MOACYR LUZ [2002]

Ele é parceiro de Aldir Blanc e um dos titulares do samba e da boemia cariocas.

Moacyr Luz: “O Hélio (Delmiro) me ensinou a ouvir e o Aldir (Blanc) a falar”. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Moacyr Luz nos recebeu acompanhado do amigo, produtor e conviva assíduo de suas iguarias às sextas-feiras, Zé Luiz, nosso anfitrião no paulistano Villaggio Café, local do encontro. Ao comando de ambos, o bom Barbosa serviu doses de boa uca, oferecida pelo entrevistado para descontrair falas e ânimos. Cachaça e cervejas à parte, o relaxamento se deu, mesmo, com a chegada de sua cumbuca, cheia de sal. E assim, com o violão nos braços, à vontade, cantou parcerias com Martinho e Luiz Carlos da Vila e um inédito samba-enredo oferecido à Mangueira por ocasião da homenagem à Chico Buarque em 1998 — ainda mais (en)cantável que o escolhido, palavra de folião que atravessou a avenida naquele ano pela escola campeã.

Devoto de São Jorge, o compositor conta que “recebe” as melodias prontas, feitas. Diz que não mexe, não altera mínima nota do que compôs. Mas nisto não há um trabalho desatento, pois são muitas as que vêm e vão para as gavetas. Há ainda outras impressões e histórias — de pratos rápidos, parcerias longas, boas pingas e maus hábitos –, nem todas presentes aqui, que Moacyr é também excelente de papo — recheado de boas imagens, como a das esquadrias de alumínio para retratar a música promovida pelas gravadoras.

Nas telas que seguem, a tantas, Moacyr Luz lista seus professores: “Aprendi a ouvir com o Hélio Delmiro e a falar com o Aldir Blanc”, respectivamente o primeiro mestre de violão e o parceiro mais constante. De Tom Jobim, tomou lições para o fígado. Mas ficamos sem saber, pelo escasso tempo das ligeiras três horas de conversa, com quem Moacyr educou-se nas artes culinárias. Contudo, a verve para o bom tempero, tal como para a boa música, talvez seja inata, escrita em braile, nos ossos, com a licença de outra poeta, também amante de sambas, boa conversa e petiscos.

Se não me animo a provar o prato nobre das sextas-feiras na casa do compositor — à base de quiabo e jiló –, folgaria em acompanhar um destes encontros na Zona Norte carioca. Isto porque, encerrada duas, três vezes, a conversa não acabou de todo mesmo com todos em pé, depois da rápida sessão de fotos a que o compositor foi submetido, já em altas horas, no meio da rua. Para a leitura que se seguirá, recomendo ao menos um queijo com salame — e Luz nos ouvidos.


{…} expediente

entrevistadores Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Flávio Monteiro, Max Eluard Ricardo Tacioli e Sérgio Seabra 
transcrição, produção e edição Ricardo Tacioli 
texto de abertura Sérgio Seabra
fotos Dafne Sampaio 
agradecimentos Rozana Lima e Zé Luiz Soares

Entrevista realizada no Villaggio Café, em São Paulo, em 07 de maio de 2002.


