RITCHIE [2002]

Com sucessos como “Menina veneno” e “A vida tem dessas coisas”, ele dominou a parada dos anos 1980.

Não gosto de hotéis, tudo no lugar certo, na hora certa, arrumadinho. A simpatia e os sorrisos calculados dos funcionários. O entra-e-sai de malas nos lembrando sempre de que estamos somente de passagem pelos hotéis e pela vida…

Pensando bem, talvez esse seja o local ideal para essa jornada, afinal o assunto é música pop, com “p” de passageira.

Hotel em São Paulo… e lá vem ele. Achei que era mais alto. Achei que, depois de tantos anos de estrada, fosse menos tímido. Não sabia que os olhos eram tão verdes. E, não fosse o sotaque inglês carregadíssimo, mesmo com mais de 30 anos de Brasil, passaria por um cidadão comum como esses que se vê na rua.

E foi ali, entre batatas fritas e sucos de laranja, que o papo rolou. E rolou fácil. O que emergiu foi uma pessoa apaixonada pela música, pela vida e pelo Brasil. Chacrinha, o Velho Guerreiro, teclados Cassiotone (“Menina veneno” foi composta num desses em apenas 20 minutos!), presidentes tubarões de grandes gravadoras com coração (um deles chorava copiosamente ao ouvir o megahit “Transas”). O pop brasileiro deve muito a Ritchie.

De minha parte, posso dizer que o Menino Veneno e suas canções me acompanharam em momentos-chave de minha pré-adolescência. No caminho para o meu primeiro emprego com registro em carteira, pedalando feliz a minha Monareta, cantarolava “A vida tem dessas coisas” (duas vezes, que era o tempo exato para se chegar ao trabalho). “Vôo de coração” deu uma tremenda força em minha primeira conquista amorosa (no primeiro beijo era ela que tocava no alto-falante da roda-gigante, em Itapetininga).

Pensando bem, essa entrevista de pop não deveria ser em um hotel, e sim em um pub inglês com “p” de para sempre. Ladies and gentlemen, Gafieiras presents Richard David Court.


{…} expediente

entrevistadores Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Flávio Monteiro, Keka Reis, Ricardo Tacioli e Roger Carlomagno 
transcrição Dafne Sampaio 
edição de texto Ricardo Tacioli 
texto de abertura Flávio Monteiro 
produção Flávio Monteiro e Ricardo Tacioli 
fotos Dafne Sampaio 
registro audiovisual Keka Reis 
agradecimentos Luciana Cruz

Entrevista realizada em São Paulo/SP em 2002.




[Ritchie fala enquanto a equipe se acomoda e prepara o equipamento de gravação]

Ritchie — É muito complicado você tocar ao vivo na televisão [n.e. Referindo-se a uma apresentação de seu novo trabalho, Auto-fidelidade, em um programa de TV]. Por mais que você cerque o som de cuidados, na hora em que a pessoa vai ouvir, vai ouvir naquele alto-falantezinho da televisão. É sempre difícil você conciliar isso. Eu fiquei surpreso como saiu bem o som, parecia um disco, mesmo. Estou com uma banda maravilhosa.
Ricardo Tacioli — Quem está na banda?
Ritchie — Marcelo Sussekind na guitarra, Dunga no baixo. São todos do Rio, mas são músicos de mão cheia. O Marcelo é meu contemporâneo e é, talvez, o produtor mais requisitado na área de pop rock. Ele fez Capital Inicial, Ira!… Um monte de gente. Vem fazendo há muito tempo. Era guitarrista do Herva Doce [n.e. Grupo carioca formado no início da década de 80 e dono dos sucessos “Amante profissional” e “Venenosa”]. Fiquei muito surpreso, porque ele tocou no disco. Eu não imaginava que ele fosse se interessar… Nem cheguei a fazer o convite para tocar ao vivo. Aí, no dia da masterização do disco, ele estava sentado no sofá, esperando eu chegar. Cheguei e ele disse, “Só quero saber de uma coisa: quando a gente começa a ensaiar?” Falei, “Mas como assim?” “Ah, eu não vou deixar mais ninguém tocar nesse show, não!” Fiquei muito feliz, porque ele é uma pessoa muito requisitada no meio e ele está se dedicando de corpo e alma a esse projeto. Ele, o Dunga. O baterista do disco é Renato Massa. Muito bom, o professor Renato Massa.
Flávio Monteiro — Como você sentiu as músicas ao vivo?
Ritchie — Estão ótimas, porque é um disco de rock’n’roll. É um disco muito simples… Foi simples gravar. É simples reproduzi-lo. Não há altas tecnologias para lidar. É somente violão, guitarra, baixo, bateria e um órgão Hammond. Então, é muito pouca coisa que pode interferir. Sempre fiz discos carregados de novas tecnologias. Sinto-me um pouco precursor nessa área. Fui a primeira pessoa a gravar no Brasil, em 1986, utilizando a tecnologia MIDI, que é uma tecnologia de música… Musical Instruments Digital Interface. É uma linguagem, um protocolo tecnológico para se fazer música e ligar instrumentos digitais entre si. Ele foi inventado em 1985 e, em 1986, eu já estava gravando com essa tecnologia no Brasil. Hoje em dia já é uma tecnologia ultrapassada, não interessa muito, mas ela imigrou para Internet, que é uma área em que atuo. Passei esses 12 anos, na verdade, fazendo computação, informática e me aprimorando como programador de Java Script e no Dynamic HTML. E em 1999, recebi um convite para trabalhar no Silicon Valley (Califórnia), com Thomas Dolby. Sonorizei o site do Yahoo lá fora, e do Beatnik, que é uma empresa de áudio interativo e, desde então, recebo muitos convites desse pessoal para fazer trabalhos de sonorização. Trabalho como consultor da Usina do Som, aqui em São Paulo. Desenvolvo software musical pra eles. Quero dizer, paralelo a essa minha vida musical de cantor, eu tenho essa coisa que, na verdade, é o meu xodó, é o que mais gosto de fazer.
Monteiro — Pelo ritmo de trabalho do disco novo, esse xodó tecnológico vai ter que esperar…
Ritchie 
— Vai ter que esperar. Estou muito satisfeito. É importante agarrar esse momento. Não é todo dia que se recebe um convite para voltar a gravar com 50 anos. Estou muito feliz. Feliz por estar fazendo esse trabalho, e feliz por ter feito, talvez, o melhor disco da minha carreira. Sem querer querendo.
Monteiro — Você já havia desistido, já havia jogado a toalha?
Ritchie — Não, não jogo a toalha, nunca! Não é isso. Sempre faço música, mas somente não estava fazendo discos. Nesse sentido, quem jogou as toalhas foram as gravadoras que não quiseram mais me contratar. Sempre fiz música. Música pra mim é uma religião. Tenho que rezar todo dia, tenho que tocar todo dia. Não tem essa coisa de largar. A música não me larga e eu não consigo largar a música. E, até mesmo, essa área em que eu atuo, de Internet, é sempre ligada a assuntos musicais. Eu gosto de programar em Dynamic HTML, essas linguagens de programação, mas o que mais gosto de trabalhar é com o som interativo. A Internet é um veículo que me parece pronto para assumir a liderança de todas as mídias. Tudo (televisão, rádio, disco) vai convergir para uma mídia só, e é claro que vai ser uma mídia que evolui da Internet. Quero fazer parte disso. Quero entender isso. Minha busca na Internet não foi uma fuga da música, foi uma tentativa de me aproximar do novo futuro da música. Saber como lidar com isso, nem que seja com música dos outros. É uma coisa muito fascinante para mim… Eu fui mordido pelo bug da Internet, como todos nós fomos. Hoje em dia quem está ainda criando na Internet , na verdade, são as pessoas que vão levar o negócio para frente. Houve toda aquela implosão das ponto com… E o próprio Beatnik, a empresa que eu trabalhava com o Thomas Dolby, foi afetado por isso.
Monteiro — Foi uma seleção natural, também.
Ritchie — Seleção natural, sim. Todos acharam que a nova economia iria salvar o mundo.
Monteiro — E muito especulador também, já que somente queria fazer dinheiro.
Ritchie 
— Justo. E não pensou em como tornar isso um modelo viável de negócios. Tudo bem você sonhar e ter capital entrando para investir, mas há uma hora em que aquilo tem que dar lucro. A dificuldade da Internet ainda é, pelo que é o que me parece, o e-commerce, que ainda não está muito… Foi uma boa idéia que ainda não se conciliou. Mas vai acontecer algum dia, por uma questão de demanda, também. A Internet evoluiu muito em relação à demanda de serviços. Quem se interessou pela Internet, invariavelmente, se envolveu na criação. Mas o que faltou foi um público consumidor daquilo.
Monteiro — É. E aqui no Brasil pouca gente tem computador em casa. Internet, muito menos.
Ritchie — Banda larga nem se fala, né?
Monteiro — Mas é uma país talhado, principalmente, para o e-commerce. Você chegar no Amazonas com discos, já que não há uma loja legal por lá…
Ritchie — Quando ainda existia uma desconfiança no mundo todo sobre a viabilidade do e-commerce, para o brasileiro foi muito claro que esse sistema se deu muito bem por aqui. O brasileiro abraça a novidade com muita facilidade e tem esse dom do domínio das novas tecnologias. Tem muitos brasileiros entre os bons programadores no mundo. O que a Microsoft contrata de brasileiros para trabalhar lá fora é impressionante! Só para citar um exemplo. Não estou dizendo isso como… Não tenho nada com a Microsoft [risos], nunca uso os produtos deles. Sou um Macfanatic total! Fui do Atari direto para o Macintosh. [risos] Meu mundo é isso, nunca me dei muito bem com o mundo do Bill Gates. [ri] Mas é um exemplo de uma empresa bem-sucedida, que contrata gente. Há muitos brasileiros lá. Os brasileiros têm um talento incrível para lidar com a mecânica, essas coisas… O brasileiro é muito talentoso. O porteiro, que nem carro tem, sabe consertar o carro. É um dom e isso se estende a novas tecnologias. É fascinante esse facilidade de aceitar o novo. O resto do mundo tem muita dificuldade de lidar com isso. É coisa de país novo, uma energia nova para buscar soluções para suas dificuldades. Na música, também há isso. Lembro quando Steve Hackett — guitarrista do Genesis, que tocou em “Vôo do coração” e em outras músicas, e fez uma música comigo, “A mulher invisível” — veio para cá. Gravamos pela primeira vez em 1983. Ele ficou muito fascinado com a habilidade do engenheiro de som, porque sabia mexer na mesa e ainda consertar o módulo quando dava errado, fazia montagem com uma técnica de gravação fantástica. E o Steve… “Lá na Inglaterra há um cara que faz a manutenção, outro que mexe no módulo e ninguém sabe o que cada um sabe fazer”. O brasileiro tem esse dom… Talvez por necessidade mesmo ou por falta de segmentação da indústria. Você tem que saber trabalhar não somente na sua área, mas também saber consertar sua máquina, saber lidar com a falta de peças, improvisar. O brasileiro tem esse dom da improvisação e da genialidade. Fico sempre muito fascinado com isso. É algo que você não encontra lá fora. Você pode ter todas as tecnologias e as possibilidades de se evoluir dentro de uma determinada disciplina… Lá tudo é segmentado, cuidam somente de uma parte. Aqui, não.
Tacioli — O cara se atreve.
Ritchie — Aquele jeito brasileiro de resolver as coisas. É ótimo. Não estou debochando disso, estou falando do jeito no bom sentido, porque tem o “jeito mal” também, que a gente sabe, que é aquele que estão usando para resolver os problemas do nosso país. [ri] Mas vamos ver se alguma coisa vai acontecer agora de bom.
Tacioli — Você não chegou a se naturalizar?
Ritchie — Não, não me naturalizei. Não porque não queira, mas é que não precisei. Sou casado com uma brasileira, meus filhos são brasileiros. Eles têm dupla nacionalidade, o que é bom para eles. Vão poder escolher onde namorar, onde trabalhar. A única vantagem da naturalização, na verdade, é o poder votar. Hoje em dia gostaria de ter uma participação cívica maior. Tenho 30 anos de Brasil, está na hora de participar de alguma forma, não somente pela música. Mas, até há pouco tempo, eu não me sentia atraído em votar, não havia ninguém, não queria. Hoje em dia já acho que seria interessante. A gente tem que participar mais, né? Mas não vai fazer grande diferença a minha participação ou não no voto. [risos] É um pouco de preguiça, uma burocracia enorme. Você não sabe a burocracia que é para se naturalizar. Já consegui o cartão de permanência. Não é uma coisa que me preocupa quando acordo. Estou preocupado com outras coisas. Mas eu me sinto brasileiro, não seja por isso. Sou brasileiro por opção, o que talvez me torne mais brasileiro do que os brasileiros. Não quero ser arrogante com isso. Quero dizer, adoro esse país, adoro esse povo maravilhoso, essa espontaneidade, esse clima maravilhoso. [ri] Deus me livre voltar para Londres com aquela miséria climática, aquela chuva que não chove nem molha. Aquele frio! Tô fora, tô fora. Completamente. [ri]
Keka Reis — Você disse que esse “jeitinho bom” também engloba a música, o improviso…
Ritchie — Ah, sim. Esse é o país da música. O Brasil é o país da música. Você passa em uma obra e todo mundo está batucando. A música é um elemento essencial para a vida do brasileiro. O carnaval é uma manifestação cultural e musical das mais coloridas do mundo. A música brasileira foi, e sempre será, muito instigante e cheia de nuances extremamente originais. O samba, a bossa nova e até mesmo o rock’n’roll que, hoje em dia, já tem uma cara brasileira.
Keka — Que cara é essa?
Ritchie — É a cara do Brasil. É difícil definir isso, mas acho que evoluiu muito. Houve a Jovem Guarda, que era absolutamente calçada nos artistas de fora. Aos poucos isso foi se tornando mais brasileiro. Nós, dos anos 80, quando surgimos, fazíamos também um som que era muito espelhado naquilo que se fazia lá fora. Aí vieram as bandas de Brasília e tomaram seus lugares. Começaram a falar do país. É isso que quero dizer! Tomou uma cara própria, embora o rock brasileiro ainda seja muito derivativo do que se faz lá fora. Mas o rock é isso, uma linguagem internacional. Não é um ritmo de algum lugar. Se faz rock de qualidade na Suécia, na Dinamarca, até na Itália e na França. É uma linguagem universal que toca os jovens de todo lugar do mundo. Mas acho que aqui o rock tem uma cara especial. O trabalho de muita gente aqui, que soube respeitar suas raízes, sem essa coisa cafona de colar um ritmo sobre outro. Está saindo uma coisa mais sui generis, mais original, com toques interessantes. Gosto muito, pessoalmente, das bandas que estão vindo do Norte e Nordeste. Bandas como o Catapulta, o Lampirônicos… Bandas que pegam o baião e outros ritmos nordestinos, que talvez sejam os mais roqueiros de todos os ritmos brasileiros. Adaptam-se muito bem a isso. Os próprios Raimundos, que tem um enfoque um pouco mais debochado. É muito interessante essa mistura do baião com o forró e o rock. O forrock, como chamam. Tenho um pouco de implicância com determinados híbridos musicais. Por exemplo, o pagode. Esse casamento dos infernos [risos], entre o samba de fundo de quintal e a tecladaria. Isso me dá uma angústia terrível. Mas, por outro lado, o samba de fundo de quintal do Zeca Pagodinho é maravilhoso. Isso é absolutamente genial! Isso é verdadeiro! O chorinho! O chorinho é um dos gêneros musicais mais geniais do Brasil. Sempre fui muito fascinado por essa coisa, que também é um híbrido… O tango misturado com a polca, misturado com não-sei-o-quê, que deu origem a esse negócio maravilhoso, tão sofisticado. É uma música muito sofisticada e, ao mesmo tempo, ingênua e simples. Música popular instrumental! Que outro país do mundo tem isso?
