NEY MATOGROSSO [2012]

Convivendo com o sucesso há mais de 40 anos, cantor faz das artes do palco o seu ofício.

O cantor Ney Matogrosso clicado em sua casa no Rio de Janeiro. Foto: Caroline Bittencourt

Foi uma conversa de meio de tarde, sexta-feira ensolarada no Rio de Janeiro. Sem produtor ou assessor de imprensa no meio de campo, Ney Matogrosso foi quem respondeu os e-mails, abriu a porta de seu apartamento e deixou a equipe à vontade para entrevistá-lo. Parece bobeira nesse tempo em que todo mundo é familiar graças à Internet, mas Ney é um dos medalhões da MPB, o que sugere acesso com senhas, protocolos e não-me-toques. Não foi o caso. Aliás, essa ligação direta com o mundo em que vive e a autonomia de decidir o passo a ser dado sempre foram suas marcas. Em mais de 40 anos de carreira nunca ficou na mão de gênios de marketing ou de executivos de gravadoras.

Nascido em 1941 em Bela Vista, uma pequena cidade fronteiriça entre Mato Grosso do Sul e Paraguai, o menino Ney de Souza Pereira teve no pai militar a síntese de tudo o que não queria e o modelo de disciplina que o fez um artista exigente e de alta performance. Com o talento e a homossexualidade expostos em uma persona de rebolados, rosto pintado e figurinos extravagantes desafiou a cartilha da ditadura militar com seu sucesso nacional. Do sonho de ser ator, teatralizou a música e fez do palco o seu quintal. Lá não somente sobe para cantar, mas para assinar o roteiro, a luz e os costumes.

Em momentos diferentes, Salvador, Recife, Campo Grande, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo foram capítulos definidores de sua trajetória. Em cada uma das quatro primeiras, vivenciou a liberdade dos bichos, da mata e horizontes sem fim. Criança em Salvador, montava em jabuti e se deixava levar pela praia. Já adolescente em Campo Grande, em busca da liberdade que não havia em casa, correu para a mesma Aeronáutica de seu pai, transferindo-se para o Rio em 1959.

Ao desligar-se da caserna poucos anos depois, deu a maioridade para os hormônios e desejos, e partiu para a capital federal, onde carimbou a Carteira Profissional como técnico de laboratório de anatomia patológica e se iniciou nas fileiras do teatro. De volta à terra da bossa nova, vendeu artesanatos e tentou a vida de artista, que vinga somente em São Paulo onde se lançou em voo meteórico com os Secos & Molhados.

Do grupo formado em 1971 com João Ricardo e Gérson Conrad, Ney soube domar a exposição conquistada e definir o seu próprio rumo a partir de 1975, com shows e discos igualmente provocativos e exitosos e hits que povoaram rádios e programas de televisão naquela e na década seguinte (“Bandolero”, “Não existe pecado ao sul do Equador”, “Por debaixo dos panos”, “Vereda tropical”, “Sangue latino” e “Por que a gente é assim)”. Não à toa foi o artista preferido de Renato Aragão para suas paródias musicais no humorístico Os Trapalhões.

Sempre rigoroso com seu repertório, imprimiu outra leitura à sua carreira a partir de meados da década de 1980, quando pendurou temporariamente seus figurinos arejados e deixou a voz afinada em primeiro plano, como provam os camerísticos Pescador de pérolas (1986) e À flor da pele (1990, com o violonista Raphael Rabello). Gravou álbuns com obras de Cartola (Ney Matogrosso interpreta Cartola, 2002) e Chico Buarque (Um brasileiro, 1996), e peças eternizadas por Ângela Maria (Estava escrito, 1994) e Carmen Miranda (Batuque, 2001), a quem é devoto estético. Em sua extensa discografia, que caminha paralela aos registros de shows em DVD, ainda figuram Cazuza, Tonico & Tinoco, Celso Viáfora, Itamar Assumpção, Pedro Luís e Vitor Pirralho.

Esta entrevista de mais de duas horas percorreu os caminhos da infância, do esoterismo e de outras coisas do divino; flertou com a finitude, o perfeccionismo e o encantamento com a luz. Ao redor da mesa grande da sala de jantar ainda estavam as entrevistadoras convidadas Raquel Zangrandi e Wal Raizer, a fotógrafa Caroline Bittencourt e outro titular do Gafieiras, Max Eluard. E, sobre o casco do jabuti, o São Francisco da arca de Vinicius seguia (e segue) definindo o seu norte.


{…} expediente

entrevistadores Max Eluard, Raquel Zangrandi, Ricardo Tacioli e Walquíria Raizer 
transcrição Marllon Chaves 
produção, edição de texto e texto de abertura Ricardo Tacioli 
fotos Caroline Bittencourt 
registro audiovisual Max Eluard 
agradecimentos Bruno Medina e João Mário Linhares

Entrevista realizada na residência do artista, Rio de Janeiro, em 15 de junho de 2012.




[Enquanto Max Eluard finaliza a montagem dos equipamentos de gravação audiovisual]

Ney Matogrosso — … Tem show que dura menos. O Inclassificáveis, que eu achava que foi um enorme sucesso, durou um ano e meio. Esse (Beijo bandido) faz três anos em setembro (de 2012).
Ricardo Tacioli — Ney, tem várias descobertas no processo (de um show e de um disco). Qual foi a última?
Ney Matogrosso 
— É uma coisa da performance, de entrar no palco. Esse último foi agora em São Paulo. Aí era aquele palco imenso e quando eu olhei aquela plateia lotada, aquele espaço todo diferente, eu já comecei a fazer tudo diferente. E a plateia reagindo muito bem. “Porra, hoje vai ser uma festa!” E foi, né? E aí eu vou ficando louco, porque na medida em que eles vão me estimulando, eu vou pirando e inventando coisas.
Tacioli — É difícil dividir esse momento em que você está vivendo com o show com um novo que já está na sua cabeça? Como isso se organiza, Ney? Você tem um desenho (desse novo show)?
Ney Matogrosso 
— Não, eu tenho, não. Agora ainda preciso ensaiar o outro e ver. Claro que eu sei que vai demorar pra chegar na altura em que está esse, porque é um trabalho todo novo, músicas diferentes. E até aqui eu preciso entender. Não é abrir a boca e falar e cantar. Eu tenho que entender as coisas, onde cada coisa chega, sabe? Mas eu tô animado. Vai ser um show completamente diferente. Eu tô achando que muita gente vai estranhar o texto. [n.e. Referência ao show do CD e DVD Atento aos sinais, que estreou em 2013] Estou trazendo músicas de bandas muito novas, com uma conversa muito particular dessa gente, sabe? E talvez estranhem que titio chegue falando essas coisas. Mas eu vou falar!
Tacioli — Já tem uma previsão de quando (estreia)?
Ney Matogrosso 
— Olha, eu pretendo em setembro começar a ensaiar. Pode ser que eu estreie no fim do ano, pode ser que eu não estreie esse ano, estreie no começo do ano que vem. Eu ia usar um tipo de mapeamento, já estava com tudo organizado, já tínhamos desenhado com a equipe, o cenário, tudo pra fazer o melhor, mas a Madonna está usando a mesma coisa… [n.e. A utilização de video mapping para a criação de cenários virtuais]
Raquel Zangrandi — Jura?
Ney Matogrosso 
— É, mas isso era inevitável, porque é uma coisa que está aí pipocando. Eu tinha um fundo todo de quadrados e cubos. Ela está com um fundo todo de quadrados e cubos de todos os tamanhos. Eu disse: “Puta que pariu!”.

Raquel Zangrandi — Como você viu? O dela já estreou?
Ney Matogrosso 
— Estreou, eu vi agora na Internet. Mas eu já falei: “Agora vocês vão ter que me indicar outras possibilidades, não vou abrir mão disso, porque é muito interessante. Na verdade, isso não supre a iluminação, é um efeito visual, mas junto com isso eu terei luz também.
Raquel Zangrandi — Você vai fazer a luz?
Ney Matogrosso 
— Vou.
Tacioli — Em todo show seu, você é que responde pela luz?
Ney Matogrosso 
— É, junto com o iluminador com quem eu trabalho já há muitos anos, que é o Juarez Farinon. [n.e. Iluminador gaúcho radicado desde 1980 no Rio de Janeiro e criador da Companhia de Luz. Trabalha com Ney Matogrosso desde 1999]
Tacioli — Esse assunto da luz vou deixar pra depois…
Ney Matogrosso 
— Mas já estamos gravando, não?
Max Eluard — Não, ainda não.
Ney Matogrosso
 — Já estamos conversando. Então vamos guardar nossa conversa.
Raquel Zangrandi — Vamos guardar.
Max Eluard — O áudio já está valendo, pode começar.
Wal Raizer — Já tem um nome o próximo (trabalho)?
Ney Matogrosso 
— Não, ainda não achei um nome. Se eu não achar um nome muito adequado, não terá nome nenhum. Eu só boto nome quando o nome surge, sabe?

O rapper alagoano Vitor Pirralho, professor de literatura brasileira e língua portuguesa, e autor de dois álbuns, Devoração crítica do legado universal (2008) e Pau-Brasil (2009). Foto: Maíra Gamarra

Tacioli — Ney, você falou dessa gente nova, que o titio está chegando. Quem são os sobrinhos?
Ney Matogrosso 
— Olha, vou cantar (música) da banda Tono, vou cantar do Zabomba, vou cantar Vitor Pirralho, quem mais? São bandas novas, nem são muito conhecidas no Brasil. Quero dizer, o Tono é conhecida no Rio de Janeiro, o Zabomba é conhecida em São Paulo e aqui não é conhecida, o Vitor Pirralho é lá de Maceió. Vou gravar uma música do Dan Nakagawa. São pessoas muito novas. Então, elas têm uma visão do mundo muito diferente, têm um outro olhar sobre os assuntos. E isso é o que está me atraindo.
Tacioli — Como esses nomes chegam a você?
Ney Matogrosso 
— De várias maneiras, de várias maneiras. Do Tono eu recebi uma música pela Internet.
Raquel Zangrandi — Eles mandaram?
Ney Matogrosso 
— Não, não! Eles disponibilizaram e alguém me mandou pra eu conhecer a banda. E eu gostei da música que estava disponibilizada. Aí fui atrás e eles me mandaram o disco, porque um dos músicos é filho do Gilberto Gil, então eu tinha como me aproximar. [n.e. O guitarrista Bem Gil] Já cantei com eles, já fiz show com eles, já fiz com o Dan, já fiz show com o Zabomba. Do Vitor (Pirralho) eu estava em Maceió. Tinha feito o show na véspera e, no dia seguinte, quando eu voltava, me entregaram um jornal com uma página inteira falando do trabalho dele. Eu achei muito interessante tudo que estava ali. Falei com a produtora local. “Olha, você poderia conseguir o disco desse rapaz e me mandar?”. Aí ele foi no mesmo dia e me entregou, ele e a mulher dele, linda, negra, magrinha, toda vestida de vermelho, grávida, com a barrigona enorme. E ele também muito bonitinho, um mestiço brasileiro. Nós somos isso, né?
Raquel Zangrandi — Que idade tinha o casal?
Ney Matogrosso 
— Entre vinte e trinta.
Raquel Zangrandi — Eles não devem ter acreditado.
Ney Matogrosso 
— É, não, eles estavam assim… Mas isso é comum na minha vida.
Max Eluard — Mas o clipe que você vai gravar daqui um mês em Maceió é o da música dele?
Ney Matogrosso
 — Não, esse já é outro compositor, que eu gravei agora, do Beijo bandido, que é o Junior (Almeida).
Max Eluard — Mas ele é de lá também?
Ney Matogrosso 
— Ele é de lá. Esse foi assim: eu passei (em Maceió) com o Inclassificáveis. Aí ele foi ver o Inclassificáveis, me deu um disco e eu já estava preparando o repertório do Beijo bandido. Aí fui pra São Luís do Maranhão. Fiquei dois dias em São Luís. Chovendo, chovendo, chovendo. Fiquei trancado no hotel. Eu tinha levado um sonzinho e ouvi o disco dele. Ouvi a “Cor do desejo”. “Isso aqui tem tudo a ver com disco!” Eu já estava gravando Beijo bandido. Cheguei no Rio de Janeiro, gravei a música e liguei pra ele. “Olha, quero autorização e saber se você tem essa música editada.” Ele achou que era um trote. [risos]
Raquel Zangrandi — Obviamente.
Ney Matogrosso 
— Aí cheguei no Rio de Janeiro, falei com ele e gravei imediatamente. E fiz uma participação no disco dele lançado depois disso.
Max Eluard — Ah, você vai gravar em vídeo para o clipe dele?
Ney Matogrosso 
— Para o clipe dele. [n.e. Vídeo da música “Memória da flor”, de Junior Almeida e José Silva Ferreira, integrante do álbum de mesmo nome lançado em 2012 pelo selo MP,B Discos]

