SÉRGIO RICARDO [2008]

Ele desenhou uma carreira de muitas vias: TV, cinema, teatro, pintura e música.

Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Garoto em Marília, cidade do interior de São Paulo, João Mansur se divertia em escapar dos cafezais simétricos antes do escurecer. Anos mais tarde, para encarar outros labirintos, adotou um nome de guerra: Sérgio Ricardo.

No Rio de Janeiro desde a década de 1950, o pianista fã dos cantores do rádio e das músicas românticas desenhou uma carreira de muitas vias: TV, cinema, teatro e música.

No entanto, é sempre lembrado por sua participação no II Festival de Música Popular (TV Record, 1967). Vaiado por modificar o arranjo da canção finalista “Beto bom de bola”, arrebentou seu violão numa banqueta e o arremessou sobre a plateia.

Antes disso, Sérgio Ricardo já era grife. Havia criado as trilhas sonoras dos dois filmes emblemáticos de Glauber Rocha (Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe), atuado em novelas, participado do Festival de Bossa Nova no Carnegie Hall, dirigido dois filmes e gravado sete discos, o primeiro em 1958, Dançante nº 1.

E depois também não parou. Escreveu três livros, assinou outras trilhas sonoras, dirigiu dois longas, partiu para a pintura e lançou nove discos. O mais recente é Ponto de partida, apresentado ao público em 2008. Foi nesse momento que a viatura do Gafieiras emparelhou com a do artista.

A entrevista publicada quatro anos e meio depois teve três capítulos. Os dois primeiros foram de tentativas. Um dia antes do show no Teatro FECAP, um contratempo em sua agenda fez a equipe recolher seus equipamentos do hotel onde estava hospedado. No dia seguinte, numa antessala do teatro, Sérgio Ricardo garantiu que falar por mais de uma hora prejudicaria sua voz. Mas assumiu um compromisso: o próximo encontro seria no apartamento de seu primo, na Vila Mariana.

Dito e feito. Ali comentou sua primeira decepção amorosa, a amizade com João Gilberto e seu engajamento com a favela do Vigidal. Intencionalmente, a entrevista abdicou dois temas bem sinalizados de sua vida: o violão quebrado e Glauber Rocha. Em quase duas horas de conversa, Sérgio Ricardo fumou, gargalhou, entregou mágoas, ansiedades e uma certeza: do alto de seus 76 anos de idade, faria tudo de novo, do mesmo jeito e pelos mesmos caminhos.



{…} expediente

entrevistadores Dafne Sampaio, Daniel Almeida, Giovanni Cirino e Ricardo Tacioli 
transcrição Jairo Fajersztajn 
produção, edição de texto e texto de abertura Ricardo Tacioli 
Fotos Jefferson Dias 
Agradecimentos Daniela Camargo e Sergio Mansur Andalaft

Entrevista realizada em São Paulo/SP em 21 de outubro de 2008.


[ Enquanto a equipe do Gafieiras prepara e posiciona os equipamentos… ]

Sérgio Ricardo — (…) Lutfi, exatamente. Foi o dia em que tive de mudar porque tá o Lufti aí, que não é Lufti, é Lutfi! Tem que explicar toda hora essa porra! É foda! [ risos ] Aí inventamos o outro nome, não tinha nada a ver, e virou Sérgio Ricardo. Meu pai ficou puto, mas tudo bem.
Ricardo Tacioli — Você gostou, Sérgio?
Sérgio Ricardo — Do nome? O nome estava pouco me interessando, eu queria era aparecer na televisão. Se fosse Benedito da Silva também eu tava topando. E foi assim. E uma coisa foi puxando outra: a televisão me puxou pro cinema, porque comecei a fazer umas brincadeiras de produção ali, e dali a pouco estava produzindo programa de televisão, além de ser ator… Fiz novela pra caralho, fui ator de uma porrada de coisa. Mas aí começou a me bater a vontade de fazer filme. Fiz o primeiro [ n.e. Menino da calça branca, curta-metragem, 22 min, p&b, 1961 ] e agradou pra burro; foi prum festival em São Francisco, na Califórnia, e tirou segundo lugar. Digo: “Porra, primeiro filme já pega festival internacional pela frente? Então, vou por aí também!”. E fui, rapaz! E pintar eu já pintava no colégio, desde criança, além do piano que eu estudava. Eu era o melhor aluno de desenho da turma, só tirava dez, era um vexame! A mão pra desenho puxei do meu pai, que foi escultor. “Caralho, então tem tudo aí!”A pintura eu deixei pra velhice. Era agora que eu queria estar pintando, mas vem a minha filha e me puxa de volta. Se me puxarem pro cinema é que eu não sei, mas tem dois filmes aí pra fazer.
Dafne Sampaio — Cinema é um negócio mais trabalhoso.
Sérgio Ricardo — Trabalhoso demais, levantar às seis horas da manhã e encarar uma equipe pela frente, faz isso, faz aquilo. Se for uma coisa muito bem organizada de produção, que tem assistente suficiente pra poder não precisar levantar da cadeira, aí tá certo. Mas no Brasil é difícil, você tem que ter saúde pra isso.
Tacioli — Sérgio, o livro tem momentos… [ n.e. Quem quebrou meu violão, de Sérgio Ricardo, Ed. Record, 1991 ]
Sérgio Ricardo — Vocês não estão gravando, não, pô?!
Daniel Almeida — Aqui tá.
Sérgio Ricardo — Ah, tá?!
Daniel Almeida — Aqui tá. Já tá rolando.
Sérgio Ricardo — Ah, já tá rolando?
Tacioli — Aqui é assim, quando você menos espera… [ risos ]
Sérgio Ricardo — Então eu vou puxar um cigarro.
Dafne — Então eu também vou.
Tacioli — Sérgio, tem um momento no livro em que você está nos Estados Unidos e cita a “Dona Sorte”. Não sei se era uma ironia ou se era isso mesmo que você contou: “Comecei o negócio e, pá, sucesso! Outra: pá! Sucesso!”. Mas você duvida dessa sorte: se era um problema ter pintado tantas coisas e não ter ficado com nenhuma delas…
Sérgio Ricardo –
Pois é, esse é um caso, porque no final das coisas fica parecendo que eu ensaiei tudo, só virei ensaísta em todas as obras, em todas as artes. Mas o caso é que o trabalho que fiz com arte, em todos os cantos em que eu operei, as coisas colaram. As coisas tiveram sua resposta de obra resolvida. Até em pintura que eu não acreditava que viesse acontecer, mas foi só eu começar a pintar para aparecerem várias exposições. Aí não foi só porque eu era o Sérgio Ricardo, não… Em artes plásticas não existe esse negócio: você é o que é mesmo, se você é bom, se você é palhaço, se não é não adianta ser o Zé das Couves que não resolve. Mas foi assim. Se tivesse me fixado numa coisa só, como fez o grande João Gilberto, que só quis saber do violão e da voz, nem compor. Ele fez umas duas ou três músicas e fim de papo, ficou naquilo, naquela voz pequena, naquela surdina pra não estragar a voz e num violão extraordinário. Isso é uma coisa que a minha inquietação não permitiria; sou muito inquieto pra poder ficar numa coisa só, tenho uma curiosidade muito grande sobre a criação. Sou mais o criador do que o intérprete, tenho que admitir. Sou mais escrevendo do que o ator, sou mais o compositor do que o cantor ou instrumentista, embora eu tenha um piano que considero, e outras pessoas concordam com isso, que o meu piano é muito bom. Gosto do meu piano, mas ele não atinge a altura do meu grau como compositor. Na verdade, sou mais o criador do que o intérprete. Como na pintura você alia tudo ao mesmo tempo, sendo o intérprete e o criador, aí já não sei o que é melhor ser: ou a ideia que coloquei ali ou essa da pintura sendo executada, entendeu?

