NÁ OZZETTI [2008]

Ex-Grupo Rumo e parceira de Itamar Assumpção, a cantora e compositora tem carreira individual aclamada pela crítica.

Ná Ozzetti: "Minha voz se aproximava mais da brejeirice da Carmen Miranda". Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Era a segunda vez que o Gafieiras saía de São Paulo para entrevistar alguém. O cantor e compositor Noite Ilustrada foi o primeiro a receber a equipe, lá em Atibaia em 2001. Sete anos depois, já sem o Fusca creme de Daniel Almeida, o Gafieiras corre para Jundiaí, cidade vizinha da capital paulista que hospeda em seus limites o sítio de Ná Ozzetti. Paulistana de voz e alma, a cantora e compositora reside desde 2000 entre árvores, plantas, horta e bichos de diferentes famílias, dividindo o comando com o marido Neco e o pastor alemão Tupi. E foi assim, nesse ambiente brejeiro, que vimos pelo janelão da sala a tarde se abrir e se despedir.

Zeladora de uma voz sem fim, Ná tem uma carreira que mescla coerência, ecletismo e ousadia, sempre em combinações aplaudidas pela imprensa e público. Coerência que respeita o universo construído desde a infância, quando se amarra pela música juvenil de Rita Pavone e Roberto Carlos, e depois pelos repertórios de Elis Regina, Mutantes e Chico Buarque. Como mesmo disse durante o papo de mais de duas horas, “era uma esponja captadora”.

Essa variedade que antecede sua carreira profissional ganha novos hectares a partir de sua entrada no Grupo Rumo, ícone da Vanguarda Paulista, quando desbrava o canto falado, os craques da era de ouro do rádio e os primeiros mistérios e fascínios da vida sobre o palco. E assim o tempo passa numa narrativa que avança, ricocheteia e abre outros janelões, revelando cores da trajetória de Ná além daquelas já estampadas nos discos da carreira-solo, das parcerias com Itamar Assumpção e André Mehmari, e dos enlaces em sambas, rocks, MPB e jazz.

Umbilicalmente ligada a São Paulo, com quem alimenta uma relação de paixão (por tudo o que é) e de tristeza (por tudo o que poderia ser), Ná encontrou em seu sítio a tranquilidade da infância, muito mais verde e silenciosa, onde recebe amigos, planta, cuida dos bichos e deixa o tempo ali, vivendo sua própria vida.

Uma mesa enorme, cheia de sucos, café, doces, bolos e pães-de-queijo, preparada por Dona Lúcia, mãe de Ná, presenciou conversas que ficaram na memória. Na despedida, anúncio do novo trabalho, o show e o CD Balangandãs — lançado no primeiro trimestre de 2009 –, em que reverencia uma de suas influências, a cantora Carmen Miranda.


{ … } expediente

Produção Ricardo Tacioli 
Entrevistadores Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Max Eluard e Ricardo Tacioli 
Fotos Jefferson Dias 
Registro audiovisual Max Eluard 
Transcrição Adriana Campos 
Edição de texto Dafne Sampaio
Texto de abertura Ricardo Tacioli

Entrevista realizada em Jundiaí/SP em 23 de fevereiro de 2008.


Ricardo Tacioli — Aquela entrevista que fizemos aqui, Ná, foi em 2000, 2001… [ n.e. Entrevista em vídeo conduzida por Max Eluard, Ricardo Tacioli e Daniel Almeida meses antes do surgimento do Gafieiras ]
Ná Ozzetti — Foi 2001, depois fiquei lembrando. O festival [da Globo] foi em 2000. E eu comprei aqui no fim de 2000. Aí me mudei; [cachorro] o Tupi nasceu em 22 de janeiro de 2001. Ele era…
Tacioli — Faz sete anos.
Ná — Acho que ele tinha um mês, um mês e meio, era um totózinho.
Tacioli — Agora é um patriarca. [risos]
Ná — Manda até na gente! [risos] Esse sofá é ruim de sentar, né não?
Tacioli — Ele estimula a intimidade. [risos]
Dafne Sampaio — Por isso coloquei a almofada entre nós. [risos]
Tacioli — Gato aqui não tem vez, né?
Ná — Tem uns lá embaixo, mas eles não ficam aqui. Bicho gosta de ser bicho.
Max Eluard — Ainda mais gato. Acho que gato é um dos bichos mais bichos que tem, porque ele não tem muita relação com você.
Neco — Ah, ele são felizes, vai… [risos]
Dafne — É o que importa.
Ná — Olha, o bicho é feliz quando ele pode suprir as necessidades da espécie dele.
Tacioli — Nem que ande somente nas árvores como o gato…
Ná — Mas o felino é assim, sobe em árvore…
Neco — Cachorro quer dono e o gato quer casa, né?
Ná — Mas eles tem a casa deles, eles se viram.
Tacioli — Mas já percebi que é um assunto que vocês debatem, se os gatos estão felizes…
Neco — Puta bicho, a gente é… A gente não tem filho, então…
Ná — O que mais penso é se os bichos estão felizes.
Daniel Almeida — A atenção vai pros bichinhos mesmo.
Ná — O engraçado é que andei lendo uns livros de cachorro. E aí comecei a entender que os cachorros que são domesticados, na verdade, começam a apresentar muito problema de comportamento, carência, não-sei-o-quê…
Tacioli — Isso por causa do ser humano.
Ná — Porque a gente humaniza demais a vida deles e eles ficam confusos. Eles precisam de espaço… Comida, claro, mas também espaço e, no caso do cachorro, de um chefe pra matilha. Então eles entendem que todo mundo que vive nessa casa é uma matilha. O líder da matilha é o Neco, né? Eu em segundo lugar. [ri] Então a gente tem que ter uma relação muito clara. Se a gente não quer ser dominado por um cão, a gente tem que se colocar como chefe da matilha… Isso é a glória pra eles, eles terem um chefe de matilha. Eles funcionam assim. Isso é o natural. Mas você não precisa maltratar o bicho pra mostrar que manda. Você tem que ser…
Almeida — Claro.
Ná — No livro que li diz que o animal em geral entende que linguagem é energia, e no caso do cão tem que ser uma energia calma e assertiva. Porque o cara que escreveu, observando essas matilhas de lobo, fala que sempre o líder da matilha é o mais calmo e assertivo. Isso é isso e isso é isso. E a gente tem que ser assim com os bichos. De resto precisa de espaço… Quanto maior o bicho, mais espaço precisa.
Almeida – Ô, Ná, você é de São Paulo… Sempre viveu em São Paulo antes de vir pra cá [pro sítio no município de Jundiaí]?
Ná – Sempre.
Almeida – E como era sua relação com os bichos morando numa cidade grande?
Ná – Quando era criança morava em casa. Sempre cresci com cachorro.
Tacioli – Onde vocês moravam?
Ná – Morava ali atrás do Palmeiras mesmo. Era uma casa. Tinha quintal, tudo. E sempre de cachorro. Mas já começou?
Tacioli – Já.
Ná – E eu falando de cachorro! [risos]
Dafne – A gente coloca que foi em off. [risos]
Tacioli – Bom, e em casa até qual idade?
Ná – Morei em casa até, olha, uns 20 e poucos anos. Na mesma casa a vida inteira. Depois o bairro começou a crescer demais. Era um bairro tranquilo, a gente brincou na rua o tempo todo.
Tacioli – Era Pompeia?
Ná – É. Entre Perdizes, Pompeia e Água Branca, uma divisão de bairros. E daí o bairro começou a crescer demais… Eu ficava muito fora, meus irmãos já tinham saído de casa, minha irmã também ficava muito fora e a gente começou a viajar muito.
Max – Mas quando você era criança, adolescente, você tinha uma vida de rua?
Ná – Tinha. Direto. Minha brincadeira era na rua. Tinha as de dentro de casa, que eram as coisas mais íntimas, com as amigas, coisa de menina, de boneca. E tinha as de rua, como toda criançada do bairro. E tudo, por coincidência, era na frente da minha casa. Então, ali tinha jogo de queimada, taco pros meninos, sei lá, bicicleta, patins; era tudo na rua. Era uma rua plana.
Max — Acho que você viveu a perda dessa cidade que você cresceu, né?
Ná — Eu me lembro que, quando era criança, a rua não era nem asfaltada. E aí fizeram um loteamento, um tal de Parque Antártica. Parece que era tudo arborizado ali perto do Palmeiras; aí lotearam e meu pai foi daquela primeira leva. Comprou dois lotes, fez uma casa grande, térrea, com um quintalzão. Então, a rua era de terra e não havia luz. Era um bairro dentro da cidade, vizinho da Santa Cecília, que já é bem central. A Avenida Sumaré ainda não existia. Lembro quando fizeram a Avenida Sumaré, tinha, sei lá, uns 11 anos [de idade], por aí. Era um córrego. Mas já existia o bairro das Perdizes, Pompeia, mas não tinham esses prédios, era somente residência.
Max — E a Lapa já era periferia da cidade.
Ná — Era. Era um loteamentozinho novo dentro de uma cidade que já existia. E meu pai trabalhava no Largo do Ouvidor.
Tacioli — O que ele fazia?
Ná — Meu pai tinha uma imobiliária. E aí ele pegava um ônibus na [Avenida] Francisco Matarazzo, que era do lado, e ia num retão até a Praça Patriarca, que já era centro da cidade. Depois ele voltava pra roça [ri], que era a casa. E aí, vi primeiro o asfalto, vi asfaltarem as ruas. Foi o máximo! Pra criançada era muito legal. Vi construir a maioria daquelas casas. Quando mudei pra lá ainda existiam muitos terrenos vazios. Aliás, muitos lugares onde são prédios hoje naquela redondeza eram campinhos de futebol. Então, depois vi aparecer a luz de mercúrio, que pra nós foi a glória. A gente viu que podia ficar jogando queimada por mais tempo [ri], e começamos a jogar de noite. E aí depois vi os primeiros prédios. E quando já tinha os meus 20 e poucos anos, aquela região começou a ficar mais comercial. E o bairro foi ficando assim…
Almeida — Já tinha perdido essa característica de fazendinha.
Ná — E a casa ficou muito grande pros meus pais. Aí a gente vendeu e resolveu mudar pra um apartamento ali na rua do lado, que é onde minha mãe mora até hoje.
Tacioli — A casa existe ainda?
Ná — Existe. Foi comprada por uma empresa que construiu um segundo andar. Descaracterizou completamente o que era. Não sei dentro da casa, mas por fora…
Dafne — Por fora não sobrou nada.
Ná — Não. Eles aproveitaram toda a estrutura, mas como fizeram um segundo andar ficou muito diferente. Não reconheço a casa. Olho e não reconheço.
Almeida — Sua mãe ficava em casa?
Ná — Minha mãe ficava em casa. Ela criou os quatro filhos.
Tacioli — E como é sua relação com o tempo? Você tem saudade ao olhar a infância, os anos 1960, a adolescência…? Como você lida com o tempo?
Ná — O passado… Olha, não sou muito de sentir saudade. Não tenho saudade de nada. Lembro com prazer das coisas boas, das ruins trato de esquecer, mas os momentos bons lembro com muito prazer, gosto de lembrar. E acho também que tudo que a gente viveu é referência importante para o que está vivendo hoje. Então, vivo voltando no passado, lembrando dessas coisas, de como tive infância, como pensava na infância, como que uma coisa chegava pra mim na infância. Porque na infância você é muito mais, como é que se fala…?
Dafne — Aberto.
