NANÁ VASCONCELOS [2006]

O percussionista já tocou e ainda toca com Deus e o mundo. Todos os sons lhe interessam, novos ou velhos.

Naná Vasconcelos: “Jimi Hendrix e Villa-Lobos são meus ídolos!”. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Quem vai ser o entrevistado ou entrevistada? Pergunta simples, quase. Alguém do universo infantil ou vamos abrir o leque? Difícil. Podia ser alguém que começou a carreira ainda criança. Ou que trabalhe com elas. O tempo passando e as tarefas da produção do Matinê Gafieiras 2006 (n.e. Especial infantil para adultos realizado pelo site entre 2005 e 2007) se acumulando. Tentamos uns e outros, até que, do nada, o chapa Sérgio Fogaça, do site Página da Música em momento assessor de imprensa, apresentou uma pauta chamada Naná Vasconcelos. Foi bem assim, em poucas linhas, que o Matinê ganhou uma entrevista com o homem que usa a Lua como celular.

Percussionista, compositor e produtor, Naná já tocou e ainda toca com Deus e o mundo. Todos os sons lhe interessam, novos ou velhos. E ainda gosta de ensinar, principalmente crianças. Ele divide o bolo com todos que se interessam pela sua receita. O olhar baixo, como se estivesse sempre com sono, e a fala mansa servem como fachada de uma cabeça em múltiplas atividades. Naná não pára. Pode acreditar.

Encontramos com o pernambucano no flat que sempre fica em São Paulo (o mesmo em que, aliás, entrevistamos Cristina Buarque alguns andares abaixo há quase cinco anos). Estava na cidade entre compromissos com o lançamento de um novo disco, Trilhas (Azul Music), e uma participação no show-homenagem a Itamar Assumpção que reuniu inúmeros artistas em duas noites no SESC Pompeia.

Ao lado do inseparável berimbau que, às vezes, lhe tomava a voz, Naná falou, esqueceu, lembrou, tocou, respondeu, sentou, ficou de pé e esquentou a noite fria ao afirmar que achava o medo uma coisa linda. Como assim coisa linda? Foi aí que o berimbau tomou à frente, explicou e tudo fez muito sentido.


{…} expediente

entrevistadores Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Henrique Parra, Max Eluard, Renato Nery e Ricardo Tacioli 
produção Ricardo Tacioli 
fotos Henrique Parra 
transcrição Marllon Chaves 
registro audiovisual Max Eluard e Renato Nery 
edição de texto Ricardo Tacioli
texto de abertura Dafne Sampaio 
agradecimentos Sérgio Fogaça

Entrevista realizada em São Paulo/SP em 27 de setembro de 2006.


DANIEL ALMEIDA — Naná, você se lembra da primeira vez que viu um berimbau?

NANÁ VASCONCELOS — Não. Isso é normal lá em Recife. A capoeira, a história do Zumbi, que é relacionada à dança e à luta da capoeira. Então, ver o instrumento é normal, mas eu nunca havia tocado. Aí nós fizemos um movimento de cultura popular em Pernambuco, lá em Recife. Naquela época as artes eram muito juntas. Havia teatro musicado, o Arena conta Zumbi, as coisas do [Augusto] Boal. Havia muitas peças que misturavam teatro com música, com música folclórica. E lá em Pernambuco fizemos a nossa versão, chamada Memórias dos cantadores. A idéia era fazer uma pesquisa dos folclores do Nordeste e montar um show. Como o folclore muda de um estado para o outro, quando o espetáculo chegava na Bahia, tinha que mostrar a capoeira. E foi aí que eu aprendi a tocar berimbau e alguns toques de capoeira, como o São Bento Grande, São Bento Pequeno, Angola e Cavalaria. Depois dessa temporada, fiquei com o instrumento em casa. O berimbau é muito espiritual e virou uma missão pra mim. Como eu era baterista, comecei a pensar o berimbau como uma bateria. Eu fazia outros ritmos que não eram do berimbau. Então, parei tudo e falei: “Vou fazer direito um instrumento desse pra mim”.

DANIEL ALMEIDA — E como você escolhe o material?

NANÁ VASCONCELOS — Intuição. Eu vi como era o processo de fazer: você pega a biriba, enterra no bafo do fogo, aí amolece pra ela secar já envergada. Depois eu passava sebo de boi, pra secar e deixar flexível. Hoje eu não faço força nenhuma pra mudar a corda. É a mesma biriba, tá lá, eu sempre trato dela, está sempre brilhando. A corda é Steinway, dos pianos Steinway. Corda de piano com a qualidade do aço, mas comprei na Alemanha, quando gravei lá. O berimbau virou o carro-chefe do negócio, o maestro da coisa, o pai grande. O berimbau nunca foi utilizado como instrumento, porque era e é um elemento da capoeira. O centro da história é a dança. O berimbau está lá para acompanhar e nunca foi utilizado como instrumento solista. Mas essa coisa veio pra mim. Essa história é maluca, viu? Saí da capoeira e fui para os outros ritmos que não têm nada a ver com ela. Tudo que faço hoje sai do berimbau. Foi ele que me fez usar a voz. O berimbau que me fez pensar em sons, em música. Pra mim tudo é música. A cuíca não foi somente feita para o samba. Ela é um instrumento. Eu botei a cuíca num blues do B. B. King. [risos]

RICARDO TACIOLI — Mas em algum momento o berimbau tirou você do sério?