Telas de Sérgio Ricardo da série Artistas de rua. Imagens: Reprodução

Dafne — Imagino que cada um dos meios, das mídias, das coisas que você fez e se meteu, tenham dado prazeres distintos…
Sérgio Ricardo 
— Todos eles deram um prazer incrível. Não há uma grande mágica em tudo isso, não; todas as artes são irmãs, cara! Da pintura, você tem melodia, que é o traço; você tem harmonia, como a própria palavra diz, que é harmonizar as cores; tem o ritmo porque se você não tiver ritmo na pintura, no pincel, no jeito em que você pinta, você estraga o quadro. Então, uma boa tela tem que ter um ritmo, assim como no teatro: o ator tem que ter uma melodia bonita, ou seja, uma voz bonita; tem que ter uma harmonia pra poder saber como é que se harmoniza com os outros personagens; tem que ter o ritmo, que é o ritmo da fala para cada cena. Toda arte tem harmonia, melodia e ritmo, mesmo que traduzidas em outras palavras, entendeu?
Dafne — Então tudo é música, né?
Sérgio Ricardo 
— Tudo é música, no fundo, tudo é música. Então, se você domina a linguagem musical — que é engraçada porque não é com palavras, não é com letras, é com bolinhas –, você domina as outras artes, se quiser, se tiver um “pendor”, um pouco de talento praquilo, né?! Mas não é uma coisa difícil se você é músico, você consegue se subdividir em outras funções. Aliás, não sou somente eu, existem muitos músicos que são outras coisas; há vários pintores que são músicos.
Tacioli — Mas você chegou a sofrer algum tipo de cobrança “Ah, o Sérgio Ricardo é músico e agora está se metendo no cinema!”?
Sérgio Ricardo 
— Não! Se fosse nos Estados Unidos eu estava frito. Parece que somente o Chaplin conseguiu fazer várias coisas… Ou você é cineasta ou você é compositor ou você é cantor. Você escolhe o que você quer ser.
Almeida — Porque você não faz nada bem…
Sérgio Ricardo 
— É, não faz nada bem, mas o problema não é no fazer, é no aparecer, é no ser depois. O empresário não te pega com você sendo várias coisas: ele vai querer que você seja o cantor que ele está querendo vender. Se você disser “Não, mas eu pinto também”, (ele rebate) “Não me interessa, cara, o meu metier é a música. Tenho que te vender como cantor”. É por isso que eu até hoje nunca tive empresário. Os caras ficam “Pô, mas o que você quer fazer, afinal?”.
Tacioli — No Brasil?
Sérgio Ricardo 
— É, no Brasil também tem esse problema. Agora, só que aqui não existe empresário, empresário aqui é todo improvisado, é o amigo. Por exemplo: o Chico Buarque tem um belo empresário. Foi improviso que ele fez com amigo dele do colégio. Ele chegou e disse: “Pô, você não quer ser meu empresário?”. E ele (Vinicius França) disse: “Quero!”. Então passou a ser o empresário do Chico e é um belo de um empresário. Não sei dele empresariando outras pessoas. O Vinicius é uma grande pessoa, por sinal. Mas é assim, a coisa é na base do improviso. Agora, os profissionais, os empresários profissionais, que também existem vários deles… Amanhã vou falar com um deles, que é o Rossi… Ô meu Deus, como é?! [ risos ] Já começou… Hein?
Sérgio — [ Da sala de jantar, o primo de Sérgio Ricardo fala o nome do empresário ] — Fred!
Sérgio Ricardo 
— Fred Rossi! Obrigado! [ risos ]
Sérgio — Estou aqui como ponto.
Sérgio Ricardo 
— Como é?
Almeida — Ele está como ponto seu, vai soprando…
Sérgio Ricardo 
— Legal. [ risos ] Ainda bem que eu só errei agora, hein!
Almeida — Você foi prejudicado por não ter escolhido um caminho?
Sérgio Ricardo — Fui, fui prejudicado.
Almeida — Qual foi o prejuízo?
Sérgio Ricardo — O prejuízo foi exatamente esse, por exemplo, eu poderia ter sido ator o resto da vida e hoje seria um sei lá…
Almeida — Um Tarcísio Meira?
Sérgio Ricardo — Um Tarcísio Meira? Um Tarcísio Meira, não! [ risos ]
Dafne — Um Lima Duarte?
Sérgio Ricardo — Um Lima Duarte! Eu poderia ser um Lima Duarte, entendeu? Tarcísio Meira é muito bigui…
Almeida — Qual era a sua linha de ator?
Sérgio Ricardo — Era de galã mesmo, era de galã.
Almeida — Ficava com a moça mais bonita…
Sérgio Ricardo — É, ficava com a moça mais bonitinha, também não era garoto, tinha a idade de vocês.
Almeida — Porque o Lima Duarte ficou uma coisa meio engraçada…
Sérgio Ricardo — É, ficou meio caricato. Não, não é bem caricato, ele fazia tipos, mas é um excelente ator. Lima Duarte é um geniozinho. Agora, é essa coisa: mesmo que fosse só pra ficar só cantando, pô, eu hoje estaria bem… E tem também os outros dados: a chamada rebeldia me atrapalhou um pouco, que foi o negócio no meio político, porque eu poderia ter continuado o meu sucesso, inclusive eu era do primeiro time das pessoas de sucesso no tempo de bossa nova. E eu comecei a rejeitar a própria bossa nova. Então já começou o problema por aí. Aí comecei a fazer música política e na música política veio a censura e me proibiu. Isso tudo me prejudicou. E as minhas declarações também eram radicais. Sobre esse aspecto houve um problema de impedimento; por outro lado, essa coisa da diversidade de profissões, porque, às vezes, eu terminava um disco, e na hora de começar a fazer o show do disco, fazer isso que eu tô fazendo agora com esse disco que saiu [ n.e. Ponto de partida, Biscoito Fino, 2008 ], e eu não fazia porque tinha um filme pra fazer. Eu já estava comprometido com o filme. Aí largava o disco pra lá e ia fazer o filme. É aí que o empresário ficava uma fera e falava “Com esse cara não dá pra trabalhar”. Essa rebeldia e essa diversificação me atrapalharam muito.
Tacioli — Mas você já preparou o discurso para a reunião amanhã com o empresário, não?
Sérgio Ricardo — Já tá… Não, ele foi assistir ao show. Ele é um empresário da minha época. É o Fred Rossi. Ele mesmo já deixou de fazer trabalhos comigo exatamente por isso, porque não sabia se eu estava no cinema, se eu estava no teatro, se estava na música. Então pegou outros caras pra trabalhar. Agora ele tá achando que eu tô querendo entrar nos eixos [ risos ], mas deve estar com o rabo atrás, deve estar de cabelo em pé mesmo. Essa é a coisa básica da atrapalhação da minha vida.
Tacioli — Mas você se arrepende com relação à rebeldia?
Sérgio Ricardo — Não, não, não, não me arrependo de nada, sinceramente, de nada do que fiz eu me arrependo, nem dessa polivalência do meu trabalho, porque em todas as artes em que eu me meti fiz com o coração mesmo, entendeu? Fiz com uma entrega total, não foi de brincadeira. Porque há quem faça isso pra poder se mostrar, “gênios” que fazem várias coisas; o meu negócio não era bem por aí, era uma vontade mesmo… Sou muito liberto, desde garoto sou assim. Levava surra de rabo de tatu da minha mãe. Não era brincadeira, não! Eu era o único da família que apanhava, porque era rebelde mesmo, a ponto de um dia dizer “Olha, chega desse negócio de surra!” e ir pro meio da rua e ficar entre os automóveis. E ela: “Pelo amor de Deus, saí daí!”. “Só se parar com esse negócio!” Aí ela parou de me bater porque já não dava mais pra ela, eu já estava crescidinho, podia me aborrecer e…
Tacioli — Você se lembra de alguma peraltice?
Sérgio Ricardo — Pô, várias. [ risos ]
Tacioli — Então diga uma…
Almeida — Aquela notória.
Sérgio Ricardo — Bom, agora assim, pra lembrar um caso.
Almeida — Essa aí que te deu nas tampas e…
Sérgio Ricardo — Ah! Eu adorava me perder no cafezal. Morava em Marília e tinha aquele cafezal imenso, vários hectares de plantação de café, e você sabe que o cafezal é uma coisa simétrica.
Almeida — Os corredores…
Sérgio Ricardo — Você tem uma linha aqui, um corredor aqui, agora tem um outro aqui enviezado e tem um outro enviezado ali. São seis caminhos, sete, oito caminhos, né? Se você está num ponto, você tem oito possibilidades. Bom, eu chegava e ia andar pelo meio. Aí o pessoal que estava comigo, sempre a garotada: “Ó, hoje eu vou voltar daqui, hein?!”. Nessa época (me chamavam de) João. “Ô, João, vou voltar daqui, porque eu não tô entendendo mais nada”. “Tá bom, então você volta!” e eu seguia. E seguia mesmo porque eu adorava me meter no meio daquele cafezal. De repente, eu olhava e dizia: “Porra, realmente tá fogo aqui!”. [ risos ] Na hora de voltar começou a escurecer. “Putz, como vou resolver esse assunto?!”. Aí a minha solução foi ver de onde vinha a fumaça das chaminés, porque era da cidade. Olhava para o céu para ver de onde pintava fumacinha. Descobria que era por ali, pelo menos descobria o norte e voltava por aquela reta. Nunca aconteceu de dar em outra cidade… [ risos ]
Tacioli — Se mudasse o vento!
Sérgio Ricardo — Mas eu conseguia voltar pra casa. Às vezes me perdia e voltava tarde. Outra loucura de garoto que a gente fazia: eu morava em São Paulo, aqui na Vila Mariana, ali na Rua Afonso Celso, não sei se vocês conhecem, perto da Domingos de Moraes. Eu vivia pegando bonde andando. Bonde andando era comigo mesmo; descer de bonde andando… Já me esborrachei algumas vezes, pensava que já dava pra pular e pulava. Vocês não pegaram essa época de bonde.
Almeida — Bonde, não!
Sérgio Ricardo — Mas aquilo era uma temeridade, porque o bonde vinha e você “Vapt!” se agarrava ao bonde! E se não soubesse o traquejo da montada podia ser atropelado pelo bonde. E vinha o cobrador correndo atrás do moleque pelo estribo do bonde — porque a gente andava pelo estribo. A gente já sabia que não ia pagar o bonde porque não tinha dinheiro, então na hora que ele via, a gente corria, atravessava bancos — geralmente com o bonde vazio no horário de almoço — e descia correndo e me esparramava no chão. Era uma loucura! Isso é uma coisa que eu estou lembrando, agora, mas há várias. Nessa época a garotada da pelada saia em bando da Vila Mariana até o aeroporto (de Congonhas) a pé. Não tinham esses edifícios, não. Era mil duzentos e não-sei-quando. [ risos ] Aquilo era uma selva. Eu passava pelo mato pra chegar até o aeroporto. Acabávamos descobrindo as quebradas e chegávamos ao aeroporto.
Tacioli — Só olhando a fumacinha ali.
Sérgio Ricardo — É! [ risos ] Ali era avião, mas dava pra ver onde o avião estava subindo: “Ó, avião tá ali, então é pra lá que a gente vai” e íamos até o aeroporto a pé e voltava. Na volta tinha uma piscina — pra nós era uma piscina, mas era uma poça d’água gigantesca que não sei pra que era usada — e gente nadava naquele negócio. Era uma loucura! E ainda brigas no meio do caminho quando aparecia um bando daquela região, briga de molecada. Peraltice era o que não faltava mesmo!
Tacioli — No domingo você disse que, depois que saiu de Marília, você voltou pra lá quatro vezes apenas. Que imagens você guarda de Marília?
Sérgio Ricardo — Marília é o paraíso da minha infância. É lá que tinha os cafezais. E eu fiquei por lá até os 17 anos. Fiz o grupo escolar, tive uma interrupção no meio — no começo da minha vida, aos oito anos de idade, eu sofria de bronquite asmática, e vim morar em São Paulo por ordem médica. Aí, o Tio Paulo arrumou um colégio pra mim, o Sírio Libanês, na Avenida Paulista, que já não existe mais. Passo por ali, perto do Trianon, e fico morrendo de saudade do colégio, porque era uma beleza. Já aos oito anos pulava muro do colégio… Bom, mas aí fiquei interno um ano ali e depois voltei pra Marília de novo. E, aos 14 anos, voltamos pra São Paulo, porque meu pai tinha conseguido uma transação comercial, tinha uma fábrica de seda em Marília e ele se tornou em representante da fábrica em São Paulo. Moramos aqui por uns dois ou três anos. Isso foi na época da Guerra. Assisti até a volta dos pracinhas da Segunda Guerra. Foi uma coisa cômica e muito interessante.
Almeida — Achei que você ia falar “comovente”…
Sérgio Ricardo — Não, comovente pra burro, muito comovente, mas cômico ao mesmo tempo porque era aquela italianada esperando os filhos voltarem… Aí apareciam os caminhões do Exército com os meninos em cima, com os soldados procurando pelos seus familiares pra ver se encontrava no meio da (multidão) e quando um via um familiar saltava do carro… Vinha e se abraçava. Era uma coisa! Tinha gente que desmaiava, era meio engraçado, mas muito comovente. Parecia filme de neo-realismo italiano. Um barato! Nessa época que eu ia e vinha do aeroporto… Até uma cena muito engraçada: aqui em São Paulo, na (rua) Afonso Celso, em frente da minha casa, tinha um campo de futebol chamado Ás de Ouro… Tinha um muro e um colégio. A gente jogava lá quando o Ás de Ouro não jogava. A gente entrava e fazia nossas peladas lá dentro. E um belo dia eu estava sentado nesse muro, pensando num dever do colégio que deveria estar fazendo e não estava e, de repente, uma bola veio na minha cabeça. Eu caí, mas foi um tombo bonito, viu? Ficou todo mundo rindo. Foi a coisa mais grotesca que aconteceu na minha vida: levei um tombo do muro e me esparramei todo. Isso é muito engraçado. Aí começaram a calçar a rua com paralelepípedos. Nesse dia eu vi que o nosso campinho particular de pelada na rua estava se desfazendo. A gente insistia em jogar bola sobre o calçamento — que não tinha mais graça, jogar futebol em cima de paralelepípedos é horroroso — mesmo com o passar os carros. Um dia minha mãe viu eu quase sendo pego por um automóvel e chegou lá com um facão de cozinha e furou a bola. [ risos ]
Tacioli — Você era um craque?
Sérgio Ricardo — Era um goleiro bom pra caramba, me atirava, rapaz, era uma loucura.
Tacioli — Ainda bem que você não se meteu…
Sérgio Ricardo — Ainda bem que não levei essa à frente. [ risos ]
Giovanni Cirino — Senão seria mais uma…
Sérgio Ricardo — Não, essa não deu para levar à frente, não!
Tacioli — Seria um Julio Iglesias! [ n.e. Cantor romântico espanhol que defendeu na adolescência as metas do Real Madrid ]
Almeida — E quais são suas lembranças musicais de Marília?
Sérgio Ricardo — Depois que voltei do colégio interno, com uns oito anos de idade, comecei a estudar música, e lá pelas tantas o meu estudo era um pouco arrevesado porque não tínhamos piano em casa. Então, eu tinha que estudar no conservatório. Tinha lá um piano. Eu me fechava numa casinhola com piano lá dentro e ficava estudando, estudando… E aí, em vez de estudar mesmo, eu ficava tirando músicas de ouvido, entendeu? Foi isso que me levou à música popular, mas mesmo assim tocava ainda lá meus classicozinhos e tal. E, aos 16 anos, mais ou menos, eu já estava tocando de cor a “Dança ritual do fogo” [ n.e. Um dos clássicos do compositor erudito espanhol Manuel de Falla, 1876–1946 ]. Aí virei um sucesso em Marília. Qualquer festinha de garotada: “Não, não, vai tocar aquele piano lá!” e lá ia eu tocar ao piano a “Dança ritual do fogo”. Tinha uns erros ali no meio, mas ninguém percebia nada.
Tacioli — Fazia sucesso com a mulherada?
Sérgio Ricardo — Com a mulherada, não, mas tinha uma garota que acabou virando minha namoradinha, mas eu tenho a impressão que ela me fez limão, sabe? Porque foi minha primeira namorada aos 16 pra 17 anos, e eu, rapaz, comecei a emagrecer de paixão pela garota. Mas eu tava que não comia mais, não pensava em mais nada. O padre do colégio vinha e “Olha, você precisa parar com esse namoro!” porque minha mãe ia se queixar pro colégio. Era uma coisa, todo mundo contra aquele namoro. E a menina era um barato, era linda pra cacete. Mas eu me atrapalhei com aquela história… Aí meus pais olharam e “Esse cara precisa sair de Marília se não ele vai morrer”. [ risos ] Emagrecendo demais, tava que eu não comia nada, só pensava na pobre da menina, mas ela não me dava nem um beijo, cara! Era aquele encontro platônico… Nem encostar nela e ainda me fazia assobiar “La cumparsita” [ risos ], que deveria ser o tema do namoro dela com o outro menino. Eu não sabia disso, pensava que ela adorava me ver assobiar porque eu era bom de assobiar. Mas não era por causa disso.
Almeida — Você conseguiria dar uma palinha do assobio?
Sérgio Ricardo — Não, não consigo, nem sei assobiar mais; acho que até por recusa.
Almeida — Trauma!
Tacioli — Você disse que tocava alguns temas populares quando começou.

