o campo, televisão, rádio, vida cotidiana, vida mundana, a fealdade e a beleza. Nada é ignorado pelo olhar de Mauricio, sua música nasce dessa visão de mundo. Mais ou menos assim: um operário-poeta-músico-flaneur-mano-brejeiro-zen.


{…} expediente

entrevistadores Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Flávio Monteiro, Max Eluard e Ricardo Tacioli
produção Max Eluard e Ricardo Tacioli
transcrição de texto Marllon Chaves
edição de texto Ricardo Tacioli
revisão de texto Rogério Trentini
fotos Dafne Sampaio
texto de abertura Max Eluard

Entrevista realizada em 20 de novembro de 2001, São Paulo/SP, Sesc Pompeia.



Flávio Monteiro — Sobre os relançamentos do Mergulhar na surpresa e dos dois álbuns dos Mulheres Negras, mudou alguma coisa em relação aos originais?
Mauricio Pereira — Não, são igualzinhos. Deixa eu ver… Sobre o Mergulhar, depois até pensei, tinha um material pirata que eu poderia ter posto lá, mas eu fiz os discos para durarem. São discos que funcionam sem bônus, sabe como é que é? Mesmo nos dos Mulheres, o primeiro tem um remix do “Sub” e o outro não tem nada.
Monteiro — Você tem mania de registrar shows? Ou não tem dessas coisas?
Pereira — Cara, não registro nada nunca. Aquele negócio do Supremo [n.e. Temporada realizada em 2000 ao lado do pianista Daniel Szafran e convidados interpretando obras de outros compositores], a Eliana e o Szafran registraram. Piano e voz sempre ou o Szafran registrou ou os produtores que estavam comigo. Por mim não registrava nada.
Max Eluard — Mas por quê?
Pereira — Um pouco é preguiça, não gosto de ouvir, embora eu reconheça que tem preciosidades que só estão lá. O Szafran me deu CDs e mais CDs de canjas do lançamento do Mergulhar, com o Skowa, André Magalhães, Guello, Paulinho Freire. O Szafran gravou Mergulhar na surpresa ao vivo naquele teatro em Ouro Preto, em 8 canais. Foi um dos melhores shows que fizemos. Teoricamente é um disco. Tem coisas que nunca gravei, mas não tenho o hábito. Um pouco é romantismo, um pouco é preguiça, um outro pouco pode ser burrice, sem saco de registrar, como se eu falasse, quem viu, viu. O problema é que como pouca gente vê, ninguém viu. [risos gerais] Então talvez seja um tipo de burrice romântica.
Max Eluard — Então vamos entrar no relançamento do Mergulhar. Ele tem uma história?
Pereira — Depois dos Mulheres Negras, os discos que fiz são independentes, sou o dono deles. Para lançá-los ou banco do meu bolso, ou licencio para um selo por três anos, geralmente. O Na tradição banquei duas edições, depois licenciei para a Tinitus. Venceu. O Mergulhar já licenciei direto para a Atração. Acabou tudo, vendeu, venceu o licenciamento, então agora estou licenciando para a Lua. O lance com a Lua surgiu quando eu estava fazendo show no Supremo em 2000, era um show cantando coisas dos outros. O Zé Rodrix foi ver, gravou o show e levou para a Lua. Ele é amigo do Thomas Roth. E aí pintou essa aproximação com a Lua, que vai render discos novos e o relançamento dos antigos. Provavelmente, se tudo correr bem com o Mergulhar, em 2002 será relançado Na tradição. Foi uma afinidade. Eles estão fazendo um trabalho decente e respeitam o meu trabalho. Então, vamos nós.
Max Eluard — Mergulhar na surpresa é de 1998. Como que você o vê hoje, Maurício? Você acha que ele envelheceu?
Pereira — Não envelheceu, não envelheceu. É um disco que eu poderia estar fazendo agora. O mais difícil, mas é uma coisa que em meia hora eu faço, é você sentar, se concentrar e entrar no espírito dele. Porque ele é atual para quem vai ouvir, e é atual para eu cantar, mas hoje eu canto essas músicas de um modo diferente, mas a concepção do disco, a poesia e a filosofia estão intactas. É como se o disco tivesse saído ontem. É só eu sentar, respirar fundo e mandar ver. Esse disco está bem vivo.
Monteiro — Você falou que a Lua respeita seu trabalho. Você já teve experiência em uma major, numa fase em que a Warner tinha uma porção de bandas e talvez fosse a gravadora mais forte em grupos nacionais. O que você tirou de lições com a major? O que ficou de bom e o que ficou de ruim? Como é que foi esse relacionamento?
Pereira — Bom, deixar eu pensar. Dentro da major Os Mulheres Negras eram uma banda alternativa. Então o tratamento era diferente. Se eu fosse falar pejorativamente, era um tratamento de segunda, mas não era. Na major quanto mais você vende, mais você tem atenção. Ficar meio de escanteio numa major tem um lado bom e um lado ruim. O lado ruim é que os caras não te divulgam e não te distribuem direito. O lado bom é que você tem uma liberdade para trabalhar e uma certa grana para fazer o disco, que nunca tive depois. Na época que a gente estava na Warner, de 85 a 90, acho que demos umas sortes também, porque o André Midani estava lá. Outro dia eu estava falando isso com o Nasi [n.e. Vocalista do Ira!], que a gente era feliz e não sabia. O Midani é um cara do comércio, da indústria, mas ele gosta de música, estava por perto da bossa nova, do tropicalismo, do rock paulista. E muito ele bancava o Mulheres na Warner porque naquela época a gravadora queria ter artistas diferentes. Eu me lembro de que para gravar o segundo disco do Mulheres, a gente foi lá no Maksoud [Plaza] falar com o Midani. Já tinha uma conversa na Warner de “vocês têm que fazer um disco de pista”, porque estava rolando house [risos] e lambada, e veio esse papo. E o Midani veio e falou… bom, o que eu entendi é “me dêem uma música de pista e façam do resto o que vocês bem entenderem”. Mas ficou nas entrelinhas que ””se vocês só fizerem o que vocês bem entenderem também está tudo bem””. Então tivemos liberdade na Warner. Agora tinha uma coisa do staff da gravadora, que é mais acostumada a trabalhar com o jabá, com a mídia grande, com artistas de grande vendagem. Eles não sabiam bem como lidar com banda pequena. Os Mulheres eram uma banda que podia ter vendido 50 mil discos de cada álbum e vendeu 10, 12 mil. Para você vender bandas diferentes como o Mulheres você tem que ir às lojas diferentes, você tem que cultivar aquele público de molecada que quer coisas fora do padrão. Fizemos muito interior; 60, 70% dos shows foram no interior de São Paulo, mas nunca tinha disco dos Mulheres. Isso piorou nos anos 90. As majors emburreceram, elas não eram burras nos anos 80. Pô! Rock paulista, rock brasileiro tem mestres, teve muita coisa nova interessante. Nos 90 teve muita coisa interessante, mas esse esquema do jabá viciou. Agora, o Brasil é um país louco e graças à pirataria — estima-se que 70% do mercado seja pirata — as gravadoras vão ter que olhar para artistas de menos vendagem para driblar isso aí e talvez ter outras atitudes na hora de comercializar e divulgar. O mundo é louco. Uma pirataria combate a outra.

Clipe oficial da música “Eu vi”, do álbum de estreia, Música e ciência (1988). Fonte: Youtube

Max Eluard — Mas voltando ao Mergulhar, você disse que o conceito do disco está vivo e novo ainda. Mas que conceito é esse?
Pereira — É gozado você me perguntar isso numa hora em que estou compondo. Pô! Fazia 5 anos que eu não sentava para compor. Não sei se vou fazer um disco para o meu gosto que seja bom como o Mergulhar, bom de melodia, bom de letra, bom de canções, bom de idéias. Eu me expressei com facilidade e com exatidão. Estou sempre em crise, mas não estava em crise de linguagem, ou comigo mesmo, ou de olhar para o mercado e saber o que é. Eu tinha uma tampa para fechar, tinha uma etapa para cumprir. O Mergulhar era um jeito de eu olhar para a minha profissão, o jeito de, definitivamente, depois de Na tradição, poder ser mais poeta, mais lírico, mais delicado, de eu poder falar das grandezas das coisas cotidianas. Não por acaso tem músicas como “Dia útil” ou “Inventor brasileiro”. Porra, o meu ídolo é o homem da rua! Tirando ir no cinema que vou de vez em quando, não vejo muito show, peça, não leio grandes livros. Minha fonte de drama e estética é andar na rua. Tomo metrô, vou para o centro, ando na Lapa. Isso vai estar muito no meu disco novo, vocês podem ter certeza. Ouço muita rádio comunitária — agora mesmo, vindo para cá, estava ouvindo a 99,7, chama-se RCP, não sei se é oficial, comunitária, pirata, mas ela toca charm e hip hop. Agora tem um programa que se chama Hip hop Brasil ou uma coisa assim. São 8 horas, agora? Gozado, é pirata, na Hora do Brasil! Das 7 às 8 tem hip hop brasileiro, que nem tudo eu adoro, mas acho importante ouvir texto de paulistano. Isso vai estar no meu disco novo. Voltando ao Mergulhar, é um disco que me satisfaz, é um disco espontâneo. Fiz o que queria, gravei um disco como eu quis e registrei o trabalho do Daniel Szafran, que é superimportante. Como no Mulheres, quando se registrava o trabalho do Abujamra, que é um músico muito especial. No Na tradição, o Cláudio Boni, que era um trombonista que sempre tocava comigo e que morreu em um assalto há dois anos, músico muito especial, é o único registro que se tem do cara. No Mergulhar tem o Szafran que é um músico fabuloso. Não tem pianista em São Paulo com a selvageria dele. Por “n” razões o Mergulhar está intacto e tem esse caminho dele, de ser um álbum espontâneo, meio selvagem. É um disco de rock and roll mesmo sendo piano e voz.
Max Eluard — O Na tradição é um disco mais próximo do trabalho dos Mulheres Negras. Qual diferença você vê do Na tradição para o Mergulhar?
Pereira — É. No Na tradição eu estava mais radical. Saí dos Mulheres e precisava me mostrar como poeta. Na capa do Na tradição eu estava com a cara séria, de jeans e camiseta … [risos]
Max Eluard — A roupa engajada…
Pereira — Não, estou com roupa de operário em fim de semana. Falei “não posso ser gozado, não posso ser engraçado, não pode ter piada, não pode nada. Tenho que ser completamente diferente, não posso ser um personagem como eu era no Mulheres”. Então no Na tradição eu estava mais com essa neura, mas poeticamente ele me agrada. E outra coisa: como produtor de discos, no Na tradição eu não estou maduro ainda. Já produzi um monte de coisa, mas estava muito verde porque não tinha grana e fiz as coisas sozinho. Fiz de um jeito muito naturalista, não comprimi nada, não destimbrei nada, não tive tempo de remixar mil vezes. O disco é todo analógico. Foi um disco difícil de fazer; demorei 2 anos para fazê-lo. Gravar mesmo gravei em uma semana, mas sabe a dificuldade de botar um disco na praça? Tava enrolado. Foi difícil de produzir, um parto dolorido, sofrido. Montar banda, manter banda. Já no Mergulharfui mais relax para o estúdio, não estava com pressa, já tinha tocado dois, três anos com o Daniel na estrada, o repertório estava resolvido e calhou de eu achar o André Magalhães para gravar o disco no estúdio Zabumba. O cara foi um mestre. Ele sabia gravar um piano, sabia gravar voz…
Guarda do SESC — Estou fechando aí, viu!
Pereira — … o clima foi super de camaradagem, mais descontraído. A diferença do Mergulhar para o Na tradição é que o Mergulhar foi muito mais solto. O Na tradição foi difícil, um puta parto dolorido.
Max Eluard — E em qual contexto da sua vida foi feito o Mergulhar?
Pereira — O Mergulhar? Deixa eu ver… Eu tava saindo do Fanzine [n.e. Banda homônima ao programa da TV Cultura que Maurício integrava na primeira metade dos anos 90]. Estava com uma over de músicas na cabeça, não estava tão perto do Mulheres, estava mais perto do Fanzine, que era o quê? Eu tinha um trabalho operário de músico, trabalhava todo dia na televisão das duas às dez da noite. Cantei 600 músicas em dois anos. Era operário. Vai lá, pá, bate a dominante, canta, maquiagem, volta, pá, intervenção. Era um trabalho com música, assalariado e pesado. Isso me fez refletir sobre a profissão. Músicas como “Dia útil” só podiam ter saído dali. A coisa de ter cantado muita música dos outros — cantei Lamartine, Noel, Amado Batista, Zezé Di Camargo, Raul Seixas, tudo que vocês imaginarem. Fiquei promíscuo com a poesia da música popular. No Mulheres, 80% das letras eram minhas. Eu tinha cabeça de poeta, não eram letras de letrista. No Na tradição começou a ser letrista e no Mergulhar é um letrista solto, despadronizado, para o bem e para o mal. Porque gosto de ouvir uma música do Zezé Di Camargo, acho bonito o cara fazer coisas simples no padrão. Poeticamente eu estava mais liberto de ser poeta. Então o Fanzine me soltou muito, o volume de trabalho e a influência de música muito popular me deixou um cara mais solto no Mergulhar. Ali eu já estava com um disco e dois filhos nas costas, estava tudo mais fácil e eu estava menos burro, vamos dizer.
Monteiro — Pelo que a gente percebe, a música te alimenta. Compor é uma necessidade?
Pereira — Me alimenta e me sufoca, porque se eu fosse dono de um boteco em Pindorama eu também estaria bem.
Monteiro — Música serve para quê, afinal? Você acredita em música como instrumento de mudança da sociedade, já que agora estávamos falando de hip hop e esse pessoal escreve muito nessa linha combativa.
Pereira — Quando comecei a ouvir música… bom, quando comecei eu era bem pequeno. Nasci em 59 e nos anos 60 eu ouvia muita música na televisão. Festivais da Record, O Fino da Bossa, Jovem Guarda. E quando eu tinha 8, 9 anos, Tropicalismo. Tinha aquele programa na Tupi, Divino Maravilhoso [n.e. Programa de televisão apresentado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, dirigido por Fernando Faro e Antonio Abujamra]. Então música para mim era do rádio e da TV, eu não comprava disco. E a música da segunda metade dos anos 60 tinha esse caráter de mudar o mundo, mesmo a Jovem Guarda, jovens, Tropicalismo, virou tudo de cabeça para baixo. Tinha o Geraldo Vandré, os festivais, Beatles, Stones. Assim, a minha coisa infantil com a música é que ela vai mudar mundo. A música é um instrumento de transformação de costumes. Nos anos 70 ouvi muita MPB e jazz. Não foi uma época em que ouvi rock and roll e pop. MPB quer dizer Caetano, Gil, Chico, Milton. Tinha a ditadura. Depositava-se uma esperança nos músicos, parecia que eles iriam salvar o mundo, não por acaso censuravam tanto os caras. A gente depositava uma esperança nesses compositores populares que no fim eram quem analisava o País em termos que dava para a gente entender. Então, puxa, vou dizer que por 20 anos da minha vida a música na minha cabeça foi um troço transformador mesmo! Nos anos 80 não sei mais o que pensei. Fiquei profissional aos 25 anos; antes eu não era músico, foi meio sem querer. Eu era um ouvinte atento e acho que já na primeira metade dos 80 não tinha mais essa coisa que a música ia transformar o mundo, os costumes e a política. A ditadura meio que acabou, a música ficou um troço muito comercial com FMs de montão e trilhas de novela… Quando fiquei músico no Mulheres, a coisa minha e do André era o ímpeto selvagem de fazer música de qualquer jeito, com poesia junto. Gozado, nunca parei para analisar isso. Nos anos 90 para mim é a tristeza, não tem mais isso de salvar o mundo e isso me dói. Isso de ter milhões de CDs hoje em dia tem dois lados: um é legal, democratiza a arte, mas a música perdeu o sagrado. E eu busco isso! No Mergulhar é muito clara essa busca. Tem muita arte sendo produzida no mundo. E mais gente fazendo arte do que gente consumindo arte no mundo hoje. Tem computadores, tinta barata, instrumento barato, tudo é barato. Todo mundo tem linguagem, tecnologia. Se você ficar na sua casa mijando em pé e puser uma câmera, aquilo é arte de algum modo! Mas não me conformo com essa perda do sagrado. Pra mim, arte sem sagrado é punheta! Então é muito difícil hoje eu querer ver obra de arte. E onde tem o sagrado? Na rua, na rua!!
Max Eluard — Como foi perdido esse sagrado? Você vê uma ruptura, um momento ou um evento?
Pereira — Os anos 90 foram cruéis, porque foram os anos das aparências, de você parecer artista, de você fazer uma coisa que parece música, de você parecer bad boy, de você parecer guerrilheiro, de você parecer transformador. Foi a década da roupa, cara! E não do coração! Foi a época do olho, do olhar a coisa e pensar que é, de pensar que a aparência é que é. Os anos 90 foram a era da publicidade.
[segurança do SESC Pompeia interrompe mais uma vez]
Pereira — A gente pode só terminar isso aqui?