Ricardo Tacioli — O fio do microfone é curto.
Moacyr Luz — Você quer que eu ponha?
Tacioli — Pode ser?
Moacyr Luz — Estou aqui para isso, bicho!
Zé Luiz — O Moacyr trouxe especialmente para a gente, né?!
Moacyr Luz — Esta é uma cachaça maravilhosa. É de um amigo meu do Rio de Janeiro. Cachaça maravilhosa, sinceramente. Ainda mais servida pelo Barbosa. Quem vai mais aí? Meu cumpadre, aí?!
Sérgio Seabra — Eu aceito, mas meia-carga.
Moacyr Luz — Pode ficar tranqüilo porque amanhã você vai acordar muito bem.
Max Eluard — Dá uma renovada no fígado. As cachaças tratam do fígado.
Moacyr Luz — Quer começar a gravar? Não era bom, porque daqui a pouco…
Tacioli — Pode ser. Já acionei o equipamento. Vamos começar? Depois o Daniel e o Dafne incorporam-se à mesa.
Max Eluard — Como foi a sua infância, Moacyr?
Moacyr Luz — Ontem até conversei isso com o Fernando Faro [n.e. Idealizador e produtor do programa Ensaio, da TV Cultura]. A minha infância foi a mais normal possível. Eu tive, talvez, uma diferença de vida, porque eu fui muito cigano toda a minha vida. Até os 15 anos de idade, fui muito cigano de moradia. Morei em bairros muito ligados ao subúrbio…
Max Eluard — Sempre no Rio?
Moacyr Luz — Sempre no Rio. Eu nasci em Jacarepaguá, com dois anos fui morar no Catumbi.
Flávio Monteiro — Isso em que ano?
Moacyr Luz — Nasci em 58. Depois fui para o Catumbi. Tinha um bairro de mil histórias no subúrbio, ainda mais naquela época, que era a época do Bafo da Onça [n.e. Famoso bloco carnavalesco do Rio de Janeiro], era a época que tinha uma malandragem que seguia pelo Catumbi até chegar à Lapa. Um casario que se aproximava de Santa Teresa. Depois os túneis foram destruindo um pouco o bairro. Depois fui morar praticamente em Santa Teresa, no morro de Paula Matos, na subida de Paula Matos — não se chama de morro, mas é um morro, uma subida. Depois fui morar em Bangu, em uma vila habitacional. Nós saímos de uma coisa que havia sido desapropriada para a construção de uma obra e fomos morar em umas casas populares, dessas todas igualzinhas. Como diz o meu amigo Guilherme, o mestre Guilherme de Brito, “Além das casas serem igualzinhas, botam algarismos romanos para complicar ainda mais a cabeça do pé-de-cana quando chega em casa.” [risos] Ele já não sabe como é que sabe, porque tudo é igual, e ainda tem aqueles algarismos romanos para complicar mais ainda a cabeça do sujeito. Depois fui morar em Copacabana até a minha vida musical começar mesmo no Méier, que foi quando conheci o Hélio Delmiro e a família Delmiro.
Tacioli — Você tinha uns 15 anos?
Moacyr Luz — Exatamente três dias depois de eu ter feito 15 anos. Eu digo uma coisa assim, que eu não quero que seja levada como pretensão, mas eu acredito que sempre tive talento para criar as coisas, entende? Eu sempre procuro justificar isso porque o talento é uma coisa inerente. Você tem talento para alguma coisa. Tenho talento para criar. Então, eu já sabia que alguma coisa a minha vida teria a ver com criar, fosse escrevendo, desenhando. A minha vida estava ligada à criação.
Max Eluard — Qual foi sua primeira manifestação criativa?
Moacyr Luz — Eu acho que a manifestação criativa existe da maneira que você olha as coisas, entende? Você conclui as coisas diferente. Não é que você seja uma pessoa diferente, mas você observa as coisas diferentemente.
Max Eluard — Mas quando foi a primeira vez em que ela se materializou? Foi em um jogo de bola…
Moacyr Luz — Foi assim: quando garoto eu queria escrever uma história. Eu achava bonito essa coisa de um pequeno movimento ter um significado diferente, propor uma história a partir de um nada. Uma conclusão que tenho sobre isso — para a gente passar essa folha -, eu não sabia, fui saber depois de ouvir essa história: o Picasso fez um cavalo na pedra, maravilhoso, e um crítico, “Mas como é que você viu, bolou esse cavalo nessa pedra?” “Não, bicho, já era um cavalo! Eu só tirei a pedra! O cavalo já existia ali. Só tirei o que não era cavalo!” Quer dizer, esse troço existe na criação. Eu cada vez mais tenho consciência de que todas as músicas que eu fiz e as que vou fazer, todas já existem dentro de mim. Alguma coisa as despertam, porque não é possível… Eu, por exemplo, não posso demorar para compor uma música. Se ela não sair quase que imediatamente, eu prefiro largá-la. Eu não sei pegar uma música e ficar um dia inteiro fazendo a primeira parte e outro dia fazendo a segunda. Eu preciso que essa música saia de dentro mim. E quando ela sai é porque ela presta, entende? Eu converso muito sobre isso com o meu parceiro, o Aldir Blanc, porque eu sinto quando entrego a música para ele, a rapidez com que ele me devolve. Se ele me devolve quase que no pingue-pongue, é por que funcionou. Deixem-me contar um caso. Depois vocês vêem como é que vocês vão editar isso. Uma vez eu estava na minha editora e vi que estava um bochicho a respeito da Maria Bethânia, que estava procurando músicas pra São Jorge. Então a editora estava, dentro do catálogo da gravadora e do dela própria, procurando músicas de São Jorge para a Bethânia. E eu, curioso, “O que está acontecendo aí?” “A Maria Bethânia está precisando de uma música para São Jorge.” E eu sou todo devoto de São Jorge — isso aqui é um anel de São Jorge, tem três fitas de São Jorge aqui, eu tenho São Jorge na minha parede, fui criado com o meu avô fazendo a gente sair de casa todos os dias e um quadro daqueles preto-e-branco, ovalados, a agradecer São Jorge. Quer dizer, tenho ido sempre no dia 23 de abril às missas e à procissão de São Jorge. “Meu Deus, uma música para São Jorge!” Fui pra casa — moro no mesmo prédio do Aldir. Eu moro no 103, o Aldir no 402. Um prédio pequeno. E comentei isso com ele. “Bicho, a Bethânia quer uma música para São Jorge.” “Eu nunca gravei nada com a Bethânia, Moacyr!” Essa história é de 92. “Nunca gravei nada com a Bethânia em 20 anos.” Acho que o primeiro sucesso do Aldir é de 1969. “Mas você é quem sabe!” Mas quando ele falou, “Vamos fazer?”, “Vamos!”. Nesse momento, bicho, eu desliguei o telefone, peguei o violão e fiz a música quase toda. Bom, eu achei que tivesse feito quase toda. Eu gravei. E subi. “Aldir, aquilo que eu conversei com você, é isso!” Bicho, desço do 4º andar, não dá dez minutos, ele liga. “Moa, fiz aqui a tua letra e acrescentei mais um pedacinho. Veja o que você faz!” Ele me mandou, eu olhei aquele negócio. Peguei o violão, completei aquele pedacinho e senti que dentro de mim tinha ainda um outro troço. Isso tudo em questão de meia hora. [canta] “Que a malvadeza desse mundo é grande em extensão”. O pedacinho final, a última corda [continua cantando] “E muitas vezes tem ar de anjo / E garras de dragão.” “Aldir, ainda tem uma corda, uma explicação a mais do mundo e para o mundo, das coisas de São Jorge protegendo…” Aí ele vem e me entrega isso. Gravo no fim da tarde e entrego de manhã na editora, e em menos de duas horas, a Bethânia já liga de volta dizendo que quer gravar. É uma música que tem esse… ela existe, né? “Saudades da Guanabara” eu estava com o Aldir e com o Paulinho [n.e. O letrista Paulo Cesar Pinheiro] na minha casa — eu tinha feito um samba com o Paulinho chamado “Saravá Brasil”, que a Amélia Rabello veio gravar em um disco para o Japão chamado Saravá Brasil (1989) — e mostrei um samba. Eu tinha uma letra qualquer nota, e a gente durante dois anos praticamente, iniciou umas reuniões musicais em que aconteceram umas coisas, modestamente falando, inacreditáveis, quando o Guinga começou a trabalhar com o Aldir. Para você ver um extremo da elegância que essas histórias estavam tomando: o Oscar Castro Neves saltou no Aeroporto do Galeão e, orientado pelo Sergio Mendes, pegou um táxi e foi direto para a minha casa, na Tijuca. Ele sabia que aquele dia era dia de reunião. E uma das pessoas que freqüentavam muito as reuniões era a Beth Carvalho. E a Beth me chamou no canto, “Aquele samba que você me mostrou, eu adoro, mas aquela letra… Não estou ainda me entendendo com essa letra.” Bom, eu guardei essa história, e nesse dia comentei isso com o Aldir e com o Paulinho, e cantei o samba. Cantei como se pudesse cantar aqui para vocês. Cantei umas duas ou três vezes, a gente abrindo uma cerveja e o Aldir falou assim: “Como é que está de cerveja aí?” “Tem umas duas ou três! Vou ligar no bar da Dona Maria, mando buscar!” “Não, tenho lá em casa. Peraí, vou lá em cima!” E ele demorou, juro para você, talvez 20 minutos. “Será que o Aldir vai subir e ficar lá em cima, desistiu?!” Mal pensei isso, ele já desce, com uma bolsa de cerveja, faz uma brincadeira, “Bicho, já dá para arrumar um dinheiro para trocar a cortina porque fizemos um sucesso!” E ele entregou uma parte da letra e o Paulinho quase que imediatamente fez o samba. Tudo no mesmo dia, palavra de honra. Era quase 11 da noite, eu muito empolgado, etilicamente falando também. Liguei para a Beth e cantei o samba “Saudades da Guanabara”. Acho que era uma hora da manhã e a Beth já estava em casa. E ela gravou o samba [n.e. Faixa de abertura e que dá título ao disco lançado pela Polygram em 1989]. Só para provar que quando a música existe, quando feita nesse canal que a gente está conversando, que é já existir dentro de você, não tem jeito.
Monteiro — Em seus 15 anos, o que te empolgava musicalmente? O que você ouvia?
Moacyr Luz — O que me chamou a atenção — você vê que loucura… Barbosa, meu irmão! [Moacyr pede para completar o copo] O meu pai tinha morrido no domingo, três dias depois dos meus 15 anos, e eu fui para a casa de uma tia que morava no Méier. No dia seguinte após o enterro, obviamente abatido com tudo — o meu primo estudava com o Carlinhos Delmiro, irmão do Hélio, na Barão de São Borja, 68, no Méier — e aí a minha tia diz assim: “Moacyr, vá lá com o Eduardo distrair a cabeça um pouco”. Descia-se uma Vilela Tavares, a Carijós, entrava na Barão de São Borja. E era uma casa com uma varandinha, dessas em que a casa é quadrada, mas a varanda é por dentro. Um murinho, e do lado, uma salinha, onde se tocava violão. O Carlinhos está dando aula para o meu primo, eu estava sentado, muito cabisbaixo, num peitorilzinho da varanda, quando chega o Hélio Delmiro. Eu tenho quase certeza: nessa época ele usava um cavanhaque grande, um cabelo black — era 1973 -, e ele estava vindo de um ensaio, de um show com a Elis Regina. Era um show que a Elis fazia. Eles estavam até um pouco “Mas que loucura, rapaz, nós estamos vestidos de palhaço”, era um negócio assim, cenográfico. E o Hélio percebe que estou meio esquisito, ele está sentado. O Hélio sempre foi um cara que ficava ali sentado. Ele acabava um Free Jazz e ia para aquela varanda. Aí ele percebeu que eu estava triste. Contei esse troço todo, “Não sei o que vai ser da minha vida. Minha mãe não quer voltar para esse lugar!” Falei das casas populares, “Não sei se vou morar na casa de parente! Estou com colégio parado!” “Qualquer coisa aparece aí amanhã! Fica por aí. Você está onde? Senta aqui um pouquinho, fica com a gente, distrai a sua cabeça.” E eu escutei uma música — sabe qual foi? -, uma música do Toquinho, rapaz. [canta a melodia] “Tã rantan / Tã rantan”, da novela O bem amado, que eram umas músicas, uma trilha feita especialmente para a novela, Toquinho & Vinícius [n.e. Primeira novela colorida da TV brasileira, O bem amado, de Dias Gomes, contava a história do prefeito Odorico Paraguaçu, interpretado por Paulo Gracindo. A trilha sonora trazia “Paiol de pólvora”, com arranjos de Rogério Duprat, “Cotidiano nº 2”, “Meu pai Oxalá”, “Um pouco mais de consideração”, entre outras] Eu achei aquilo bonito, o tipo de solo, eram blocos. Eu não sou nenhum cara, o meu violão não passa por aí, eu nunca fui muito de — apesar de ter estudado jazz -, nunca tive essa técnica de usar bloquinhos, como se faz em guitarras. E essa música tem muito disso na visão harmônica. E aí eu peguei o livro do meu primo que já estudava seis meses, e em três dias eu já tocava aquilo de trás para a frente. E aí acontece uma coisa que é uma oportunidade na vida que a gente tem e eu, cada dia mais, reflito sobre essa oportunidade. Às vezes você pensa que não está entendendo — eu falo muito para os meus amigos, eles já estão cansados de ouvir isso -, uma coisa importante na vida da gente é entendermos o contemporâneo. Você não inveja as coisas do passado, achar que você não está fazendo parte da história, você às vezes não está percebendo que a história está ao seu lado o tempo todo e você não está enxergando. “Naquela época o Cartola vinha aqui!” “Não, hoje vem um cara que é o Cartola, mas você só vai perceber isso anos depois.
Max Eluard — É difícil para o homem entender seu tempo.
Moacyr Luz 
— É, rapaz. Então, eu cada vez mais reflito sobre essas oportunidades. O que acontece, bicho: larguei toda uma vida que eu tinha em Bangu para ir morar no Méier. E meu primeiro amigo foi o Hélio Delmiro. A primeira pessoa que ele pega de carro, “O que você vai fazer amanhã?” “Eu não sei o que vou fazer amanhã. Estou ainda decidindo com a minha mãe o destino da nossa vida!” “Vamos sair? Vamos na casa do Victor Assis Brasil, porque estou ensaiando com ele.” Ele nunca me deu uma aula, mas me dizia assim: “Pega esse método, estuda esses arpejos aí! Tem que estudar umas oito horas, senão não adianta!” Você está vendo como é que foi? Eu não estava largando um colégio, faltando à uma aula, eu estava, simplesmente, mudando a minha vida. Então, eu relaciono as coisas… Ao passo, que mais adiante, eu ia para a casa do Victor Assis Brasil independentemente do Hélio. O Victor também cismou comigo, de levar para a casa de uma namorada dele em Botafogo. A gente ficava lá de noite, eu tinha 16, 17 anos. Luizinho Eça me ensinando acordes. Antes de morrer, um dos últimos shows que o Luizinho fez foi comigo, a gente viajou, fizemos show no Mistura Fina, fizemos show em Niterói, fizemos vários shows juntos. Havia até um projeto da Velas, em 1990, do Luizinho gravar um disco com minhas canções, arranjado pelo Luizinho. Infelizmente, não deu. Aprendi muito com ele. Tenho lá em casa partitura de músicas que ele escreveu. Você quer ver mais coisas? Isso em 1973, 74. Eu, garoto, começando a pegar o violão, ia para a casa da Elizeth Cardoso porque o Helinho tocava com ela. Acho que a primeira excursão que a Elizeth Cardoso fez ao Japão, a excursão que a transformou em um mito no Japão ao ponto de ter vários bares com o nome ligado ao repertório da Elizeth Cardoso. Dessa temporada eu vi todos os ensaios. Vi toda a gravação da Elis Regina com o Hélio, os ensaios na Warner para a turnê que ela fez no Free Jazz, eu vi toda essa gravação. Eu assisti do primeiro ao último minuto toda a gravação do Samambaia. Ninguém podia entrar, mas eu entrava — sabe por quê? Porque depois fui morar na casa do Hélio. Minha mãe casa de novo e eu moro na casa do cara um ano. Depois, com 18 anos, eu consigo alugar um apartamento já tocando na noite. Um dia ele bate lá em casa e diz “Bicho, eu tô me separando. Dá para ficar uns 15 dias aqui?” Isso durou mais uns três anos, né? Então, fundamental na minha vida.
Zé Luiz — A Clara.
Moacyr Luz — A Clara Nunes eu peguei o finalzinho, mas o João Nogueira eu conheci. O melhor disco do João, Vem que tem [n.e. EMI-Odeon, 1975], que ele tem aquela roupa do Flamengo, aquele sorriso largo. O Roberto Ribeiro, as gravações todas.
Max Eluard — Moacyr, a que se deve todos esses encontros, essa proximidade com essas pessoas?
Moacyr Luz — Tem uma diferença que eu gostaria que fosse entendida. Vi a entrevista que vocês fizeram com o Gudin e uma vez nós conversamos um pouco sobre isso aqui mesmo no Villaggio, naquela mesa do canto. No Rio existe um tipo de música, e em São Paulo existe um outro tipo de música. Por favor, hein! A música que existe no Rio é uma música popular, inclusive, não é do carioca, mas, sim, a música que é feita no Rio. O paulista pode ir ao Rio e fazer essa música popular. A música que se propõe em São Paulo é uma música mais de vanguarda. A minha impressão é que dentro da cabeça da música paulistana não passa a idéia de ser popular. “Eu não tenho essa preocupação, quero fazer as minhas músicas, mesmo que elas sejam dodecafônicas, mesmo que elas sejam de harmonias e compassos complicadíssimos.” Vejo um pouco por aí. Nesse aspecto, quando você me pergunta “E o Gudin?”. O Gudin parece que tem uma carreira carioca.
Max Eluard — Ele faz um samba carioca.
Moacyr Luz — Exatamente. Porque ele faz composições com o Paulo Cesar Pinheiro, ele se aproxima de um tipo de literatura. Então, não é o carioca, mas a música que é feita no Rio. Caetano, Fagner, todo mundo acaba… Por favor, estou sendo abrangente, mas é evidente que cada um tem a sua linguagem sendo construída. Então, as pessoas ficam concentradas nesse aspecto que a música propõe. Não sei, até hoje eu sinto muito isso. Às vezes tenho a oportunidade de receber CDs de novos compositores e, por mais que tentem, “Vou fazer uma coisa mais popular”, existe essa necessidade da vanguarda. É interessante! Penso um pouco por aí.
Monteiro — Influência do meio?
Moacyr Luz — É diferente. Por favor, estou dando uma opinião. A gente pode passar pelas rádios, as principais rádios da época que tangenciaram as mentes de todo mundo. Você vê que o próprio João Gilberto lá não-sei-onde escutava a Rádio Nacional. Ele ficava na pracinha lá no interior da Bahia, de Sergipe…
Tacioli — Ouvindo a rádio pelo alto-falante.
Moacyr Luz — Pelo alto-falante escutando a Rádio Nacional. Você vai ver o Caetano Veloso, em Santo Amaro da Purificação, que tinha um radinho em que ouvia a Rádio Nacional, que o nome Maria Bethânia vem de Nelson Gonçalves, de Orlando Silva. Então, a rádio pode ter sido um chamariz para o Rio de Janeiro ter esse mecanismo. Uma compreensão sobre o samba, porque existe uma teoria que diz que o samba começou em Santo Amaro. E, no entanto, não é isso, porque a Tia Ciata veio das segregações, dos preconceitos, das histórias entre Igreja e o sincretismo que o interior da Bahia não aceitava. As pessoas iam para os seus cantos. O primeiro lugar em que param é na Praça Mauá, na Saúde, em Santo Cristo, de onde vem a Tia Ciata, aquelas histórias do samba.
Tacioli — A Pequena África.
Moacyr Luz — A Pequena África. Que coisa interessante: por uma necessidade de transformar o Rio de Janeiro em uma Paris da América do Sul, em uma Paris tupiniquim, são desapropriados todos aqueles pequenos centros e cortiços que existiam ali no Santo Cristo. E o que acontece? Um centro desses vai para o Estácio, fugido. Mas se hoje ainda ninguém é tratado com a dignidade que merece, imaginem no início do século como é que rolava uma desapropriação. Jogavam seu barraco fora e você que se vire! Assim, uma parte desse grupo foi para o Estácio. Uma outra parte foi para Oswaldo Cruz, Madureira, foi procurar ali nas fazendas, nos humaitás da vida. Por uma coincidência do destino, o Estácio vira o berço do samba.
Tacioli — Moacyr, até seus 15 anos de idade que tipo de referência musical você privilegiava?
Moacyr Luz — Meu avô era clarinetista, músico de orquestra e de banda. Isso é uma parte harmônica da minha vida. Morei com o meu avô na rua Souza Lima, em Copacabana, logo depois do túnel, quase chegando ao Posto 6. Nessa mesma rua morava o Dorival Caymmi. Ele morou até recentemente na rua Souza Lima. Recentemente há 20 anos, né? [risos] Mas eu era muito garoto. O meu avô e o Dorival Caymmi compravam jornal na mesma banca, que ficava na esquina. O meu avô era um sonhador, ele falava coisas assim “Meu filho, quando Getúlio… eu também tive que fugir”. Ele tinha umas coisas assim. Acontecia algo lá fora e “A situação está horrível!”. Ele era um exagerado! Então, ele encostava no Dorival Caymmi e “Olha o meu neto aqui!”, “Eu também fui músico! Já gravamos juntos, praticamente!” Praticamente, nunca! [risos] O Dorival e o meu avô, os dois já senhores, conversavam. O meu avô tinha todos os discos do Dorival Caymmi — lógico que acredito que tinha a maioria dos discos tanto pelo bom gosto e pelo apuro emotivo, como também pelo prazer de ter os discos do vizinho, afinal de contas “Dorival Caymmi, meu amigo, está aqui… mora comigo”. Aos domingos, víamos Concertos para a juventude, na TV Rio, que ficava no Posto 6, onde hoje é o hotel Softel. Aquilo tudo era a TV Rio. E quando dava meio-dia, uma hora, o almoço. Meu avô gostava muito que todas as filhas estivessem à mesa — morei com ele dos 6 aos 11 anos. E muito, muito Dorival Caymmi. E o meu pai, que não tinha nada de música, adorava o Nat King Cole. O meu pai já era o lado mais pobre da vida, com quatro, cinco discos, e aquilo tocava à exaustão. Então, as pessoas conhecem o meu repertório mais através dos sambas, mas tenho muitas canções. E as canções vêm desse disco do Dorival Caymmi, com certeza.
Monteiro — A primeira faixa do Na Galeria é do Roberto Martins [n.e. Compositor carioca, 1909–1992]. Ele é uma referência importante em sua obra? Você já gravou algumas coisas dele, não?
Moacyr Luz — Gravei “Não deve sorrir assim pra mim”, do Roberto Martins [n.e. Gravado em Mandingueiro].
Monteiro — Apesar de ser sambista, o Roberto Martins também fez muitas canções, como “Renúncia” [n.e. Composta com Mário Rossi e um dos primeiros sucessos de Nelson Gonçalves].
Moacyr Luz 
— “Favela” [n.e. Parceria com Valdemar Silva, gravada por Francisco Alves em 1936, “Favela” foi seu primeiro sucesso], “Beija-me” [n.e. Com Mário Rossi].
Monteiro — E o “Cordão dos puxa-saco” [n.e. Marchinha composta com Eratóstenes Frazão e sucesso no carnaval de 1945].
Moacyr Luz — “Cadê Zazá” também é dele [n.e. Marchinha assinada com Ary Monteiro, de 1948].
Monteiro — Enfim, são coisas díspares, não?
Moacyr Luz — O que me impressiona no Roberto Martins é a profissão de compositor popular. Sempre que posso chamo a atenção para isso. Ele era um sujeito que fazia tanto marchinhas — como Braguinha — como canções [canta] “Beija-me / Deixa o meu corpo coladinho”. E ainda dentro daquela história da música do Rio e de São Paulo, o compositor é para ser cantado e ouvido. Penso assim, né?! É um orgulho para qualquer compositor subir em um palco, tocar uma música e ela ser identificada. Eu passo muito por isso. É muito difícil você ter uma música de verdade — uma hora a gente vai ter que falar sobre isso, porque são dois mundos. Existe o mundo das milhões de cópias, dos carros importados — esse mundo não existe! — e o nosso mundo, esse aqui! A não ser que vocês achem que com esse site vocês vão se transformar naqueles dois americanos do Google [n.e. Site de busca de conteúdo], né? [risos]
Monteiro — Nunca se sabe! [risos]
Tacioli — Essa é a versão mais otimista! [risos]
Moacyr Luz — Se acharem isso, vocês estão entrevistando a pessoa errada. Vocês tem que entrevistar o Belo! [risos]
Tacioli — Que outras informações musicais você assimilou na juventude, Moacyr?
Moacyr Luz — Estudei muito violão. Hoje sou mais preguiçoso. A história de você fazer a música é mais ou menos assim. Você pega o violão, e já na segunda escala que você estuda, ela te propõe alguma coisa. “Meus Deus, isso é uma música!” Aí você pára tudo, e a mão já funciona para outro caminho. Mas estudei muito violão. E ouvi muito. São caracteres que vão formando sua identidade. Vejo isso muito na juventude. Atualmente, tenho visto isso até mais cedo, de um jovem sair da absoluta ignorância no samba para um domínio inacreditável. Um cara que escutava música internacional, se encantar com Cartola, ir a Velha Guarda da Portela, e ficar sedento, tocar bandolim, cavaquinho, pandeiro. É uma loucura! Graças a Deus! Quer dizer, começo a minha vida apaixonado por Billie Holiday, pelo Chet Baker, pelo Joe Pass, por todos os grandes standarts de guitarra, como Wes Montgomery, até o próprio — mais moderno — George Benson. Mas eu escutava tudo isso. Eric Gale, Django Reinhardt, Philippe Catherine, Larry Coryell. Eu escutava tudo isso e tinha esses discos. As cantoras Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, que eu conheci pessoalmente porque fui à gravação do O som brasileiro de Sarah Vaughan [n.e. Gravado no Rio de Janeiro em 1977, o álbum contou com direção artística de Aloysio de Oliveira e foi lançado em CD pela BMG em 1994] com o Hélio Delmiro. Desculpem-me, mas é verdade! [risos] Inclusive, tem uma história aí que acredito seja mentira minha! Juro que estou mentindo, mas o que posso fazer? Determinada hora, o Hélio Delmiro falou “Vamos fazer uma música para a Sarah Vaughan? Fizemos a música, mas não tivemos coragem de mostrá-la. O Hélio era muito tímido. [risos] Ela havia se encantado com o Hélio, a ponto dele ser uns destaques no disco e ela ter feito um segundo com a exigência que ele estivesse presente.
Zé Luiz — Segundo a Sarah Vaughan, ele era um dos cinco melhores de todos os tempos.
Moacyr Luz — Isso saiu na revista. Bom, essa era a formação musical que eu tive, aliado, evidentemente, aos ícones da MPB. Mas quando estive na faculdade — entrei em um dia e saí em outro, mas cheguei a cursar um pouco -, existia um fenômeno universitário chamado Cartola. Em 1977, ele era disputadíssimo por todos centros acadêmicos, CPCs e DCEs. Agora, observem uma coisa sobre São Paulo. Outro dia eu estava aqui conversando com um amigo — o pai do Ricardo Garrido — e ele me disse que nos anos 70, quando ele era de um desses DCEs, eles arrecadavam um dinheiro para trazer o Nelson Cavaquinho e o Cartola para fazer shows em São Paulo. Eles vinham muito para cá. Olha, até Djavan veio muito para cá, como o Caetano e o Gil. São Paulo produzindo espaços para esses caras se apresentarem. De uma certa maneira, isso tem acontecido muito aqui. São Paulo está conseguindo trazer de novo esses veteranos que ficam ali abandonados.
Tacioli — Os primeiros discos desse pessoal da velha guarda, do Cartola, do Nelson Cavaquinho, foram gravados em São Paulo, não?
Moacyr Luz — Marcus Pereira?
Tacioli — Através do Pelão.
Moacyr Luz — O Pelão, série Documento. Você vê que loucura… O que nós estávamos falando? Bom, Cartola era um fenômeno. Ele fazia aqueles circuitos universitários e todo mundo assistia. Era uma época em que a juventude estava verdadeiramente interferindo no processo político do Brasil, pedindo anistia. É, como dizem, uma época em que o Betinho era o irmão do Henfil. Eu tinha uns 25 anos, estou com 44, e começo a ouvir com mais atenção as coisas do samba.
Sérgio Seabra — Você tinha 30 anos quando gravou seu primeiro disco, né?
Moacyr Luz — Isso.
Seabra — Então, você levou 15 para poder se expressar musicalmente.
[Daniel Almeida e Dafne Sampaio acabam de chegar]