Sérgio Ricardo — É, “La cumparsita”… Acho que foi por isso que ela se apaixonou por mim. Meu pai falou que não, ela admitiu que eu podia ficar perto dela, que é bem diferente. Ela foi o meu primeiro amor da minha vida, mas eu fui o limão. É engraçado! Eu tocava “Tico-Tico no Fubá”, “La cumparsita”, os tangos da época que eram muito famosos, como “Mano a mano”. O que mais, meu Deus do céu?! Ah, sim, tinham umas canções que minha mãe cantava que era bonitas: [ canta ] “Noite alta / Céu risonho / A quietude é quase um sonho” [ n.e. “Noite cheia de estrelas”, tango de Cândido das Neves, o Índio, lançada em 1954 por Vicente Celestino e gravada por nomes como o de Nelson Gonçalves, Evaldo Braga e Paulo Sérgio ]. É bonito, é do Catulo da Paixão Cearense. (…) Acho que não é dele, não! É de um outro cantor da época que tinha uma voz esgarniçada, como a do… (…) Eu esqueço os nomes! Foi eu que lancei o cara, isso é que é engraçado; caramba, como é que pode?! Ponto! [ clama o auxílio do primo ] [ risos ] O ponto não sabe essa! Bom, então vou lembrar só porque preciso lembrar! (…) Fagner! [ canta imitando o estilo do cantor e compositor cearense ] Ele puxou esse cantor! Aliás, ele deve ter se baseado nele pra ter aquela voz bonita. Enfim, essas músicas da época, “Aquarela do Brasil”…
Tacioli — Você tinha um ídolo da infância?
Sérgio Ricardo — Ídolo? Era Luiz Gonzaga, Orlando Silva…
Almeida — O pessoal do rádio?
Sérgio Ricardo — Do rádio! Eu gostava muito das músicas orquestrais que tocavam na Rádio Nacional, que lá pegava muito bem, como Lyrio Panicalli, Radamés Gnattali. Eu ficava vidrado nas coisas mais elaboradas. Ouvia muito Garoto tocando violão; era um excelente compositor.
Almeida — Cinema tinha em Marília?
Sérgio Ricardo — Tinha cinema, as domingueiras em Marília eram engraçadas, e aquelas matinês do Cine Cruzeiro. Um dia eu e outro moleque roubamos da porta do cinema as fotografias de umas mulheres. Aproveitamos que ninguém estava por perto e tiramos aqueles preguinhos, aqueles grampos, e levamos as fotos embora. Só que elas ficaram comigo, mas eu tinha esquecido disso. Aí fui pro colégio — porque foi na ida pro colégio que a gente roubou as fotos — e na volta todo mundo veio dizendo que ia passar no Cine Cruzeiro porque tinha descoberto quem havia roubado as fotografias. Mas como eu sabia que ninguém sabia que era eu (“o ladrão das fotos”), fui no grupo pra ver quem era o coitado. [ risos ] Aí, quando chegou na hora, a turma toda sabia que era eu! Só na hora me delataram! Fiquei com a cara no chão. (As fotos) estavam na minha bolsa, que vergonha! Nunca mais roubei nada de ninguém.
Almeida — Você se lembra do filme?
Sérgio Ricardo — Não me lembro, mas devia ser Tarzan…
Tacioli — No cinema tinha de comprar ingressos para a próxima sessão, do capítulo seguinte, não?
Sérgio Ricardo — Pois é, tem esse negócio do filme em série né? Eu via muito Flash Gordon, Zorro… Capitão Marvel, mas esse era de um gibi…
Almeida — Você lembra do primeiro filme que assistiu no cinema?
Sérgio Ricardo — Era mudo e não tenho a menor ideia de que filme era aquele.
Almeida — Tinha piano tocado ao vivo?
Sérgio Ricardo — Não, não tinha, não! O chato disso é que em Marília ainda não tinha chegado um pianista pra fazer o trabalho; era todo mundo sentado olhando uma coisa muda, totalmente muda, só imagem, imagem, imagem, e eu me deliciava com aquilo, não entendia nada. Via o homem beijando a mulher, aquelas coisas, corre corre, muita comédia… As comédias eram boas porque não precisavam de palavras, as cenas é que contavam, principalmente as do Chaplin. Nem me lembro se eram (os filmes do) Chaplin, não tenho ideia.
Tacioli — O que ainda te fascina no cinema, Sérgio?
Sérgio Ricardo — Bom, gosto do cinema mais intelectualizado mesmo; essa coisa americana eu não gosto, não. Até sou obrigado a ver de vez em quando porque não tem o que fazer e é a única coisa que está passando, então você vê, mas eu gosto do cinema que faz pensar. Os “Buñuels” da vida, os franceses quase todos, os italianos também. Gosto de alguns diretores do cinema americano. Gosto dos chamados bons, esse que tem nome italiano, (Martin) Scorsese. E do Brasil gosto do cinema do tempo do Cinema Novo mesmo. Ainda fico com os filmes do Cinema Novo embora eles deixassem a desejar tecnicamente, mas tinham um conteúdo maior do que se vê nos filmes de hoje, mesmo com toda essa mirabolancia tecnológica. Ali a preocupação do cineasta era uma preocupação com o país, não era uma preocupação em fazer um filme bonito pra passar em Cannes, entendeu? Não era essa a preocupação. A gente queria, sim, ganhar prêmios internacionais, como ganhamos vários, mas não com aquela preocupação comercial de Hollywood. Isso não interessava pra gente. Aliás, a gente fugia disso.
Cirino — O projeto era outro.
Sérgio Ricardo — O projeto era mais o Nouvelle Vague, mais aquela coisa europeia, que era mais dirigida à consciência. Tinha um conteúdo de transformação, de uma coisa que contribuísse para a transformação da realidade ou uma denúncia fantástica que a gente pudesse ver. Hoje em dia as denúncias são em torno da violência, que já está mais do que caracterizada. A gente já está podre de saber o quanto é feroz a bandidagem na favela. O que tem de filmes agora com isso é uma coisa enorme! Você não vê ninguém fazer uma reflexão inteligente a respeito de uma determinada realidade; você vê uma reprodução da realidade muito bem feita tecnologicamente, mas não tem uma opinião, não tem um pensamento em si querendo dizer alguma coisa, entende? Posso até estar sendo muito rígido ao dizer isso, não sei… Aquele filme Estômago [ n.e. Longa-metragem de Marcos Jorge, 2007, com João Miguel, Fabíula Nascimento, Babu Santana e Paulo Miklos ] tem alguma coisa interessante ali. Agora, não vi todos, não posso ser a palmatória dessa situação, porque confio muito nessa juventude que tá aqui a partir do trabalho musical que estão fazendo comigo. Quer dizer, não acredito que o jovem de hoje seja inferior ao jovem do passado. Não reflito assim a situação, entendeu? Até houve um avanço mesmo, inclusive as coisas que vieram com o computador e com outros mecanismos modernos levam o jovem a ser mais esperto. Vejo pelo meu filho: a rapidez com que ele resolve as coisas e aprende e se comunica e tudo. Verifico que há um avanço, uma coisa melhor na juventude de hoje. O que não há, talvez, seja um propósito…
Dafne — Ou essa reflexão…
Sérgio Ricardo — (… ) Uma reflexão a respeito da realidade, porque se não existir uma arguição a respeito disso, você não tem na sociedade nada que esteja te levando a uma tomada de posição; você está liberto, tá solto pra dizer o que você pensa, você faz o que quiser.
Almeida — Mas não tem embates de ideias.
Sérgio Ricardo — Não tem embate de ideias, exatamente, que é o que tinha no passado. Isso era enriquecedor porque fazia o indivíduo refletir um pouco sobre a vida, filosofar um pouco, porque somente ficar solto no espaço a espera de…
Dafne — A reflexão é um dos elementos mais importantes para a arte?
Sérgio Ricardo — Eu acho que sim, porque senão a arte perde seu interesse, perde seu valor como arte, porque a arte tem uma função educativa dentro dela; ela não está ali somente pra dizer “Olha como é bela a cor vermelha, como é belo o amarelo junto com vermelho”. Não é somente a estética pela estética. Pô, você tem que refletir! Você está falando de seres humanos. No cinema você está falando de seres humanos; na poesia, na música, você está falando de uma realidade… Agora, o que você pensa sobre essa realidade? Você que fazer só joguinho de palavra? É só repetir o mesmo jargão sempre? Ou vai pensar? Ou vai fazer as pessoas pensarem? A arte que não faz você pensar é inferior; pode até ser belíssima, mas é inferior. Quando você olha um quadro de Picasso, você fica intrigado, você quer saber o que ele quis dizer com aquilo. Com qualquer artista grande você tem que refletir, né? É essa mola que transforma a sociedade, porque por meio da arte você tem uma possibilidade de passar conhecimento… Já dizia nosso amigo Einstein que a imaginação é mais importante que o conhecimento. Se você bota sua imaginação pra funcionar, ela pode te dar revelações e fazer revelações, não místicas, não tem nada a ver com misticismo, não, é aquela revelação da imaginação mesmo, que você pode com isso colocar uma solução pra algumas coisas, ou talvez nem soluções, mas indicar caminhos. Elucidar um pouco o espírito das pessoas. (…) Não adianta a arte ir pra classe média falar da miséria do povo, porque a classe média vai olhar e dizer: “Poxa, que coisa triste!”. Você tem que falar com a classe pobre, com a classe C, classe D, agora, o diabo é que não temos veículo pra isso, a não ser a televisão. Então a televisão chega e deforma toda essa visão. Esse é o problema. A televisão joga alienação pra cima do povo e isso é um propósito muito maquiavélico pra poder calar o povo pra que ele não se transforme. Se o povo se transformar e tomar consciência da sua força, esse negócio explode. E a classe média, que não faz coisa nenhuma — nós todos, classe média, fazemos o quê? Só refletimos! A gente não faz nada, nem pega em armas e nem vira político pra transformar nada. E quando vira, vira um canalha. Isso é uma sacanagem. Aí pega aquela podridão da política brasileira: você pode entrar são, mas sai corrompido, porque é muito tentador, ou então fica alijado de tal forma que você acaba sendo cuspido do sistema político. Você tem que entrar e fazer o jogo dos caras. Eu não sei nem se é isso o que o Lula está fazendo, não posso falar, porque não sou analítico político.