[em novo lugar, nas mesas externas da lanchonete]

Pereira — Estávamos falando das aparências, não?! O sagrado da música dançou um pouco aí, porque ficou tão fácil ter música, de fazer e consumir que a gente perdeu um pouco… Sempre penso que há dois lados: não acho que é legal esse papel do artista endeusado num monte Olimpo, não está certo! Mas a música, toda a forma de arte, a obra de arte tem que expressar essa divindade, o sagrado, e não obrigatoriamente o artista. O artista tem que ser meio cavalo, que nem quando vai no terreiro, você faz o serviço e tchau. Até porque tem uma cisma de que uma sociedade podre é que precisa de artista. Porque se a sociedade for linda, legal, resolvida que nem o Paraíso antes da cobra, você não precisa do artista para ver a arte. O artista é uma muleta, e a arte que você paga para ter, você paga para ter uma visão do mundo, da beleza ou das questões, da inquietude. Deduz que essa arte é poluição. É como se eu dissesse: quando o mundo for perfeito não vai mais precisar de artista e tudo será obra de arte. Quando saio a pé da minha casa, para dar uma volta ali na Vila Ipojuca, um cocô de cachorro, um velhinho fazendo a barba, as pessoas atravessando a rua, isso é arte!! Mas quando o mundo for assim não será mais preciso a minha profissão; vou poder ter o meu boteco em Pindorama e tudo mais.
Max Eluard — Então o seu papel é tirar da frente das pessoas esse monte de sujeira e feldade para poder ver o velhinho fazendo a barba?
Pereira — Ou então até ver a sujeira e falar que é sagrado também! A feiura também é sagrada! Ou você encara cada segundo como um filme, como um disco, como uma peça, um poema. É isso que digo, se você entender cada segundo da sua vida como a prática da arte — acho que budistas pensam assim — você não precisa de artista. Quem é o artista? Um cara que você paga para fazer algo que você pode fazer. Pô! É meio estúpido isso que vou dizer, mas artistas são o sinal de uma sociedade doente. Por outro lado, como o mundo nunca vai deixar de ser doente, acho melhor a gente fazer vistas grossas e se entregar às grandes obras de arte que tantos artistas ou a rua têm para oferecer.
Monteiro — Eu estava num show da Ná Ozzetti [n.e. Show, homônimo ao disco lançado pela Som Livre em 2001, com repertório centrado em sambas-canções clássicos] em que ela cantava aquelas músicas extremamente poéticas que dão vontade de chorar. Mas essas canções foram feitas na década de 40, quando você não tinha uma indústria esperta como se tem hoje, que saca todos os detalhes para se fazer um artista. Esse amadurecimento do mainstream acabou influenciando na formação desse tipo de artista que hoje não dá tanta atenção para a arte como sagrada?
Pereira — Olha, não sei, deixa eu pensar…
Monteiro — Porque quando você pega a molecada que está começando a fazer música, isso torna-se uma chance de ascensão social.
Pereira — Isso tem a ver.
Monteiro — E aí, “opa! vou ter casa própria agora”. Não existia essa perspectiva.
Pereira — No duro?! É com meia dúzia de pessoas a cada dez anos que isso acontece. O sonho existe! É menos do que isso. As pessoas vêem você ter uma banda ou fazer uma música, tocar um instrumento… Parece que isso tem mais a ver com o Narciso de cada um do que com aquilo que falei de você ser cavalo de energias que já estão aí, fazer o coletivo. Isso é da época! E quem sabe se essa postura de todo mundo querer ser artista já não é o começo de não precisar mais de artista? Não sei dizer, não sei dizer. Pode até ser que tenha o tal sagrado por aí e eu não enxergue no pop. Mas, realmente, não enxergo não.
Max Eluard — Agora há pouco você comentou sobre a vaidade, que a vontade de ser artista nunca vai com a vontade de cada um. Acho que é meio inevitável a partir do momento em que você passa a ser uma pessoa pública. E mesmo o processo de criação tem muito de você ali, do que você é, do que você acredita. Como é lidar com a vaidade? Qual é o lugar dela?
Pereira — Para mim é contraditório porque sou um sujeito meio tímido e virei artista sem querer aos 25 anos. No começo eu achava que não tinha vaidade. Quando estava no Mulheres Negras, que caí de pára-quedas, falei, “não, não tenho, já estou com uma roupa aqui que esconde a minha cara”. Na rua não me conheciam direito. Mas tem, cara! O ego sobe! Por exemplo: os sapateiros tinham uma doença profissional chamada saturnismo provocada por eles ficarem com a tachinha de chumbo na boca. Toda profissão tem uma doença profissional. Um tem calo, fica com a mão grande, outro tem o pulmão … Artista tem o ego exacerbado, é doença profissional. Pô, em casa com os meus filhos eu já tenho mais ego, é doença! No meu caso tem dois lados: essa coisa de vaidade, de ego, essa veadagem toda me irrita muito; por outro lado existe, eu tenho e tem que ter porque do jeito que o mundo é não basta você fazer obra de arte, você tem que se comportar como artista. Por quê? Você tem que se defender da gravadora e se defender do público. Se você não impuser respeito, mesmo que seja com a máscara, você está fodido, basicamente. Isso estou aprendendo. Para um cara tímido isso não é fácil, tento diminuir minha barreira com o público, com a imprensa, com gravadora. Muitos caras me dão umas porradas por conta disso. Muitos caras se arrogam para cima de mim. Tudo bem, sou zen nesse sentido. Mas entendo que, de vez em quando, você precisa chegar pisando duro, bater o pau na mesa, chegar com muita pose, senão não levam você a sério. Então, não vou mais falar mal do mundo, não vou falar que o mundo é ruim, feio. Falarei que o mundo é maluco, divertido e interessante. Temos que dançar um pouco conforme a música. Por isso, quando falei que não registro os meus shows, por um lado estou sendo burro mesmo. Do mesmo jeito que se eu quiser falar para vocês que não basta ser poeta e fazer a música e foda-se o resto, não tem isso, cara, tenho que saber dar entrevista, tenho que saber usar uma roupa. Até para eu estar de jeans e camiseta como aquilo na capa do disco, gastei 30 segundos. Já que não gastei seis dias, gastei 30 segundos. Temos que lidar com a matéria, não é só… o cavalo tem que ir bem vestido para o terreiro.
Max Eluard — Pentear a crina. [risos]
Pereira — É, tem que pentear a crina. É isso aí.
Monteiro — Você participou da remasterização dos CDs dos Mulheres…
Pereira — Mas só ouvi as masters. Não parei para ouvi-los em casa num som normal.
Monteiro — Nos discos dos Mulheres, você diz “Pô, isso poderia ser feito hoje que ainda seria moderno”. Você tem essa consciência de que naquela época vocês estavam fazendo algo que era diferenciado para o mercado?
Pereira — Não tinha muito isso, porque fazíamos numa ignorância muito forte que a liberdade dava. Agora, ouvindo o disco com o André na masterização, e até ouvindo antes de masterizar, fiquei pensando “porra, a gente fez muita coisa que só aconteceu 10 anos depois”. Primeiro: misturar eletrônica com sons primitivos. Segundo: misturar coisas do folclore, coisas mais naïfs com essa estética urbana de metafísica, de filosofia. Fizemos isso aí. Misturar formas de música de um jeito desvairado. E destruir, quebrar os timbres dos instrumentos, nós também fizemos. São coisas que, especialmente no Brasil, foram acontecer nos anos 90. Por outro lado, ouvindo os dois discos, o primeiro é um disco que soa mais da época. Tem reverbe, bateria eletrônica; é um disco em que a gente era mais inexperiente, a produção foi do Peninha Schmidt e do Paulo Calazans, que estavam na gravadora grande, produziam MPB e a gente estava aprendendo ali. Assim, o disco tem umas quebras, mas é um álbum que soa como um dos anos 80: bumbo, caixa e reverbe. Já o segundo, que é uma produção da gente, oMúsica serve pra isso, ouvindo na masterização, está intacto. Não tem reverbe! É um disco de 89 quase sem reverbe. Tem uma certa sujeira de timbre, tem uma certa doença emocional. Timbramos muito bem o álbum. Está bem feito, bem tocado.. é um disco legal. Muita gente acha ele menos caótico que o Ciência…
Max Eluard — Como assim “uma certa doença emocional”? O que é isso?
Pereira — Doença emocional… Quando vejo uma obra de arte, ela tem que ter algo politicamente incorreto, tem que ter a coisa selvagem, tem que ter a tristeza, a doença, a alegria, o exagero, a estupidez. E esse segundo disco tem. O primeiro é mais um circo, também tem, mas nesse segundo é mais intensa. Eu e o André estávamos em crise. Foi um disco que acabou ficando um pouco na minha mão. Não foi sofrido, mas não teve um clima como o do primeiro, que foi mais deslumbrado. Porém a amarração sonora do Música serve pra isso é fuderosa.