Daniel Almeida — Opa, tudo bem? Sou o Daniel. Prazer.
Moacyr Luz — Tudo bem? Como vai?
Seabra — Como foi esse período musical, dos 15 anos de idade à gravação de seu primeiro disco?
Moacyr Luz — Foi a Lana Bittencourt quem me gravou pela primeira vez, em 1979. É uma cantora clássica, com vozeirão agudíssimo, aquele negócio estridente. Depois, no início dos anos 80, com a onda do disco independente que se inicia com o Antonio Adolfo e com o Francisco Mário [n.e. Irmão do cartunista Henfil e do sociólogo Betinho, o violonista mineiro Francisco Mário Figueireido Souza, 1948–1988, que, ao lado de Antonio Adolfo, Danilo Caymmi e da dupla Lulu & Lucinda, lutou pela produção fonográfica independente, sendo um dos fundadores da Associação do Produtores Independentes de Discos e Fitas, e autor do livro Como fazer um disco independente], todo mundo faz muito disco independente. Nessa época, gravo com outras pessoas umas 30 músicas.
Seabra — Suas?
Moacyr Luz — Minhas. Cantores que nunca mais aconteceram, quer dizer, estão trabalhando, mas até hoje é muito difícil. Flávio Salles, Agenor de Oliveira, Sérgio Souto, do Acre, várias pessoas desse naipe. Conheci o Aldir em outubro de 1984, e aí começamos a trabalhar no que viria a ser esse disco [n.e. Moacyr Luz, 1988, álbum de canções com a capa estampando uma foto p&b do artista]. Tenho vários sambas feitos com o Aldir nesse período. Amigos que vêm acompanhando a nossa vida e que conhecem esses sambas todos. Tenho vários desses sambas. Mas a minha insegurança… O Aldir tinha recém-separado de uma parceria ilustre [n.e. Em 1983, do violonista, cantor e compositor mineiro João Bosco, com quem compôs “O bêbado e a equilibrista”, “Kid Cavaquinho” e outros sucessos], cercada de signos representativos no trabalho, e um deles era o samba. Nesse trabalho com o Aldir — a gente já conversou muito sobre isso em algumas tardes que foram feitas só para se conversar — se juntou dois desenhos meio malucos. E eu te digo uma coisa: eu, hoje, observando as oportunidades da minha vida, tento entender como um cara como o Aldir Blanc, um camarada consagrado, me escolhe, aos 42 anos de idade, para ser seu parceiro. Ele olhou e confiou, a ponto de eu ter com ele 80 músicas gravadas e umas 200 feitas no total. Tenho um baú de músicas que vocês não acreditam!
Max Eluard — Em quantos anos, Moacyr?
Seabra — Desde 1984.
Moacyr Luz — Em outubro de 1984 fizemos a primeira música. É igual ao casamento, no início o tesão é grande. [risos] Não é que o tesão tenha diminuído, mas a paixão se transforma em amor. Então, esse disco de 88 — peço perdão por falar isso para vocês — tem uma importância porque é um álbum de canções. Se vocês fizerem um estudo daquele período, aquele disco, além de preto, deveria ser uma ovelha, mesmo! Porque ele estava totalmente à margem de tudo o que estava acontecendo naquele momento. A gente vem com um disco desse, quase vendido de mão-em-mão, mas ele dá uma assinatura à parceria. Os jornalistas começaram a perceber que aquilo ali era uma obra que estava existindo, não era uma coisa por acaso, um projeto, “Vamos fazer aqui 10 músicas e realizar…”. Mas até esse disco de 88 eu já havia gravado “Retrós” [n.e. Em parceria com Jota Maranhão], com a Nana Caymmi, no disco Chora Brasileira [n.e.EMI-Odeon, 1985], “Lembrando de você”, com a Elba Ramalho, e músicas com a Leila Pinheiro, Leny Andrade. Estou falando de pessoas que possam servir de referência. Obviamente, outras coisas estavam acontecendo, mas que infelizmente não deram certo.
Max Eluard — Moacyr, vendo a sua obra composta e gravada percebe-se que todas suas músicas são muito populares.
Moacyr Luz — São.
Max Eluard — O que uma música popular tem que ter em signos, em qualidade de sensação? O que faz uma música ser popular?
Moacyr Luz — Olha, pra gente poder ter uma régua: você acha “Quem te viu, quem te vê” uma música popular?
Max Eluard — Acho.
Moacyr Luz — E é maravilhosa, né? Vamos ver uma outra coisa. Você acha “Travessia” uma música popular?
Max Eluard — “Travessia”? Não.
Moacyr Luz — E “Travessia” é cantada nos botequins. Vou falar uma coisa do repertório do Guinga, de quem sou amigo desde 73 por causa do Helinho, que é padrinho da filha do Guinga. A obra do Guinga é uma obra difícil e, no entanto, ele tem o Catavento e girassol que acaba ficando popular. Se você perceber, mesmo dentro daquela erudição, é uma obra popular, entende?
Max Eluard — Popular não significa vender, mas sim estar na boca do povo.
Moacyr Luz — É por aí. Você quer ver uma coisa engraçada. Eu tenho nesse discoMandingueiro a música “Anjo da Velha Guarda”. É um samba que me surpreende diariamente. E onde vou canto esse samba, e todo mundo também canta, mas nunca tocou na rádio. Nunca vi! Mas tem alguma coisa na aura do negócio que a transforma em uma música popular. Ao passo que ali tem [canta] “Tento dizer que o futuro a Deus pertence”, já é uma coisa…
Max Eluard — O Aldir é um compositor que não está na boca do povo, mesmo sendo dono de várias pérolas, mas é um compositor popular nato. Ele escreve como a gente fala.
Moacyr Luz — Rodrigueano, né?
Monteiro — Até agora você falou da paixão de tocar, mas não citou o cantar. Como é que você resolveu cantar?
Moacyr Luz — O projeto que você idealiza na sua vida… “Pô, vou ser um compositor! Então, faço as minhas músicas, as pessoas gravam, e nos fins das tardes — igual ao Hemingway — já escrevi os artigos, sento nos bares, e vou beber as minhas bebidas todas possíveis, né”. Pra mim o cantar nunca existiu como objetivo. Falei isso ontem com o Fernando Faro [n.e. Durante a gravação do programa Ensaio, da TV Cultura]. Nunca existiu. Nunca tive nenhum cuidado com a voz, de achar tom. Reconheço que em todos os meus discos anteriores ao Na galeria errei alguns tons, não escolhi outros, e privilegiei alguns acordes em função dos tons. Na hora que me vejo cantando… Deixe-me explicar melhor: a minha parte eu já estou fazendo, não posso me sentir culpado pelas coisas não estarem melhor ou pior. Estou caminhando do meu jeito. Acho que estou caminhando com dignidade, estou fazendo as minhas coisas, o meu trabalho, tendo a possibilidade de estar conversando com vocês. Quando cheguei a essa impressão final “Agora vou fazendo as minhas coisas, não sou mais culpado, se der certo, se não deu, tudo bem”, comecei a gostar mais da minha voz. Quer dizer, comecei a gostar de cantar, mas eu já cantava porque achava que alguém realmente queria me ouvir. Antes eu achava que as pessoas queriam ouvir a música cantada pela Fafá de Belém, pela Maria Bethânia. Por mim, não fazia diferença. De repente, comecei a achar que as pessoas estavam gostando de ver a música naturalmente como ela era. E aí fui me chegando mais, fui ficando atento à dicção, a essas coisas todas. Até desaguar no Na galeria que, ao contrário, é um disco em que canto as músicas dos outros. Aí comecei a perceber que eu tinha que olhar bem os tons, os acordes originais que já existiam, e quem conhece as minhas músicas, o meu jeito de fazer as coisas, vai perceber que ali consegui mexer um pouco nas estruturas para que as coisas ficassem um pouco parecidas comigo. E diante disso, “Tenho que explicar essas coisas direito, porque essas palavras não são minhas!” É como se fossem, mas não são. Então, vamos botar esses tons no lugar, vamos pegar os andamentos. Você vê a música “O amanhecer”, ela tem um andamento. O Veríssimo chamou de canto-rondo, é um andamento bem lento, a música do Paulinho da Viola. Semana passada o Lan lançou um livro maravilhoso sobre as escolas de samba, e eu tive a possibilidade de conversar com o Paulinho sobre a gravação do “Retiro”. Ele gostou. Levei o violão a pedido do Lan, mas tinha tanta gente que não dava para tocar. Aí quando deu meia-noite, peguei uma garrafa de cachaça dessa que eu tinha levado para o Lan de presente, “Não, vamos!”. O Ratinho, parceiro do Monarco, “Moa, vamos para aquela árvore!” Ficamos em um cantinho. Eu, o Aldir, o Paulinho, Ratinho, Lan, Haroldo Costa, mais duas pessoas e um menino que estou precisando localizar. Ele gravou tudo em filme! [risos] Preciso saber quem é esse sujeito. Ficamos lá até às 3 horas da manhã tocando os sambas que têm esses andamentos que gosto muito. Eu trouxe até o violão aí para a gente tocar. Mais tarde, né? Quando vocês acharem que está bom… Esse disco Na galeria põe em dia com o meu violão. Isso para mim é muito bacana.
Tacioli — Notei muito no Na galeria essa coisa do intérprete, do cantar. Realmente parece que você…
Moacyr Luz — Se empenhou mais, né?
Tacioli — Não sei se houve um amadurecimento do primeiro para esse último…
Moacyr Luz — É verdade, passou por aí.
Tacioli — A partir do Na galeria, você se considera o melhor intérprete de suas obras?
Moacyr Luz — Me considero, e esse disco está me ensinando a cuidar das minhas músicas. Esse disco é uma escola pra mim. Sinceramente, a geração que for prestar atenção nesse disco, ou hoje ou mais tarde, vai notar que ele propõe uma leitura harmônica de samba, mas sem nada de vanguarda, tá, véio? Você não precisa necessariamente passar pela mesmice. Não tenho nada contra as origens do samba, do que tem de nobre, de você ver como ele consegue se resumir em uma estrofe, como “Tire o seu sorriso do caminho / Que eu quero passar com minha dor”, acabou, não precisa falar mais nada. Aquele outro, não sei de quem é, Chico Santana [canta] “O mundo se renova todo dia / Eu envelheço em cada dia, cada mês / O mundo passa por mim todos os dias / Enquanto eu passo pelo mundo uma vez”. Parece tão hai-kai. E o samba tem muito disso, de explicar que talvez tenha sido assim, uma timidez com as palavras, de ter medo de falar alguma coisa. Então, a paixão por saber uma palavra nova e dar a ela uma dimensão. [canta] “Ah! Se eu tivesse autonomia” Sabe uma coisa assim? De você perceber que a essência de tudo está naquele troço, o cara veio e aprendeu, entendeu aquela palavra. A gente falando a palavra à toa e o cara a pegou. Isso o samba tem demais.
Max Eluard — É a história da música popular que estávamos falando, né? De se resumir em uma coisa simples uma essência, um sentimento.
Moacyr Luz — Olha, em 85 fui em Mangueira ao lançamento de um livro do Roberto Moura [n.e. Cineasta, produtor de cinema e vídeo, escritor, pesquisador e professor universitário]. Não é o jornalista Roberto Moura, que escreve na Tribuna, não!
Tacioli — É o que escreveu um livro sobre a Tia Ciata? [n.e. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, 1ª edição, Funarte, 1983; 2ª edição Biblioteca Carioca, 1995].
Moacyr Luz — É, isso aí. É que tem outro Roberto Moura, que agora chama-se Roberto M. Moura, para diferenciar. Ele escreveu um livro sobre o Cartola, um livro lindo [n.e. Cartola: Todo tempo que eu viver, Corisco Edições, 1989]. O livro é rosa, mas tem uma capa colorida. O livro é lindo, lindo! Tem uma foto que se abre ao meio, no morro, umas cadeirinhas, o Cartola tocando violão, olhando embasbacado atrás dele o Villa-Lobos e aqui nessa cadeira, outro boquiaberto, o Walt Disney. O Villa-Lobos tinha levado o Walt Disney ao morro de Mangueira.
Seabra — O Zé Carioca é dessa época?
Moacyr Luz — Deve ter nascido ali. Mas o Villa adorava o Cartola, achava ele genial.
Monteiro — Você estava falando de música popular, do Paulinho da Viola, mas hoje ele não faz mais o hit que as pessoas assobiam na rua, esperando o ônibus. O que você acha que mudou nessa relação?
Moacyr Luz — Não quero falar pelo Paulinho, não tenho condição de falar sobre isso. O que passa com o Paulinho, passa com muita gente. Ele está com 60 anos de idade e, é como se dissesse, o bastão está aí. O fôlego, às vezes, não é o mesmo para você trabalhar. Você pode cobrar isso do Chico Buarque também. Há um fôlego e uma maneira de se trabalhar. O Paulinho é muito antimídia. Ele não provoca assunto, não é que não o gere, ele simplesmente não provoca assunto. No trabalho dele, não necessariamente, ele está citando personalidades possíveis, achando novas histórias pela Europa, criando situações com cineastas; isso não existe! O que ele faz é música e marcenaria. Ele está fazendo um disco…
Seabra — Dois, não?
Moacyr Luz — Exatamente. E um filme também.
Max Eluard — Não acho que o Paulinho ficou menos popular. Você pega o Bebadosamba. Tem coisas muito fáceis.
Monteiro — Concordo, mas essas músicas não chegam.
Max Eluard — Exatamente.
Moacyr Luz — Agora é o rádio.
Max Eluard — Distribuição.
Moacyr Luz — Você pega aquele disco do Chico Buarque chamado Construção. Na minha época tocou da primeira à última música incessantemente, todas as vezes e todos os dias nas rádios.
Zé Luiz — Vocês me permitem? Eu tinha menos de 10 anos de idade e estava doente de sarampo. Meu pai colocou a televisão no quarto para eu assistir ao Troféu Imprensa, do Sílvio Santos. Lembro-me perfeitamente: “Melhor música do ano do Troféu Imprensa… ”Construção””.
Max Eluard — Hoje, quem ganha, é o mecanismo do poder hegemônico, não é questão de ser fulano ou sicrano.