Tacioli — Mas o homem tem salvação?
Sérgio Ricardo — Olha, acabei de fazer uma música sobre essa história que não sei nem como acabá-la porque a Terra tá pra explodir, meu amigo! [ risos ] Não tá pra acabar o mundo aí? Todo mundo tá dizendo isso, “Vai acabar! Vai acabar! Vai acabar! Parem com as chaminés! Parem com a poluição! Parem com as queimadas!” e não para. As coisas não param e se agravam ainda mais os problemas. O pobre está cada vez mais pobre, e o rico cada vez mais rico. É uma loucura! Esse negócio desembestou numa corrida que eu não sei onde isso vai parar. Só pode parar no fim mesmo, como fim. Eu tô achando até a Terra está sendo generosa demais, pois não acabou ainda. Já vieram os tsunamis, os tremores de terra e não-sei-o-quê. Não sei se vai degelar não-sei-onde, e de repente o mar vai invadir a cidade, sei lá que diabo é isso, que cataclismo que vai pintar!
Tacioli — Você tem medo dessas coisas?
Sérgio Ricardo — Não, não, porque já estou indo embora daqui a pouquinho, já estou no caminho da roça e não tem confusão. É, tô no cafezal, meu amigo, e tá tudo bem por lá. [ risos ] O problema é quem fica por aí, filhos, netos… A humanidade em si é uma coisa que eu amo, né?! A gente ama o semelhante. Eu, pelo menos, amo o meu semelhante. Não gostaria de ver isso aqui virar uma casa de marimbondo. Mas medo, não tenho medo, não. É lógico que quando você vê a boca de um leão na sua cabeça… se borra todo. [ risos ]
Dafne — Você também vê a política — que sempre foi uma parte importante do seu trabalho — de modo desesperançado?
Sérgio Ricardo — Olha, sinceramente, me julgo meio ingênuo nesse negócio político, porque não tenho suficiente informação. Estou tão avesso à política brasileira, tão descrente da política brasileira, que nem sequer votei e nem vou votar. Isso não é exemplo pra ninguém, pelo contrário, é defeito, já é uma capitulação de uma parte de mim mesmo, porque não consigo ver nada se transformar nesse país a não ser mesmo na base da revolução, da porrada. Sou mais a filosofia do Marcola [ n.e. Marcos Willians Herbas Camacho, Osasco/SP, 1968, considerado um dos líderes da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) ] do que as existentes por aí com todos esses cientistas políticos. Inclusive, ele é um profeta, pode vir acontecer tudo o que ele previu aí. O Marcola tem um artigo fantástico, não sei se vocês leram. Ele é inteligentíssimo. Agora, é o diabo, né? Ele é o diabo!
Dafne — Essa descrença começou ainda na época da ditadura?
Sérgio Ricardo — Não, ela veio aos poucos, depois que a ditadura acabou. Enquanto durava a ditadura eu acreditava que o povo brasileiro fosse tomar uma atitude ou, então, ao acabar a ditadura, que começaria alguma coisa interessante. Não começou nada. Tiro isso por uma conclusão muito simples: os meios de comunicação, principalmente a televisão, tomaram conta da informação, não tem jeito. Acabou, não há quem possa doutrinar mais o povo a não ser a própria televisão, e não há como tomar a televisão da mão do sistema que está aí, a não ser que você faça uma revolução de qualquer de natureza e que, de repente, ela venha para a mão das pessoas conscientes e que queiram transformar alguma coisa. Isso parece uma utopia, não vai acontecer tão cedo. Estamos entregues a uma situação sem saída, um beco sem saída. Você vê essa história aí dos bancos que estão se quebrando no mundo inteiro. Aliás, tenho uma música já bem antiga que diz: “Os bancos de caixa forte / Que eram rochas se quebraram / E um rio de dinheiro correu”. Começa assim. “Pesca o dólar / Pesca o rublo / E a libra esterlina / Pesca as tranças empenhadas / Da pobre menina / Pesca o amor / Que foi vendido / Protestando estima” [ n.e. “Bezerro de ouro”, lançada no álbum Arrebentação, de 1971 ]. (…) E vai por aí uma série de versos em cima dessa coisa que o rio de dinheiro corre, mas esse rio de dinheiro que está correndo hoje é o do governo pros bancos. Mas é muito estranho: os governos de vários países estão salvando os bancos; pra quê? Para que não caia o sistema! E outra: por que não fazem isso pra acabar com a miséria? Essa ninguém topa fazer! Então tá errado, esse sistema está furado, isso não tem nada a ver, cara! Agora, qual é o outro sistema que vai vir no lugar, não posso lhe dizer, se é comunismo, se é social não-sei-o-quê, não sei! Não sou analista político! Que esse sistema aí não é de nada, não é. Como você pode dizer que o sistema é maravilhoso se tem uma miséria da imensidão que nós temos no planeta, com o número de mortos que você tem todos os dias? E essa coisa (a miséria) ainda sendo atribuída à falta de talento das pessoas pra poder se fazer na vida e se virar. Pô! Anteontem teve aí um cara, um motorista, um pau-de-arara que nos levou — eu e algumas pessoas — de um lugar para outro e, conversa vai, conversa vem, acabou em capitalismo e comunismo. Aí o motorista: “Eu sou capitalista!”. [ risos ] “Legal, tu é capitalista! Legal!” “É, porque esse negócio de Chico Buarque que fica falando em comunismo e comendo as melhores mulheres do mundo, morando num palacete não-sei-onde, assim eu também sou!” “Mas, rapaz, as mulheres gostam do Chico Buarque. Você precisa entender isso!” [ risos ] (Falei) só pra sacaneá-lo, mas é a tal coisa, como (você) vai botar na cabeça dum cara desse que capitalismo é essa porra que tá aí? [ risos ]
Tacioli — Sérgio, qual é a sua motivação hoje pra música? É a mesma dos anos 60?
Sérgio Ricardo — Olha… Esperando por vocês, eu mesmo estava me perguntando: “Que diabo de música vou fazer hoje, cara? A música romântica, essa coisa linda, ou fazer música não-sei-o-quê?” Música política não adianta! Verifiquei que contar a história do Brasil pro povo, no palco, por meio de música, fica meio esquisito. Percebi nesse show [ n.e. Show de lançamento do álbum Ponto de partida, realizado no Teatro Fecap, em São Paulo, em outubro de 2008 ] que, quando cantei aquela música minha feita pro Lamarca [ n.e. “Tocaia”, lançada em 1973 no álbum Piri, Fred, Cássio, Franklin e Paulinho d eCamafeu com Sérgio Ricardo ], eu senti que ou a plateia ficou comovida — e eu não acreditei — ou então dizia “Por que está cantando esse tipo de música hoje, aqui?”. Então, não é o caso de falar de heróis brasileiros, nem de revolução. Não é o caso de falar disso porque parece que esse caminho não vai pegar, não cola. Que tipo de revolução você vai fazer hoje? Eu não sei! Então deixo a minha consciência trabalhar sozinha, isolada, vou lá e faço versos. Mas tem uma coisa que não me abandona: meu sentimento pelo povo brasileiro, pelo pobre brasileiro, pelo povo mesmo, povão, que eu vivo no meio deles, estou lá no meio de uma favela. Sempre tive perto do povo, nasci no meio do povo lá em Marília, dos camponeses! Tenho uma ligação com o homem do campo e com o trabalhador de uma maneira não ideológica, entendeu? Meu caso foi existencial, convivi com os caras, convivo com eles, tô cercado de gente do morro e converso com eles todo dia. Não gosto de muitas coisas, é claro, mas principalmente o que eu não gosto é dessa alienação que pinta agora nessa camada. Ele não tem como sair disso, porque vai pra casa, liga a televisão e vê o jornal, e o jornal o encaminha pra certas direções, as novelas para outras direções, todos os programas praquelas direções, e ele passa a ter na televisão a sua religião ou, então, nessas religiões marotas que andam por aí levando o pobre do dinheiro desse cidadão ingênuo. O brasileiro é ingênuo demais! É como se a classe C fosse um bando de índios espalhado pelo Brasil, só que vestido de outro jeito e que tem outra filosofia. A filosofia desse povo é de uma pureza que chega a comover, e também dá um certo desgaste emocional você imaginar que essas pessoas não vão poder fazer nada, porque até ela aprender que tem que fazer pra mexer alguma coisa, vão se passar muitos anos. Porque há um impedimento, há um muro impedindo que a inteligência coletiva se desenvolva. Então, a arte aí é que tem um papel incrível; ela tem por obrigação informar as coisas que não são permitidas. Mas é uma rebeldia, mas é a função da arte; é você tentar elucidar as coisas. Eles não vão ler nunca tratados; não vai ser por meio da didática que ele vai aprender coisa nenhuma, porque nem dinheiro pra chegar à faculdade ele tem. A arte teria esse papel. Então, quando você me pergunta “Que música você vai fazer hoje?”… Bom, das minhas músicas que são políticas, objetivas, direcionadas — como a do Lamarca, a do Che Guevara [ n.e. “Aleluia”, lançada em compacto simples com “Deus e o diabo na terra do sol”, parceria com Glauber Rocha ] — não adianta cantar hoje, mas coisas feitas sobre a realidade do povo, essa linha social que adoto no meu trabalho, não vou abandonar. Acabei de fazer uma música no Rio de Janeiro chamada “Bala perdida”: “Severina atingida por bala perdida / Morreu ao parir Severino”. E isso acontece, uma mulher grávida que, de repente, leva um tiro e aborta ou tem o filho ali na hora. Então, esse cara foi criado no morro por mães, irmãos e vários pais pra não ser atirado não-sei-lá-onde, entendeu? E aí, ao crescer, esse cara teria tido a gratidão com seus pais. Conclui o seguinte, deixa eu ver se me lembro do verso: “Aos dezoito atirou-se no samba / E seu canto certeiro varou corações / Quando a gente se junta / Transforma o mau que transtorna o nosso viver / No mais belo amor que se trama no fio do drama / De um bem que se quer / Ninguém teme enfrentar a peleja / Nem tiro que seja capaz de abater / É o amor que se grava no peito / E que não tem mais jeito de esquecer”. Essa é a mensagenzinha que o cara teria concluído da sua própria vivência. Não está falando qual a posição política que tomou, quem é o herói; esse é exatamente o ponto a minha tônica.