Os Mulheres Negras (Mauricio Pereira e André Abujamra) em foto de divulgação do fim dos anos 1980. Foto: Divulgação

Max Eluard — Você disse que os dois primeiros discos dos Mulheres saíram com muita liberdade e que no Na tradição você estava tentando achar de novo uma liberdade, sentia-se meio preso. Essa liberdade você encontrou no Mergulhar. E para o próximo disco, você está mais livre ou mais preso?
Pereira — Não sei. O problema dos Mulheres, que encheu o saco da gente, era a obrigação de ser gozado ou ser maluco. Se você pegar Música serve pra isso já é mais poético, mais lírico. Então quebrei isso no Na tradição, mas eu estava escravo de ter que quebrar minha imagem de Mulheres Negras. Como de certo modo noMergulhar paguei meu carma, fiz um disco como eu queria, vendesse ou não, foda-se! Toquei com meu amigo, soou como eu quis, não tomei preju. Quando acabei oMergulhar falei “Não tenho pressa nenhuma de fazer disco”. E o próximo álbum sairia dos shows que fiz no Supremo, mas o projeto está congelado porque deu problema na edição e produção. Pode ser que saia no futuro, mas o meu sonho era ter feito esse disco ao vivo de crooner, um disco de festa, um disco bocó no bom sentido. Aí fui na Lua e o Zé Luiz falou: “Com essa crise, estamos com os estúdios sobrando aqui. Se você vier em janeiro, fevereiro você tem estúdio. Faz um disco seu, autoral”. “Ih! rapaz, não tenho repertório”, fiquei nervoso, meio pressionado. Fui para casa e a histeria me fez compor. Então, não sei o caráter desse disco novo. Acho que vai ser livre. Não sei, não sei se o mundo está acabando. Tô com medo, sou um cara medroso. Coisas que eu fantasiava quando era adolescente estão acontecendo. Por exemplo: vi aqueles aviões batendo na torre, eu achava que aquilo ia acontecer. Quando vi, na hora, é óbvio. Só que a partir dali — pô! sou um cara fantasioso -, na minha cabeça já vieram um milhão de hipóteses. Sou um latino-americano que tem uma visão dos Estados Unidos pela maneira como eles lidam com a economia e a política internacionais. Então, não sei. Francamente é um disco influenciado pela queda das torres. Quando mulá Omar, amigo de Osama Bin Laden, fala que vão destruir os Estados Unidos… Não tem mais volta! Os Estados Unidos estão perdendo dinheiro. Eles não perdem sangue, eles perdem dinheiro. Já estão sangrando muito. E com eles a cultura pop, de algum modo. E com eles o Terceiro Mundo, que é capacho deles. E dentro do Brasil, o que tem de mais americano? É São Paulo! E dentro de São Paulo, o que tem mais de americano? A classe média! E onde eu vivo? Classe média, de São Paulo, no Brasil. [risos gerais]
Max Eluard — Eles estão de olho em você!
Pereira — Então, num certo sentido, esse disco expressa o fim de um sonho. É como se eu dissesse “Pô! não dá mais para eu ser americano, para eu me desinfluenciar do rock and roll”. Preciso me virar para as minhas coisas, o meu bairro, a minha cidade. Só que não tem São Paulo! Meu, nesse disco estou buscando desesperadamente ser paulistano. Falo no meu bairro, nas ruas que ando para comprar palheta de saxofone.
Max Eluard — Mas é pessimista ou desiludido?
Pereira — Não é pessimista e não é desiludido. Posso até ser meio descrente, mas publicamente não posso me permitir ser pessimista, acho que é fugir do pau, é entregar os pontos. É como diz a letra do Paulinho da Viola, “Faça como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro, toca o barco devagar”. É que nem respiração circular de saxofone, que você faz a nota se prolongar. Não é o pulmão, você não está respirando, é a mecânica da boca que faz o ar ir para o instrumento. Não é o ar que você usa para ficar vivo. É um pouco isso. Vamos dizer que eu esteja semimorto ou descrente, mas tenho que usar as partes do meu corpo, da minha ideologia ou da minha mente que acreditam em liberdade, libertação, beleza. Ao mesmo tempo vou ter que falar do medo, da destruição.
Max Eluard — Qualquer pessoa normal só pode fazer uma análise pessimista do mundo, mas o otimismo tem que vir…
Pereira — É. Mas sou de escorpião e esse é um signo que lida com a destruição o tempo todo… Vi aquele prédio caindo, meu! O mundo mudou, o mundo está mudando. A estrutura de poder entrou em xeque. Pô! Tenho 42 anos e em 42 anos nunca a estrutura de poder entrou em xeque desta maneira, mesmo para os americanos, mesmo para o George Bush. Por outro lado, a gente está vivendo um momento que pode ser que a gente morra de antraz semana que vem, mas o momento para a humanidade é muito lindo, cara! É um momento de transformação, não tem volta. Nós vimos a história! Antes eu não tinha visto. Não foi a ditadura, talvez a 2a. Guerra Mundial, sei lá, ali rolou história. O mundo não é mais igual.
Max Eluard — E qual o lugar da música nessa mudança?
Pereira — Não sei. Em momentos de guerra, pânico, transformação, da gente perder o controle do que está acontecendo, de não sabermos bem para onde o barco está indo, são momentos que não tem lugar para muita punheta não! É o que eu digo, sou de escorpião, latino, mediterrâneo, paulistano sangue quente, que é uma característica desta cidade, a poesia tem que ser visceral. Na música é isso. No mercado não sei o que vai acontecer, mas como ouvinte, quero ouvir coisas viscerais. Por isso ando ouvindo hip hop. Não é tudo que gosto não, mas quero ouvir coisas sinceras, só que caindo máscaras, porra! Não dá para ouvir coisas fingidas! Tanto no texto, quanto na produção. Não por acaso a gente tem ouvido tanto disco sem reverbe nenhum nos últimos anos. Cada vez tem menos maquiagem, cada vez tem menos roupa de artista e roupa de rua. Talvez seja isso, talvez seja uma época de franqueza. Tomara!
Monteiro — Existe uma pesquisa de som antes das regravações que você faz? Na hora de compor o seu material, essas músicas vão ao encontro dessas necessidades pessoais?
Pereira — Senti isso no Fanzine e cantando no Supremo só música dos outros. Se viajar, pirar, você não precisa mais compor. É melhor pesquisar e cantar coisas que já estão feitas, que vão dizer o que você quer e muito melhor do que você iria conseguir. E cantando clássicos. Sei que não vou fazer um clássico. Hoje não tem mais isso, de você fazer uma música que se torne imortal e encerre o assunto. Mas quando Roberto Carlos fez “Detalhes”, rolou. Quando Noel Rosa fez “Feitio de Oração”, rolou. Quando Cassiano fez “A lua e eu”, rolou.
Max Eluard — Mas é questão do momento? Não se tem mais condições para se produzir um clássico?
Pereira — É uma questão da história. Como eu estava falando, hoje todo mundo é artista. Talvez isso seja o caminho para ninguém mais precisar ser artista. Então, hoje não tem mais clássico. Clássico é uma coisa que aglutina uma população em torno de uma música, que é comum para todo mundo. Mas o mundo está super fragmentado, né?! Até o Narciso, o ego da gente tem que ser mais humilde. Puta, como é que eu falo… se o mundo antigamente era uma pequena cidade do interior, e cada pessoa era uma pessoa com o seu nome, hoje a gente é uma Praça da Sé gigante, cada um por si, Deus por todos. Daqui a pouco vamos estar fazendo a música para nós mesmos. É da história. Querer clássicos da música popular é nostalgia. Quando eu era pequeno tinha. Tenho essa nostalgia. Quem nasce agora acho que nem tem isso. “Satisfaction”, “Help”, “Cocaine”, não vai existir mais isso.
Ricardo Tacioli — Você consegue pontuar quando essa produção de clássicos terminou?
Pereira — De clássicos? A história foi a matando aos poucos. Quanto mais você massifica a produção de arte, mais desmistifica. E desmistifica no sentido de tirar a mística, tirar o sagrado, tirar o mistério. A luta agora é a gente encontrar o tal do sagrado. Para mim isso é vital. E como é que vai achar o sagrado? No seu umbigo, no seu caminho para a padaria, nas pequenas músicas que você faz, que você escuta e só uns dez conhecem. É isso! Tem que achar o sagrado no quarteirão. Antigamente era para o mundo. Antigamente tinha o Jimi Hendrix, um herói mundial morto. Agora, meu, se eu morrer aqui são dez pessoas que me conhecem, e quem vai me chorar são minhas negas. É ruim para o ego pra caralho! Fui criado vendo ídolos. Não vejo ídolo agora não! O Andy Warhol falou em 15 minutos de fama, né?! Puta, não tem mais nem 15, cara, não dão 3 minutos.
Max Eluard — Agora são 15 frames.
Pereira — É. Para o meu ego eu gostaria de ser um ídolo mundial. Maravilhoso! [risos] Mas a marcha da história é inapelável, pau no cu, vamos nós. Ninguém mais manda nada.
Tacioli — Maurício, você falou que na história da música popular brasileira existem clássicos que retratariam o mundo de hoje. Que clássicos são esses? Um Assis Valente?
Pereira — Tem de todos os tipos. O que é “Entre tapas e beijos” senão a dialética. Não é a dialética?! A dialética ao alcance do povo. “Entre tapas e beijos”, pô!, Leandro & Leonardo. “Pense em mim”, Leandro & Leonardo, é um clássico. “Detalhes” é um clássico! Um clássico da relação humana. De você romper uma relação afetiva forte e ficar o frangalho em ambas as pessoas, por mais que o corpo e a mente digam que não. Cara, isso é Shakespeare, é Homero, é o caralho!
Max Eluard — Isso resume a existência humana.
Pereira — Pô, total! “Construção” [n.e. Faixa-título do álbum lançado em 1971], de Chico Buarque, que é o inapelável da matéria, você trabalha para viver, ganhar o seu. É a vida sem espírito. Eu lembro porque ouvia muito essa música, tinha uns 10, 12 anos e fiquei chapado, não entendia nada.
Max Eluard — É perturbador.
Pereira — É perturbador. Mas tem um monte de coisas. “Yellow submarine”. Pô, os caras vivendo no fundo do mar, todo mundo se dando bem, passeando no submarino amarelo. Não é o que todo mundo quer? Tenho preguiça de trabalhar. Se eu ganhasse na loto não ia mais fazer disco, tenham certeza. Não porque não goste de música, adoro música. Eu ia coçar o saco!
Max Eluard — Não ia fazer mais música?
Pereira — Talvez fizesse, mas…
Daniel Almeida — Mas você ia querer ter a necessidade de produzir.
Pereira — Não! Que produzir! Nada!
Max Eluard — Se expressar, produzir!
Pereira — Não, fazer nada é se expressar.
Almeida — Falar da vendinha.
Pereira — Não, aí eu ia na vendinha. [risos]
Max Eluard — Você fala da vendinha para suprir essa necessidade de ir à vendinha?
Pereira — Não sei por que falo da vendinha [risos gerais]. Talvez se eu ganhasse na loto eu simplesmente não enchesse o saco. Talvez se todo mundo ganhasse na loto ninguém precisasse encher o saco fazendo obras de arte. Não sei, às vezes me dá essa sensação. Estou falando sem saber, mas de algum jeito a gente sempre se expressa. Namorando, tendo filho, cagando, vendo jogo de futebol, indo na vendinha, compondo músicas. Não separo compor música de cagar. Lembro-me de uma noite em que compus duas músicas, uma delas foi “Dia útil”. Fiz duas, três em meia hora, isso há uns cinco, seis anos. O cheiro do meu corpo depois que fiz essas músicas era muito ruim, tinha toxina pra caralho no meu suor. Precisei tomar um banho. E como outras coisas fisiológicas. Pra mim, compor é assim. Para outro cara, pregar um botão pode ser assim. Para outro, ir ao jogo do Palmeiras e dar porrada é assim. Para outro, fazer amor é assim. Para outro ainda, comer uma bracciola gostosa é assim. Ou para outro cara, sofrer é assim.
Max Eluard — Então, mesmo se você ganhar na loto você não vai conseguir parar de fazer música.
Pereira — Não sei, não sei. [risos] Mas aí só vou fazer a cada 10 anos. Gozado, em 2000 eu vim assistir a um show do Zé Geraldo aqui no SESC Pompeia. Ele havia dado uma canja no meu show no segundo semestre. E eu nunca tinha visto um show dele, conhecia algumas músicas e tal. Show lotado, um público diferente do que eu tenho acompanhado por aí, um público que não era da moda, que não era da Folha de São Paulo. Porra, as músicas eram sobre preguiça. Pô, vou dar uma bola, vou ficar com a minha mulher no mato, não quero trabalhar hoje, quero vagabundear. Por que não se fala mais nisso? Por que em todas as músicas atuais todo mundo quer fazer alguma coisa?! Meu, nós precisamos aprender a fazer uma coisa por dia. Sou muito cismado com o tempo. Aqui em São Paulo a gente tem um carro. Com um carro você faz 20 coisas por dia. Tenho andado cada vez menos de carro. Roubaram o meu, então fiquei duas semanas andando a pé. Fazia duas coisas por dia, mas acho que a minha relação com o mundo era mais intensa. Eu tinha que andar a pé. Noção de distância. Meu avô era caixeiro-viajante, viajava no interior. Quando ele perdia um trem, ia a pé para outra cidade. Andava 10, 12 quilômetros num dia a pé. Pô, 12 quilômetros é da Paulista à Penha, cara! Estamos iludidos, nós perdemos a noção de tempo e espaço. Eu fiz “Música serve pra isso” há 12 anos [canta] “microondas, avião, cumpra a sua função, calme um coração que sangra”. Na época eu não sabia por que havia feito aquilo. Hoje olho para o mundo que a gente vive, um mundo de CD, internet, avião, vôos internacionais baratos. A gente está fora do mundo! Chega a ser uma doença você sentar num lugar e em três horas estar em Maceió. Dá uma noção de poder que a gente não tem. E a gente tem o mesmo número de neurônios do tempo das cavernas. Temos as emoções semelhantes à da caverna. Eu não sei…