Tacioli — Você ouve samba e choro?
Ritchie — Eu gosto muito de choro. Sou muito ligado… Benedito Lacerda, Pixinguinha. Houve uma época em minha vida em que eu somente ouvia os chorões. Tomava aula de flauta com o Paulo Moura. Queria tocar flauta como o Pixinguinha. [ri] Quem diria? Tô brincando. Queria entender mais sobre essa maravilha.
Houve uma época em que trabalhei com A Barca do Sol… Nosso padrinho era o Egberto Gismonti, que foi meu aluno de inglês durante muitos anos, antes de ir para os Estados Unidos e estourar com o Herbie Hancock e aquela coisa toda da Academia de Danças. Foi uma influência muito forte… Eles me ensinaram muito. O Jaques Morelenbaum também era da banda. Convivendo com eles, aprendi muito sobre música brasileira nessa época. O Egberto e o Paulo me mostraram muita coisa. E era genial porque nossas aulas eram uma espécie de trading; não corria grana. Eu tomava aula de flauta com o Paulo [Moura] e dava aula de inglês para pagar minhas aulas. Era bom para todo mundo. Com o Egberto foi a mesma coisa. Anos depois, fui dar aula para Gal Costa, mas já foi na escola Berlitz. Era diferente. Mas sempre fui fascinado por essa coisa. Tem um disco do Turíbio Santos, Choros e valsas do Brasil [n.e. Na verdade, Valsas e choros, de Turíbio Santos e o Conjunto Choros do Brasil, Kuarup, 1979], que é lindo! Garoto. Ernesto Nazareth. Pra mim, isso é o supra-sumo da música brasileira! Pra mim, né! Eu não digo que seja, necessariamente, a melhor coisa, mas é a coisa que mais me toca. Talvez por essa herança dos ritmos já assimilada. O choro, numa época, era chamado de tanguinho. E tem essa coisa da polca. É curioso… O Luiz Paulo Simas, que era o tecladista do Vímana [n.e. Que significa disco voador em sânscrito] — uma banda que tive nos anos 70 com o Lulu Santos e com o Lobão -, foi morar nos Estados Unidos e se especializou em choros modernos. Ele escreve… [uma funcionária do hotel chega à mesa trazendo um sanduíche com batatas fritas e um suco de laranja]… Vocês não vão filmar isso, vão? [risos]
Keka — Está bonito! [risos]
Ritchie — Tá bonito? Olha então… hummmm! [risos] Por favor! [dirige-se à funcionária do hotel] Preciso assinar alguma coisa?
Funcionária — Não, já está anotado.
Ritchie — O.K., tudo bem… Mas ele foi para lá… É um pianista muito competente. No Vímana, ele fazia uns chorocks… Choro, mas com um ritmo mais acelerado. Logo que ele foi tocar nos Estados Unidos foi muito difícil. Hoje em dia ele é headliner de festivais de polca e ragtime! Veja só, tocando chorinho! Chorinho contemporâneo no piano. A ligação é forte. Não é só uma questão de afinidades eventuais. Há uma afinidade entre a polca, o ragtime, o jazz do começo do século XX e o choro. Essa idéia do improviso dentro de um formato popular vem direto do jazz. É muito interessante essa conexão e todas as conexões da música brasileira. O xote vem do schottish reel, que é uma dança escocesa. Fiz uma pesquisa em 1994, ligado a esse trabalho de MIDI que faço… Eu fazia por interesse na tecnologia… Eu e o Alfredo Dias Gomes — meu vizinho no Rio, ótimo baterista e filho do Dias Gomes — fizemos uma pesquisa sobre ritmos brasileiros. Bolamos um produto para músicos: uma espécie de cadastro dos ritmos brasileiros. Começamos no afoxê e fomos até ao xote, em ordem alfabética. E fizemos um disquete — na época era um disquete — dos ritmos brasileiros para que o músico pudesse usar como clip art. Digamos que você é músico nos Estados Unidos e gosta de música brasileira, mas não tem acesso a um ritmista… Você pega esses arquivos MIDI — cada arquivo tinha 32 compassos apenas, mas evoluía em grupos de 4… Você tinha 4 compassos de um samba straight, simples, sem embelezamentos. Aí, o segundo teria uma evolução dos pandeiros ou qualquer coisa. O terceiro já teria intervenções de cuíca, ou não-sei-o-quê. No quarto, você já teria a escola toda, ou pelo menos, simbolicamente. Em 4 compassos. Você pegaria isso e, digamos, que quisesse o ritmo do pandeiro e não outro… Então, você iria lá, cortava e colava. Foi um produto surpreendentemente bem sucedido. Foi feito em 1994. Estamos em 2002. Se você abre a revista Keyboard Magazine vai encontrar esse produto à venda por reembolso postal. Foi um projeto que fizemos meio por curtição, meio por encomenda, pois eu já estava fazendo um semelhante para o meu próprio uso. O tecladista do Steve Hackett, que estava aqui no Brasil, foi em casa — o Steve queria mostrar o solo de “Vôo de coração”. Fiquei muito honrado, porque ele disse que foi o melhor solo que ele já gravou na vida. E é incrível, porque esse solo foi gravado em um porão da Warner. Não queriam ceder um estúdio, não queriam saber da minha música nessa época. E o Liminha — hoje, presidente da Sony — era produtor do [Gilberto] Gil e ainda um reles produtor ou assistente de produtor. Ele queria muito que eu fosse para Warner e não conseguia convencer ninguém… Mostrava “Menino veneno” e todo mundo falava que essa música não daria certo nunca… [ri] “’Menina veneno’? Esse gringo, cantando com sotaque? Isso nunca vai dar certo no Brasil!” E não foi o único, não foi somente a Warner. A EMI… Enfim, a gente estava gravando lá… O Julian [Colbeck, o tecladista], tinha um estúdio de MIDI, falou, “O seu estúdio é igualzinho ao meu! Tem os mesmos instrumentos, a mesma preocupação em não usar somente uma marca de instrumentos, em tentar timbres de várias procedências”… Houve uma identificação imediata ali e ele disse que tinha uma empresa que produzia softwares, os disquetes de música… O Bill Bruford, do Yes e do King Crimson, um baterista que admiro muito, fez o de bateria. O Steve [Hackett] fez o de guitarra… O cara que toca com o The Who fez o de piano. Como é o nome dele? Esqueci. Enfim, ele tinha esse sistema para músicos em formato MIDI e estava louco em fazer alguma coisa brasileira. Aí, me perguntou se não queria produzir. Falei que era engraçado porque eu estava justamente fazendo alguma coisa assim com ritmos brasileiros. Inicialmente ele queria fazer somente bossa nova. Foi uma bela coincidência. E falando em coincidências, foi o Julian [Colbeck] que foi ao escritório do Thomas Dolby, na Califórnia, e me ligou no dia seguinte: “Ritchie, você vai ficar feliz em saber. O Thomas está usando o seu disquete para testar uma nova ferramenta de áudio interativo que ele está desenvolvendo. Chama-se Beatnik”. Foi aí que me interessei por Beatnik. Quero dizer, está tudo interligado de alguma forma. É engraçado… Minha vida é cheia de momentos incríveis de sorte e coincidências impressionantes. Sabe, como o dia em que eu estava em Londres, gravando um disco, em 1972, e entraram três brasileiros: Rita Lee, Liminha e Lucinha Turnbull. Lá pelas tantas eles me convidaram pra pintar na casa deles. “Onde é isso?” “É lá no Brasil.” “Brasil? América do Sul?” “É, pinta lá em casa.” Acabei aparecendo. Eles tomaram um susto danado. Você veio mesmo? Ué, mas vocês não convidaram? [ri]
Monteiro — O que você imaginava que era o Brasil nos anos 70? Havia alguma idéia?
Ritchie — Ah, muitas. Tom Jobim, claro. “The Girl from Ipanema”… Quem não conhece? Conheci também, quase na véspera de vir para o Brasil, o trabalho do Gilberto Gil e do Jorge Ben. Musicalmente, havia essas coisas, porque eles era bem divulgados em Londres. O Jorge Ben, principalmente. Talvez ele fosse mais conhecido em Londres que no Brasil, na época. Ele teve uma época de ostracismo aqui e lá todo mundo sabia quem ele era. Conhecia isso. Não sabia nada sobre o Brasil, sobre o carnaval. Não sabia de nada. Namorei uma menina brasileira em 1971. Ela tinha coleções daquela revista… Fatos & Fotos? Era alguma coisa da Manchete. Havia fotos do Carnaval. “Nossa, caramba, que loucura!” [ri] “Que loucura! Que negócio é esse?”
Roger Carlomagno — Então, você já tinha relação com música antes de vir ao Brasil?
Ritchie — Sim, sim. Na verdade, relação com música tenho desde os 5 anos. Meu avô era músico de ragtime e tinha uma banda, em 1914, chamada Mr. Zipp’s Jazz Band… Aliás, a foto da banda dele está na contracapa do meu segundo disco [n.e. E a vida continua, Epic/Columbia, 1984]. Passei muito tempo da minha infância com os meus avós na Escócia, até mesmo quando estudava em escola interna na Inglaterra… O meu pai era militar e vivia em vários países diferentes… Só podíamos viajar duas vezes por ano… O Exército pagava somente duas viagens por ano. Nas férias de Páscoa eu nem via meus pais. Ia direto para a Escócia ficar com meus tios e meus avós. Meu avô foi a primeira pessoa que me estimulou a gostar de música. As músicas que eu ouvia dele, quando eu mal conseguia andar… Ele tocava ragtime, stride piano [cantarola um música do avô]… Ele tinha uma vitrola de cilindro de cera e, com 5 anos de idade, comecei a cantar no coral da igreja protestante. Minha família tem uma ligação forte com música sacra. Meu tio-avô era John Kible, um dos fundadores do movimento de Oxford, um movimento religioso que rompeu com certos setores da igreja católica. Esse é um papo chato… Minha família tem essa tradição. Esse meu tio-avô era compositor de hinos. Aliás, os hinos dele são considerados — não por mim, mas por experts — como alguns dos mais belos já feitos na música sacra inglesa. Enfim, há essa herança na minha família, essa musicalidade do lado da minha mãe. Meu pai era um regente frustrado que ficava regendo o dia inteiro em frente ao rádio, sem o menor conhecimento de como seria. Mas ele era um amante da música e sempre me expôs à música. Como corista, cantei diariamente dos cinco aos 19 anos. Todo santo dia da minha vida! Então, todo meu conhecimento de harmonia é bastante intuitivo e vem do canto coral. Fui soprano, contralto, tenor, barítono, baixo. Toda minha noção de harmonia vem dessa época. Com 15 anos ouvi — aliás, antes, com 10 ou 12 anos — Beatles. O primeiro compacto deles ganhei no Natal, “Love me do” e “Please please me”. Caí para trás, assim como todo mundo na minha idade. Aquilo foi uma revolução enorme na minha cabeça. [ri] Só cantava música sacra e clássica. Fui solista aos 12 anos de soprano. A gente viajava pelo Sul do país [Inglaterra] cantando nas abadias e catedrais. Eu cantando, meu professor tocando clarinete e o cravista da escola também. Então, cantei muito… Tenho até uma gravação disso em casa, uma gravação que consegui resgatar de uma fita de rolo monofônico da época. Eu cantando aos 11 anos de idade uma música do Schubert, “The shepherd on the rock”. Consegui fazer uma digitalização dessa fita há pouco tempo e veio aquela voz de tantos anos atrás. Nossa, quase 40 anos atrás! Sempre tive essa ligação. Com 15 anos montei minha primeira banda de blues. Eu tocava contrabaixo. Era um purista! Só ouvia Lightnin’ Hopkins, Sonny Terry, Robert Johnson. Puxa, tantos maravilhosos. Tive uma outra fase em que ouvia Wilson Pickett, Otis Redding. Então, minha formação musical é das mais ecléticas. Mas, ao mesmo tempo, sou um músico intuitivo. Não sou muito apegado ao estudo teórico. A música nasceu dentro de mim. Sempre fui muito amparado pela música. Nunca entendi porque tem que se escrever música. Música não é o ouvido da gente? Então, por que tenho que saber ler mosquitinho, se a música está viva dentro de mim? Sempre fui muito preguiçoso com esse lado técnico da música, porque a música pra mim é como respirar, é muito natural, sempre foi. E tive privilégio de ser exposto a todos esses gêneros musicais. Isso fez algum sentido dentro de mim. Ao mesmo tempo, sou uma pessoa apaixonada pela música pop, aquela coisa de 3 acordes… Sou fascinado pela versatilidade dessa coisa inesgotável, e dessa coisa efêmera da música pop de atingir a gente como se fosse perfume. Anos depois você passa no lugar e sente aquele perfume e lembra de tudo. A música pop tem esse dom de transportar a gente para momentos felizes e infelizes da vida. Não acho que a música pop seja eterna. Gosto mesmo dessa coisa descartável! [ri] Engraçado que fiz uma música, que acho que é a mais descartável da minha carreira e, 20 anos depois, ainda se fala nessa música… [n.e. Sobre “Menina veneno”] Por um lado me agrada muito, porque sempre quis cair na boca do povo. Somente não imaginei que seria em um país tão distante de casa como o Brasil.
Roger — Vôo de coração é de 1983. Quando foi lançado, ainda não se sabia o que fazer com a música pop no Brasil. Todo mundo ainda tentava descobrir, procurando informações de fora. Acho que a Blitz já havia estourado.
Ritchie — A Blitz já havia estourado. O Lulu [Santos] ainda não, mas já estava em plena atividade com aquela música “De leve” [n.e. Versão feita por Rita Lee para “Get Back”, dos Beatles, lançada em Tempos modernos, Warner, 1982]. Ouvi aquilo e pensei, “Poxa, o Lulu conseguiu! Eu também posso conseguir”. E o Lobão teve essa mesma coisa… Trabalhávamos juntos e tínhamos essa coisa de querer que a música, o rock, vencesse no Brasil. Todas as gravadoras falavam que não daria certo.
