
Pedra e Flor
8 horas da manhã. Dois dias sem dormir. Mais dias do que posso contar comendo demais e picando papel, assim, de nervosa. Íamos desocupar ou, pelo menos, eles disseram.

Resistimos. 55 dias. Aos colegas, à família, à universidade, ao presidente ilegítimo. Aos golpes — vários — psicológicos, de cassetete, na nossa democracia, nos nossos direitos. Construímos uma casa, ocupamos uns aos outros. A Fabico mutou-se para algo nosso e nós para algo dela.
Éramos, no dia 31 de outubro, nômades: perdidos em ideias e ideais e muitos de nós, perdidos em meio a imensidão da vida. Com problemas familiares, com dificuldades com os amigos: nos achamos. Formamos a família que nos fazia falta, colocamos em prática a ideologia que nos afirmavam utópica, criamos muitas vezes a teoria por trás daquilo que já estávamos fazendo.

Plantamos no jardim da Fabico, florescemos juntos, mas sabemos que não vamos colher os frutos. Talvez essa seja a parte mais difícil da nossa jornada. A cada bomba de gás, tiro de borracha, cacetada, nos reorganizamos, nos unimos e re-existimos, para suportar os próximos 20 anos de retrocesso, para suportar as pecs e as mps que nos mutilam e nos matam todos os dias. O papel assinado e legalizado do que sempre fizeram na periferia.
Colorimos. Colorimos a fabico, colorimos a rua, colorimos uns aos outros. Encaixamos cartazes por todas as paredes dos prédios antes gélidos e da elite. Agora, um quebra-cabeças de empatia, de esperança num futuro em que não mais se precise resistir para existir. Olhamos nos olhos do sistema para lembrá-lo — todos os dias — que não aceitaremos mais alguém no papel do opressor.

As 8 horas aconteceu a vistoria do prédio, do meu prédio, da minha casa. Eu lembro de estar exausta, de olhar para as outras pessoas que vivem comigo, compartilham comigo tudo, e ver em seus rostos o cansaço estampado. Cansaço das perdas que ainda estão por vir e daquelas que vivemos juntos. Cansaço de voltar para uma rotina em que somos rebeldes, talvez loucos, a festa estranha e com gente esquisita pairando pelos outros.
Nos abraçamos, saímos do prédio público ocupado e dos 11 crimes federais que cometíamos de mãos dadas. Afinal, nós não deixamos ninguém para trás. Não é como se fossemos conseguir nos separar mais. Tem algo de especial na união daqueles que sofrem as mesmas perdas, que participam das mesmas batalhas e que se encontram com a mesma esperança.