NANÁ VASCONCELOS — Não. Eu penso que não tem essa coisa de tirar do sério. A coisa mais engraçada que tem é ficar sério. E a mais séria que tem é ser engraçado. [risos] Eu sou um cara sério; e sou engraçado. [risos] Não, ele simplesmente mudou a minha concepção, a minha maneira de ouvir. Ele me levou ao silêncio. O berimbau é muito zen. Tudo nesse chacra, sabe?! [indica a região abdominal] É corpo e alma. Ele me fez entender que o primeiro instrumento é a voz, e o melhor é o corpo.

MAX ELUARD — Naná, de todos os instrumentos que você conhece, você acha que o berimbau é o mais orgânico? Ou você pode ter esse tipo de relação com qualquer instrumento?

NANÁ VASCONCELOS — Você pode ter esse tipo de relação com qualquer instrumento. Até com o eletrônico a sua relação pode ser orgânica, mas somente a partir do momento em que você pesquisa um som, um timbre. Tem que haver uma procura… Tem DJs interessantes que fazem uma música bem orgânica. O DJ Dolores tem esse lado. O berimbau me dá uns puxões de orelha: “Vamos estudar, vamos estudar!” Isso é bom para nunca pensar que já sabe tudo, que terminou; tenho muito para descobrir, mas que depende do estado de espírito, do equilíbrio. Normalmente quando trabalho com criança chego mais perto desse estado, que eu gostaria de vivenciar mais, mas não é fácil, não.

MAX ELUARD — Mas o berimbau te ajuda a encontrar esse equilíbrio ou você precisa estar equilibrado pra se relacionar com ele?

NANÁ VASCONCELOS — Não, ele me ajuda a encontrar esse equilíbrio. Mas, por outro lado, tenho que estar muito equilibrado pra encontrar o que ele tem pra me mostrar. [risos]

GAFIEIRAS — Naná, como você percebeu que poderia ser um solista?

NANÁ VASCONCELOS — Nunca fiz parte de nenhum grupo. Sempre fui convidado especial. Quando o Milton [Nascimento] criou o Som Imaginário, eu não participava, era somente convidado. “Não, não quero ficar agarrado a um determinado estilo. Um dia vou ter o meu negócio.” E foi lá fora que, viajando e tocando com o Gato Barbieri e com Ron Carter que descobri que tinha uma coisa. Eu tocava a música deles, fazia o meu trabalho de percussão para a música deles, e no meio do concerto, eles me davam dois, três minutos pra solar. Tudo isso se deve ao berimbau; é uma coisa que ninguém nunca tinha visto antes. “O que é aquilo, um cara com um arame, um pedaço de pau, e fazendo esses sons?” Aí tomei mais consciência e passei a montar um trabalho meu. Procurei músicos brasileiros que moravam em Paris. E era difícil, porque estava todo mundo fazendo o que era moda, que era bossa nova, e eu querendo ir lá pra cantar aboios, fazer um trabalho com o corpo. Era uma época de criação, de procurar formas diferentes. “Eu posso fazer o meu. Posso ser um solista. Mas como vou fazer com que um concerto de percussão seja musical?” E eu nunca pensei em cantar. Até hoje eu não penso em cantar. Uso a minha voz como outro instrumento, que também veio do berimbau. Então, fui me organizando. Engraçado, mas foi o Villa-Lobos, por meio do “Trenzinho caipira”, quem me mostrou que a música tem uma força visual muito grande. Ele constrói o trem e põe você na janela pra ver as paisagens do Brasil. Isso mexeu muito comigo. A música tem esse aspecto visual. Ao mesmo tempo em que trabalhava com crianças fora do Brasil, eu sentia necessidade de me agarrar às coisas que a gente não tem lá. As coisas naturais, de quem vem de países de trópicos, como o Brasil. Aí comecei a fazer instrumentos. O berimbau é um exemplo, porque a cabaça é uma fruta. Ela fechada já é um instrumento, porque tem as sementes. Quando você a corta, ela serve de caixa de ressonância pra muitos instrumentos, como a cítara e a tambura indianas. Então era importante eu falar pra essas crianças sobre a natureza. Isso eu falo agora com mais clareza, com mais consciência, mas foi um processo de aprendizagem, de evolução. Estou sempre aprendendo com as crianças. Cada vez mais a gente sabe menos. Pensando assim, eu nunca estou conformado. Acho muito importante também desenvolver a escuta, não ter medo do silêncio. Não esconder as suas raízes, porque foi isso que fez com que eu não perdesse a minha identidade. Se eu tenho alguma fama lá fora, foi porque não pareço com nada que é deles. Nunca quis ser eles. Descobri que eles não tinham o que eu tenho, não tinham o mesmo material, a minha miscigenação… O Brasil pode ser um fenômeno; muitas coisas vieram da África, mas hoje não se encontram mais porque os colonizadores acabaram com tudo. O ponto mais importante, nesse caso, é que o Brasil é o único país que deu essa coisa. O samba é um exemplo disso. A cuíca veio do Congo, mas o pandeiro dos ciganos. E ele é árabe. O africano diz: “Esse instrumento é africano, mas nunca vi tocado dessa maneira”. E foi o Jimi Hendrix quem revelou pra mim que os instrumentos não têm limitações. O que ele fez com a tecnologia existente naquela época, até hoje, com toda a tecnologia que existe, ninguém fez e faz. A sonoridade de músico, de quebrar as barreiras, de procurar, de aceitar, de encontrar. Enquanto os músicos de música moderna estavam procurando o silêncio, ele buscava a microfonia. Tudo isso fez parte dessa geração da qual pertenço. Foi um momento muito importante para o mundo.