Dafne Sampaio — Quando você fez “Música serve pra isso” você acreditava que a tecnologia poderia dar paz de espírito?
Pereira — Não, essa música eu fiz sem usar o cérebro. Eu tinha um método de compor e depois nunca mais consegui fazer. Foi uma época em que o Mulheres ganhou uma grana, eu tinha tempo para compor. Fiquei dois meses, todo o dia, virava para o pôr do sol e cantava todos os lugares-comuns que eu conseguia. E depois cortava e misturava. Não sei bem o que eu quis dizer, mas ouvindo a música digo “porra! O avião foi inventado, a tecnologia, as telecomunicações, então tratem de servir ao fim a que vocês foram criados, seus bostas! Vocês não mandam na gente!” O avião serve para quê? Tô com tesão numa mulher que mora em Pequim. Ele serve para eu ir para lá, comê-la e ser feliz para sempre. O cara está com câncer e precisa saber o nome do remédio que vai salvá-lo. Ele pega um telefone celular e pergunta para o médico da Groenlândia: “Qual é?” É isso. Ou bem a coisa cumpre a sua função, ou pô, tudo vai dar câncer na gente, cara! Num certo sentido, tô ficando um burro velho, estou cansado de punheta. O que é punheta? É o avião pelo avião, é a música pela música, o celular pelo celular. Jogo da seleção brasileira: eu francamente torci para o Brasil ganhar da Venezuela, mas me deu vontade de chorar. Puta, vi o Ademir da Guia, o Pelé, o Rivelino. Sou do tempo do 4–2–4, que os pontas eram abertos, seu time perdia de 4 a 0 mas você ia para casa com tesão, “Porra, o Corinthians tomou de quatro, mas foi o Pelé que fez os quatro gols”.
Monteiro — Aqueles jogos de 7 a 5, 6 a 3.
Pereira — Mais do que isso, permitia-se a derrota, permitia-se o erro, permitia-se a humanidade, não eram onze cyborgs correndo. Eram seres humanos. Estou um pouco de saco cheio das coisas serem mais importantes que a gente. A década de 90 exacerbou isso, cara! Tô de saco cheio, então vou fazer um disco reclamando disso. Quero o ser humano de volta. Quero a capacidade de não fazer nada! Tô batalhando para isso na minha vida. Não tenho certeza do que estou falando, mas quero, durante uma tarde — se eu não tiver culpa disso aí, porque tenho filho para sustentar e eles não têm culpa do que penso e do que faço -, o máximo de preguiça que eu me der o direito de ter, o máximo de tempo que eu me der o direito de gastar. Vamos ver!
Max Eluard — Além dessa agonia que está entrando no disco novo, existe essa história da busca desesperada pelo som paulistano. Você já pensou sobre ele? De onde ele vem? Onde ele se forma? A grande característica de São Paulo é essa heterogeneidade maluca. E como é esse som paulistano, então?
Pereira — Bom, no meu texto isso já está quase resolvido. O Mergulhar é um disco em dialeto. Fui tocar o show do Mergulhar na surpresa em Porto Alegre e um jornalista me falou: “Você, depois do Rossi, do Pavilhão 9, é o cara do texto mais paulistano que já vi”. Eu concordo. Esse novo vai ser na mesma… Não preciso fazer esforço para isso. Gozado, porque musicalmente procuro isso desesperadamente, mas não me dá desespero. Eu queria vê-lo na minha frente. Mas isso pode levar 10 discos, 20 anos. E eu sei que, só por causa dessa angústia, já vou estar sendo paulistano. Então está resolvido, embora eu quisesse ver a foto e a legenda, “Isso é paulistano”. “Amar é…” [risos]. Não vai ter, né?! Outro dia, no posto de gasolina, conversei com um frentista sergipano. Ele ouvia forró no rádio. E eu “Puta, que banda legal!”, foi antes de eu saber quem era. “É forró pé-de-serra!” “Pé-de-serra?” “É!” “Genial. Como é o nome dessa banda?” “Falamansa!” [risos gerais] “Caralho! Falamansa!” E toquei com a Falamansa uma vez. É um forró pop de paulista. O mundo é tão louco, que foi o jeito de um cara, de um posto de gasolina, um cara que só ouvia Frank Aguiar, voltar os seus olhos para Luiz Gonzaga. Do mesmo modo como defendo o pagode com unhas e dentes. O pagode é paulistano, graças a Deus! O pagode abriu o olho para uma pá de gente ouvir Cartola, Nelson Cavaquinho.
Max Eluard — Abriu espaço para Dudu Nobre, por exemplo.
Pereira — Sim. E até para olharem o Zeca Pagodinho com mais respeito, por sua nobreza. Um puta artista, meu! O cara é o nosso Chet Baker, é um mestre! [risos gerais] É mestre!
Sampaio — Falando em São Paulo, tem uma coisa nebulosa na minha memória. Eu já conhecia Os Mulheres Negras e aí vi uma minissérie na Globo, no final dos 80, Sampa. Foram vocês que fizeram a trilha sonora, não? E no Música serve pra isso tem “A lavadeira, o varal e a saudade” que fez parte da trilha. Como surgiu e como foi fazer a trilha dessa minissérie?
Pereira — Como tudo é casual. Por exemplo: o fato do André ser filho do Antonio Abujamra muda tudo. O fato do Peninha Schmidt ter se apaixonado pelos Mulheres Negras muda tudo. São coisas casuais. Se o Peninha não bancasse a gente não chegaríamos nem no primeiro disco. Se o Antonio Abujamra não obrigasse a Globo a ouvir Os Mulheres Negras [risos], não lançaríamos disco nenhum, não teríamos carreira. E a relativa, bem relativa importância que temos, não teríamos. Então o Roberto Talma, que é amigo do Abujamra, viu um show nosso e curtiu. Os artistas da Globo iam ver show dos Mulheres lá no Rio e achavam a gente uns putas gênios [risos gerais]. Nossa Senhora, eu não fazia nem terapia naquela época [risos]. “Vocês vão lá para o Rio e façam a trilha como vocês bem entenderem”. É gênio, né?! E deram o estúdio da SIGLA para fazermos a trilha.
Max Eluard — A série já estava pronta e aí vocês fizeram a trilha?
Pereira — Nós vimos uns pedaços. Compusemos sem ver, e o Talma foi usando.
Sampaio — Foi o Talma quem dirigiu?
Pereira — Foi o Talma quem dirigiu e o texto é do Gianfrancesco Guarnieri. Agora, o André por ser filho de um cara de teatro, que é radical como o Abujamra, ele tem muito contato com trilha. Não por acaso ele tem feito tudo de teatro e cinema. Ele está vivendo disso hoje, mais até do que o Karnak ou propaganda. Então para o André isso era com o pé nas costas. Para mim, era mais difícil. Sou basicamente, para usar a palavra do Luiz Tatit, um cancionista, embora o livro dele não fale de paulistas. [risos] [n.e. O cancionista: composição de canções no Brasil, Edusp, 1996] O Adoniran está? Não tá, não é brasileiro, por que vai estar? O livro fala de música brasileira. [risos] Eu estraguei uma palestra dele, mas foi sem querer. Quando ele lançou esse livro, um amigo meu chamado João Bandeira, que tinha programa na USP, seria o mediador da mesa no MIS onde aconteceria o debate. Estavam à mesa o [Nicolau] Sevcenko, o Luiz Tatit e o [Zé Miguel] Wisnik. Eles falaram bonito pra caralho. Esse meu amigo havia dito que esses debates no MIS eram muito frios. “Vamos fazer o seguinte: apareça por lá”. “Mas não gosto de debate!” “Não, na boa, vá lá, você faz a primeira pergunta e vai embora!” [risos gerais] Os caras falaram um monte, “Pô, Cancionista, Dorival Caymmi, canção, ciclo, tensão, clímax”. O Tom Zé também estava presente. Da mesa, o João Bandeira olhou para mim e piscou. Desci ao encontro do microfone: “Pô, Tatit, 100 anos de canção brasileira e não tem nenhum paulistano em seu livro. Isso quer dizer que a gente é um tipo de marciano, que a nossa sintaxe quebra…”, sei lá que estupidez falei. Concluí que não éramos brasileiros, que não tínhamos caráter, tudo isso que a gente já falou aqui, que não tinha identidade, que era uma mistura de todo mundo, que não prestava para nada, que as rádios nunca tocavam paulistano e paulista, o sambista era italiano, os pretos tinham sotaque de italiano, os pretos faziam música sem suingue, que é o hip hop. Não sei se naquela época já existia hip hop.
Monteiro — Em 86 a coisa já estava pegando.
Pereira — Em 80 trabalhei na LC, que é a mãe da rádio Musical e da rádio América. Eu ainda não era músico.
Max Eluard — Então volta e vem do começo, desde sua formatura em Jornalismo.
Almeida — Mas antes conclua a história do debate.
Max Eluard — É verdade! [risos]
Pereira — Aí deu uma crise de identidade na platéia inteira, que ficou puta, do tipo “Olha a pergunta desse babaca!” Lembro-me do Wisnick olhando para cima e falando “É verdade, será que nós temos problema de auto-estima?” [risos gerais] Daí falei “Pô, claro! No Rio só dão eles, as gravadoras estão lá, tudo quanto é carioca é oficial”, fui jogando fogo meio sem querer. O fato é que não se voltou mais para o Cancionista. O assunto ficou sendo a crise de identidade do paulistano, a falta de narcisismo do criador paulistano, que também é importante.
Sampaio — O Wisnick escreveu um texto, não há muito tempo, falando sobre a música paulistana.
Pereira — Mas aí depende. Quando estou falando em música paulistana, não estou pensando em Ná Ozzetti, Maurício Pereira, Arrigo Barnabé. Estou falando “o que é música paulistana?”.
Max Eluard — De essência, de conceito.
Pereira — É aquilo que eu falei, o mundo está acabando, sou um criptoamericano.Mergulhar na surpresa é um disco de rock and roll. Samba de italiano, pagode, sertanejo tipo Zezé Di Camargo, não obrigatoriamente Tonico & Tinoco, hip hop. Isso que é música de paulistano.
Tacioli — Forró universitário.
Pereira — Forró universitário. Todo tipo de Frankenstein é música paulistana. Músicas que são odiadas pela classe média e pelo bom gosto. Tenho nojo dessa expressão “bom gosto”! Mas qualquer cara que assina a revista Bravo! tem um nojo de todos esses tipos de música que estou falando, com uma exceção ou outra. Porque são músicas para as quais a expressão bom gosto não existe. São expressões do frankensteinismo.
Monteiro — Samba-rock.
Pereira — Samba-rock tem muito a ver com São Paulo. Fui dar uma canja no Clube do Balanço, cantei Branca de Neve, que não eu conhecia bem, mas ouvi mais e achei muito legal.
Tacioli — Música eletrônica também.
Pereira — Música eletrônica! Naturalíssimo ser de São Paulo. Onde mais poderia ter uma cena fashion e GLS forte senão em São Paulo, que é o único lugar onde se tem liberdade e anonimato para isso. Porra, depois de tantos anos tentando sacar a alma paulistana… Tive em Recife agora produzindo um disco de um cara de lá e é fora de casa que vejo: o que presta em São Paulo? Tudo é uma bosta, a cidade é feia, violenta, desenraizada, o caralho, mas somos criativos e afetivos, porque aqui temos os bons companheiros. Todos nós aqui temos amigos legais, sem os quais a vida aqui se torna insuportável. Olha que engraçado, falando do sagrado na obra de arte, e o sagrado está fora da canção, ele não é estética, não são notas musicais, ele é um caráter que reveste uma obra de arte. O caráter tem a ver com a vida comum. Dessa coisa de termos bons amigos em São Paulo, existe sobre a cidade um sagrado pairando! Caso contrário não agüentaríamos viver. Aqui é quase um inferno. O Rio não é assim, Natal não é, Corumbá não é! E a gente desenvolveu uma coisa espiritual, que é ir tomar uma cerveja com um mano. A expressão “mano” surgiu aqui. Não é por acaso, não é por acaso. Pela linguagem você também analisa o mundo, impressionante! Então isso é um caráter paulista! Só por isso nós temos que ter auto-estima boa, porque todo o resto é uma bosta. A cidade é feia, tudo é um cocô, isso aqui é um penico, mas nós temos sangue.
Max Eluard — Engraçado e contraditório, pois São Paulo é vista por sua dimensão desumana.