Tacioli — Tem mais algum nome novo?
Ney Matogrosso 
— Não, novo mesmo são esses. Tem o Dani Black. Vou cantar uma música dele. [n.e. Nascido em 1987, o cantor e compositor é filho dos músicos Arnaldo Black e Tetê Espíndola. Integrou a banda 5 a Seco. Tem um disco individual, homônimo, lançado em 2011. Maria Gadú gravou “Aurora”, de sua autoria] O Dani eu conheci desse tamanhinho. A primeira vez que ele veio com a mãe aqui, ele era um garotinho pré-adolescente, queria me mostrar uma música. Eu falei: “Olha, você é muito talentoso!”. Eu gostei mesmo, vi que era uma coisa de um menino, mas eu achei que ele tinha talento. “Eu gostei da sua música, você tem talento, sim!” Aí depois ele veio um dia aqui com um disquinho pra me mostrar. E me mostrou o disco inteiro. “Eu gostei dessa aqui.” Ele fez uma carinha bem assim e disse: “Eu sabia que você ia gostar dessa!”. Pra mim, imagina, eu o conheci criancinha com a Tetê, menininho mesmo, né? E ver ele hoje fazendo música… Ele tem um estilo bem interessante, bem particular. [n.e. Ney Matogrosso gravou “Oração”, de Dani Black, no disco Atento aos sinais, 2013]
Tacioli — Ney, vou dar um corte na história desse disco e ir lá pra trás, para sua infância e adolescência. Se eu estiver enganado você me corrija, mas você passou por diversas cidades.
Ney Matogrosso 
— Sim.
Tacioli — Queria que você falasse um pouquinho dessas cidades e dos sons, não necessariamente musicais, que tinham cada uma delas.
Ney Matogrosso 
— Olha, a minha primeira lembrança é de Salvador. Eu não sei nem porque a gente morava em Salvador; meu pai estava na Guerra. Eu tinha três anos, então era 1943.
Tacioli — Seu pai foi pra Guerra?
Ney Matogrosso 
— Ele foi pra Guerra.
Raquel Zangrandi — Na Itália?
Ney Matogrosso 
— É. Eu me lembro da casa, que era uma casa num alto na praia de Amaralina. Lá no fundo tinha um quartel, atrás da casa da gente tinha uma leiteria e um terreiro de candomblé. E a frente era o areal da praia e tinha uns jabutis desse tamanho; eu ficava sentado em cima daquele jabuti, ele me carregando todo e eu tripiando em cima do jabuti, não sei aonde ia, mas estava tripiando em cima do jabuti. Eu ficava o dia inteiro andando assim, ele me carregando pra onde ele queria. E, de vez em quando, eu fugia. Uma vez eu fugi da minha casa e todos acharam que o mar tinha me arrastado, porque eu desapareci. Pensaram em chamar a polícia, mas quando foram no candomblé, eu estava lá assistindo, num cantinho. Entrei escondido e fiquei assistindo aquele candomblé que, pra mim, aquilo era Carmen Miranda, falavam de Carmen Miranda e eu achava que era aquilo.
Raquel Zangrandi — Alguém da sua família frequentava o candomblé?
Ney Matogrosso 
— Não, não, não! Nem sei porque eu fui parar lá. Eu devia ter ouvido o som, né?
Wal Raizer — E o que se falava de Carmen Miranda?
Ney Matogrosso 
— Eu ouvia falar de Carmen Miranda. Carmen Miranda já era um sucesso enorme na rádio, mas eu achava que Carmen Miranda era aquilo. Eu não achava que Carmen Miranda fosse outra coisa. [risos]
Raquel Zangrandi — Ela tinha balangandãs…
Ney Matogrosso 
— Sim, falava-se que ela era uma baiana, não-sei-o-quê-lá, eu nunca tinha visto Carmen Miranda, né? E depois fui morar em Recife. Aí eu lembro do cheiro; chamava Rua do Jenipapeiro, era uma rua que tinha jenipapo plantado nela inteira, era uma ladeira, e daquele cheiro eu me lembro muito bem. E me lembro de uma cena: tinha um portão de ferro de grade na casa em que eu morava e um homem ficou me chamando do portão. E eu fui para o portão. Quando eu cheguei no portão, as pessoas vieram gritando lá de dentro. As crianças estavam desaparecendo lá. E diziam que era um homem que…
Raquel Zangrandi — … Que roubava (crianças)…
Ney Matogrosso 
— Não, que era um homem que tinha uma doença e que precisava tomar banho com o sangue das crianças.
Raquel Zangrandi — Que história!
Ney Matogrosso 
— É. Então, na hora em que fui me dirigindo para o portão pra encontrar esse homem que estava me chamando, vieram as empregadas gritando: “É o Papa-Figo, é o Papa-Figo, o Papa-Figo!”. Papa-fígado, né? [risos] Eu lembro disso, eu lembro disso!
Tacioli — Tinha algum som, além do cheiro…
Ney Matogrosso 
— Não, não, daí eu lembro do cheiro do jenipapo que ficava na rua inteira.
Tacioli — Isso em qual período da vida, (você tinha) quantos anos?
Ney Matogrosso 
— Ah, pouco tempo, tudo pouco tempo. Aí meu pai já estava de novo no Brasil. Então, acabou a Guerra e a gente deve ter ido morar em Recife. E depois viemos para o Rio de Janeiro. Fomos morar em Marechal Hermes, que era perto do Campo dos Afonsos; meu pai era da Aeronáutica. Depois fomos morar em Padre Miguel, onde eu fiquei até os 13 anos. Aí nós voltamos pra Mato Grosso.
Tacioli — E aqui no Rio tinha alguma coisa na rua (que chamava atenção)?
Ney Matogrosso 
— Não, aqui no Rio tinha, não a escola de samba de Padre Miguel que não existia, mas um bloco que no Carnaval arrebanhava multidões e eu saía da minha casa e ia lá também.
Raquel Zangrandi — Sua mãe, irmã ou alguém da família ia?
Ney Matogrosso 
— Não, não, não! Ninguém ia, porque nós morávamos do lado de cá da linha do trem. Do lado de lá era a favela e os IAPIs, não-sei-o-quê, esses prédios populares… [n.e. Criado em 1936, o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI) financiou projetos de habitações populares em grandes cidades brasileiras, como em Belém do Pará, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Campinas]
Raquel Zangrandi — Já tinha a Vila Vintém, que essa favela grande?
Ney Matogrosso 
— Tinha a Vila Vintém, mas era uma coisa mínima. Tinha um cinema imenso daquele outro lado em que eu vi Cauby Peixoto. Quero dizer, eu não vi o show, eu vi o Cauby Peixoto chegando e aquela multidão, aquela loucura toda em cima do Cauby Peixoto. Na minha casa a gente ouvia rádio.
Raquel Zangrandi — Você foi à Rádio Nacional uma vez com uns cinco ou seis anos.
Ney Matogrosso 
— Minha mãe me levou uma vez à Rádio Nacional.

A atriz, cantora, compositora e vedete Elvira Pagã (Elvira Olivieri Cozzolino, 1920–2003). Foto: Reprodução

Raquel Zangrandi — Você lembra da cena?
Ney Matogrosso 
— Lembro, lembro, lembro. Era um programa de auditório e tinham os cantores. De repente entrou Elvira Pagã e eu fiquei doido! Elvira Pagã se apresentava coberta de farrapos de couro de onça, seminua, linda. Eu lia muito gibi, eu gostava de gibi, e pra mim aquela mulher tinha saído da revista em quadrinhos. Tinha uma Naioca, Nioca, a rainha do não-sei-o-quê e eu achei que era ela porque estava toda vestida de pele de onça. Eu nunca esqueci dessa imagem. Eu vi Emilinha Borba, uns cantores da (época)…
Raquel Zangrandi — Marlene você viu?
Ney Matogrosso 
— Não, porque onde tinha Emilinha Borba, não tinha Marlene!
Tacioli — Mas você tinha alguma preferência?
Ney Matogrosso 
— Não, eu não tinha preferência.
Tacioli — Sua mãe tinha?
Ney Matogrosso 
— Eu acho que a minha mãe gostava mais da Marlene, mas eu não tenho certeza.
Raquel Zangrandi — Marlene era mais moderna.
Ney Matogrosso 
— É.
Raquel Zangrandi — Você acompanhava as cantoras do rádio?
Ney Matogrosso 
— Sim, eu ouvia rádio, eu conhecia todo mundo, ouvia todo mundo, e meu pai comprava muito disco. Então, no fim de semana ele ouvia tudo aquilo que, na época, eu achava até meio chato ter que ouvir aquilo todo fim de semana, mas hoje em dia eu tenho uma lembrança musical, uma memória musical muito vasta. Quando eu fui fazer o repertório do Batuque, eu só não conhecia uma única música, só uma. O resto todo eu conhecia.
Raquel Zangrandi — Mas aquilo entrava pelos ouvidos porque seu pai ouvia, mas você fuçava nos discos, você também ia atrás?
Ney Matogrosso 
— Não, não, a gente ouvia muito rádio; a rádio era a televisão.
Raquel Zangrandi — Mas dos discos que ele tinha, que ele comprava, você se interessava em ver, olhar?
Ney Matogrosso 
— Eu olhava, mas ele não deixava mexer, porque aquilo quebrava muito fácil.
Tacioli — Seu pai, o Seu Antônio, tinha uma preferência musical?
Ney Matogrosso 
— Não, ele era muito eclético, ouvia os grandes cantores, as grandes cantoras. De Isaurinha Garcia ele gostava muito; ele ouvia Francisco Alves, Nelson Gonçalves, Orlando Silva. E tinha Carmen Miranda.
Raquel Zangrandi — Ele ouvia os estrangeiros?
Ney Matogrosso 
— Não, ele ouvia música brasileira.
Raquel Zangrandi — E seus irmãos, algum se ligou em música?
Ney Matogrosso 
— Não, não! O único artista da família sou eu.
Tacioli — Na escadinha ali dos filhos…
Ney Matogrosso 
— Eu sou o segundo, tinha um mais velho, tem um menor, um ano mais novo que eu, e depois, bem muito depois, as meninas, duas.
Tacioli — E sua mãe, com relação à música, ela tinha alguma atuação?
Ney Matogrosso 
— Minha mãe cantava muito em casa. Na verdade essa é a minha primeira influência, porque os cantores já eram distantes, e minha mãe cantava em casa o que ela ouvia. E me lembro que eu ficava ouvindo ela cantar, eu ficava prestando atenção. Eu gostava de ouvir ela cantar.
Tacioli — E depois teve o retorno pro Mato Grosso?
Ney Matogrosso 
— Com 13 anos fomos pro Mato Grosso.
Tacioli — Só pra fechar esse ciclo, em Mato Grosso você já era um pré-adolescente.
Ney Matogrosso 
— É, mas ali em Mato Grosso era tudo diferente, a influência, a informação. Ali fiz contato com a natureza. Eu morava aqui em Padre Miguel, e Padre Miguel era zona rural. Tinham grandes fazendas abandonadas, porque já estava tudo decadente, grandes áreas de muitas mangueiras, de muitas frutas, e eu fui criado muito solto. A gente vivia em bando de criança por esses lugares, mas isso não era floresta. Quando eu cheguei em Mato Grosso, eu já tinha intimidade com a natureza restrita daqui. Lá, onde passaram o trator no cerrado e fizeram as casas, no fundo do meu quintal eu via veados, eu via tatus; aí eu me embrenhava por dentro desse mato. Eu passava o dia lá.
Raquel Zangrandi — Lá naquela vila militar, para os lados do aeroporto?
Ney Matogrosso 
— É! Eu estudava de manhã, chegava ao meio-dia, almoçava e eu me embrenhava nesse mato. E só voltava à tarde. Eu tinha 11 cachorros e ia sozinho com esses cachorros pro meio desse mato e ficava lá. Eu ia longe, eu ia longe, eu ia longe.
Raquel Zangrandi — E a sua ida para Bela Vista? Para o documentário do Joel vocês foram visitá-la. [n.e. Referência à cinebiografia Olho nu, dirigida por Joel Pizzini e lançada em 2014]
Ney Matogrosso 
— Eu nasci em Bela Vista, mas eu saí de lá com dois anos. Eu voltava a Bela Vista, já adolescente quando morava aqui, de férias, para ir à fazenda do meu avô. Então Bela Vista era isso pra mim.
Raquel Zangrandi — Para o filme do Joel, quando você foi para lá, você reconheceu algumas coisas, o Apa, o rio?
Ney Matogrosso 
— Sim, claro, a casa em que eu nasci está lá.
Raquel Zangrandi — O rio Apa continua limpo?
Ney Matogrosso 
— É, mas é um riozinho dessa largura, não é uma coisa. Na minha cabeça era um rio imenso!
Raquel Zangrandi — A infância eu passei lá. Acho que o rio Apa é um Amazonas.
Ney Matogrosso 
— Não, a gente atravessava o rio com a água pela cintura. Agora eu o achei um riozinho estreitinho, ele tem muita água, mas já está muito assoreado…
Raquel Zangrandi — Mas a água é limpa?
Ney Matogrosso 
— Olha, nos dias em que eu fui lá não dava para saber, porque tinha chovido e estava uma água barrenta. Eu me lembro que tomava banho quando eu ia pra lá.
Raquel Zangrandi — Continua uma cidadezinha bem…
Ney Matogrosso 
— É uma cidadezinha bem de interior. Agora tem uma parte nova da cidade, cresceu pra um outro lado. Aquela parte que era o centro da cidade está abandonada, quero dizer, tem gente morando ali, mas… A casa em que eu nasci está lá. E a fazenda do meu avô, em que você passava um dia inteiro andando à cavalo pra atravessá-la, foi dividida em dez. São dez fazendas.
Max Eluard — Fazendas, não são dez lotes!
Ney Matogrosso 
— São dez fazendas.
Max Eluard — E qual foi a sensação de voltar pra lá, Ney?
Ney Matogrosso 
— Olha, eu vou ser sincero: não tenho isso, não tenho isso…
Raquel Zangrandi — Nostalgia?
Max Eluard — Memorialismo, essa coisa?
Ney Matogrosso 
— Eu não tenho isso. Foi uma decepção! O Joel achou que lá eu ia chorar. [risos] Eu disse assim: “Olha, Joel, não tô sentindo nada!”. Agora, claro que quando eu fui pra fazenda do meu avô, eu tinha boas lembranças, porque a casinha em que meu avô morava, que era uma casinha minúscula, foi mantida como casa de caseiros, porque o cara sabe que era do coronel Tancha, que era uma pessoa que era dona daquilo tudo. Ele não derrubou a casa e deixou ali para o caseiro e fez um palácio lá atrás, uma casa imensa, que eu nem fui.
Raquel Zangrandi — Ficou no filme sua ida a Bela Vista?
Ney Matogrosso 
— Ficou.
Max Eluard — Mas essa decepção também?
Ney Matogrosso 
— Mas eu não tive decepção, ele é que teve porque esperava que eu tivesse reações que eu não tive.
Raquel Zangrandi — Um anticlímax.
Ney Matogrosso 
— É.