Ná — Aberto. Você é um terreno mais virgem. Então você recebe as coisas de uma forma muito crua., sem os conceitos que a gente vai criando ao longo da vida. Acho essas sensações importantes porque são muito verdadeiras e tem essa magia da infância que gosto sempre de retomar. Fui tão feliz nesses momentos… de conhecer, de contato com as novidades do mundo… Gosto de me colocar diante de uma novidade pra sentir um pouco do gostinho daquela sensação que eu tinha de magia, de algo novo que você está descobrindo. Então a minha relação é essa. Sinceramente, não tenho saudade de nada. Vivi e pronto! Sempre olho pra frente porque meu prazer é o que virá. É mais sobre o que virá do que sobre o que foi.
Tacioli — Essa sua vinda pra Jundiaí tem a ver com sua relação com a casa da infância, de ter um quintal, um espaço? O que você buscou vindo pra cá?
Ná — Depois que estava aqui fiz uma associação… No primeiro momento não foi com a casa, nem com a infância. Na verdade, sempre gostei de mato, da natureza, e sou paulistana. Vivi a vida inteira em São Paulo, mas sempre gostei de viajar. Então sempre que chegava em São Paulo vinha pela Marginal Tietê. Agora a Marginal está bem mais bonita do que foi há uns anos. Mas ficava, sinceramente, deprimida de chegar na Marginal e encontrar a minha cidade tão árida, tão fria. Sentia falta da natureza mesmo morando na cidade. Então sempre procurei sair, sempre procurei esse contato, porque quando chegava sentia isso… É tão legal São Paulo, tudo que ela tem, mas ela podia ser mais arborizada, como o Rio de Janeiro. O Rio é uma cidade que, tirando os problemas que está enfrentando nos dias de hoje, é uma loucura! Você tem o mar, a mata, a Floresta da Tijuca ali, que é uma mata atlântica exuberante… E, culturalmente, uma grande cidade, no meio dessa exuberância toda. Então, pra mim, o ideal de cidade sempre foi o Rio de Janeiro. E aí voltava pra São Paulo e achava “Por que São Paulo não pode?” Tudo bem, não tem mar, mas a gente pode criar… Tem rios, dois rios enormes. A gente podia criar algo na cidade que desse mais condições de prazer pras pessoas.
Dafne — Você sentia essa beleza que falta em São Paulo desde a infância?
Ná — Eu me incomodava com isso desde a infância. E me incomodava muito com a mentalidade. Tem um lado da cidade que me incomoda e outro que acho maravilhoso. Tô abrindo um parênteses: agora que vivo no mato, quando vou pra cidade fico eufórica com tanta gente. Vejo essa efervescência… É uma cidade elétrica, tem muita eletricidade ali, de muita gente fazendo coisas. Acho isso fascinante. É uma cidade que reúne tantas coisas e que está sempre olhando pro futuro. Isso é maravilhoso! Mas tem outro lado que essa característica da cidade traz… Ela não preserva muito a qualidade de vida. Passa-se por cima de muita coisa importante em prol de um “fazer grana”, sabe? Por exemplo: a especulação imobiliária que existe na cidade, a verticalização. Todos os bairros estão ficando cheio de prédios.
Almeida — A gente estava falando da Lapa, que está virando uma selva de torres.
Ná — Pompeia. Em qualquer bairro da cidade está acontecendo isso. Tudo bem, vamos morar, mas e aí, cada pessoa, cada apartamento daquele vai ter no mínimo dois carros. Então como vão ficar essas ruas estreitas? Você vê que cada rua que verticaliza fica condenada a não ter mais um tráfego saudável. Nesses detalhes não se pensam. É um lugar de fazer dinheiro, então é um fazer dinheiro sem ter muito essa preocupação (de qualidade de vida). Essa mentalidade está mudando aos poucos. Sinto que já mudou, mas ao mesmo tempo a verticalização ainda é mais forte.
Max — O que você ganhou já de mudar pra cá? O que mudou na sua vida?
Ná — Primeiramente, deixa eu só responder uma pergunta que acho que foi o Tacioli fez… Eu não estava infeliz na cidade, de jeito nenhum, não procurei…
Max — (…) Fugir.
Ná — Não! O que aconteceu foi o seguinte: o Neco começou a trabalhar fora da cidade, aqui na Anhanguera. E ele começou a enfrentar muito esse vai-e-vem. Pra ele começou a ficar um pouco puxado. Aí ele conheceu Jundiaí e me perguntou se toparia mudar pra cá, já que era perto de São Paulo. Puxa, sempre tive um sonho de ter um sítio. Aí falei: “Já que é pra sair da cidade, não quero ir pra uma cidade de interior. Quero ir pro mato! Vamos procurar um sítio”. A gente está aqui há sete anos e coincidiu com a aparição da internet. Então, a minha preocupação era não perder a comunicação, porque meu trabalho depende dessa comunicação. E eu também não queria ir pra um lugar longe, não queria ficar afastada de São Paulo. Minha vida toda ainda continua em São Paulo. Só que moro no mato. Mas a vida está lá, completamente.
Tacioli — E de ganhos, Ná?
Ná — Ganhei… nossa! Acabou com a rinite [risos] que eu tinha em São Paulo. Olha, é muito gostoso, mesmo sem o convívio com as pessoas. A vizinhança… tem um outro ritmo.
Max — Para o seu trabalho ajudou em alguma coisa?
Ná — Pro trabalho não mudou nada. Não sei, se teve (alguma mudança) pode ter sido muito sutil. Mas, diretamente, que eu perceba, não vejo mudanças. Em São Paulo já tinha uma vida muito caseira. Muito. Todo o meu dia-a-dia de trabalho sempre foi em casa, sempre trabalhei em casa, meus estudos, ensaios, tudo foi em casa. Sinto que perdi um pouco de vida social. Por exemplo: participava muito mais dos eventos culturais da cidade, sempre ia ver show de todo mundo. Cinema? Acabou, né? Agora só consigo ver em DVD e olhe lá. Mas foi uma opção também. Quando mudei pra cá tinha uns 40 anos já e já tinha vivido bastante tudo o que a cidade me ofereceu. Agora posso também experimentar esse outro lado. Também estou aberta. Se tiver que voltar pra cidade, por algum motivo, volto.
Tacioli — Mas não se desfaz do sítio.
Ná — Se tivesse que me mudar pra cidade nesse momento, tentaria manter aqui. Mas não sei o que vai acontecer. Tem coisas que fazem parte do meu ser, as aulas de dança e ioga, e não consigo me imaginar vivendo sem. Acho que sempre vou ter que ter uma relação com essas atividades. E essas referências estão em São Paulo. Tô aqui há sete anos e não consegui largar a minha professora de dança, que é de lá, e o curso de ioga que não tem aqui em Jundiaí. Quero dizer, se tivesse que voltar pra cidade estaria muito feliz porque ia praticar muito essas coisas que gosto.
Tacioli — Você falou do Rio de Janeiro. Nunca pensou em se mudar pra lá?
Ná — Não, nunca pensei. Na verdade, quando me casei com o Neco, ele morava no Rio, foi criado no Rio. E estava até com a esperança de que fosse me mudar pro Rio [risos], mas ele se mudou pra São Paulo antes.
Dafne — Ô, diacho! [risos]
Ná — Estava achando que ia ter que me mudar pro Rio, daí ia gostar porque estaria com uma estrutura de casamento. Antes disso, do Neco, achava que era muito difícil. Não tinha coragem de me aventurar no Rio, sabe? Porque sabia que, profissionalmente, São Paulo era mais fácil pra mim. Era muito mais conhecida em São Paulo, todo o meu círculo de amizades estava em São Paulo. Se tivesse, muito jovem, ido pro Rio de Janeiro, aí sim, né? Mas logo no começo da minha carreira já entrei no Rumo, que era tipicamente paulistano. E acabei ficando muitos anos no Rumo. Quando comecei a minha carreira-solo foi uma fase muito complicada, de conseguir se sustentar, do trabalho. Ao mesmo tempo, estava beirando os 30 [anos], então, partir do zero a essa altura, ir pro Rio… Nunca tive essa condição, essa coragem. E logo em seguida conheci o Neco.
Dafne — Ná, você falou agora do Rumo, de ser um negócio tipicamente paulistano, e toda sua carreira aconteceu em São Paulo. O que tem de bom e de ruim em ser tipicamente alguma coisa, no caso, paulistano?
Ná — Digo tipicamente paulistano porque a gente foi criada na cidade, e de certa forma, o trabalho representa crônicas da cidade. A gente fala da cidade. Agora, esteticamente, não consigo ter esse distanciamento pra saber porque é tipicamente paulistano. Onde está esse sotaque, né?
Almeida — Nem confrontando com outras referências?
Ná — Não. Somente do ponto de vista que a gente faz uma música urbana. Mas música pernambucana pode ser urbana também. Soteropolitana também é urbana, o axé é urbano. O choro ou alguma música mais tipicamente carioca é urbana também. Só que cada um tem o seu próprio sotaque. Então, não sei dizer, em relação a São Paulo, onde está esse sotaque. Onde que é, por que é diferente?
Dafne — Mas existe uma música paulistana…
Ná — Existe.
Dafne — Essa música paulistana é, ainda hoje, uma estranha pro resto do Brasil, tirando uma coisa ou outra. Não é uma música que estourou, sei lá, talvez por causa da Globo também, que é uma força muito grande de divulgação e é muito carioca…
Max — E antes, a Rádio Nacional.
Dafne — Rádio Nacional, exatamente, quando o Rio era capital. Então, fico pensando nisso, o que tem de bom e de ruim, pensando no Brasil, pensando no próprio trabalho e em sua divulgação?
Ná — Sempre senti muito orgulho desse trabalho, da minha carreira e da trajetória dos meus contemporâneos, porque o Rumo e o Itamar [Assumpção], de quem sempre fui fã, e de outros mais, porque fui cair ali com eles, na mesma época; sou da mesma geração. O Premê [Premeditando o Breque] e o Arrigo [Barnabé]. Começando a carreira naquele momento eu frequentava o show desses colegas; era o que achava mais legal. Depois o trabalho de cada um evoluiu pra um lado, mas sempre senti vontade de continuar fazendo uma ponte com essa minha geração. Achava importante isso, continuar seguindo uma linha em comunicação, em comunhão, com a minha geração. Tanto que, quando comecei a fazer composição, fui procurar o Luiz Tatit, e o Rumo nem estava junto mais. Fui procurar o Itamar [Assumpção] pra fazer parceria. Porque queria continuar junto deles. Então, sempre achei importante, e acho ainda, estabelecer essa ponte. Ao mesmo tempo em que buscava levar isso pro Brasil como intérprete, como criadora. Achava que esses artistas tinham que ter uma divulgação maior pelo Brasil. Isso foi o que norteou minha trajetória. Agora, por outro lado, vejo que tem alguns fenômenos musicais que o mercado absorve com mais facilidade que outros. Então, não é por ser de São Paulo… Quer algo mais paulistano que Titãs e Rita Lee, que são ícones nacionais? São super paulistanos. Aquelas letras do Arnaldo [Antunes] pros Titãs são uma sequência do Itamar [Assumpção] e do Rumo. Só que eles pegaram uma veia pop que tinha uma comunicação muito mais imediata com o grande público. Mesma coisa com os Mutantes, que era um rock’n’roll muito localizado aqui em São Paulo. Mas foi a Rita Lee, por meio de suas composições, que ganhou o Brasil. Então, vejo esse fenômeno acontecer no Brasil inteiro. Em Minas, por exemplo, teve o fenômeno do Clube da Esquina. Mas as gerações que vieram depois não tiveram a mesma expressão. Claro que se você ver o talento que surgiu ali no Clube da Esquina, realmente, mas não quer dizer que não estejam surgindo outros talentos no mesmo calibre. Em Minas e em todo lugar. Recife, por exemplo, veio à tona e trouxe uma geração com o movimento do mangue beat, com o Chico Science. Vejo acontecer esses fenômenos porque viajo muito fazendo shows pelo Brasil. Brasília tem uma efervescência muito grande. Acho uma loucura o Sul do Brasil. Acontece um fenômeno lá, principalmente no Rio Grande do Sul, em que artistas fazem muito sucesso, como o Nei Lisboa, e que pouca gente conhece do Sudeste pra cima. E o Nei Lisboa, lá no Rio Grande do Sul inteiro, é como se fosse o Roberto Carlos, entende? Isso acontece porque o país é muito grande. O problema não é São Paulo. Acho que é uma questão de você fazer uma linguagem que seja mercadológica naquele momento. Você pode até fazer algo que acha que é comercial, mas o mercado já está interessado em outra coisa. Como artista, que tem o foco na arte, eu não sei. Sou uma ignorante nesse assunto, assunto de “porque estourou, porque não estourou”. Não sei, não é o meu foco.