GAFIEIRAS — Naná, de onde veio o seu interesse em trabalhar com crianças?

NANÁ VASCONCELOS — Eu fiz o primeiro disco, chamado Africadeus, lá em Paris. Aí um dia me convidaram pra ir num programa de televisão, num desses programas com crianças. Ia um doutor, uma autoridade da psiquiatria infantil da França. E me convidaram por causa dos sons que eu tirava. Eles iam falar sobre o sonho. E cheguei no estúdio do programa começar e as crianças já estavam lá sentadas esperando. Simplesmente toquei o berimbau. “Oh, mas o que é isso?” E o doutor, que estava observando, ficou louco! E como já estava lutando com o governo pra abrir um projeto da não-técnica, da não-musicoterapia, e queria uma pessoa livre, ele me convidou. A idéia dele era fantástica! “Mas eu não falo francês!”, eu disse. “Não precisa. Quero é o que você faz com a música.” Aí ele me explicou um pouco e foi assim… Fui e comecei a entender. Eu, não o músico, mas a música. E a música é a mais imediata das artes, porque mexe com os sentimentos, vai do silêncio ao grito. Uma criança para ficar alegre ou se acalmar ou toma um comprimido, uma injeção, ou ouve uma música. Havia eu, com música, e um pintor, que trabalhava com cerâmica… E foi aí que fui me agarrar mais ainda às minhas coisas, as coisas do Brasil. Falar da natureza, mostrar como eu fazia instrumentos com coisas que vinham de árvores. Aprendi isso com as crianças e também a me centralizar mais. Mostrei a elas, por meio da música, a respiração, o ouvir, a ficar em silêncio.

GAFIEIRAS — E por quanto tempo manteve esse trabalho?

NANÁ VASCONCELOS — Eu fiquei dois anos e meio trabalhando nessa clínica.

GAFIEIRAS — E depois no Brasil, não?

NANÁ VASCONCELOS — Aqui eu fiz muito pouco. Tenho um projeto itinerante chamado ABC Musical, que é um absurdo que não seja feito em todo o país. Cada estado nosso tem uma orquestra que é do estado ou do município; tem um teatro, que é do estado ou do município; e ainda tem as escolas públicas. É para fazer em todas as cidades do Brasil. Coloquei juntas três suítes de músicas folclóricas brasileiras. Cada canção da suíte vem de uma região. E o maestro Gil Jardim, que trabalhou comigo, abraçou essa idéia pra arranjar tudo pra a sinfônica. Numa cidade, visito as escolas públicas com crianças de sete a dez anos, que é uma idade ótima pra lidar com essas coisas. Aí começo a selecioná-las e fico com 700. Foi assim em São Paulo. Passei o pente fino pra ficar com 100, 120 crianças que cantavam. Não quero um coral. Se quisesse ia diretamente num coral. Mas é para a criança aprender sobre o Brasil por meio do folclore. Tem a música do amanhecer: [canta] “É de manhã, vou buscar minha fulô / A barra do dia vem, e o galo cocorocô / É de manhã, vou buscar minha fulô”. É da Bahia isso. “Iaiá vem ver, vem ver Iaiá / Iaiá vem ver a sereia lá no mar / Ó Iaiá vem, ver.” Então, quando mostro essas músicas para a criança, eu digo qual é sua origem; se tiver uma dança, eu mostro como é. Aí tem música da manhã, do dia, da tarde e da noite. No folclore tem toda essa coisa. E de todas regiões do Brasil. A criança aprende. “Você é de onde?” “Eu sou do Maranhão.” “Ah, sei uma música da sua terra.” Fui criança e na escola havia música, música orfeônica. Tinha que saber cantar os hinos todos, mas havia as canções também. [canta] “Vou me embora, vou me embora, prenda minha / Tenho muito que fazer…” Eu lá em Pernambuco canto uma música do Sul. Era uma coisa do Villa-Lobos, que na época colocava uma banda com 200 músicos e 40 mil crianças. Ele queria provar para o Getúlio Vargas que a música era mais forte que as armas.