Seabra — Só por existir esse mecanismo de “Qual é a melhor música do ano”…
Moacyr Luz — Pois é. A gente pode criar uma imagem. Pensei em um condomínio. Como é um condomínio? Você mora em um prédio, mas aí você resolve que o condomínio tem que botar ar condicionado central. Aí piscina, sauna, elevadores, circuito interno, festas, garçons. A música está passando por uma coisa parecida com todo o processo de tecnologia, que é necessário, não podemos fugir disso, mas o cara quer mixar em Los Angeles, o outro quer gravar não-sei-onde. Hoje não está muito assim, mas começou um pouco por aí. A capa tem que ser de um jeito, isso tem que ser assim, a grife tem que assinar os clipes. Tem grife para tudo, assessorias de imprensa — que eu respeito muito. Hoje existe um staff em torno do artista que resulta que ele não pode vender uma quantidade pequena de discos. Isso provoca um escândalo de propostas loucas. Você pega o Caderno de Cultura, ele é todo mapeado. “Jantar — onde eu janto?” Daí aquele negócio é disputado a tapa, “onde eu janto quando sair”. Pode ver, “Onde eu janto” o cara está lançando uma peça essa semana, um livro, um filme, daí é “onde eu janto”, “o filme que eu gosto”, “CDs inesquecíveis”, e vai por aí. O cara não troca nem de roupa. Ele faz o Jô Soares, Hebe Camargo, tudo com a mesma roupa. Não dá tempo! [risos] Porque é muita coisa, bicho! A naturalidade… Apesar de que eu tenho certeza que isso vai mudar.
Tacioli — Moacyr, de que forma esse mecanismo, essa estrutura em torno da música interfere na hora de compor, ainda mais para você, que não rumina uma composição, você não a deixa na gaveta, ela já nasce pronta?
Moacyr Luz — Olha, o constrangimento por viver numa situação em que teria que mexer com esse eixo para poder… não!
Tacioli — Mas você nunca se deparou com uma situação dessa?
Moacyr Luz — Várias vezes. Existiram situações em que eu estava vinculado a editora e recebia uma lista. O editor falava “Bicho, faz esse negócio aí que a gente consegue! Faz uma força, vê se entra, e melhora aí os teus direitos!” Olho para aquilo… Da última vez, há dois anos, eu disse assim, “Me faça um favor. Não me mande mais esses pedidos! São horrorosos!”
Zé Luiz — Tipo?
Moacyr Luz — Ah! Não posso dizer nomes! [risos] Coisa horrorosa! Você constata assim: período de dupla. Duplas e nomes, não sei de onde eles tiram aquilo. Combinação de letras, palavras, nomes, todos são irmãos! Agora é a fase dos irmãos gêmeos! A mãe já começa a se preparar para ter um… [risos] Porra, é um negócio muito louco! A decisão de cultura hoje está muito diferente. Não tem aquela coisa do caminho árduo, não! A família investe. O pai larga até o trabalho para ser empresário do filho. Isso é uma coisa inimaginável. É evidente que você tem que viver com dignidade do que você trabalha. Se eu sou compositor, faço músicas, faço shows, eu tenho que ganhar dinheiro, né? Agora, essa sangria, essa falta de amadurecimento que o dinheiro acaba acarretando. O cara no primeiro disco já ganhou mais dinheiro que Tom Jobim em 30 anos de trabalho. Alguma coisa não está certa! O futebol passa por isso.
Seabra — Voltando aquele papo que tivemos antes de começar a entrevista, se existissem mais espaços…
Moacyr Luz — Se o Brasil oferecesse mais espaços, tivesse preparado para a nova educação que está surgindo… A gente acabou não gravando isso. Valeria a pena conversarmos um pouco sobre isso. Estávamos discutindo que o Brasil, na hora em que consegue ter um pouco mais de educação, em que consegue dar um pouco mais de oportunidade para as pessoas realizarem um trabalho ou um projeto, o país não segura, não comporta. Estou falando para registrar, porque sinto muito isso. Não se tem espaço no Brasil! Tenho melancolias profundas, uma coisa de pedir a Deus para evitar isso dentro de mim. Assistindo aqueles documentários, vejo um sujeito na região do Norte tocando um violão, cheio de esperanças. Aquele cara não pode ter menos esperanças do que eu. Ele não pode ter o direito de ter menos esperanças do que eu. Mas fico imaginando a distância que ele está de tudo, de ser ouvido. Um cara com 20 anos de idade, a mão direita, os acordes, mas ele está no Norte. E ainda mais, sedimentado com essa formação nova, com esse conceito do negro entender que é negro, do branco entender que é branco, de opções de sexo, de tudo. O cara inclui isso em sua obra. Ele está ali no Maranhão, não tem inveja da música que é feita no eixo Rio-São Paulo. Ele inclui as raízes verdadeiras de sua região, põe para pesar mais sua obra, mas ele está lá, numa cidade do interior do Maranhão. Com que esperança? É uma loucura, bicho!
Tacioli — Entrevistamos ontem o Cordel do Fogo Encantado, de Pernambuco.
Moacyr Luz — Conheço. Vi uma entrevista do garoto [n.e. O vocalista Lirinha]. Achei interessante, bem articulado, com palavras bonitas.
Tacioli — E que impressão você teve?
Moacyr Luz — A impressão? Essa melancolia, desculpe-me. Apesar que eles estão em São Paulo. Ele explicando o cordel com entusiasmo, explicando por que virou cordel, o tipo das palavras. Acho brilhante, mas sinto essa melancolia.
Tacioli — Mas você entende que esse fascínio, essa paixão que essas figuras têm…
Moacyr Luz — Tem um valor?
Tacioli — Não, é importante até para superar essa melancolia.
Moacyr Luz — Pô, é fundamental!
Seabra — Mas o Cordel é uma exceção.
Tacioli — É uma exceção? Talvez Pernambuco tenha quebrado momentaneamente a hegemonia musical do eixo Rio-São Paulo.
Moacyr Luz — Quebrou muito com o Chico Science.
Tacioli — Com o Chico Science e com todo o Mangue Beat. Enfim, os holofotes se voltaram para o que se produzia naqueles lados.
Moacyr Luz — É verdade. É verdade, mesmo!
Max Eluard — O que eu acho triste nisso tudo, Moacyr, não sei se você concorda, os artistas que surgem fora do eixo Rio-São Paulo têm que se transferir para cá para que a carreira seja reconhecida. Por exemplo, o Zeca Baleiro, que é maranhense, o Chico César, que é da Paraíba.
Moacyr Luz — O Zé Luiz sabe da minha opinião sobre o Chico César. Sou apaixonado pelo Chico César. Eu o conheci em 90. Ele já morava em São Paulo. Participamos do mesmo festival, que era o Festival de Avaré. Eu o conheci, conheci Zeca Baleiro. Quem me levou para esse festival foi Lenine. Sou amigo do Lenine de editora, da gente correr junto atrás de muita coisa. Todos já eram fabulosos como são hoje. O que me chamava a atenção no Chico é que ele tinha uma música popular, ele tinha uma música bonita de se ouvir, ao mesmo tempo que era diferente. Então, chamo muita a atenção para esse lance. E isso é evidente quando o Chico faz alguma cantoria daquelas da Paraíba, às vezes, até se confunde se você assistir a algum filme que passa por aquele momento, como Central do Brasil. Aquela cantoria existe! Você pode pegar, tem uns dez lá. Acho, inclusive, ele muito importante para a cidade de São Paulo. O Zeca Baleiro sabe do que estou falando.
Max Eluard — Mas você não acha que num país com esse tamanho deveriam existir condições para ele ficar na Paraíba?
Moacyr Luz — Isso é o que eu acho do caralho, bicho! Aquilo que a gente estava falando, esquecer esse mundo todo dos negócios que existe e vivermos em outro mundo. Só que esse mundo artístico tem um pouco de vaidade, né? Mas você poder ser auto-suficiente em sua região é maravilhoso!
Max Eluard — Mas não digo ser auto-suficiente no sentido dele só fazer sucesso lá, mas de sua música chegar a São Paulo e ao Rio, por exemplo, mas sem que ele precisasse sair de sua terra.
Moacyr Luz — Vamos continuar contando aquela história de que o dia tem 24 horas. Não adianta que não tem espaço para tocar mais do que 24 horas. Temos que esquecer essas rádios. Falei isso há cinco anos, não sei se o Zé vai lembrar disso. Meu nome é rádio comunitária! Eu queria subir tudo quanto é morro do Rio de Janeiro. Hoje o Lobão está falando disso; falo desde 1997. Eu queria rádio comunitária. Pô, ontem fiz o Metrópolis [n.e. Programa da TV Cultura] à meia-noite e meia, e nego viu! Fiz TV Senado agora em Brasília, semana passada, e nego viu, porra!
Monteiro — O fato de você ter cruzado com o Hélio aos 15 anos de idade e ter começado com música naquele momento, deu uma guinada em sua vida. Música, além de pagar as contas, serve para quê? Você acredita na música como instrumento de mudança?
Moacyr Luz — Olha, eu não tenho muito essas filosofias com música, não! O disco Na galeria fiz todo — tenho uma mesinha de botequim lá em casa, de mármore, e em frente tem um jardinzinho e uma portinha de ferro -, a música foi acontecendo por ali. Eu tinha escolhido várias músicas e eu as deixava soltas. Outra coisa: tem músicas que escuto, e se eu fechar o olho, a minha pele chega a esticar como se eu tivesse voltando no tempo. Sinto o cheiro da namorada, sinto o cheiro de um bolo que comi, da rua que passei. A pele chega a doer. “Caramba, olha aquela música!” Aprendi isso com o Hélio. Uma vez ele falou assim comigo: “Não tente copiar a frase do guitarrista, não!” Antigamente se fazia rotação 16. Pegava o LP e diminuía a rotação do toca-disco. “Não tente fazer isso. Admire o que o cara está fazendo. Você vai compreender com tanta diferença, com tanta sutileza, que isso vai entrar em seu ouvido naturalmente e você vai ter essa frase.” Então, tem músicas que eu fico admirado, e fico naquilo… Uma vez vi o Tom Jobim em um posto de gasolina, na praia. Fui falar com ele . Ele me deu uma atenção maravilhosa. O Tom é um dos responsáveis por eu beber demais. Eu bebo pra burro! E eu aprendi isso muito com ele. O Tom bebia muito e isso não impedia dele compor as coisas. Uma vez a gente recebeu uma homenagem da Prefeitura. Dezesseis compositores que fizeram músicas em homenagem ao Rio de Janeiro. Aí fomos almoçar na Prefeitura. Entre as pessoas que estavam lá, destaco o João Nogueira, o Tom Jobim, o Braguinha. Foi muito bonito! O Tom ele é a coisa, é a música que faz você se apaixonar. Um cara que fez uma coisa elaborada como “Trem para Codisburgo” [n.e.Composição de 1973], uma coisa brilhante! Está no disco Urubu. É brilhante! Ele faz, eu adoro. A Elis e a Elizeth gravaram, mas elas mudam a nota, uma canta diferente da outra. Mudam aquela nota [canta] “Não pode mais meu coração / Viver assim dilacerado (…)”. Não é esse trecho, não! É uma palavra igual a autonomia, né? Quero registrar: eu, atualmente, estou apaixonado pela música “Obrigado”, do Gudin, que vocês entrevistaram. É uma música de passar mal. Liguei pra ele, eu chorava tanto de emoção. Liguei de manhã, acordei-o. “Bicho, não estou me agüentando com essa música”. É uma música que fala de amor, e os dois agradecem pelo tempo junto que viveram. É maravilhoso!
Max Eluard — Uma coisa que estou percebendo é que você é muito sensível com a música.
Moacyr Luz — Puta que pariu!
Max Eluard — Há algum estudo ou um labor? Porque da maneira como você compõe, vê a música e sente as coisas, é tudo emoção.
Moacyr Luz — Estudei para tocar violão. Cheguei até a estudar na Pró-Arte, uma escola que tinha uma importância filha da puta. Até Toninho Horta passou por lá. Mas aí a gente volta àquela história do compositor. Nasci para ser compositor. Então, não tem jeito! As propostas, as soluções, as coisas que você vai enxergando… Vou falar uma coisa aqui que vai ficar meio “esse cara é maluco”, “ele está inventando!”. Rapaz, tem hora que olho para o violão e tenho até medo de pegá-lo, porque sei que vou fazer uma música. “Será que vou ter fôlego para fazer essa música? Aí fico refreado. A minha mulher é testemunha disso. Às vezes, estou em casa, dez, onze horas da noite, e me vem uma música na cabeça. Rapaz, chego a pedir “Ai, meu Deus, por que isso veio?!” [risos]
Max Eluard — “Tô cansado!”
Moacyr Luz — Porque não consigo mais dormir, bicho! Quero dormir! E aquilo vem, viro para um lado, viro para o outro. É inacreditável! Olha, depois quero pegar o violão para mostrar uma música nova que fiz.
Zé Luiz — Vou pegá-lo.
Moacyr Luz — Posso mostrar agora?
Tacioli — Claro!
Moacyr Luz — Essa música nasceu exatamente assim, há 15, 20 dias: eu estava muito triste dentro de casa, cansado dessa perna. Na hora em que peguei o violão, eu disse “Vou fazer uma música agora”. A música veio toda, bicho! Toda, toda, toda!! Fiquei nervoso — tenho um gravadorzinho que pego quando sinto que a música vem -, botei e a música saiu toda. [ri]
Seabra — É quase fisiológico!
Moacyr Luz — Eu havia estado três dias antes com o Ivor Lancellotti, que é um compositor brilhante. Conheço o Ivor desse período, 72, 73, 74, 75, da época em que eu morava e convivia com o Hélio. O Paulo Cesar Pinheiro ia diariamente encontrar com o Hélio, porque eles estavam produzindo o Claridade, famoso disco da Clara Nunes. Também o disco do João Nogueira, Vem que tem. E, às vezes, o Ivor aparecia para cantar umas coisas, coisas que a Clara gravou. E a uma certa hora, já tínhamos bebido o suficiente para falar tudo o que a gente queria [risos], e aí, “Mas não é possível! Pô, Ivor, nunca fizemos nada na vida!” Acabei a música e me veio de dá-la ao Ivor. Liguei para ele de manhã. “Ivor, fiz uma música pra você!” Cara, dois dias depois ele me deu a letra! Não consegui cantar a porra da música! Chorava pra burro! Aí, fui, fui, fui, três dias depois fiz uma música para o meu pai, mas não consegui cantá-la. Demorou quase um ano para eu poder cantá-la.
Max Eluard — Houve um momento em que você sacou isso, “Tenho que começar a lidar com essa sensibilidade”?
Moacyr Luz — Várias vezes, a minha vida inteira. Profissionalmente, quando fiz “Coração do agreste”, que é uma música que a Fafá de Belém gravou e que foi da novela Tieta, contrariando aqui meu amigo, acabou ganhando Prêmio Sharp de Melhor Música do Ano. Ali tive a consciência de que… Qual foi a pergunta que você fez? Eu esqueci.
Max Eluard — Se você percebeu em algum instante…
Moacyr Luz — Pois é, ali percebi que eu era um compositor, mesmo!
Tacioli — Mas existiu um momento em que a razão questionou essa sua sensibilidade, de você terminar uma música e achar que ela não está legal?
Moacyr Luz — Ah! Várias vezes. Tenho lá um baú com essas coisas. [risos]
Seabra — Você deixa ali mesmo?
Moacyr Luz — Deixo ali e não mexo mais.
Seabra — Não mexe?!
Moacyr Luz — Para não dizer “Eu não mexo mais!”, elas estão lá, sei lá, se um dia estou com uma outra consciência sobre isso. Mas não mexo mais! Não faço nada que não tenha terminado tudo.
Tacioli — Pelo que você disse, parece-me que tem muitas músicas desde a época que você começou a compor com o Aldir, não?
Moacyr Luz — Muita coisa!
Tacioli — Mas nem quando você está para gravar um disco novo, você chega a ouvir o que está no baú?
Moacyr Luz — Não, não! Não mexo nisso. Só se acontecer, em 20 anos, alguma coisa.
Seabra — Estão gravadas em fitas?
Moacyr Luz –Gravadas em fitas. Não sei em que ordem e de que maneira elas estão. Tenho muita coisa. A Juliana Amaral está gravando um disco e vai gravar uma música minha [n.e. “Revela”, composta com Salgado Maranhão, e gravada em Águas daqui, de Juliana Amaral e recém-lançado pela Lua Discos]. Cadê o violão? O Zé foi pegar?
Tacioli — No caso da Juliana, você permitiu que ela mexesse em seu baú ou você apresentou algo que estava guardado?
Moacyr Luz — A Juliana foi um caso desses, mas com músicas que estão acabadas, já feitas. Não são músicas que eu vou… Ô, Zezão! [n.e. Zé Luiz entrega o violão]
Max Eluard — Ninguém tem acesso ao baú.
Moacyr Luz — Ele está falando as coisas que faço pela metade. Aí, não, ninguém mexe, não existe a música. Mas o baú me rendeu, de uma tacada só, essa música que a Juliana gravou. E vou fazer de tudo para o Mariozinho Rocha ouvi-la.
Zé Luiz — É bonita, hein!
Moacyr Luz — Espetacular, modéstia à parte. E no mesmo dia, uma música que fiz para o ECO-92… Eu e o Aldir fizemos uma música sobre tribos indígenas que foram dizimadas, e agora o Keko Brandão gravou.
Zé Luiz — O Keko Brandão e o Lula Barbosa cantando. Chama-se “Jungle Tears” (“Lágrimas da selva”). Permita-me [dirige-se ao Moacyr]. Essa música que a Juliana gravou dele, tranqüilamente estaria em uma trilha de novela em um outro momento do Brasil.
Moacyr Luz — Se um outro tivesse gravado isso…
Zé Luiz — É um clássico! É um bolero maravilhoso!
Moacyr Luz — Ouçam isto! Essa foi a música que eu fiz com o Ivor. [canta] “Só sei que nos meus planos / pensei muitos anos / pra gente seguir / e diz que eu vou levando / que aceitei os danos / eu sou mesmo assim / que a casa por enquanto / só cresceu em tamanho / e que pro meu espanto / já consigo dormir e dormir / e só dormir. / Não diz que eu ando louca / que até fechei a boca/ foi bom, emagreci / que solo em teu piano / grito que também sou feliz / e dei para compor / foi fácil pra mim / que fiz desse abandono / mil encontros sem fim / mas diz que ainda estou aqui / só diz que nos meus planos / pensei em muitos anos / pra gente seguir / e diz que eu vou levando / que aceitei os danos / eu sou mesmo assim / que a gente por enquanto / só cresceu em tamanho / e que pro meu espanto / já consigo dormir e dormir / só dormir / não diz que eu ando louca / que até fechei a boca / foi bom, emagreci / que solo em teu piano / grito que também sou feliz / e dei pra compor / foi fácil pra mim / e fiz dos meus encontros/ mil encontros sem fim / mas diz que ainda estou aqui.” Bacana, né? [aplausos] Rapaz, quando o Ivor me deu essa letra, eu fiquei… porra… linda, né? Mandei essa música para a Leila e para a Nana. Vamos ver, né?
Almeida — Moacyr, você havia citado um monte de intérpretes mulheres.
Moacyr Luz — Gravei com o Emílio Santiago, Elymar Santos, Gilberto Gil, Pery Ribeiro, 14 Bis, Mestre Marçal.
Tacioli — Mas percebe-se…
Moacyr Luz — Uma miscelânea?
Tacioli — Uma preferência das intérpretes pela sua música.
Moacyr Luz — Não é minha, é do país. Não, sério, bicho! O Brasil é um país de poucos cantores. Pode ver.
Seabra — Os cantores são compositores também.
Moacyr Luz — Os cantores são compositores. São cantores da sua obra, né? Esqueci de falar de outras cantoras daqui de São Paulo, como a Deyse Cordeiro, a Vânia Abreu, agora a Juliana Amaral, a Ana de Hollanda gravou nesse disco novo uma música minha com o Aldir. A Rosa Passos gravou um samba meu que eu adoro. Tem muita gente! Cacetada, daí começo a passar mal! [risos]
Monteiro — Moacyr, “Coração do agreste” foi sua composição de maior execução radiofônica, não?
Moacyr Luz — Ah! Foi. O meu apartamento se chama “Coração do agreste”. [risos] Comprei com esse dinheiro.
Monteiro — E como é essa sensação de estar no rádio? Pergunto isso porque estávamos falando sobre popular, mas esse é o popular mesmo!
Moacyr Luz — Ela interferiu um pouco no meu discurso. Na época, eu não poderia fazer isso, “Ah! Eu não toco no rádio!” [risos]. Quero que todas toquem na rádio. Se uma tocou mais, outra tocou menos, agora é aquela história “Não é mais…”, entende? Eu queria que aquela música que a Bethânia gravou, “Medalha de São Jorge”, fosse tocada no rádio, “Saudades da Guanabara” tivesse sido tocada à exaustão. Ithamara Khoorax também gravou, Garganta Profunda também me gravou. Leny Andrade também gravou “Saudades da Guanabara”. Bacana, né?
Tacioli — Quinze anos foi uma idade muito importante para você. Que representação, que imagem você tem de seu pai? O que ele representava para você?
Moacyr Luz — O meu pai…
Zé Luiz — Não dá para apresentar aquela música nova?
Moacyr Luz — Qual?
Zé Luiz — Do pai.
Moacyr Luz — Vou cantar aqui para vocês!
Zé Luiz — Nunca gravada, hein!
Moacyr Luz — Essa música é aquela que falei há pouco, que fiquei um ano… Fiz a letra e música. Chama-se “Por onde o tempo passa”. [Toca e canta] “Luzes acesas da minha memória / escuto o silêncio e sinto saudades da voz de meu pai / contando as histórias que nunca viveu / dos velhos amigos que não conheceu / de um verso doído / de um jogo sofrido / onde a vida num impedimento perdeu / entre alamedas, lágrimas, dividem o meu caminho / um tamborim, um choro bem baixinho / não tem sentido não falar / da falta de meu pai / e é por isso que esse samba sai / não fez festa / cantou em seresta / teve um disco de Caymmi / me levar na escola / bater uma bola / comprar camisa do time / Luzes acesas / mãos tão tremidos / movem o fundo da minha vida / a tua sombra na minha imagem / a despedida / última luz que não se apaga / não ilumina a minha mágoa / o meu sorriso é a minha dor por onde o tempo passa.” Meu pai era mais ou menos isso aí! [risos]
Tacioli — Respondido.
Zé Luiz — A primeira vez que ouvi essa música quase morri.
Almeida — O que você colheu como compositor da superexposição gerada pelo sucesso de “Coração do agreste”? Você pensou em mudar a sua forma de compor?