Pereira — Essa dimensão desumana obriga a gente a se agregar de alguma maneira. E parece que a gente não está se agregando, porque estamos sempre com pressa, mas tem um invisível forte aí. Você sabe que pode contar com um monte de gente. São 20 milhões de pessoas na Grande São Paulo. Você sabe que uma hora ou outra, tem dois ou três caras que são manos, manas, vão te quebrar. Você não fica na mão!
Sampaio — Essa impressão eu tive quando saí do Rio e vim para cá. Lá você conhecia e era conhecido de muito mais gente, mas não tinha amigos, que fui encontrar primeiro em Ribeirão Preto, e depois, em São Paulo.
Pereira — As pessoas no Brasil estão sacando isso. Eu vi isso lá em Recife. Estamos num lugar esquisitíssimo, mas a coisa mais delicada que existe, tem em São Paulo, e serve para a nossa sobrevivência. É louco, cara, é muito louco!
Max Eluard — Agora, voltando para sua história cronológica. Vamos partir da faculdade.
Pereira — Fiz faculdade sem querer. Era um “geninho”. Prestei vestibular com 16 anos. Na verdade, eu não ia prestar porque iria para um desses intercâmbios no exterior. Família de classe média tinha isso, 1975, 76. Existia um negócio chamado depósito compulsório, que para você viajar ao exterior você tinha que depositar não sei quantos mil cruzeiros ou dólares. Minha família não tinha esse dinheiro e não fui. Bom, fiz o colegial num bom colégio que era o Santa Cruz, na época um colégio de centro-esquerda, da democracia cristã.
Max Eluard — Tinha uma efervescência cultural?
Pereira — Tinha. Alguns professores foram em cana na ditadura, o padre Charboneau dava aula lá, estudava-se filosofia, lia-se Weffort, Fernando Henrique, Maria Silva de Carvalho Franco, Boris Fausto. Porra, li isso no 1º colegial! Não li nada na ECA. Fiz tudo com que li no Santa Cruz. Fiz um bom colegial de Humanas. Enfim, não fui viajar, prestei vestibular, que bosta, passei e entrei em Jornalismo. Infelizmente! Hoje eu enxergo assim: se não tivesse feito vestibular, se eu tivesse andado um ano à toa por aí, eu talvez tivesse feito melhor para a minha vida. Não tive esse vislumbre. Sozinho não teria essa cabeça. Eu era um cara que tirava notas na escola. Tirei mais uma vez. Num certo sentido, olho para trás e digo, me fodi! [risos] Quebrei a cara aparentemente me dando bem.
Almeida — Mas você já tinha um tesão por escrever?
Pereira — Já, mas não sei se era tesão em escrever, ou se toda a vez que eu estava em crise eu escrevia [risos]. Acho que desde os 5 anos de idade eu escrevo. [risos] Tinha facilidade. Sempre escrevi coisas.
Tacioli — Qual era o grande barato da época do colégio e da faculdade?
Pereira — O grande barato no tempo do Santa Cruz foi tomar contato com essa literatura marxista. Mudou o meu jeito de ver o mundo! Fiz ginásio num colégio de Estado no tempo da ditadura, o Costa Mâncio, lá no Itaim. Eu era bom em Matemática e Português, mas não tinha Humanas. Ditadura, programa Amaral Netto, meu pai tinha uns amigos que foram em cana, eu não sabia o que era ditadura, receitas no Jornal da Tarde, aquelas coisas. Mas não sei, sabia que a História podia ser vista não só como datas, mas como causas e conseqüências. Aquela coisa da dialética, instrumentos de produção, meios de trabalho, aqueles puta termos loucos, neocolonialismo, isso tudo foi no Santa Cruz. Então para mim, o contato com esses autores foi maravilhoso. Foi a coisa mais legal do tempo do colegial, porque eu era muito mais novo que todo mundo. Fui descobrir as mulheres mais para frente. E as drogas também. [risos] Já estava saindo de lá. Inclusive, foi por causa de uma mulher que completei o Jornalismo. Caso contrário não teria terminado. Apaixonei-me pela mulher, ela ia sempre lá, fui, passei. [risos]
Max Eluard — Mas em nenhum momento despertou um tesão pelo Jornalismo? Porra, como você optou por Jornalismo?
Pereira — Pelo seguinte: eu ia viajar e não viajei. Queria fazer Humanas. Comunicação? Parece legal. ECA? ECA! Na ECA tem Música, Teatro, Jornalismo, Biblioteconomia, Cinema, Relações Públicas. Legal, eu entro, no 2º ano opto. Entrei, fui ficando, ficando, conheci a mulher, ela foi para Jornalismo e eu fui atrás. Óbvio! [risos] Eu sou romântico, lambi o chão para ela enquanto foi possível. O que ela fez, eu fiz. Ela se formou, me formei. Mas é gozado porque eu tinha tido um passado de bom aluno, e na ECA fui medíocre. Não via aula, assinavam para mim, eu fazia os trabalhos sem ler os livros, fazia com o que havia lido no Santa Cruz. E gozei intelectualmente das aulas de Arte Gráfica, que o cara era muito legal, e alguma coisa de Lingüística e Semiologia, que era uma matéria que eu não conhecia e achei legal. E fiquei amigo de uns malucos que estudavam lá, como o Tadeu Jungle [n.e. Videomaker e apresentador do oitentista programa Fábrica do som, da TV Cultura] e o Walter Silveira [n.e. Videomaker e diretor de programação da TV Cultura]. Eu gostava muito deles e me agreguei a eles. Eram caras mais velhos, eu tinha 17 anos, eles vinte e tantos. O Walter conhecia os concretos, fazia poesia. E o contato com eles foi interessante porque pude ouvir músicas diferentes. Ouvi Lou Reed, que eu não conhecia, li o Caetano e o Gil de outra maneira; conheci os concretos. O que também foi legal na faculdade foi ter contato com esse tipo de maluco que existia por lá. Mas não tenho tesão por Jornalismo, embora tenha sido criado lendo muito jornal. Meu pai assinava a Folha, o Jornal da Tarde e o Estadão, ou melhor, não assinava, o jornaleiro do bairro morava perto de casa e trazia toda a noite. Meu pai era publicitário e os publicitários ganhavam revistas. Ele levava essas revistas para casa: Revista de esporte, Quatro Rodas, Capricho, Grande Hotel, Realidade,Senhor, Isto é, Veja, Dirigente Industrial. Fui criado lendo revista e jornal. Afetivamente, ler o Jornal da Tarde no fim dos 60 e 70 foi maravilhoso. No tempo em que o Mino Carta era o cara do Jornal da Tarde, com aquelas putas reportagens especiais e diagramação maravilhosa. Tinha um repórter que eu era fã pra caralho, o Marcos Faerman [n.e. Um dos principais representantes do “New Journalism” no Brasil]. Ele ia para a Calha Norte, fazia reportagem; ia para a fronteira do Sul, fazia reportagem sobre a megametrópole que iam ser Rio e São Paulo, prostitutas não sei onde. Fazia isso nos anos 70 e 80. Não tenho tesão em fazer Jornalismo, só fiz merda em Jornalismo, só bobagem! Mas tenho o maior tesão em ler jornalismo bom. E me dói ter que trocar de jornal a cada seis meses, porque hoje não tem jornal que dá tesão de ler. Revista também é difícil! Sinto falta de ler matéria de jornalista bom, do cara de texto bom, da idéia inquieta. Isso tinha demais, hoje é mais difícil, mas de vez em quando você encontra.
Max Eluard — Você se formou e foi logo trabalhar com Jornalismo?
Pereira — Puta, eu dei azar de passar no vestibular, dei azar de me apaixonar, dei azar de no dia seguinte de terminar a faculdade — terminei no dia 30 de novembro e em 1º de dezembro arranjei um emprego [risos]. Vejam vocês, dei azar para o bem, azares sortudos. Fui trabalhar na LC, que era dona da Rádio Musical e da Rádio América. O que era a LC em 1980? Era uma empresa de pesquisa de mercado. Eles começaram a tabular preferência musical. Algum gênio lá montou um programa de computador que ordenava as músicas em blocos de quatro músicas. As músicas eram catalogadas em quatro categorias. A primeira do bloco era categoria B, tocava oito vezes por dia. A última do bloco tocava 16 vezes por dia. E as duas do meio eram mais ou menos. Aí o cara fez uma programação e a Rádio América, que é dos padres e estava em último lugar, alugou para a LC, que testou essa programação. E em oito meses a Rádio América já era a segunda colocada, só perdendo para a Nacional. Estourava a boca do balão. Aí a LC pegou essa programação e começou a vender para o Brasil inteiro. E dono de rádio geralmente é um babacão, que tem a concessão política, que não quer ter trabalho. E ganha muito dinheiro. E como a LC fazia? Com os discos e as partes gravadas, mandava esse material de avião para as rádios de Maceió, Curitiba. Chegando lá, só precisava de um operador para soltar o gravador e o disco. X% da grande propaganda era da LC, X%, do dono da rádio; e apenas duas pessoas tocavam a rádio. Então fui trabalhar na LC. Eu gostava de música e tinha noção de Jornalismo. O que eu fazia? Escrevia o texto do mês seguinte da FM que eles estavam lançando. Por que do mês seguinte? Tinha que ser feito o texto do mês seguinte inteiro para que a programação pudesse ser enviada às praças. [risos] Bem feito! Eu não gostava de Jornalismo. Trabalhei lá 8 meses e só errei uma notícia. Acho que em 80 o Grêmio foi campeão brasileiro, se não me engano, e contra o São Paulo. Achei que o Grêmio não iria ser campeão. Dei essa notícia dez dias antes. [risos gerais]
Max Eluard — Jornalista e vidente!
Pereira — São Paulo ia jogar com o Grêmio no Morumbi. Ah! O São Paulo era muito melhor. O Grêmio tinha aqueles brutamontes e o São Paulo um monte de craques. “São Paulo foi campeão brasileiro ontem no Morumbi”. [risos gerais] E o resto eram datas, calendários. Eu escrevia para as federações de esportes, pegava calendários, notícias frias. A LC ficava perto da Paulista e um dia falei para o cara: “Pô, deixa eu ir na Paulista, me dá uma grana aí, vou comprar material de referência”. E num sebo achei uma coleção completa da revista Pop, lembra da revista Pop? É a mãe da Bizz, uma revista que teve nos anos 70 na editora Abril sobre a cultura pop. Puta, arrematei umas 200 revistas. Falava que Pink Floyd era isso, não sei o quê. Lógico que não tocava Pink Floyd na LC, mas… . Fui despedido e tornei-me free lancer de texto. Fazia texto para motel, gráfica, para qualquer coisa. Arranjei um emprego na Bandeirantes, quando o Walter Clark entrou. Durei três meses lá, até o Walter Clark sair. [muda a entonação da voz] “Fui fiel ao Walter Clark”. [risos] Escrevia chamadas de filmes para o jornal. A Bandeirantes sempre mandava um anúncio para os jornais. Tipo, ia passar Ben Hur: “Ben Hur, com Charlton Heston, o filme que fez Jesus encontrar a cruz em Roma”. Eu escrevia essas coisas! [risos gerais] Fiquei lá uns meses também. Fui despedido assim: meu chefe era um cara bem legal, tinha que despedir alguém e ele me despediu. Cheguei para trabalhar, fui para a chapeira, “Pô, cadê o meu cartão?” O cara falou “Vá para o pessoal”. Fui para o departamento pessoal, “E aí, cadê o meu cartão?” “Não, você foi desligado!” “Como assim desligado?” “Não, você foi despedido!” [risos] Aí subi para falar com o cara. “Pô, você me despediu? Você não gosta de mim?” “Não, gosto, mas eu tinha que despedir alguém. Aí um dia olhei aqui: tem aquele fulano, mas ele faz um trabalho muito útil. Tem a menina, mas ela é a maior gatinha. Te vi e você está sempre resmungando” [risos gerais]. “Bom, tá certo, você foi franco e fez a coisa certa”. Aí fui traduzir teletipo na United Press International (UPI), na Sete de Abril. Acho que não existe mais UPI. Era assim: em uma sala ficavam dez teletipos, [sonoriza] bébébébébébébébam, e tinha um cara caolho, manco e surdo [risos]. Um dia falei para ele: “Pô, você não se sente mal aqui dentro?” [imita] “Fiquei assim por causa disso aí!” [risos]
Almeida — Aí você saiu!
Pereira — Não, não saí de nenhum lugar sem me despedirem. [risos] O sujeito recortava as matérias e dava para os caras, que liam e as transformavam em textos de 10 linhas. Só saía no Notícias Populares. Aí acabou o contrato. E eu ainda namorava a tal mulher do tempo da ECA. Encontrei um amigo que falou “A revisão lá no Estadão ganha uma puta grana. Você não tem que fazer nada, só vai lá e corrige” “Ah! Vamos lá ver!” Não era jornalista, né?! Fui lá, fiz o teste, passei. Da meia-noite às seis da manhã. Corrigi muito Roberto Avalone, aquelas focas velhas do Estadão. Salvei o emprego de muita gente, porque geralmente eu conhecia os assuntos que estava revisando. Corrigia erro de informação, às vezes frases inteiras, Roberto Avalone e tal. Depois de dois anos trabalhando como revisor, teve uma dinâmica de grupo no Estadão [risos]. Aconteceram duas coisas: fui franco pra caralho, achava que as relações tinham que ser mais democráticas. E, segundo, o cara me ofereceu para ir trabalhar na redação. “Você não quer ir para a redação cobrir férias? Tem política, economia, depois você acaba ficando por lá.” “Não, tô bem aqui” [risos gerais] Que debilóide! “Não preciso pensar muito, tô bem, faço meus cursos”.