Dafne — Mas foi uma dificuldade pra você, na sua carreira, ser identificada fora de São Paulo como paulistana?
Ná — Não. No começo da minha carreira-solo, no início da década de 1990, havia uma coisa muito pejorativo por ser paulista. Isso me incomodava muito porque, claro, eu sou paulista. Mas acho que essa visão mudou… ou não mudou, porque acho que tenho mais é que ser chamada de cantora paulista. Sou uma cantora paulista mesmo, né? Não deixo de ser brasileira por causa disso, mas sou uma cantora paulista. Mas na época havia uma preocupação porque, como vinha do Rumo e estava começando uma carreira-solo, queria falar mais pro Brasil.
Tacioli — Você acha que a Ná Ozzetti em carreira-solo tem uma comunicação diferente com o público daquela da época do Rumo?
Ná — É que no Rumo não existia a Ná Ozzetti. Eu vivia para o Rumo, não vivia para a Ná, entende? Acho que o grupo tem isso, o que é muito bacana. Tinha o maior prazer em trabalhar pra linguagem do Rumo, e a gente fazia tudo pra fortalecer a linguagem e não pra carreira de cada um. Também por isso que senti a necessidade de começar uma carreira-solo. Vontade de experimentar outras coisas, trabalhar com outros músicos. E daí comecei a minha carreira-solo.
Tacioli — E como era você, musicalmente, antes do Rumo?
Ná — Bom, passei por várias fases. [ri] Na infância, sempre fui apaixonada por música e sempre quis ser cantora. E cantora mesmo, porque era muito fascinada pelas cantoras. A primeira foi a Rita Pavone [ n.e. Cantora e atriz italiana de muito sucesso na década de 1960, principalmente por causa da música “Datemi un martello” ], depois a Elis Regina. E aí depois vieram as outras. Havia também os Beatles e, na época da Jovem Guarda quando era criança, amava o Roberto Carlos e gostava muito daquelas músicas dele com o Erasmo [Carlos]. Então era isso. E sempre gostei, depois na época dos festivais, do Chico Buarque. Era apaixonada pelo Chico, Caetano e o Gil. Adorava aquele programa… Acho que era o Tropical…? Não, não era o Tropical… Qual era o programa? A Elis Regina apresentava…
Tacioli — Fino da Bossa? [ n.e. Programa da TV Record, de 1965, apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues ]
Ná — Não era o Fino da Bossa. Alguma coisa Som Livre? Não era o Som Livre Exportação? Que tinha os Mutantes também? Então, adorava esse programa por causa dos Mutantes, porque eles tocavam e… Será que era? Não me lembro mais.
Tacioli — Não era o Divino Maravilhoso? [ n.e. Dirigido por Fernando Faro e Antônio Abujamra, o programa teve vida curta, em 1968, na TV Tupi, e era apresentado por Caetano Veloso e Gilberto Gil]
Ná — Divino Maravilhoso? Os Mutantes participavam também? Acho que era o Divino Maravilhoso.
Dafne — É que o Som Livre Exportação foi mais pros anos 1970 [ n.e. Dirigido por Solano Ribeiro, Augusto César Vanucci, Carlos Alberto Loffler e Walter Lacet, o programa foi exibido pela TV Globo entre dezembro de 1970 e agosto de 1971, sempre às quintas, e com apresentação de Elis Regina e Ivan Lins ].
Ná — Ah, não, porque assistia os dois, e o Divino Maravilhoso… é de 1968?
Dafne — Deve ser.
Ná — Ah, então é isso, estava no primário. E tinha os Mutantes também, não tinha?
Tacioli — Tinha. E o Caetano e o Gil.
Dafne — Os Mutantes também apareceram no programa do Ronnie Von. Foi onde eles surgiram.
Ná — Acho que era esse Divino Maravilhoso. Lembro que estava no primário. Como adorava esse programa.
Dafne — TV e rádio eram os meios que…
Ná — TV e rádio. E a gente comprava discos também. Eu mesma não comprava na infância, mas meus irmãos compravam. Em casa era Beatles. E aí, na adolescência, comecei a gostar muito de Vinicius de Moraes, Tom Jobim e João Gilberto. Escutava muito essas coisas. E, um pouco depois, no meio da década de 70, na adolescência mesmo , já era o Clube da Esquina. Nossa! Eu adorava. Tinha todos aqueles discos.
Max — Você, a Marta [Ozzetti, flautista] e o Dante [Ozzetti, violonista, compositor e arranjador] começaram a se interessar por música juntos? Como foi?
Ná — Nossa família sempre gostou muito de música. A gente ouvia muita música em casa. Então já tinha essa vontade e estudamos numa escola experimental. Era estadual e experimental. E havia uma professora de música excelente que era a Dona Sofia. Além do mais, música, e todas as artes em geral, tinham o mesmo peso que as matérias convencionais. Educação Física também.
Tacioli — Qual era o nome da escola?
Ná — Escola Experimental da Lapa. Como é que chamava? Edmundo Carvalho. Fica ali numa travessa da Rua Clélia, perto do SESC Pompeia. A Marta começou a estudar flauta doce na escola com essa professora e o Dante começou a compor. Ela também estimulava a composição. E aí o Dante começou a compor ali, no primário mesmo. Era época dos festivais e a escola fazia [festivais] também… E o Dante concorria. Aí ele começou a levar os colegas pra ensaiar em casa. Achava o máximo e sempre participava dos ensaios, como ouvinte. Eu era menor, mas não perdia um ensaio. [ri] E depois ia assistir os festivais. Ficava emocionadíssima com aquilo.
Max — Você foi assistir ao vivo?
Ná — Os festivais? Não perdia um.
Tacioli — Os festivais da escola.
Ná — Da escola! E, por coincidência, os festivais da Record… Acho que alguns foram lá no Tuca. [ n.e. Teatro da PUC-SP ] Olha, foi tão forte isso pra escola que esses festivais aconteciam no Tuca, que ficava lotado de crianças e jovens. Era um barato! E a escola tinha o mesmo curso a noite. Então a noite era pra quem era já adulto, trabalhava de dia e frequentava a escola a noite. Então concorriam crianças de 9 a 14 anos de idade junto com adultos no mesmo festival! Isso que era legal! Era muito bacana. O Dante era o campeão dos festivais!
Max — Mas vocês três se moviam juntos, iam se ajudando, ou era cada um na sua?
Ná — Cada um tinha a sua trajetória.
Tacioli — O Marco [Ozzetti] também?
Ná — O Marco era o mais velho, então não pegou essa época dos festivais. Ele já estava indo pro colegial, mas daí começou a tocar guitarra em uma banda de rock. Foi uma outra trajetória. Aí começou a ensaiar, porque nós morávamos nessa tal casa que era grande, era uma casa térrea, e ele fez um estúdio porque havia um quartinho no fundo. E começou a levar a banda dele pra ensaiar lá. O Dante também ensaiava com o grupo dele. E eu ficava indo de um ensaio pro outro. [ri] O meu desejo era uma hora integrar uma dessas bandas. A essa altura, a Marta começou a estudar flauta transversal e eu fui estudar música e piano também. Tentei estudar canto, mas era muito nova na época e a professora achava que tinha que esperar um pouquinho mais. Então, o que eu fazia? Ficava escutando disco das grandes cantoras. Minha forma de estudar era imitar e tentar cantar igual a elas. Pensava assim: “Bem, se conseguir cantar igual a essa cantora, já tô progredindo!”. [risos]
Max — Qual foi a primeira [cantora] que você cantou igual?
Ná — A primeira de todas, sem pensar em técnica, foi a Rita Pavone. Depois, na sequência, a Elis Regina, desde a aparição dela no festival…
Tacioli — Desde a Brotolândia? [ n.e. Referência ao disco Viva a Brotolândia, o primeiro de Elis, em 1961 ]
Ná — Achava o máximo cantar igual a Elis Regina. Ficava escutando os discos dela… E da Bethânia… Houve uma época em que fui assistir um show da Bethânia. Tinha 14 anos. Foi o Drama — Luz da noite, lá no Tuca. [ n.e. Show que se transformou no disco Drama — 3º ato, de 1973; o áudio do show, na íntegra, está aqui ] Foi a primeira vez que fui a um show na vida. E aí comprei o disco, que sabia de cor e salteado. Cantava igualzinho à Bethânia, claro que guardada as devidas proporções. [risos] Mas cantava com os mesmos trejeitos dela, a respiração igualzinha. Ficava escutando um disco exaustivamente até conseguir cantar igual. Lembro quando surgiu a Rita Lee com aquele disco Atrás do porto tem uma cidade. [ n.e. Disco de 1974, o terceiro solo de Rita Lee ]. Achei demais aquele jeito de cantar em português. Porque escutava Beatles e Rolling Stones e eles cantavam o rock em outra língua. E aí apareceu a Rita Lee de uma forma muito natural. Ela foi muito inteligente em escrever as canções e fazer um rock que soava bem em português. E isso me chamou atenção na época; foi um impacto! Vi aquilo com uma naturalidade grande e era rock mesmo. Não era rock com sotaque brasileiro.
Tacioli — Mas o que diferenciava o rock da Rita Lee do rock do Roberto Carlos?
Ná — Acho que o Roberto Carlos fazia mais canções. Não era rock’n’roll. Acho que a Rita Lee veio com o rock mesmo, com a linguagem Rolling Stones na veia, sabe? O Luiz Carlini na guitarra, que era diferente do Roberto Carlos. O Roberto Carlos tinha um outro tratamento musical…
Dafne — Como se ele apropriasse de uma coisinha ou outra do rock, mas que não era rock.
Ná — Não era rock, aquilo já tinha um jeito, tinha um sotaque brasileiro. A Rita também era música brasileira, era rock brasileiro, mas tinha uma alma do rock, não sei, é uma coisa difícil de explicar. Mas era um alma rock’n’roll.