Moacyr Luz — Apesar dela ter sido uma música popular, ela tem isso aqui. Vou cantar a parte do refrão para você. [canta] “Eu voltei no curso / revi meu percurso / me perdi no leste / e a alma renasceu / com flores de algodão / no coração do agreste / quando eu morava aqui / olhava o mar azul / num afã de ir e vir / ai finge uma saudade / a felicidade / pra voltar aqui” É uma música popular, mas não tem nada nela que me envergonhe. É uma música melodiosa, tem uma harmonia carinhosa. Não foi uma coisa que mudou nada. Tanto é que a única coisa foi que ela tocou. O “Mico preto” não tocou tanto, era abertura de novela. Essa daqui tocou um pouquinho: [canta] “Clara / cara / rara / dona de mim” — que o 14 Bis gravou [n.e. “Dona de mim”, composta com Aldir Blanc e gravada pelo grupo no álbum Quatro por quatro, EMI-Odeon, 1993]. Sinceramente, não me alterou em nada. Hoje se o Milton Nascimento gravar uma música minha não altera nada. Quer dizer, altera a honra, mas não é a minha cabeça, nunca passei por isso. E nunca tive nenhum sentimento de constrangimento por ter feito uma música de sucesso.
Almeida — Mas por você achar que era a sua chance de “Sou o autor dessa música, vou…”
Moacyr Luz — Não. Sinceramente, você não acha — vou me sentir um pavão agora, vou me foder todo! Vocês não acham que estão aqui hoje por alguma coisa que eu tenha feito? Pode até ter começado pelo “Coração do agreste”, não sei. Não posso acreditar que vocês estejam aqui de araque, né? Então, passa por aí. É uma coisa que vai construindo a sua obra, dos espaços. Talvez se eu tivesse fazendo mais sucesso, o site não estaria me entrevistando. Estaria procurando um injustiçado qualquer.
Almeida — A gente iria te procurar, mas você não iria querer falar com a gente. [risos]
Moacyr Luz — Não, não, porque vocês iam fugir da linha.
Seabra — Não sei se cabe aqui, mas você vai ficar surpreso com a linha do Gafieiras.
Moacyr Luz — Tem de tudo?
Max Eluard — Justamente. Você falou aquela hora do Belo. Mas a gente entrevistaria o Belo sem problema algum.
Moacyr Luz — Imagino que sim.
Tacioli — Como entrevistamos o Lindomar.
Moacyr Luz — Mas o Lindomar é interessante.
Max Eluard — A proposta do site não passa pelos nossos gostos pessoais. A gente não está discutindo isso no site. A gente tenta ver a música brasileira no horizonte.
Moacyr Luz — É interessante isso.
Max Eluard — Sem castas, sem uma ser superior a outra. É complicado você julgar a expressão artística de uma figura simplesmente pelo mecanismo que envolve a produção do cara.
Moacyr Luz — Lógico! Perfeito!
Max Eluard — O cara não tem culpa, mas é como ele se expressa, e é uma expressão artística legítima. Mas ele está envolvido por um mecanismo que faz ele andar de Ferrari.
Moacyr Luz — Concordando com o que você está falando, eu não acho justo, por exemplo, as pessoas cobrarem de determinadas personalidades, muitas delas do samba, que o cara continue pobre. E na hora que o cara melhora de situação… Só você quer ele pobre ali, naquela meia hora no botequim, depois você quer ir embora pra casa.
Max Eluard — São bons os injustiçados!
Moacyr Luz — Exatamente.
Max Eluard — Porque a gente não vai valorizar quem está bem.
Moacyr Luz — Também acho que a questão da Ferrari é o exercício que você investe. Vamos voltar a falar de uma pessoa que eu admiro, que é o Chico César. Ele pode tentar evoluir para um troço maior, mas ele conseguiu ver a tempo, e equilibrou as coisas para que não houvesse aquele lance do condomínio. Daqui a pouco você está sufocado por um exagero de coisas. Vejo assim essa história toda, do trabalho que você vai fazendo. Se você estiver fazendo o seu trabalho, sem você estar muito preocupado com “Preciso ir às festas badaladas porque meus amigos estão aqui, mas eu detesto”. Moro na Zona Norte, não vou à Zona Sul para nada. Às vezes, meu amigo fica lá em casa e diz “Moacyr, vamos lá em Copacabana, Ipanema”. Copacabana ainda vou, porque pra mim Copacabana é o troço mais underground que existe!
Zé Luiz — De vez em quando, né? Adoro a Zona Norte.
Moacyr Luz — Eu não saio. O meu limite é Bonsucesso. Eu te digo uma coisa: já deixei de ir a Reveillon de personalidade na Avenida Atlântica, um negócio top de linha, nego disputando convite e a pessoa me ligando, exigindo a minha presença. Eu, em cima da hora, rui a corda. Não fui! Fiquei vendo fogos no Méier. Também não estou fazendo disso uma bandeira, mas é a minha personalidade. Não promovo diante de mim uma situação pra galgar de uma outra forma as coisas que tenho que fazer.
Rozana Lima — O Zeca Pagodinho é como você, né?
Moacyr Luz — Sou discípulo dele, pô!
Rozana — Ele não sai.
Moacyr Luz — Ele ficou tão antimídia que os marqueteiros conseguiram criar uma mídia em cima de sua antimídia, e isso já está começando a incomodá-lo, a constrangê-lo o fato de tomar cerveja num copo de geléia. Se ele não quiser mais tomar num copo de geléia, não vai poder. É um troço muito louco!
Max Eluard — Uma camisa de força.
Zé Luiz — Daqui a pouco vão criar copos de geléia Zeca Pagodinho. [risos]
Moacyr Luz — Exatamente.
Max Eluard — Aquilo deixa de ser um copo de geléia.
Moacyr Luz — Uma vez tive uma felicidade na minha vida — sempre recebi visitas em minha casa. Mas um dia fui pego de surpresa por um telefonema do Nei Barbosa. Ele sabe que às sextas-feiras, quando não trabalho, faço um botequinzinho em minha casa. Compro uns tira-gostos, invento umas coisas de cozinha. Gosto muito disso! Então, sempre vai alguém em casa, como Luiz Carlos da Vila, que admiro muito, um dos grandes compositores brasileiros. Vai a galera toda! E um dia me liga o Nei Barbosa: “Bicho, estou com o Zeca aqui na Barra e ele me perguntou se tem alguma coisa na sua casa hoje. Ele vai aí!” “Porra, pelo amor de Deus!” E o Zeca chegou lá em casa. Era uma sexta-feira. A mesa estava bonita pra burro! Estava eu, o Aldir e o Luiz Carlos, tomando uma cerveja a uma hora da tarde. E agora, nós três, fizemos um samba, hein! Na minha casa tem o prato nobre, que é um jiló com maxixe, quiabo, cheio de bacon e lingüicinha, que faço em uma travessinha. Esse é o meu prato nobre! Depois pode ter lagosta, mas a comida mesmo, o forte é o jiló. Aí chega o Zeca. Quando ele olhou para aquele prato de jiló, “Meu cumpade, troco qualquer camarão por um jiló desse!” [risos] Então, isso é bem da natureza dele. E o Aldir é a mesma coisa. Ele tem 16 mil livros em casa.
Tacioli — 16 mil livros?
Moacyr Luz — Uma biblioteca com seguro. Olha um samba bem popular, meu véio! [intima o violão] Já cantei esse samba duas vezes em roda e ficou bom pra caramba, com todas pessoas cantando. [canta] “Meu pai me disse / que a tradição é lanterna / vem do ancestral e é moderna / e tudo que é modernoso / e aí é o meu coração que governa / na treva é a luz mais eterna / e tudo mais poderoso / E também me disse daquele jeito orgulhoso / que o samba é mais que formoso / que ninguém lhe passa a perna / É a marola que vira um mar furioso / Netuno misterioso / O tesouro na caverna / Meu pai me disse que a tradição é lanterna / vem do ancestral e é moderna / e tudo que é modernoso / e aí é o meu coração que governa / na treva é a luz mais eterna / e tudo mais poderoso / E também me disse daquele jeito orgulhoso / que o samba é mais que formoso / que ninguém lhe passa a perna / É a marola que vira um mar furioso / Netuno misterioso / O tesouro na caverna / A jura é para quem rezar / A reza é para quem jurar / A alma que fica é a do fundador / futuro é para quem lembrar / E é isso que o pai me ensinou / Acabou /Acabou meu pai / Acabou / Acabou, meu pai / Acabou / Acabou, meu pai / Acabou / Acabou, meu pai /Acabou” [aplausos]
Monteiro — Popular, mesmo!
Moacyr Luz — É! [risos]
Zé Luiz — Esse foi um dos que você me mostrou pelo telefone?
Moacyr Luz — Esse foi um.
Tacioli — E qual é o nome, Moacyr?
Moacyr Luz — “Cabô, meu pai”. De Moacyr Luz, Luiz Carlos da Vila e Aldir Blanc. Isso é samba para ser cantado com palma de mão. [canta a melodia, palmeando]
Tacioli — Moacyr, eu gostaria de…
Moacyr Luz — Não está no fim, não, está?
Tacioli — Estamos encerrando, [risos] mas antes eu gostaria de saber sobre o Festival da Música Popular que a Rede Globo organizou e que você participou. Com que expectativas você entrou no Festival?
Moacyr Luz — Entrei com todas as expectativas. Preste atenção: tem várias coisas que eu quero falar sobre isso para refletirmos juntos. Sobre essa história que dissemos sobre o sucesso e o não-sucesso, do cara que acaba sendo envolvido por um esquema e tal. Por eu ter participado, por ser um dos 48 que participou do Festival da Globo, experimentei uma ponta de inveja em várias pessoas que não participaram do Festival. Houve um certo esvaziamento muito curioso. Por exemplo: pessoas torcendo para o fracasso daquele projeto em prol de ibopes, de coisas ridículas. Torcendo para que uma emissora com uma programação sertaneja — não estou aqui contra o sertanejo, mas leia-se sertanejo como a da “pior espécie do sertanejo”. A esquadria de alumínio da janela do sertanejo, tá? [risos] Não é aquela madeirinha, não! Então, as pessoas queriam dizer que aquilo era um fracasso, só que ali no Festival, estava o meu nome, o do Zé Renato, o do José Miguel Wisnik, o do Vicente Barreto, o do Sérgio Santos, o do Chico César…
Seabra — Da própria Ná Ozzetti.
Moacyr Luz — Ná Ozzetti, Luiz Tatit, Walter Franco, a Mônica Salmaso, que cantou belissimamente bem. Além desses, posso enumerar mais uns cinco ou seis que mereciam um pouco mais de respeito. E, no entanto, do lado de fora, o que você sentia era um esvaziamento do projeto. “Isso é uma merda! É a Globo, Globo, Globo!” Não vou questionar a Globo a essa altura do campeonato. Não sei se esse festival fosse feito pelo SBT teria um resultado melhor ou pior. Sei que a Globo me deu a possibilidade — está gravando isso aí? — de levar as pastoras da Portela, Tia Doca, Surica, Dona Eunice, a Áurea, e até a Teresa Cristina. Me deu a possibilidade de botar músicos de samba, que são os melhores músicos do Brasil: Ovídio Brito, Gordinho no surdo, Marcelinho no tantã, Carlinhos 7 Cordas, Beto Cazes e Jaime Vignoli. Quero saber quem me dá isso? Só que o esvaziamento foi muito grande. O troço, que era pra ser um troço bacana, ficou bocomoco. E lamento profundamente a falta de compreensão das pessoas, porque se aquilo fosse entendido como uma brechinha pra se tentar mudar alguma coisa, a gente poderia ter tido um aproveitamento melhor. E, evidentemente, como tudo tem uma cagada, o cara escolhe uma música ruim para ganhar [n.e. O rock básico “Tudo bem, meu bem”, interpretado pelo autor Ricardo Soares]. Achei o Tianastácia um grupo maravilhoso de rock [n.e. A banda mineira interpretou “Morte no escadão”, de José Guerreiro]. O menino que ganhou…
Tacioli — O Ricardo Soares.
Moacyr Luz — Desse eu não falo. [risos] Porque eu não o conheço. O menino que estou falando é aquele que ganhou o terceiro lugar, do interior. Uma música que fala que protege as regiões… [n.e. “Tempo das águas”, de Bilora]
Seabra — Mas esse esvaziamento também não ocorreu pela própria Globo?
Moacyr Luz — Lógico! A Globo esvaziou. Mas vamos analisar isso aqui politicamente. Seria uma maneira que a Globo tinha para dizer aos críticos “Estão vendo como não tem nada de novo no front!”. E a contraproposta dos críticos, das pessoas que têm acesso à mídia, era… — li compositores dizendo “Por que não vou participar do Festival da Globo?” “Por que não me meti nessa história?” “Por que não entrei nesse barco furado?” Não, bicho! A intenção, a expectativa era a melhor possível. Chamei a atenção aqui no início para discutirmos juntos. Vamos pensar um pouco sobre isso. Que mecanismos fizeram com que o festival fosse esvaziado depois de tantos anos?
Zé Luiz — Falo como produtor, mas parece que não estávamos preparados para tanta oportunidade. O pessoal não soube tirar o melhor proveito do festival, mas existiam muitas ferramentas ali.
Moacyr Luz — Como vocês mantêm a entrevista na íntegra, vou contar três situações. Uma vez, estou no carro com um amigo de São Paulo, o Ricardo Garrido, e um outro garoto, indo para a Lapa, onde hoje está acontecendo muita coisa. Só que esse cara que estava dirigindo, modestamente, estava meio eufórico porque estava ali com a gente. Uma coisa assim meio maluca. E aí, para estacionar o carro, ele entrou em uma rua totalmente errada. E estacionou. Quando vi, estávamos em um dos becos detrás da Cruz Vermelha. Ele não devia ter parado ali. Mas já que parou, fomos embora. E o Ricardo, inocentemente, entrou em um bar, que é um tipo de bar que conheço muito, um bar que o dono não quer que ninguém entre, só os mesmos. Sabe aquele negócio: você entra e todo mundo te olha de cima a baixo. [risos] Ele entrou para pedir um maço de cigarro, e logo Malboro. Entrasse para pedir Derby, mas Malboro, porra! E todo mundo o olhou de cima a baixo. “Não posso deixar o cara sozinho”. Entrei. E um sujeito me disse: “Vai tomar uma cerveja comigo!” “Ih! Rapaz, eu sabia que… perdi” Aí, vem um sujeito de dois metros e dez, bota a cerveja, me dá um abraço e me diz: “Me fez perder noites de sono torcendo por você no Festival, hein!” Fiquei agradecido. Tomei um copo de Brahma — nem bebo Brahma. Essa é a história um. A história dois: estou saindo do Villaggio em um domingo e resolvo ir ao Pirajá. E eu, malandro, carioca, pego um táxi e digo assim: “Meu amigo, me leva ali na Faria Lima, mas vê se não me dá muita volta, não! Dá para chegar em quatro horas?” Aquela brincadeira, carioca, metido a malandro. “Que é isso, rapaz, um cara que participou do Festival, que eu torci, não posso…” E a terceira história, que aconteceu dia 23 de abril, mais ou menos. Tô em uma procissão de São Jorge lá em Quintino, 30 mil pessoas, uma loucura. E eu, com essa bengala, estava um pouco mais cansado, não sei se sento, como é que me sento ali num cantinho. Um cara me oferece uma caixa de cerveja para eu sentar, e eu ali, não me consigo sentar, aquele plástico. E aí vem uma senhora. Pode perguntar isso para a minha mulher. “Senta aqui, meu filho, aquela música que você fez para o Festival, a música da água [n.e. “Eu só quero beber água”, de Moacyr Luz], é a coisa mais linda que existe!”
Zé Luiz — E aquele dia a gente…
Moacyr Luz — …No centro do Rio. Estávamos na Lapa, eu tinha levado o Zé para tomar um negócio no Morro da Conceição. Quando ele desce me vem um garoto pedir um autógrafo.
Zé Luiz — Você ficou meio assustado na hora, né?
Moacyr Luz — É porque a gente não entendeu muito bem esse processo.
Tacioli — Acompanhei o Festival in loco e a impressão que tive, talvez pela mão da Globo, era de uma artificialidade.
Moacyr Luz — Tinha, tinha.
Tacioli — Com torcidas que se expressavam unicamente graças aos movimentos das câmeras.
Moacyr Luz — Então, são duas frentes. Tentar reproduzir o Maracananzinho? Não existe mais isso! Mas estou falando daquelas pessoas que estavam ali dentro.
Zé Luiz — Tenho uma teoria: se uma das dez mais belas músicas que estavam ali tivessem ganho o Festival, mesmo com todos os problemas que o cercaram, a história seria outra. A Ná, que foi considerada a melhor intérprete, está com um repaldo muito maior hoje.
Seabra — Vale dizer que o disco da Ná Ozzetti pela Som Livre saiu sem lançamento.
Zé Luiz — Mas hoje já se fala de Ná Ozzetti de outra forma. Se os cinco primeiros colocados fossem realmente os cinco melhores, a história seria outra. Modestamente, opinião minha.
Tacioli — Como produtor, o que você buscava nos discos do Guilherme de Brito [n.e. Samba guardado, Lua Discos, 2001] e do Casquinha [n.e. Casquinha da Portela, Lua Discos, 2001]?