Max Eluard — Da meia-noite às seis é bom para mim…
Pereira — Só não dava para ir em festa nenhuma. Era uma abóbora. Nessa época eu estava fazendo um curso de percussão africana e foi quando conheci o Abujamra. Bom, 15 dias depois dessa avaliação, na qual eu tive um “A”, aconteceu o seguinte por algumas semanas seguidas. Na quinta à noite se revisava os classificados de domingo. Em revisão podia-se errar notícia, mas se errasse os classificados, eles tinham que publicar de novo, e pagando. Comecei a errar classificado. Para revisar classificado você dobrava jornada. Então, entrava quinta à meia-noite e ia até às 10 da manhã, mas eu matava o domingo à noite. Saía de lá sexta à noite e só voltava terça à meia-noite. Ou ia viajar. Comecei a errar classificado. Duas semanas depois de eu ser muito bem avaliado e ter falado essas asneiras, fui despedido. Cheguei para trabalhar e meu cartão não estava.
Max Eluard — Já sei onde tenho que ir.
Pereira — Aí cheguei na mesa do chefe. Era uma sala grande. “Bicho, meu cartão não estava lá!” “Não, tem uma carta para você em cima da sua mesa.” “Ah! Que legal!” Não sei, pelo jeito achei que ia ganhar um aumento. Aí, pan ran ban dan… huh, humn, tomei aquele susto! “Pois é, você foi despedido!” Tá bom , fui me despedir dos amigos. Um que era repórter da Folha da Tarde de dia e de noite fazia revisão — também guitarrista de blues, um louco — me falou: “Às seis da manhã você me espera no Alemão, quero conversar com você”. O Alemão é um boteco que tem aqui na Avenida Antártica. Seis da manhã, tô no Alemão. Chegam dez pessoas me xingando. “Seu puta imbecil, o que você falou na avaliação para o cara?!” “Assim, assado.” “Fiquei sabendo que o cara te ofereceu para subir para a redação!” “Não, hum… humn”. O cara me passou um pito fodido. Aí fiquei bem desempregado mesmo, só fazia biscate, texto, pesquisa de mercado. Deve ter sido em 84.
Monteiro — Até então não tinha nada de música, só rádio?
Pereira — Bom, fiz um livro… sabe livro de mimeógrafo? Fiz um livro de poesia. [risos]
Max Eluard — Vendeu ali debaixo do MASP! [risos]
Pereira — Vendi metade da tiragem na fila da Bienal do Livro . E fui para Salvador no Encontro de Poetas de Rua. Fui primeira página do jornal A Tarde, da Bahia. Isso porque eu era o único cara de fora de Salvador. Fiz mil entrevistas e não entendi nada. “Porra, fiz o livro outro dia, será que sou bom?!” [risos] Quando fui despedido, eu tinha aula de percussão africana no TBC. Por ser no TBC, o professor teve que deixar o Abujamra entrar. O pai do André era o dono do TBC na época. Foi aí que eu o conheci. O encontro foi assim: o André me olhou, olhei para o André, aí depois ele me contou “Porra, olhei para você e falei, ””Olha aquele cara, puta bicha louca, filha da puta!””” [risos gerais] “Puta, você sabe que quando olhei para você falei que ””Débil mental, esse cara não fala coisa com coisa, puta babacão!””” Em duas semanas estávamos tocando na banda da faculdade de música do André. Na época eu era contra o estudo musical. [risos]
Monteiro — Você já tocava saxofone?
Pereira — Tinha estudado, mas me negava a continuar estudando. Tinha noção de teoria. “Não, estudar acaba com a espontaneidade e inibe a expressão. Então me nego a estudar e só toco de ouvido!” O André me entendia, mas os outros caras da faculdade, não. Eu falava “Vocês são uns boçais, ficam estudando na faculdade. São uns babacas!” Era assim. Obviamente teve uma cisma, e eu e o André fomos ejetados da banda. Aí fundamos Os Mulheres Negras.
Sampaio — Você disse num show no SESC Consolação que você também havia feito mensagens para secretária eletrônica.
Pereira — Foi depois do Mulheres.
Max Eluard Só vou fazer um parêntese. Nós estamos pensando em pegar umas cervejas, umas porções.
Pereira — Aí os Mulheres funcionaram à revelia.
Monteiro — Isso foi em 1984?
Pereira — Primeiro semestre de 85.
Monteiro — E nesse momento você já pensava em música? “Ah, música dá um caldo, vou poder pagar minhas contas”.
Pereira — Nunca pensei. Até tinha uma banda instrumental, mas não deu certo. Eu tava perdido: sem mulher, sem dinheiro, sem trabalho. Estava pensando “o que eu vou fazer?” Não conseguia sair da casa dos meus pais. Estava bebendo bem. Tinha um amigo — agora trabalha no Jornal da Tarde — que sempre me recolhia e me levava para casa da minha mãe ou para a casa dele. Recolhia era o termo.
Monteiro — Isso porque você é pequeno. Já aconteceu comigo, mas foram três que me carregaram.
Pereira — Ainda bem. Por isso que eu digo que São Paulo tem os manos. No Rio eu não poderia fazer isso, eu ficaria em algum lugar. Mas o André tem esse tráfego por causa da família e, sei lá, a gente fez aquele trabalho esquisito, ele tinha umas traquitanas, eu tinha outras, era uma banda instrumental. Fizemos um show no Madame Satã, e o David Zing, aquele fotógrafo maluco, o Tico Terpes e o Zé Rodrix viram a gente. Um dia estávamos lá, liga um desses aí e bota o Peninha Schmidt na parada. E antes que a gente pudesse saber, estávamos tocando numa festa para Lauri Anderson, na casa de um bacana. Pô, antes que a gente entendesse o que estava acontecendo, estávamos no Jornal da Tarde como os novos darks. É assim que funciona a mídia de bacana, com a foto da gente, dando não-sei-quê da Lauri Anderson, os Mulheres Negras foram a coisa mais legal da festa. Lauri Anderson é uma babaca, não sei quem é um babaca, só os Mulheres Negras são uns gênios. Quem descobriu a gente ali foi a Cristina Iori e Ana Carmen Foschini. A Cristina Iori depois trabalhou na Folha, na MTV. Não sei por onde ela anda agora. E a Ana Carmen esteve na Folha.
Monteiro — Sei que vou interromper um pouquinho essa trajetória, mas você estava falando da banalidade da música dos anos 90 e coincidentemente…
Pereira — Só um parêntese: não sei se é banal, tem muita música sem sagrado, mas eu não sei se é banal.
Monteiro — … É claro que também tem o lance comercial nessa história toda, mas estão relançando anos 80 pra caramba, os discos originais. Hoje comprei Os Mulheres Negras.
Pereira — Onde você achou isso?
Sampaio — Comprei também.
Monteiro — Numa lojinha ali na Paulista.
Pereira — Bom saber. Preciso comprar um para mim.
Monteiro — E perguntei para o cara: “Esses discos estão vendendo?” Tinha Ultraje a Rigor (Nós vamos invadir a sua praia), Brylho (Noite do prazer), e peguei justamente o seu: “Tá vendendo esse aqui?” Eles pediram 25 de cada um da coleção, e só havia um! Não vão se produzir mais clássicos, mas já existiu um período melhor, pelo fato de as pessoas estarem procurando por tudo isso. E não acredito que é só a galera que conhecia os Mulheres Negras. Existe gente curiosa que vai fuçar.
Pereira — É, pode ser. No duro, essa possibilidade de você conhecer os originais não tem preço. Mas, meu, é tudo casual, como te falei. Foi o Peninha Schmidt ali, o Abujamra aqui, e o Charles Gavin aí. Fiquei 10 anos na cola da Warner, tentei bancar uma tiragem. Não rolou! O Charles conseguiu. Ele, da cabeça dele, relançou uns 300 com o maior capricho. Se é uma pessoa que tem cuidado, rola. Acho legal! É importante esses discos estarem em catálogo, você ter acesso. Não sei se vão vender, mas é importante estarem em catálogo. Aí algum dia alguém vai pesquisar você. Quero ter todos os meus discos sempre em catálogo.
Monteiro — Você participou da masterização?
Pereira — Eu e o André.
Monteiro — Na época era o vinilzão. Existe uma diferença tão grande assim quando se muda para CD? Vocês se preocupam com essa sonoridade?
Pereira — Melhorou pra caralho! Melhorou porque os Mulheres tinham um drama. Os discos tinham 45 minutos. No vinil, se você tem o disco longo, os sulcos são mais estreitos e não tem grave. Assim, os nossos discos não tinham grave. Remasterizamos. Meu! Não ouvi, mas o André disse que fala pra caralho. E mais uma coisa: tudo isso é feito a partir de vinil. Casualmente, achei uma cópia digital em PCM do primeiro disco dos Mulheres, que ninguém sabia que existia. No mesmo dia em que o Charles me ligou, telefonei para o Peninha Schmidt e falei “pô Peninha, um dia eu vi você com uma fita cassete da SET que você comentou que era um PCM, uma cópia digital.” Quando o Charles me pediu o vinil… Liguei para o Peninha e comentei dez anos depois, “Lembra disso?” “Lembro. Preciso ver se está no meu porão. Depois preciso ver se abre!”. Achou. E abriu. Então, Os Mulheres foram remasterizados a partir de um digital. Um puta rabo, porque se fosse a partir do vinil estaríamos fodidos. E do segundo disco, casualmente, eu tinha um DAT do bruto, das 40 takes do álbum. A Warner perdeu tudo. Remasterizamos tudo em digital e tem muito, muito mais som. Sem contar com o Carlinhos Freitas, que é um puta masterizador… Muita sorte!
Max Eluard — Paulistanos, comei-vos! [a porção de fritas, cervejas e copos plásticos pousam na mesa]
Pereira — Comida local!
Max Eluard — Culinária típica, regional!
Pereira — Uh! O certo era beber em copo americano.
Sampaio — Não tem copo aí?
Max Eluard — O bar fechou. E ainda conseguimos o gelo.
Pereira — Mas não tem show hoje?
Max Eluard — A cerveja está dentro do saco. Que coisa simpática!
Monteiro — Você estava falando que sobrevivemos apenas pela existência de manos.
Pereira — Mano e padrinho.
Monteiro — Semana passada teve um encontro de ONGs. São Paulo concentra quase 50% das que trabalham na área social, sem depender do governo. Tem a ver com isso?
Pereira — Essa coisa de trabalho social tem um lado que é da ONG, tem outro que é da fundação. Por exemplo: acho gozado, a Volks tem uma fundação. Só que ela ia despedir 3 mil caras. O que é uma fundação de uma empresa capitalista? Você despede 3 mil caras e desarticula social, cultural e politicamente uma população. Você tira a dignidade dos caras. Aí tua fundação vai lá e dá uma esmola pra eles.
Max Eluard — Para limpar a consciência.
Pereira — Isso é dos anos 90. Isso é o politicamente correto dos anos 90.
Max Eluard — A maioria das ONGs, fundações, terceiro setor, sobrevive de ajuda da Europa, dos Estados Unidos. Eles estão limpando a consciência.
Pereira — Eu preferiria que a CIA não tivesse bancado a CCC, que existia para matar as pessoas de esquerda no Brasil. Enfim, disseram que lançaram uma caixa de CDs com os grampos do John Kennedy e tem uma conversa dele com o Lincoln Gordon dizendo como é que se tinha que fazer a limpeza política no Brasil. “Não, vamos apoiar fulano na eleição”, tinha um papo desse. C’est la vie!
Tacioli — Maurício, você estava falando da descoberta dos Mulheres, né?! Só para retomar a linha cronológica.
Pereira — Rolou tudo muito depressa. Tipo, tocamos na festa no meio do ano, e depois fizemos uma grande temporada, maravilhosa, no Pedaço do Bexiga. Vocês conhecem esse boteco?
Max Eluard — Não.
Pereira — Do lado do Piu-Piu, não sei se ainda existe. Fizemos dois meses e fomos vistos por… cinco pessoas [risos], contando com a minha namorada e a do André, que foram mais de uma vez. Na maioria das vezes chovia, nevava, tinha final de campeonato de futebol, eleição, tudo, e não tinha ninguém lá. Mas era uma chance de fazermos o mesmo show todo domingo num P.A., porque antes não tinha estúdio de ensaio, não era fácil. 1985. Em novembro, com aquela simpatia que a gente teve, tocamos numa homenagem ao Primo Carbonari no Madame Satã. Isso rendeu. No fim do ano estávamos no MASP, um público de 700 pessoas, em 1985. Teve mídia, o Maurício Kubrusly foi, fez matéria para a TV Globo. Aí estourou. A partir deste momento, o Peninha Schmidt ia em todos os shows, depois contratou a gente para a Warner, e embora o disco não fosse lançado logo, começamos a ir para o interior. Estouramos a boca do balão. Meu, no interior eram shows de 1000, 2000 pessoas.
Max Eluard — Universidades?
Pereira — Universidades. Na UNICAMP fomos umas dez vezes. São Carlos.
Max Eluard — E os SESCs?
Pereira — Não tinham tantos SESCs em 85. Existia o Pompeia, Consolação…
Max Eluard — Em Ribeirão vocês foram no SESC.
Pereira — Fomos, mas aí foi no fim dos Mulheres, em 90.
Max Eluard — E em Bauru também.
Pereira — Em Bauru fui muito no SESC depois dos Mulheres. Mas no fim dos Mulheres, nós fomos e tomamos um calote.
Almeida — Mas quem levou vocês?