Tacioli — O Roberto Carlos não ia tocar fogo na guitarra. [risos]
Ná — É. Mesmo o Tropicalismo, com Mutantes e tudo, nunca me veio na mente que aquilo era rock’n’roll. Pra mim, rock era Rolling Stones, Led Zeppelin, sabe? E o que se fazia com guitarras na época do Tropicalismo, mesmo o que os Mutantes faziam, era uma outra história. Acho que a Rita Lee foi a primeira. Foi um impacto pra mim escutar Atrás do porto tem uma cidade. Fiquei na cola mesmo, queria aprender a cantar rock daquele jeito, porque havia um modo de cantar que era o da escola da Elis, que era o da escola da Bethânia. Isso antes da minha carreira profissional, eu como aspirante à cantora. Achei o máximo aquela pegada rock da Rita Lee. Fiquei mesmo fascinada. Delirava nos shows, entrava em êxtase.
Max — Agora, apreciação de gênero e de estilo, você não tinha muito preconceito também, rock, Bethânia… Dafne — Junto com essa pergunta. Pra você, as coisas que você gostava, elas iam se acumulando ou uma descoberta negava a outra?
Ná — Acho que iam se acumulando. Porque a paixão é pela música, pela harmonia desse som. Então, tudo que caia harmoniosamente pra mim, ou mesmo como força de manifesto musical, como linguagem mesmo… A linguagem do rock, o aparecimento da Tropicália, o Chico Buarque com aqueles sambas, a bossa, são coisas muito fortes. Eu era uma esponja captadora. Sempre fiquei entregue a isso que aconteceu. Por exemplo:, a fusão do jazz com o rock. Sempre gostei de jazz também… A fusão do jazz com o rock e a manifestação muito brasileira que foi o Clube da Esquina. Aquilo veio com uma força, e é uma linguagem que jamais se superou e ninguém vai conseguir chegar onde eles chegaram. Quero dizer, se surgir uma nova onda tenho certeza que vai me pegar. [ri] Qualquer coisa que tenha essa força.
Max — Qual foi última coisa que você ouviu que tinha algo perto dessa força na música brasileira?
Ná — Olha, lembro quando o Chico Science apareceu. Foi um impacto pra mim. Nunca tinha visto nada parecido. Achei aquilo tão maravilhoso!
Tacioli — Mas o que era demais ali?
Ná — Era o maracatu. Mas era um maracatu eletrificado e com uma linguagem muito pop e, ao mesmo tempo, de uma forma muito orgânica e com uma força… Adorava as letras.
Tacioli — O discurso do artista é importante em relação à sua música e onde ela está inserida?
Ná — Ah, sim. Sabe o que foi um impacto pra mim? O Arrigo com a banda Sabor de Veneno e Clara Crocodilo. [ n.e. Disco lançado em 1980 ] Aquilo lá pra mim foi… nossa, foi um golpe maravilhoso. Não perdia um show do Arrigo. Delirava nos shows dele. Já estava começando a ser profissional.
Almeida — Como foi sua primeira apresentação como cantora, independentemente de estar num banda ou não? Você estava cantando igual à Elis ou à Bethânia? [risos]
Ná — A primeira vez que me apresentei foi como backing do Dante [Ozzetti] num desses festivais de colégio. Era um samba. Tinha uns 15 anos. Aí comecei a cantar com o Dante, que já tinha umas apresentações. Ele fez uma música especial pra eu cantar; ele tocava no piano e era estilo Maria Bethânia. [risos] Claro que a minha voz não tem nada a ver com a da Bethânia, não chega nem perto, mas tinha um jeito de frasear que era muito baseado nela. Não devia sair igual à Bethânia porque era outra natureza de voz. Depois entrei na faculdade e fiquei ouvindo muitas cantoras de jazz também. Já na faculdade entrei no Rumo, e aí não tinha como fazer uso dessas escolas porque era o canto falado. Quando não era canto falado era o Rumo aos antigos [ n.e. Projeto paralelo do grupo com releituras de autores clássicos como Noel Rosa, Lamartine Babo e Sinhô ], que me levou a ouvir as cantoras antigas. Foi assim que conheci a Carmen Miranda mais a fundo e fiquei fascinada. Pra mim era uma incógnita aquele jeito de cantar, aquela pegada sambista cheia de graça e malandragem que ela tinha. Descobri que tinha mais facilidade pra imitar a Carmen Miranda do que a Elis Regina, por exemplo, ou a Maria Bethânia, porque elas tinham uma outra natureza de voz e minha voz se aproximava mais da brejeirice da Carmen Miranda. Então comecei a perceber essas coisas de pra onde rendia mais a minha voz. No Rumo parei de ter como referências as outras cantoras que tinha até então. Tinha um pouco da Carmen Miranda pra cantar o Rumo aos antigos e nas outras [músicas] do Rumo, era a Ná mesmo, nua e crua, porque não tinha referência nenhuma de músicas que lembravam as músicas do Rumo pra tentar cantar igual.
Tacioli — Mas a Carmen Miranda tem uma célula que tem a ver com o Rumo também, não?
Ná — Então, no Rumo aos antigos.
Tacioli — Mas somente nele? A forma com que a Carmen canta não tem a ver com o canto falado?
Ná — As composições do Rumo eram muito diferentes dos sambas que a Carmen Miranda cantava… Era bem diferente, sei lá: [canta] “Cansaço / Esse sentimento infinito / Tomou conta de mim de um tal jeito / Eu procurei definir a preguiça”. Ou então: [canta] “Ele fez uma canção bonita pra amiga dele / E disse tudo que cê pode dizer pra uma amiga na hora do desespero”. Não dá pra comparar esse estilo com os sambas que a Carmen Miranda cantava. Não tinha como aplicar nessa fala o jeito coloquial da Carmen Miranda. Mas, por exemplo, nas mais brejeiras, mais tarde fui percebendo, por exemplo, no “Decorrer da madrugada”, eu faço uma Carmen Miranda ali, né? É aquela: [canta] “Deitado no trilho de um trem / Estando amarrado”… não, desculpa, corta! Essa é da própria Carmen… [ n.e. Estes são os primeiros versos de “O que é que você fazia?”, de Noel Rosa e Hervê Cordovil ]
Tacioli — Viu só como mistura? [risos]
Ná — Pois é. [risos] Pera aí: [canta] “Um movimento inesperado no decorrer da madrugada / E foi ficando assim de gente / Uma legião de acordados com os olhos no horizonte / O que se passa, o que é isso? / Uma multidão olhando pra um lugar tão fixo, tão explícito, tão expresso / O que é isso? / Vai ver que tem alguma coisa que se move, ou uma nave ou ovni, alguma coisa”. Tem uma brejeirice ali porque tentei trazer um pouco da Carmen Miranda pra cá. Era mais fácil trazer minha experiência do canto falado pra entender o canto da Carmen.
Dafne — Ná, como foi o seu primeiro contato com o canto falado?
Ná — Primeiro, entrei no grupo.
Tacioli — Entrou como?
Ná — Vou explicar então. Estava cursando Artes Plásticas e vivia cantando. Essa fase das Artes Plásticas foi a que mais cantei na vida porque tinha que fazer os trabalhos, que geralmente eram práticos, e ficava desenvolvendo em casa, sempre ouvindo música e cantando. Aí ia pra faculdade, continuava cantando nas aulas e em todo trabalho que a gente fazia eu criava a trilha sonora. Uma colega de faculdade, a Edith Derdyk, artista plástica, era mulher do Paulo Tatit e sempre me via cantando. E teve uma época em que o Rumo, que nem tinha gravado disco ainda, queria colocar uma mulher. Eram oito homens. Então a Edith falou pro Paulo: “Tem uma menina na minha faculdade que canta e você precisa escutá-la.” Então, meu pai tinha um sítio e eu levava muito o pessoal da faculdade pra lá. Numa dessas vezes, levei o Paulo e a Edith, entre outras pessoas, e o Paulo me escutou cantar e veio conversar comigo. Falou: “Olha, tenho um grupo, você não quer entrar? Tá faltando uma mulher”. Bom, juntou a fome com a vontade de comer, porque estava louca pra cantar. Já tinha percebido que o meu negócio era música. Então eu falei: “Claro, quero entrar”. “Então vamos marcar um encontro pra você conhecer os outros integrantes e o trabalho.” Lembro que o estúdio era na casa do Hélio Ziskind. E aí eles me explicaram que havia dois trabalhos: um era do canto falado. Era muita teoria pra mim; queria cantar! [risos]
Tacioli — Para de falar! [risos]
Ná — Vieram com aquela teoria toda do canto falado e lembro que, pra mim, a primeira impressão foi: “Nossa, será que vou me acostumar, será que vai dar certo?”. Fiquei um pouco preocupada. Mas decidi encarar. “Quero fazer música, vou encarar.” E, ao mesmo tempo, já estava começando com outros trabalhos. Cantava numa gafieira no Instituto dos Arquitetos Brasileiros, lá na Rêgo Freitas. Cantava lá. Foi meu primeiro emprego como cantora.
Max — Tinha um bar no subsolo.
Ná — É, e tinha uma gafieira às sextas. Mas no dia-a-dia do Rumo fui entendendo o trabalho. No primeiro show que a gente fez só cantava uma. Eles me convidaram no final de janeiro e em março já tinha uma temporada no Teatro do Bexiga. Não dava tempo de ensaiar o repertório das músicas do Rumo. Então só cantava uma única música, “Quantos beijos”, do Noel Rosa. O Hélio [Ziskind] também trouxe pro Rumo uma outra cantora. Era a Téia, que cantava uma outra música do Noel Rosa. No mais, eu operava a mesa de som. [risos] Passava o show inteiro regulando, porque o Rumo trocava muito de instrumento, cada música era um diferente. Então demorava essa troca de instrumentos entre uma música e outra, era muito engraçado. E eu tinha que mixar. Na hora de cantar “Quantos beijos” eu ia pro palco, cantava e depois voltava pra mesa. Esse foi o primeiro show. Aí, logo na sequência, a gente fez um trabalho… Eles já tinham feito Lamartine Babo e Noel Rosa, e iam começar a fazer o Sinhô. O trabalho era ir em casa de colecionadores, ouvir aquilo tudo em 78 rotações e gravar em fita cassete. Cada um ia fazendo sua seleção pessoal e depois a gente reunia todo esse material, todo mundo ouvia, pra fazer uma seleção de músicas pro repertório do próximo show. A gente fez uma nova temporada, no mesmo ano, de novo no Teatro do Bexiga. Nem existia o Lira Paulistana nessa época.
Tacioli — Isso era 70 e…
Ná — Isso era 1979. Comecei a cantar as músicas do Sinhô pra esse novo trabalho, e na minha cabeça era isso… Cada compositor do Rumo cantava sua própria música e como eu não compunha, então não ia cantar as músicas do Rumo. Só cantaria mesmo as dos antigos. Até que o Zecarlos [Ribeiro] levou uma música pra eu cantar… Era “Cansaço”. Foi a primeira música do Rumo que cantei.
Max — Como era?
Ná — [canta] “Cansaço / Esse sentimento infinito tomou conta de mim.” Ele levou, com ele tocando violão e cantando, e fui pra casa estudar a música pra apresentar no próximo ensaio. Isso vale a pena contar… Pra mim aquilo era um texto falado, e aí comecei a cantar [canta]: “Esse sentimento infinito tomou conta de mim de um tal jeito”. Fazia teatralmente, e ficava: “Que ridículo, tô com vergonha de ir pro ensaio cantando desse jeito”. [risos] Não fazia as notas que eram [pra fazer]. Entendi o texto teatralmente e tentava dar uma interpretação teatral. Então voltei ao que o Zecarlos estava cantando. Colei o ouvido nas notas e comecei a perceber que não precisava de esforço nenhum pra cantar aquelas músicas, bastava cantar as mesmas notas, e que a expressão daquilo que estava sendo dito se dava pela precisão das notas e não pela emoção que traria de dentro. Na verdade, a emoção era musical. Era puramente musical. Então comecei a colar: [canta] “Cansaço / Esse sentimento infinito tomou conta de mim de um tal jeito / Eu procurei definir, é preguiça, incapacidade de seguir / Cansaço”. Aí vinha: [canta] “De tentar ocupar um novo espaço / Esse cansaço é físico e mental / Eu ando tão desanimado que nada nesse mundo se arrasta além de mim / Além desse bendito cansaço”. Aí fui pro ensaio e o Zecarlos me acompanhou. A partir daquele dia foi muito legal. Eles começaram ver que daria pra eu cantar as músicas.