Roger — E cantado em português!
Ritchie — Cantado em português. Isso era um novidade.
Roger — Essa era uma grande questão na época, né? Como você chega de Londres e emplaca “Menina veneno” em português?
Ritchie — Bem, levou 10 anos; não foi assim. Levou muito tempo até eu tomar coragem para cantar em português. Foi somente depois da minha ida a Londres, em 1980, para gravar com Jim Capaldi… Ele me convidou para fazer os arranjos vocais de um disco dele [n.e. Let the thunder cry, Carrere, 1981]. O Jim foi um dos meus ídolos de infância com o Traffic [n.e. Capaldi gravou em 2001 uma versão em inglês de “Anna Júlia”, dos Los Hermanos, com participação de George Harrison na guitarra]. Foi muito bom entrar no estúdio e trabalhar com essas pessoas… Simon Kirke, do Bad Company, Andy Newmark, baterista do John Lennon… Poxa vida, Steve Winwood… E ainda mais, essas pessoas estavam pedindo a minha opinião! Eu, totalmente inexperiente nos estúdios, e aqueles caras perguntando como estava o som da caixa. “Tá ótimo, tá lindo!” Aquilo foi essencial pra mim, porque voltei ao Brasil muito mais confiante das minhas capacidades. As pessoas que eram meus ídolos estavam interessadas na minha opinião e me chamavam para gravar seus discos lá em Londres. Pensei que talvez eu realmente pudesse conseguir viver de música. Inicialmente foi muito difícil… No Vímana eu cantava somente em inglês, mas sentia que estava cantando para as paredes. A gente até que tinha um following bastante grande. Tocamos no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro, quase toda semana, para aquela platéia de mil pessoas que nos seguiam por toda parte. Mas eu sentia que quando cantava em inglês eles prestavam mais atenção nos outros integrantes. “Isso está errado, está errado!” [ri] Tenho que me comunicar melhor.
Monteiro — E eram composições em inglês? Você já compunha assim?
Ritchie — É, a banda já… compunhava? Compunha? Compunha! [ri] Todos juntos. Então, na hora de se fazer a música… Quem tocava guitarra fazia a parte da guitarra, quem cantava fazia a letra, e era assim que fazíamos… Mas eu só sabia fazer isso em inglês, e agradava.
Roger — Poucas bandas brasileiras faziam rock cantando em inglês.
Ritchie — É, pouquíssimas. Ou era instrumental ou… Havia o Terço, algumas assim, e os Mutantes. Mutantes! Mas eu não tinha muita confiança no meu taco. Estava sempre achando que iria ser substituído por alguém. Quando conheci o Bernardo [Vilhena] num show do Nuvem Cigana, que era um grupo de poetas do Rio de Janeiro, fiquei fascinado pela linguagem roqueira deles. Era como se fosse um show de rock, só que era de poesia. Mas havia todos os adereços do rock no sentido do improviso, da brincadeira, da mensagem, da linguagem de rua. Descobri o endereço e fui bater na porta dele. “Ô, Bernardo, toco numa banda de rock, mas não sei fazer letras em português direito”. Começou nossa parceria aí. Temos muitas músicas em conjunto desde essa época. Voltando de Londres, procurei o Bernardo de novo. Minha mulher havia feito uma viagem para os Estados Unidos e voltou com um Casiotone. Sabe o que é um Casiotone? É um teclado pequeno, de plástico. Você aperta um botão e faz uns barulhos [tenta imitar]. Umas teclas que dá para tocar somente com três dedos de tão pequenas que são. Fiz meu primeiro disco inteiro nessa porra! [risos] “Menina veneno”… só com três dedos [ri], totalmente qualquer nota, mas, ao mesmo tempo, a música pop não exige muito, a não ser uma boa idéia, e é tudo muito simples. Aquilo foi uma ótima maneira de colocar minhas idéias para os músicos que, eventualmente, iriam tocar comigo. Quando fomos ao estúdio, foi natural levar a coisa pra esse lado de teclados… A tecladaria invadiu a minha vida de um modo imprevisto. Nunca fui pianista, nunca aprendi a tocar piano. Eu arranhava um pouco de violão, tocava flauta, clarinete, oboé. Eu era sargento de bateria na banda militar do colégio. O piano nunca foi o meu instrumento e talvez isso tenha me fascinado. O piano é muito visual, é maravilhoso. É música em formato gráfico. É uma representação gráfica da música.
Roger — Isso é da época também, não?
Ritchie — Totalmente, essa coisa da tecladaria… Quando cheguei ao estúdio, lá estava o Lauro Salazar com um Júpiter 8. Achei aquilo a coisa mais maravilhosa do mundo e, aos poucos, fui seduzido por essa tecnologia. Montei um estúdio. Quero dizer, fiz sucesso com “Menina veneno” e montei um estúdio. Um dos primeiros estúdios digitais do Brasil. Inicialmente era um estúdio com essa tecnologia para fazer minha música, mas fui ficando mais fascinado com a tecnologia do que com a própria música. Acho que isso até se refletia em minhas composições, que passaram a ser arranjos maravilhosos de coisa nenhuma. [risos] Se o meu disco, hoje em dia, soa meio rock’n’roll, é, na verdade, uma busca da essência da canção, porque já esgotei aquilo que eu quero da tecnologia. Quero que a tecnologia seja usada por mim e não que ela me use. A gente usa tecnologia de ponta nesse meu novo disco, mas é um disco muito baseado no violão. Até me perguntam, “Por que o violão, Ritchie, você que é tão ligado em Internet, estúdio digital, e nessas coisas todas?”. Porque, quando faço os meus trabalhos de áudio interativo, fico 14 horas programando numa boa até o olho pipocar de vermelho de tanto olhar para tela. Então, na hora de fazer minha música, eu ia lá para sala e pegava o violão. A história desse disco é essa, o violão, rock’n’roll básico. Queria buscar minhas raízes de rock’n’roll anos 60. Comecei a ouvir de novo The Kinks, The Searchers, The Animals, Beatles, e é claro, Rolling Stones. E coisas até mais antigas como The Righteous Brothers, Helen Shapiro, Dusty Springfield… Coisas anteriores aos Beatles, mas muito fascinantes. Dave Clark Five. E agora, com Internet, é maravilhoso. Você vai lá e ouve essas coisas todas. Gostaria de frisar que só uso a Internet para ouvir o que está fora de catálogo! [risos] É importante dar esse recado porque tem uma atitude meio estranha da garotada de hoje que nasceu com a Internet. Eles acham que é um direito. Sou super a favor da Internet como um meio de divulgação e até mesmo essa coisa de baixar é genial. Mas desde que seja acompanhada por uma consciência de que você está pegando o patrimônio de uma pessoa, cujo trabalho é aquele. É complicado esse momento. Gente, vou dar uma mordida aqui. Posso?
Monteiro — Você estava falando sobre o disco novo, que está mais rock’n’roll. Nisso a tecnologia é legal porque dá melhores recursos para captar tudo isso.
Ritchie — A gente usa tecnologia de ponta para gravar. Mas é o veículo e não o produto.
Keka — Na verdade, é somente uma melhoria.
Ritchie — Facilita muito a maneira de gravar, mas não interfere no jeito de fazer música. Você pode fazer uma música acústica, usar o pro tools para editar e o resultado ficar muito bom. Mas acho que o erro, se é que é um erro, nos meus trabalhos anteriores foi o de dar muita importância às tecnologias na hora de fazer música. De achar que seria uma salvação da música. Foi um engano. A gente se engana. Eu me enganei durante muitos anos.
Roger — Mas não foi um engano.
Ritchie — É, acho que fui até muito bem-sucedido no momento em que estava feliz com aquilo. Meu primeiro disco é um pop que funciona muito bem. Foi uma linguagem moderna da época, mas há outros discos meus que hoje em dia não consigo nem ouvir. A tecnologia está muito ali, não é uma coisa equilibrada.
Tacioli — Que discos?
Ritchie — [pensa um pouco] Pra ficar contigo [n.e. Polygram, 1988], que é o meu quinto disco, ou então o anterior, Loucura & mágica [n.e. Polygram, 1987], que tinha até uma música bem orgânica que fez até algum sucesso, “Transas” [n.e. Composição de Nico Resende e Paulinho Lima], mas o resto do disco era digital demais. Dói ouvir! Instrumentos digitais, Yamaha, sintetizadores. Na época a gente achava tudo isso lindo, maravilhoso. Hoje em dia dói ouvir, porque é limpo demais, não tem alma.
Tacioli — Ficou muito datado?
Ritchie — Sim, por causa disso. Por exemplo, esse disco [Auto-fidelidade], que tem influências dos anos 60, me parece ultramoderno. Não sou a melhor pessoa para julgar, mas me agradou muito mais. E é paradoxal porque fomos buscar influências de 40 anos atrás.
Roger — Mas é o que está acontecendo hoje, não?
Ritchie — É, você ouve essas bandas de hoje, Coldplay, Travis. Aliás, tô louco para ouvir o novo disco do Coldplay. Ouvi a música que está tocando nas rádios e achei linda. Eles são da minha escola, Chris Martin, no Sul da Inglaterra.
Tacioli — E Strokes?
Ritchie — Muito bom. Também super anos 60.
Keka — Strokes é uma unanimidade, né?
Ritchie — Strokes é muito bom, muito divertido. Só os fins das músicas já são fantásticos. [risos] É o antifim, né? Gosto também de White Stripes. É uma coisa muito louca. E gosto também de coisas mais tradicionais. Vocês conhecem um cara chamado David Gray? Nossa, que disco maravilhoso! Gravado no quarto dele. Violão, piano, voz e loops de bateria. Cada composição! O disco inteiro é uma obra-prima. David Gray. O disco chama-se White ladder [n.e. IHT, 1999]. É meio Van Morrison com Bob Dylan. O cara é irlandês. Nossa Senhora, é um discaço! Tô ouvindo coisas malucas agora. Há o disco novo do Pulp, We love life [n.e. Island, 2001]. É incrível! Eu estava falando do Scott Walker, que é um dos meu ídolos do começo dos anos 60. Ele era de uma dupla chamada The Walker Brothers [n.e. Na verdade, um trio formado por Scott Engel (Walker), John Maus e Gary Leeds, que eram californianos e não eram irmãos]… Fizeram aquela música [cantarola]… “You never close your eyes anymore / When I kiss your lips”… Acho que o Michael Bolton ou algum brega desses gravou recentemente, mas a original era do Walker Brothers, ou do Righteous Brothers. [n.e. “You””ve lost that lovin’ feelin””” foi lançada em 1965 pelos Righteous Brothers] Não me lembro quem gravou primeiro. Acho que os Righteous Brothers gravaram primeiro nos Estados Unidos e o Scott Walker e o irmão dele gravaram primeiro na Inglaterra. Enfim, mas ele era produtor dos próprios discos e tinha uns arranjos louquíssimos, tipo dez contrabaixos tocados com arco. E o Jarvis Cocker, do Pulp, foi buscá-lo e o convidou a voltar a produzir. Nossa, o disco é todo produzido por Scott Walker e tem um som completamente diferente de tudo o que você possa imaginar. Com aquela loucura do Pulp… O disco chama-se We love life, mas todas as faixas são sobre a morte. Suicídios, assassinatos, vontade de morrer, bichos atropelados por carro… [risos] É muito louco! É demais, demais. Há um verso que é lindo, em que ele fala sobre uma menina que foi assassinada violentamente. Aí ele canta pra ela. Chama-se “The night that minnie timperley died”. É sobre uma coisa que aconteceu mesmo, uma menina que foi raptada e assassinada. Tem um verso em que ele diz: “Minnie / If I could / I would give you the rest of my life” [n.e. Minnie / Se pudesse / Lhe daria o resto de minha vida”]. É demais! Acho que é um dos melhores versos de rock que já ouvi. É fantástico! As implicações do que ele está dizendo. Se eu pudesse, eu lhe dava o resto da minha vida. Isso é que é rock’n’roll! [risos, dá uma mordida no sanduíche] Desculpem-me, é que eu estou… [dá outra mordida]
Tacioli — Fique à vontade.
Monteiro — Prometemos não fazer mais perguntas nos próximos… dois minutos. [risos]
Ritchie — Falo pelos cotovelos. É que tem muita coisa boa… Tem o Elbow [n.e. Quarteto de Manchester que lançou o primeiro disco, Asleep in the back, em 2001, pela V2]. Coisa louca também, uma banda muito interessante. Da Inglaterra.
Roger — Na Grã-Bretanha, na Escócia e no País de Gales aparecem umas coisas muito esquisitas, muito boas.
Ritchie — The Alarm era de lá também. Eles já eram esquisitinhos nos anos 80. Tem muita coisa boa. Essas bandas têm muito mais possibilidades de, apesar de serem loucos, estarem no mainstream. Afinal, a cena alternativa é também mainstream. Mas tem muitas coisas maravilhosas. Ouvi Elbow pela primeira vez num desses dias. Fiquei maravilhado com a habilidade técnica. Tocam bem, são excelentes músicos… E que som louco! Que coisa louca! É muito bonito e muito diferente.
Roger — Tem o Gorky’s [n.e. Na verdade, Gorky’s Zygotic Mynci, formada em 1990]. É do País de Gales.
Ritchie — Gorky’s? Não conheço.
Roger — É impressionante. Os primeiros discos são uma espécie de folk galês.
Ritchie — Faz sentido.
Roger — Cantando em gaélico, com um tanto de referências que não dá para entender, não dá para saber que caminho estão tomando. É muito bonito.
Ritchie — Adoro essas coisas excêntricas.
Tacioli — Gorillaz?
Ritchie — Gorillaz é legal. O conceito, a idéia, o desenho animado como banda. Parece que, durante os shows, eles deixam vazar algumas silhuetas dos músicos.
Roger — Outro dia, vi um que era em 3-D. Quatro telões com um boneco em 3 — D em sincronia. Muito divertido.
