A história sobre como eu comecei a contar histórias

Essa sou eu em 96, aos 6-7 anos, escrevendo (histórias!) no meu caderno & sendo uma irmã amorosa ao mesmo tempo ❤

Prólogo — Hoje

Há duas coisas especiais acontecendo no dia de hoje, 25 de julho de 2017: 1) é dia nacional do escritor e 2) depois de 6 anos como engenheira em uma grande multinacional, foi oficializada hoje a minha decisão de sair do meu emprego. Motivo: enfim vou tirar o tão planejado ano sabático para escrever e investir em projetos pessoais, quase todos ligados de alguma maneira à escrita e literatura.

Por ocasião do item 1, a interwebs está cheia de mensagens e relatos muito legais sobre a relação das pessoas com a escrita. Motivada por essa postagem muito linda do vitor martins e por ocasião do item 2, resolvi fazer essa retrospectiva justo esse ano — que, de uma forma ou de outra, já é um marco.

Capítulo 1 — O Bolinho ~ 1996

Eu aprendi a ler e a escrever em casa, com 4 anos, pra poder ler sozinha meus gibizinhos da Turma da Mônica (rezam lendas familiares). Cresci entre pais, tios e primos leitores, então sempre li muito e de tudo. Com uns 6 anos, comecei a brincar de criar e anotar minhas próprias historinhas, todas releituras ou cópias das coisas que lia ou assistia. Mais ou menos nessa época, meu pai arrumou um computador eu fui apresentada ao maravilhoso mundo do Microsoft Word. Foi nessa época que nasceu “O Caso do Bolinho” (inspirado, obviamente, neste livrinho de mesmo nome). Não sei se foi de fato a primeira história que tive a pachorra de passar dos caderninhos pro computador, mas é o arquivo mais antigo que eu tenho — preservado pela meticulosidade e carinho do meu pai, que fez questão de incluir meus escritos nos seus backups jurássicos. Segue abaixo um print de apreciação da minha primeira flash fiction.

O Caso do Bolinho — Tinha até uma clipart pro título

Capítulo 2— A Máquina ~ 2000

Produzi mais um monte de coisa parecida com “O Caso do Bolinho” nos anos que se seguiram. Enfim, quando já estava na ensino fundamental e tinha uns 10, 11 anos, comecei a criar coisas originais. Quer dizer, ainda eram amálgamas das coisas que eu consumia, claro, mas eu fazia um esforço consciente de criar histórias novas, coisas que eu gostaria de ler. A mais maravilhosamente ridícula de todas é a intitulada “A Máquina”. Era a história de um grupo de amigos (+ um cachorro) que tinham uma máquina do tempo e viviam altas aventuras. Não sei se dá pra dizer que era uma fantasia, mas desde essa época — muito por causa de A História Sem Fim e Fronteiras do Universo — esse já era meu gênero preferido de todos. Abaixo, uma demonstração de como eu criava títulos lindos (talento esse que perdi, infelizmente) e de como eu não tava nem aí com nada a ponto de sair quebrando a quarta parede no primeiro capítulo, mesmo… Haha…

A Máquina — Juro que eu tenho curiosidade pra saber o que se passava na cabeça da minha mãe quando ela lia essas coisas

Capítulo 3— A Fanfic ~ 2004

Também lá pro começo dos anos 2000 conheci Senhor dos Anéis, A Sétima Torre, Harry Potter. E, como boa parte dos escritores da minha idade, minha vida (e minha escrita) foi marcada pela magia. Nos anos que se seguiram, comecei a escrever coisas que definitivamente tendiam pra fantasia. Escrevia sobre jovens que tinham amuletos e espíritos animais (Power Ranger meets Fronteiras do Universo), sobre jovens que criavam criaturas nascidas de pedras chocadas sob influência de diferentes elementos (Fronteiras do Universo meets Pokémon), sobre uma turma de amigos que vivia altas aventuras amarrando jipes nas patas de falcões gigantes no alto de cachoeiras amazônicas (Senhor dos Anéis meets Tainá). Em 2004, quando estava entrando no colegial, mandei pela primeira vez um escrito meu para a apreciação alheia, da minha prima (que já era “adulta”, já na faculdade). E foi justamente minha primeira (e única) fanfic, uma história de Harry Potter passada numa escola brasileira (Colégio de Boaventura). Foi a primeira vez que tive um feedback, a primeira vez que senti um calorzinho no peito, e a primeira vez que senti orgulho de alguma coisa que eu mesma tinha escrito. Até hoje tenho um pouco de orgulho de ter criado um diretor pra escola brasileira que se chamava ONOFRE TOBIAS. Ainda vou usar esse nome.