Wal Raizer — Nessas histórias do Mato Grosso, você lembra se tinha alguém que contava causos? No interior sempre tem. Escutei muito causo do meu avô, muita história…
Ney Matogrosso 
— Eles contavam muita história de lobisomem. Tinha uma história em que você estava dentro de casa, aí ouvia uma voz: “Eu vou cair!”. Aí caía um braço. As histórias pra criança são todas assim, de terror. Aí caía uma perna, caía não-sei-o-quê. Gente, que loucura! [ri]
Raquel Zangradi — Depois a criança não dorme e você não sabe o porquê.
Ney Matogrosso 
— Eu não dormia lá porque tinha muito morcego e eu tinha medo dos morcegos me pegarem. Aí meu irmão dizia: “Acende um cigarro!” Ficava, eu, aquele pivete, com um cigarro aceso a noite inteira. Foi aí que eu aprendi a fumar. [risos] Com o cigarro acesso para o morcego não vir em mim. Eram histórias punks que eles contavam.
Tacioli — Não tinha o homem do figo lá.
Ney Matogrosso 
— Lá não tinha o do figo, mas caía perna, caía braço, caía mão, caía não-sei-o-quê do teto.
Wal Raizer — No interior, o cinema é a imaginação das pessoas.
Ney Matogrosso 
— Na adolescência eu vi festas na fazenda do meu avô. E aí eles viravam a noite tocando violão. Tinham várias pessoas tocando violão. Meu avô também tocava, cantava. E eles faziam festa e todo mundo dançava. Eles tocavam para as pessoas dançarem, né?
Tacioli — E era permitido para as crianças assistir, participar?
Ney Matogrosso 
— Era, ficava todo mundo lá e eu ficava lá também. Tinha uma hora que enchia o meu saco e ia dormir. Era tudo liberado. Eles bebiam; eu via que tinha um trânsito de álcool…
Tacioli — Seu avô começava de um jeito…
Ney Matogrosso 
— Todo eles! Meu avô era muito respeitado e muito temido também. Naquela parte ali tem uma cidade que se chama Nunca-Te-Vi. O meu bisavô, que veio de Corrientes, trouxe todos os empregados; ele era um fazendeiro muito rico.
Raquel Zangrandi — Corrientes é no Paraguai?
Ney Matogrosso 
— Corrientes é na Argentina, mas eles não dizem que são argentinos, eles são correntinos, eles querem ser…
Raquel Zangrandi — Separatistas.
Ney Matogrosso 
— É. E então o meu avô trouxe essa gente toda com ele e deu um pedaço enorme da terra, que virou uma vila dos empregados, que se chama Nunca-Te-Vi, que hoje é um bairro imenso da cidade. Ele trouxe malas com libras de ouro… Era assim, né?
Tacioli — E virou uma das histórias…
Ney Matogrosso 
— E virou uma das histórias… Quando morreu o meu bisavô, a fazenda em que ele morava foi toda depredada porque diziam que tinha o ouro, que o meu avô tinha enterrado. Eu voltei à casa e encontrei a sala, os quartos, tudo cavucado, tudo quebrado, tudo esburacado.
Raquel Zangrandi — Ninguém mora nessa casa hoje?
Ney Matogrosso 
— Não, hoje em dia, não.
Raquel Zangrandi — E hoje essa casa é a casinha do…
Ney Matogrosso 
— Não, essa casa era do meu bisavô. A casa do meu avô era outra. A (casa) do meu bisavô era na fazenda velha, mas que era uma casa muito boa, uma casa grande, muito bem feita, não era o palácio que virou, que foi onde o cara fez a casa dele.
Tacioli — Ney, então a sua família tinha condições (financeiras)…
Ney Matogrosso 
— Não, não, meu pai e minha mãe, não. Meu pai era militar.
Wal Raizer — Mas seu avô…
Ney Matogrosso 
— Meu bisavô quando morreu dividiu tudo entre todos os filhos. Meu avô ficou com essa fazenda que você andava um dia. Você imagina o que ele não tinha de terra, porque ele dividiu entre todos os filhos, que eram muitos. O que coube ao meu avô era um dia inteiro a cavalo pra você atravessar, uma floresta, uma coisa assim; ele proibia a caça lá dentro.
Raquel Zangrandi — Coisa rara naquela época ter essa consciência, ter essa mentalidade.
Ney Matogrosso 
— Coisa rara. Eu me lembro dos bandos de ema que passavam perto da gente. Animais, antas, porco do mato, tudo isso a gente via lá. Muito jacaré nos açudes. A gente tomava banho no açude cheio de jacaré. Aí a gente ficava jogando pedra no jacaré, ele ia pra lá, a gente tomava banho, depois que a gente saía, eles voltavam todos pra cá. [risos]
Tacioli — E tinham alguns grandes companheiros nessas aventuras de pedrada no jacaré?
Ney Matogrosso 
— Meus primos, meus irmãos, que eram todos crianças também.
Tacioli — E além dos morcegos, tinha medo de outras (coisas)?
Ney Matogrosso 
— Não, não, tanto que eu andava dentro daquela mata sozinho, sempre andei. Lá, já na fazenda do meu avô, eu pegava o cavalo dele e saía pro mato, sozinho. E ficava horas perdido. E lá, na minha casa, onde a gente morava, eu entrava a pé mesmo. Nunca tive medo de nada, nunca tive medo de cobra. Eu via cobra, parava, ela passava, eu ia embora. Nunca matei; não saía matando cobra. No meu sítio eu proíbo que matem as cobras. Não tem que matar, matar cobra por quê? Só ela for dar um bote em você, fora isso é proibido matar. Não quero que mate nada, bicho nenhum. Foi em Mato Grosso, nessa fazenda do meu avô, que eu saí em uma caçada com todos os tios e vi a cena mais horrorosa da minha vida de adolescente. Ali alguma coisa dentro de mim se revelou: “Você não pode apoiar isso, você tem que defender a natureza, você tem que defender os animais!”. Eles atiravam em bandos de macacos pra treinar pontaria e eu via as mães, as macaquinhas protegendo os filhotes. E eles atiravam. “Meu Deus do céu, que loucura é essa? Que seres humanos loucos!” Ali, uma coisa de ecologia se manifestou dentro de mim. Teve que ser a esse preço, mas tudo bem, valeu.
Tacioli — Ney, desse período da vida, que para todo mundo é fundamental, o que você pontua que contribuiu para sua formação? Tem alguma coisa desse período no Mato Grosso, no meio do mato, (que influenciou) a forma que você leva (a vida) profissionalmente?
Ney Matogrosso 
— Não sei te dizer. Agora, lá dentro de mim, no meu íntimo, eu tenho uma ligação muito forte com aquela região do Brasil. De alguma maneira isso sempre aparece no meu trabalho. Eu canto sempre em espanhol, é uma coisa que não é muito comum. O Caetano fez um trabalho assim, mas no meu está sempre presente. [n.e. Álbum Fina estampa, 1994, em que o tropicalista interpreta em espanhol obras de compositores latino-americanos, como Fito Paez, Agustín Lara, Astor Piazzolla e Ernesto Lecuona] Eu sempre tô cantando alguma coisa em espanhol porque eu tenho essa referência muito presente dentro de mim. Agora não sei te dizer outro reflexo disso, não sei. Quero dizer, tem o reflexo humano, essa coisa que eu acabei de contar, isso é muito forte em mim. E essa coisa de ficar sozinho também… Teve uma época, quando eu fui parar em Campo Grande, já adolescente, eu cheguei no ginásio e não quis fazer amizade com ninguém, porque eu já estava escaldado de chegar numa cidade, fazer amigos, amiguinhos no colégio, e meu pai ir embora, me arrastar e eu perder todos meus amigos. Eu chegava em outro lugar, eu tentava, começava a fazer amigos, ele me arrastava pra outro lugar. Então, cheguei em Campo Grande e disse: “Eu não quero amigo!”. E fechei. “Não quero amigo!”
Max Eluard — Uma defesa.
Ney Matogrosso 
— Sim, pra não perder. “Não quero amigo!” Então isso foi o princípio desse costume, porque é um costume ficar sozinho: se você não sofre, você se acostuma com isso, né? É um resultado disso. E também eu saí de casa com 17 anos, fui viver minha vida sozinho, me bancando, às minhas próprias custas. Então, também era sozinho.
Raquel Zangrandi — Seus irmãos, nessa mesma idade em que você saiu, também tinham isso ou estavam na casa dos pais?
Ney Matogrosso 
— Não, eu fui o único, eu fui o único! Eu saí com 17 anos em 1959. Ninguém saía de casa. Filho homem saía de casa com 21 pra casar.
Max Eluard — O que te moveu naquele momento?
Ney Matogrosso 
— Ah, era muito pouco, eu queria mais, eu queria mais. Além dos conflitos com meu pai, que foram um pretexto, aquilo lá era muito pouco, eu queria mais, eu queria saber mais, eu achava que tinha mais no mundo. Eu queria mais, aquilo lá não me satisfazia, não! Não tinha nada, não tinha nada, não tinha arte, não tinha arte, eu queria arte!
Raquel Zangrandi — E você veio para o Rio, né?
Ney Matogrosso 
— Vim pro Rio.
Raquel Zangrandi — Tinha um primo ou conhecido seu, meio o ovelha negra da família, que era seu amigo. Qual era o nome? Não sei, falavam que “são os dois desgarrados da família”…
Ney Matogrosso 
— De quem você está falando?
Raquel Zangrandi — Um amigo de adolescência, não sei se era de Brasília ou se era do Rio…
Ney Matogrosso 
— Eu tinha um primo aqui que, depois que saí da Aeronáutica, eu fiquei na casa da mãe dele. Era o tempo da juventude transviada. E ele tinha uma turma, que à noite pegava os automóveis das pessoas, abriam faziam ligação direta e saíam zoneando pela cidade com os carros, só que devolviam. Mas, de qualquer maneira, a mãe quando soube achou que o filho era um marginal. O irmão dele era médico, estava em Brasília, e para livrar a mãe do irmão que ia virar um marginal e do outro que só pensava em ser artista, que era eu, chamou a gente pra Brasília. Aí nós fomos pra Brasília trabalhar. Foi lá que eu trabalhei pela primeira vez, fomos ser funcionários públicos.
Wal Raizer — Você trabalhou com criança?
Ney Matogrosso 
— Inicialmente eu fui fazer lâminas de biopsia no laboratório de anatomia patológica. Já lidava com morto. No primeiro dia em que eu cheguei, vi um morto aberto. “Ah, meu Deus, é isso?!” Mas gente acostuma com tudo.

Ney de Sousa Pereira aos 17 anos de idade, época em que se mudou de Campo Grande para o Rio de Janeiro. Foto: Reprodução

Raquel Zangrandi — Você tem contato ainda com esse primo?
Ney Matogrosso 
— Ele morreu recentemente.
Raquel Zangrandi — Mas você eram (próximos)…?
Ney Matogrosso 
— Sim, a vida toda. Na verdade, ele não era meu primo. A mãe dele era madrinha da minha mãe e sempre moramos juntos aqui em Padre Miguel. Todos morávamos próximos, uma casa na frente da outra, então éramos parentes, né?
Raquel Zangrandi — Vocês ao longo da vida…
Ney Matogrosso 
— Continuamos amigos, sim. E ele era muito engraçado…
Raquel Zangrandi — E ele virou o quê, que profissão ele teve?
Ney Matogrosso 
— Ele continuou trabalhando no hospital. E quando eu comecei a aparecer, ele ria muito. Dizia: “Você é muito doido!”. Ele ria porque ele me conhecia, imagina, teve um tempo em que só tinha uma cama e a gente dormia junto, eu e ele. E a gente ia trabalhar junto, a gente vinha junto, a gente voltava junto. Era como se fosse meu irmão. E ele me conhecia bem, né? E ele, quando viu aquilo, ele ria, achava aquilo tão engraçado. “Mas não é você, Ney!” “Sou eu, sim!” “Mas eu nunca vi isso!” “Nem eu tinha visto, nem eu sabia que isso existia!” Eu estranhava quando eu via as fotos do Secos & Molhados, sabe? Eu via aquelas fotos e dizia “Mas não sou eu!”.
Raquel Zangrandi — Você foi autodidata.
Ney Matogrosso 
— Sim, não foi premeditado.
Raquel Zangrandi — Quando foi que você resolveu vestir calça branca de cetim, grinalda e…?
Ney Matogrosso 
— No primeiro momento em que eu pintei o rosto, uma força se revelou que eu não sabia que existia. Claro, eu não tinha rosto, eu não era ninguém, eu não era alguém. Eu só tinha um corpo, um corpo e uma voz.
Raquel Zangrandi — Tinha 19, 20 anos?
Ney Matogrosso 
— Não, eu tinha 30! Eu tinha 30 e vivi e fiz muita coisa antes de chegar aí.
Wal Raizer — Pra poder chegar até aí.
Ney Matogrosso 
— É, pra poder chegar até aí, claro.
Raquel Zangrandi — Trinta com um corpinho de 18.
Ney Matogrosso 
— Mas eu nunca aparentei a minha idade, é muito engraçado isso. Eu olho pra aquela barriga e falo: “Gente, como é que eu tinha aquele abdômen se eu não tinha nenhuma preocupação com isso, com ginástica?!”. Eu achava ginástica uma americanalice. “Fazer ginástica é coisa de americano!” Quando eu vejo as imagens dos Secos & Molhados que volta e meia aparecem aí, lá no Maracanãzinho, digo “Porra, que barriga é essa que eu nunca tive?!”.
Raquel Zangrandi — Mas devia andar muito a pé, era uma outra vida…
Ney Matogrosso 
— Eu ia à praia, eu andava pela areia, eu andava a pé, não tinha dinheiro, eu andava a pé, muito, né?
Raquel Zangrandi — Uma coisa não contabilizada mas que no fundo conta: fazer atividade física normal da vida te deixa sequinho.
Ney Matogrosso 
— É. E sempre comi pouco, porque sempre gostei de comer pouco.
Raquel Zangrandi — O que agora dizem que é o segredo da longevidade.
Ney Matogrosso 
— Pois é, agora é o segredo da longevidade.
Tacioli — Ney, como se chamava seu primo?
Ney Matogrosso 
— Dodi.
Tacioli — Do mesmo jeito que o Dodi dizia “Esse não é o Ney”, que outras reações surgiram na família ou no círculo próximo quando você apareceu (como artista)?
Ney Matogrosso 
— Ah, meu pai ficou chocadíssimo, porque a primeira vez que ele me viu na televisão, eu estava com uma calça de odalisca, com elástico aqui embaixo, então eu fechava a perna, parecia que eu estava de saia. Foi o que mais o incomodou. Eu estar pintado, com pena, me requebrando, era difícil engolir, mas ele engolia. Mas, eu de saia, ele achou que era uma saia, isso o deixou incomodado, perturbado. Minha mãe, ria, minha mãe achava engraçado.
Raquel Zangrandi — E seus irmãos?
Ney Matogrosso 
— [pensativo] Olha, meus irmãos gostaram porque aí ficou famoso e as pessoas gostam de ter alguém famoso na família. [ri]
Max Eluard — Se ficasse fazendo isso na praça da cidade não iam gostar.
Ney Matogrosso 
— Pois é, não iam gostar, mas como eu fiquei conhecido no Brasil inteiro, apareci na televisão, aí tudo bem, né?
Max Eluard — É o aval do sucesso.
Ney Matogrosso 
— É.
Wal Raizer — Com esse tanto de shows e de viagens, você conseguia conhecer outras pessoas, as pessoas na cidade, além da equipe de produção?
Max Eluard — Você conseguia se relacionar com os lugares?
Ney Matogrosso 
— Olha, no Secos & Molhados era impossível! No Secos & Molhados a gente batia e saía, chegava, fazia o show e saía.
Raquel Zangrandi — Também foi meteórico, muito rápido.
Ney Matogrosso 
— Foi. Em dois anos conhecemos o Brasil inteiro de ponta a ponta. E chegava lá, era cordão de isolamento, era polícia, era outro esquema. Quando eu fiquei sozinho, aí eu comecei a fazer temporadas. Aí eu chegava, ficava uma semana nos lugares, aí eu andava, conhecia pessoas, ficava amigo de pessoas, ia na praia com pessoas, ia em festas de pessoas e…
Max Eluard — Isso te estimulava? Você buscava conhecer e ver os lugares?
Ney Matogrosso 
— Ah, eu gostava, eu gostava, sim. Essas pessoas iam me mostrar os lugares mais interessantes das cidades, as praias mais bonitas. Era diferente. Mas eu tive esse tempo somente depois que eu fiquei sozinho.
Raquel Zangrandi — Que era muito legal.
Ney Matogrosso 
— É, e se fazia temporada, hoje em dia nem aqui se faz, nem em São Paulo. Eu me lembro que eu fui ao Piauí e fiquei de terça a domingo num teatro fazendo show. Ninguém fica mais de terça a domingo em lugar nenhum.
Wal Raizer — A pessoa vai, faz um show e volta.
Ney Matogrosso 
— É.
Raquel Zangrandi — Isso em que época?
Ney Matogrosso 
— No final dos anos 70, quando eu já estava sozinho. Eu saí dos Secos & Molhados em 74; em 75 eu estreei o Homem de Neanderthal. Eu já tô falando do Bandido, que foi em 77.