Tacioli — Mas é política.
Sérgio Ricardo — É política, como sentido, né? É exatamente esse tipo de música política que vou fazer, não aquela direcionada a um papo. A própria “Calabouço”, que é uma canção que sou obrigado a cantar muitas vezes quando estou no meio de muitos estudantes, ela é localizada nesse negócio de repressão: “Cala boca, moço!”. Já é de um outro tempo. Eu tô mais preocupado em fazer esse tipo de música que eu acabei de dizer aí pra vocês.
Tacioli — Sérgio, você identifica o momento em que seu processo de composição começou a se tornar mais engajado?
Sérgio Ricardo — Foi no início da bossa nova; até o Carlos Lyra reconhece isso, que a primeira canção que rompe com a bossa nova é “Zelão” [ n.e. Lançada em 1960 em disco 78 rotações e no LP A bossa romântica de Sérgio Ricardo ]. “Zelão” rompe com aquela coisinha da florzinha, do não-sei-do-quê, do barquinho, e vai pro morro, sobe o morro… Aí já começa uma canção política brasileira, pelo menos essa vertente…
Almeida — Mas qual a mudança interna?
Sérgio Ricardo — Não, isso foi interno… Eu não sou carioca, sou paulista do interior. Chego no Rio de Janeiro e as pessoas falando de Ipanema, Leblon, Copacabana e tal, muito bem, é uma gracinha, muito interessante. Até fiz uma música [ n.e. “Pernas”, do LP A bossa romântica de Sérgio Ricardo, 1960 ]: “Surgiu ao sol da tardinha / Um par de pernas lindas e tal / E fui atrás das pernas e não-sei-o-quê”. Fiz essa música só pra dizer que posso fazer aquilo, entendeu? Agora, o meu negócio mesmo é a música lírica. As canções de amor que fiz eu não abro mão; vou cantá-las o resto da minha vida. Fazer música que não seja romântica, que não seja lírica, do afeto, do amor, somente música política mesmo. E começou ali na bossa nova. Coincidentemente, já estava começando a fazer cinema, mesma época do Cinema Novo, que tinha toda visão que me interessava. E com o pessoal do cinema, minha cabeça virou toda pro lado político.
Dafne — Mas aí era diferente da bossa nova, que olhava pra praia, pro mar, e você olhava pro morro.
Sérgio Ricardo — Aí eu olhei para o campo, para o morro, para o operário… Tem uma música chamada “Fábrica” [ n.e. De seu terceiro disco, Um SR. Talento, Elenco, 1964 ], não sei se vocês conhecem, que conta a história de um cara. Fiz um filme sobre isso.
Tacioli — Mas o que é que você comemorou nesses 50 anos da bossa nova?
Sérgio Ricardo — Eu comemorei o meu início. Agora, eles não deram bola pra mim; acho até legal, porque o que eu falo de bossa nova nesse livro aí deixou-os um pouco chateados, né? Porque eu estive com eles no festival no Carnegie Hall [ n.e. Festival de Bossa Nova que reuniu em 21 de novembro de 1962, na casa de espetáculos Carnegie Hall, em Nova York, artistas como Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Lyra e Roberto Menescal. É considerado um dos responsáveis pela internacionalização do estilo ]. Eu era amigo do Tom, sou amigo íntimo do João Gilberto, adoro eles todos, entendeu? Todos, não, porque de certas pessoas, que eu não vou dizer nome, não me falam muito a cabeça. Agora, Johnny Alf, por exemplo, pobre coitado do Johnny Alf, abandonado aí em um asilo desses, com um problema de saúde gravíssimo… [ n.e. O pianista, compositor e cantor morreu em São Paulo aos 80 anos no dia 4 de março de 2010, vítima de câncer de próstata ]
Dafne — Mas esse seu rompimento com a bossa nova…
Sérgio Ricardo — Eu não rompi com a bossa nova, eu parei de fazer bossa nova. Não foi um rompimento, não houve brigas, não houve discussões, não houve pega pra capar, não houve nada, não. Simplesmente não quis mais fazer. Eles é que vinham pra mim… Por exemplo, o Ronaldo Bôscoli, principalmente, que pra mim era o cara meio esquisito dentro da bossa nova, é que me pichava, me pichava muito: “Lá vem o cara com aquelas músicas não-sei-o-quê”.
Dafne — Quando a Nara começa a cantar compositores do morro — e foi depois de “Zelão” — há um racha, não?
Sérgio Ricardo — É, foi um racha feito pelos intrometidos na bossa nova, sabe, pelos caras que não tinham nada a ver com a música. E o Ronaldo Bôscoli é um deles, embora tenha feito umas cançõezinhas de bossa nova, ele não poderia fazer muito mais do que aquilo. Ele não admitia que se tivesse que falar de outra coisa há não ser do barquinho dele. deles [ n.e. O compositor, jornalista e produtor musical carioca Ronaldo Bôscoli, 1928–1994, é autor de “Lobo bobo”, com Carlos Lyra, e “O barquinho”, com Roberto Menescal, seu principal parceiro ]
Dafne — Mas foi uma coisa mais de fora pra dentro do que vice-versa?
Sérgio Ricardo — Foi de fora pra dentro porque eu parei de frequentar, a Nara também parou depois que casou com o Ruy Guerra ou com o Cacá Diegues, sei lá, e aí tomou outro rumo na história, né? Aconteceu o seguinte: a bossa nova, na verdade, era Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto. Essa era a trilogia importante do negócio. O resto tudo é cópia, entendeu? Tudo seguidores desses três; ou tocando violão ou fazendo letra ou fazendo música. Esses eram os esteios. Pra mim são três gênios e não tem nada contra. Agora o resto, inclusive eu, em termos de bossa nova, não tem nada a ver com aquilo. Aquilo era coisa de João, Tom e Vinícius… e Baden. E coloco ainda o Carlinhos Lyra, porque era um belo melodista. E o principal deles todos, o Johnny Alf, que era o precursor desse negócio todo. Johnny Alf, Garoto, João Donato, esses caras são os cobras. A garotadinha que veio copiando tudo deles, e que de repente tomou conta e a bossa nova virou eles — Tom morreu, Vinicius morreu, o outro tá vivo mas não quer saber deles, João Gilberto não quer saber de ninguém. Tanto assim que fez um show independente; ele não fez um show com a bossa nova; não vem com essa história. Ele veio com o show dele: ele é a bossa nova. Tanto é assim que o grande quinhão da grana foi ele que pegou. [ risos ]
Almeida — Sérgio, vocês nunca tiveram rachas ideológicos com relação à bossa nova?
Sérgio Ricardo — Com o João Gilberto, não! Você pode ler o meu livro, você vai ver que eu com João Gilberto estamos numa ótima. Ele, aliás, cantou uma música minha nos shows que fez por aí. Cantou e fez uma homenagem a mim. Ele até foi legal porque nem precisava fazer isso. A gente é amigo mesmo! A gente era amigo antes dele ser o João Gilberto, antes de eu ser o Sérgio Ricardo, quando eu era Mansur e quando ele era João Gilberto, mas ninguém sabia quem ele era.
Tacioli — E como era o João (Gilberto) nessa época?
Sérgio Ricardo — O mesmo que é hoje, impressionante! É mesmo, mesmo em talento, a mesma coisa, não saiu disso, ele ficou nessa coisa, evoluiu um pouco mais a musicalidade, mas era exatamente isso, tocava um violão estupidamente bom, uma coisa absurda, embora seja simples, só fazendo “tim tim tim tim tim”, mas o “tim tim tim tim” que ele faz, sai de baixo…
Tacioli — E o que é verdade e o que é mentira sobre João Gilberto? O que você pode falar e o que você não pode?
Sérgio Ricardo — É o seguinte: é uma coisa que eu nem sei sequer se ele faz muita questão, se ele fica muito raivoso com isso ou não, mas o fato é que se criou um mito em torno dele, tem muita piada e posso te garantir que 99% delas são mentiras. Dizer que gato se suicidou, essas loucuras. Pô! Ele chegou pra mim um dia: “Ouvi dizer que meu gato se suicidou, Sérgio! Puta que o pariu, como é que pode? O gato tropeçou e caiu da janela”. Aí vem o Ronaldo Bôscoli e “O gato dele se suicidou!”. Piadas assim que faziam sobre ele são tudo mentira, tudo conversa fiada. Ele tem um temperamento realmente um pouco diferente dos outros, não é uma pessoa comum. Ele é um ser comum, mas não é uma pessoa igual a todos os outros, não, como nós somos, que noventa e tantos por cento de igualdade entre nós que nos junta, mas ele aqui já estaria falando de um outro jeito, tudo mansinho, [ imita ] “Mas você fica bem com a mão assim…”. Às vezes, você pensa até que tem um homossexualismo na coisa, mas não tem nada a ver com homossexualismo.
Dafne — É baiano.
Sérgio Ricardo — É baiano, aquela coisa meio baiana. Exatamente. Ele é uma figura ótima e tem uma inteligência estupenda. Ele lê Drummond, aqueles poemas intrincados, com uma clareza incrível e, pelo jeito que ele lê, você entende aquele poema dum jeito. É impressionante o alcance poético que ele tem é maravilhoso, uma compreensão e inteligência brilhantes.
Almeida — Como você o conheceu, Sérgio?
Sérgio Ricardo — O João Donato me apresentou antes da bossa nova, antes do disco, quando eu era pianista de boate.
Almeida — Quando ele cantava grosso ainda, não?
Sérgio Ricardo — É! Ele não canta fino, pô!, deixa de sacanagem! [ risos ]
Almeida — Não, mas ele cantava com um vozeirão, né?
Tacioli — Ele era crooner do… [ n.e. Conjunto vocal carioca Garotos da Lua, que demitiu João Gilberto em menos de um ano depois de sua entrada ]