Ritchie — Engraçado que faz mais sucesso que o Blur. A banda de brincadeira do Damon Albarn [n.e. Vocalista do grupo inglês Blur, e um dos pilares do chamado Britpop] se deu melhor. É muito engraçado isso. Tem outras coisas muito legais como o Muse. É um trio. Tem um guitarrista muito louco, toca muito e canta maravilhosamente bem. Ele me lembrou muito o Jeff Buckley, que eu amava de paixão. Poxa, tem o pai dele, Tim Buckley. O pai dele tem um disco, Happy sad [n.e. Lançado em 1969 pela Asylum], que acho que é um dos meus discos prediletos de todos os tempos. O negócio era o seguinte: ele no violão acústico, violão de aço, vibrafone e baixo acústico. Essa era a formação da banda, sem bateria nem nada. E é impressionante! Um jazz meio folk. Os dois morreram tragicamente. O filho morreu afogado e o pai morreu de drogas ou eletrocutado, não me lembro qual. [risos] [n.e. Tim Buckley morreu de overdose de heroína em 1975, enquanto o filho Jeff afogou-se no Rio Mississipi em 1997]. Teve uma morte assim, digamos, rock’n’roll. [risos]
Flávio Monteiro — Devia ser uma faixa do disco do Pulp. [risos]
Ritchie — Devia mesmo. Mas o Muse me lembra muito o Jeff Buckley com aqueles vocais tresloucados e muito musical. Nossa, que coisa bonita, os arranjos e tudo mais. É uma versão mais hardcore do Jeff Buckley, mas me lembra muito a sonoridade dele. Hoje ele é ídolo de todo mundo, anos depois de ter morrido. Então, Muse, Elbow e Elvis Costello sempre! [risos] O novo do Elvis Costello é muito bom, bem gravado para caramba [pára e dá mais umas mordidas]… Deixem-me voltar.
Keka — Coma, por favor!
Ritchie — Não consigo parar de falar!
Dafne — Então, coma! [risos]
Ritchie — Cale a boca e coma! [risos] Hummm!
Keka — A apresentação ao vivo de ontem foi para qual programa?
Ritchie — Para o do Jô Soares. Passou ontem mesmo. Foi muito legal. O som lá dentro é maravilhoso. Fiquei contente! Não faço o programa do Jô Soares há 10 anos. Na última vez que fui lá o som estava bom, mas não como o de ontem. Ontem estava realmente excepcional. É que a banda está muito boa e isso ajuda muito no som. A gente já sai bem. Estou muito orgulhoso da banda. Pessoas e músicos que admiro muito.
Roger — Você compôs todas as músicas do disco novo?
Ritchie — Todas, e todas são inéditas.
Roger — É fácil para você escrever em português?
Ritchie — Não. Eu não escrevo em português. [ri]
Keka — Somente em inglês?
Ritchie — Tudo em inglês.
Tacioli — Mas isso não influencia na música propriamente dita?
Ritchie — Sim, um pouquinho, na cadência. Mas é que a minha musa é inglesa. Eu não tenho nada com isso, é coisa dela. Ela que surge e raramente se apresenta em português. Já fiz letras em português, mas, na verdade, esse CD surgiu desse jeito porque eu não estava fazendo discos. Estava somente compondo por prazer. Então me dei ao luxo de terminar as músicas. Normalmente o que eu faria? Faria um monstro em inglês. Monstro no sentido de ser uma letra grande sem sentido, nonsense, meio como Red Hot Chilli Peppers, só que eles deixam isso como produto final e eu… [risos] Normalmente passo isso para o Bernardo [Vilhena], que é uma pessoa em que confio e que entende o que estou dizendo ali. Ele pega a cadência do rock, aquela coisa do… não sei se são oxítonas ou paroxítonas do inglês. Ele pega isso. Já acostumou, já tem uma maneira de falar em português aquelas coisas. Gosto muito do que fiz em português, mas fiz muito pouca coisa. A poesia não corre solta comigo quando componho em português. Eu me torno muito crítico.
Roger — Você não sente uma diferença grande entre uma música pop em inglês, em que você fala absolutamente qualquer coisa e é válido?
Ritchie — É. Aquela coisa Beatles, aquele nonsense. É como o Red Hot Chili Peppers. A música deles é genial, mas não consegui nada do que ele está falando. Entendo todas as palavras mas não consigo fazer um elo, um sentido entre elas. E é genial, porque você ter a coragem de brincar com essa coisa, que é uma manifestação quase da subconsciência. Na verdade, faz um sentido, sim, pra quem fez, e pra quem ouve, de certa forma, toma uma sonoridade. O Bob Dylan já falou, que uma música que não significa pelo menos três ou quatro diferente coisas para diferentes pessoas, não vale a pena você ouvir. É genial! Na verdade, a beleza está no olho de quem vê. A música funciona no ouvido de quem ouve, e não de quem faz.
Tacioli — Mas isso validaria qualquer tipo de letra.
Ritchie — Sim, mas é questão de inspiração. Juntar um monte de palavras do dicionário, não vai funcionar. Agora, se você entra em comunhão com sua musa… Sempre falo musa, mas existe mesmo, quem faz música sabe disso. É uma espécie de deusa, no sentido divino, que os artistas trazem dentro de sim. E se você está em comunhão com esse elemento, você pode falar se ela vai fazer sentido. Ela vem direto da emoção, não é somente uma questão de juntar um monte de palavras. Ela tem que ter algum significado, nem que seja sonoro. Oasis faz muito isso também. São letras que parecem que estão dizendo coisas, mas não estão dizendo coisa nenhuma. É um dom! Primeiro em fazer, segundo pela coragem em lançar aquilo e dizer que essa é a letra, não é um monstro, é a letra.
Roger — Você não acha que em português isso…
Ritchie — Em português isso é muito mais difícil fazer isso, porque a poesia em português é ligada a uma outra estética, muito mais literária, ela tem uma tradição mais literária, tem uma cadência musical completamente diferente. É uma das línguas mais musicais. Eu acho muito musical! Eu adoro cantar em português. Eu a-do-ro! Eu só não sei muito bem fazer espontaneamente as músicas em português, não porque eu não sei falar, é uma questão de poesia, de subconsciência, da alma. É uma coisa de alma, mesmo! A música pra mim — já falei isso — é uma experiência meio religiosa, uma comunhão. É difícil pra mim ser verdadeiro comigo em português. Às vezes eu acerto. Fiz algumas músicas, “Preço do prazer”. Da minha obra toda, eu tenho 70, 80 músicas gravadas, fiz apenas cinco com letras em português, o resto foi tudo feito por outros, principalmente pelo Bernardo Vilhena. E agora Erasmo Carlos, Alvin L., e outros mais…
Monteiro — Voltando aos anos 80, como você chegou a esse primeiro disco, à gravadora?
Ritchie — Não cheguei à gravadora, não. Quando fizemos as demos, todas as gravadoras falaram que elas não prestavam.
Monteiro — O que era essa demo?
Ritchie — O Liminha era meu aluno de inglês e meu amigo de muitos anos. Conheci o Liminha em Londres, antes de vir para o Brasil, com a Rita [Lee] e tudo mais. O Liminha era um tipo de subprodutor da Warner, na época, não era o produtor-executivo, mas fazia a produção do Gilberto Gil, algumas coisas assim. Ele tomava aulas de inglês comigo e eu mostrei a música, no Casiotone. Ele falou “Vamos gravar na próxima aula que você vier aqui.” Então, a aula foi “pras picas” e virou uma sessão de gravação. E ele diz até hoje que aquela versão de “Menina veneno”, gravada em fita cassete, na casa dele, é a definitiva. E com ela foi que ele chegou ao André Midani e a um monte de gente da Warner. E quando ouviram, falaram “O Brasil não tem lugar pro rock. Isso nunca vai acontecer!”.
Monteiro — E você já tinha algumas coisas na gaveta?
Ritchie — Tinha, tinha. Tinha um disco todo pronto em minha cabeça. O disco estava pronto: as composições estavam prontas, as letras estavam prontas. Eu gravei duas músicas. Nem “Menina veneno” gravei, porque ouvi muita rejeição e como já tinha uma demo feita, não senti necessidade de gravar essa música de prima. Fomos ao estúdio, uma antiga sala de arquivo da Warner, o porão da Warner. Ele falou, “Vamos lá, porque o banheiro tem um eco muito bom para a voz.” Gravamos voz no banheiro! Isso porque o eco era bom. E o Zé Luiz tocou o saxofone… O banheiro era um cômodo pequeno. Botamos um microfone colado na parede de um lado, e ele tocou de costas para o microfone em um outro canto. Aquele som chapado. E era genial! Essa é a coisa da inventividade! Isso que o Steve falou, “Ninguém faria isso na Inglaterra!”. Ele ficou fascinado com isso. Estávamos gravando em um porão com o Steve Hackett, pô! Com uma Marshall de 50, um gravador Otari de oito canais, de uma polegada, que levamos para esse lugar. Gravamos backing vocals no banheiro. E foi maravilhoso! Essas músicas, “Vôo de coração” e “Baby, meu bem”, acabaram vingando assim mesmo, e não foram regravadas. “Menina veneno” foi um pouco diferente. O que aconteceu pra ela chegar ao disco?Eu estava fazendo cópias na sala do Liminha, na parte de cima da Warner. E não tinha nada a ver com a Warner. O Liminha foi que cedeu a sala. Ele tocou contrabaixo. “Vá fazer umas cópias na minha sala que eu já venho.” Aí alguém bateu na porta. Era o Fernando Adur, um arranjador e produtor musical do Rio de Janeiro, muito conhecido no meio. Ele abriu a porta e falou, “O Liminha está aí?!” Eu falei, “Não!”. Ele fechou a porta. Cinco segundos, abriu a porta. “Que negócio é esse que está tocando aí?” “É uma fita que estou fazendo uma cópia.” “Mas é o quê? Uma banda? Que negócio é esse?” Era “Vôo de coração”. Falei, “Minha fita que estou gravando com o Liminha.” “Me faz uma cópia!” “Como assim, ‘me faz uma cópia?’ Não, cara!” [risos] “Não, eu quero levar na gravadora.” “Não, esqueça esse negócio de gravadora. Todas já falaram que não querem nada. Eu não vou te dar coisíssima nenhuma.” [risos] Naquela época, a Blitz [que era da EMI] estava acontecendo. O Mayrton Bahia também estava envolvido na nossa produção, e havia levado à EMI, mas eles falaram “Não, não, não! Tem muito sotaque. Gringo, não!” O fenômeno Blitz era muito brasileiro, carioca e batata frita. Genial! Blitz era maravilhosa naquela época! Os shows deles eram acontecimentos. Era muito teatral, muito bacana. E a EMI estava procurando outra coisa parecida. Talvez eu fosse um pouco sério demais pra eles, enfim, não interessou. O Fernando Adur falou assim, “Eu vou fazer uma coisa por você, porque sei que a CBS [n.e. Columbia] está procurando um cantor roqueiro”. Como [a CBS] era no Flamengo, não sei, não havia nenhuma conexão e eu não havia levado nada pra lá. O Fernando falou para fazer uma cópia e me prometeu que levaria para o presidente da gravadora e que no dia seguinte entregaria de volta a fita. No dia seguinte, antes que ele pudesse me entregar a fita de volta, recebi um telefonema do Claudio Condé: “Adorei a fita, vem para cá. De onde você veio? De onde você surgiu?”… [ri] “Olha, não foi da noite para o dia”. Falei do Vímana e tal. “Dá para você vir aqui? Traga seu instrumento que eu quero mostrar para o presidente”. Aí levei o Casiotone pra lá. [risos] Fiz uma produção para parecer roqueiro: passei umas gomalinas na cabeça [risos], peguei um casaco de couro e lá fui eu tocar para o presidente da CBS com o Casiotone. Cantei “O preço do prazer” pra ele. Ele olhou para o Cláudio Condé e fez assim [faz um sinal de legal] e saiu. O Cláudio falou, “Você está contratado”. Aí, o que aconteceu? Mandaram a gente para o estúdio no dia 31 de dezembro. Todo mundo festejando o final de ano… Havia uma brecha lá que ninguém queria gravar. “Vá lá e faça o seguinte: sabe aquela música “Vôo de coração” que você gravou naquele porão? O padrão 8 pistas não é o nosso padrão. Tem que ser 24. Então, quero que você vá para lá e copia os 8 nos 24”. Falei, “Você tá louco! Que loucura é essa? Você acha que vou copiar a guitarra do Steve Hackett para outro formato e perder essa guitarra maravilhosa? Pra quê? Só para ter em 24 canais, para vocês ficarem satisfeitos e guardarem numa gaveta? De jeito nenhum!”… “Mas é isso que a gente quer!”. Então, fui para lá e, em vez de fazer isso, a gente gravou “Menina veneno”. [ri] Falei, “Olha, não deu para fazer aquilo. Sou contra. Mas ouve isso aqui”. Nessas alturas já era Ano Novo, 1º de janeiro de 1983. Ele ouviu e falou, “Caramba! Essa música é maravilhosa!”
Tacioli — Mas por que essa insistência em “Menina veneno”?
Ritchie — Olha, do meu repertório, o Liminha queria gravar “Vôo do coração”, o Mayrton Bahia queria gravar “Baby, meu bem”, mas eu sempre achei que “Menina veneno” fosse especial. Primeiro, foi uma música feita em 20 minutos. O que é sempre maravilhoso quando você faz uma música e ele vem sozinha. É sempre um bom sinal, porque ela já está pronta na sua cabeça de certa forma. Ela nasceu sozinha. Nasceu do nada. Bernardo [Vilhena] chegou em casa. Estávamos lendo o livro O homem e seus símbolos, do Carl Gustav Jung, o pai da psicanálise, ou de uma das vertentes, enfim…, que ele havia me dado de presente. É muito interessante porque ele fala da linguagem dos sonhos, há uma história sobre a manifestação da anima que ele categorizou em quatro diferentes manifestações femininas que aparecem no sonho masculino. Então, tem a amazona, a professora, a mãe e a donzela venenosa. A donzela venenosa é um figura feminina jovem, sedutora… Vocês conhecem! [ri] Todo mundo conhece! O engraçado é que as meninas se identificavam com essa coisa. Foi uma mágica que fizemos ali sem querer. O abajur cor-de-carne era um abajur que havia no meu quarto. Havia o lençol azul também. O Bernardo ia assim [imita alguém olhando ao redor e anotando as coisas]… “Um abajur cor-de-carne, um lençol azul [risos], cortinas de seda…” e assim foi… Vinte minutos depois, a música estava pronta. Aí ele, “Que tal ‘Menina veneno’? ‘Donzela venenosa’ não dá!” Falei, “Grande título! Agora, eu sonhei com uma melodia essa noite… E isso não acontece sempre.” Não era bem a melodia de “Menina veneno”, mas era uma melodia… [cantarola] “Mas o que é isso?” Peguei o Casiotone e fui tirando [volta a cantarolar]… Aí o Bernando mandou, “Meia-noite no meu quarto” [ri]… E em 20 minutos estava tudo pronto: letra e música. Nunca mais na nossa vida fizemos uma música tão rapidamente. Ela saiu meio espirrada, parecia azeitona. Impressionante!
Daniel Almeida — “Menina veneno” nunca foi “Poison girl” ou nada assim?
Ritchie — Não, essa foi uma música que nasceu ali em português. Ela não era nada antes do Bernardo chegar com esse título e não era nada antes de ficar pronta. Ela nasceu… Foi impressionante. Sempre quis fazer outra assim e nunca consegui. [risos]
Keka — Que loucura! Nunca pensei que tivesse a ver com Jung…
Ritchie — Mas é engraçado. O que adianta uma música se ela não tiver várias interpretações. O Caetano Veloso falou pra mim que ele achava que era uma música sobre heroína. [risos] “Toda noite no meu quarto / Vem me entorpecer”… [risos] “Eu fico falando para as paredes”… [risos]
Almeida — Na paranóia, né? [risos]
Ritchie — É, é genial. Que maravilha, né? E outros que pensam…
Tacioli — Ele disse isso na época?