Pereira — Um cara chamado Suniê, que hoje tem uma torcida organizada do Noroeste. [risos] Fui atrás dele. Fiz muita coisa em Bauru. O pessoal do SESC de lá é muito legal. E perguntei, “Onde anda esse cara?” “Tem uma torcida organizada do Noroeste”. [risos] Que caiu para a 3ª Divisão.
Monteiro — Você comentou que na época d’Os Mulheres vocês tinham um monte de traquitanas para gravação. Vocês não tinham problemas para transpor isso para o palco?
Pereira — Nenhum problema, porque em 85 o que era uma traquitana? Um pedal de sampler e um SK-1, teclado que você comprava no Mappin, que tinha dez segundos de sampler. Isso era o máximo! Com sampler era coisa de um segundo. Não existia Macintosh, não existia PC. Comprei um computador em 89, um Apple 2-C. Era tão ruim, fiquei 15 dias e troquei por um amplificador de baixo. 128 de memória, tinha que trocar o disco o tempo todo, não me dei bem. Lidávamos com uma tecnologia mais vagabunda. O som era vagabundo. Era instrumental pop. Nos primeiros shows dos Mulheres tocávamos U2, Paralamas, Gil, ska, instrumental. Cheguei a conclusão de que eu precisava estudar instrumento e teoria. [risos] Começou a fazer falta. Fui estudar teoria pesado, peguei dois professores, sax, teoria, percepção. Tirei o mínimo de atraso. Aí começou a rolar o tecladinho e o pedal da gente que fazia duas pessoas parecerem quatro. E os shows começaram a ser meio malucos. O tecladinho você podia programar para tocar sem parar, você batia nas teclas e mudava o acorde. E uma vez no Satã, o palco — dois caixotes e um compensado — com o André, gordão, começou a ceder [risos]. O André caiu. O teclado também caiu, mas não parou de tocar. [risos gerais] E continuamos tocando. Tornamo-nos lendários ali e começamos a fazer aquilo sempre. [risos]
Almeida — Incorporou!
Pereira — O André começou a dar cabeçada no teclado. Era meio circo. Fizemos coisas com o pessoal do Fratelli [n.e. Grupo Acrobático Fratelli que mescla a arte circense com teatro, música, dança, etc.], que estava começando na época também. Tinha uma cena legal em São Paulo, de teatro e música. O Fratelli, Marzipã [n.e. Companhia de dança criada por Renata Melo e vencedora do Prêmio APCA de 1987], Luni [n.e. Grupo musical liderado pelo cantor e performer Fernando Figueiredo, e também integrado pelas vocalistas Marisa Orth e Natália Barros, que misturava espetáculo circense com desfile de moda], Novelle Cuisine, Skowa e a Máfia, Lagoa 66, Gueto, que era uma banda maravilhosa.
Almeida — O que aconteceu com esses caras?
Pereira — Gueto? O Julinho acho que não é mais músico, ele fez alguma coisa de dance music. O Marcola e Marcos, baixo e guitarra, também não sei por onde andam. Eles tentaram ressuscitar o Gueto há uns anos, mas não deu certo. E o Edson X está na Azul Music, produzindo essa mistura de eletrônica com new age. É um puta músico! Era uma banda muito interessante.
Tacioli — E não rolou os Mulheres na Fábrica do Som?
Pereira — Não chegamos a fazer. Não existia mais. Íamos fazer o Perdidos [n.e. Programa televisivo Perdidos na noite, comandado por Fausto Silva nos anos 1980], mas entrou um atravessador e não fizemos. Depois ele acabou.
Max Eluard — Que saída você vê para a produção de disco independente?
Pereira — Boa pergunta. Estamos num mundo fragmentado. Acho que temos que tocar no nosso bairro. São Paulo hoje, com essa prefeitura nova, da Marta, tem um approuch de cultura interessante, que não está estruturado ainda, mas é interessante. Entre Casas de Cultura, bibliotecas e parques, têm 100 lugares em São Paulo para se tocar. Até me chamaram para apresentar um projeto. Apresentei, não sei se vai dar certo. Fui mais utópico que político. Minha proposta é: no bairro, tocam os artistas do bairro. Tipo um festival permanente. E de quando em quando, pegam os bairros e os fazem rodar pela cidade. O que você faz com isso? Você dá voz para artistas de um bairro tocar pra gente que tem a mesma raiz cultural que eles. Segundo: você cria o hábito de o público ir a locais do próprio bairro. E não são só locais em que você vai dançar só pagode, charm ou forró. Lugar em que você vai ver artistas preocupados com outras coisas, que são da sua moçada. É uma utopia que tenho. É no bairro mesmo, cara! Aqui em São Paulo, quando você fala de bairro, você está falando 200 mil, 300 mil, um milhão de pessoas. Não sei se vai dar certo, mas acho que a solução é essa.
Max Eluard — Trabalhar na escala.
Pereira — Trabalhar local num primeiro momento, e junto com isso, Internet, ter o site e botar o seu MP3. Terceira coisa: rádio comunitária. Teoricamente, tem um formulário numa agência de correio. Vocês já viram isso? Tem um papagaio na capa, verde e amarelo. Algo assim: monte a sua rádio comunitária. Você diz quem é a associação a que você está ligado, as coordenadas da sua antena, e coisas assim. Então, se desse certo isso… É um negócio político, dizem que não aprovam quase nada, mas acho que São Paulo podia ter umas 200 comunitárias. E cada uma com um raio de 2 km. Seria uma puta solução, porque você especifica o público, você pode ter as notícias do seu bairro, as músicas da sua galera, os artistas locais. Fiz muito no meio da década de 90, quando tinha muita comunitária e pirata. Na tradição basicamente foi divulgado em piratas e Internet. Fiz muita rádio, muita rádio. Fui em Jandira, no Tucuruvi. Onde tem serra, tem muita rádio, porque é alto. E tinha rádios muito boas. Pô, tinha rádio com perua de reportagem. Todas com telefone, fazendo pergunta ao vivo. Mas tinham as ruins também. A maioria fechou. Mas é uma solução. Você vê, tudo que estou falando é fragmentado, é local. Comunitária, um quilômetro em volta. Casa de cultura é nos bairros e na periferia. Internet, que também é para uma pequena galera. A solução é essa, localizar, localizar. Como isso é difícil de acontecer, e como o sonho de todo mundo é o sonho antigo, todo mundo quer ser o Elvis, né?! Então, é difícil!
Max Eluard — O que é o show para você? Você tem um disco, você faz o show do disco?
Pereira — Falei que não gosto de registrar muito, né? Tenho cabeça de amador. Basicamente para um amador como eu, só o show é legal. Mas hoje não tenho saco de ir a show, só de ouvir disco. Porque o show não tem mais mistério para mim. Vou ao cinema, mas não consigo ir a um show. Fico nervoso, fico vendo outras coisas como são. Mas para fazer show para o leigo é legal. O show tem mais raça, acontece mais imprevisto, tem o contato com o público. Tento prestar muita atenção no público.
Max Eluard — Mas qual é o seu objetivo quando você vai fazer um show? Reproduzir o álbum ou você busca outra coisa?
Pereira — Vou lá para bater um papo com o povo. Quase nunca um show meu é igual ao outro. Se um cara pedir, “canta fulano”, canto. Os acidentes que entram, os incorporo todos. Tipo: uma vez sem querer, acho que foi até em Ouro Preto, que está gravado, dei um breque numa música chamada “Pan y leche”, em “anticonstitucionalissimamen…”, e perdi o tom. E o Daniel, do nada, começou a tocar “Núcleo base” do Ira! Foi a música inteira! No show seguinte, isso já havia sido incorporado. Não gosto de fazer o show igual ao disco. Show do Milton Nascimento era isso. Show igual ao disco. Um saco! Chico também, não gosto! Já show do Caetano e do Gil, especialmente do Gil, a banda improvisava, o cara conversava com a platéia. Acho importante o artista conversar. “E aí, como é que vocês estão?” Ou “o Corinthians ganhou?” “Maluf foi cassado”. Falar disso, o mundo existe com o show. “Tá frio? Puta que frio!” “Tá resfriado? Porra, tô resfriado!” Traz a vida real para dentro. O show tem muito a ver com a rua. Se estou na Moóca, o show tem a ver com a Moóca. Se estou no Rio de Janeiro, o show tem a ver com o Rio de Janeiro. Eu ando no lugar em que estou antes de fazer o show. Assim cada apresentação é diferente. Vou para Ribeirão, dou uma volta em Ribeirão. Fui de trem para Ribeirão quando fui me apresentar no Municipal. Graças a Deus, porque aí acabou o trem. E a minha viagem rendeu, porque aconteceram coisas que falei no show. E mais: estourou o P.A. no show, explodiu, as pessoas saíram correndo do teatro.
Almeida — Até pouco tempo dava para ir de trem de São Paulo a Bauru.
Pereira — Eu e o André fomos de trem para Bauru e todo mundo de avião. Dá para acreditar? Foi o show do calote, mas foi bom.
Tacioli — Mas esse tipo de incorporação, da assimilação do improviso, só deveria aumentar o seu interesse em registrar seus espetáculos.
Pereira — Por um lado eu gostaria, por outro lado, não sou apegado mesmo. Cada show vai ser diferente. Falo para as pessoas, “Querem levar o gravadorzinho e piratear? Melhor!” Não tenho muita paciência. O Daniel faz isso. Tem um mini-disc ou algo assim e leva para gravar os shows. Ele levou uma DAT, com canais separados, para Ouro Preto [risos]. Mas acho legal um show ser diferente do outro. É um respeito com o público.
Almeida — Maurício, você não pensa em fazer uma letra e dar para um outro cara musicar, ou o contrário, pedir uma letra para você musicar?
Pereira — Tirando o André e o Skowa, eu tinha pouca experiência disso. Fiz com o Szafran e tinha uma parceria com o Dino Vicente, mas é raro. Nesse disco, como escrevi mais letras, estou dando para algumas pessoas. Não sei se vai rolar. Dei para o André fazer, pro Szafran, pro Zeca Baleiro; encomendei umas letras para a Alice Ruiz. A gente se conheceu casualmente em Curitiba, ela era fã de umas músicas minhas. Não imaginava! Gosto muito dela também. E vamos ver. É um disco diferente também nesse sentido. As parcerias.
Max Eluard — E você trouxe alguma coisa nova aí?
Pereira — Cara, não tenho nada! Porque está tudo assim… Estou na fase de pegar uma foice e tirar palavras. Nenhuma tem música. Não, tem uma que tem, mas é um rap. A maioria não tem música e ainda estou tirando texto. Eu ia trazer, mas olhei e não tinha nada pronto. Tem coisas que estão assim, vai, 80%, mas vou deixar lá que nem massa de pão. Daqui um mês vou ver. Mas não tem nada. Tem uma que eu mandei para o Szafran, que está quase pronta. “Se achar que tiver que mexer na letra, mexa”. Para o Abujamra também, mas é uma música que pode até não rolar porque a letra está muito esquisita, muito sobre a solidão e sobre o nada e o vazio. Não sei se estou viajando, mas como o André é um cara diferente de mim, se ele olhar e achar que rola, então… As músicas estão muito cruas ainda.
Tacioli — Você citou clássicos populares como “Entre tapas e beijos”, “Detalhes” e outros, que são considerados simples pelo tipo de composição que possuem.
Pereira — É, mas não são.
Tacioli — Como essa história do simples pesa para você na hora de compor? Você tem essa busca?
Pereira — Tenho.
Tacioli — Existe essa encanação “estou muito acadêmico, muito cabeça”, sei lá?
Pereira — Acadêmico não sou, mas cabeça eu sou, infelizmente! [risos] A minha escola é de ter ouvido Jovem Guarda e rádio AM. Minha mãe ia trabalhar, me deixava com a empregada. Então ouvia Lindomar, Agnaldo Timóteo, Evaldo Braga, Altemar Dutra. Mesmo quando faço um disco como Mergulhar na surpresa, que não é um disco fácil, porque ele é fora do padrão, meu texto é acessível. Com esse disco fiz quarenta Arte nas ruas, que é um projeto da Prefeitura em praça pública. Basicamente ninguém me dava atenção. Mas um dia fui no Largo XIII e parei 500 pessoas muito simples. Não cantei nada dos outros. Fiquei muito assustado. Primeiro com a capacidade de eu ser popular. Segundo, pela capacidade do cidadão comum ter prazer com textos fora do padrão. Agora, gostaria de fazer músicas como Roberto Carlos, Zezé Di Camargo. E cada vez menos estou conseguindo isso. Estou fazendo formas poéticas tresloucadas. Mas o trabalho do Mergulhar é mais emocional do que parte A, parte B, refrão. Acho difícil e importante fazer música simples. Gostaria de fazer, mas realmente não tenho conseguido. Não tenho, não!
Max Eluard — Por quê?
Pereira — Essa liberdade formal vicia. Mulheres eram uma banda de maluco; me é dado o papel de ser maluco. Não me é cobrado, como para outros artistas, chegar lá com A, B, refrão. Depois dos Mulheres, Na tradição tinha um pouco isso porque eu queria fazer canção, mas o Mergulhar foi um disco em que a emoção e o texto, sei lá, outras formas, comandaram mais do que esse formato de canção popular. E esse novo agora também, puta, são raps, são músicas faladas, tem poesia em cima de música. Eu deixei sair, porque não vou me reprimir, mas quebrou minha expectativa. Pensei que depois de um ano cantando no Supremo eu ia fazer coisas populares.