Moacyr Luz — Vou aproveitar a oportunidade do site Gafieiras para conversar sobre isso. Quando fiz o Mandingueiro, eu tinha uma proposta sonora para aquele disco. Vocês já ouviram o Mandingueiro? É um disco que não tem bateria. Ele tem elementos fundamentais de samba. O disco foi todo inspirado no A voz do morro, aquele disco dos Cinco Crioulos. Mandingueiro, de 98, é resultado do disco de 66 [n.e. Formado por Zé Kéti, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho, Jair Costa, José da Cruz e Oscar Bigode, o grupo A voz do morro lançou em 1966 seu terceiro e último LP, Os sambistas (RGE). O conjunto Os cinco crioulos originou-se da dissolução do A voz do morro e do grupo do espetáculo Rosa de Ouro. Formado por Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Anescar do Salgueiro, Nelson Sargento e Mauro Duarte, o grupo lançou três álbuns entre 1967 e 69]. Esse álbum pode ter sido um aviso para uma maneira de se fazer disco de samba de novo. Talvez ele não tenha sido notado por esse aspecto. Não tenho nada contra a bateria, mas os discos de samba produzidos nesses últimos três anos tem tido muito essa leitura. Vou falar com calma sobre o disco do Guilherme. O disco do Casquinha é especial. Belo e surpreendente. No texto que escrevi falo sobre o jequitibá, mas o Casquinha é a natureza, é a terra cheirando. Ele é puro demais, entende? Tentamos traduzir isso brincando com prato e faca. “Brincando”, por favor, bota aí, entre aspas, um “negociando” todos esses sons que a natureza do samba dele trouxe. Outro dia eu estava escutando, “Fulano botou prato e faca!” “Ah, é?!”, fiquei na minha. Não estou dizendo que redescobrimos o prato e faca, mas é um “Preste atenção!” para o que os discos já tiveram. Estão surgindo gravações com a mesma originalidade sonora, de não ter tantas dissonâncias de timbres com a realidade da obra daquele artista. De repente, isso vira um modismo, mas peço um pouco de atenção que passa por esses trabalhos.
Tacioli — Isso coincide muito com a realidade da Lapa, do Carioca da Gema, da Teresa Cristina.
Moacyr Luz — Quando fizemos o Esquina, em 1999, eu disse “Zé, você quer fazer um disco novo?”. Falei isso em 99. “Você quer um disco novo? Eu quero que seja feito com a Teresa Cristina”. “Tá maluco, Moacyr?!” O Zé sempre acreditou em mim, mas procede, não?
Zé Luiz — Totalmente! [risos]
Moacyr Luz — Sabe por quê? Quem assistiu ao Esquina carioca viu quem estava cantando lá no coro. Teresa Cristina. Fiz questão que a Teresa participasse. Era primeira viagem dela fora do Rio, e participando de um show grande.
Zé Luiz — Fui ao Semente. Fiquei num cantinho, ouvindo a Teresa cantar maravilhas. “Moacyr, filho da puta!” [risos]
Moacyr Luz — Hoje ela está sendo apontada pelo Nelson Motta, as gravadoras pequenas a estão disputando. E ela está gravando um disco, né? Pela Rob Digital. Pra mim, isso tava na cara.
Tacioli — Mas é evidente esse momento de saudáveis coincidências, que não são coincidências gratuitas. O Hermínio também está produzindo o Samba é minha nobreza.
Moacyr Luz — O disco é lindo! [n.e. Disco homônimo recém-lançado pela Biscoito Fino]
Tacioli — Da mesma forma que o choro está bem. Dá para você traçar um paralelo?
Moacyr Luz — É a hora que o filho sai de casa. Vamos pensar nesse troço juntos. É a hora que o filho sai de casa. É a hora que a música brasileira se liberta dessa imposição. Uma rebeldia necessária. Não é uma rebeldia, é uma independência necessária. “Não preciso, vou correr atrás da minha vida”. É a hora que você fala isso para o seu pai, para a sua mãe. É a hora que a gente sai desse mercado e “Vamos fazer os nossos discos, os nossos shows, os nossos espaços, os nossos sites”. Entende? E tem uma outra coisa: a geração de jornalistas que está vindo aí nasceu desse ímpeto. Hoje abri um site rapidamente, Ecoar, que deu cinco linhas elogiando o Pedrinho Miranda. Meu Deus, que voz bonita tem esse garoto!
Tacioli — O Pedro Miranda tem uma divisão rítmica da velha guarda, do Jorge Veiga.
Moacyr Luz — Já estou sabendo há disso muito tempo.
Zé Luiz — Falando em disco, registre-se: daqui a pouco alguém vai gravar a Velha Guarda do Império Serrano e será o disco do século!
Moacyr Luz — Estou há dois anos dizendo “Gente, olhe a Velha Guarda do Império Serrano”
Zé Luiz — Vai ser a maior maravilha do século!
Moacyr Luz — A Velha Guarda do Império Serrano tem, no bojo, a obra do Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola. Quer mais? Dona Ivone Lara e Jorginho do Império. Você quer mais? Porra, bicho!
Zé Luiz — Wilson das Neves.
Moacyr — Wilson das Neves.
Zé Luiz — Mestre Fuleiro.
Moacyr — Mestre Fuleiro. Porra, é um repertório que por si só… Quem está organizando isso é o Wilson das Neves, o Rei da Bateria, o Rei da Percussão.
Zé Luiz — O Zé Luiz, né!
Moacyr Luz — O Zé Luiz! [risos]
Zé Luiz — Não! O Zé Luiz do Império. Desculpaí!
Moacyr Luz — Cizinho, Toninho Fuleiro. As coisas estão na cara.
Max Eluard — Impressionante!
Moacyr Luz — O que não vale é a história do copo de geléia. Não pode começar uma sangria sobre a Velha Guarda, tratando essas pessoas sem perceber seus sentimentos. “Agora, a onda é produzir Velha Guarda!” E trazer uma ilusão para aquele cara, aos 70 anos. Brincar com isso. A coisa não é bem por aí. Você tem que ressuscitar o artista, não ressuscitá-lo, mas dar vida a ele, e não a morte.
Rozana — Você falou do Casquinha, mas não comentou do Guilherme.
Moacyr Luz — Vou contar três casos ocorridos muito antes de sonhar em fazer esse disco com o Guilherme. Percebo isso no trabalho de parceiros: às vezes, o cara só fala do letrista, não fala do compositor. Outras vezes, só fala do compositor, e não do letrista. O Guilherme tem uma nobreza ao compor. Você observa isso em sua obra quando ela está separado da do Nelson Cavaquinho. O Nelson era muita luz, era muito genial. Vamos chamar uma coisa meio maluca — isso daqui já está começando a fazer um efeito danado [aponta para a cachaça] [risos]: o Nelson era multimídia. Ele era compositor, personalidade e boêmio. Ele era muito louco.
Max Eluard — Ele se expressava de várias maneiras.
Moacyr Luz — O Nelson ficava dois dias sem dormir. Mas quando o Guilherme faz o seu trabalho separado do Nelson, você identifica uma questão psicológica, um conceito de justiça, do bem e do mal que é a bússola da obra toda da dupla. Isso vem muito do Guilherme. O Guilherme tem o tempo todo esses dois anjos ao seu lado e em seu trabalho: o do bem e o do mal. Para mim era sufocante que as pessoas não ouvissem esses anjos que norteiam o Guilherme. Estou fazendo uma poesia aqui, mas é isso. Tire pra mim esse “Fazendo uma poesia”. [risos] Uma vez ganhei uma medalha da Ordem Pedro Ernesto, que a Prefeitura me deu por serviços prestados à cultura. E para a minha surpresa, quem foi me assistir lá na Câmara dos Vereadores? Guilherme de Brito. O Luizinho fez um buffet bonito com essas coisas que eu gosto, jiló, torresminho, carne seca, aquela coisa toda. O pessoal foi muito carinhoso comigo. Barbosa, meu querido! [chama o garçom] E naquela festa o Guilherme veio falar comigo. [com voz baixa e rouca] “Moacyr, Moacyr”. Aí chega um vereador, Eliomar Coelho. “Eliomar, meu mestre Guilherme de Brito veio me assistir na entrega da medalha. E eu não pude assistir a entrega da sua, né, Guilherme?” “Não ganhei medalha!” “Você não ganhou a medalha Pedro Ernesto? Vou devolver a minha agora!” Porra! Não é possível. Imediatamente foi proposto a entrega da medalha para o Guilherme. E vou te dizer: foi uma festa de chorar. O Elmo botou a Mangueira de um lado do plenário cantando. Uma coisa monumental!
Tacioli — Você acha que essa jovem guarda do morro respeita esses sambistas veteranos?
Moacyr Luz — Tenho medo de falar um negócio aqui, mas não vejo isso, não! E também não condeno, não, tá? Acho que a juventude do morro de hoje tem outros ídolos, ídolos que usam as músicas para reivindicar. É um processo que assisto, mas considero legítimo todos esses raps que denunciam a segregação É muito diferente.
Tacioli — Mas será que o novo pessoal do samba, que está envolvido com a escola, respeita esses sambistas antigos?
Moacyr Luz — Quem está envolvido com escola de samba, respeita. Não é que a comunidade, não respeita; não passa por aí, não tem tempo pra isso. Entende? Disputei um samba-enredo na Mangueira. Fui finalista. Desculpem-me, mas conheço um pouco isso. Não estou falando de ver de longe, tô falando de ver de perto. Convivi quatro meses dentro do Morro de Mangueira. Fui vice-campeão. Com enredo em cima do Chico Buarque.
Seabra — Escrevi ontem um texto para o Gafieiras sobre esse desfile da Mangueira.
Moacyr Luz — Ah, é? Você desfilou?
Seabra — Desfilei. Eu era um dos paulistas pagantes.
Zé Luiz — Fundamentais! [risos]
Seabra — O texto é sobre isso.
Moacyr Luz — Quer ouvir o meu samba?
Tacioli — Vamos lá, por favor!
Moacyr Luz — De Moacyr Luz, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós. [canta] “Olê olê, olê olê, olê olá / Tô pedreiro / Tô poeta / Tô sem terra / Tô Mangueira / Olê olê, olê olê, olê olá / Tô que é só felicidade / Tô guri para a vida inteira / estava à toa / estava à toa na vida / quando o meu amor me chamou / me chamou / pra verde-e-rosa mais querida / Com Mangueira eu vou / na roda-viva da vida / me despedi / A passarela ficou mais bela / Na poesia e na paixão / Chico Buarque / o que será que me dá / seguindo o seu refrão / eu chego às lágrimas com as suas páginas / são feitas de pétalas de flor / eu fico atônito com esse espetáculo / eu fico bêbado de amor / e hoje / e hoje meu samba saiu / de verdes olhos, verdes rosas e tingiu / nesse barco a branca luz do refletor / E a Mangueira ficou tricolor / Polytheama de paixão / Quem te viu e quem te vê/ meu coração / transbordando a flor da pele / é a razão que se opõe às fases da opressão / e a hora de dividir / a fome do meu guri vai passar / não falei / vai passar e o povo olha aí / vai gritar / é outro dia / O dia em que essa terra dos sem-terra / fizer justiça de verdade / ao seu trabalhador / O dia em que essa terra dos sem-terra / for como sonho do escritor / do sonho e do amor / Olê olê, olê olê, olê olá / tô pedreiro / tô poeta! [Zé Luiz reforça o coro]
Seabra — E escrevi no texto que o samba não era lá essas coisas. [risos]
Zé Luiz — Do Moacyr?
Seabra — Não do Moacyr!
Zé Luiz — Ah, bom!
Seabra — Do samba que ganhou.
Moacyr Luz — Aquilo gerou uma discussão que foi parar no Fantástico. “Oi, Iaiá, oi Iaiá”. Oi, Iaiá? Chico Buarque? Oi, Iaiá? Que é isso?!
Zé Luiz — E inventaram um verbo: buarquiando.
Moacyr Luz — Mas “Oi, Iaiá”?
Seabra — Que pena!
Moacyr Luz — Digo para vocês que no futuro, quando eu tiver uns 60 anos, vou estar bem de dinheiro. Por que tem pessoas que acham que se esse samba entra, o próximo ano os compositores iriam relaxar de novo, trazer versos grandes. Samba-enredo é com versos grandes. Não é porque o tempo de desfile é curto que o samba tem que ser curto. Não precisa cantar duzentas vezes, que é até cansativo. Canta cinqüenta, entendeu? Não muda muito!
Seabra — Esse seu samba é delicioso de cantar.
Moacyr Luz — Esse era um samba que a gente havia feito, cercado de tributos, com proparoxítonas, a parte que é menor é uma homenagem ao “O que será”.
Max Eluard — Moacyr, você tem um disco só com canções, além outras canções compostas, mas parece-me que o espaço do samba é muito maior. É verdade?
Moacyr Luz — Ele foi sendo ocupado.
Max Eluard — O samba foi tomando conta.
Moacyr Luz — Eu vou dizer uma coisa: estou muito atento ao que se chama de MPB. Nunca gostei desse questionamento. Aliás, não gosto nem de ser chamado de sambista. Sou um compositor! Mas estou muito assustado com o que se chama de MPB. Fazer musica, eu faço música. Pela vigésima vez, sou compositor. Mas estou muito distante das coisas da MPB. Por mais que eu faça essas músicas, eu não tenho mais essa cara. Era o nome de um disco que eu queria botar: Preto não sou , branco não consigo ser. [risos] Não tenho essa cara, não tenho roupa para isso mais. Sabe aquele samba que você me convidou? Eu não tenho roupa para ir a uma festa de MPB. Não tenho paciência. Não tenho mais compreensão melódico-harmônica. O Dobrando a Carioca, que fiz com Guinga, Zé Renato e Jards Macalé, foi um marco em minha vida. Fizemos quase 70 shows, em vários lugares do Brasil. Fizemos Curitiba, os 920 lugares da Casa de Música lotados. Vitória, 650 lugares, lotados. Tudo lotado! Lotado de pessoas que querem música. E qual era o nosso discurso nas entrevistas: “sabe qual é o grande segredo do nosso show? Não tem segredo! O segredo é música!” A gente cantava “Toada”, do Zé Renato, que é um sucesso popular, mas fazíamos como introdução [canta] “Fui me embora na beira do rio / meu amor foi comigo morar / a saudade mata a gente / Morena / Morena vem comigo…” Cantamos essas coisas e as pessoas vieram abaixo.
Zé Luiz — Vocês chegaram a assistir a esse show?
Seabra — Eu vi lá no SESC Pompéia.
Moacyr Luz — No Pompéia? Então você está entendendo o que estou dizendo. Você assistiu no Pompéia? Então, vou dizer uma coisa antiga que conversamos há três dias [risos]. Cantei o “Anjo da Velha Guarda” e, de repente, parei e as pessoas da platéia continuaram cantando. O Guinga me disse: “Essa música foi gravada por quem?” [risos] Foi demais, não foi?! É o fenômeno da resistência, que é o que estamos fazendo aqui. Eu e o meu fígado! [risos]
Almeida — Moacyr, você frisou muito que você é compositor, mas em seu último disco você está como intérprete. Fiquei curioso para saber o que você teve que deixar de fora.
Moacyr Luz — Na reta final deixei de fora… O que eu deixei de fora? Não me lembro. Tinha uma música do Zé Keti que eu queria muito ter gravado. Eu achava fundamental ter o Zé Keti no disco. O Na galeria tem a seguinte compreensão: algumas músicas eu tinha como certas, como isso aqui [canta] “Não quero mais saber / De quem me fez sofrer / Nem que venha coberto de ouro / Não há prazer / Quem me fez, me fez / Outro não me faz / Enquanto eu viver / Não te quero mais”. [n.e. “Coberto de ouro”, de Waldemar Gomes e Afonso Teixeira] Você aprendeu essa música comigo?
Max Eluard — Foi.
Moacyr Luz — Tá vendo como é bom ter um disco trazendo essas coisas!
Zé Luiz — Já é uma transformação.
Moacyr Luz — É. Essa música eu tinha como certa. Esse samba também [canta] “Também tenho / Meus momentos de tristeza / E, quando choro, tenho razão / Eu não sou / Melhor do que ninguém, eu não”. [n.e. “Momentos de tristeza”, de Herivelto Martins e Popeye do Pandeiro] Isso eu tinha como certo. Para arrebentar logo, estou com o Guilherme escolhendo músicas para o disco dele — nem sonhava com o Na galeria — e aí vejo Waldemar Gomes, que é o autor dessa música aí, “Coberto de ouro”. “Pô, Guilherme, e o Waldemar?” “Pô, sou fã do Waldemar Gomes. Ele era meu vizinho lá em Piedade.” Aquelas histórias maravilhosas. “Ele cantava um samba magistral.” Fiquei com isso na cabeça. Quando pensei no disco, “Com essa não tem discussão!”. Depois comecei a escolher os compositores. Eu não podia deixar de fora Cartola, Pixinguinha, essas coisas.
Rozana — O que te fez escolher o Capinam?
Moacyr Luz — Desde que escutei pela primeira vez a música do Capinam no Festival de Avaré, eu disse: “Essa música é o elo perdido. É o bastão!” Essa semana eu fiz um programa lá em Brasília chamado Memória musical. Muito bacana. E botei a música “Obrigado”, do Gudin. Essa música é hoje é o meu bastão. Isso eu aprendi muito com o Aldir. A gente tem que entender que quem está ao nosso lado está a favor da gente. E outra coisa: não é favor, não! Porque só está do lado da gente quem a gente confia. Então, não me custa nada estar no programa Ensaio e poder dizer que estou empolgado com o site Gafieiras. Não estou fazendo nada demais, a não ser prestigiar uma coisa que merece prestígio. Foi isso que várias gerações de compositores nos anos 60, indo para os 70, construíram. Formaram seus núcleos, apostando…
Zé Luiz — Ele fez várias pontes para que outros artistas pudessem vir ao Villaggio, como Fátima Guedes e Dona Ivone Lara. Então, o Moacyr é decisivo na história do Villaggio. Ele está falando dessas apostas e, eu, humildemente, incluí o bar como uma entre as dezenas. É importante que se frise isso.
Seabra — O Dobrando a Carioca foi você quem organizou?
Moacyr Luz — Foi. Pelas diferenças, que é a química, que faz Jards Macalé tocar com Guinga. Tanto o timbre do Macalé me apaixona, quanto a vanguarda do Guinga.
Seabra — O Zé Renato é um pouco parelho a você.
Moacyr Luz — Exatamente.
Seabra — Ele está se aproximando mais do samba.
Moacyr Luz — O Zé tem uma voz. Ele é um músico exemplar, um compositor de harmonias maravilhosas. Bom, só para fechar o negócio do Na galeria, no final, quando escolhi o samba do Padeirinho, falei para mim mesmo: “Caramba, tô muito Mangueira!” Eu sou Mangueira. Aí, falei, “Tem que ter um samba da Portela e um do Império Serrano”. Pô, tô apostando muito no Império Serrano, principalmente, na Velha Guarda. Faço questão de registrar isso. Aí escolhi um samba do Candeia — eu poderia ter escolhido um do Monarco ou de qualquer outro. Foi um do Candeia porque me veio a introdução. O Zé acompanhou a gravação do disco. Fizemos aqui em São Paulo. Não posso ser modesto nesse minuto aqui: eu tinha o disco todo na minha cabeça. Esse disco foi gravado em dois dias; só fiquei um a mais para fazer a voz.
Zé Luiz — Dois dias e duas noites, além dos dois meses de pré-produção.
Moacyr Luz — Quando fui para o estúdio, eu já sabia de cada vírgula que estava acontecendo no disco. Não tinha “Ah! Moacyr!”.
Zé Luiz — Corta o espírito, né?
Moacyr Luz — Eu já tinha tudo, tudo, tudo. Era a possibilidade que eu tinha de botar um acorde desse num samba [toca], tá entendendo? Talvez mais tarde as pessoas tenham uma compreensão melhor sobre isso. Tentei ser o mais respeitoso com todas as harmonias. E particularmente, eu tinha tocado no aniversário de 80 anos da Dona Ivone Lara. Fui convidado pelo MIS, pela Marília Barbosa, para cantar o “Anjo da Velha Guarda” para a Dona Ivone. E a Dona Ivone já me conhecia daqui, de casa, de outras coisas. A Leila Pinheiro fez um show no Rival e cada dia ela levava dois convidados. E um dia fui eu e a Dona Ivone, tocamos juntos. Tô falando isso porque as coisas não são muito à toa, não! Elas tem um sentido. E quando acabei de cantar — a Velha Guarda do Império Serrano estava toda perfilada, bonita, a roupa da Diretoria, o brasão. Sou apaixonado pelos brasões das escolas. Puta, bicho, que coisa mais linda! Aquele brasão florido! Aí veio o [Wilson] Das Neves, “Pô, Moacyr, que maravilha você cantar esse samba!” Fomos para um canto e ele “Amanhã vai ter um almoço da Velha Guarda lá na Serrinha, com a família do Mano Décio, do Silas de Oliveira. Vá lá, Moacyr, duas horas da tarde!” Nesse dia, para piorar, o Aldir apareceu e nós fomos parar num botequim, não-sei-onde, deve ter sido na Capela, que é um lugar onde gostamos muito de ir. Cheguei em casa às 6 da manhã, liquidado. Descansei um pouco e às duas horas da tarde eu estava lá. Fui tratado com um respeito, um carinho. Nesse dia tinha umas pessoas, uma rapaziada de 20 anos filmando esse almoço. Aí, determinada hora, o Toninho Fuleiro, filho do Mestre Fuleiro, fala assim: “Eu queria cantar um samba do meu pai!” [canta] “São tantas / tantas foram as primaveras”. “Caramba, é a música que falta para fechar o disco!” Essa história é absurdamente real! Eu ia viajar depois com o Dobrando a Carioca, fizemos uns shows no Nordeste, e falei para eles, “Eu quero retribuir esse almoço da Velha Guarda”. Eles foram todos naquele botequim na minha casa — quando vocês forem lá em casa, no Rio, vocês vão conhecer. Tem uma foto deles todos lá na parede do meu botequim. Agora estou fazendo uma galeria de fotos das coisas que acontecem na mesa. Fizemos uma costela com batata, o Aldir desceu de verde em homenagem a Império Serrano. É, mermão, não é brincadeira, não!
Zé Luiz — Vocês não fazem idéia do que é isso! [risos]
Moacyr Luz — E cantamos noite adentro!
Max Eluard — Uma coisa que percebi nessa nossa conversa que começou há três dias é que você preza muito a parceria. O que você acha que um parceiro acrescenta? Qual é a diferença entre compor sozinho e com parceiro?
Moacyr Luz — Olha, eu, hoje, aos 44 anos de idade, sou parceiro do Aldir Blanc, depois Paulo Cesar Pinheiro — e lembrei da Rosana, que gravou música minha, em que sou parceiro do Sérgio Natureza — Wilson das Neves, Ney Lopes, Délcio Carvalho, Ivor; fiz uma música agora com o Martinho da Vila, foi uma honra para mim. Aprendi um negócio com o Luiz Carlos [da Vila]: “A gente tem que respeitar número baixo!” Quando você é parceiro de uma pessoa, esse relacionamento tem que ser muito bem valorizado.
Max Eluard — E amplo, também. Você não é parceiro só na música, mas nas idéias, no jeito de ver o mundo.
Moacyr Luz — A obra que acabei construindo com o Aldir vem do resultado da gente estar assim, nunca fizemos uma música que não entregasse a música ou a letra à revelia. Sempre veio de alguma coisa assim, “Você sabe que ontem eu estive com o fulano e fiquei impressionado como ele está cantando bem!” “É mesmo, bicho!” “Até me inspirou a fazer algo sobre o cantar!” “Porra, é mesmo?” Aí, faço o samba e vem o Aldir.
Max Eluard — Seria uma vivência e não um exercício.
Moacyr Luz — Às vezes, você faz só uma ou dois músicas. Não quer dizer nada disso, mas quando um relacionamento é maduro, respeitoso, a parceria é para dois, entende? Eu faço para você, você faz pra mim. Eu não faço a minha parte e você faça a tua, né?
Max Eluard — Vamos fazer juntos.
Moacyr Luz — Vamos fazer juntos.
Tacioli — Moacyr, você ouve seu discos anteriores?
Moacyr Luz — Não, não ouço, mesmo. Me dá melancolia.
Tacioli — Melancolia?
Moacyr Luz — É, porque eu acho que eu merecia coisa melhor. Por exemplo: são músicas que, para mim, o “Anjo da Velha Guarda” tinha que estar tocando na rádio diariamente. Então, para eu não ficar vivendo esse troço, essa ebulição da mesma água — gostei disso! [risos]
Max Eluard — Ebulição da mesma água.
Tacioli — Então, meio que encerrando aqui…
Moacyr Luz — Opa! [risos]
Tacioli — Musicalmente, o que mudou do seu primeiro disco ao Na galeria?
Moacyr Luz — Tem uma coisa que eu sempre falo e quero dizer também no site de vocês. Eu tenho a minha vida que o Hélio me ensinou. O Hélio me ensinou a ouvir e o Aldir me ensinou a falar. Isso eu tenho como minha identidade pessoal, o meu caráter. A partir do meu trabalho com o Aldir comecei a entender que não podia ser em vão quando eu subisse num palco para cantar. Quando você está em um palco para cantar, e as pessoas estão pagando para ouvir, você tem que trazer alguma coisa para elas ouvirem. Você não pode banalizar aquele momento ali pelo simples delírio. Então, cada vez mais eu preservo todas as vezes que eu tenho que compor uma música, e te digo, aquela coisa do baú das que não são aproveitadas, é até, às vezes, uma injustiça com uma música ou outra, mas é a responsabilidade de expor um trabalho. Você não pode ocupar as pessoas, na minha cabeça, em vão. Então, do primeiro ao último disco, talvez um amadurecimento que eu tenho da minha própria descoberta, porque eu sempre fui a mesma coisa, do pretinho até o Na galeria. O que amadurece é simplesmente mais o tato, porque você, às vezes, não enxerga, e o tato ele apura.
Zé Luiz — Engraçado, Moacyr, porque de uma forma ou de outra eu tive a oportunidade de estar presente em todos esses discos. Acho que eles são muito parecidos, desde o primeiro, a emoção musical à melódica.
Moacyr Luz — Pois é. É uma coisa que você tem em sua vida, mesmo. Você não ter mais tanta pressa, você ter mais calma para perceber algumas coisas.
Tacioli — Existe uma ânsia para se produzir um disco, Moacyr? Porque sua carreira discográfica é…
Moacyr Luz — Pequena.
Tacioli — É pequena. Existe essa ânsia?
Moacyr Luz — Eu sempre tenho. Não tenho pânico de morte, mas tenho vontade que as pessoas conheçam as músicas. Eu sinto, modestamente, quando estou numa roda, pego o meu violão e toco os sambas, as pessoas ficam feliz em ouvir. Se elas estão felizes, a gente podia botar isso mais adiante, mais à frente. Esse é um pensamento meu. Estou com 44 anos de idade empenhado em manter…, antes dos 44 eu já parei aqui de falar. [risos]
Tacioli — Beleza.
Max Eluard — Tá jóia!
Monteiro — Sobre esse novo disco, de novas composições…