Secos & Molhados. Segundo a publicação, desde 1965 com Roberto Carlos não havia surgido um artista ou grupo que vendesse tantos discos e shows. Fotos: Reprodução

Tacioli — Ney, qual foi a sua primeira percepção do sucesso, de que forma ele se materializou pra você?
Ney Matogrosso 
— Quando eu entendi (o sucesso)?
Tacioli — “O impossível tá na minha mão!”
Ney Matogrosso 
— O impossível não estava na minha mão, não! Eu estava na praia, porque ninguém sabia quem eu era, eu podia ir à praia, podia ir a todo canto, e estava assim numa segunda-feira no Rio de Janeiro, jogado no sol, aí passou um caminhão de lixo com um negão lá em cima — não eram esses caminhões, eram outros –, e o negão cantando “O gato preto…” com aquela voz fininha. Aí eu entendi! “Ih, atravessou, chegou lá, chegou lá!” E a Luhli me disse que foi ao Amazonas fazer um passeio num igarapé, lá no meio do Amazonas, e tinha um radinho de pilha e o “Vira” tocou lá no meio daquele igarapé e as pessoas começaram a cantar. Aí ela disse: “Ney, olha, em um igarapé no Amazonas…” “Então, tá, foi, agora é tarde!” [n.e. Luhli (Rio de Janeiro, 1945) é cantora, violonista e compositora, assinando alguns sucessos gravados por Ney, como “O vira” e “Fala” (ambos com João Ricardo), “Coração aprisionado”, “Bugre”, “Napoleão” e “Bandolero”, estas com Lucina, com quem formou dupla por 25 anos]
Max Eluard — Mas qual foi sua sensação? Espanto?
Ney Matogrosso 
— Não, não, eu gostei, eu gostei quando eu vi aquele camarada, que você não podia imaginar nunca aquele negão fazendo uma voz fina, lá em cima do caminhão cantando. Eu achei ótimo, achei ótimo!
Tacioli — Tem a ver com aquele “quero mais” de quando você saiu de casa aos 17 anos?
Ney Matogrosso 
— Não, porque eu não tinha essa ambição. Eu queria ser ator e eu sabia que ator não é isso, ator não tem esse alcance, esse alcance é um alcance que só a música proporciona. Eu não podia imaginar nunca que eu chegaria a isso. Nunca, nunca imaginei.
Tacioli — Das pessoas incorporarem algo que você (faz)…
Ney Matogrosso 
— Sim, de transpor essas barreiras todas e de chegar tão longe, nunca que eu podia imaginar isso. Eu achei que eu ia ser um ator, que ia fazer uma carreira de teatro. Não era a televisão (que eu queria), não existia isso na minha cabeça, ator de teatro, de estiva, sabe?
Tacioli — E com esse primeiro sucesso, você disse ”agora posso fazer tal coisa” e você fez tal coisa. O que foi essa tal coisa? Quando você estourou com o Secos & Molhados, qual foi o primeiro desbunde?
Ney Matogrosso 
— Não, não, não, não teve, não teve. Ah, teve: eu chamei todos os meus amigos que moravam em Brasília pra morar comigo e banquei todo mundo. [risos] Banquei todo mundo.
Raquel Zangrandi — Aqui no Rio?
Ney Matogrosso 
— Lá em São Paulo. Aluguei um apartamentinho, um sobradinho, e chamei meus amigos pra morar comigo. Olha uma história: um dia eu fui ao banco com um saco de papel pardo cheio de dinheiro pra depositar, isso nos anos 70, anos negros, de chumbo, e entrei e ninguém me conhecia porque ninguém sabia quem eu era, né? Entrei de macacão sem camisa, uma pulseira de chifre de boi aqui [risos], cabeludo… Quando fui depositar quase fui preso. Me levaram pra dentro!

Ney Matogrosso na revista Pop em 1978; texto de Caco Barcellos e fotos de Devania Toledo. Foto: Reprodução

Raquel Zangrandi — “Vai assaltar!”
Ney Matogrosso –
Sim, porque assaltavam bancos, tinha guerrilha que assaltava bancos. Aí me levaram lá pra dentro e me deram uma dura: “Onde é que você conseguiu esse dinheiro?” ”Ué?! Trabalhando! Ué, como consegui esse dinheiro? Trabalhando!” “Mas em que você trabalha pra ganhar esse dinheiro?!” “Sabe esse que canta pelado na televisão? Sou eu!” Aí eles devem ter ligado uma coisa a outra. “Mas você não pode abrir uma conta aqui, não. Você tem que ter um fiador pra abrir conta.” “Fiador? Tá bom, então me dá meu dinheiro aqui.” Levei o dinheiro pra casa, tinha um quarto aqui, o meu quarto ali, uma sala, um cantinho ali, eu botei o saco de dinheiro lá e disse (bate palmas): “Tá aqui, moçada! Não posso abrir conta, vamos gastar esse dinheiro!”. [risos]
Raquel Zangrandi — Foi um desbunde.
Ney Matogrosso 
— E gastamos. [risos]
Max Eluard — Quanto tinha?
Ney Matogrosso 
— Ah, tinha um saco cheio de dinheiro, gente, eu não sei, era um saco de papel pardo cheio de dinheiro. [risos]
Raquel Zangrandi — Fez a alegria da moçada.
Tacioli — Quantos amigos, Ney? Era turma que trabalhava com você (em Brasília)?
Ney Matogrosso 
— Eram os meu amigos de Brasília.
Raquel Zangrandi — Mas o quê, uns cinco, dez?
Ney Matogrosso 
— Não, eram dois que viraram quatro, porque cada um tinha seu namorado, seu agregado, seu não-sei-o-quê, e foi tudo parar dentro de casa.
Tacioli — E depois do saco, mais uns 15 amigos. [risos]
Ney Matogrosso 
— O Mauro Rasi morava lá nesse tempo também. [n.e. Escritor e dramaturgo nascido em Bauru (1949–2003), escreveu para programas televisivos marcantes, como Armação ilimitada e TV Pirata, ambos da TV Globo]
Raquel Zangrandi — Olha!
Tacioli — Isso era no Bixiga, Ney?
Ney Matogrosso 
— Não, isso já era ali naquela Fernando de Albuquerque, que agora é ponto de travesti, bem ali na esquina onde eu morava, que não era. Era um sobradinho que está ali ainda, um sobradinho de dois andares. [n.e. Rua Fernando de Albuquerque é uma travessa entre a Rua da Consolação e a Rua Augusta, em São Paulo]

[Toca um celular]

Ney Matogrosso — É o meu? Não vou atender.
Raquel Zangrandi — Não quer atender?
Ney Matogrosso 
— Quem pode ser? Não faço ideia. Não, deixa, depois eu falo.
Raquel Zangrandi — E você ouvia polca paraguaia e música sertaneja?
Ney Matogrosso 
— Polca eu ouvia lá nas festas da fazenda. O que eles tocavam era polca.
Raquel Zangrandi — Você nunca gravou polca?
Ney Matogrosso 
— Não, nunca gravei polca, mas já gravei ritmos assim…
Raquel Zangrandi — E o sertanejo, você nunca pensou em fazer…?
Ney Matogrosso 
— Eu não considero isso que tá aí sertanejo. Eu gravei com o…
Raquel Zangrandi — Lucio e Lucinho, Milionário e José Rico?
Ney Matogrosso 
— Não, não, não! Os primeiros, a dupla?
Wal Raizner — Tonico e Tinoco?
Ney Matogrosso 
— Tonico e Tinoco! Gravei com eles há muito anos. Gravamos a “Tristeza do Jeca”. [n.e. O clássico caipira de Angelino de Oliveira foi gravado ao vivo no programa “Som Brasil”, da TV Globo, e lançado em 1985 em disco (Tonico e Tinoco — 50 Anos)]

Ney Matogrosso e a dupla Tonico e Tinoco no programa “Som Brasil” comandado por Lima Duarte. Foto: Jornal Sertanejo/Reprodução

Raquel Zangrandi — Mas um disco de sertaneja mesmo você não pensou?
Ney Matogrosso 
— Não.
Raquel Zangrandi — Não teve vontade de fazer?
Ney Matogrosso 
— Já tive vontade de pegar aquele repertório lá da fronteira e isso ainda pode ser um dia… Como é, músicas como a do beijinho, como é? Era uma dupla, um homem e uma mulher que cantavam, “Penas do Tiê”.
Tacioli — Inhana e Cascatinha…
Ney Matogrosso 
— Cascatinha e Inhana! Qual era uma música muito conhecida deles?
Tacioli — “Meu primeiro amor”.
Ney Matogrosso 
— “Meu primeiro amor”! É lindo “Meu primeiro amor”. [n.e. Formada pelo casal Francisco do Santos (1919–1996) e Ana Eufrosina da Silva (1923–1981), a dupla Cascatinha & Inhana foi um dos principais nomes da música caipira entre os anos 1950 e 1980, com sucessos como “Meu primeiro amor”, “Índia”, “Colcha de retalhos” e “Flor do cafezal”]
Raquel Zangrandi — Poxa, seria incrível você gravar isso.
Ney Matogrosso 
— Mas eu vou cantar um dia! Eu tenho um amigo que uma vez me propôs fazer um repertório com músicas de lá. E ele fez um levantamento. Ele tem todo esse material. E um dia eu faço. Eu não tenho pressa, porque isso aí não vou fazer pra vender, é uma curtição minha.
Tacioli — Ney, nesse período pré-carreira, tinha algum artista que era totalmente contrário ao seu gosto?
Ney Matogrosso 
— Contrário ao meu gosto?
Tacioli — Essa banda, esse artista, não tem nada a ver…
Wal Raizer 
— Que você não gostasse…
Ney Matogrosso 
— Não, que eu não gostava, não. Antes da carreira, você fala?
Tacioli — Antes, é.
Ney Matogrosso 
— Não, não. Tinha quem eu gostava muito: Caetano Veloso. Eu achava excitantíssimo o Caetano Veloso. Ele me provocava estímulos que nenhuma outra pessoa jamais tinha provocado. Na Tropicália, né? E eu pensava assim: “Ah, se eu fosse artista, eu queria ser uma coisa assim como ele!”. Eu não queria ser ele, eu não queria fazer o que ele faz, mas eu queria estimular as pessoas como eu me sentia estimulado por ele. E creio que consegui, creio que consegui. Foi uma influência muito benéfica.