GAFIEIRAS — E o que mudou desde sua primeira experiência na França até o ABC musical?

NANÁ VASCONCELOS — O processo é outro. Lá na França eram crianças em situações de psiquiatria. E aqui eu lido com crianças carentes, de escolas públicas. É outra história.

GAFIEIRAS — Mas o que mudou nesse trabalho, desde o começo até agora?

NANÁ VASCONCELOS — Eu acho que a minha relação com tudo. Estou me vendo uma pessoa diferente de como eu era. A minha relação com o mundo que eu vivo hoje. A minha relação com tudo. Hoje toco muito mais simples. Essa simplicidade vem das crianças e porque toco com músicos de toda parte do mundo. É sempre uma experiência entrar no universo do outros. Compor ritmos pra música folclórica da Noruega, que nunca teve percussão. Compor ritmos e ela continuar sendo norueguesa, e não virar brasileira. Isso fez eu ouvir bastante e entender que o lado esquerdo, como se diz, é diferente. Lá não tem passarinhos cantando todo tempo. Lá é gelo e pedra, mas tem coisas bonitas, como aurora boreal, o sol da meia-noite, sabe? A música deles tem muitas notas novas, então tive que simplificar. Usar o silêncio como sonoridade, como ritmo. É muito arriscado, mas vou aprendendo.

GAFIEIRAS — Você enxerga um forte poder político no seu trabalho, ainda que não seja panfletário ou em forma de discurso?

NANÁ VASCONCELOS — Tem uma música, por falar nisso, que diz assim: “Uns com tanto, outros tanto com algum, mas a maioria sem nenhum”. Eu não sei… O business da política é uma coisa muito séria. A falta de vontade, a burrice intelectual e a arrogante ignorância fazem com que a gente fique bitolado, preso a um formato imposto. O que é gratificante é que as pessoas não são bobas, não; elas sabem. Eu passei todo esse tempo fora do Brasil e pensei “Poxa, ninguém gosta do que eu faço”. Mas não é assim, não. O pessoal não tem a oportunidade de ouvir. Ontem mesmo [n.e. Pocket-show de seu novo álbum na Livraria da Vila, em São Paulo] estive com pessoas que… “Rapaz, eu nunca tinha ouvido você tocar. Gostei, um barato!”. A pessoa foi lá por curiosidade e curtiu. “Eu não sabia que berimbau tinha esses sons todos.” Existem outras coisas que são brasileiras que não fazem parte dessa mesmice. A música e o músico têm uma energia natural para juntar as pessoas. Eu não propago, não vou propagar nada a não ser o conhecimento, a abertura para o intelecto, mostrar uma outra maneira de ver e de ouvir as coisas. Eu não tenho nada para provar. A minha preocupação é: o que eu passo é honesto comigo mesmo. Música e dignidade têm que andar juntas. Depois você tem “gosta ou não gosta”, mas aí já é outro capítulo.

GAFIEIRAS — Naná, você sempre foi convidado e em tantas partes do mundo. Algum desses convites foi mais revelador?

NANÁ VASCONCELOS — Claro, muitos. Eu e o Egberto foi um negócio incrível que o Brasil precisava ouvir, que nunca foi ouvido muito bem aqui. Foram dois universos, dois brasileiros totalmente diferentes. Um que vem dos conservatórios, do erudito; e um outro que vem da rua, tocando. Esse dois Brasis encontraram-se para mostrar uma música que o mundo e o Brasil não conhecem. Pus voz na música de Pat Metheny. Trabalhei com o Don Cherry, com o Colin Walcott, fui influenciado e influenciei. Chamavam a gente de accoustic Pink Floyd. [risos] O Colin Walcott era uma coisa imprevisível; em termos criativos foi o trabalho que mais mexeu comigo, porque era livre. O Don Cherry era uma espécie de conservatório ambulante. O Colin foi roadie do Ravi Shankar e do Alla Rakha. Aprendeu a tocar cítara com o Ravi Shankar e tabla com o Alla Rakha. Ele se dedicava muito a conhecer músicas de outros continentes. Don Cherry é imprevisível, vem do mundo free jazz, com Nat Cole, John Coltrane, e conhecia muito a música da África, da Índia e de outros mundos. E isso me ajudou a ver a música como um todo.

GAFIEIRAS — Você teve um mestre?

NANÁ VASCONCELOS — Eu aprendi tudo sozinho. Nunca tive tempo de ter, mas tenho o maior respeito pelos mestres.

GAFIEIRAS — E ídolos?

NANÁ VASCONCELOS — Ídolos eu tenho. O Jimi Hendrix e o Villa-Lobos são os meus ídolos, minhas maiores influências.

GAFIEIRAS — Como foi a primeira vez que você ouviu esses dois caras, Naná?

NANÁ VASCONCELOS — O meu pai ouvia muito Villa-Lobos em casa.

