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Os percalços na vida de quem precisa sair de casa para estudar
Roupas dobradas dentro das malas, cobertores enrolados e livros sendo retirados das estantes: é a terceira vez que a estudante Camila Guimarães faz o trajeto Porto Alegre-Florianópolis desde que foi aprovada no vestibular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Da primeira vez, foi fazer a matrícula, conhecer os colegas de curso e procurar lugares para morar; da segunda, levou parte de suas coisas e conheceu as meninas com quem dividirá apartamento. Agora, Camila vai em definitivo, vai começar sua vida de caloura no curso de direito, vai viver longe de casa.
A gaúcha de 21 anos viu na UFSC a oportunidade de realizar o sonho de graduar-se em direito. Ex-estudante de escola pública, Camila é a primeira da família a ingressar no ensino superior em uma universidade federal.

Ela conta que o processo de encontrar um local para morar com preço acessível foi difícil e envolveu muita pesquisa e planejamento. Alimentar-se longe de casa também se torna um obstáculo a ser superado, ela só terá acesso ao restaurante universitário a partir do dia 22 de julho e os resultados dos editais para auxílios estudantis só saem em setembro. Até lá, Camila tem cozinhado em casa, mas “comprar comida sai caro”, afirma a estudante.
Por ser negra e pobre, Camila buscou pessoas com vivências parecidas com as dela, assim, encontrou outras mulheres negras que também cursam direito e que vão ajudá-la no processo de adaptação ao novo estado e nova realidade. “A universidade é elitista, composta por brancos, majoritariamente. Na minha turma, eu sou a única negra e devido a isso eu sei que terei de me impor mais para que os outros alunos, com realidades diferentes da minha, possam me escutar. Escutar as minhas dores, a minha vivência, a luta das mulheres negras e a solidão em diversos âmbitos.”
“Quando eu digo que sou caloura de direito, recebo muitos questionamentos, do porque de eu ter escolhido essa área, que na visão de muitos, não é para mim, por ser tão difícil. […] E eu sei que os questionamentos sobre o curso e a dúvida de eu ser inteligente está ligada ao fato de eu ser uma mulher negra.”
No segundo ano de faculdade, o estudante Glauber Cruz, 24, partilha de algumas das dificuldades de Camila. Morador da Casa do Estudante Universitário (CEU), o futuro jornalista saiu de Alegrete, sua cidade natal, em 2015, quando passou na UFRGS. De sorriso pronto e olhos brilhantes, ele cuida o horário de falar com a mãe no telefone — que liga religiosamente toda noite — para partilhar suas vivências com ela que, assim como o filho, morou na capital quando jovem.
Os amigos, a família e o namorado que ficaram na cidade natal, o estudante vê quando dá. Mas ele se mantém firme na escolha de sair de casa, foram quatro anos até decidir por estudar jornalismo e migrar para Porto Alegre. Um sonho, que agora ele constrói aos poucos.
Glauber já morou em três lugares diferentes desde que saiu da casa da mãe. Logo que chegou à capital ficou alguns meses morando com uma amiga, que era professora em Alegrete, cidade onde ambos nasceram. Ela fez o mesmo trajeto de Glauber, cerca de dois anos antes, para lecionar na capital. Quando o estudante chegou à cidade, encontrou na amiga seu porto-seguro.

Do aconchego familiar da casa da professora, o jovem foi morar na CEUPA (Casa Estudantil Universitária de Porto Alegre), um lugar independente, composto por pequenos apartamentos, onde moram por vez cerca de quatro estudantes. A casa, segundo o futuro jornalista, possui uma boa estrutura de moradia. O espaço contava com área de estudos e de convivência, além de banheiros e cozinhas em cada apartamento.
Em abril de 2016, Glauber passou no processo seletivo da CEU (Casa do Estudante Universitário), uma casa gratuita e, portanto, “mais em conta”, exclusiva para estudantes da UFRGS. Lá, a dinâmica é bem diferente de sua moradia anterior: “(a CEUPA) é uma coisa mais próxima da ideia de casa, o que não tem na CEU. A CEU é completamente diferente. São corredores longos, assim, tem muitos banheiros, que eu divido com as pessoas do mesmo andar que eu.” O quarto é todo o universo que o estudante chama de seu, uma vez que, com mais de 400 alunos distribuídos em oito andares os espaços comuns acabam se tornando impessoais, insuficientes e precários.
“As vezes bate aquela sensação de que tu está muito vulnerável e que tu não tem nada e que, tipo, tu está num espaço ali que é minúsculo e que tu não tem muitas coisas pra dizer que são tuas.” A assistência estudantil da UFRGS é ínfima, o que dificulta a rotina do estudante, que divide uma única máquina de lavar com outros 400 estudantes, assim como a cozinha, que é coletiva e que algumas vezes teve problemas para entregar trabalhos por não conseguir se concentrar para estudar por conta da falta de infraestrutura.