Raquel Zangrandi — Quando você o conheceu disse isso pra ele?
Ney Matogrosso 
— Já disse isso pra ele.
Raquel Zangrandi — Quando você o viu pela primeira vez?
Ney Matogrosso 
— Eu vi quando morava em Brasília, eu era funcionário público em 62, 63, e ele não tinha sido banido do Brasil, e fui na única sorveteria que tinha na cidade, que era em frente ao Hotel Nacional, onde ele estava hospedado. E quando eu estava saindo da sorveteria — ele estava lá num show da Rhodia com o Gilberto Gil, Rita Lee — e Caetano Veloso estava lindo, de cor-de-rosa daqui até aqui. Homem não botava cor de rosa nem numa linha. Fiquei olhando pra ele e não tive coragem de falar com ele, não tive coragem! Não tietei, nem cheguei perto; fiquei de longe, olhando deslumbrado a imagem daquele homem de cor-de-rosa, com os cabelos enormes. E eu já gostava dele, eu já ouvia tudo dele, ficava esperando o disco dele sair. Ele era uma coisa que já me estimulava, porque eu via que tinha uma coisa, que ele era um transgressor no comportamento.
Raquel Zangrandi — Quando você o encontrou pela primeira vez, teve o primeiro contato?
Ney Matogrosso 
— Foi na Bahia quando eu fui fazer (show) com o Secos & Molhados.
Raquel Zangrandi — E ele foi?
Ney Matogrosso 
— Ele foi ver na Concha Acústica. E no dia seguinte a gente se encontrou na praia. Aí ele disse que não viu muita diferença em mim, porque hoje em dia ele acha que sou muito diferente no palco. Mas disse que não me achou muito diferente, não porque ele me viu nu, porque na Bahia eu me apresentei praticamente nu, eu tinha um tapa-sexo, tinha um objeto de macramê que tinha uma coisa aqui e outra atrás. E eu entrei só com isso e aquela pena de um metro na cabeça. E na praia, no dia seguinte, eu estava com uma coisa que era praticamente um tapa-sexo, só tinha uma bundinha fechada aqui.
Raquel Zangrandi — Mas você estava maquiado no palco?
Ney Matogrosso 
— Estava maquiado, mas ele disse que não achou muito diferente porque estava nu nas duas situações. Mas, (tempo) mais tarde, ele acharia muito diferente o civil do (artista)… [ri]
Tacioli — Ney, você falou que o convite pro Secos & Molhados foi o caminho para a carreira profissional bem-sucedida. Antes disso, nessa época do show do Caetano lá em Brasília, quais eram os caminhos nos quais você arriscava para tentar uma carreira? Você vislumbrava alguma carreira?
Ney Matogrosso 
— Não, eu não tentava, mas lá em Brasília eu me aproximei das artes, coisa que meu pai tinha vetado lá na infância. (Em Brasília) eu me aproximei porque aí eu era dono do meu nariz, eu vivia às minhas custas, e eu me aproximei de teatro, de música, de todas as manifestações artísticas. E ensaiei uma peça de teatro. Estava ensaiando uma peça do Dias Gomes quando houve a ditadura, o golpe militar, e não pode estrear porque era A Invasão, uma peça do Dias Gomes. E lá em Brasília eu cantei num coral; em Brasília eu cantei música popular brasileira pela primeira vez. Depois que eu me apresentei pela primeira vez — eram dois cantores, duas cantoras e uma banda –, nós fizemos um programa de televisão em Brasília: a gente tinha uma noite por semana na madrugada pra gente gravar o nosso programa. E em Brasília eu cantei numa boate.
Tacioli — Você lembra o que cantou?
Ney Matogrosso 
— Ah, eu cantava “Upa neguinho”, essas músicas assim. Mas não era a minha, eu não achava que eu era cantor, achava que o fato de eu cantar era bom para o ator, mas ia lá. Aí eu tive contato com todas essas coisas, eu sabia que era arte. Aí teve um momento, quando eu cantava, que eu disse: “Mas é arte também. Tudo me interessa, tudo!”. Pintei, desenhei, (fiz) tudo o que era proibido pelo meu pai. Eu ficava em casa desenhando, pintando. O meu primo que era médico tinha outros amigos que frequentavam a casa, porque era uma casa de homens solteiros e eles iam pra lá. Aí tinha um que ficava lá comigo, eu ficava desenhando, tinha meu bloco de desenho, e ele pegava meu material, ele pintava, desenhava e a gente ficava lá. Era tudo assim. Aí ele se casou e eu e o irmão dele tivemos que rapar fora. [risos] Aí eu aluguei (um quarto) na casa de um amigo que tinha um apartamento — todos eram funcionários públicos, ganhavam muito bem e tinham apartamentos maravilhosos. E aí eu fui morar na casa de um deles. Aluguei um quarto e ali dentro era meu. Era a casa dele, não era a minha casa, a minha casa era aquilo ali que eu alugava, na minha cabeça, né? E convivi com ele alguns anos ali assim, mas ele na dele e eu na minha, ele não invadia, eu não invadia. Eu sempre tive essa coisa civilizada de espaço, de respeitar isso das pessoas, sabe? Quando você vai sozinho pra vida você tem que aprender, porque se você invade, você toma. Então, sempre fui muito ciente dessas coisas assim. Por exemplo: a Luhli depois contou uma história uma vez, numa entrevista, que quando eu ia na casa dela fazer meu artesanato — ela morava em Santa Teresa em uma casa que tinha um quintal, então podia sujar porque usava cola e tal — e eu tomava banho, parecia que ninguém tinha entrado naquele banheiro. Eu tinha secado o chão, eu tinha deixado o banheiro sequinho como eu o encontrei. E aí depois a Luhli fez esse comentário. Eu fazia isso mas não fazia pensando nisso, eu fazia porque eu achava que tinha que ser assim, que todo mundo tinha que fazer assim, que era assim que se fazia. Eu não considerava isso algo excepcional de alguém, né? E a Luhli, em uma entrevista, falou que eu parecia um gato, que eu passava na casa dela e que ninguém percebia que eu tinha passado, que eu tomava banho e o banheiro ficava seco. “Meu Deus do céu, mas ela notava que o banheiro ficava seco?!” Aí foi que eu me toquei…
Wal Raizer — Que as pessoas fazem diferente.
Ney Matogrosso 
— Sim.
Raquel Zangrandi 
— Uma vez você falou que essa disciplina veio do seu pai.
Ney Matogrosso 
— Sim, sim, que hoje em dia é muito útil.
Raquel Zangrandi 
— E que você veio a reconhecer depois.
Ney Matogrosso 
— Sim! Quando ele exigia, eu odiava. Hoje em dia eu agradeço, sabe por quê? É muito útil, muito útil, é muito bom ser disciplinado.
Tacioli — Você se considera perfeccionista?
Ney Matogrosso 
— Sou, sofro desse mal. Isso gera ansiedade, porque a perfeição você não alcança. É uma meta inalcançável, e nunca você está satisfeito. Então é muito estranho porque provoca uma ansiedade que é ruim, mas a meta é (a perfeição)!
Tacioli — E na carreira teve algum momento que esse perfeccionismo atingiu um ponto que atrapalhou demais?
Ney Matogrosso 
— Não, não, o perfeccionismo não atrapalha, né? Mas, por exemplo, o Caetano fez um comentário quando foi ver o Homem de Neanderthal, que foi o meu primeiro trabalho solo. Ele disse que achou tudo tão bem posto que o incomodou, porque chegava a ser frio… Eu não sorria. E era milimetricamente organizado, não havia margem para improviso, não havia margem para interferência da plateia.
Raquel Zangrandi — Você mesmo dirigiu o show?
Ney Matogrosso 
— Eu mesmo dirigi o show.
Raquel Zangrandi — A concepção era sua?
Ney Matogrosso 
— Toda minha.
Tacioli — E pegou no “figo” esse comentário.
Ney Matogrosso 
— Sim, mas foi muito bom, muito bom, porque o Bandido, que foi o seguinte, já não tinha isso. Bandido já era humanizado, eu já ria, podia tropeçar, porque eu entendi que não precisava desse rigor, mas tinha no Bandido a meta da perfeição, mas já mais descontraído, sabe?
Wal Raizer — A perfeição era não ser tão perfeito.
Ney Matogrosso 
— Sim, porque no Homem de Neanderthal era rigoroso. Começava assim: as pessoas entravam no teatro, elas já ouviam sons de pássaros e elas pisavam sobre galhos que provocavam odores, folhas que provocavam odores dentro do ambiente. Eu queria dar um toque de bosta seca de boi misturado com eucalipto, achava que ia ficar um perfume maravilhoso. Aí disseram: “Cê tá maluco?! Vai botar bosta de boi aqui dentro?!”. “Mas as pessoas não vão notar que é bosta de boi.” Aí, pra não criar problema, botei somente eucaliptos. Então as pessoas pisavam nos eucaliptos e liberava um perfume. A primeira tiragem do disco, quando você o abria, exalava um odor. Tinha a um incenso lá dentro triturado e quando você abria (o disco) exalava um perfume. Mas somente na primeira tiragem porque era feito à mão. [risos]
Raquel Zangrandi — O que te inspirou?
Ney Matogrosso 
— Era para estimular os sentidos das pessoas.
Raquel Zangrandi — Você tinha visto em algum lugar?
Ney Matogrosso 
— Não vi em lugar nenhum, foi da minha cabeça. Sempre fui ligado nos cheiros da natureza, então eu queria levar aquele cheiro pra dentro. Tem um lugar dentro da Mata Atlântica, não é encostadinho, é dentro da Mata Atlântica, em que o som da noite é algo impressionante. Eu gravei 12 horas desse som. Eu quero fazer alguma coisa com isso. Eu quero botar em algum ambiente pras pessoas ouvirem, pra elas saberem que isso existe, sabe? Porque não é (sempre) o mesmo (som), vai chegando mais tarde, outros sons vão aparecendo. Tem uma hora em que as corujas começam a cantar, mais adiante tem outros pios. É uma coisa, é uma viagem! É uma coisa que não é igual. E todo dia não é igual porque depende da estação, depende se choveu, depende se tá seco, depende… Tenho isso gravado de vários dias e eu queria fazer alguma coisa. Está guardado.
Raquel Zangrandi — Um outro show…
Ney Matogrosso 
— Não sei… Eu queria fazer uma instalação, queria um ambiente para as pessoas se deitarem em redes, sabe? Fazer uma luz bem suave e elas ficarem deitadas. Sei lá, fumar um baseado e ir lá! [risos]
Wal Raizer — Uma pajelança.
Ney Matogrosso 
— É, é.
Wal Raizer — Você já foi a Inhotim?
Ney Matogrosso 
— Não.
Wal Raizer — Tem a Sala dos Sentidos, em que você entra e sente. É incrível!
Ney Matogrosso 
— Pois é, então já existe isso.
Max Eluard — O Oiticica fez também com as Cosmococas
Ney Matogrosso 
— Mas era o quê?
Max Eluard — Aqueles penetráveis dele… Era uma instalação mesmo.
Ney Matogrosso 
— Sim, mas tinha essas sonoridades da natureza?
Max Eluard — Não, não, era o contrário, era justamente a urbanidade, a coisa da viagem da droga e estímulos da indústria cultural.
Ney Matogrosso 
— Sim, sim, automóveis e…
Raquel Zangrandi — Você pode fazer o da natureza.
Wal Raizer 
— Relax.
Raquel Zangrandi — Tem que durar seis horas para o pessoal ficar lá…
Ney Matogrosso 
— Eu peguei o gravador e saí. Tinha uma trovoada esparsa, mas uma trovoada longe. Aí eu caminhei pela mata, os passarinhos…
Raquel Zangrandi — Você sozinho?
Ney Matogrosso 
— Sozinho. Passarinhos… Caminhei até a cachoeira e captei o barulho da água caindo, quase encostei na água que caía. Aí, quando eu voltei ao caminho, começou um vendaval. Aí fiquei gravando o vendaval e depois eu me sentei em um lugar que, quando o vento batia, umas sementinhas caíam, “papapapapapa”. Eu gravei isso tudo. E as trovoadas foram ficando mais frequentes. A última foi um estrondo! Tenho tudo isso gravado, que eu chamei de “Tarde elétrica”. É uma coisa de duas horas, uma tempestade se aproximando, mas não sei se alguém tá interessado nisso. Eu tô!
Tacioli — Ney, quando a luz chegou pra você como recurso cênico, de trabalho?
Ney Matogrosso 
— Olha…
Tacioli — Que relação você faz da luz com a sua história?
Ney Matogrosso 
— Eu faço relação com a pintura, meu primeiro impulso artístico que meu pai vetou. Hoje eu sou iluminador porque eu tentei compensar o que eu não fazia aqui, tentei compensar visualmente dentro do espetáculo. Mas isso chegou na minha vida quando eu cheguei no Rio de Janeiro em 1970. Eu tinha um amigo que trabalhava na Sala Cecília Meireles. Aí eu perguntei pra ele: “Você não tem um emprego lá na Sala Cecília Meireles pra fazer qualquer coisa? Eu faço qualquer coisa, porque não sou especializado em nada”. A minha especialidade era aquela história lá de Brasília… “Olha, Ney, só tem de iluminador.” “Iluminador do quê?” “Iluminador de shows que têm lá.” “Mas o que o iluminador faz?” Aí eu fui lá ver. Só tinha um canhão (seguidor). Era a única coisa que tinha lá. Você tinha que ficar seguindo as pessoas (com a luz). Aí eu disse: “Ah, eu quero isso. Eu quero!” Aí o primeiro show que teve depois que virei o iluminador foi de um carioca que morreu muito cedo. Qual era o nome dele? Enfim, eram aqueles compositores…
Raquel Zangrandi — Torquato?
Ney Matogrosso 
— Não, não era o Torquato. Ele tocava, cantava, ele gravou discos. Era essa leva de compositores, Paulinho da Viola, sabe?! E eu fiquei ali, lá da minha cabine iluminando essas pessoas. “Olha que coisa boa, ainda tô assistindo um show!” [n.e. Possivelmente o artista citado por Ney seja Sidney Miller, importante compositor dos anos 1960 e 1970, com trânsito entre a MPB nascente e o samba. Lançou três discos: Sidney Miller (1967) e Brasil, do guarani ao guaraná (1968), ambos pela Elenco, e Línguas de fogo (1974), pela Som Livre. Suicidou-se em 1980, aos 36 anos de idade]
Raquel Zangrandi — De camarote.
Ney Matogrosso 
— Vendo essas pessoas que eu já gostei de cara. Ninguém era conhecido. E aí fiquei, fiz mais algumas vezes isso lá pra outras coisas. Depois, quando fui fazer teatro — fiz teatro profissionalmente antes do Secos & Molhados — aí a gente fazia tudo. Eu fiz muitos objetos de cena já que eu tinha um talento manual. A gente ficava lá criando junto com a diretora, porque era uma turma. Ficávamos dando palpite na luz, palpite em tudo.
Raquel Zangrandi — Figurino também?
Ney Matogrosso 
— Figurino também.

Além de assinar a luz e a direção de palco do show do LP “Revoluções por minuto” (1985), do RPM, Ney indicou a inclusão de “London, London”, de Caetano Veloso, no set list do espetáculo. O LP “Rádio Pirata ao vivo” (1986) vendeu cerca de 2,7 milhões de cópias. Foto: Reprodução