GAFIEIRAS — Não houve um primeiro impacto?

NANÁ VASCONCELOS — Não, tinha o disco em casa. Mas o Jimi Hendrix eu procurava.

GAFIEIRAS — Você gostava de rock ou gostava da experiência musical dele?

NANÁ VASCONCELOS — Eu não entendia o que ele estava dizendo, não podia gostar sem entender o que ele estava falando. Eu gostava de uns que tinham personalidades. O Led Zeppelin tinha um timbre certo. Você ouvia e sabia que era o Led Zeppelin. O Zappa tinha o som. Os Beatles tinham a identidade. Rolling Stones… São coisas que estão na cara. Você escuta e “Esse é fulano!”. Mas a partir de Jimi Hendrix, você fica “O que é isso aí?”. Eu ia ao consulado americano ouvir e ver filmes de jazz. No rádio lá de casa, eu botava naA voz do Brasil. Tinha também The voices of America, que passava um programa de jazz que eu ouvia.

GAFIEIRAS — E quando você fez aquela música para o Chico Science, você reconhecia nele uma coisa diferente?

NANÁ VASCONCELOS — Eu reconheci nele o “Alerta mocidade, acorda quem dorme”. Ele foi o responsável por um grande movimento. Pegou o ritmo do maracatu e colocou em cima fórmulas de hip hop. Quando chegou lá fora, “O que é isso aí?”, não se parecia com nada. Coisa única aqui também.

GAFIEIRAS — Você chegou a conviver com ele?

NANÁ VASCONCELOS — As vezes que estive com o Chico foram no palco. Ele me chamava para subir. Fui em Nova York e ele, “O rei do guaiamum está por aqui!”. [risos] Aí eu subia no palco. Foi assim que eu conheci o Chico. Depois, aqui no Brasil, ele me deu seus óculos. Agora tem o Cordel do Fogo Encantado. Produzi o primeiro disco deles.

GAFIEIRAS — Naná, tem algum músico que te intriga? Ou há alguma música na qual você poderia jogar o seu molho ali?

NANÁ VASCONCELOS — Não, não sei. Não quero mudar a música dos outros. Agora, claro que eu tenho o meu som. Tenho vontade de tocar com alguns músicos, de sentar e trabalhar. Já toquei com Yamandú [n.e. O violonista gaúcho Yamandú Costa], por exemplo. Maravilhoso, virtuoso, mas a gente nunca teve tempo de parar e de montar um negócio. A coisa mais difícil é a gente parar e “Vamos?!”.

GAFIEIRAS — E a juventude, o que tem de bom?

NANÁ VASCONCELOS — Eu acho que a juventude está bem sadia.

GAFIEIRAS — Na sua juventude, o que ela tinha de diferente?

NANÁ VASCONCELOS — Não havia tanta tecnologia. Havia mais poesia de vida. A criatividade era mais orgânica, as artes estavam mais juntas. Em um show de música, um artista plástico fazia o cenário e um poeta escrevia o programa; então, as artes estavam unidas. Isso era muito bonito.

GAFIEIRAS — Com quem você convivia nessa época?

NANÁ VASCONCELOS — Com tanta gente. O Milton, a Gal, o Hélio Oiticica, o Torquato Neto.

GAFIEIRAS — Você também conheceu o povo de cinema, né?

NANÁ VASCONCELOS — Eu morei com o Glauber Rocha dez meses em Nova York.

GAFIEIRAS — Como era morar com o Glauber?

NANÁ VASCONCELOS — O Glauber era de um intelecto sábio, uma pessoa de uma criatividade muito veloz e de um inconformismo… Tinha uma visão muito na frente. Era uma pessoa que dizia pra mim: “Biriba é pau, arte de São Jorge. Então, fica aí tocando”. Eu ficava tocando e ele escrevendo lá na mesa. E assim era a relação… Uma espécie, asteroidicamente falando [risos], muito veloz para o tempo em que vivíamos…

GAFIEIRAS — Visionário.

NANÁ VASCONCELOS — É, muito. E todo mundo ia beijar o pé do santo quando a gente morava lá. Passavam todos esses cineastas pra pedir ou ouvir o Glauber. Era um guru natural. “Olha, tem que fazer isso e isso”, e os caras, como o Bertolucci, ouviam. Conheci todo esse pessoal lá.

GAFIEIRAS — E quando foi isso, Naná?

NANÁ VASCONCELOS — Em 70. Aí depois eu parti pra um lado. Éramos três: Fabiano Canosa, Glauber e eu. Aí ele fez um filme chamado O berimbau. E, de repente, “Olha, estamos em Cannes”. “O quê?” “Está lá, sua música está lá”. “Como minha música?” “Botei a ‘Idade da Terra’”. Tirou do disco
Amazonas. Era assim…

GAFIEIRAS — E o contato com ele se estendeu?

NANÁ VASCONCELOS — Não, porque logo depois fui pra o mundo. Soube mais tarde que ele estava fazendo um programa de televisão aqui.