Tacioli — Nenhuma das meninas cantava, nem a…
Ná — A Téia começou a cantar também. O Luiz começou a fazer música pra ela cantar e me deu “Canção bonita”. Então cantava “Canção bonita” e “Cansaço”.
Max — Essa maneira que você encontrou de interpretar “Cansaço” foi como se você tivesse descoberto ou eles também iam descobrindo isso na hora?
Ná — É, exatamente. E que dava pra um interpretar a música do outro.
Max — Mas isso era uma coisa que eles ainda não tinham percebido, foi uma coisa que você trouxe pro grupo ou…
Dafne — Você entrou na sintonia deles. É isso?
Ná — Não sei dizer. Precisa perguntar pra eles. Sei que pra mim foi uma descoberta, porque, inclusive o meu ouvido, o meu sentido auditivo abriu, porque comecei a perceber que estava com uma definição melódica muito mais aguçada do que tinha antes. Agora, coincidiu o fato de cantar a música do Rumo e o fato da coisa começar a abrir ali. Agora não sei como que isso…
Max — Bateu neles.
Ná — Por onde essa porta se abriu. Qual foi o caminho pra eles.
Max — Porque nunca te deram essa orientação também.
Ná — Nunca me deram e nunca também cheguei pra eles e falei: “Olha, saquei isso. Eu simplesmente cantei a música.”
Max — Foi orgânico até.
Ná — É, aí eles perceberam do jeito deles alguma coisa, e eu tô contando a minha versão aqui. [risos]
Tacioli — Como era rotina do grupo?
Ná — Nossa, super organizado, super… A gente tinha ensaios semanalmente, umas três vezes por semana. Primeiro, na casa do Hélio. Eram sempre à noite porque a essa altura todo mundo já trabalhava. O Rumo fazia música por diletantismo. Todo mundo tinha outro emprego pra poder fazer as músicas do Rumo. Então, quando a gente lançou o primeiro disco, acho que foi em 1981, já tinha o Lira Paulistana, tanto que a gente lançou [o disco] lá. A gente alugou na Praça Benedito Calixto, do lado do escritório do Lira Paulistana, uma sobreloja, onde foi por muitos anos o estúdio do Rumo. E era um barato aquela praça Benedito Calixto. Do outro lado da praça ficava a [produtora] Olhar Eletrônico que tava começando nessa época.
Max — Do Fernando Meirelles.
Ná — É, era Marcelo Tas, Marcelo Machado, Fernando Meirelles, Tonico Melo… Tonico Melo? Bom, o Tonico. E os primeiros trabalhos deles foram os clipes do Rumo, que estão no DVD do Rumo. Você já viram o DVD? [ n.e. Rumo — Show 2004, lançado em 2005 pela Cultura Marcas ]
Todos — Já.
Ná — Então os primeiros clipes deles foram com as músicas do Rumo. [ n.e. “Delírio, meu!”, “Ladeira da Memória” e “Bem alto”, os dois primeiros dirigidos por Marcelo Machado em 1983 e o terceiro por Fernando Meirelles em 1988 ] Era uma geração que estava começando ali, naquele espaço.
Tacioli — Eu falei da rotina, você falou dos ensaios.
Ná — Ah, desculpa, já entrei noutra. Então a gente ensaiava à noite.
Tacioli — Mas além dos ensaios, o que o grupo fazia? Qual era o vínculo que vocês tinham extra trabalho? O que se esperava…?
Ná — Quando o Rumo se organizou mais como grupo, se profissionalizou mais também. Após os discos, a gente começou a fazer muitos shows. Daí o próprio grupo dividia o trabalho. Então, por exemplo, o Paulo [Tatit] e o Akira [Ueno] pegavam um grupo de músicas pra fazer arranjo, o Hélio [Ziskind] pegava outro. Eles ficavam mais na base, depois levavam pro resto do grupo e a gente fechava os arranjos e as interpretações. Antigamente todos compunham, depois a composição ficou mais com Luiz [Tatit], Hélio [Ziskind], Zecarlos [Ribeiro] e Pedro [Mourão], que ficaram como os compositores oficiais. Fora isso a gente se encontrava nos aniversários. Alguns que se davam mais, então saiam mais juntos. Sempre fui mais amiga do Paulo [Tatit] porque era muito amiga da Edith [Derdyk]. Hoje em dia sou muito ligada, com frequência de me encontrar, com o Luiz [Tatit] e o Gal [Oppido]. É engraçado como as coisas vão mudando.
Tacioli — Mas aquela postura rock’n’roll que você falou da Rita Lee, que lhe causava admiração, você exercitava isso de alguma forma no Rumo? Me parece que o Rumo era muito comportado: tinham os ensaios, todo mundo estudava…
Daniel — Muito acadêmico…
Ná — É.
Tacioli — E ao mesmo tempo era uma época…, basta ver os vídeos… Muito bicho grilo, o Paulo cabeludo, o Hélio também. Existiam momentos bicho grilo no Rumo?
Ná — Olha, isso era uma coisa da moda da época, uma coisa de geração mesmo.
Tacioli — É que me parece tudo muito matemático…
Ná — A gente era assim. Tinha essa organização dentro do grupo. Mas, por outro lado, gostava do Itamar [Assumpção], que era um som mais negro. Depois, quando fui trabalhar com o Itamar, vi que ele era muito rigoroso também. Tinha uma organização, os ensaios eram comportadíssimos. Eu imaginava que devia ser uma zona porque as apresentações eram muito despojadas. Mas o Itamar era um general. Lembro que o primeiro ensaio com o Itamar cheguei meio atrasada achando que… Meu, já estava todo mundo ensaiando, sabe? Aí comecei a ver que as pessoas eram muito pontuais. Então se parecia muito com o Rumo nesse sentido. Mas é que o Rumo trazia essa imagem de comportado, de bons moços, alunos da USP, sei lá. [risos] Tem essa coisa do Luiz [Tatit] que é mais professoral e na época ele já era, né? Nem sei se era, mas já tinha esse veio acadêmico. Tinha isso. Agora a coisa do rock\’n\’roll… Tem uma fase na vida da gente que as coisas se transformam muito rápido. Acho que até uma certa idade, desde a infância até os 25 anos, acho que a cada ano há uma transformação muito grande na vida da gente. Na minha infância, cada ano parecia que estava vivendo num planeta diferente de tanto que as coisas se transformavam, na minha vida mesmo. E os meus conceitos também. Vivi esse momento rock que foi pré-Clube da Esquina. Tinha lá meus 16 ou 17, e com 18 já estava em outra, gostava de jazz. Claro que admirava a Rita Lee também. E foi bem na época que ela estourou com “Mania de você” e aqueles especiais da Globo. Mas nessa época já não ia mais nos shows dela porque já era tudo em estádio e não gostava, a acústica era horrível. Gostava de ver show em teatro. Ia no Teatro Bandeirantes, no Aquarius, esses teatros. Com 18, quando entrei na faculdade, já era o bicho grilo do Clube da Esquina, dos Novos Baianos. Ia mesmo nesses shows.
Tacioli — É que Novos baianos e Rumo, aparentemente [não combinavam]…
Ná — Pois é, gostava disso. Era assim quando entrei no Rumo, mas aí era um outro tipo de comportamento com a música.
Almeida — Você pontuaria alguns momentos do Rumo que foram plenos?
Ná — Olha, acho que todo o tempo que o Rumo existiu foi bacana, sempre foi pleno. Acho que teve um momento muito especial que foi o Rio de Janeiro. A gente, em 1983, foi fazer uma temporada lá de duas semanas. E era de quarta a domingo, então era temporada grande, na Sala Funarte. E a gente começou com meia dúzia [de pessoas] de público, no dia seguinte triplicou… Sei que no fim da primeira semana os ingressos já estavam esgotados. Foi um sucesso, o Rio de Janeiro entendeu o Rumo. A gente fez mais sucesso no Rio, na época do Rumo, que em São Paulo.
Dafne — Que louco!
Ná — E a gente fazia sucesso em São Paulo, mas no Rio foi uma loucura. Aí na segunda semana já estava assim, tudo esgotado. Claro que a Sala Funarte era desse tamanhinho, mas tudo bem, pra gente que achava que não ia dar em nada do Rio. Daí a gente começou a fazer shows no Circo Voador. Da Funarte a gente já foi pro Circo Voador, com duas mil pessoas vendo o Rumo. A gente nunca teve duas mil pessoas em São Paulo.
Tacioli — E eram shows exclusivos…
Ná — Eram só Rumo.
Max — Em nenhum momento vocês pensaram em ir pra lá?
Ná — Puta, o pessoal era muito paulistano. [risos]
Almeida — Era muito longe da USP.
Ná — Eu bem que tentei, mas não deu certo. Nessa época descobri [a Lapa], porque o Circo Voador ficava na Lapa. Eu conhecia o Rio porque tinha uma tia que morava lá. E ela sempre explorou muito a cidade. Ela era do interior de São Paulo, depois mudou pro Rio e explorou muito a cidade. Ela conhecia o Rio de Janeiro como a palma da mão. E quando fui pra lá, isso com uns 12, 13 anos, ela me levava pra conhecer todos esses lugares: Quinta da Boa Vista, Ilha de Paquetá, toda a parte histórica do centro do Rio. Ela morava no Leblon, então também frequentava a Zona Sul e ia a pé pra tudo quanto é lugar. Ficava solta na cidade e achava maravilhoso. Mas somente quando fui com o Rumo conheci a Lapa. Fiquei apaixonada, comecei a conhecer os lugares onde a música brasileira, o samba brasileiro tinha começado, a história da música brasileira tinha começado. Fiquei fascinada. “Nossa, e o Rio ainda tem isso!” [risos]
Tacioli — Isso foi em 1983?
Ná — De 1983 a 1985.
Tacioli — Tem a ver com o nascimento do pop rock. Como era a convivência com esses grupos de lá, já que vocês iam no Circo Voador, faziam temporada na Funarte? Havia contato?
Ná — Olha, foi muito legal, lembro que gostava muito da Marina. Cheguei a ir no show da Marina no Circo do Planetário, lá no Rio. O Barão Vermelho estava surgindo nessa época… Gostava também da Blitz.
Tacioli — Você falou dos circos no Rio de Janeiro. Em São Paulo, onde eram esses pontos de concentração?
Ná — Nessa época, o Lira Paulistana começou a fechar e surgiu o SESC Pompeia, que foi a primeira ação cultural do SESC. E o Rumo começou a fazer suas temporadas lá; e não somente o Rumo, mas também o Arrigo [Barnabé], todo mundo migrou pro SESC. Olha, depois a gente passou um período que não tinha lugar pra tocar, somente o SESC Pompeia. Não tô lembrando de um lugar legal que reunisse as pessoas. Tanto que depois… Havia um circo ali no final da [Rua] Augusta, lembra desse circo? Todo mundo do pop rock se apresentava lá. Era o point.