Raquel Zangrandi — A primeira calça do Secos & Molhados foi você que fez?
Ney Matogrosso — Sim, sim, sim. Eu fiz uma cabeça de touro de papel machê, sem nunca ter feito papel machê na minha vida. Mas eu fiz! O ator tinha que vestir uma cabeça de touro e eu fiz. Eu botei ele na minha frente, meti um molde de papelão pra ver quanto precisava do rosto dele liberado ali dentro daquilo, e depois eu fui fazendo uma cara de touro, com chifre, com orelhas e com os olhos. Furei aqui pra ele poder respirar. Eu fazia isso e aí essa coisa toda veio. E no Secos & Molhados eu dava muito palpite na luz. Não dava tempo de eu fazer (a luz), mas eu dava palpite. Até que um dia comecei a fazer a minha luz. Eu não assinava porque não achava que tinha que assinar luz. E ninguém estava interessado em saber quem tinha feito a luz, né? Até que um dia o Poladian — eu trabalhava com o Poladian nos anos 80 — me disse que ele queria uma banda de rock e se eu poderia indicar uma. [n.e. Com mais de 50 anos de carreira, o advogado Manoel Poladian é um dos principais agentes/empresários musicais do país. Foi responsável pela vinda de Sarah Vaughan ao Brasil nos anos 1970. Foi empresário de Ney por 18 anos]. Aí eu indiquei o RPM. “Você dirigiria e faria a luz?” “Olha, nunca fiz, mas faço se você me der carta branca, me der tudo que eu quiser, aí eu faço.” E eu fiz o RPM, a direção e a iluminação. E comecei a fazer.
Raquel Zangrandi — E começou assinar?
Ney Matogrosso 
— Aí eu fiz dois shows do Chico — Paratodos e o Cidades — , fiz dois da Simone, fiz um da Nana Caymmi, fiz um do Nelson Gonçalves, já tinha feito RPM, fiz o Cazuza. [n.e. Do ex-Barão Vermelho e ex-namorado Ney dirigiu em 1988 o show “O tempo não pára”]. E, mais recentemente, fiz a luz da Mart’nália e agora fiz a direção da Ana Cañas.
Tacioli — E essa trajetória como iluminador, esse percurso de construção do desenho da luz, tem momentos marcantes além desse com o Poladian?
Ney Matogrosso 
— Não. Agora eu tenho um estilo de luz que é diferente dos iluminadores, porque ocupo os dois lados, então eu sei quais são as necessidades dos dois lados. A minha ênfase não é no ritmo, a minha ênfase é na letra. A letra é que me diz onde eu mudo a luz: até aqui é uma coisa e nessa palavra em diante tudo muda, a cena toda muda e tem esse movimento pra lá, tem isso pra cá. Então, sou diferente nesse sentido, porque a minha ênfase é naquilo que tá sendo falado, tanto nos meus (trabalhos), quanto nos que eu faço.
Tacioli — Do mesmo jeito que você tem uma atenção com o som, você observa a luz do dia a dia?
Ney Matogrosso 
— Tenho! O tempo todo eu tô ligado com a luz do sol, nos lugares, com a claridade! Eu noto tudo. Um dia desses eu notei que dentro de uma mata escura tinha uma sombra minha no chão. Eu disse: “Não é que tem uma sombra minha nesse escuro aqui?” O sol estava se pondo, mas ainda tinha uma claridade pelo alto da floresta que provocava uma sombra minha andando naquele semiescuro, ainda não era treva, mas já era escuro, mas tinha um…
Max Eluard — Um lusco-fusco.
Ney Matogrosso 
— É! Mas somente percebi porque eu sou ligado; ninguém tinha percebido até que eu falei: “Vem cá, gente, tem uma sombra ou tô ficando doido? Tô maluco? Tô vendo coisa que não existe?”. Aí, todo mundo prestou atenção e viu que tinha uma sombra andando, que era a nossa.
Tacioli — A luz já veio primeiro que (a concepção do) espetáculo, apesar de você ter dito que é a letra que dita (a iluminação)?
Ney Matogrosso 
— Muitas coisas vêm juntas. Claro que depois eu desenvolvo, mas muitas ideias vêm juntas. Vem a ideia de figurino, vem a ideia de luz, vem a ideia de cena. Vem tudo assim! Quando eu tô pensando numa música, eu já sei qual é abertura do próximo show sem nem ter pegado no repertório ainda, já sei qual é a abertura, de que maneira vou chegar, o que vai acontecer.
Raquel Zangrandi — Fica na cabeça ou você anota?
Ney Matogrosso 
— Eu anoto, eu anoto.
Raquel Zangrandi — Desenha, rabisca…
Ney Matogrosso 
— Desenho, rabisco, desenho figurinos, mesmo que depois não seja (feito). Mas vem (a ideia), eu desenho e guardo.
Raquel Zangrandi — Você guarda dos (espetáculos) anteriores? Você tem um acervo?
Ney Matogrosso 
— Não, não, vou jogando fora!
Raquel Zangrandi — É um belo portfólio.
Max Eluard — Não é memorialista.
Ney Matogrosso 
— Não sou, não sou mesmo.
Raquel Zangrandi — Mas isso tem seu valor artístico, esses rabiscos, estudos de shows.
Ney Matogrosso 
— É. E muitas coisas viraram figurinos e outras não viraram. Cenários também. Vem umas ideias de cenário e eu ponho no papel.
Raquel Zangrandi — Hoje você ainda costura ou arremata um negócio na mão?
Ney Matogrosso 
— Se for preciso eu faço tudo, eu sei costurar. Eu já fiz roupa pra mim, eu fiz uma calça pra mim lá atrás, no tempo da pobreza mesmo. Eu queria uma calça branca e eu não tinha dinheiro pra comprar uma calça branca. Alguém me deu um tecido branco. Eu disse: “Vou fazer uma calça branca pra mim!”. Peguei uma calça jeans velha e desmanchei, botei em cima do pano branco, risquei, cortei e costurei a calça inteira na mão. Acabei com meus dedos, mas fiz a calça branca. [risos] É muito bom…
Raquel Zangrandi — Habilidade manual?
Ney Matogrosso 
— Com habilidade manual você não passa aperto. O que precisar eu sou capaz de fazer. Eu não sou um cozinheiro, mas eu não passo fome, eu sei fazer comida.
Raquel Zangrandi — Arroz, feijão, você sabe fazer?
Ney Matogrosso 
— Sei fazer arroz, feijão, sei fazer outras coisas e sou bom no tempero também, porque eu sou comedido, não exagero, sabe?
Raquel Zangrandi — Você aprendeu alguma dessas coisas na infância?
Ney Matogrosso 
— Não, eu aprendi na hora em que saí da minha casa e que precisei viver sozinho.
Tacioli — Mas qual é a especialidade da casa?
Ney Matogrosso 
— Hoje em dia eu não garanto mais, mas houve uma época em que eu fazia um frango delicioso com creme de leite, não sei nem se se faz frango com creme de leite, mas eu fazia. E não era estrogonofe, porque era frango em pedaços. Eu cheguei num ponto em que as pessoas me pediam pra eu fazer na casa delas, mas eu nunca mais fiz, nunca mais fiz. Eu tenho uma cozinheira maravilhosa. Vou tirá-la da cozinha pra quê? [risos] Mas se for preciso eu faço.
Tacioli — Ney, você falou que depois de um tempo você joga fora os rabiscos (dos figurinos). A Raquel falou sobre acervo e da questão memorialística. Li também que você tem registrado os shows ou o que passa na tevê. Você tem esse material?
Ney Matogrosso 
— Eu tinha. Isso tudo foi o que eu entreguei pro Joel. Eu tinha 300 horas de material filmado de televisão, tinha uma quantidade de rolos de filme.
Raquel Zangrandi — Era em VHS?
Ney Matogrosso 
— Era em VHS. Agora está tudo em …
Raquel Zangrandi — Passou para DVD?
Ney Matogrosso 
— É, passou para DVD e é a base do documentário que está pronto.
Tacioli — E esse material volta?
Ney Matogrosso 
— Eu dei os tapes, já me foram devolvidos limpos e me deram copiados para DVD. Então está tudo comigo de novo. Na verdade, era queria da minha casa transformar um canalzinho de televisão e ir disponibilizando tudo. Eu não queria ter nada guardado. Eu queria liberar tudo, sabe? Mas quando eu pensei isso, as pessoas diziam: “Ah, não pode porque é pesado e ninguém vai ter paciência!. Mas hoje em dia a coisa tá toda diferente, né?
Max Eluard — Se você não tem esse apego com a memória, o que te moveu a criar esse acervo tão gigantesco?
Ney Matogrosso 
— Não sei, talvez eu tivesse alguma necessidade disso aí. Era uma coisa que eu não sabia nem o porquê, mas eu gostava. Começou da seguinte maneira: o que a gente fazia, a gente não via. Eu queria ver, eu queria ver pra entender, saber como é que é, o que eu tô fazendo. Na verdade, começou dessa maneira, eu precisava ver pra eu ter controle.
Raquel Zangrandi — Querer fazer melhor…
Ney Matogrosso 
— Controle, controle, sabe, é o controle!
Max Eluard — Havia esse olhar de ver o que se fez.
Ney Matogrosso 
— Crítico, crítico.
Raquel Zangrandi — Não tem a ver com a memória, tem a ver com a perfeição.
Ney Matogrosso 
— É. E acabou que fiquei com esse material todo.
Raquel Zangrandi — Muito bem, serviu para a memória.
Ney Matogrosso 
— Serviu para a memória…
Raquel Zangrandi — Como é boa a perfeição.
Ney Matogrosso 
— Imagina, o filme do Joel tem uma hora e quarenta!
Tacioli — Trezentas horas.
Raquel Zangrandi — Mas dá pra ter muitos extras interessantes.
Ney Matogrosso 
— Vamos fazer o seguinte: do resto do material, vamos fazer dez DVDs em ordem cronológica, de uma hora cada um, mas aí, claro, vai ter o toque artístico do Joel, que é muito interessante. A intenção é que seja cronológico.

Secos & Molhados: João Ricardo (esq.), Ney Matogrosso e Gerson Conrad. Foto: Reprodução

Raquel Zangrandi — Registro de shows e entrevistas?
Ney Matogrosso 
— De shows e entrevistas, tudo referente a algumas épocas, né?
Raquel Zangrandi — Que legal!
Ney Matogrosso 
— Mas ainda vai sobrar material pra minha televisãozinha… [risos]
Wal Raizer — Canal Matogrosso!
[n.e. O artista tem disponibilizado seus vídeos novos e antigos em seu canal no Youtube]
Ney Matogrosso 
— É. E eu tenho muitos bilhetinhos e cartinhas.
Raquel Zangrandi — Isso você tem guardado?
Ney Matogrosso 
— Algumas coisas eu não tive a coragem de me desfazer. Mas olha a burrice que eu fiz um dia desses: peguei um desenho que o Siron Franco tinha feito de mim, desse tamaninho, e joguei fora.
Raquel Zangrandi — Assim?
Ney Matogrosso 
— De loucura! A primeira vez em que eu estive com ele, a gente estava numa mesa conversando. Aí ele começou a desenhar e me disse assim: “Oha você!”. Eu olhei e disse: “Nossa, Siron, você me vê dessa maneira?”. Porque era eu e da minha cabeça saía um pau. “Porra, Siron, mas eu não sou assim!” Não sei porque, há um ano, dois anos atrás, disse: “Vou jogar isso fora!” Olha que maluquice.
Max Eluard — Um ano, agora?
Ney Matogrosso 
— É, dois anos atrás. Joguei fora! Pra que vou ficar guardando esse cara com essa piroca saindo da cabeça, sabe? [risos]
Raquel Zangrandi — Depois vai para leilão (e rende) milhões…
Ney Matogrosso 
— Sim, quando mais não fosse por ser um Siron Franco, não é isso?
Raquel Zangrandi — Pelos dois motivos.
Ney Matogrosso 
— Então, tenho bilhetinhos de Elis Regina, bilhetinhos do Gonzaguinha, coisas assim que tenho um apego sentimental.
Max Eluard — E você revisita de vez em quando?
Ney Matogrosso 
— Não, não, eu tenho guardado, mas não sei nem onde está. Se eu quiser mostrar eu tenho que fuçar.
Wal Raizer — Fazer uma garimpagem…
Max Eluard — Uma arqueologia.
Ney Matogrosso 
— É, mas tá guardado. O que eu tinha muita coisa era de figurino, que está tudo no Senac agora, liberei tudo pra eles, tudo.
Raquel Zangrandi — Como eles armazenam isso?
Ney Matogrosso 
— Vai ser uma exposição permanente. Eles estão com mais de 300 peças minhas.
Raquel Zangrandi — Uma exposição somente sobre você?
Ney Matogrosso 
— Somente sobre meus figurinos. Vai começar agora. E eles não vão expor tudo de uma vez.
Raquel Zangrandi — Aqui no Rio?
Ney Matogrosso 
— Não, em São Paulo. Vai ser uma exposição permanente lá no Senac, porque lá é uma escola de moda, inclusive, né? [n.e. A exposição Cápsula do tempo: identidade e ruptura no vestir de Ney Matogrosso, inaugurada em 2013, contou com curadoria do carnavalesco Milton Cunha]
Raquel Zangrandi — Sim, sim. A escola de moda do Senac tem em alguns lugares do Brasil.
Ney Matogrosso 
— Pois é, então eles vão fazer uma exposição itinerante e na exposição permanente eles vão ficar trocando as peças, porque elas não podem ficar expostas direto. A luz acaba com elas.
Raquel Zangrandi — Resseca o pano…
Ney Matogrosso 
— Estão refazendo todas as minhas roupas de couro, que estavam duras. Eles estão deixando tudo macio como um tecido de novo.
Raquel Zangrandi — De onde partiu essa ideia? Foi você que procurou o Senac?
Ney Matogrosso 
— Não, não, eu fui lá participar de uma coisa numa semana de moda do Fashion Week. Fiz uma entrevista enorme lá; aí falei que tinha essas coisas, mas que era uma pena porque tudo estragando comigo, estava tudo aqui, num lugar quente, que batia sol. Aí, quando falei isso, as pessoas ficaram: “Não, Ney, pelo amor de Deus, não estraga isso, não acaba, não deixa acabar”. Aí eu fui conhecer o Senac, gostei da onda lá. Eles me mostraram a parte toda de moda. O que eles têm de figurinos! Coisas maravilhosas, tudo com o clima certo, a temperatura ambiente certa. Eu disse: “É aqui o lugar!”. Passei tudo pra eles. Ontem eu mandei pra eles o terno do Pescador de pérolas, que eu tinha esquecido de botar na mão deles. Mandei o terno inteirinho.
Wal Raizer — Quantos figurinos?
Ney Matogrosso 
— Olha, são vários figurinos inteiros e muitas peças avulsas. São 300 peças no total.
Wal Raizer — Nossa, muito grande mesmo.
Ney Matogrosso 
— Não tenho as botas nem os sapatos, que eu dei tudo pra grupos de teatro. Eu tinha botas, mas foi ficando uma quantidade de botas que eu não tinha onde enfiar, sabe? Aí eu dei tudo. Os figurinos do Secos & Molhados eu dei todos.
Raquel Zangrandi — Como era aquele clipe de “América do Sul”, as penas lindas…?
Ney Matogrosso 
— Não, aquela era couro, crina de cavalo, tudo que era de couro, apodreceu ou estragou.

Wal Raizer — Mas nesse projeto da exposição, eles pretendem reconstruir alguns figurinos?
Ney Matogrosso 
— Estão reconstituindo alguns.
Wal Raizer — Mas desses que se perdeu, que eram de couro…?
Ney Matogrosso 
— Olha, esse de crina de cavalo, não sei, porque para esse eu comprei o rabo inteiro, com o couro aberto, sem o osso. Era um rabo inteiro que vinha daqui até aqui, o braço…
Wal Raizer — Devia ser pesado?
Ney Matogrosso 
— Era pesado, mas era maravilhoso.
Raquel Zangrandi — Um arraso.
Ney Matogrosso 
— É. Era aquele cavalo do rabo castanho e aqui na cabeça era um rabo de cavalo preto. E aqui era uma parte só com crina negra de cavalo.
Raquel Zangrandi — E de onde você tirou essa ideia louca de se vestir de crina de cavalo?
Ney Matogrosso 
— Eu queria fazer uma roupa de feiticeiro africano.
Raquel Zangrandi — Parecia feiticeiro…
Ney Matogrosso 
— Aqueles chifres do ombro, lembra disso?
Raquel Zangrandi — Lembro.
Ney Matogrosso 
— Aquilo tudo eu fazia pra me defender, porque eu sabia que estava no meio de uma loucura. E eu acredito nessas coisas, tá?
Max Eluard — O que, da energia, do estar sob muitos olhares?
Ney Matogrosso 
— Sim, e que os chifres são para-raios, que são usados pelos feiticeiros na África. Essas coisas animais são usadas por feiticeiros africanos. Eu disse: “Se eles usam lá, eu vou usar cá!” Eu tinha dois chifres de carneiro enrolados aqui nos meus ombros, que eu fazia assim, eles ficavam em pé, como antenas. Aí eu largava assim e eles viraram asas.
Max Eluard — Dependendo da posição você defendia ou voava.
Ney Matogrosso 
— É, ou voava!
Max Eluard — E como você formou a sua espiritualidade? Você tem alguma religião?
Ney Matogrosso 
— Não! Eu sempre li muito. Durante 20 anos eu li tudo de teosofia, tudo de não-sei-o-quê. Bom, então vou falar: o primeiro ácido que eu tomei foi em Búzios. Tomei um banho, vesti uma roupinha branca, tomei um ácido e fui pra praia. E aí eu entendi tudo, entendi tudo, entendi que tudo estava ligado, que tudo se relacionava e eu não valia mais do que a areia, aquela pedra tinha o mesmo valor que a areia…
Max Eluard — Que a areia e que não valia mais que você.
Ney Matogrosso 
— Que areia, que mar, que eu, que o universo, né? E aí começou a minha busca. Comecei a ler, ler, ler, ler, eu e Vicente Pereira. Vicente era muito meu amigo. O Vicente foi um dos meus amigos que eu levei pra morar comigo lá em São Paulo. E a gente era muito ligado nessa busca. Eu li muito! Desses livros eu não me desfaço; me desfiz de todos os outros, mas esses eu tenho guardadinhos. Tô lendo de novo A doutrina secreta, da Blavatsky. Eu já tinha lido e tô lendo de novo. Estou entendendo muito mais agora. [n.e. Referência ao livro A doutrina secreta, síntese da ciência, religião e filosofia (1888), de Helena Petrovna Blavatsky (1831–1891), uma das fundadoras da Teosofia]
Max Eluard — Mas uma busca por dois extremos: um extremamente racional, pelo que estava escrito, e a busca da sensibilidade.
Ney Matogrosso 
— Mas só tinha o escrito, era a única informação. Aí um dia eu falei com o Vicente: “Vicente, eu tô cansado de teoria, tô cansado dessa espiritualidade lida. Eu queria uma coisa que balançasse o coreto, que me deixasse desarvorado”. Um dia ele me ligou, ele estava em Brasília, e disse assim: “Tá a fim de balançar seu coreto?”. “Tô!” “Pega um avião amanhã e esteja aqui à tarde que nós vamos balançar o seu coreto.” “Tá bom!” Peguei um avião e fui, não sabia o que era. Cheguei (em Brasília) e ele disse: “Nós vamos tomar daime”. “O que é daime?” “Você vai ver o que é daime!” Fui com ele lá, numa casinha no meio do nada, tomar o daime numa noite de lua cheia. Quando o dia começou amanhecer, a lua cheia estava aqui, o sol estava ali e eu enlouquecido, eu não entendi a mensagem, mas balançou o meu coreto. Aí, depois daquilo, tomamos (o daime por) um ano e meio, regularmente.
Tacioli — Quando foi isso?
Ney Matogrosso 
— Anos 80.
Wal Raizer — Regularmente quanto, uma vez por semana?
Ney Matogrosso 
— Toda semana, às vezes mais de uma vez. Eu fui pro Céu do Mapiá, eu fui pro Amazonas… Fui lá, conheci o Padrinho Sebastião, me embrenhei, três dias de canoa dentro de igarapé pra chegar… Eu fui!
Wal Raizer — Você foi em que ano?
Ney Matogrosso 
— A viagem foi em 1987, 88.
Wal Raizer — Nessas últimas vezes em que você foi pro Acre, você foi lá, não?
Ney Matogrosso 
— Não, não, não.
Max Eluard — E como interrompeu?
Ney Matogrosso 
— Interrompi porque eu tomei por um ano e meio e entendi o seguinte: que tinha gente ali dentro que tomava há 20 anos, mas estava naquela de tomar e bailar e cantar e ficar naquela bebida. Eu não, estava afim de religião, eu queria autoconhecimento. A bebida me proporcionou esse autoconhecimento, porque ela proporciona autoconhecimento. Acho errado dar pra qualquer pessoa como eles dão. Acontece essas loucuras aí, porque é muito potente. Depois que eu tomei o daime, eu disse: “Que mané ácido! Ácido não tá com nada”. Os (ácidos) de agora, porque antigamente ácido abria as portas da percepção. Agora eu me perdi nesse assunto.