GAFIEIRAS — Quando você chega num espaço novo, qual é a relação que você estabelece com ele? Tive a impressão que você domina o espaço mais que uma pessoa normal.

NANÁ VASCONCELOS — Está me chamando de anormal?! [risos] Eu me dou com o som. Tem muito a ver com a energia de um fotógrafo, que vem tirar uma foto minha, mas que, às vezes, me incomoda. E tem outros que não, com os quais você fica à vontade. Então, quando entro em qualquer lugar, procuro saber onde está o rumo, o ponto. E sempre chego com meu berimbau. E mesmo na minha casa tem o lugar dele, que ele escolheu. Lá é do lado da minha cama.

GAFIEIRAS — Você parte muito de uma imagem para buscar um som e vice-versa?

NANÁ VASCONCELOS — Às vezes você me dá uma música pra colocar uma percussão e quero saber o que ela é pra você. Daí eu imagino pra poder compor. Porque o som da floresta não é o som da selva. Floresta é floresta, selva é selva. Selva é mais densa. É selva mesmo que você quer? Qual é a idéia, qual é a cor? É como se tivesse cor.

GAFIEIRAS — Importam mais as imagens ou contar uma história com a música?

NANÁ VASCONCELOS — A idéia dos meus shows-solos é contar histórias com música, sem falar. As imagens vão mostrar; o cenário vai mostrar a história. “Vamos pra selva!” Aí quero levar você lá pra selva por meio dos sons, como uma tarde no Norte. Uma coisa ajuda a outra, só que eu não uso palavras, uso sons pra contar essa história, para mostrar essas imagens. Na noite, no dia e no nascer, o medo. O medo é engraçado. Uma vez eu estava na Índia com o Egberto [Gismonti] e chegou um senhor que assistiu nosso concerto. “Grava essas coisas pra mim?! Minha filha nunca ouviu um som desse.” Ele foi lá no hotel durante o dia. Era uma cidade pequena. E eu toquei o instrumento. “Agora faça um som de medo.” Comecei a fazer. O Egberto estava olhando e começou a sorrir. “Quaquaqua!” “Que foi?” “Estás fazendo uma trilha sonora pra esse rapaz.” É, eles usam. E ele fez isso, contou histórias com um som de terror, com um som de alegria. É, na Índia é assim, produzem muitos filmes…

GAFIEIRAS — Naná, a gente não falou da sua infância. Você parece um menino.

NANÁ VASCONCELOS — Eu comecei a tocar muito cedo. Com 12 anos de idade eu já era músico profissional. Tocava num cabaré, numa boate. Era realmente criança naquela época. Eu tinha que ter autorização do Juizado de Menores. E não podia descer do palco. O músico tocava 45 minutos, parava pra pensar, pra namorar, e eu tinha que ficar lá em cima, no poleiro. A minha vida toda foi muito relacionada com música.

GAFIEIRAS — Você já fazia música antes de saber que fazia música?

NANÁ VASCONCELOS — Eu nunca quis fazer outra coisa.

GAFIEIRAS — Que relação você tinha com o ambiente da sua casa?

NANÁ VASCONCELOS — Tocava as panelas, tocava tudo. Chamava as outras crianças pra fazer um grupinho. A minha infância sempre foi assim. Eu tenho, voltando mais atrás, uma lembrança que é muito bonita pra mim… É engraçado, eu devia ter uns cinco anos. Foi muito forte! Eu estava no quarto deitado; eu e minha irmã. Minha irmã já estava dormindo e eu estava quase, quando chegou a amiga da minha mãe. “Petrolina!”, que é o nome da minha mãe. “Eles já estão dormindo?” Aí minha mãe disse: “Estão quase”. E eu, na minha cabeça de criança, já quase dormindo, ouvi esse comentário. Quando estava realmente pra dormir, ouvi um barulho, como de um trovão. Uma parte da tinha zinco e quando chovia fazia um barulho danado. A chuva, os pingos… Mas não estava chovendo; não era trovão, não! “É maracatu! Que maravilha!” O maracatu tem os alfaias, tambores graves, e aquela ressonância… Naquela época não havia muita poluição sonora e nem todo mundo tinha rádio. Aí, eu: “É maracatu!”. Minha mãe teve que me levar no ombro pra ver o maracatu de Dona Santa. E isso ficou gravado em mim. O som do maracatu é o som do trovão.

GAFIEIRAS — Você fala inclusive isso na música pro Chico Science.

NANÁ VASCONCELOS — É, e continuo e falo: “Olha, maracatu é trovão. Todo tambor transmite o som da terra”. São coisas que vêm da minha intuição. Olha, essa reportagem vai dar um livro. Quando vocês forem pra Hollywood não se esqueçam de mim, por favor. [risos]

GAFIEIRAS — Naná, havia um som que te aterrorizava na infância?