Fanfic — Também ainda tenho muito orgulho dos títulos dos capítulos, que modéstia à parte são muito Rowling-escos

Capítulo 4— A Arara ~ 2008

Em 2007, comecei o estágio do colégio técnico e passei no vestibular pra Engenharia de Alimentos na UNICAMP. Eu trabalhava o dia inteiro, assistia às aulas até as 11pm e, aos fins de semana, estudava cálculo, física, geometria analítica e afins que nem uma maluca (não sei se ficou claro até esse ponto, mas eu sempre fui uma pessoa de Humanas, então calcule meu desespero). Acho que foi a pior época da minha vida: muitas fichas caindo, muita responsabilidade, muita cobrança, muita decepção, muita coisa pra fazer e nenhum tempo. Era pra eu ter desistido de escrever. Até hoje não sei de onde saia a força pra continuar a brincadeira de criar histórias. Como se não bastasse simplesmente continuar a escrever, foi nessa época que eu comecei a considerar a possibilidade de algum dia publicar alguma coisa. Não sei se tem algum significado mais profundo nisso, mas foi nessa época que eu escrevi minha primeira história com uma protagonista menina. N’Ovo era a história de uma menina que tinha uma conexão especial com uma arara por ter nascido exatamente no mesmo instante que ela. Ah: elas viviam em um mundo onde os continentes flutuavam e se moviam sobre o mar, o Mundo Móvel (sim, foi nessa época que eu assisti Waterworld). E ah (2): a história era cheia de notas de rodapés e comentários irônicos (sim, foi nessa época que eu li Terry Pratchett).

N’Ovo — Felizmente já tinha desistido de usar Comic Sans nessa época

Capítulo 5— A Galeria ~ 2013

Sei lá como, consegui a proeza de me formar em engenharia, estagiar e ser contratada na Unilever sem precisar desistir da escrita no processo. Assim que me livrei das aulas e dos números, a literatura imediatamente tomou todo o resto do meu tempo disponível. Foi quando resolvi me envolver mais com o mercado, estudar, ler muito e me dedicar a melhorar. Nessa época, conheci o Clube de Autores de Fantasia e, depois de várias conversas com um amigo — da faculdade, por incrível que pareça! — , tive a ideia do estabelecimento sobrenatural nos submundos de São Paulo onde, sob a gerência do Minotauro, a realização de qualquer desejo está sempre em estoque. Em 2015, escrevi e publiquei Lobo de Rua — primeiro em e-book, depois na minha versão física independente. Em 2016, publiquei Sombras e os direitos de Lobo de Rua foram comprado pela Editora Dame Blanche. E agora, na metade de 2017, começa o tal ano sabático.

Hoje, minha pasta de escrita tem 12,7aGB e quase 7500 itens

E lá se vão 21+ anos desde as minhas primeiras aventuras infantis na escrita de ficção. A vida de um adulto maior de idade tentando ser escritora.

Como já sabe quem acompanha o mercado ou as redes sociais, ser escritor — e não tô nem falando em viver da escrita, hein? — é difícil. Ser escritor no Brasil é mais difícil ainda. Ser escritor de ficção especulativa no Brasil, então, é difícil pra dedéu. Ser escritor independente ou iniciante de ficção especulativa no Brasil é…

Por que mesmo eu me enfiei nessa cilada?

Capítulo 6 — Continua…

Eu me enfiei nessa cilada — e aqui continuo — porque:

  1. Escrever é muito lindo e prazeroso. É lindo porque é pegar aquilo que a gente gosta de consumir, virar do avesso, misturar com aquilo que a gente vive e ver nascer mundos e pessoas e conflitos que poderiam muito bem ser “de verdade” — ou seja, é tipo mágica. E é prazeroso porque a gente se envolve tanto com o que criamos que é como viver várias vidas em uma. É como ler — 0que já é maravilhoso — multiplicado mil vezes. Além disso, ver uma ideia tomar forma é o processo que mais faz eu me orgulhar de mim mesma. E é muito bom achar que a gente é bom em alguma coisa.
  2. Escrever é tão lindo e prazeroso que a gente sente as coisas pelos outros. Eu sinto um friozinho alheio na barriga quando ouço alguém contando que tá começando ou voltando a escrever (tipo o Paulo Ratz nesse vídeo que saiu hoje). Eu sinto uma quentinho alheio no coração quando alguém publica que acabou um rascunho, ou resolveu um problema em algum manuscrito, ou teve uma ideia nova, ou recebeu um feedback, ou teve os direitos de alguma obra comprados.
  3. E, até por causa dessa brincadeira de sentir pelos outros, falar sobre escrita com outras pessoas que amam literatura é quase tão bom quando escrever. É muito gostoso ir a um evento e sentir todo mundo vibrando na mesma frequência, comparar processos, ajudar com ideias, discutir as tretas do mercado, ver outras histórias e mundos e personagens nascerem. Falar todo dia sobre literatura.
  4. Escrever é viver na expectativa. À primeira vista isso pode parecer ruim, mas no fundo é uma delícia sempre estar à espera da resposta de algum leitor beta, de alguma editora, dos leitores, da próxima ideia, da resposta daquela antologia. As frustrações existem quando as respostas são negativas, claro, mas quando elas são positivas, é tipo passar no vestibular de novo. Não consigo pensar em outro emprego assim.
  5. E, enfim, porque — clichê ou não — eu simplesmente não consigo ficar sem escrever. Por força da rotina, eu posso até ficar longos períodos sem digitar uma palavra atrás da outra (tipo na época em que eu cursava os últimos anos de engenharia, trabalhava e tentava viver), mas não tem um dia que eu passe sem pensar em algum projeto, e não tem uma noite em que eu durma sem sofrer por não ter escrito mais.

Acho que eu tenho ideia naquela minha pastinha pra escrever até os 150 anos de vida, isso sem contar as novas ideias que virão. E é por isso que essa seção ainda não se chama epílogo. Enquanto escrever me der tanto prazer, outros capítulos virão.

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