Ritchie — Não, foi quando gravei “Shy moon” [n.e. Gravada em Velô, Polygram, 1984]. No estúdio ele falou assim, “No início eu não gostava muito daquela música, mas depois vi que era uma música sobre eroína”. “O quê???” [risos] “Achei muito interessante, a coisa romântica.” Falei, “Não é nada disso. É um abajur cor-de-carne, mesmo!” [ri] Que era essa coisa de alabastro, horrorosa, que comprei na Rua 13 de Maio [n.e. Localizada no Bexiga e que abriga várias lojas de antigüidades], aqui em São Paulo.
Keka — “Menina veneno” chegou a lhe chatear e constranger, pelo falto das pessoas perguntarem somente sobre essa música?
Ritchie — Não, isso não, mas houve uns momentos há alguns anos que… Fiz um show em que não cantei essa música e quase fui crucificado. Mas tem uma hora em que… Se, naquela época, encheu o saco do Brasil, imagine o meu que tinha que cantá-la todo santo dia. Era uma música pop despretensiosa, não tem essa importância toda. Houve uma hora, sim, em que fiquei de saco cheio e queria fazer outras coisas. Um pouco da minha parada foi por não conseguir me imaginar cantando “Menina veneno” pelo resto da minha vida. Já fiz isso. E o desinteresse das gravadoras, depois do Plano Collor e daquele marasmo em que todos nós ficamos. Lancei meu último disco pela Polygram na semana do Plano Collor. Ele foi retirado das lojas, não houve lançamento. Disco bom, Sexto sentido. Para não ser confundido com o disco da Xuxa, claro. [ri] Se bem que, coincidentemente, divulguei esse disco no programa dela. Ela deve ter gostado de alguma coisa.
Tacioli — Esse momento foi a gota d’água pra você se afastar?
Ritchie — É, foi uma série de coisas.
Tacioli — Houve o lance do Chacrinha também…
Ritchie — Sim, mas isso foi em 1983. O Leleco fez uma cachorrada comigo. Todo fim de semana tínhamos que ir cantar no subúrbio. Era o jabá da época. O jabá do Chacrinha era assim. O Leleco jogava nos cavalos e precisava de grana para pagar as apostas dele. Então ele levava um monte de artistas para um lugar, lotava o espaço, botava o velho para buzinar, as chacretes para rebolar e todo o dinheiro no bolso. E não pagava um centavo a ninguém. Tudo bem, a gente entende que esse é o preço que se paga. A gravadora era conivente com isso. Mas, no fundo, você estava se apresentando para um público e era genial. Todos nós éramos muito ingênuos e achávamos que somente aparecer já era bom. Acontece que “Menina veneno” estourou e comecei a ter muitos pedidos de shows. Havia um em Belo Horizonte. Na quinta-feira, véspera do show, o Leleco ligou para o escritório do meu editor, que estava me empresariando na época — eu estava lá dentro na hora — e disse, “Precisamos do Ritchie no fim de semana em Marechal Hermes”. Meu editor disse que eu não poderia porque tinha show marcado. “Então que desmarque, porque ele já está escalado!” “Mas não é assim, tem uma multa contratual de 50%. Se você quiser pagar essa multa, a gente vai…” “Que negócio é esse? De jeito nenhum! Ele tem obrigação!” Aí eu falei que não ia. Na semana seguinte saiu uma matéria na revista Amiga dizendo que o Ritchie, o artista inglês que foi tão bem acolhido no Brasil, agora, depois da fama, se recusa a trabalhar com artistas brasileiros. Resultado: ele não pode aparecer mais no Programa do Chacrinha e ponto final. Aí fiquei 6 anos sem poder ir à Globo. Mas, na verdade, houve umas brechas porque minhas músicas eram ainda usadas nas novelas. Eles usavam minha música, mas a figura Ritchie não podia aparecer. Até a época de “Transas”, em 1986. Três anos. Depois disso começou a ficar melhor, mas, na verdade, nunca mais voltei ao Programa do Chacrinha.
Roger — Mas antes disso, “Casanova” foi…
Ritchie — Ah, sim. Mas isso foi tudo antes.
Roger — E mesmo assim você não podia aparecer?
Ritchie — “Casanova” foi uma das músicas que mais estourou na época. Acho que cheguei a cantar em algum lugar, mas o negócio era o seguinte: a música do Ritchie é muito boa para novela, mas não queremos dar força para a figura artística dele porque ele não colabora com a gente.
Almeida — Numa época em que havia somente a Globo para se ter exposição.
Ritchie — Foi chato. E anos e anos depois, quando você acha que as pessoas vão esquecer isso, ou achar que você aprendeu a lição, o Leleco deu uma entrevista à Veja e me espinafrou à toa. Não sei qual era a dele! Que mágoa era essa? Deve ter perdido dinheiro ou algo assim. Ele marcou outros shows comigo, Sidney Magal e Alcione. Mas a Alcione falava de mal mim em programas de TV. Eu não ia puxar público para ela. Adoro a Alcione, mas foi muito feio. Ela falou muito mal de mim em um Globo Repórter, algo como “Ele é mais um que veio para cá tomar o lugar da gente”. Pô, sacanagem! Eu não sabia que era ela quem havia falado isso. O Pedro Bial, que era o entrevistador na época, foi quem comentou que um sambista havia falado que era muito fácil um inglês chegar aqui e fazer sucesso. Imagina? Fácil? [ri] Bem, falei assim, “Não sei quem essa pessoa é, mas sugiro o seguinte: que ela vá para Inglaterra e chegue ao topo das paradas cantando samba em inglês e depois volte para cá. Só aí poderemos conversar de igual para igual”. Aí, pô… Foi um horror também, né? [risos] A Alcione ficou sem falar comigo durante séculos e eu adoro ela. Fui saber depois que foi ela quem havia dito.
Tacioli — Você chegou a falar com ela depois?
Ritchie — Sim, encontrei-la anos e anos depois numa festa de aniversário do Zeca, filho do Caetano. Ela estava lá com a bateria mirim da Mangueira que, aliás, é um projeto maravilhoso que ela faz. Estava muito chateado com isso, porque acho a Marrom fantástica. Uma cantora impressionante. Mas ela levou a coisa pessoalmente… Mas, bem feito também, quem mandou falar mal? Tem que haver direito de resposta. É o mínimo que se pode fazer. Fui lá dar um beijo nela e tal.
Tacioli — Você chegou a ficar fora do meio artístico da época?
Ritchie — Do meio artístico, não, porque fiz muitos shows. Estava bem amparado. E outras pessoas da mesma emissora sempre me chamavam para alguma coisa. Novelas e tal… A TV Globo era a única emissora em que se podia divulgar o seu trabalho musical naqueles tempos pré-MTV. Mas a minha figura foi prejudicada, sim. Até as gravadoras com quem trabalhei passaram a divulgar menos meus trabalhos por causa dessas dificuldades na televisão. A Beth Araújo, que trabalhava na Polygram, me falou — ela era muito amiga da família do Chacrinha e estava no quarto do velho quando ele morreu -, “O Leleco não atura você, mas há um paradoxo. O velho morreu em um quarto em que tem três retratos na parede: o do Roberto Carlos, o do Ney Matogrosso e o seu”.
Keka — Nossa!
Ritchie — Freud explica!
Keka — Isso no hospital?
Ritchie — Não, na casa dele. Ele morreu em casa.
Roger — Depois desse tempo todo, agora você está voltando à mídia. Qual é a diferença?
Ritchie — Estou mais tranqüilo. [ri] Não tenho muitas expectativas. Estou muito feliz com esse disco. Não estou naquelas… [faz voz de vilão] “Agora vou mostrar para todo mundo que eu voltei”… Estou mais zen.
Dafne — Mas, e a mídia, o que mudou?
Ritchie — Olha, a mídia…
Keka — Essa onda de revival dos anos 80…
Ritchie — Eu não faço parte disso, não. Esse é um disco de inéditas. É uma coincidência total. Acho que talvez tenha a ver com o Ira!, que é uma banda dos anos 80, que regravou uma música minha, e que me convidou para participar de uns shows [n.e. A música é “A vida tem dessas coisas”, de Ritchie e Bernardo Vilhena, gravada em Isso é amor, Deck Disc, 1999]. O produtor do meu disco, o Rafael Ramos, viu esse show e depois veio comentar no camarim como a garotada tinha enlouquecido quando rolou a música. Minhas filhas chegaram no camarim e… “Pô, pai, não sabia que você fazia esse som!” [risos] Eles fizeram uma versão punk que me deixou fascinado. Ficou tão diferente da minha versão, que é do meu primeiro disco. Adorei. Adoro eles. Sou muito fã do [Edgard] Scandurra. É impressionante o que ele faz com aquela guitarra invertida. Inclusive, no disco deles, a harmonia está toda errada [risos], mas é genial. O Scandurra depois falou para mim que a meta deles era tocar todas essas músicas, que eles adoravam na época, de memória. Então, eles não buscaram as versões originais. Ficou supercharmoso. Gostei, gosto muito deles. O [Ricardo] Gaspa conheço há 30 anos. Quando fiz minha primeira banda aqui em São Paulo, fiquei na casa dele, porque o irmão dele tocava guitarra comigo. Ele era um pirralho de 14 anos e já tocava baixo pra caramba. Tinha uma banda chamada Mescla que era impressionante. Música instrumental tipo Mahavishnu Orchestra. Tudo moleque de 14, 15 anos, tocando como os diabos. Havia um guitarrista chamado Jonas não-sei-das-quantas que é uma lenda até hoje. Acho que ele não toca mais. Os pivetes tocavam muito. O Gaspa… Tenho o maior carinho por eles. Acho que é um rock’n’roll tão honesto, tão sem firulas. Enfim, eles gravaram essa música, o Rafael viu e me convidou para voltar. Falei que não, de jeito nenhum. Pensei que ele queria regravar as coisas. “Nada nesse mundo vai me fazer regravar ”Menina veneno”! Está muito bom, está lindo, não quero mais gravá-la, não!” Ele falou, “Não é isso, não! Queria que você fizesse um disco de inéditas”… Bom, “Somente se for em inglês, porque só tenho músicas em inglês. Acho que você está perdendo tempo comigo. Tô muito feliz, acomodado nesse trabalho de Internet”. Ele me chamou em 2000 e levou esse tempo todo. [ri] Só fui gravar em 2002. Em 2000, a Internet ainda estava muito bem. O Thomas [Dolby] me mandava muitos clientes. Toda vez que ele dava uma entrevista, aparecia mais emprego para mim. Eu estava muito bem. Aí a coisa toda implodiu. Mas foi somente pisar no estúdio para o Rafael falar, “Ritchie, chega! É véspera de 2002, você está me cozinhando há um ano e meio e eu sei que você tem músicas lindas porque já ouvi. Então, venha para o estúdio hoje!”. Imagine um garoto de 23 anos falando assim comigo. “Ah, moleque! Vou sim!” [risos] “Quero que você grave em inglês, ou como você quiser. Quero que você seja feliz. Venha para cá”.
Keka — Em que estúdio vocês gravaram?
Ritchie — No Tambor, da Deck Disc, que pra mim é o melhor estúdio do momento. Poxa, um som fantástico, um projeto muito lindo. É o estúdio mais atualizado do Rio de Janeiro. E o pai dele, o João Augusto, é um monstro da indústria. É uma pessoa maravilhosa. Gosta muito de música.
Keka — E como foi trabalhar com o Rafael, que é bem mais novo?
Ritchie — Maravilhoso. O Rafael me surpreendeu a cada instante, porque ele é um profundo conhecedor de tudo que gosto. Até eu fazia uns testes de vez em quando. “Agora ele vai ver só. Vou falar de uma coisa que ele não conhece!”… E falava de algo como Righteous Brothers ou qualquer coisa assim. “Eu sei!”, e falava o nome do primeiro disco, cantava a segunda música do lado B… O Rafael é impressionante! É um grande produtor, muito mais maduro que sua idade. Uma pessoa que tem toda uma sabedoria de quem lida com artistas e egos.
Keka — Ele começou muito cedo.
Ritchie — Começou muito cedo. O pai dele também passou muita coisa para ele. Sempre foi criticado por ser filho do João Augusto e não é nada disso. Ele merece tudo o que conquistou. O trabalho dele com o João Donato é ótimo. Poxa, o dedo dele está nos Mamonas Assassinas, no “Anna Júlia” e em todas as coisas que recentemente foram estouros e grandes surpresas. Por exemplo, a volta do Ultraje a Rigor. Tudo tem a marca dele.
Tacioli — Você tem essa expectativa por estar na mão dele?
Ritchie — Não, a mão dele foi na gravação. Foi tão maravilhoso. Mas ele é um cara que fala pra mim, “Olha, Ritchie, essa gravadora é minha. O disco que fiz com você é o melhor da minha carreira também e eu quero que faça sucesso!” [ri] “Tudo bem, estamos aí! Vamos ver. Não quero nem entrar no mérito do que isso significa, mas tudo bem.”
Tacioli — Sua relação com as gravadoras sempre foi meio tensa?
Ritchie — No término com a CBS, você diz? Bem, sempre foi mesmo. Esse incidente com o Leleco melindrou todo mundo, fiquei marcado como rebeldinho… sem calça! [ri] Os divulgadores não queriam me trabalhar… “O cara é difícil, só dá problema”… Não sou difícil, sou muito fácil de trabalhar. O problema é que havia essa pedra no meio do caminho. Então, senti que a Polygram foi desistindo de mim. Somente queriam cumprir o contrato e nada mais. Quando saí de lá, estava tão desamparado, com a auto-estima tão baixa que achei que era melhor parar mesmo.
Flávio Monteiro — Mesmo com o estouro de “Transas”?