Moacyr Luz — Aqui, ó! Eu e o Martinho. É, foda, é? Eu e Martinho, que mundo, né? [risos] [canta “Zuela de Oxum”] “Me veio à mente um som / Não identifiquei, não/ Peguei meu violão e comecei a dedilhar / Então, eu me toquei / que o som, canção tão bela / lembrava uma zuela / que alguém vivia a zuelar / parei de dedilhar / pois minhas mãos tremeram mais / difícil confessar / promessas não podem pagar / Então eu me toquei / bate cabeça oxalá / Para aquela que se foi / jurei alguém jamais amar / E tem um novo amor / que é uma filha de Obá / E aquela canção / Era zuela de Oxum / Me vale meu pai, Olorum / O que é que vou fazer / pedir, valei meus orixás…” [continua] Bacana, né? Isso aí demora muito mais, tem umas coisas no meio. É isso aí.
Almeida — Moacyr, só mais uma. Eu acho que a beleza de uma música é proporcional à curiosidade em saber como é sua gênese.
Moacyr Luz — Como essa música foi criada? Bom, eu havia estado com o Martinho algumas vezes, e o Martinho, carinhosamente, vem elogiando as coisas que eu faço. “Porra, Moacyr, escutei o disco tal, aquela música tua, caralho, não-sei-o-quê.” E um dia, o Martinho havia feito uma música com o Ivan para o disco do Ivan Lins. Não tem uma música no disco do Ivan Lins com o Martinho? E eu tinha feito uma música com o Ivan Lins que acabou até entrando nessa novela Porto dos milagres, “Instante eterno”. [toca e canta] “Eu te perdi de vista / no instante em que achei / o pouco foi tanto / e nunca mais amei…” [continua] Eu tinha feito essa música com o Ivan. Uma surpresa. Eu estava deitado dentro de casa, quando anuncia a novela Porto dos milagres e ouço um acorde assim. [toca] Eu estava bem deitado, durmo muito cedo, sabe? “Caramba, mas esse acorde é meu! Conheço esse acorde!” [risos] No dia seguinte liguei para a minha editora. “Escutei na novela, tinha um acorde que era meu!” E a minha música com o Ivan tinha entrado na novela. Olha que volta que acabei dando. Aí, fui numa noite com o Ivan encontrar com o Martinho, no bar do Martinho, lá em Vila Isabel. “Martinho, estou querendo fazer um negócio contigo.” “Porra, a hora que tu quiser!” E os amigos dizendo “Mas o Martinho demora pra fazer, para devolver!” Não tem problema. Fiz essa música. Alguém conhece o Vitória da ilusão, o disco? É um disco que tem muita coisa afro. Não vou cantar, não. [toca e canta] Então, tem essa parte do trabalho, maluco, e mostrei para o Martinho. E ele me ligou. Acho que ele foi meio envolvido pelo som, tanto que a letra acaba tendo esse [canta] “Me veio a mente um som / não identifiquei, não/ peguei meu violão e comecei a dedilhar / então, eu me toquei que o som, canção, tão bela.” Aí, foi isso.
Zé Luiz — Um pouquinho da música com o Wilson, do disco novo.
Moacyr Luz — Das Neves. Nessa eu fiz a letra.
Zé Luiz — Inverteu o processo.
Moacyr Luz — Eu vou cantar num tom baixo. Estou com a voz… Amanhã não sei como vou fazer a FNAC. [toca e canta] “Quando dei por mim / mudei de caminho / encostei no fundo do coração / e cantei sozinho / fiz um tamborim / com as minhas mãos / e a canção surgiu / como nasce a luz numa escuridão / e inspiração, me lembrei de mim / lendo a minha mão / e a melodia fazendo contas no meu cordão / tudo era destino / tudo aconteceu / pra dizer em verso que minha vida já escreveu / Quando dei por mim…”
Zé Luiz — Quem conhece Wilson das Neves sabe essa história da sorte.
Moacyr Luz — Tudo dele é “ô sorte”, “ô sorte”. Vocês vão entrevistá-lo. Fechou, né, bicho?
Tacioli — Fechou.
Max Eluard — Se deixar, Moacyr, a conversa vai demorar mais três dias.
Tacioli — Não quero nem olhar minha folhinha.
Moacyr Luz — Tem mais alguma coisa que você acha fundamental?
Max Eluard — Moacyr, diz aí, você gosta de futebol?
Moacyr Luz — Adoro futebol.
Max Eluard — Qual é o seu time?
Moacyr Luz — Flamengo.
Max Eluard — E o que você está achando dessa seleção?
Moacyr Luz — Eu estava conversando sobre isso com o Zé antes de vocês chegarem. Participei do Pasquim há, mais ou menos, um mês. Eles me convidaram para entrevistar o Leonardo, pela paixão que tenho pelo clube. Pela conversa com o Leonardo, a gente já sentia que ele queria se despedir. E conversei muito com ele na entrevista — para não dizer que anunciou agora a despedida, a entrevista foi há um mês antes do anúncio oficial, mas já se sentia isso. Mas o que nos aproximou na entrevista foi o tédio, a tristeza com que as coisas estão acontecendo, tanto na parte musical, naquele mundo lá de cima, como no futebol. Por exemplo: sou a favor da prata da casa e nunca torci por jogador que troca de clube. Hoje é a coisa mais comum. Não é nostalgia de não aceitar as coisas. Sinto saudade dos uniformes clássicos do futebol. Não gosto dessas listas européias, desse padrão europeu. Gosto do uniforme clássico, do oficial. O Flamengo de listas largas. Não concordo com isso. Sou a favor da bola de couro, pesada, para quando matar no peito, doer. É verdade! Suar a camisa, mesmo. Não posso aceitar que um esporte de extrema emoção esteja hoje como se fosse uma Fórmula 1, com projetos de tecnologia, de fibras. Não admito isso em um esporte desse. Então, todo o balé que o futebol propunha — talvez até de uma bola pesada, escorregadia, do jogador que vinha e brigava pela bola. Quando eu era garoto, a bola era de couro. Você tinha que passar sebo de carne para proteger o couro, para não ressecá-lo. Então, o urbano do urbano que diminui o campo das várzeas, aquele campo em que o cara jogava com laranja. Hoje ninguém mais joga com laranja. É verdade, bicho!
Max Eluard — Eu jogava com cabeça de boneca.
Moacyr Luz — É isso, aí!
Monteiro — E o time vence o jogo por 1 a 0, na retranca, e todo mundo comemora.
Zé Luiz — Sobre essa história da bola, a gente não tinha dinheiro e jogava com bola de plástico. Quando fazia uma vaquinha e dava para comprar uma bola de capotão, mudava tudo. Aí quem era bom, era bom.
Moacyr Luz — Meu amigo, outra coisa que eu acho fundamental. Os campeonatos regionais têm um significado que é o do botequim. É você gozar o seu amigo do lado, no ônibus. Essa inocência… Eu disse isso numa entrevista, em um jornal, e meteram exageradamente. Não tô nem com essa bola toda, mas exageraram. Saudades que eu tenho da inocência das músicas. De uma música sendo feita, daquela história que a gente conversou sobre o Dobrando a Carioca. Então, essa inocência de algumas coisas básicas, se elas fossem mantidas, a gente caminhava de outra forma. Estou atrás de um livro chamado Tudo é impossível, não sei falar o nome do cara, Jean Baudrillard, esteve aqui na Bienal. [n.e. A troca impossível, Nova Fronteira, 2002] Ele, aos 73 anos, insiste na juventude, como diz o Aldir. Ele insiste que a criação é o que vai sobreviver disso tudo. As baratas e a criação, porque as baratas não é brincadeira, não!
Max Eluard — Tem alguma composição sua relacionada ao futebol?
Moacyr Luz — Não. Engraçado isso.
Zé Luiz — Mas como você diz, está pronto, né?
Moacyr Luz — Esse não que eu falei, o Zé acabou de traduzir. Existe essa música ainda, só não saiu! [risos]
Zé Luiz — Aguardem!
Monteiro — O disco de 88 tem uma com o título. Rubro…