Almeida — Eu sei onde é o espaço, fica na [Rua] Caio Prado com a [Rua] Augusta.
Ná — Isso, ali.
Dafne — Até hoje tem circo de vez em quando.
Ná — Chamava-se Projeto SP. Lembro que todo mundo se apresentava lá. Mas ficou uma coisa muito de gravadora, de mercado. Não havia lugar pra gente. Aí a gente começou a ficar alternativo demais. Até, não sei, meados da década de 1980, toda a imprensa e o público em geral davam atenção para o que a gente fazia sendo independente. Logo na sequência veio o pop rock…
Dafne — E tomou tudo.
Ná — E com o respaldo das gravadoras, investindo tubos de dinheiro nesse mercado. Então ficou muito claro o que era regra de mercado e o que era não regra de mercado.
Max — O que era alternativo e o que era mercado.
Ná — É, porque até então, tudo era música, era mais democrático.
Tacioli — Não existia alternativo.
Ná — Não tinha isso. Também não tinham os independentes. Aí começou o tal do mercado paralelo que somente no fim da década de 1990 amadureceu. Somente então a gente aprendeu a se profissionalizar dentro da música independente. Então hoje você vê um monte de selos independentes que são hiper profissionais. Tem a Biscoito Fino, a MCD, que agora concorrem com as gravadoras multinacionais. Mas teve um buraco aí até o final da década de 1990 que foi difícil. Quem produzia música independente tinha que vender nos shows. Foi um período muito difícil pra música.
Dafne — Foram grandes ondas sucessivas de fenômenos populares: pop rock, depois sertanejo, pagode e axé…
Ná — O grande mercado.
Tacioli — Mas em relação ao pop rock… No início, o Rumo e esses grupos transitavam no mesmo espaço para depois, com a entrada das grandes gravadoras, ocorrer uma separação. Houve uma mudança nesse convívio?
Ná — Pro convívio, não. Aqui em São Paulo, quem frequenta os mesmos programas de televisão começa a se encontrar e a ficar amigo. Mas, vamos supor, os Titãs, que eram muito próximos do Rumo — alguns foram alunos do Luiz [Tatit], do Paulo [Tatit] e do Akira [Ueno] -, apesar deles estarem no mainstream e o Rumo não, o convívio sempre foi um convívio de músico. Agora, para o grande público, ele conhece o que vai para televisão. Quantas vezes não ouvi isso: “Você canta? Mas em que canal você aparece?” [risos]
Tacioli — Falando em TV, fora o programa Fábrica do Som, o Rumo…
Ná — A gente foi no Fantástico uma vez, acredita?
Dafne — Teve o clipe do Fernando Meirelles [ n.e. da música “Bem alto” ]…
Ná — Mas não deu em nada. [risos] Aquilo e nada foi a mesma coisa, porque também não era a linguagem. Acho muito complexo esse assunto, sobre o que é mercadológico e o que não é, ou o que poderia ser se fosse divulgado. Porque um trabalho como o do Rumo teve lá sua chance no Fantástico… Não sei também se basta uma aparição, mas a gente apareceu uma vez e não deu em nada. Agora, por exemplo, tive uma surpresa agradável quando participei do Festival da Globo. [ n.e. O Festival da Música Brasileira aconteceu entre agosto e setembro de 2000 e Ná Ozzetti defendeu a música “Show”, de Fábio Tagliaferri e Luiz Tatit, que lhe conferiu o prêmio de melhor intérprete ] Nunca tinha aparecido numa emissora dessas poderosas, somente nas TVs educativas. Lembro que antes de entrar no palco pra cantar, perguntei: “Quantas pessoas estão assistindo a gente?” Perguntei pra alguém da Globo. Aí falaram assim: “Olha, calculo umas 51 milhões!” [risos] Aquilo me deu um gelo. Gente, 51 milhões de pessoas vão me ver agora! E eu já era velha, não era assim, sabe, achando que tudo era natural, já tinha ralado muito, sempre tendo um pouco de controle sobre o público que estava me vendo. 51 milhões! Comecei a tremer, juro, minha boca secou. Foi muito emocionante pra mim cantar ali… E foi uma aparição relâmpago, quase nada. Ainda mais que o festival não teve repercussão.
Max — Passava tarde, né?
Ná — Teve uma repercussão negativa que a própria emissora tratou de abafar pra não denegrir a imagem. Foi uma coisa muito modesta. Mas minha carreira mudou a partir de então. No lançamento do Show [ n.e. Disco de 2001, lançado pela Som Livre e fruto de sua premiação no Festival da Música Brasileira da TV Globo ], pô, eu nunca tive um público igual aquele. Lembro que formava fila pra ver…
Max — Fui ao lançamento do Estopim [ n.e. CD de Ná lançado em 1999 pela Ná Records e relançado em 2005 pela MCD ], que é o disco anterior, e depois no Show. Era totalmente diferente. Desde a quantidade até o tipo de público.
Ná — É. E depois que lancei o Show aumentaram as vendas do Estopim, porque muita gente começou a procurar saber quem era eu. Então fiquei pensando: “Puxa, sempre fui taxada de cantora alternativa, que não tem talento pro sucesso. E eu mesma criei essa autoimagem e esse fato me mostrou que estava enganada. Que, na verdade, basta você mostrar”. Eu falei: “Puxa, consigo me comunicar com o grande público também”. Foi um flash, foi muito rápido e tive essa grande repercussão. Imagina se tivesse uma continuidade nessa exposição… As coisas teriam sido muito diferentes.
Almeida — E até hoje você colhe os frutos dessa exposição?
Ná — Então, sinto que de lá pra cá o público só vem aumentando. Depois do Show demorei um pouquinho [para lançar outro disco] e lancei o Piano e voz [ n.e. CD de Ná e André Mehmari lançado em 2005 pela MCD ], que já foi um outro momento porque já pegou também o fato de estar junto com André [Mehmari]. Era um fato inusitado até pra nós, criou um bafafá maior do que a gente esperava. Então a gente teve muito retorno e peguei um público que não era nem de festival, nem que curtia a minha trajetória, e que era um público mais da linha do André, que curtia outras coisas, que é um público numeroso até. E vice-versa, o meu pra ele. Quero dizer, a gente somou. Então, sinto que a cada novo trabalho se abre uma porta nova.
Almeida — Mesmo fora das capitais?
Ná — Sim, mesmo fora. Tenho feito muitos shows fora, em outros estados. Bom, a gente ganhou um patrocínio e fez uma turnê nacional que rendeu muito. Voltamos pra algumas cidades, fomos pra outras. Rendeu muito.
Tacioli — Essa exposição que a TV te deu em 2000 e essa percepção de que as pessoas te viram influenciou de alguma forma no seu trabalho artístico? Mesmo inconscientemente, algo que você foi perceber depois?
Ná — Não, na essência do trabalho, não. O que acontece é que a cada novo trabalho ou a cada ano que passa vou tentando desvendar essa comunicação. “Que mistério é esse da comunicação com o grande público?” E vou mexendo no repertório. Por exemplo: o Show foi completamente diferente do Estopim, porque tinha um repertório muito localizado. O Estopim foi um disco que fiz questão de trabalhar com os meus colegas de trajetória. Então ali tem o Dante [Ozzetti], o Luiz [Tatit], o Itamar [Assumpção] e o Zé Miguel [Wisnik], que até então eram as pessoas mais importantes da minha trajetória. E, de certa forma, a Suzana Salles, que chamei pra gravar “Princesa encantada”, além dos músicos presentes no disco e que montaram esse trabalho comigo. É um trabalho que tem um conceito que é o das pessoas da minha trajetória e de uma música que desabrochou em São Paulo. Foi muito claro isso. Aí no Show peguei um repertório, por sugestão da Som Livre, bem consagrado, bem nacional, mas no fim das apresentações cantava “Capitu”, do Luiz Tatit, e a galera do meu público ia ao delírio, porque se sentia presenteado, reconhecido. Piano e voz foi um repertório bem aberto, no qual a gente cantou Beatles, Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Egberto [Gismonti], Milton Nascimento. Foi um repertório muito aberto.
Max — É algum dilema pra você pensar nessa questão da comunicação com seu público e o que você fazer da sua verdade? Como equalizar essas duas coisas?
Ná — Olha, pra mim, se faço um trabalho, se me dedico a um trabalho, pra mim é ele ali. Não tenho problema com isso. Claro, se não me vejo num trabalho, nem faço. Agora, se aceito fazer o trabalho, como foi o Show ou o Love Lee Rita [ n.e. Disco de 1996 lançado pela Dabliú ], que não foram ideias minhas, foram propostas por outras pessoas, [e adoro], [aceito] na hora. O Piano e voz foi um projeto para um show do meu encontro com o André [Mehmari]. Quero dizer, a gente já tinha feito trabalhos juntos, mas bem pouco e sempre envolvendo outros artistas. Essa foi a a primeira vez que a gente montou um trabalho, mas o projeto era um piano e voz, na verdade, não era o repertório.
Max — Mas tem aquele momento do trabalho em que você pensa na comunicação com o público ou isso não…? Você tá entendendo?
Ná — Então, até hoje nunca tive isso. Agora começo a pensar um pouco mais no público, do que o público quer ouvir, do que eu, como ouvinte, gostaria de ouvir. Porque eu simplesmente fazia [os meus trabalhos], mas sem esse distanciamento de pensar: “Puxa, será que quero ouvir isso?”. E hoje tô com esse movimento interno. Estou pensando num trabalho e fico: “Gosto de ouvir isso? Eu compraria esse disco?” [risos] É gozado, né?
Tacioli — Mas aí você compraria.
Ná — Eu, né? “Eu ouviria esse disco?” Mas não é um pensamento mercadológico porque acho que essas coisas são relativas…
Dafne — “Será que os fãs de Capitu vão gostar de…”
Ná — É, já vi isso acontecer. Quando você tem uma força numa linha de trabalho, e aquilo tem a ver com sua personalidade, ali está sua força. Não adianta você querer fugir daquilo. Não adianta querer ser o Zezé di Camargo & Luciano que nunca vou fazer tão bem. Nunca vou convencer o público deles com a voz que tenho, com meu jeito de ser. Não vai ser autêntico. Dei um exemplo extremo, mas sei lá, não adianta querer fazer uma coisa que não sou. Então, acho que quem faz sucesso, faz porque tá no trabalho certo, com a personalidade que lhe condiz e que tem a ver com aquele trabalho. Porque senão não cola. Então nunca me preocupei com a coisa vista de fora. Sempre me preocupei em ser a Ná, porque quem gosta da Ná, vai gostar porque ela é autêntica, ela é o que ela é. E não porque, sei lá, né? Mas a gente nunca para de evoluir. Não dá pra dizer que sou assim e pronto. Aí você começa a estagnar sua criatividade. Então me dou essa liberdade de seguir algum impulso e sinto que o movimento hoje é esse. Consigo ter esse distanciamento naturalmente.
Tacioli — Se acostumar com o trabalho é uma visão muito de artista antigo. Não pode mudar, não pode desagradar meu público…
Dafne — Uma fórmula.
Tacioli — Sei lá, o Jorge Veiga se apresentava somente de smoking porque o público dele tinha que ser bem recebido e ele nunca poderia se apresentar de outro jeito. Ou cantores que não podem cantar certas coisas porque o público não vai gostar. O foco está no público. Pelo que entendi, você coloca esse foco em você e agora está abrindo um pouco mais isso.