Ritchie — Foi por causa do Mariozinho. O que aconteceu? Eu tinha um contrato de quatro discos na CBS. Fiz três. Aí o tecladista da minha banda, o Nico Resende, me deu essa música, “Transas” [n.e. Composta em parceria com Paulinho Lima]. Ele falou assim, “Ritchie, acho que você vai cantar essa música como ninguém. É a sua cara. Fiz pensando em você”. Normalmente só canto músicas minhas, mas a música era muito bonita mesmo e achei que ia cair bem em novela. Então, gravamos uma demo. Quis apresentar para o Cláudio Condé dentro da CBS. “Cláudio, tenho uma música aqui que vai ser como ‘Menina veneno’. É muito bonita, um pouco breguinha, mas é muito linda!” [risos] É, tem que ir um pouco com a maré, não tenho esse preconceito do que é e o que não é brega. Enfim, gosto de música boa e achei muito bonita quando a ouvi. É uma balada muito bem feita. Mas eu não mostrei pra ele, somente falei da música. Ele falou, “Não! Não, Ritchie, não é hora. Guarda isso para depois. Só vamos nos interessar quando você tiver um disco inteiro pronto”… “Mas essa música é muito linda, dá para colocar na novela, vender como single. Aí, no próximo disco”… Ele não queria nem ouvir. Pô, alguma coisa está errada. Aí o que fiz? Mandei a fita para o Mariozinho Rocha. Perguntei o que ele achava dessa música para alguma novela. Comecei a trabalhar por fora. Ele ficou louco. A secretária dele diisse que ele botava a fita demo para tocar no fim do dia, tomava um uísque, deitava no sofá, ouvia “Transas” em rotação contínua, e chorava e chorava. “Essa música é linda!”… E tomava mais uma dose. [risos] Aos prantos. Ele achava aquilo o máximo. Mas eu não sabia o que fazer, ainda devia um disco para a CBS. Aí, na maior cara-de-pau, fui ao escritório do Cláudio Condé e falei, “Cláudio, tô com uma crise de criatividade, acho que nunca mais vou escrever uma música sequer. Olha, tá vendo? Tô com uma música aqui, mas não é nem minha. Não consigo mais compor, acho que quero me aposentar. Queria que você me liberasse do contrato”. Ele disse, “Tudo bem! Tchau!” [risos] Ah é? Então, tá! [risos] Aí o Mariozinho pegou a música. Quinze dias depois, ela estava em primeiro lugar. Foi o compacto mais vendido de 1986. Ganhou o prêmio Villa-Lobos. Mas o sucesso foi tão grande que a Globo contratou o Mariozinho e eu fiquei sem pai e sem mãe na Polygram, uma companhia que teve três ou quatro presidentes nos três anos em que estive lá. Fiquei completamente desamparado, sem o meu anjo da guarda, o Mariozinho, em um ninho de estranhos. Quase 50% dos divulgadores da Polygram tinham acabado de vir da CBS. Era a mesma turma! [ri] Tive que ouvir coisas do tipo, “Vê se não pára no meio do caminho desta vez, hein?” Ouvir isso de divulgador é duro. Enfim, com o Plano Collor falei, “Chega! Chega! Já fiz seis discos. Estou muito contente. Afinal, sou um pai de família e já estou mais pra lá do que pra cá. Vou me dedicar a outras coisas. A vida é curta. Já fiz bons discos, vendi um milhão de cópias, tenho meus discos de ouro.” É tudo o que queria quando era garoto, não queria mais do que isso. Achei que era melhor parar do que ficar insistindo quando ninguém queria. Tirei um ano para me dedicar à computação. Um ano, dois anos, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze anos depois fui lançar um disco. Foram doze anos sem gravar.
Tacioli — E que expectativas você tem como contratado da Deck? É um contrato que prevê quantos discos?
Ritchie — Três discos.
Tacioli — Esse passado não interferiu?
Ritchie — Não, eles não estão nem aí para isso. Sabem da história toda e não estão preocupados. Os tempos são outros. Cadê o Leleco Barbosa hoje em dia? Eu tô aqui! [risos]
Monteiro — Depois da Jovem Guarda, a música pop jovem somente voltou nos anos 80. Você acha que essa geração abriu a porta para o que está acontecendo agora?
Ritchie — Gosto de pensar assim também. Às vezes, isso não é apreciado. Mas gosto de pensar que nós abrimos portas, porque não foi somente nos anos 80. Começamos nos anos 70. Até a Som Livre, que nos deu um pouquinho de tempo de estúdio para gravar um disco do Vímana e testar as máquinas, falava assim… “Olha, esqueçam o rock no Brasil. A gente quer que vocês vendam como a Diana. Esse país não está pronto para o rock!” Então, a gente vem plantando desde aquela época.
Monteiro — A Diana cantava “Meus parabéns agora / Feliz aniversário amor”.
Ritchie — Ele conhece. Que barato! É isso mesmo! [risos]
Monteiro — Diana. Estouro absoluto.
Ritchie — Underground pra caramba! [risos]
Tacioli — Mas o Vímana gravou um LP, né?
Ritchie — Não, foi um compacto [n.e. Lançado em 1977 pela Som Livre]. “Zebra”, no lado A, e “Masquerade”, uma música em inglês, no lado B. Saiu, por algum motivo… A Warner lançou essas músicas numa coletânea do Lulu Santos [n.e.O duplo E-collection, WEA, 2000]. Bom que saiu em algum lugar. Pena que é uma bosta, né? [risos] O Vímana é a banda mais famosa que ninguém nunca ouviu. Era uma confusão e uma maravilha na época. A gente pensou que estava mudando o mundo, mas era somente o nosso mundo que estava mudando. Éramos muito prepotentes. Imaginem Lulu, Lobão e Ritchie morando na mesma casa. Só podia dar merda. [ri] Moramos um tempão juntos… Somos irmãos, uma família. O Lobão é muito carinhoso comigo. O Lulu é um pouco mais difícil, mas a gente entende que ele é mais difícil mesmo e pronto. Temos muito carinho um pelo outro. Eu, pelo menos, tenho. Sei que o Lobão tem. Ele, que é radical e tudo mais, sempre dá um jeito de falar bem de mim em suas entrevistas. É muito legal isso, porque ele metralha todo mundo. [ri] E fala, “Não, o Ricardinho, não. O Ricardinho é 100%!” [risos] Ele sempre me chamou assim, Ricardinho, Ricardinho Bandeirantes. É mole? Não sei de onde ele tirou isso? Maluco.
Tacioli — Mas vocês não gravaram um LP, então?
Ritchie — Gravamos um LP inteiro com 10 ou 12 faixas, mas é virtual porque nunca foi lançado.
Tacioli — Mas existe. Está na gaveta.
Ritchie — Em algum lugar. Desconfio que as masters estejam com o Lulu… Tanto que surgiram essas duas músicas de algum lugar. E como foi em um disco do Lulu, imagino que foi ele quem cedeu. Também nunca perguntei, não falei com ele sobre isso. Ele vai dizer que não é um projeto dele, que é da gravadora, enfim… Acho melhor deixar os cachorros dormirem. Acho melhor deixar isso quieto, porque o Vímana foi um berço esplêndido para nós, mas não tem importância musical nenhuma. Era uma confusão, coisa de formação, de hormônios masculinos em conflito. Tudo junto, brigas. A gente brigava muito bem, tocávamos razoavelmente. Foi isso que fez terminar, como todas as bandas. Quero dizer, duas coisas acabam com bandas: uma é o sucesso e a outra é o fracasso! [risos]
Monteiro — Você acha que para essa geração dos anos 80 o espaço foi curto demais para poder…
Ritchie — As gravadoras trataram a gente como uma coisa de momento. E está mais do que provado que não era. Acho que esse revival não é simplesmente fazer renascer os anos 80. É mais, “Poxa, aquilo é bom. Era bom. Vamos ver quem está vivo ali?”. [ri] Aí pegam a gente, né? Quem está ainda em pé. As bandas, principalmente, se deram bem porque souberam sobreviver a isso à revelia do mercado. Os Paralamas sempre tocaram, não precisaram estar na moda para tocar ou não tocar. O Legião, etc. e tal. É mais difícil para um cantor, porque você tem que sustentar uma banda, você tem que pagar as pessoas. Você não pode ficar na estrada se você não está com alguma renda além daquilo. É muito mais complicado você manter uma banda se você é um artista-solo. Uma banda é todos por um e um por todos. O Vímana teve seu momento, fazia sentido naquela época. Não faz mais. Mas os trabalhos dos anos 80 não tiveram a oportunidade de se expressarem mais porque foram tratados como sabor do mês. Havia mais coisa para dizer ali. Acho que está mais do que claro que aquilo era uma coisa fértil. Por que era fértil? Porque era o fim da ditadura e o começo da abertura. Jovens tinham passado 20 anos sem se expressar. Por mais ingênuos que fossem… A coisa da Blitz é altamente superficial, muito gostosa, mas superficial. “Menina veneno”, superficial. Não tem conteúdo político, nem uma tentativa de mudar o mundo, porque nós estávamos lidando com a Dona Solange, da Censura, ainda, e aquilo tudo vacinou a gente. Uma questão de sobrevivência. Tem que ser ingênuo para sobreviver, para poder fazer música. Somente depois do primeiro pé na porta, quando conseguimos uma brecha, veio a enxurrada de Brasília, aquelas coisas maravilhosas, a Legião, os Paralamas e tantas outras bandas. Justamente no berço da ditadura. [ri] Digamos assim, no centro de comando surgiram as melhores bandas e as mais contestadoras. Aí sim ficou muito bom. Nessa altura, estávamos carimbados como brega-pop ou sei-lá-o-quê. Também estou me lixando para o que as pessoas acham em termos de rótulo, porque nunca acreditei nisso. Sempre fico olhando para trás e vejo que as músicas que mais fizeram sucesso em todos os tempos vieram pela contramão. Led Zeppelin é uma das bandas… Dire Straits no auge do punk… [ri] Até mesmo o The Police, que fazia o figurino do punk, mas não tinha nada a ver com punk, a não ser, talvez, na atitude, mas é mais para os Monkees do que para o punk. Havia aqueles filminhos com eles dançando e chutando um ao outro. Era uma coisa bem The Monkees, bem A hard day’s night [n.e. Os Reis do Iê-Iê-Iê, 1964, o primeiro filme dos Beatles]. Não havia muito punk, não. Maravilhoso! Elvis Costello, que nasceu naquele berço, mas era o contrário daquilo tudo. Quero dizer, as pessoas que sobreviveram, vieram pela contramão. Então, nunca consegui entender essa mentalidade de que uma coisa não vai vender porque é diferente daquilo que está fazendo sucesso. Aí mesmo é que vai.
Tacioli — Você estava falando do brega-pop…
Ritchie — Não estou me denominando assim, mas já ouvi isso, “O Ritchie é brega-pop”, “O Ritchie é brega”.
Tacioli — Hoje não há uma aura cult sobre isso?
Ritchie — Não sei, não sei. Não sou eu que posso falar sobre isso, mas já ouvi. O pessoal do Ira! falou assim, “Ritchie, você tem que voltar, a gente precisa de você. Você é cult em São Paulo!”. “É? Que barato!” Mas sabe por que sou cult? Porque eu não estava fazendo nada! [risos] É muito conveniente ser cult assim.
Monteiro — O CD Vôo de Coração, da Sony, está em catálogo.
Ritchie — É o único! [ri] Em catálogo em termos, porque aquilo é uma roubalheira. É um relançamento, mas não tem ficha técnica, não tem nada.
Monteiro — É impressionante como vende.
Keka — Eu comprei. [ri]
Ritchie — Ah, foi você! [risos] Porque até agora a Sony falou que vendeu, sei lá, uma cópia. [ri]
Monteiro — Esse CD vende muito.
Ritchie — Engraçado, né? Esse disco vendeu 1,2 milhões até setembro de 1984. Aí, misteriosamente, no dia em que lancei meu segundo LP, não vendeu mais nada. E está vendendo até hoje. É curioso esse malabarismo.
Roger — Mudando completamente de assunto, e essa história da numeração dos CDs?
Ritchie — Essa discussão é vital. Não podemos perder esse trem. Fiquei meio apavorado quando houve o veto, mas entendo.
Roger — Mas é isso que você está falando. O disco estava vendendo e, de repente, parou. Não há nenhum controle.
Ritchie — Sabe o que é, o jabá é pago com dinheiro que não é oficial. Então, as gravadoras não querem a numeração, porque não querem detonar essa… É muito confortável pra elas. O caixa dois paga o jabá. É terrível ter que dizer, mas a gente tem que falar essas coisas, porque não se pode continuar assim. Se a indústria está em crise agora é por culpa dela que criou seus próprios monstros. A pirataria está essa coisa toda, porque as gravadoras começaram a mexer nessa coisa… Há vários tipos de pirataria. Pirataria contra os autores é uma delas. É uma maquiagem em torno dos números… É um pouco como o ECAD. O ECAD não tem um sistema transparente tipo “tocou uma vez, um ponto”. Não, o ponto é flutuante. Eles calculam, cada mês, o que o ponto vai representar. Então, você nunca vai saber se tocou ou não tocou. É tudo parte de uma grande falcatrua que é a indústria de discos, e não acho que seja somente no Brasil. É em todo lugar. Tem que ser falado. É inconveniente, pra gente falar sobre isso, mas tem que ser falado.
Dafne — Mas como você vê o projeto? Antes e depois da polêmica?
Ritchie — Foi fantástico falar dessa questão. A lei, da maneira como foi redigida, é falha. A assinatura foi uma espécie de pedra jogada na máquina… Não entendi essa coisa; claro que é inviável. Foi uma maneira de agradar a gregos e troianos. Vamos agradar aos artistas com a lei, mas não vamos desagradar às gravadoras. Senti que a lei tinha uma coisa meio em cima do muro. Por um lado, é bom que esse aspecto tenha sido vetado. Bom, em termos. O importante é que a discussão não morra, porque se morrer, nunca mais conseguiremos levantar essa questão. E é importantíssima para todos os autores, principalmente em um momento como o de agora, quando o direito autoral é abalado por uma série de coisas: a pirataria, a Internet… Como a música é consumida agora é possível controlar o direito autoral. É muito importante que a indústria se una, e a transparência é o melhor jeito, porque senão vai falir mesmo. É claro que vai renascer das cinzas, mas não sei se vai ser um processo rápido. Vai demorar muito para se criar um novo modelo. Já vejo a música mudando de aspecto. O conceito do direito autoral vai ter que mudar. O conceito de propriedade autoral vai ter que mudar. A música, provavelmente, vai ser de graça. Ela não vai ser encarada como um produto final, mas como uma espécie de jingle, uma marca. Será oferecida para download e uma série de outros produtos que estão por vir. Não estou falando somente de DVD, mas também de outros produtos que a gente nem concebe ainda. Talvez a música fique como um cartão de visitas. Não sei, talvez eu esteja falando bobagem, mas não é uma questão de escolha. É uma adaptação ao que está acontecendo. As pessoas se acham no direito, agora, de baixar músicas de artistas e que seja assim mesmo… Não vão comprar o disco. É uma pena.
Almeida — Há uma aura do CD, do disco, do encarte, e acho que as pessoas querem isso.
Ritchie — Eu acho, eu sou assim. É maravilhoso. A idéia de algo que você compra e é seu, né?
Almeida — É uma outra fonte de informação que a música somente não traz.