Sérgio Ricardo — Ah, sim, com voz forte. Ele já cantava do jeito que ele canta hoje. Toda noite ele se encontrava comigo, porque ele andou sem ter muito onde ficar durante um período, estava voltando de não-sei-que-lugar, acho que dos Estados Unidos… [ tosse ] Eta, mundo velho! Fuma! [ risos ] Mas então ele me procurava e a gente saía caminhando por Copacabana depois que acabava minha função na boate. A gente conversava e acabava lá em casa. Tomava o café da manhã, porque já tinha passado a noite e aí minha mãe fazia um café com leite pra ele. Dormia lá, mas não era todo dia, não, era uma vez ou outra… Virou meu irmão.
Dafne — Sérgio, talvez reforçada pelos 50 anos da bossa nova, há uma nostalgia desse período brasileiro do final dos anos 50, do JK, do desenvolvimentismo, da era pré-golpe, de um país que iria dar certo. Você tem nostalgia desse tempo ou desse país que parecia que tava indo pra algum lugar?
Sérgio Ricardo — Não sei se tanto assim, mas tenho uma certa nostalgia, sim, porque era um tempo bonito, era um tempo que parecia que o Brasil ia dar certo, tanto assim que nos encorajou a tentar corrigir os problemas existentes, porque enquanto Juscelino estava no poder parecia que o Brasil estava (indo bem)… Era a própria bossa nova, parecia que o Brasil era aquela coisa toda bonita, mas no fundo a miséria era profunda, o capitalismo estava avançando muito, o poder econômico dos Estados Unidos estava avançando em cima do Brasil, era um negócio terrível, e não se tinha muita medida do quanto isso era prejudicial. Somente o pessoal de esquerda que veio detectar essa história. Foi o Partido Comunista o responsável por essa detectação, que já vinha desde o Prestes, de não tapar o sol com a peneira. Na verdade, o Juscelino nos fez tapar o sol com a peneira. Então, se tem essa nostalgia, é de um tempo que parecia belo, mas ele era belo pra classe média; pra classe média estava tudo bom. Agora, pra classe C tava um problema. O certo é o seguinte: com a queda do Juscelino e a palhaçada do Jânio, a vinda do Jango parecia que ia consertar tudo, que tinha uma ligação muito boa com os estudantes e com Partido Comunista — não sei se com o Partido Comunista, mas com o espírito da transformação, da revolução. Em 64, depois do discurso dele na Central do Brasil, ficou caracterizado um pega pra capar pra valer. [ n.e. Conhecido como Comício das Reformas ou Comício da Central, foi realizado no Rio de Janeiro no dia 13 de março de 1964 em frente à estação ferroviária Central do Brasil, em que o Presidente João Goulart anunciou suas reformas de base. Pouco depois, como reação do empresariado e da classe média, foram organizadas as Marchas da Família, com Deus, pela Liberdade, para espantar o fantasma comunista. No dia 1o de abril daquele ano, os militares tomam o poder ] Estávamos com o Vianinha [ n.e. O dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, 1936–1974 ] no Teatro Opinião quando, de repente, subiu no palco um capanga pra falar em nome do Jango, dizendo que tinha um local onde poderíamos apanhar as armas para a chamada revolução que estava prestes a explodir. Aí foi esquisito porque ali só tinha estudante, ninguém sabia atirar coisa nenhuma, como é que ia pegar arma pra começar uma revolução? Ninguém estava preparado pra guerra, nem pra guerrilha, nem pra qualquer coisa. Todo mundo foi afundando na cadeira [ risos ], ficou um clima terrível. Aí o Vianinha, líder da massinha, subiu e falou com o cara: “Olha, realmente a gente não tá preparado pra essa coisa. A moçada aí é estudante!”. “Mas vocês não querem fazer a revolução?! As armas estão aí!” “Mas, peraí, como é que a gente vai pegar armas? Ninguém sabe mexer num fuzil, meu amigo. Não dá!” “Então, tudo bem, tudo bem!” Aí foi procurar a turma dele. Nessa mesma noite, aliás, o Lacerda mandou passar uma rajada de metralhadora na porta da UNE. [ n.e. Carlos Lacerda, 1914–1977, governador da Guanabara entre 1960 e 1965 e um dos incentivadores do golpe millitar de 1964 ] Por acaso, eu estava na porta com alguns amigos, e uma bala pegou na perna de um e ele caiu. Em mim, uma passou aqui e a outra aqui, não é possível, porque também poderia ter sido atingido. Foi um pega pra capar! Carlinhos Lyra e uma turma se descambou lá pro fundo da UNE, pularam o muro e foram embora. No dia seguinte, tacaram fogo dentro da UNE. Ficamos assistindo ao filme…
Dafne — Você já chegou a pensar o quão mal fez pro Brasil o período da ditadura militar?
Sérgio Ricardo — Se eu já pensei nisso?
Dafne — É. Se você já parou pra pensar…
Sérgio Ricardo — Claro, poxa se fez mal, fez um mal absurdo, rapaz, na cabeça do jovem, então, deus me livre! Os jovens daquela época… Qual é a média de idade de vocês?
Dafne — Os rapazes são de uma outra geração. [ referindo-se aos fotógrafos Jefferson Dias e Celso, ambos na faixa dos 20 e poucos anos ]
Sérgio Ricardo — Vocês estudaram durante a ditadura?
Tacioli — Eu nasci em 71.
Sérgio Ricardo — Durante a ditadura você estava estudando.
Dafne — Sou de 74.
Almeida — De 75. Peguei o (período do) Figueiredo…
Sérgio Ricardo — Vocês devem ter pegado uma fase muito ruim. Vocês se formaram em jornalismo, é isso, ou em alguma coisa parecida?
Dafne — Ah, não, faculdade já foi anos 90.
Sérgio Ricardo — Ah, bom, já era depois.
Dafne — A nossa infância foi no começo da Abertura.
Almeida — Eu era criança quando Tancredo morreu.
Sérgio Ricardo — Pois é, então vocês não pegaram. Vocês já são de outra geração. A geração dos anos 60 pra cá sofreu muito. Continuam existindo, evidentemente; sou de antes (desse período) e estou vivo. Tem muita gente viva aí que não fez coisa nenhuma depois. Eles provocaram uma alienação na estudantada muito violenta. Primeiro: ou prenderam ou mandaram embora uma porrada de professores que eram os “cabeças de ponte”. Então, dali pra o fim da ditadura, não houve condições de poder colocar a cabeça do estudante no lugar. Eu vi pelo próprio trabalho que eu fazia. Assim que pintou a ditadura, ali em 68, a partir desse espetáculo Sérgio Ricardo na praça do povo [ n.e. Dirigido por Augusto Boal ], comecei a ser muito perseguido pela censura. A minha música foi proibida no rádio, foi proibida na televisão. Em cada show que eu fazia tinha sei lá quantos caras do DOPS pra impedir que se cantasse essa ou aquela canção. E eu cantava do mesmo jeito, mas era proibida. Fazia meus shows com os estudantes, aqueles que ainda estavam conscientes da coisa, que eram vítimas da ditadura. E o meu show foi esvaziando. Inicialmente lotava, rapaz, você não faz ideia o que era um show meu com a estudantada na época de sessenta e tantos. Em 70 pintou uma meia casa. Daí pra diante começou a esvaziar, pararam de me chamar, ou seja, ficou claro que havia pintado uma certa alienação. A memória já tinha se esvanecido, porque estudante muda a cada ano, cada ano que saiam as boas cabeças, entravam cabeças mais ou menos e, daí pra frente, começou a esvaziar. Na hora em que a ditadura percebeu esse esvaziamento total de reação é que eles deixaram o poder, fora outros problemas que tinham pra resolver.
Tacioli — Mas qual foi seu pior momento na ditadura?
Sérgio Ricardo — Ah, foram os últimos momentos.
Tacioli — Mas qual foi o seu pior momento?
Sérgio Ricardo — Frente à ditadura? Ah, eu tive várias entradas, vários interrogatórios, e quase prisões… Uma certa vez um cara me disse: “Olha, você sabe por que você não foi preso ainda? Porque você quebrou o violão e esses caras adoram macho!”. [ risos ] “Esse daí deixa pra lá, não precisa prender, não!” Não sei se isso é piada, deve ser. Agora, disseram isso já uma vez, me garantiram que era isso, mas toda vez que eu aparecia no DOPS, pô, rapaz, era uma doideira, era cheio de ameaça, com aqueles detetives que pegavam e tiravam o revólver e batiam na mesa: “Tem que acabar com esses comunistas todos! Vou dar tiro nesses comunistas!”. A gente tinha que ficar calado e ouvir as barbaridades que eles tinham pra dizer. O pior momento foi num dia em que me chamaram no DOPS e recolheram todos os meus discos do Che Guevara, de uma gravação que eu tinha feito pro Che Guevara. Esse foi o pior momento…
Almeida — O que era esse projeto? Ou era somente uma música?
Sérgio Ricardo — Era um disco, compacto simples que tinha “Deus e o diabo…” de um lado tocado com guitarra elétrica, agressiva pra caralho, e do outro lado uma música que tinha feito pro Che Guevara, que era “Aleluia”. Esse disco foi recolhido. A primeira vez que vi um trabalho…, que você fica meio triste, tem uma sensação de impotência total, porque o disco está lá sendo muito procurado e, de repente, ninguém encontra mais o disco. E aí, uma das pessoas que foi também arguida, disse que viu ali no DOPS um quarto cheio desses discos.
Tacioli — Sérgio, tem um momento no livro que você diz que, com “Beto bom de bola”, se não tivesse rolado a história do violão no Festival de Música, você poderia ter caído no anonimato.
Sérgio Ricardo — Isso é verdade. Como caiu o Vandré num certo sentido… Bom, o Vandré, não, porque a música dele virou hino… [ n.e. “Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando)”, de Geraldo Vandré, 1968 ] Cantavam a música dele na sua ausência. Mas no meu caso teria pintado um anonimato total, como aconteceu com Sidney Miller [ n.e. Compositor carioca, 1945–1980, autor de “Pede passagem” e “A estrada e o violeiro”, gravadas por Nara Leão ], como ia acontecendo com Gonzaguinha, que a própria televisão ressuscitou, mas não com aquelas canções, (e sim) com outras coisas, e com outros caras, como o Théo de Barros… Cantores, então, nem se fala. Nunca mais se falou de Marilia Medalha.