Moacyr Luz — “Rubra paixão”.
Monteiro — Pensei “Será que ele está falando de futebol?”
Moacyr Luz — Não, é uma canção de amor.
Seabra — Engraçado isso que o Max falou, que está ruim na música, mas no futebol está pior. A música, no frigir dos ovos, é o que está de melhor no país, né? Das áreas culturais todas, o que salva é a música.
Moacyr Luz — Deixo eu falar uma coisa para você. Uma vez eu estava conversando com o Guinga. Só para você entender um pouco o que você está dizendo. Eu vou ser radical, tá? Eu, Guinga, Jards Macalé e Zé Renato estamos indo fazer um show no interior de Minas Gerais, todos naquela Sprinter deliciosa — era um sábado de manhã –, passamos por um campo no meio da estrada, com aqueles jogos de camisa, torcida, famílias e amigos, onze contra onze, tudo bem uniformizado. “Pára, pára, pára o carro!” [risos] Caralho, eu tenho prazer em ver esses jogos. Funciona um pouco com o samba e com o choro, tá? Lógico que eu fui muito radical, mas ainda existe o cara que trabalha a semana inteira e joga futebol. E ali, igual à música, ao samba, ao choro, você fica ali meio de gaiato, e você ouve “Injustiçado!” [risos], “Esse não quis ir à capital. Injustiçado!” É isso aí!
Tacioli — Moacyr, muito obrigado.
Moacyr Luz — Eu é que agradeço a oportunidade.
Zé Luiz — Só vou fazer um aparte, mas tem um assunto, que não é de música, de futebol, que é maravilhoso, que é bo-te-quins do Rio de Janeiro.
Moacyr Luz — Isso aí, num dia…
Zé Luiz — Pode ser uma outra. Vocês não vão acreditar!
Tacioli — Pode ser a nossa próxima entrevista.
Moacyr Luz — Para essa, vocês vão ter que alugar dois provedores. [risos] Pára, pára de gravar. É que tem umas coisas que são engraçadíssimas, por exemplo, um dia eu recebo um telefonema do Marcos Gomes. “Moacyr, escuta isso aqui. Sabe quem soube que você reúne as pessoas em sua casa e que quer ir aí conversar com você?” Essa história tem quatro anos. “Quer conversar contigo, quer entender essa coisa de Rio de Janeiro.” “Quem, Marcos?” “O Lula, pô!” “Não acredito, o meu presidente!” “É bicho, ele quer marcar um dia para ir em sua casa. Que dia que ele pode?” “Daqui uns quinze dias, para dar tempo de eu chamar a rapaziada.” “Olha, ele vai ficar aí uma meia hora, só para poder bater um papo.” “Tudo bem!” Duas horas da tarde, chega o Lula lá em casa. E eu tinha convidado o Monarco, o João Nogueira, o Wilson Moreira, Luiz Carlos da Vila, Ney Lopes. Eu juro que não falei para ninguém, mas foi capa do Jornal do Brasil, página inteira do Globo. O Lula ficou quatro horas lá em casa, escutando samba, conversando com a gente. Fiz uma série de tira-gosto para ele. Espero que ele lembre disso quando for presidente daqui a seis meses! [risos] Rô, mais um chope para mim, bem geladinho, por favor!
Zé Luiz — Eu também quero!
Max Eluard — Dois.
Almeida — Três.
Zé Luiz — Então, a saideira.
Moacyr Luz 
— Tô precisando tomar um chope. Estou com a boca ressecadíssima. Vocês conhecem um filme do Candeia, não sei se é do…
Seabra — Leon Hirzsman.
Moacyr Luz — O Leon Hirzman fez o do Nelson Cavaquinho. Ele fez o Candeia?
Dafne Sampaio — Ele fez um sobre o Candeia, também. É colorido, chama-se Roda de samba. [n.e. O cineasta fez dois curtas-metragens, um dedicado a Nelson Cavaquinho, e outro a Candeia, intitulado Partido alto. Ambos integram a Coleção Brasilianas, da Funarte].
Moacyr Luz — Não, não. Peraí. Vamos recordar a cena para podermos amarrar. O que eu quero dizer é aquela hora, na casa do Candeia, tem uma cena que o Paulinho está novinho, comendo uma rabada.
Sampaio — Isso.
Moacyr Luz — Não é colorido, não!
Sampaio — É colorido. O Leon Hiszman fez dois.
Moacyr Luz — Pois é. É uma festa nobre. Está aí o Osmar do Cavaco, Casquinha, magrinho, magrinho. Wilson das Neves, magrinho, tocando prato e faca com o Candeia, já de cadeira de rodas. Inclusive, vale o registro, gostaria que você botasse. O Guinga me liga para conversar um negócio e eu digo, “Guinga, estou aqui às voltas com a música “Prece ao sol” [canta] “Ó sol / Com és belo no arrebol / Quando estás no poente eu sinto / os teus raios ardentes” [n.e. Incluída no álbum Na galeria]. “Guinga, estou mexendo nesse negócio” e começo a cantar. “Puta que pariu! Caramba! Você acredita que eu escutei essa música pela primeira vez na casa do Candeia!” E o Guinga cantou a música toda. Ele tem uma memória privilegiada. Essa história era o seguinte: assim que o Candeia sofre o acidente — Casquinha me contou a história, é um filme, bicho! Assim que o Candeia sobre o acidente, que ele fica na cadeira de rodas, ele faz essa música, na primeira ou segunda manhã depois de tudo normalizado, ele vai à varanda para pegar um sol. Me ajude aqui [canta] “Ó sol / Com és belo no arrebol / Quando estás no poente eu sinto / os teus raios ardentes / Só saudades, não minto ao nascer do sol / A natureza / Se enriquece de tal beleza / E aquece as mais lindas flores / Belas rosas e belos jasmins / Desabrocham nos lindos jardins / Quero exaltar os raios multicores / Queimar as saudades dos meus amores / Quero cantar a prece da esperança / Que revele o Carnaval / Todo o amanhã em que amanheces”. É lindo, né? Até me emocionei na hora que o Guinga falou isso. Até agora, de novo.
Zé Luiz — Eu não sabia que tinha sido composta logo que ele caiu em si que estava na cadeira de rodas. Já tem outro significado.
Moacyr Luz — É foda, né? Viajamos pra caralho. Esse é um mecanismo de paixão, das histórias. Vou contar uma outra para vocês. A hora que vocês quiserem ir embora, podem ir, mas não saiam e me deixem falando aqui sozinho! [risos]
Rozana — Ele fica mais três dias.
Moacyr Luz — Olha só que história linda. O Herivelto Martins… Eu o conheci, tá? Acreditem se quiser, até acho que estou mentindo. Eu fiz uma palestra no MAM sobre música brasileira — eu, o Herivelto Martins e o Haroldo Costa –, dando a minha visão sobre isso. O Herivelto era da umbanda, e tinha um terreiro que ele freqüentava lá em Campo Grande, Santa Cruz. O problema de contar essas histórias agora é que você começa a errar os bairros… E aí o Nelson Gonçalves está com um problema pede para o Herivelto Martins levá-lo ao terreiro. E aí o Lan estava com o Herivelto, e foram os três. Aí, o cara recebe o santo, o Caboclo Sete Montanha, e começa a falar grosso com o Nelson Gonçalves. Aquela voz grossa. E o Lan não gostou daquela coisa de falar grosso com o Nelson Gonçalves e meteu uma porrada no cara. [risos] Uma confusão no terreiro, vai todo mundo embora. Dois meses depois, o Cartola convida o Lan para ir lá na Mangueira. O Lan chega meia-noite no buraco quente, onde estão o Cartola e o Carlos Cachaça. E o Lan senta para ouvir os dois, aquela coisa inebriante, imaginem!, e chegam dois sujeitos e começam a circundar a mesa. E o Cartola achando que os negos estavam cismando com o Lan, muito branco. Aquela coisa, ali no morro, uma hora da manhã. E, de repente, como o negócio começa a ficar muito tenso, os caras olhando muito para o Lan, o Cartola diz “Gente, pelo amor de Deus, esse aqui é meu amigo. É o Lan. Tá com problema, aí?” “Não, não. É que chegou lá embaixo, que esse cara foi quem bateu lá no Caboclo Sete Montanha no terreiro!” [risos] Todos com medo do Lan. [risos] Os caras é que estavam com medo do Lan. [risos] Essa história tem quase 40, 50 anos! E o medo de você encostar em uma entidade, não é brincadeira, não! [risos]