Ritchie — E o som é melhor também. É o formato que foi concebido a música. Não é aquela compressão de MP3, que para os meus ouvidos não soa bem. Não gosto do som do MP3, não acho que seja tão parecido assim, até porque vivo dos meus ouvidos… Não gosto da compressão. Agora, é muito conveniente. Acho um barato poder baixar uma música de não-sei-quem antes de comprar o disco. O conceito de rádio está mudando em função disso, porque o rádio empurra aquelas mesmas 25 músicas para o ouvinte, e na Internet quem escolhe é você. Isso é fantástico, é a evolução do rádio e da indústria em geral. A gente tem muito que caminhar ainda, mas há a questão sobrevivência de quem está na indústria agora. Não pode assim: vamos parar e começar de novo. Tem que haver um período de adaptação. Naõ sei como isso vai evoluir. Acho que o conceito de propriedade e de patrimônio musical vão ter que mudar. Se a gente ficar achando que toda vez que alguém baixa uma música nossa é um roubo, a gente não vai a lugar nenhum. Temos que encarar aquilo como uma coisa boa, mas a indústria não encara assim ainda.
Roger — E nem está preparada para isso.
Ritchie — Nem está preparada. Se os autores estão em maus lençóis, a indústria está toda emaranhada. É assim que se diz?… Emaranhada na sua própria rede de intrigas. É patético de se ver! É uma pena, porque eles criaram seus próprios monstros. É um reflexo de tantos anos de descaso e comodismo. Era muito conveniente… O sistema do jabá sempre funcionou muito bem para todos os lados. Quero dizer, menos para aqueles que querem fazer alguma coisa nova e furar esse bloqueio. A grande tristeza do jabá é que a música não é mais a mola movedora… Como se diz?
Tacioli — Propulsora.
Ritchie — Não é mais a mola propulsora. São outras propinas.
Tacioli — Você pensou em colocar seu disco na Internet, não?
Ritchie — Por um momento, pensei. É que tenho um projeto com Dominic Miller, o guitarrista do Sting, um cara que conheço há muito tempo… Temos onze músicas juntos, duas estão no meu site: “Distant shore” e “Speak to me”. Aliás, “Speak to me” não está no site, somente o “Distant shore”. Mas temos onze músicas em conjunto. Conheço o Dominic muito antes dele tocar com o Sting e com o Phil Collins [n.e. Guitarrista e compositor, também lançou dois álbuns-solo, First touch, 1995, e Second nature, 2000, e acompanhou artistas como The Pretenders, Tina Turner, The Chieftains, Backstreet Boys, Boyzone, Level 42 e Yossou N””Dour, fora os citados]. O pai dele jogava golfe com o meu pai e o conheci quando tocava em pizzarias. E hoje… Ele está há 14 anos com Sting e é autor daquela música lindíssima, “Shape of my heart” [n.e. Lançada originalmente por Sting, que também assina parceria com Miller, no disco Ten summoner””s tales, A&M, 1993, e regravada pelo cantor em outros álbuns], não a dos Backstreet Boys, é claro. É outra. [ri] É um músico extraordinário. Tem uma história engraçada… Não sei se você querem saber dessa história. O Dominic vem sempre ao Brasil. Aliás, das pessoas que conheço fora do Brasil, ele é a pessoa que mais conhece música brasileira. Conhece todos os anos 40, é uma loucura. Ele nasceu na Argentina, é de uma família inglesa que morou muitos anos na Argentina. Então, sempre houve essa ligação com América Latina. Em 1983, quando eu estava no auge do sucesso, ele veio ao Brasil para estudar com o Turíbio Santos [n.e. Importante violonista erudito nascido em São Luís do Maranhão, em 1943, e radicado no Rio de Janeiro, fundou a Orquestra Brasileira de Violões]. Todo o lugar em que a gente ia eram gritos, autógrafos. Ele falou, “Nossa, Ritchie, você está estouradaço! Que barato! Como você faz?”. Eu falei, “Tem que ser muito cara-de-pau!”… Aí, ele, “É isso mesmo. Bem que meu pai disse, tem quer ser cara-de-pau”. Faz o seguinte, “Escreve uma carta para o, sei lá, Phil Collins falando que você é o melhor guitarrista da Europa. Contrata-me!”. Foi meio de brincadeira, mas ele foi para Inglaterra e fez isso. [ri] E foi contratado! Tocou naquela “Another day in paradise” e no disco todo [n.e. But seriously, Virgin, 1989]. Depois a Chrissie Hynde se apaixonou por ele e o botou no Pretenders durante seis meses [n.e. Miller tocou no disco Packed!, Warner, 1990]. Aí, o Sting ouviu falar dele e mandou uma passagem para o Dominic ir a Nova York para uma audição, ou Los Angeles, não lembro. Isso é muito engraçado! Quando Dominic chegou lá, havia uns 100 guitarristas para audição e ele estava somente com uma camisa amarrotada e uma pedaleira dentro de um saco de supermercado. Bem pé-de-chinelo, imundo, qualquer nota. Quando ele entrou na sala, os roadies que trabalhavam com o Sting começaram a rir. Ele tirou a sua única pedaleira do saco de supermercado e a colocou no chão. O Sting estava muito sério, “Vamos tocar “Fragile”!” [n.e. Lançada originalmente em Nothing like the sun, A&M, 1987]. Tocaram, tudo bem… “Vamos tocar um jazz!” E foram tocando. Aí, no fim do jazz, o Dominic falou assim, “Desculpe, Sting, mas na verdade não gosto muito de jazz, não sei tocar muito bem!” E o Sting, “Eu também não sei tocar jazz. Você está contratado, cara!” [risos] Isso foi há 14 anos.
Tacioli — Ele teve aulas com o Turíbio Santos?
Ritchie — Teve. Fui na casa do Turíbio com ele. O Dominic não fala português e o Turíbio não fala inglês. Foi muito engraçada a conversa dos dois. O Dominic fala castelhano, com sotaque, mas fala bem. Era uma mistura de línguas. Mas todo mundo se entende, né? O que me fascinou no Turíbio é o tamanho da mão dele… A mão inteira é do tamanho desse player de MD. É mínima! E ele faz aquelas coisas, sobe e desce o braço… Como é que pode? Ali diz que ele pode ser tudo, menos guitarrista. Aquela mão pequenininha…
Tacioli — Você falou que nunca imaginou fazer sucesso no Brasil.
Ritchie — Realmente, cá entre nós… Quero dizer, sonhei com isso nos meus sonhos mais loucos.
Tacioli — Mas você sonha em fazer sucesso na Inglaterra?
Ritchie — Não.
Tacioli — Mas já sonhou com isso?
Ritchie — Houve uma época em que eu gostaria de fazer sucesso na Inglaterra. Para os meus amigos, mas depois, o sucesso é sucesso em qualquer lugar. O importante para o músico é que sua música atinja as pessoas. Sempre quis cair na boca do povo, ver o gari da esquina cantando minha música. Isso para mim é a glória. E eu consegui isso. Sou totalmente realizado. Não tenho muito mais o quero da música fora ser feliz e gostar do que estou fazendo. E se eu sentir que não tenho nada a dizer vou ser o primeiro a saber. Não se preocupem que não vou fazer besteiras! [risos] Só vou fazer coisas boas daqui para frente. Não estou a fim de me aborrecer. Não tenho grandes expectativas, não quero. Claro que seria lindo se a primeira música de trabalho desse disco [n.e. Auto-fidelidade], “Lágrimas demais”, que fala assim, “Sonhos loucos podem acordar / Com você ao meu lado”… É um pouco isso o que penso. É um sonho louco que isso vai acontecer, mas tudo bem, o que vale é o trabalho. O sucesso é uma coisa muito efêmera. Sei porque passei por isso. Sei o que é o sucesso, sei o que é a fama. Isso nunca foi a meta. É uma conseqüência. É muito legal quando acontece, e também muito ruim. Há dois lados da moeda. Ele rouba toda sua privacidade, interfere na sua vida familiar e em uma série de coisas. E você, ou gosta disso ou não. Eu, particularmente, gostei daquela adrenalina do início, do reconhecimento, de ser parado na rua, mas depois de um certo tempo aquilo passou a ser uma invasão de privacidade. Então, não almejo mais a fama, o reconhecimento… A Fama! Vou para a casinha da Globo para ser famoso por nada. A fama tem que ser conseqüência de uma substância. O sucesso é bom, claro, porque é um reconhecimento do seu trabalho, mas a fama é uma faca de dois gumes. Não corro mais atrás disso. Já houve a época em que eu queria ser famoso, mas quando você é famoso logo percebe que aquilo não é nada. A fama não é feita pelo artista, é feita pela platéia. É bom para você conseguir um bom lugar num restaurante. Quero dizer, a maioria dos artistas que conheço são supertímidos. Engraçado esse negócio, esse paradoxo… Acho que pela própria timidez o artista tem que ter controle sobre sua obra para poder vencer sua timidez no palco. É uma coisa maluca.
Keka — É estranho isso, né?
Ritchie — Estranhíssimo.
Keka — A Cássia Eller era assim.
Ritchie — Cássia Eller era a pessoa mais tímida do mundo! O Peter Gabriel mal consegue articular duas palavras quando você vai conversar com ele. Parece um catatônico e é um artista impressionante, filantrópico. No palco é um monstro. É como se o palco fosse uma maneira dos artistas vencerem sua timidez e estar numa situação em que tudo está sob controle. Porque na vida social nunca está… Os tímidos se fortalecem quando têm controle e no palco é assim. Estou pensando isso agora, é uma sensação de poder, de domínio. Por um momento você é mais forte. Mas o engraçado é que o público vê o artista de uma forma, projeta tanta coisa em cima… O artista só existe na mente da sua platéia. É uma coisa muito louca essa de ser artista! Essa relação entre a platéia e o artista é muito legal, mas é cheia de nuances…
Monteiro — Imediatamente após você ter passado por essa fase [de sucesso], você não teve uma dificuldade para…
Ritchie — É, fiquei inseguro de novo. Voltaram todas as minhas inseguranças.
Monteiro — Antes de se aposentarem, os jogadores de basquete da NBA são treinados pelo menos 6 meses.
Ritchie — Uma preparação psicológica para você…
Monteiro — E como foi essa mudança pra você? “Não tenho mais o público, não tenho mais o palco.”
Ritchie — Isso, na verdade, nunca me incomodou porque me senti muito realizado artisticamente. Foi uma escolha. Achei que era hora de parar. E foi mesmo. Voltei somente agora porque me fizeram perceber que aquelas músicas que eu estava fazendo em casa, para o meu próprio prazer, mereciam ser ouvidas por outras pessoas. O Rafael [Ramos] conseguiu me convencer disso. O João Augusto também. Fiquei superfeliz porque agora tenho uma reação das pessoas, “Pô, Ritchie, seu disco me surpreendeu demais. É tão diferente do que você fez”. “Acho que é o seu melhor disco”. Ouço muito isso. É muito gratificante! Claro que a gente gosta de sentir o reconhecimento do trabalho. Isso é o que me dá muito prazer. Agora, não tenho essa ansiedade de estar na TV Globo e aparecer. Muito pelo contrário. Hoje em dia prefiro a coisa mais light., mais tranqüila. Mas tenho um lado dentro de mim que está sempre querendo mais alguma coisa. É um lado ambicioso. Sou muito inquieto, não posso ficar parado muito tempo, preciso sempre estar fazendo alguma coisa. A programação de Internet foi uma maneira de ocupar bem a cabeça toda hora do dia. Na verdade, não sei se foi uma maneira de esquecer… esquecer que não era mais artista. Foi uma maneira de conviver com isso ocupando a cabeça… E como ocupa a cabeça!
Tacioli — Você não fez show nesse período?
Ritchie — Não, nada. Parei completamente.
Tacioli — Mas havia convites?
Ritchie — Olha, fiz um show… Na verdade, fiz sim. Fiz shows em 1992. Tive uma idéia genial. [risos] Falei para algumas pessoas de gravadoras — o Liminha e outras pessoas assim. “Que tal a gente fazer o seguinte: gravar as minhas músicas com instrumentos acústicos?”. Então, montei uma banda em 92, o Ritz Café, formada por baixo acústico, flauta, violão, percussão. Fiz uns shows lá no Rio e ninguém das gravadoras achou que fosse dar certo. O Gil viu o show… O grande Gil, que em um dia, por alguma loucura, dedicou um disco a mim.
Keka — Qual?
Ritchie — Raça humana [n.e. Warner, 1984, cujos sucessos foram “Vamos fugir”, “Tempo Rei” e “Pessoa nefasta”]. Fiquei muito emocionado com isso. E ele veio a mim, “Vi seu show, gostei desse negócio de flauta, violão, baixo acústico. Posso?”. “Pode, claro!” E aí surgiu o acústico do Gil [n.e. Gilberto Gil unplugged, Warner, 1994, o primeiro Acústico MTV]. Não que fosse por minha causa, claro que não, mas é irônico o tanto que tentei empurrar essa idéia e ninguém se interessou. Logo em seguida, o Gil fez e depois todo mundo. Hoje, todos fizeram, menos eu! [risos] Agora não quero! [risos]
Keka — Você faria?
Ritchie — Agora não quero mais. [ri]
Monteiro — Mas não dá uma certa curiosidade ver como funcionariam aquelas músicas — “A vida tem dessas coisas”, “Pelo interfone” — em versão acústica?
Ritchie — Mas elas ficaram muito boas na versão acústica. E ficaram muito bem nesse formato tradicional de banda com baixo, bateria, guitarra, órgão Hammond, que é o formato desse novo disco. Então, estou ansioso para ver a reação do público. Se por um lado tem aquelas pessoas saudosistas que querem ouvir daquele jeito, e que podem se desapontar… No programa Altas Horas, do Serginho Groisman, testamos a versão de “Menina veneno” e foi maravilhoso. Uma platéia jovem que talvez nem a conhecesse…
Keka — Com a Érika, não foi? [n.e. Érika Martins, vocalista da banda baiana Penélope]
Ritchie — Isso, mas aquilo foi inventado na hora. Sempre inventam algo na hora. Estava tudo pronto e eles me falaram, “Só que inventamos uma coisa agora. Você vai cantar com a Érika!”. “Que Érika?”. “A Érika do Penélope!”. Fiquei pensando, “Não é aquela menina que tem voz de Paquita?” [risos] Ela é uma gracinha, um amor de pessoa. Chegou para mim, “Ritchie, sou muito, muito fã sua. É o maior prazer!”. Aí você vai dizer o quê, né? E foi uma gracinha, foi bonitinho [risos], mas foi um pouco… [risos] Ela tem aquela voz esganiçada, mas é uma gracinha. [risos] E eu adoro a Penélope, funciona muito bem, mas no “Menina veneno”… Achei muita coragem ela topar assim, porque não é uma música muito fácil de cantar. Não estou querendo dizer que somente eu sei cantar. Claro que não! Mas não é uma música fácil.