Tacioli — Você tinha uma relação bacana com o Geraldo Vandré, não?
Sérgio Ricardo — Muito bacana.
Tacioli — Tem notícias dele?
Sérgio Ricardo — Não tenho nada, rapaz, só sei que ele está aqui em São Paulo. A última notícia de que tenho é triste; ele estaria com a barba desse tamanho, parecendo um mendigo. Não gostei nada do que eu ouvi. Mas ele não quer voltar pra cantar. Ele não canta enquanto o Brasil estiver assim… Deve ter alguma coisa estranha no meio dessa história que eu não arrisco dizer. Uns dizem que ele está mal da cabeça. Eu não acredito nisso. É uma posição que ele tenta manter. Se você disser que o Vandré vai fazer um show no Maracanã, no Rio de Janeiro, vem gente do Brasil inteiro pra vê-lo. Então, pô, ele vai acabar faturando. Um belo dia desses aí ele resolve e aparece. Agora, eu não tive essa repercussão de mídia do meu trabalho como tive com o violão quebrado e como teve o Vandré com essa música dele. A repercussão do meu trabalho está mais na atitude e (na relação) com os estudantes. Ficou uma memória que até hoje quando faço show aparecem os estudantes do passado. É uma festa.
Tacioli — Assisti a um show seu na Unicamp em 1994.
Sérgio Ricardo — Esse era o meu forte, meu trabalho com os estudantes.
Almeida — Em relação a cinema, você já deu seu recado?
Sérgio Ricardo — Não, não. Eu tenho dois filmes pra fazer e estou tentando ver como é que armo isso, porque o grande problema — falei agora há pouco pra vocês, do negócio do existencial, da capacidade, do cansaço, mas no fundo não é muito isso, não — é a dificuldade de se arranjar dinheiro pra fazer cinema. Cinema é negócio de milhões e milhões, e é difícil você conseguir o dinheiro pra fazer um filme. Consegue quem se atrelou a esse sistema de projetos e que sabe fazer isso, que abriu uma frente, uma turminha ou uma patota e tal que está com o dinheiro, que entra e sai do governo, vai (o dinheiro) pra mão deles e volta. Eu não entrei nessa panela, não!
Tacioli — Você não vai falar isso amanhã pro Fred Rossi, não é?
Sérgio Ricardo — Por quê?
Tacioli — Que você está com dois filmes aí na cabeça…
Sérgio Ricardo — Pois é, se eu falar isso ele… “Então, você vai fazer o seu filme e depois você volta!” [ risos ]
Almeida — Mas são ficções?
Sérgio Ricardo 
— São ficções. Uma é uma história do caso do Drummond de Andrade que eu gravei. Ele me mandou o único cordel que escreveu na vida, que é a história de João e Joana, que é uma obra-prima.
Dafne — (…) Que você fez o disco.

