Pandemia, ano zero

Gaía Passarelli
Mar 4 · 4 min read
Centro de São Paulo, vidada de 2020/21.

Da vida no meu apartamento há cerca de um ano o que mais me lembro é de certa percepção cinzenta da gravidade que hoje parece ingênua. Achava que ~isso aí ia durar uns meses. Sabia que seria grave, sim, não sabia o quanto. Sabia que teria que mudar de rotina, não sabia como. Sabia que o governo atrapalharia qualquer chance de salvar a população, mas não tinha imaginado cenas como as que vivemos hoje.

Em 2020, 15 de março caiu num domingo. Eu acordei e andei com meu filho até a Japan House. Sentamos no chão para ver uma animação projetada nas paredes do térreo, inspirada em motivos e lendas japonesas. Voltamos pra casa, almoçamos macarrão com tomates assados e manjericão, comida com jeito de domingo. De tarde, fiquei acompanhando pelo Twitter a manifestação dos idiotas na frente da FIESP. Pensei em ir até lá dar uma olhada, algo que já fiz muito na vida: me disfarçar de classe média alienada para me misturar aos imbecis, meio para morrer por dentro e meio para ver a crise de desinformação com meus próprios olhos. É útil, mas nesse dia não fui. A OMS tinha acabo de decretar oficialmente a pandemia. Um amigo escreveu e pediu: "fica aí, não sai de casa não”. Fiquei.

Nessa noite de domingo meu filho pegou um Uber pra voltar pra casa do pai, levando material de escola, computador e afins. O velho normal, ainda sem máscara. Foi na manhã seguinte que atentei para a seriedade da coisa, quando a sede da empresa, nos EUA, enviou um email global anunciando o fechamento físico de todos os escritórios no mundo. Sem previsão de reabertura. Nunca voltamos a trabalhar em escritório. Fiquei dois meses sem ver meu filho.

Nesse começo fui arrebatada por uma gripe que me grudou no sofá. Amigos preocupados, trouxeram comida, café, máscaras, álcool em gel. Ganhei um ácido preso num bilhete ‘pra quando tudo isso passar’. Não soube se foi uma cepa inicial da Covid, se foi uma outra gripe forte, se foi tristeza pelo que viria ou a Grande Ressaca Pós-Carnaval batendo com atraso. Não faz diferença e, cansada de esperar, o ácido eu tomei já tem uns seis meses.

Acho que foi em abril que começaram os panelaços das oito da noite. Participei por tédio e por raiva. Comecei a usar um áudio do Spotify com som de panelas e gritos depois de ter estragado uma frigideira boa. Nessa época os pronunciamentos do genocida eleito começaram a fazer a curva pro delírio completo e eu já sabia que estávamos numa montanha russa que só vai pra baixo. Mas não sabia quão baixo.

Maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro e tudo de novo. O tempo segue passando muito estranho, o passado recente é um borrão, não lembro sobre o que conversamos há dois dias. As coisas acontecem em espiral, os deja vu são diários. O isolamento é um lugar quentinho, mas que nem toda segurança interior é capaz de manter o espirito firme no Brasil de hoje.

Hábitos perdidos e adquiridos, perdidos de novo. Amores que inventei pra espantar o tédio, que passaram sem nem saber que foram amados. Receitas que aprendi a fazer, dietas para lidar com as bacterias da água paulistana, uma gastrite, crises de enxaqueca, insônias avassaladoras. Amizades deixadas pra trás, amizades conquistadas, amizades restauradas após anos de afastamento. O saudável hábito de fazer exercício, o saudável hábito de escrever todos os dias, o saudável hábito de deixar o celular fora do alcance depois das nove da noite, raras exceções pra tudo isso. Muita ficção pra me tirar de casa. Separar trabalho da vida, colocar cada coisa em seu lugar. A prática espiritual saiu do terreiro e se instalou na minha cozinha, no meu quarto, no canto da sala onde tento aprender a cuidar de plantas. Quando perguntam como estou, respondo que da porta pra dentro estou bem. É o que dá pra dizer, é muita coisa.

Não reclamo do tanto que a vida ficou morosa. E sonho muito com o amanhã — eu e você vacinados, é verão, o bloco passa na Dom José Gaspar, a banda toca, alguém joga água gelada do alto, eu te olho, você me olha, a gente se beija, te amo. Se chegar nesse lugar de novo, pelo menos um instante, eu sobrevivo. Mas sonho com mais. Sonho com sobreviver o suficiente para ir embora daqui e viver perto da grama, do sol, acordando cedinho para ver o orvalho. Sonho que a gente sobrevive.

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