Keka — Eu sei, já tentei. [risos]
Ritchie — É a campeã dos karaokês, já reparou? [risos]
Tacioli — Você acha que o Zezé soube cantar “Menina veneno”? [n.e. Gravado pela dupla Zezé di Camargo & Luciano em álbum homônimo, Columbia/Sony, 1995, e regravada pelos mesmos em outros dois álbuns ao vivo]
Ritchie — Ele sabe cantar à moda dele, né? Foi muito engraçado. Olha, não tenho nada contra, acho somente que já conheço aquele arranjo de algum lugar. Prefiro o Ira! que fez uma coisa completamente diferente. O Miguel Plopsch deve ter falado, “Vamos pegar essa música, ‘Menina veneno’, pra Sony de novo e fazê-la igualzinho ao Ritchie, mas com o Zezé cantando!”. O solo do sax é idêntico, só que tem algo de errado, não sei… Não tem alma! Senti isso. A música está igual, com mesmo arranjo, cantada do mesmo jeito, mas ela não tem… Há algo que não me agrada ali e não é por eles. Acho que eles são ótimos no que fazem. Eu, pessoalmente, não gosto de música sertaneja, mas não vou ficar aqui criticando estilos que não são os meus. Agora, quando pegam minha música, gostaria de ouvir algo mais original. Uma cópia, xerox? Esse arranjo já existe. Sacanagem! Então, fiquei desapontando. Esperava mais deles. Poxa, mas foi lindo, né? Venderam 4 milhões de cópias. [risos] Maravilhoso. Foram o quê? Quatro discos… Amigos, amigos no palco, amigos no banheiro, amigos em todos os lugares… [risos] Isso foi lindo, foi superlegal. Financiou os meus projetos de Internet. [ri] Pude me dedicar a isso e me acomodar ainda dentro de casa, convivendo mais com minhas filhas. Lynn nasceu no início do meu sucesso e passei quase 1 ano na estrada. Mal presenciei o primeiro ano da vida dela. Senti que estava perdendo alguma coisa importante e foram legais esses 12 anos, porque agora a Lynn tem 17 e a Mary, 21. Mas foram elas que me deram o toque para voltar. [ri] “Pô, pai, vai trabalhar!” [risos]
Tacioli — Ritchie, estamos encerrando. Alguém tem mais alguma pergunta?
Keka — Ele estava com uma cara de pergunta. [risos]
Monteiro — O que você não faria novamente da fase pop? Ou que deveria ter feito e não fez?
Ritchie — Isso é difícil de dizer porque as coisas acontecem na minha vida de uma forma imprevista. Não há nada sobre meu controle. Tudo, pra mim, é uma grande corrida de montanha russa. Nunca soube muito bem o que estava acontecendo e fui acompanhando aquilo da maneira que soube. Sou uma pessoa muito intuitiva. Confio muito na minha intuição. Quando as coisas não dão certo, eu normalmente… Há malas que vão para Belém. [risos] Sempre penso assim, quando as coisas não acontecem é porque não eram para acontecer. Então, não tenho muitos arrependimentos. Só fico fascinado quando olho para trás e vejo essa trajetória maluca que tem sido a minha vida. Essa sorte que tenho em ter vindo morar nesse país maravilhoso e ter feito sucesso aqui. É uma coisa que agradeço todos os dias, porque sei que isso não é fácil. Tem gente tão competente… Não quero soar demagógico ou piegas com isso, mas é verdade… Tem gente muito talentosa que nem ao disco chega e muito menos ao sucesso que fiz. Sou uma pessoa muito sortuda. Eu não mudaria nada. Provavelmente faria as mesmas cagadas porque sou movido à intuição. Quando sinto que a coisa não está certa, falo. E quando sinto que as coisas estão certas, agradeço. Não tenho muito controle sobre minha vida, apesar de ser um pouco control freak quando vou ao palco. Gosto dessa situação de “Eu sei o que vou fazer, vocês não sabem!”. Sou ambicioso, mas não excessivamente ambicioso. Sou também muito comodista. Sou pisciano. Tudo que vai para lá, vem para cá também. Consigo ver os dois lados de quase tudo. Nesse sentido, prefiro, como diria o mestre Gil, “pousar no movimento”. É linda essa expressão! “Sou igual aquele passarinho que está pousado em uma tora de madeira descendo rio abaixo. Estou pousado no movimento”. É como eu me sinto.
Tacioli — Sua formação é erudita, de música sacra, foi flautista…
Ritchie — Na verdade, eu me ensinei flauta. Tomei aulas de oboé, clarinete… Como eu disse, nunca fui muito dedicado. Quando era para estudar clarinete, eu queria tocar guitarra. Sempre fui um pouco rebeldinho. Mas a flauta não foi ensinada.
Tacioli — É isso. Não sei se tem muito a ver, mas queria saber se já passou pela sua cabeça fazer uma sinfonia, como o Paul McCartney?
Ritchie — Fui em um astrólogo um dia desses e ele me disse que meu futuro era ser crooner de orquestra! [risos] Perguntei, “Você tem certeza?”. E ele, “Te vejo assim”. Que curioso, nunca me imaginei nessa situação. [ri]
Monteiro — Pode estar pintando então o Acústico MTV. [risos]
Ritchie — O Acústico MTV? [ri] Olha, tudo pode acontecer. Não sei o que a gravadora está pensando. Há uma cláusula no meu contrato que diz que um desses 3 discos que vou fazer será ao vivo.
Todos — Xiiiiiiiiiii. [risos]
Ritchie — Já viu, né? Mas vai acontecer, é natural. O João Augusto está louco para pegar esse catálogo para a Deck Disc. Sou editado pela Deck. Quero dizer, tenho minha própria editora, a Pop Songs, mas é administrada pela Deck. Mas seria legal. Eu poderia regravar “Menina veneno” em um disco ao vivo. No meio de uma série de músicas inéditas. Por que não, agora que exorcizei essa coisa da volta ao disco? Fiquei muito satisfeito com esse CD somente de inéditas. Vejo com bons olhos isso. Principalmente depois dos ensaios em que tenho tocado essas músicas. Tenho tentado trocar o vestido da Menina Veneno. Ela está bem, está bonita! Madura. Acho que se as pessoas ainda tem curiosidade, merecem ouvir. E por que não? O João [Augusto] merece também por ter apostado em mim. Acho que seria bonito fazer o próximo ao vivo. Não sei se seria acústico ou em outro formato, mas tenho vontade de gravar um disco ao vivo. O que eu queria mesmo era gravar um disco com músicas dos anos 60. “Days of pearly spencer”, do David McWilliams. Coisas obscuras assim. Sei que é meio cantar para as paredes, cantar pra mim mesmo, uma punheta musical, né? Mas tenho vontade de fazer alguma coisa nesse sentido. Porque, quando canto essas músicas, lembro-me de quem eu sou, de onde vim e o que me moveu a fazer música em primeiro lugar. Esse disco [Auto-Fidelidade] tem um pouco disso. É uma tentativa de buscar aquela emoção de ir à loja de discos aos sábados e comprar todos os discos da parada e as partituras para tocar ao violão. Foi um dos maiores prazeres da minha vida esses sábados de manhã. A novidade daquela música que está tocando, aquela sensação que uma boa música pop lhe dá. Não há profundidade, é cutânea, superficial, mas é um calor pelo corpo todo. Um ‘joie de vivre’ [alegria de viver]. Esse é o momento mágico que busco em minhas humildes canções. Queria que as pessoas sentissem, com a minha música, o prazer que senti ao ouvir Beatles. Quem sou eu? Mas é isso que busco. Essa é a minha ambição. Tenho uma vontade enorme de fazer um disco assim. Sei que, aqui no Brasil, precisaria ser em português. De repente, faço um disco com interpretações de grandes clássicos brasileiros, somente. Consigo me ver fazendo isso. Quem sabe até com orquestra. [risos]
Almeida — Não está tão distante, então.
Ritchie — Não, não. Acho que os sonhos se realizam e somos influenciados pelas coisas. Estava vendo outro dia essa música dos Titãs…
Keka — “Epitáfio”. [n.e. Composta por Sérgio Brito e gravada no álbum A melhor banda de todos os tempos da última semana, Abril Music, 2001]
Ritchie — “Epitáfio”. Estava lá numa sessão de fotos com eles e todos os outros indicados para o VMB. “Lágrimas demais”, meu primeiro clipe para a MTV, foi nomeado na categoria de melhor fotografia. Fiquei muito feliz com isso. Então, estava falando com o Paulo Miklos, “Parabéns pelo filme e tudo o mais. Muita coragem fazer essa música depois da morte do Marcelo [Fromer].” E ele disse que não, que o Marcelo Fromer havia ajudado na música, que foi feita antes. Aí começamos a falar sobre como a música é profética. E quando baixa aquela coisa, que ninguém sabe de onde. De repente, é uma mensagem do nosso subconsciente, ou uma previsão de alguma coisa. Pensando bem, há aquela música “Vôo de coração”, que fiz em 1982 quando eu ainda não tinha visto nada de informática. Tem os versos “E eu só no apartamento / Escrevendo memórias / No velho computador”. Caramba, cá estou eu com dois Ataris aposentados no meu estúdio [risos], uma coleção de Macintoshes e vivendo disso. O que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Estou propenso a fazer isso por causa da música, ou a música surgiu de uma vontade minha em fazer isso. Na época eu nem sabia direito o que era um computador. A idéia do computador pessoal era uma coisa louca. Ninguém tinha. É engraçado como a gente é influenciado pelas idéias que surgem na nossa vida, e uma delas pode ser isso. Quem sabe eu acabe cantando com orquestra somente por curiosidade, porque foi uma coisa tão inusitada que o cara falou.
Keka — Olha que os astrólogos e as cartomantes influenciam também!
Ritchie — Influenciam. Claro, claro. E eu não sou nada esotérico. Sou desconfiado dessas coisas todas, mas tenho também um lado místico. Acho que a música é uma experiência mística. Sinto que é uma coisa fora do controle da gente. A inspiração e a linguagem dos sonhos… A gente sonha com as coisas e elas acontecem também. Todo mundo tem isso. Com minha mulher acontece quase que diariamente, a ponto de falar que vai encontrar com fulano porque sonhou com ele e, invariavelmente, acontece assim. E a gente sabe que os sonhos não são assim. Quando se sonha com alguém é com você mesmo. Mas com ela é diferente. Então, acho que tem coisas que estão muito além, coisas que a gente não compreende muito bem. Às vezes, nossa vida é regida por idéias e sonhos que são plantados na cabeça da gente. Às vezes, não são nossos sonhos, são aspirações dos outros que acabam nos influenciando de alguma forma. Não sei, é uma curiosidade da vida.
Tacioli — Ritchie…
Ritchie — Tá bom, já cansou. Daqui a pouco vou começar a falar besteira mesmo, hein? [risos]
Tacioli –Se deixar, nós não paramos mais. [risos]
Ritchie — E se me deixam falar, então… Já esgotei meu repertório.
Keka — Você deve estar morrendo de fome.
Ritchie — Mas acho que está muito bom.
Tacioli — Muito obrigado.
Ritchie — Pô, foi um barato. Adorei esse papo, uma entrevista assim… Não sei a quantas mãos… É diferente, né? E o site está muito bacana.
Monteiro — Se você quiser dar umas sugestões…
Ritchie — Ah, imagina. [risos] Acho que está tudo certo. O enfoque… Vocês têm um enfoque da música mais tradicional ou não, necessariamente?
Tacioli — O único recorte é a música brasileira.
Ritchie — Então sou um estranho no ninho.
Tacioli — Não, é música feita no Brasil.
Ritchie — Ah, pronto. Sou um artista brasileiro. Sou mesmo.
Tacioli — Quando tiver umas 40 entrevistas no ar e as pessoas forem ler, poderão compreender um pouco dos vários momentos da produção musical no Brasil. É isso que a gente acha interessante.
Ritchie — Claro.
Monteiro — O que a gente tenta, humildemente, fazer também é justamente isso. Não quero falar com o Ritchie que está lançando o Auto-fidelidade. Você é maior que o disco. [risos]
Ritchie — Legal isso, porque estou dando somente entrevistas sobre o disco, disco, disco. E é muito mais legal quando você tem uma oportunidade de viajar um pouquinho. Pensar, analisar as coisas de uma forma mais objetiva, menos de produto, vendas e tocar no rádio. É tudo meio chatinho. Adorei essa entrevista. Bem diferente de todas que tenho feito. [ri]
Tacioli — Bacana. Obrigado pela oportunidade.
Keka — Posso pegar uma batatinha? [risos]
Ritchie — Por favor. Mas está horrivelmente fria.
Keka — Ia lhe perguntar antes, mas é que bateu uma fome agora.
Ritchie — Você quer um sanduíche ou uma coisa assim?
Keka — Não. A gente vai sair e eu como.
Monteiro — Ritchie, “Vôo do coração” foi responsável pela minha primeira conquista amorosa?
Ritchie — Ah, então fui bem-sucedido!
Monteiro — Foi na roda-gigante de uma parque de diversões. Eu estava apaixonado por uma menina, mas não havia gancho. Já havia comprado o vinil e sabia todas as músicas de cor.
Ritchie — “Vôo do coração” é tiro e queda! [risos]
Monteiro — E ela, “Ouvi uma música linda tocando no rádio, mas eu não sei a letra”. Opa, “Eu sei a letra!”. Aí fui cantando a música e ela foi anotando. E lá no parque de diversões, qual música estava tocando no auto-falante?
Ritchie — Tá brincando?!
Monteiro — [cantarola a introdução] Já era! [risos]
Ritchie — São as coincidências da vida. Steve Hackett na guitarra. Solo sensacional! Ele disse que foi o melhor solo que já fez. “Nunca fiz um solo tão inspirado”, ele disse.
Monteiro — Sabe que eu gravava isso em K-7 e ficava ouvindo o solo várias vezes.
Ritchie — É muito bom mesmo. O Marcelo [Sussekind] está tentando tirá-lo, mas ele não sabe que o Steve gravou a guitarra seis vezes dobrada. Igual, igual, mas é tudo dobrado. Quero dizer, tem duas partes, mas cada uma delas ele gravou seis vezes numa mesa de 8 canais!
Roger — Ah, foram seis somados! Não foram seis takes.
Ritchie — Foram seis somados pra fazer aquela massa sonora. É impressionante! O Steve tem umas coisas muito engraçadas. A gente estava no estúdio para gravar “Meantime”, que é um poema do Fernando Pessoa [lançado em Loucura & mágica, PolyGram, 1987], que gravei em 1980 e não-sei-quantos. Ele ia fazer as guitarras. Estava lá no estúdio. Todos em volta dele para ouvir a guitarra, o som. Aí ele, “Quando vocês acharem que está bom, falem”. Imagina. “Tá bom, tá bom!” “Então, pode microfonar”. Aí veio o técnico com o microfone junto ao amplificador. “Não, não, o microfone tem que estar aqui, onde está o meu ouvido”. [risos] Nunca vi microfonarem assim! O amplificador estava ali, mas pra ele o som estava bom em outro lugar. Sonzaço!