Ná — É, minha postura é essa, mas não vejo problema nenhum no artista também… Nem gosto de falar que está engessado, porque não é engessado, na verdade. Porque, por exemplo, se você pega o Roberto Carlos… na medida que virou cantor de música romântica ele permanece igual há anos, não ousa mudar. Quero dizer, não tem sentido o Roberto Carlos mudar aqueles arranjos, aquele terno azul que ele veste, aquele jeito de cantar. Aquilo em si já supre todas as necessidades de quem vai escutar o Roberto Carlos.
Tacioli — Supre a sua?
Ná — Não compro disco do Roberto Carlos, mas já fui no show dele e fiquei em estado de êxtase de ver uma pessoa… de ver o Roberto Carlos. Vou abrir outro paralelo: João Gilberto. João Gilberto, longe de ser engessado, é uma coisa impressionante também. Ele é o João Gilberto e você vai ali pra ter contato com aquela música absoluta que somente o João Gilberto faz. Então ele não precisa ficar se renovando, se recriando. Mas isso é uma característica dele. Jorge Ben, a mesma coisa…
Dafne — Todos esses casos são de artistas que acabaram ficando maiores que suas próprias músicas.
Ná — Não maior que a música. Acho que você não consegue mais diferenciar o que é música e o que é persona. Acho que é isso. A mesma coisa com o Tom Jobim. Ele compõe daquele jeito desde sempre e é aquela música absoluta. Agora, cada um tem seu caminho. Eu acho que vivo a música o tempo todo e isso tem a ver com meu jeito de ser na vida, tá claro?
Tacioli — Antes da gente começar oficialmente a entrevista você dizia que estudou os cachorros, como também as árvores. Essa questão da profundidade, quando você gosta de um assunto, sempre permeou sua vida? Gostar de cachorro é uma coisa, mas gostar e estudar é outra… [risos]
Ná — Estudar cachorro… [risos]
Tacioli — Tem uma ciência.
Dafne — E o estudo.
Tacioli — É, o estudo, o Rumo também tinha um estudo. Isso é uma constante na sua vida?
Ná — É, acho que sim. Tudo que gosto e que me interesso, gosto de ir a fundo. Mas do meu jeito. Não sou uma pessoa acadêmica como o Luiz [Tatit] que tem essa facilidade de teorizar. Não sou teórica, sou completamente o oposto. Tenho facilidade de pegar a teoria e trazer pra prática, pro corpo, entende? Essa é a minha facilidade, de transformar isso em canto, em expressão. O que gosto é isso. Porque, engraçado… tive uma trajetória de estudos na minha vida… Quando era criança, sempre gostei dessa coisa de brincar, de criar. Detestava a escola. O meu barato era ficar imaginando do que ia brincar quando chegasse em casa. Então ficava ali delirando. E quando chegava em casa largava meu material e ia brincar daquilo que já tinha começado em pensamento lá na escola. Meus irmãos eram estudiosos, passavam de ano com as melhores notas e eu sempre raspando. Nunca repeti de ano, mas sempre passava no susto. E não gostava, não me interessava pelas matérias da escola. As únicas matérias que me interessavam era teatro e expressão corporal. Música também. Tinha a maior facilidade, quando tinha que cantar, era a mais afinada. Gostava dessas matérias, educação física, essas coisas. Ah, ia bem em português e inglês. Mas matemática, exatas, essas coisas, nossa, não sei como passava de ano! Então, quando entrei na faculdade, que era de Artes Plásticas… Gente, foi a primeira vez, já com 18 anos, que senti prazer em ir pra escola. Aí tudo que queria na vida era ir pra escola e fazer os trabalhos, porque eram práticos. Gosto de coisas práticas! Não sou uma pessoa que fica ali nos livros, sabe? Claro, gosto de ler, adoro ler, tudo, mas não sou uma devoradora de livros. Mas na faculdade, juro, acho que era a maior CDF da turma. Os professores mandavam fazer uma versão do trabalho e eu fazia três versões da mesma composição. Era assim com tudo que gerava interesse. Com a música também. Ia fundo. Quando entrei no Rumo fui estudar canto lírico. E a minha professora, a Cláudia Mocchi, tinha muitos alunos, mas ela dizia que eu era a mais estudiosa. Nunca deixei de preparar nada à exaustão. Então, gosto dessas coisas práticas. Agora, por exemplo, quando comecei morar aqui no mato me afeiçoei às árvores. E, como expliquei antes, tirei os eucaliptos… Queria fazer um reflorestamento, mas não entendia de árvores, não sabia que árvore era o que, então aí sim fui estudar. Então é assim, mais na coisa prática mesmo.
Max — Como você se vê como artista? Qual a sua função como artista? Você pensa nisso?
Ná — Não penso muito nisso, da minha função. Eu faço, não sei…
Max — Não no sentido de ser útil, mas qual o seu ofício, qual o mandato da artista?
Ná — Na verdade, faço música por amor à música. Não consigo me ver sem… Já tentei no começo, na época do Plano Collor… [risos] Realmente foi uma época [difícil], estava começando minha carreira solo, de forma até independente, porque lancei [meu primeiro disco] pela gravadora Continental, mas não tive muito retorno. Foi uma época em que meus trabalhos, os poucos que tinham na época, zeraram totalmente. Então pensei: “Puxa, acho que já era a minha carreira, não dá, não vejo a menor perspectiva”. E daí comecei a pensar no que poderia fazer que não fosse música. Falei: “Vou ter que arrumar uma outra profissão”. Até tentei montar uma fábrica de macarrão com um amigo meu. [risos] Mas ele não quis; ele fazia macarrão muito bem. Mas, enfim, nesse momento ficou muito claro que não poderia fazer outra coisa bem, que teria que fazer música mesmo. Ficou muito claro isso. Por sorte foi um momento em que dava aulas de canto e tive muita procura. Tinha uns 25 alunos e dava 25 horas de aula por semana. Isso me sustentava, começou me sustentar legal e aí pegava esse dinheiro e fazia aula de dança com ele, fazia os cursos que queria fazer, fui estudar piano com o Ricardo Breim. No mínimo queria ser feliz. [ri] Então, sou feliz fazendo dança, fazendo piano, sei lá, convivendo com a música pelo menos. Só que, felizmente, as coisas vão mudando e surgiu logo uma oportunidade. Como não estava fazendo shows, tinha todo tempo pra fazer o que quisesse. Concentrava todas as aulas em dois dias e ficava que nem louca. O resto da semana era livre. Então foi aí que comecei a compor. A composição também veio pelo prazer, não porque queria fazer um disco. Achava que minha carreira já era nesse momento. Então falei: “Vou ser uma pessoa feliz que faz música, canta, dança, toca piano”. Mas o que aconteceu é que… já tinha um monte de composições, porque comecei a compor com o Itamar [Assumpção], com o Luiz [Tatit], tudo de farra. E surgiu a oportunidade de gravar esse disco, Ná. [ n.e. Segundo álbum da cantora, lançado em 1994 pelo selo Núcleo Contemporâneo ] Lembro que foram uns dois anos nessa vida [ri], nesse período sabático. [risos] E minha carreira tomou novo rumo a partir de então.
Almeida — Desses alunos que você teve, algum se tornou profissional?
Ná — Sim; é que não gosto muito de falar, né?
Almeida — Ah, não, é indelicado?
Dafne — De nomes?
 — É que parece que tô querendo me gabar. [risos]
Almeida — Vou tentar outra pergunta.
Dafne — Teve algum que estourou? [risos]
Daniel — Alguém deve pra você? [risos]
Ná — Não, ninguém deve pra mim. Fui professora da Rita Ribeiro. Quando ela veio do Maranhão, ela teve, acho, um ano de aula comigo. Aliás, já era ótima nessa época e foi uma aluna que falei… “Nossa, essa aí vai…”.
Max — Você tinha prazer em ensinar?
Ná — Sim. Ver uma pessoa progredir… Tem alunos que te dão muito prazer, uns mais que outros. Sim, tinha muito prazer em dar aulas. Hoje é difícil conciliar porque sobra pouco tempo, mas naquele momento… Tinham alunos que me estimulavam. É engraçado quando você tem que atender individualmente alguém. Não somente dar aulas, mas quando a pessoa faz aquilo de forma meio arrastada, ela não vai a fundo, não demonstra muito interesse, juro, parece que você está carregando chumbo. Cantava de dar dor nos músculos pelo esforço que fazia de tentar passar alguma coisa pra aquela pessoa. Agora, quando a pessoa tem interesse… Nossa, pegava uma carona nessa energia e ficava com muita vontade de fazer aquilo com mais estímulo. Então, a Rita [Ribeiro] era uma pessoa assim, porque ela tinha aquilo muito forte como objetivo. Era uma aula estimulante. Tô citando a Rita [Ribeiro], mas muitos outros alunos me geravam esse estímulo.
Tacioli — Era aula de canto? Como se definia essa aula?
Ná — De técnica vocal.
Tacioli — E, na média, o que as pessoas esperavam ao fazer essa aula com você?
Ná — Elas queriam cantar. Desde gente que tinha vontade de ser profissional, gente que já era profissional, gente de teatro, de dança também. Até aparecia gente que era, sei lá, professor de educação física que não tinha a menor musicalidade. Nossa, eu queria morrer [ri], mas esses não duravam muito. Já mandava ir pra uma fono. [risos] Meu papo é música.
Dafne — Não é gagueira! [risos] E esse período de aulas durou quanto tempo?
Ná — Dei aula muito tempo, porque no Rumo todo mundo tinha outro trabalho e eu não. No começo era estudante de Artes Plásticas e depois cantora. Mas logo na sequência precisei começar a me sustentar. E o Rumo não dava dinheiro. Daí o Paulo [Tatit] percebeu esse meu dilema e começou a falar: “Ná, você precisa ter um sustento, porque o Rumo não vai te sustentar; porque você não dá aula de canto? Eu dou aula de violão, o Akira [Ueno] dá aula de violão; você podia dar aula de canto”. E eu nunca tinha dado aula. Aí ele falou: “Sabe que você pode fazer? A gente vai ser suas cobaias. Então você dá aula pra gente, dá o que a sua professora te dá”. Aí dei aula pro Akira [Ueno], pro Paulo [Tatit], pro Pedro [Mourão]. Passava o que a minha professora começava a dar. Daí os vizinhos começaram a me procurar. E aí eles [Paulo e Akira] começaram a me mandar os alunos deles. Então… Ah, sabe pra quem dei aula? Pro Tony Bellotto antes dos Titãs. Ele era aluno, não sei se do Luiz [Tatit], mas alguém mandou pra mim.
Almeida — E o piano que você estudou? Você pensa em se apresentar tocando?
Ná — Não acho que toco piano suficientemente pra me apresentar. Fico com muita vergonha, mas gosto de tocar, só que por enquanto não penso em me apresentar, não.
Tacioli — De instrumento… é somente piano?
Ná — Piano. Toco também um violãozinho básico. Só sei aquelas posições básicas.
Almeida — Pra compor você usa os dois?
Ná — Uso o piano. Toco mais piano.
Tacioli — Ná, como você lida com o fim das coisas?
Ná — O fim? Depende do que, né? [risos] Tem coisas que dou graças a Deus que terminam, tem coisas que são muito dolorosas, depende do quê…
Tacioli — Fim da vida.