As duas edições do álbum Estória de João-Joana: de 1983 e 2000. Fotos: Reprodução

Sérgio Ricardo — Eu fiz o disco. Aliás, esse disco está praticamente inédito, não sei nem como você sabe dele. A gente vai relançar esse disco pela Biscoito Fino, que tem Chico Buarque, João Bosco, está cheio de gente boa cantando. E eu fiz um roteiro pra cinema, já tinha sido escolhido pela Embrafilme, estava praticamente com o dinheiro no bolso quando veio o Collor e cortou o barato. Daí eu desanimei totalmente e não fui procurar os meios que foram inventados depois. Então, não entrei na panela e fiquei de fora dessa história. Aliás, esse é um dos grandes problemas que eu tenho na vida: a falta de reconhecimento. Não tenho mágoa disso porque é decorrência do fato deu estar pulando de uma coisa pra outra. O pessoal de música não fala muito de mim porque pensa que estou no cinema; o pessoal de cinema não fala porque eu fiz poucos filmes… cineasta ocasional, entendeu? Então eu não tenho lá a importância que eu poderia ter se eu fosse constante, e esse tipo de coisa me prejudica muito porque não sou citado em nada. Agora mesmo o próprio Fred Rossi fez aí uma agenda dos 50 anos da bossa bova e eu não sou citado. [ ri ] Ele me deu de presente o livro parecendo que estava me fazendo uma homenagem. Aí fui ver e digo: “Porra, não estou em lugar nenhum aqui! Vou falar com ele amanhã!”. [ risos ] “Que negócio é esse, rapaz, que perseguição!”
Almeida — E o outro filme?
Sérgio Ricardo 
— E o outro é o filme da remoção do Vidigal, que é uma história que eu vivenciei: fui morar no barraco pra fazer uma pesquisa sobre o “Zelão” — queria um levantamento do morro sobre comportamento, ver como era, pra fazer um roteiro sobre o Zelão. Mas logo que comprei o barraco, veio a (Fundação) Leão XIII, essa organização lá do Rio, e marcou pra derrubar (o meu barraco) junto com os outros porque o dono do terreno tinha vendido aquelas terras para um grupo milionário que iria fazer naquela orla marítima, ali do Vidigal, uns hotéis maravilhosos. Então tinha que remover todo aquele pessoal de lá. O prefeito e o governador levaram uma bolada pra poder liberar tudo. Aí começou a guerra. E nessa guerra eu tinha que estar ali pra ver como é que era. Acabei liderando a coisa: meu barraco virou sede da Associação do Moradores e a discussão era toda lá em casa. Botei o maior advogado do Brasil no negócio, o Sobral Pinto. Ele foi lá e acabou com a guerra. Mas o que a gente vivenciou ali é uma verdadeira história, que está numa peça que eu fiz, que é Bandeira de retalhos, e quero ver se faço esse filme.
Dafne — Isso aí é começo dos anos 90?
Sérgio Ricardo — Não, isso aí é 78. Eu tinha já feito o filme A noite do espantalho…
Dafne — Você está desde então morando lá no Vidigal?
Sérgio Ricardo — Com saídas, né? Fui morar em Niterói também… Eu aluguei o meu apartamento que fica no Vidigal e fui morar no barraco, aí aconteceu essa história. Voltei pro meu apartamento e o barraco acabou nas mãos de uma empregada que eu tinha, que tinha sido despejada da Rocinha. Acabei dando o barraco pra ela, que foi morar lá. Mas estou no Vidigal desde aquela época. Saí também, porque às vezes eu saio, alugo, e vou morar em outro canto, e depois volto… Nesses quase 30 anos eu fiz umas três ou quatro idas pra lá.
Tacioli — Sérgio, pode-se dizer que esse processo foi uma pequena revolução, né?
Sérgio Ricardo — É, inclusive foi considerada a primeira vitória do povo brasileiro contra a ditadura sem derramamento de sangue. Foi um negócio incrível! Tanto assim que o Papa, quando veio aqui, foi lá rezar uma missa e deixou um anel. [ n.e. Referente à visita do Papa João Paulo II à Favela do Vidigal em julho de 1980, quando entregou um anel episcopal ao padre Ítalo Coelho ]
Dafne — Quanto o Vidigal mudou nesses 30 anos?
Sérgio Ricardo — Bom, mudou pra pior, né? Mudou pra pior por causa do negócio da boca, mudou a mentalidade, alguma coisa cultural lá que mudou, porque mudou em todo lugar do Brasil. De repente, inventou-se esses bandos de… como é que se chama, traficantes e tal. O tráfico ficou estranho, porque o tráfico ali não se intrometia na vida de ninguém, pelo contrário, em outros tempos, até ajudava. Depois, quando o pessoal começou a querer conquistar as bocas, gente de outro lugar que vinha e conquistava aquilo ali, eram estranhos que ficavam no lugar, aí a coisa mudou de figura. Então, não há nenhuma relação da boca com a favela; a gente vive sobre uma égide deles. Ali a lei é sumária, e tanto assim que o Vidigal, como outras favelas, é um lugar de segurança absoluta, parece incrível isso. Se alguém estupra alguém, vem o cara do bando e mata e bota no lixo, lá na vala; se o cara rouba um automóvel é a mesma coisa; se apronta qualquer tipo de coisa que a reclamação chega na boca, no ouvido da boca [ risos ], aí acaba também na mesma coisa. Uma vez, o meu prédio foi invadido pela boca pra pegar um sujeito que tinha proibido os garotos de jogarem bola lá embaixo. Ele ameaçou um dos garotos: “Você não pode jogar bola aí senão te dou um tiro ou uma porrada”. Aí o garotinho falou pro pai dele e o pessoal da boca disse: “Pô! Vai dar tiro em quem?”. E foram lá… Não fuzilaram o cara porque não conseguiram encontrá-lo, mas vazaram o apartamento dele a tiro. Agora, quem estava lá dentro do prédio e ouviu aquelas explosões todas não se preocupou com nada, porque não era com eles. Sabiam que era uma vingança pessoal, não ia sobrar pra ninguém, não, era só aquilo ali mesmo.
Tacioli — (A conta) nem chegou no boleto do condomínio, né?
Sérgio Ricardo — Nada… [ risos ]
Tacioli — Mas qual a sua relação hoje com o morro?
Sérgio Ricardo — Na realidade, minha relação é apenas com o Nós do Morro [ n.e. Grupo de arte e cultura criado em 1986 pelo jornalista Guti Fraga ], assim mesmo uma coisa meio distante. Eu não quero me aproximar muito porque vai sobrar pra mim dar aula disso, dar aula daquilo, e eu não tô muito afim. Sou amigo do cara que inventou isso lá, o Guti. Às vezes me chama e “Pô, você não foi ver a peça?” e eu digo “Rapaz, estou muito ocupado…”. Dei essa peça pra ele ler, essa peça que eu queria que virasse filme, e ele até hoje também não me respondou, mas de qualquer forma minha relação lá é muito boa, o pessoal me conhece muito, embora esteja sendo ameaçado pelo condomínio do prédio! [ risos ]
Dafne — Pior que a boca.
Sérgio Ricardo — Porque tive um inquilino que não pagou o condomínio, puta meu, e estourou na minha mão. O pessoal foi embora e quando eu peguei o apartamento de volta tinha uma dívida enorme que eu estou tendo que resolver, mas vai dar tudo certo.
Tacioli — Se você soubesse antes, avisava a boca…
Sérgio Ricardo — É, pois é. [ risos ]
Tacioli — Bom, acho que é isso.
Sérgio Ricardo — Acho que já deu, né, compadre? Eu estou falando feito um doido aqui.
Tacioli — Viu só? A gente falou que era mais de duas horas.
Sérgio Ricardo — Puta que pariu.
Tacioli — Você ia se foder com os shows.
Sérgio Ricardo — Depois disso aqui fazer um show? Vê se dava, pensa bem… Imagina como é que eu já não estou aqui.
Tacioli — Sérgio, como você lida com o fim?
Sérgio Ricardo — O fim?
Tacioli — Com a finitude, com o fim das coisas?
Sérgio Ricardo — Caramba, rapaz, que conversa profunda! É aquela porrada nos córneos. [ risos ] Eu vou te dar uma dica. Eu lido muito bem. Eu estava contando isso pro meu primo, ele pode confirmar: tive uma parada respiratória por causa de cigarro. Eu fumo muito. Aí, de repente, o ar não vinha, não vinha, não vinha, e eu digo “Já foi, né? Já era!”. Era aquela agonia, aquela agonia e, de repente, comecei a morrer, cara! Eu morri um pouquinho, morri durante uns cinco minutos, não deu pra contar os minutos porque eu não estava interessado [ risos ], mas num certo momento em que eu não respirava, não vinha ar de parte alguma, comecei a sentir uma coisa muito agradável, rapaz! Parece mentira! Um negócio de uma felicidade incrível… Já estava indo embora. “Que é isso? Que barato!… Coisa ótima!” e, de repente, “Pá!”. A respiração voltou… Acho que me acalmei, o pulmão deu uma sossegada e voltei a respirar. Fiquei horas querendo imaginar o que era aquilo… Aí perguntei aos médicos e todos me disseram a mesma coisa: “A morte, pelo que se sabe, é isso mesmo. Tem muita gente que teve essa passagem e volta. Inclusive tem gente que fica mais tempo. Não fiquei tanto tempo assim, mas tem gente que fica mais tempo e diz que é a mesma coisa, que começa a ficar tão interessante; é uma coisa belíssima, o que você sente é lindo e o que parece que você vai ver é uma coisa maravilhosa. Prefiro pensar que o fim é desse jeito, sabe? Tomara que seja assim porque é legal pra burro. Pô, rapaz, vocês precisam desligar, porque vocês são meio sem-vergonhas e vão querer botar tudo. [ risos ]
Tacioli — Se você falar pra não pôr, a gente não põe…
Almeida — É só falar.
Sérgio Ricardo — O cara foi castrado e apareceu na televisão. Vocês viram?
Almeida — Que é isso?!
Sérgio Ricardo — Um muçulmano que abusou de uma menina, sei lá se era moça ou mulher de alguém… E, de repente, ela estava lá olhando em uma praça pública, e os caras trouxeram o sujeito, botaram o pau dele pra fora e… “Vapt!”.
Almeida — Não foi cirúrgico…
Sérgio Ricardo — Você viu?
Almeida — Não, não, não! Não foi cirúrgico, foi na faca!
Sérgio Ricardo — Foi um facão, uma espada. “Vapt!” Você via o pinto pular pro outro lado… E o pinto bonito, rapaz… [ risos ] Pinto bonito é aquele que queríamos ter. Pô, coitado. Coitado do pinto! Mas o negócio de um cara ser decepado, a cabeça dele cai ali… Rapaz, ele vai se sentir ótimo, esse é que é o problema, isso que é engraçado. “Meu corpo!”… Ele vai ficar olhando o corpo dele.
Tacioli — Mas você tem uma relação com espiritualidade?
Sérgio Ricardo — Não. Há muito tempo, (tinha) casos de espiritualismo na família… Eu até acredito. Eu era uma espécie de… como é que se chama isso?
Cirino — Médium?
Sérgio Ricardo — Não, não era médium, era um doutrinador. O médium recebia um espírito sofredor. Taí uma certa contradição: minha função era conscientizar o cara que não sabe que morreu, por exemplo, que tinha recebido uma pedrada na cabeça, que ele tinha morrido, mas com habilidade porque senão ele não ia acreditar. Ele me avisavam: “Vai vir um cara assim, assim, assado”. Aí a gente esperava um pouquinho, descia o sujeito, que já via se contorcendo, e eu o tirava do negócio. Aí, depois de chorar ou de dar porrada pra caramba, ele começava a entrar naquele meu barato de ver coisas a parte e dizer “Poxa, mas que lugar lindo!”.
Tacioli — Mas você parou com isso?
Sérgio Ricardo — Parei, nunca mais fiz isso depois que me casei. Minha mulher era muito cética. Saí dessa e nunca mais retomei, mas tenho o maior respeito.
Almeida — Mas não é uma fonte de conforto existencial?
Sérgio Ricardo — Pra mim é quase uma realidade mesmo. Não carrego dúvidas sobre isso, mas admito que pode ser uma outra coisa também. Não tenho certeza absoluta nenhuma, nem mesmo desse episódio que aconteceu comigo. Não tenho certeza se é isso que vai acontecer quando estiver morrendo de verdade…
Tacioli — Sérgio, você foi comunista de se filiar (a partido)?
Sérgio Ricardo — Não, não, nunca fui de partido, não. Nunca me filiei a partido nenhum. Tenho as minhas contradições todas guardadinhas.
Tacioli — Sérgio, a derradeira: é ruim envelhecer?
Sérgio Ricardo — Não! Como eu estou envelhecendo é até uma boa; de vez em quando tenho vontade de ir embora logo, porque a vida começa a ficar muito repetitiva, você é cobrado das mesmas coisas, você enfrenta sempre as mesmas coisas, não há muito inusitado como vejo nos jovens. Por exemplo: comer uma grande mulher pra mim já não é mais problema; já passaram muitas (mulheres) boas na minha vida. Se é por causa disso, até que está tudo bem, entendeu? O problema é esse, cansa mesmo, tudo cansa na vida, a vida cansa… Bem, se eu estivesse aqui com 500 mulheres, como um sultão sei-lá-do-quê, talvez estivesse de saco cheio querendo ir embora do mesmo jeito, não se sabe. O grande problema é que envelhecer é bom, rapaz; o problema é ficar com o rabo preso com a consciência, entendeu? A consciência é o problema na hora que você vai dormir, porque como se tem o sono mais leve, qualquer pesadelozinho, qualquer coisa estranha, ela vem no seu sonho, e o sonho vem mais carregado de um drama… Não sei se é por causa do sangue que vai pra cabeça, não sei qual é o fenômeno, o fato é que às vezes acordo de um determinado raciocínio que me vem a mente (enquanto estou) dormindo, e fico em pé pro sangue descer, pra eu raciocinar sobre aquilo que aconteceu no sonho, para ver se ele tem tanta importância como eu estava dando. Sempre via que era um exagero. Agora, imagina (para) aquele que não é exagero, o que ele não sonha? Aí velhice deve ser brava.
Almeida — Você acha que você fez muita merda, Sérgio?
Sérgio Ricardo — Não, em termos que me dê (dor) na consciência, não. Fiz muita coisa errada, como todo mundo faz, né? Num certo sentido, poderia ter analisado um pouco melhor a minha vida e ter ficado numa coisa só, focado numa coisa só e hoje estaria numa outra situação. Mas a minha situação atual não me encabula… Me encabula quando eu estou com problemas econômicos, meio apertado; tenho muita gente que me socorre, como esse primo aí, ele é uma figuraça! Pronto: a única coisa que me chateia realmente é a falta de uma grana que me dê uma recompensa pelo que eu fiz… Agora, pra mim o dinheiro não vale nada, só vale assim, para essas coisas fundamentais, comer, ter um lugar onde morar, educar filho, mas fortuna? Não tenho nenhum apego a isso. Até gostaria de ser um pouco mais apegado, pelo menos para ter um equilíbrio maior, não ser tão chamado “porra louca”, mas aí, rapaz…
Tacioli — Isso pesa ainda? Os amigos falam “Pô, Sérgio!”…
Sérgio Ricardo — Não, ninguém… Todo mundo me dá força, é uma coisa engraçada porque também tem o caráter. Se você é mau caráter, você tá fudido, porque as pessoas sacam logo e te isolam. Eu não sou isolado, sou uma pessoa bem querida entre os meus amigos, na minha classe, tanto na classe musical, quanto na classe cinematográfica, sou um cara muito respeitado. Chico Buarque vive me ligando, João Bosco vive estando comigo, as pessoas me respeitam muito e gostam de mim. Então tenho assim um conforto de me sentir bem, não estar ressentido com nada; não tenho ressentimento! Aquela minha música é verdadeira: “Não tenho mágoas / Não me venha consolar / Mágoas são águas / Vão para o mar”. [ n.e. “Contra a maré”, do LP Do lago à cachoeira, Continental, 1979 ] Minha vida é essa aí, esse é meu hino. E é isso!
Tacioli — Beleza pura!
Dafne — É isso aí.
Tacioli — Sérgio, o que é uma boa canção de amor?
Sérgio Ricardo — Uma canção de amor é tudo, cara, é tudo, porque o amor é a melhor coisa que tem, né? Não tem conversa: pode discutir a política que você quiser, partido que você quiser, mas o amor é um partido só e só tem um caminho, fim de papo. Quanto mais amar, melhor, quanto mais amar, melhor.
Tacioli — Obrigado, Sérgio.
Sérgio Ricardo — De nada.

[ Enquanto equipe guarda o equipamento de áudio ]

Tacioli — Você viu que a gente deu uma passeada, né?
Sérgio Ricardo — Porra… Violento, hein! [ risos ]
Dafne — Uma montanha russa.
Tacioli — Durma bem!
Sérgio Ricardo — É, durmam bem.
Almeida — A gente vai aparecer no seu sonho.
Sérgio Ricardo — Mas se vocês aparecerem no meu sonho…
Almeida — Fica em pé logo.
Sérgio Ricardo — Se vocês aparecerem no meu sonho, eu vou levantar com o chicote da minha mãe. Rabo de tatu pra vocês verem o que é bom pra festa. [ Tosse ] Queria parar de fumar, puta que pariu!
Almeida — Você já tentou?
Sérgio Ricardo — Já. Esse quadro é meu.
Sérgio — Aceitam café?
Almeida — Ô, rapaz, eu tomo.
Cirino — Também.
Tacioli — Quatro com o Sérgio.
Sérgio Ricardo — Vai ter que encher o bulê.
Tacioli — Como você define sua pintura, Sérgio?
Sérgio Ricardo — Essa é uma arte em que posso dizer que sou um ensaísta…