Sebastião Mota de Melo (1920–1990), o Padrinho Sebastião, foi um líder religioso e um dos fundadores da Vila Céu do Mapiá, na região amazônica, considerada a capital do Santo Daime. Foto: Marco Gracie Imperial

Wal Raizer — O porquê de parar de tomar o daime…
Ney Matogrosso 
— Achei que eu estava muito acelerado e a minha percepção da história era diferente das pessoas, porque quando você vai tomar o daime, você pede uma coisa. Aí uns pedem assim: “O amor, aí não-sei o-quê…”. E eu pedia discernimento. Tomei um ano e meio pedindo discernimento. Bebia e dizia assim: “Discernimento, discernimento, discernimento, discernimento”. E tive o discernimento. E eu acho agora o seguinte: se eu quero alcançar aquilo, é possível alcançar aquilo sem tomar nada, já que você já sabe o caminho, você já sabe o que é, já sabe do que se trata. Mas você tem que se voltar pra isso dentro de você. Não é fora, fora não tem resposta, dentro tem resposta. A gente sabe tudo, a gente sabe tudo e, nós, provavelmente devemos saber tudo da humanidade, né? Nós somos contidos por isso. É que a gente não acessa, a gente não tem noção; dez por cento apenas funcionando aqui. Dez ou sete?
Raquel Zangrandi — Dizem que é dez.
Ney Matogrosso 
— Dez, né, não é nada, não é nada. Estamos aqui para evoluir, pra gente chegar no total, tá? Não é agora.
Tacioli — Faltam noventa.
Ney Matogrosso 
— Faltam noventa. Mas nós ainda vamos acelerar, ainda vamos passar por um pedaço aí que vai fazer a gente caminhar mais. Eu acredito!
Wal Raizer — Fazer a gente entender…
Ney Matogrosso 
— Eu acredito nisso.
Wal Raizer — Entender porque é necessário.
Ney Matogrosso 
— Sim, sim, sim.
Max Eluard — Então, a partir do momento em que o daime começou a chegar perto da religião, não te interessou mais.
Ney Matogrosso 
— Não me interessa. Não é religião! A religião não me interessa. Nenhuma, nenhuma delas me interessa. Não é isso que eu busco.
Max Eluard — Não é um dogma?
Ney Matogrosso 
— Não.
Max Eluard — São preceitos morais.
Ney Matogrosso 
— Não, não, absolutamente. E no meu ponto de vista a liberdade tem que ser total e absoluta. Cada um tem que ser responsável por si. Não tem que ter lei, não tem que ter governo, não tem que ter polícia, cada um tem que ser responsável por si. Por si e pelo próximo. Esse é o meu entendimento final desses anos de…
Wal Raizer — De imersão.
Ney Matogrosso 
— De imersão e de busca. Eu acho que o que você pensa, vale, o que você fala, vale, o que você emana, vale. Tudo significa, tudo é, tudo tem sentido. O gatinho lá, deitado na minha cama, eu encosto assim e faço um cafuné nele, ele começa a ronronar, eu fico cheio de amor. Eu digo: “Mas é isso aí a vida!”. E tem que ser isso com as pessoas, tem que ser isso indiscriminadamente, indistintamente, para qualquer pessoa que se aproxime, para qualquer pessoa por quem você passe na rua, sabe? Eu fico fazendo essas coisas na rua e as pessoas me olham estranho. Olho pra elas e digo assim: “Eu vou abrir meu coração!”. E as pessoas me olham assim porque sacam que está indo alguma coisa. Vocês devem tá achando que eu sou maluco. Vou contar uma que vocês vão achar que eu sou mais doido ainda. Uma vez eu peguei um táxi e o motorista me disse assim: “Eu estou com uma dor de cabeça horrorosa. Eu estou passando mal. Não estou conseguindo nem dirigir direito”. Eu disse: “Vamos com calma! O senhor vai me levar com calma”. Eu acredito nesse poder: fiquei com essa mão puxando a dele e com essa outra aqui eu ficava mandando pro alto-mar. Eu atrás dele, calado, silencioso, não falei nada. Não fiz nada, não falei nada. Quando chegamos na minha casa, ele me olhou e disse: “A minha dor de cabeça passou!”. E me olhava. Ele achava que eu tinha a ver com aquilo, mas não ousou falar… Eu vi que ele relacionou o fato da dor de cabeça dele ter passado com a minha pessoa, mas não teve coragem de me dizer isso. Mas ele me olhava e me dizia com os olhos, sabe? Acredito nisso, existe essa possibilidade, é que a gente não treina isso.
Wal Raizer — Faz parte dos 90% que a gente não acessa.
Ney Matogrosso 
— Agora, vou falar a coisa mais louca pra vocês: eu fui treinado por um cara que era da repressão militar pra vocês verem em que ponto eles chegaram.
Raquel Zangrandi — Mas quando foi isso?
Ney Matogrosso 
— Já nos anos 80. Ele era padrinho de um outro amigo meu, que morava comigo lá em São Paulo, que veio pra cá. Não vou nem dizer de qual órgão (ele fazia parte), era o mais repressor de todos. E eu ia pra casa dele e ele ficava treinando comigo. Ele dizia assim: “Me dá a mão”. Eu dava a mão pra ele. Dizia assim: “Passe tudo de ruim que você puder imaginar pra mim”. Eu dizia: “Eu não vou fazer isso!”. “Se você não fizer, eu vou fazer em você.” “Pode fazer!” Ele fazia e eu tinha ânsia de vômito. Aí eu disse: “Tá bom, você quer que eu faça? Então eu faço!”. Eu fazia, mandava pra ele, ele estrebuchava, e eu estrebuchava quando ele me mandava. Isso é um exercício, é um treino mental e é possível. Aí uma vez eu estava indo pra praia e vi uns pivetes, uns meninos brancos que mexeram com um pretinho que vinha vindo. Ficou uma confusão no meio da rua. Aí o pretinho pegou um paralelepípedo. E eu disse: “Meu Deus!”. Fiquei de longe. E dizia: “Não, não pode, não pode, não pode! Desmancha, desmancha!”. Parado, só pensando, olhando pra eles. E aquilo se desfez. Depois os meninos branquinhos olharam pra mim e o pretinho me olhou com um olhar agradecido. Ele entendeu que eu tinha interferido naquela história, gente! Eu não posso duvidar dessas possibilidades, sabe? Não posso duvidar disso, como é que eu vou duvidar?
Raquel Zangrandi — É, também não duvido.
Ney Matogrosso 
— Nem eu.
Tacioli — Ney, a gente pode ter mais 15 minutos?
Ney Matogrosso — 
Eu tenho um lanche pra vocês. [risos]
Raquel Zangrandi 
— Que adorável! [risos]
Tacioli — Ney, um outro tema que eu…
Ney Matogrosso 
— Nunca falei essas coisas, hein? Não sei de que maneira isso vai chegar em quem vai ler, vão dizer mais uma vez que eu sou maluco, que eu sou drogado. Você sabe que eu tenho essa fama de drogado, né? Hoje, o meu professor de ginástica me falou que uma senhora estava lá fazendo aula com ele, ela está gordinha, e disse assim: “Mas também eu não posso ser como esses artistas, né, porque não-sei-quem, não-sei-o-que-lá, o Ney Matogrosso tem aquele corpo, mas ele cheira pó!”. [risos] Porra, eu não cheiro pó! Eu cheirei pó um ano da minha vida e odiei o tal do pó, sabe?
Raquel Zangrandi — A pessoa acha que a única explicação plausível pra esse seu corpinho…
Ney Matogrosso 
— É a cocaína.
Raquel Zangrandi — Acha que não é possível uma cinturinha de bailarina…
Ney Matogrosso 
— Porra, mas ela não sabe o quanto eu trabalho, o quanto eu faço esforço físico em casa pra isso. Eu faço ginástica todo dia.
Raquel Zangrandi — E sua cabeça, sua memória, cem por cento?
Ney Matogrosso 
— Cem por cento, cem por cento, só que eu tô com preguiça de decorar letra de música, vinte músicas de cada vez. Agora tem um teleprompter, não é pra ler, é uma palavra ou outra. Se vai tudo no automático, eu não esqueço nada. Então, quando eu tenho medo disso, boto o teleprompter, porque se me der esse branco, eu olho a palavra e dali eu vou adiante… Mas eu tenho a memória boa, tudo meu tá funcionando. A única alteração no meu check-up é meu colesterol, por incrível que pareça! Eu nunca imaginei que uma pessoa magra tivesse colesterol alto.
Raquel Zangrandi — Mas parece que não tem relação direta, pode ser hereditário também.
Tacioli — Ney, no começo dos anos 80, foi lançado o A Arca de Noé 1 e 2 e você participou dos dois discos…
Ney Matogrosso 
— Sim, com a “Galinha d’Angola” e o “São Francisco”.
Tacioli — Não somente esses discos, mas outros lançados nesse período contribuíram pra formação do universo infantil. Tem alguma história da construção desse disco? Você lembra de alguma coisa?
Ney Matogrosso 
— Não, o negócio é o seguinte: quando eu gravei, o Vinicius já tinha morrido, mas o Toquinho me procurou e me disse que o Vinicius tinha pedido para eu cantar o “São Francisco”, que ele queria a minha voz para o “São Francisco”.
Wal Raizer — Ele sabia da sua ligação com animais?
Ney Matogrosso 
— Não, não, mas ele era uma pessoa já muito evoluída, ele já devia perceber alguma coisa, né? Ele prestava atenção em mim. Ele via as coisas que eu falava. Foi assim: ele já tinha escolhido o que todos que iam cantar e tinha me escolhido pra cantar o “São Francisco”. E a “Galinha d’Angola” já foi um outro projeto, eram outras pessoas, já não tinha mais o Vinicius, mas era também com letras dele.

Tacioli — E o Faro? [n.e. Criador do programa MPB Especial/Ensaio, da TV Cultura, e do tropicalista Divino, Maravilhoso, Fernando Faro também produziu discos e shows de Vinicius e Toquinho, além dos dois volumes do infantil A arca de Noé (1980/1981)]
Ney Matogrosso 
— Sim, sim…
Tacioli — Ele estava ali?
Ney Matogrosso 
— Sim…
Tacioli — Conduzindo a arca.
Ney Matogrosso 
— É, é.
Tacioli — Tem alguma história curiosa do Fernando Faro?
Ney Matogrosso 
— Tem uma coisa estranha. Tô falando isso, mas eu não tenho nenhum sentimento assim… Quando nós fizemos o primeiro programa dele, teve lá um momento em que ele tocou (no tema do) homossexualismo, não-sei-o-que-lá. E eu disse: “Porra, Baixo!”. Eu estava tão despreparado que gaguejei, eu não esperava que ele falasse disso, porque não tinha a ver. Aí eu gaguejei. “Porra, Baixo, eu acho que isso é normal, não acho isso uma anomalia, tudo é normal, ninguém é especial por isso, né?” Fiquei meio enrolado, porque eu não esperava dele tocar nesse assunto. Aí quando ele abriu o programa, a primeira frase que eu falo foi essa. Fiquei tão triste! Meu Deus, por que abrir o programa com isso? Mas depois disso já fiz outro, eu sou amigo dele, adoro o Baixo, gosto muito dele, gosto muito do Baixinho, tenho o maior carinho por ele, gosto de beijá-lo, abraçá-lo, ele gosta, ele deixa. [risos]
Tacioli — Ney, a gente falou da sua trajetória como iluminador. Como você avalia o percurso da sua voz?
Ney Matogrosso 
— Olha, eu ainda tenho as notas agudas, mas eu adquiri médios e graves, portanto considero a minha voz mais completa agora do que era na época do Secos & Molhados, que eu era restrito às notas agudas. Mas eu tenho as notas, canto músicas que gravei no Secos & Molhados no mesmo tom ainda.
Raquel Zangrandi — O “Fala”…
Ney Matogrosso 
— É, o “Fala” é uma delas que eu canto ainda no tom original.
Raquel Zangrandi — Mas você trabalhou a sua voz nesse sentido, de adquirir os graves e os agudos?
Ney Matogrosso 
— Não, isso foi a idade que trouxe. O que deveria estar acontecendo comigo é que a minha voz estaria ficando mais grave do que era. Isso é normal, mas a grande vantagem é que adquiri os médios e os graves e continuo tendo os agudos. Agora a cor não é a mesma. Se eu cantar o “Fala” hoje em dia e você ouvir o “Fala” que eu gravei lá, você vai ver que eu estou cantando no mesmo tom, mas a cor da minha voz é outra; a outra era branquinha, parecia vidro. Agora ela tem cor. Prefiro como ela é agora, quando posso experimentar mais.
Tacioli — Ney, tem algum trecho da sua vida mal contado ou pelo menos contam de um jeito que você não gosta ou diz ” Não é bem assim”?
Ney Matogrosso 
— Não lembro de um trecho mal contado da minha vida. O que acontece é que a imprensa é muito esquisita. Ultimamente tenho dado muita entrevista por conta do filme. Aí falei que eu gostava de ficar nu quando era proibido. Isso foi o que eu falei, contei a história. Aí um outro publicou o seguinte: eu gostava de ficar nu. Eles colocaram uma palavra que mudou o sentido, sabe? Eu disse que gostava de ficar nu quando era proibido e eles disseram que eu gostava de ficar nu. Eu não sei, eles colocaram uma palavra que mudou o sentido. “Mas olha só que safadeza, uma palavrinha que eles botam, eles mudam o sentido, porque quando eu digo que gostava de ficar nu era porque era proibido, era uma atitude diante da proibição, né?”
Max Eluard — Tem uma atitude política no ficar nu quando é proibido.
Ney Matogrosso 
— Sim, sim. Eu disse: “Eu gostava de ficar nu quando era proibido”.