Ná — Não gosto nem de pensar nesse assunto. Mas é engraçado… A coisa que tinha mais medo de enfrentar na vida, já enfrentei. Agora tenho outros medos. Sempre achei que não ia suportar perder meu pai. E quando isso aconteceu foi de uma forma que entendi, de verdade, que era uma coisa natural. A gente sabe que é o fim, mas o difícil é você viver o momento. E vivi essa passagem de uma forma muito serena. É claro que dói, é muito difícil, mas foi de uma forma muito mais serena do que imaginava. Então acho que as coisas tem o seu momento e elas acabam mesmo, qualquer coisa, até um trabalho. Nunca tenho pena de terminar um trabalho. Quando tô sentindo que ele já deu, já sinto vontade de ir pra uma linha nova, de experimentar algo totalmente novo. Então, acho que lido assim.
Tacioli — E espiritualidade, tem isso?
Ná — Sou super espiritualizada. Não sou espírita, também não lido com religiões, nenhuma. Acho que fecha demais. Tanto que não sou praticante de religião nenhuma. De nascimento sou católica e sou religiosa. Rezo. Eu me sinto muito melhor nos dias que rezo. No dia que não rezo parece que algo faltou. Então, tenho muita necessidade dessa prática religiosa, mas de uma forma que, pra mim, é um mistério. Simplesmente rezo e não fico pensando o que vai acontecer comigo depois que morrer. Mas sei que a minha essência, de alguma forma, vai ficar. E dos que se vão, dos que partiram até hoje, não sei, algo continua.
Max — No mínimo em que fica.
Ná — Pois é, mas acho que cada ser é muito complexo, muito poderoso pra virar nada, pó. Isso pra mim, né? Acho que não justifica a vida.
Almeida — Mas qual é essa continuidade?
Ná — Isso pra mim é um mistério. Não sei e não tenho curiosidade de saber. Porque já li livro kardecista e não me identifiquei. Não tô falando mal de nada, estou falando de uma coisa pessoal, de identificação mesmo. Com qualquer religião. Já frequentei budismo, que é uma religião em voga no mundo. Tem algumas coisas do budismo que me identifico demais, mas algumas coisas sempre caem naquela coisa do dogma. Então prefiro não seguir religião nenhuma. Agora tenho me identificado muito com a ioga. Na ioga, a gente tem uma prática de meditação e os próprios asanas são… como fala, eles dizem essa concentração faz com que você, sei lá… Vocês querem ir por esse caminho? [risos]
Almeida — Sim.
Ná 
— Tem uma coisa que acho muito interessante e que meu professor de ioga fala porque a gente fica muito na mente… O que é a meditação? O que é a oração? É abandonar sua mente um pouco, sair dessa coisa racional e entrar numa outra frequência. É você permitir isso. Acho que a natureza vibra, são frequências, então acho que a oração é você se conectar com a natureza, com o cosmos, que é um mistério também. O que existe além da Terra? É muito grande isso tudo, sabe? Acredito em Deus, acredito nessa grandeza toda. Então sinto que a minha necessidade de oração é uma necessidade de conexão diária, como um alimento. É como se estivesse presa a um cordão umbilical com algo que rege tudo isso. E a oração é uma forma… Alguém criou essa oração, que é um mantra, que seja, que é uma forma de estabelecer essa conexão. E aí voltando a ioga: tem uns asanas que são muito difíceis de fazer. Tem umas posturas que você tem que ficar lá e, na verdade, não é pra você ficar curtindo a dor que aquela postura traz mas, por meio da respiração, você para de sentir e pensar na dor e transfere pro corpo, e aí para de doer. Então, você para de estabelecer aquela dificuldade. Tudo que você vai botando na mente, na hora de fazer algo difícil, você para de pensar e vive aquilo. Acho isso o máximo. É uma sabedoria! Porque a coisa é que você viva a vida com seu corpo que está aqui, tenha a saúde do corpo pra viver a vida, e não ficar pensando na dificuldade que isso tem pra você. A ioga, de certa forma, e o caminho com a espiritualidade é assim também, você vive a sua vibração, porque depois você vai ficando com o corpo muito… Nossa, tô falando de uma forma tão hermética.
Tacioli — Não, tá bom.
Ná — Mas é que na cultura hindu eles não separam espírito de corpo. Ao mesmo tempo em que a ioga tem uma prática que é física, que trabalha os alongamentos, isso vai gerando saúde também porque vai abrindo os canais de energia dos órgãos. Então, a energia vai fluindo melhor, seus órgãos ficam mais oxigenados, mais alimentados e, ao mesmo tempo, aquilo vai dando uma transformação no seu ser, porque a partir do momento em que você para de se reger tanto pelo racional, seu corpo e mente ficam um todo. E você já fica com uma ética que vem naturalmente. Comecei a fazer ashtanga e tem até uma explicação teórica sobre a prática da ashtanga… Mas é que você, pela prática do corpo, vai aprimorando seu ser. Então você vai ficando uma pessoa melhor. Você vai entendendo melhor o outro, onde está o seu papel, até onde você vai. E é muito bacana. É a totalidade. Acho que é esse o caminho da espiritualidade. É o caminho da vida, na verdade. Comecei a fazer ioga em São Paulo, mas quando mudei pra cá fiquei um tempo sem fazer. Depois voltei a fazer e comecei a ashitanga também. Hoje em dia faço aqui em casa mesmo, tento praticar diariamente. A ioga tem essa vantagem.
Tacioli — O Neco não acompanha, não?
Ná — O Neco é um peixe. Ele nada. [risos]
Tacioli — E no sítio, qual é o seu espaço predileto?
Ná — Depende. A gente vai criando uns cantinhos nossos. Tenho um quarto, que é o quarto que estudo canto e que pratico ioga. É meio um quarto das bagunças minhas. Preciso ter esse cantinho. Gosto muito desse cantinho do piano. Vira e mexe tem esse negócio de computador que puxa a gente. Então, sinto que tenho que ir pra lá, sabe? Pegar meus e-mails… É uma cachaça! É um cantinho que gosto de ficar, mas não tem assim um cantinho predileto, sei lá.
Neco — O cantinho da Alice.
Ná — Tem aquele cantinho que fiz pra Alice, mas…
Neco — É um banquinho ali.
Ná — Botei um banco porque a Alice Ruiz, poeta, ela vem muito aqui. E toda vez que ela vem pra cá, não sei, ela diz que se inspira e fica fazendo haikais e ensina pra gente, que faz haikais também. E aí tem um cantinho ali embaixo da mangueira que ela gosta muito. O cantinho da Alice, na verdade, é sentar ali na beira da piscina, passar o dia… Se bobear ela passa o dia na piscina, né, Neco? Mas não dentro da água. Ela passa o dia ali fazendo os haikais dela. E ela gosta de olhar pra aquela mangueirinha que tem ali. Aí resolvi fazer um jardim e botei um banco lá. Agora sim, tem um cantinho da Alice. Mas ela gosta é de ficar aqui olhando pra lá. [risos]
Tacioli — Olhando pro cantinho dela. Mais alguma coisa, gente?
Almeida — A gente foi somente pra trás. E o que você está fazendo daqui pra frente?

Ná — Tô com dois projetos paralelos. Surgiu um terceiro agora. [ri] Vou tocar os três ao mesmo tempo. Um é mais imediato, até o Tacioli sabe porque a gente está fazendo junto, que é interpretar músicas da Carmen Miranda. [ n.e. O CD Balangandãs foi lançado no primeiro trimestre de 2009 pela MCD ] Já tenho uma série de shows agendados desse projeto. E a gente está agora tentando patrocínio pra gravar um disco e um DVD. É um projeto grande. Esse não foi um projeto meu, partiu da MCD. Eles que trouxeram essa ideia e adorei imediatamente. E aí tomei como um projeto que tô tocando. Antes disso eu vinha trabalhando com composições inéditas. Tenho feito músicas, outros compositores tem me mostrado, estou montando, devagar, um repertório. Quero gravar um próximo disco também, uma coisa mais na linha do Estopim, só que não exatamente o Estopim…
Almeida — O Estopim de hoje.
Ná — E agora surgiu um projeto… Lá no Rio de Janeiro, na Sala Cecília Meireles, o Sérgio Natureza [ n.e. Compositor carioca, parceiro de figuras como Paulinho da Viola, Tunai, Eduardo Gudin, Lenine e Filó Machado ] bolou um projeto pra fazer um link com os concertos eruditos que tem lá. Então ele convidou um monte de gente que faz música popular pra fazer um diálogo entre o erudito e o popular. Ele me convidou e aí vou fazer junto com a Dante [Ozzetti] e aquele violista, o Ivan Vilela. E hoje mesmo comecei a pensar no repertório. Já é um trabalho completamente diferente dos dois projetos [anteriores]. E daí tô empolgada porque comecei a ter umas ideias bem legais.
Tacioli — Mas o repertório…
Ná — O Sérgio [Natureza] sugeriu que cantasse alguma coisa de Villa-Lobos, de Alberto Nepomuceno, mas que também cantasse o “Bambino”, do Ernesto Nazareth. Mas ele acha que o “Ultrapássaro”, do Dante [Ozzetti] tem a ver com esse tipo de composição. Aí, baseado nisso, nessas ideias que ele me deu, comecei a fazer uma ligação de uma coisa com a outra e daí começaram a surgir muitas ideias legais.
Tacioli — Aí é o Ivan, você e o Dante?
Ná — Só nós três.
Tacioli — Você já tocou com o Ivan Vilela alguma vez?
Ná — Não, nunca. Chamei o Ivan pra esse projeto e ele gostou.
Tacioli — Já o conhecia, então?
Ná — Já.
Tacioli — Ele está em Minas?
Ná — Não, ele agora está em Campinas. Ele é de Minas, foi pra Ribeirão Preto e agora está em Campinas.
Dafne — Só mais uma. Você falou de projetos que vieram pra você, projetos que você foi atrás. Na sua carreira solo, você tem algum balanço, de você ir mais ou de receber mais e encampar?
Ná — Acho que no começo sempre conduzi mais os meus projetos. Aí surgiu o Love Lee Rita, mas logo em seguida veio o Estopim. Agora estão surgindo muitos convites… Acho que agora está vindo muito mais de fora. Até tem tomado mais o tempo que tinha colocado pra me dedicar às coisas que só eu tenho a ideia. Por exemplo: na sequência do Show, veio o Piano e voz, mas quem iria acontecer era esse tal trabalho de músicas inéditas. Estava lá com o quarteto, que inclusive vai fazer comigo o Carmen Miranda, e que continua fazendo esse trabalho. É o [Mário] Manga, o Sergio Reze, o Zé Alexandre [Carvalho] e o Dante [Ozzetti]. Estava trabalhando com eles, aí apareceu o Piano e voz, que deu tão certo… Tudo era mais fácil nele do que no outro projeto. Foi mais fácil gravar disco, mais fácil lançar, mais fácil fazer os shows, tudo foi mais fácil. Esse trabalho rendeu três anos, mas continuei levando o outro. Agora surgiu esse da Carmen Miranda, que é um projeto que, quando a gente fala… Tanto que já agendei shows e nunca aconteceu isso. Nem existe o trabalho ainda e já tem uma agenda de shows, de lançamento de um disco que nem foi gravado. [risos] Então, é uma coisa em que a ideia está mostrando que é forte, somente isso. Tudo bem, vamos em frente. Acho legal isso também. De certa forma não tô deixando de fazer nada… Só tô deixando de gravar os outros projetos, porque, de certa forma também, se não tivessem surgido esses outros projetos, nem sei se teria gravado esse outro disco. Porque gravar disco é caro. Não tenho dinheiro para gravar. Ainda bem que surgem os projetos que vão rendendo shows, o que movimenta tudo. Na hora que tiver que gravar, gravo os outros.
Tacioli — Mais alguma? Ná, obrigado por ter recebido a gente aqui.
Ná — Imagina!