NANÁ VASCONCELOS — Não, mas havia um som de sonoplastia dessas coisas. As novelas no rádio, Jerônimo, o herói do sertão; Jerônimo e o Moleque Saci; o programa Mistérios do além, que tinha um som que aterrorizava; e as lendas que o povo contava, em que apareciam muito essas coisas. A mula-sem-cabeça, a mulher do saci… Isso tem muito no Nordeste. Mas som, depende. Quando você faz essa mesma sonoridade que eu faço, às vezes, dependendo de como é o arranjo, do que vem antes, ela vira uma outra coisa, sabe? Porque música e cores variam de acordo com a personalidade de cada um. Por exemplo: [faz um som] isso é uma sexta-feira, chovendo, uma mulher de perto. Já para outros, isso é domingo, o sol… Mas medo é uma coisa tão bonita. Eu tenho medo, graças a Deus!

GAFIEIRAS — Você tem medos antigos?

NANÁ VASCONCELOS — Não, antigo, não. Já tive na minha infância, mas era uma coisa muito mais assim… espiritual. Eu sonhava, tinha uns pesadelos. Sonhava sempre que estava num lugar brincando e olhava pra trás e vinha aquela senhora gorda, negona. Eu tinha medo e saia correndo. Acordava o coração batendo. E passou um tempo. Meu pai falava para eu rezar, e eu rezava. Num sonho em que eu estava num determinado lugar, alguém veio por trás e me abraçou. Olhei e era ela. “Não, só queria te dar um abraço.” Aí nunca mais eu sonhei com ela.

GAFIEIRAS — Você nunca descobriu quem era?

NANÁ VASCONCELOS — Era uma entidade.

GAFIEIRAS — Ela sempre quis dar um abraço e você tinha medo.

NANÁ VASCONCELOS — Eu tinha medo da figura dela, enorme. Terminou assim; nunca mais ela veio.

GAFIEIRAS — Então, nenhum medo dura até hoje?

NANÁ VASCONCELOS — Não. Eu tenho um medo hoje, muito gostoso, que é aquele antes de entrar no palco de fora do meu país. Eu gosto porque esse medo é até eu entrar. Quando entro, pronto, passou. Passou assim, em termos, mas a partir do momento em que você vai tocando, em que você vai conquistando aquelas pessoas, trazendo-as para o que você quer, para ouvir o que você tem a dizer, as coisas mudam. Isso é importante. Acredito muito que a coisa tem que vir daqui, sabe, natural, corpo e alma. Sou assim; não brinco com música. Quando pego o instrumento que eu toco, acaba a distração. Mas é normal nos jazzistas: um pára, fuma e conversa, enquanto o outro faz um solo. Eu não aceito isso! Não faz parte do meu ser.

GAFIEIRAS — Naná, você falou da sua infância, que começou a trabalhar com 12 anos. Ela é motivo de orgulho?

NANÁ VASCONCELOS — Eu fiquei sério muito cedo. No primeiro dia em que fui tocar no cabaré, juntamente com o meu pai, que era músico ele falou: “O que você vê lá, você deixa lá; não leva para casa”. Isso porque era um lugar noturno, onde o pessoal ia pra namorar as mulheres. E eu me lembro do primeiro dia em que fui. Onde a gente morava, os quatro irmãos homens dormiam num quarto. E quando voltei do cabaré pela primeira vez, estava todo mundo acordado, esperando pra saber como era. Aí eu disse: “Hum, hum”. [com sinal de negativo] E eu guardei… Tinha que mostrar ao velho o que eu queria; não ia perder isso por causa de besteira. E ele não viu eu tocar bateria, sabe? Foi embora cedo, muito cedo, o meu pai. Eu tocava manola e violão-tenor, e ele fazia arranjo para a orquestra. Escrevia rápido, escrevia bem.

GAFIEIRAS — Você tem esse material do seu pai?

NANÁ VASCONCELOS — Tenho algumas coisas. Na época se tocava muita música latina no Brasil. Muito bolero, cha-cha-cha. Muito Pedro Vargas, Xavier Cugat; época das big bands, Glenn Miller.

GAFIEIRAS — Você já falou que os seus discos são somente registros das suas idéias. Olhando para esse compêndio, o que você vê?

NANÁ VASCONCELOS — Eu vejo coisas que fiz, que acho que são muito importantes. Consegui fazer um concerto para berimbau e orquestra, sabe?! Saiu em 1979, 80. Então isso foi um grande gol. Isso me enche o peito. Eu consegui fazer!

GAFIEIRAS — Tem bola na trave?

NANÁ VASCONCELOS — Claro que tem. E como!

GAFIEIRAS — Mas aí você prefere o silêncio?

NANÁ VASCONCELOS — Não, não. Por exemplo, o Contaminação, que fiz sob encomenda para a M. Officer.

GAFIEIRAS — A dedicação foi a mesma, Naná?

NANÁ VASCONCELOS — Não, né? Foi encomendado. É diferente.