Capas dos álbuns Feitiço (1978), Matogrosso (1982) e Pois é… (1983) em que a nudez dá as boas-vindas. Fotos: Reprodução

Raquel Zangrandi — Pergunta-se como se (a nudez) fosse sempre gratuita, por qualquer motivo, por qualquer coisa.
Ney Matogrosso 
— É, eu fico nu por qualquer motivo.
Raquel Zangrandi — Sendo ou não sendo proibido tanto faz.
Ney Matogrosso 
— É, é.
Max Eluard — Por exemplo, agora você tá de sunga aqui dando a entrevista. [risos]
Ney Matogrosso 
— Pois é, eles acham isso, o sentido que deu foi esse, que eu sou uma pessoa que vive nua.
Wal Raizer — Uma das lendas urbanas sobre o Ney.
Ney Matogrosso 
— É, mas eu não sei, não tem nada assim que eu…
Wal Raizer — Que te incomode muito ou…
Ney Matogrosso 
— Não, não me incomodo…
Wal Raizer — Que você não goste…
Ney Matogrosso 
— Da minha vida particular ninguém tem o que falar, porque não saberão nunca, não interessa, interessa a quem está comigo, sabe? Então é isso. Aí eles inventam e inventaram durante muito tempo, mas nunca inventaram com homem, não sei que milagre.
Tacioli — Qual foi uma invenção?
Ney Matogrosso 
— Ah, que eu e Zezé Mota, que eu Sônia Braga, “Engraçado, por que eles inventam transação de mim com essas pessoas, que eram pessoas que eu tinha um certo contato frequente, regular, gostava, brincávamos muito com essa coisa, mas nunca aconteceu. Com a Zezé não aconteceu porque ela só queria casar. “Ah, Zezé, assim eu não quero!” Ela era incapaz de namorar sem casar. “Então, não, vamos deixar pra outra encarnação.” [risos]
Max Eluard — Ney, como você lida com o tempo, com a passagem do tempo?
Ney Matogrosso 
— Olha, eu tento lidar com a maior naturalidade possível, porque eu tô vendo a passagem do tempo sobre meu aparelho, as pessoas acham que não, que não é evidente, mas pra mim é evidente sim,
Max Eluard — A ferramenta.
Ney Matogrosso 
— É, o exterior sim, eu vejo a diferença. Confesso que gosto mais das fotos de antigamente. Era mais bonitinho…
Max Eluard — Mas gera um conflito?
Ney Matogrosso 
— Não gera conflito. Agora é estranho porque a imagem não corresponde ao que você tem de você dentro; não estou parado, mas eu não sou velho. Vocês vão engolir isso?
Max Eluard — Totalmente.
Ney Matogrosso 
— Não sou velho!
Max Eluard — Eu entendo isso.
Ney Matogrosso 
— Não sou velho, não sou velho. E estou ficando velho, mas eu não sou velho ainda. E eu não tô falando do externo, eu tô falando de uma coisa que ainda me leva, sabe?! Eu ainda tenho um movimento de expansão. Agora existe mais pessoas da minha idade que estão (neste movimento), mas não era permitido a um homem da minha idade ainda estar em expansão. Não permitiam, não deixavam.
Max Eluard — A aposentadoria era compulsória.
Ney Matogrosso 
— Era.
Raquel Zangrandi — A disposição de realizar coisas.
Ney Matogrosso
 — Sim, sim, e eu ainda tenho tudo isso.
Raquel Zangrandi — De começar alguma coisa do zero, um projeto…
Ney Matogrosso 
— Sim, sim, eu ainda estou me arriscando. Gente, eu fui fazer o Bandido da luz vermelha com 70 anos, porra! É um risco, é um risco, mas eu gosto do risco.
Raquel Zangrandi — Você falou que você quer fazer mais trabalhos como ator.
Ney Matogrosso 
— Quero, quero, já fiz mais dois filmes depois dele. Mas eu tô te dizendo que eu gosto do risco, sabe? Pra mim o risco é atraente. Eu não quero só o que eu já sei, eu não quero só o que eu já posso. Eu quero outras coisas, eu quero mais, eu quero tudo que eu puder, sabe?
Tacioli — Ney, como você lida com o fim? Parece-me que essa constância de projetos…
Ney Matogrosso 
— Não entendi o olhar.
Tacioli — Não entendeu o olhar?
Ney Matogrosso 
— Não. [risos] Fale claramente.
Tacioli — O fim, a morte.
Ney Matogrosso 
— O fim eu entendi, a morte.
Tacioli — O.K. Você termina um projeto, um show, um disco, e na hora você já está com um outro…
Ney Matogrosso 
— Sei, mas eu sempre fiz assim.
Tacioli — Sim.
Ney Matogrosso 
— Não é (somente) agora na reta final.
Tacioli — Não, não, não é isso.
Ney Matogrosso 
— Eu aceito essa condição. Não tem como não aceitá-la. Acho louco quem não aceita a condição, porque é a única certeza que a gente tem, de que vamos morrer. Eu aceito isso e não tenho medo da ideia. Eu só espero na hora não tremer, tá? Eu gostaria, mas aí eu precisaria de um treino que eu não tenho, que eu sei que os iogues têm, de sentar e dizer “Tchau, gente, felicidades pra todos, foi um prazer inenarrável!”. Eu gostaria disso, mas eu sei que não vai ser assim, porque eu não me preparo; tem um treino, é um treino, mas eu espero não tremer. Eu não tenho medo da morte. E com relação ao resto, de eu fazer um trabalho atrás (do outro), qual é a questão?
Tacioli — … É como se não tivesse fim. A hora em que você termina um projeto, um percurso, me dá a impressão que ali não tem o vazio, o silêncio pra permitir essas questões sobre o fim.
Ney Matogrosso 
— Mas essas questões sobre o fim me permeiam há muito tempo, durante o tempo todo. Eu penso sobre isso regularmente, frequentemente, constantemente. E sem nenhum problema, não é uma ideia fixa, não é mórbido, mas ela passa e eu aceito. E eu falo desse assunto com maior naturalidade, sou permeado o tempo todo por essa coisa do fim. Mas eu já notei também que nesses últimos 15 anos eu tenho trabalhado mais, talvez seja uma ansiedade de realizar o máximo possível enquanto eu ainda tenho vitalidade.
Raquel Zangrandi — Mas não é uma coisa em que você está pensando…
Ney Matogrosso 
— Não, não, não.
Raquel Zangrandi — Não faz por causa disso…
Ney Matogrosso 
— Não, mas o meu trabalho exige de mim uma vitalidade, uma coisa física que eu ainda tenho, que já não é normal na minha idade ter. Então, porque eu ter ainda, eu quero aproveitar ao máximo essa vitalidade. Mas, olha, tanto não é uma coisa assim tão conflituosa pra mim que eu estou fazendo o Beijo bandido há três anos, nunca fiz show nenhum durante três anos e eu tô deixando rolar o tempo que for durar, sabe? Agora, sei também que eu posso não realizar o próximo, porque eu posso sair e escorregar numa casca de banana ali na rua. Eu tenho essa noção do viver, de estar…
Max Eluard — Do perigo de estar vivo.
Ney Matogrosso 
— Sim, mas isso não me assusta.
Max Eluard — Não paralisa.
Ney Matogrosso 
— Não.
Max Eluard — Nem excita?
Ney Matogrosso 
— Não, não. Eu sei que é assim e eu vou tocar meu barco.
Tacioli — Não precisa acender um cigarro pra espantar os morcegos.
Ney Matogrosso 
— Não, não preciso espantar mais nada. Nem quero espantar nada.
Tacioli — Vinde a mim os morcegos.
Ney Matogrosso 
— É, vinde a mim os morcegos, eu banco e banquei os morcegos. Eu, durante um ano banquei os morcegos para o Jardim Zoológico. Eles fizeram campanha para as pessoas adotarem os animais, e os morcegos ninguém queria. Eu disse: “Me dá, eu banco os morcegos”. Morcego é extremamente útil. Morcego mantêm as florestas vivas. Eles comem as frutinhas e as sementinhas vão caindo em todo lugar que eles voam.
Raquel Zangrandi — Patrocinador de morcegos. [risos]
Ney Matogrosso — 
É, banquei.
Max Eluard 
— Parece a história do Batman, tinha medo de morcego, aí se transformou em um.
Tacioli — É verdade.
Ney Matogrosso 
— Banquei um ano os morcegos.
Raquel Zangrandi — Ney, vi em uma entrevista sua que a cada ano que passa você tem trabalhado mais.
Ney Matogrosso 
— Eu estou trabalhando mais.
Raquel Zangrandi — Essa quantidade de trabalho vem até você ou você vai até ele?
Ney Matogrosso 
— Vem até a mim. E aí eu fico assim: “Ah, eu não vou deixar de fazer isso. Ah, eu não vou deixar de fazer isso”. Quando eu vejo, não paro, não paro.
Raquel Zangrandi — Mas concepção de show você comanda?
Ney Matogrosso 
— Sim.
Raquel Zangrandi — Quero dizer, a ideia de show…
Ney Matogrosso 
— Meu ou desses?
Raquel Zangrandi — Dos seus.
Ney Matogrosso 
— Dos meus tudo parte de mim.
Raquel Zangrandi — Mas você tem recusado convites?
Ney Matogrosso 
— Olha, eu recusei alguns, mas aceitei muitas coisas nesse último ano.
Raquel Zangrandi — Tem uma demanda boa?
Ney Matogrosso 
— Tem, tem, continuo recebendo. Estou dizendo não porque senão não vou começar o meu. Agora já parei, só vou terminar a Ana Cañas, que eu tenho que fazer a luz dela, e essa é a última coisa que eu faço antes do meu trabalho; eu preciso me voltar pra ele.
Raquel Zangrandi — O próximo show.
Ney Matogrosso 
— É.
Wal Raizer — Ney, você tem um público gigantesco, como ele chega até você? Você tem e-mail?
Ney Matogrosso — 
No máximo e-mail… Eu não tenho essas coisas sociais…
Wal Raizer 
— Não, não, não, isso eu sei que você não tem, mas como você sabe que o seu público se relaciona com você, somente nos shows?
Tacioli — Fã clube.
Ney Matogrosso 
— É o show, que é o cara a cara. É o que me interessa. O resto não quero, não quero. Olha, essa história que as pessoas (falam) assim: “Eu tenho seguidores!”. Deus me livre de ter seguidor. Eu não sou…
Tacioli — Antônio Conselheiro.
Wal Raizer — Jesus.
Ney Matogrosso 
— [risos] Não sou guru! Ter seguidores, tá doido.
Max Eluard — Mas, mesmo não querendo e não se sentindo um guru, muitas pessoas se identificam e projetam em você muita coisa.
Ney Matogrosso 
— Não pode projetar coisas em mim, pode se identificar comigo, com meus pensamentos, com as minhas ideias, com a minha maneira de estar na vida.
Max Eluard — Bem, como modelo, né? E como você lida com isso, Ney? Você não pensa nisso?
Ney Matogrosso 
— Não, eu não penso que eu sou um modelo. Eu não penso nisso. Não sou modelo de nada, eu sou uma pessoa procurando, né? Eu tô aqui procurando (respostas). Como é que a gente passa? Como é que a gente fura essa onda? Como, nessa canoa furada, a gente vai atravessar essa maré, né? Eu tenho a consciência disso, de que estamos todos numa canoa furada. Mas não sou um que está levando ou conduzindo, eu estou junto. Tenho a consciência de fazer parte disso, dessa época que nós vivemos. Sou contemporâneo dessas pessoas, vivemos todos nesse momento de trânsito acelerado na terra.
Tacioli — Já teve ou tem um Ney cover?
Ney Matogrosso 
— Vários, vários. Tem um que dá entrevista. Ele lê minhas entrevistas e aí alguém pergunta as mesmas coisas, ele responde o que eu respondi. [risos]
Raquel Zangrandi — Ele se parece fisicamente com você?
Ney Matogrosso 
— Não, não.
Tacioli — Como é?
Ney Matogrosso 
— Não, ele é doido. [risos]
Raquel Zangrandi — Mas ele canta, ele se apresenta?
Ney Matogrosso 
— Não, eu acho que ele dubla, não sei.
Raquel Zangrandi — E como você ficou sabendo?
Ney Matogrosso 
— Me mostraram na internet. Aí eu dou uma entrevista, tem uma pessoa que trabalha lá com ele que reproduz a minha entrevista, e refaz a entrevista com ele.
Max Eluard — Tem sósia também?
Ney Matogrosso 
— Humn?!
Max Eluard — Ele é um sósia, ele se parece (com você)?
Ney Matogrosso 
— Não, não, não parece comigo. [risos] Pois é, pra você ver o tipo de coisa (que aparece), não dá pra você alimentar.
Raquel Zangrandi — É uma aberração.
Ney Matogrosso 
— Não dá pra ficar alimentando isso. Eu não alimento esse tipo de coisa, sabe, mas as pessoas que me conhecem, que prestam atenção, já sabem, porque eu já falei isso muitas vezes. Eu não alimento essa loucura de fã, fanatismo. Eu não alimento isso! No máximo, se quiser se aproximar de mim, se aproxima calmo, que vai ser bem recebido. Agora, se aproximar querendo me agarrar, querendo me puxar, querendo me rasgar, sai, eu dou porrada, dou porrada! “Sai, tá louco? Vai me puxar, vai me rasgar?!” Uma vez eu estava saindo de um show em São Paulo… Eu tinha uma Mobilete. [risos] Eu saí de Mobilete do show. [risos] E na hora em que eu estava saindo, alguém agarrou meu cabelo. E eu saindo com a Mobilete! A pessoa ficou com a mão cheia, mas eu virei e meti a mão, sabe? Disse: “Vai tomar no cu!”. Como alguém faz isso?
Tacioli — Ney, obrigado pela conversa.
Ney Matogrosso 
— Vamos pedir o lanchinho?