“A UFRGS, em termos de assistência estudantil, já é bem sabido, é muito fraca, e a gente que vive 100% da universidade sente isso muito. Porque eu durmo em lugar cedido pela UFRGS, eu como a comida “cedida” pela UFRGS. Tudo na minha vida tem relação com a universidade. Meu salário é da UFRGS. Eu estudo na UFRGS. É tudo muito relacionado à UFRGS, então aí a gente sente direto que é muito fraco e muito pouco. Tipo, receber 120 reais pra se alimentar durante um mês (o estudante faz alusão ao período em que o Restaurante Universitário ficou fechado e os estudantes moradores da CEU, que fazem no RU as refeições de café da manhã, almoço e janta, receberam a quantia de 120 reais como um auxílio que deveria cobrir os custos de sua alimentação por um mês inteiro)”
Apesar de a Assistência Estudantil da universidade ser incipiente, Glauber tem uma rede de amigos que o ajuda a se estruturar nos momentos difíceis. É com eles que ele faz passeios nos finais de semana e refeições quando precisa, lava roupas e faz trabalhos acadêmicos quando a internet da CEU não funciona. É em suas casas que ele encontra refúgio quando lhe falta um carinho ou a estrutura que o Estado deveria prover.
Vir morar em Porto Alegre, embora difícil em alguns momentos, é algo de que ele não se arrepende: “Quando eu peso as coisas eu vejo que tô vivendo muito mais coisas legais do que ruins. As pessoas que eu conheci são pessoas que, nossa, se eu não conhecesse a minha vida seria bem menos divertida, bem menos interessante.”
“As vezes bate aquela sensação de que tu está muito vulnerável e que tu não tem nada e que, tipo, tu está num espaço ali que é minúsculo e que tu não tem muitas coisas pra dizer que são tuas.”
Para a psicóloga Márcia Pereira, situações como as de Camila e Glauber, em que os estudantes saíram cedo de casa, influenciam na formação da persona, embora o amadurecimento esteja relacionado com a formação de cada indivíduo.

Apesar das dificuldades, a especialista lembra que “entrar cedo para a universidade não quer dizer sofrimento, depende da rede em que o indivíduo está inserido, sua família, a instituição que frequenta, seus professores.” Para Márcia, o principal determinante da forma como o jovem que migra de cidade vai enfrentar os percalços do caminho, que podem gerar problemas de saúde mental, está ligado ao termo potência de vida: “O conceito de Friedrich Nietzsche, potência de vida, significa os recursos internos que o indivíduo cria para se relacionar com as pessoas que vai conhecer pelo caminho.” Nesse sentido, a psicóloga acredita ser fundamental a base familiar e das instituições que permeiam a vida do estudante ao longo de sua formação enquanto indivíduo para que ele possa aprender a lidar com as situações as quais é imposto.
Márcia frisa que “é preciso levar em consideração a riqueza da experiência , as vivências, aprendizados e desenvolvimento intelectual ligados à viver longe de casa”, quando opta-se por sair da cidade natal. “Apesar do declínio do conceito de público, como vemos na CEU, onde é necessário mais apoio governamental, existem nas universidades públicas redes de apoio ao estudante, como serviços de apoio psicológico e coletivos de acolhimento criados, muitas vezes, pelos próprios alunos das universidades.”
Mesmo com empecilhos causados pela sociedade, ter saído de casa auxiliou Glauber em seu processo de afirmação: “isso me ajudou ainda mais a reforçar a minha identidade como negro e como gay. Eu acho que ajudou muito. E os tensionamentos ajudaram pra isso também.” Além disso, as vivências na capital gaúcha foram também um diferencial em sua formação enquanto profissional e pessoa: “Passar pelas coisas que eu passei me ajudou a ficar maduro e lidar com as coisas mais facilmente.”
Camila, assim como Glauber, é resiliente ao falar de seu futuro, segundo ela: “morar em Santa Catarina é resistir todos os dias. É não ter representatividade. É olhar para o lado e ver um estado predominantemente branco e, em sua maioria, com características eurocêntricas bem acentuadas que são valorizadas como: cabelos lisos, loiros e traços finos.”