GAFIEIRAS — Mas isso você absorve…

NANÁ VASCONCELOS — Se fosse um disco meu, seria diferente. Tem coisas lindas ali, só que ele está mal mixado e masterizado. Penso em pegá-lo e dar uma revisada, afinal tem muita coisa interessante, como o “Quase choro” e o “Lágrimas”. Eu não tomei muito cuidado com a qualidade da gravação. Sou muito cuidadoso com as minhas coisas, com a qualidade do som. Não se admite, no mundo de hoje, fazer coisa que não tenha qualidade. Está tudo aí disponível, você tem tudo na mão…

GAFIEIRAS — Mas, para você, a gravação do disco é um processo cirúrgico? Grava-se uma parte e outra, e depois junta-se tudo?

NANÁ VASCONCELOS — Não, detesto estúdio. Eu estudo muito em casa. Faço a música de um filme em dois, três dias. Sou muito rápido em estúdio, porque trabalho muito, e quando chego lá já sei o que vou gravar primeiro e o que colocarei depois… Com os meus instrumentos está tudo claro, tecnicamente.

GAFIEIRAS — E como foi o encontro com o Itamar?

NANÁ VASCONCELOS — O encontro com o Itamar foi no estúdio, onde o conheci. Foi muito breve. Itamar foi muito rápido.

GAFIEIRAS — Foi um encontro profissional?

NANÁ VASCONCELOS — Não. Foi uma vontade de querer fazer aquilo mesmo. Foi vontade de conhecer o mundo dele. Foi o Zeca Baleiro quem nos colocou juntos. Conversando com o Zeca, lá em Recife, pessoa que eu admiro muito, ele disse: “Você conhece Itamar?”. “Rapaz, não conheço. Vi muito poucas vezes na minha vida.” Ele disse: “Pois é, ele está no hospital.” “Gostaria tanto de fazer um negócio com ele um dia desses.” Aí o Zeca foi falar com ele. Mais tarde, disse: “O homem já se levantou da cama!” [risos] E como eu já estava em São Paulo, fui encontrar o Itamar. Ele era assim: chegava no estúdio e dizia “Vamos gravar um negócio?”. Aí ele pegava o violão e [cantando] “E devagar com esse andor…”. “E agora?”, eu disse. “E agora é com você.” “Mas pra que lado?” [risos] Era bom pela velocidade da comunicação. Não tinha muito o que falar. Ele acreditava em mim, e eu acreditava nele. E como não havia nada ensaiado, tinha que ser criado ali, naquela hora. Ele dizia: “Bota mais uma vez pra eu ouvir”. E aí começávamos a gravar. Foi assim. E eu tinha gravado umas coisas minhas pra ele colocar a voz, mas ele pegou o ônibus primeiro. Convivi com ele muito pouco. Sempre muito elegante, umas roupas, sempre cercado de pessoas bonitas. É isso que eu posso falar dele. Rápido, muito rápido. Bom, e pra terminar?… [risos]

GAFIEIRAS — Você falou de tecnologia e está havendo uma reconfiguração do cenário musical. Você imagina como as coisas vão estar daqui a dez anos?

NANÁ VASCONCELOS — Sabe o que eu acho, rapaz? Tem muita coisa perdida aí. O pessoal do jazz está perdidíssimo, não sabe pra onde correr. Fica fazendo releitura dos anos 50, de Charlie Parker, vestindo-se como Charlie Parker. O que tem de bom nisso? Eles estão limpos, né? Sem crime, sem droga. Mas musicalmente não tem saída. Neguinho não sabe pra onde vai. Está numa crise…, mas quem sou eu pra falar isso? E as fórmulas estão cada vez mais se misturando; as coisas étnicas com as do pop. A eletrônica está trabalhando muito mais com o resultado. Agora de um lado é CD, do outro lado é DVD. A tecnologia não está influenciando muito mais, já foi a época em que influenciou na composição do músico, na música. Agora chegou a um ponto em que vai promover a volta do acústico.

GAFIEIRAS — A cobra já mordeu o próprio rabo.

NANÁ VASCONCELOS — É. Pegaram muita coisa rápida. De dois em dois meses saía uma coisa diferente, uma novidade, que agora já virou lugar-comum. Já não tem muita coisa nova em termos de som. Um guitarrista deve pegar essas condições da tecnologia e criar um timbre dele que não pareça com o do outro. É mais um trabalho do músico com essas possibilidades. E tudo está muito mais para o eletro-orgânico, para o eletroacústico, do que todo elétrico, porque o tecno está ficando cada vez mais orgânico.

GAFIEIRAS — Naná, para encerrar. Hoje é dia de São Cosme e São Damião. Isso significa algo pra você?

NANÁ VASCONCELOS — Graças a Deus! Já dei bombons para as crianças! Telefonei hoje de manhã: “Vá lá na casa de dona fulana…” No Nordeste tem muito isso, mais do que por aqui. Muitas festas de Cosme e Damião, o mês todo. Hoje é o dia mesmo, mas tem gente que vai continuar dando doces até o fim do mês. Quando vocês forem pra Hollywood, não se esqueçam de mim. [risos]