Tacioli — Você acha que rolaria uma parceria sua com um desses artistas populares?
Pereira — Rolaria, com certeza.
Tacioli — Sem travas?
Pereira — Trava nenhuma.
Tacioli — É?! Maurício Pereira e Zezé Di Camargo?
Pereira — Completamente. Se eu desse uma letra minha para eles… Se eu desse uma música… Mas eles não podem gravar uma coisa muito fora do formato porque estão na indústria. O Amado Batista conhecia Os Mulheres Negras. Gravamos no mesmo estúdio que ele. O cara sabia quem era, sabia do que se tratava. Cruzei com ele no programaMulheres em desfile, quando eu não estava mais no Mulheres. Ele sabia quem eu era. Fábio Jr era superfã dos Mulheres, levou a gente para a Hebe. Esses caras são musicais. Os bons, né?! Porque tem o bom e tem o picareta!
Almeida — Então, não basta analisar tecnicamente a estrutura de uma música popular para você conseguir fazer sua música popular?
Pereira — Esses caras quando fazem A, B, refrão, fazem intuitivamente. Eu tento fazer, mas sou levado para outro lado. Já fiz música de encomenda que era A, B, refrão. O que fiz para o Castelo Rá-Tim-Bum com o André, por exemplo. Veio o A, B, refrãwo dele e eu me pus lá dentro. Algumas coisas fiz assim, como música infantil e, eventualmente, algum jingle. Intuitivamente vou para uma forma mais livre. Se eu fizer intuitivamente como fiz o “Pinguim”, o “Tudo por ti”, legal, mas não gosto de premeditar música porque senão parece exercício. Às vezes tem artistas que eu gosto, mas quando ouço suas músicas, parecem exercício formal. Não gosto disso não. É meio bobagem!
Tacioli — Que artistas se enquadram nisso?
Pereira — Não vou falar não! [risos] Não, não, o Sindicato me proíbe e eu dou razão para o Sindicato. Não vou falar.
Tacioli — Maurício, você citou diversas vezes o futebol, jogos e jogadores. Enfim, qual é a sua relação com o futebol?
Almeida — Ou se essa obsessão por futebol é uma frustração?
Pereira — Olhando para trás, eu deveria ter sido jogador. Eu deveria ter sido um monte de coisa em vez de ter feito aquela porra de escola de Jornalismo. [risos] Maquinista de trem ou jogador de futebol. Bom, sou corintiano, vi meu time ser campeão com 17 anos. Vi o Pelé jogar, o Rivelino, o Gérson, o Ademir da Guia.
Tacioli — Você ia a estádios?
Pereira — Bastante, bastante. Primeiro com o meu pai, depois com a galera. VejoMesa redonda [n.e. Programa da TV Gazeta comandada por Roberto Avalone] domingo à noite, comprava Gazeta Esportiva, basicamente sei a escalação dos times, acompanho o campeonato, 2ª Divisão. Meu pai foi juvenil da Ponte Preta. Agora, eu acho, independentemente do que eu gosto de futebol, que está duro de ver. Não consigo levar meu filho para assistir a um jogo. Não é só pela violência, mas é um jogo brocha. É um monte de gente correndo, não tem putaria, não tem malícia, não tem invenção, não tem molecagem.
Monteiro — O cara faz a molecagem e depois o enquadram.
Pereira — Enquadram. E outra coisa: não vou ver jogo do Corinthians em que metade do time jogou no Palmeiras no ano passado. Não vou, não vou! [risos] Se eu fosse palmeirense, eu não veria jogo do Palmeiras quando metade do time jogou no Corinthians. Ridículo! Espero que tenha alguma crise para voltar a prata da casa. O Corinthians é Ronaldo, Zé Maria, Ditão, Luis Carlos, Vladimir, Zé Elias. Marcelinho? Acho que tem que ficar no Corinthians. Ele é louco, mas é corintiano. Fernando Baiano, Luizão podem jogar. Só quem mostra o sangue tem que jogar. Fico triste quando vendem um cara que nem o Ewerton. Um cara de 18 anos! Ele vai ser formado no exterior. A putaria, a molecagem vem aos 25, aos 28. Porque estou falando isso? O futebol, com a música popular e a televisão, são coisas muito fortes da nossa cultura popular. As novelas da Janete Clair, Silvio Santos, a culinária são expressões fortes do povo. Com a música não acontece isso, mas o futebol praticamente acabou como forma de expressão. Ainda existe, mas você tem que ficar com uma lupa. Vejo jogo da 2a Divisão para ver se rola indisciplina. Assisto a jogos… CRB? Não, o que era? Ceará Sport e América de Natal. Vi isso aí!
Monteiro — Mas foi um jogo horroroso! Eu assisti também! [risos gerais]
Pereira — Quando a Ponte Preta estava na 2a Divisão eu vi bastante. Tenho essa ligação com a Ponte.
Tacioli — São Caetano é uma possível salvação?
Pereira — É. Parece um artista independente. Ele é emergente, vem de uma outra realidade. Quando ele ficar mainstream, quando for para gravadora grande ele vai mudar. Vai existir uma cobrança em cima dele. Mas agora não. E não vai ser campeão, justamente porque não está na indústria. Em 2000 ele já não foi. Foi roubado! O futebol é uma expressão muito importante do espírito, da cultura brasileira. E esse momento de corrupção e violência, o futebol brasileiro está emparedado na criatividade, na expressão. Isso é um momento que tem a ver com o Brasil, do politicamente correto, do utilitarismo, da corrupção. Vamos ver, não acredito em Papai Noel, mas acho que as coisas são cíclicas. Quem sabe daqui uns 5 anos a arte não volte a predominar sobre o utilitarismo, esse jogo feio e rápido, que não é cópia do europeu. Você assiste a um jogo europeu, ele é rápido, mas lá eles são desse jeito. Lá o cara pode fazer embaixada que ele não é punido. Aqui no Brasil a gente é mais realista que o rei. A molecagem, que é a nossa grande arma, a gente quer matar a tiro de fuzil, cara! A nossa auto-estima é muito baixa! O Nelson Rodrigues estava certo, é o complexo de vira-lata.
Sampaio — Lá vem o oficial!
Almeida — Vai enquadrar todo mundo, companheiro?!
Guarda do SESC — …A situação complica. Só faço o que os outros mandam eu fazer!
Pereira — Tá certo, tá certo! Não tem show hoje?
Monteiro — Tinha a gravação do Musikaos.
Max Eluard — A entrevista foi abortada.
Pereira — Mas falei bastante.
Max Eluard — Foi bom, Maurício?
Pereira — Foi, eu estava precisando falar, por incrível que pareça. [risos]
Tacioli — Maurício, o que você tem ouvido?
Monteiro Você consegue identificar algum grupo de rap que você ouviu recentemente?
Pereira — Nas rádios eles não falam, mas tenho gostado de um cara que é o NDee Naldinho. Sabe quem é esse cara? “O 5º vigia” é a música de sucesso dele.
Monteiro — Da rapaziada que está fazendo som hoje, ele é o mais tosco e combativo. Ele não tem ligação com outros rappers, faz o trampo em casa.
Pereira — Eu não sei se as músicas são dele. Esse “O 5º vigia” é a história dos caras que vão assaltar e, de repente, tem um vigia a mais. Eles não sabem e o cara morre.
Max Eluard — É o quinto vigia! [risos]
Pereira — É legal! Tem quatro vigias no banco, está tudo esquematizado, mas quando eles estão saindo, pinta o quinto. A polícia vem, pá. Achei a montagem do texto muito boa.
Monteiro — Ele vende bem. A gravadora é a TNT, um selo. O cara faz disco no fundo do quintal. Esse álbum que tem “O 5º vigia” chama-se Preto no gueto e vendeu 30 mil cópias.
Pereira — É mesmo?! Procurei esse disco lá na Lapa numa barraca de pirata. [risos] Eu não devia fazer isso com o hip hop, deveria comprar na lei. Vou comprar na lei!
Monteiro — Ele está lançando o disco ao vivo.
Pereira — Eu queria o outro, tem o “Firmeza” [n.e. “Aquele mina é firmeza”] , que é de um cara que perde a mina. É muito legal! E Racionais, que são muito bons, Thaíde, que é um sociólogo da coisa, um intelectual.
Monteiro — Hoje a música que fala para a molecada é o rap. O que você quer quando é moleque? Você quer uma música que seu pai não goste, porque senão não tem graça. “Não vou a um show com o meu pai”. O rap é a única coisa que fala para essa molecada, que incomoda.
Pereira — E tem muita coisa fraca, muita coisa estereotipada. Ontem eu estava ouvindo um cara no rádio, e ele cantava assim [canta] “Eu tô no mundo da luaaaaa!”. Tem um vibrato maluco.
Monteiro — É o SNJ.
Pereira — Puta, é muito bom, é um rap meio de terror [risos].
Monteiro — É sensacional esse menino. A banda são quatro, mas ele é espetacular. Não sei como aprendeu a cantar desse jeito, é o mais diferente.
Pereira — Tinha um cara chamado Ataliba e a Firma, é mais antigo, tem uns 5 anos ou mais. Sumiu! O Skowa me apresentou umas letras dele anos atrás, umas coisas muito boas.
Monteiro — Ele tem uma música que se chama “Política” que é espetacular.
Pereira — É, mas o Skowa me mostrou umas coisas que não sei se foram gravadas. Tem uns caras bons. O que mais estou ouvindo? Sou um ouvinte de rádio, e basicamente de rádio pirata. Tinha uma rádio aqui em São Paulo, comunitária, 91.9, que agora virou black. Era uma rádio em espanhol para a colônia boliviana no Bom Retiro, Casa Verde. Tocava cumbia, rancheira, mas de som mesmo não tinha nada legal.
Monteiro — Você em nenhum momento citou um estilo musical.
Pereira — Estilo como?
Monteiro — Como o rock. Você citou artistas. Teve um momento em sua vida que você falou “música é …”? Ou sempre foi assim, música pela música?
Pereira — Sou um cara de rádio, meu! E rádio dos anos 60. Como eu disse que passava Altemar Dutra, passava Ray Charles, passava Stones. E paulista, né?! Num certo sentido, a gente ouve muita coisa aqui. Hoje ouvi dois discos: Ben Harper e Hank Willians, que é um cara que eu tenho paixão, é um americano velho. E mais um disco que gosto muito, de um argentino chamado Axel Krigier. Um jornalista argentino, que tinha um programa de música brasileira em Buenos Aires, me procurou e quis saber quem eu era. Trocamos muita figura, dei muita dica pra ele, e ele me mandou uns discos malucos de lá, de uma gravadora chamada Los Años Luz. Tem um cara chamado Axel Krigier, que parece Os Mulheres Negras. Coisas interessantes, muito sampler, um som podreira, e um espírito meio solitário, pensar com a própria cabeça. Gostei muito! Que mais?! Como estou produzindo um disco de um cara, não estou ouvindo muito.
Tacioli — E quem é o cara que você está produzindo lá em Recife?
Pereira — Chama-se Armando Lobo. É um cara do Recife, branco, músico erudito, fanático pela música barroca. Ele faz letras que tem tudo a ver com catolicismo e putaria. E o Recife branco é o frevo, que é polifônico como o barroco. A gente aqui acaba conhecendo mais o Recife preto, índio, que é o maracatu, o caboclinho. Ir lá gravar esse cara foi uma puta viagem pra mim. Ele tem uma erudição pernambucana. Mistura muita coisa pernambucana com esse viés barroco, e é um letrista muito bom.
Almeida — E por que ele te chamou?
Pereira — Foi um amigo comum que me indicou. Do jeito que a produção dele era específica, eu era o único cara para ser indicado. Primeiro, porque é uma mistura de alhos com bugalhos. Segundo, que apesar de ser um músico muito bom, ele não tem experiência, tem uma certa ingenuidade nesta putaria do pop. Se em algumas coisas ele tem muita experiência, noutras ele precisa de um tutor para dar uma orientada, empurrá-lo para um lado, para outro. Experiências com estúdio, com músicos, com mercado de música, trazê-lo um pouquinho para São Paulo. Com ele faço um trabalho de Telê Santana. Como fiz com todo mundo que produzi: a Banda Paralela, o Bico de Pena, a Rita Monteiro, que lançou agora um disco totalmente independente. São pessoas que produzo o disco e ensino a pescar. “Não, tenta a mídia assim, faz o show assado, experimenta isso, escuta aquilo, presta atenção no reverbe, edição é assim, pagar os músicos é assado, direito autoral”. É caçar talento. Imagino que no segundo, terceiro disco desses caras, se eles crescerem, eles não vão estar mais comigo. Falando de futebol de novo, eu seria aquele técnico do juvenil, que forma o cara e manda, depois não é mais comigo. Não sou um cara que faz discos com sonoridade de grandes gravadoras. Meus discos são meio fora da moda, não de moda. Não produzo como o Dudu Marote ou como o André, que tem mais intimidade com o estúdio. Sou mais um filósofo popular. Dou uma formação e os caras vão. O trabalho desse sujeito é muito forte, muito forte.
Max Eluard — Vamos embora, antes que batam na gente.
Pereira — É verdade. Vambora.

gafieiras

entrevistas de música brasileira

editor do gafieiras

Written by

direto da redação

gafieiras

gafieiras

entrevistas de música brasileira