Face the Raven

Resenha do episódio 9x10 de Doctor Who

Alerta: o seguinte texto contém spoilers.

Lembre-se: 82.” Bem que o Doutor avisou. Em 1982, foi exibido Earthshock, com a despedida de Adric, este arco foi a última vez que um companion morreu em Doctor Who. Em Face the Raven foi a vez de Clara Oswald enfrentar o seu destino e se despedir da série.

O episódio desta semana é aberto com o Doutor e Clara voltando de mais uma de suas aventuras fora das telas. Um clima de alegria, ao som da música contagiante de Murray Gold, toma conta do Senhor do Tempo e sua companion. Mas a animação dura pouca: Rigsy, de Flatline, liga para o número da TARDIS com problemas.

Vemos relances de como a vida do personagem se desenvolveu depois dos eventos da temporada passada. Rigsy está casado e tem uma filha. Um dos pontos altos desta parte é ver a relação do Doutor com o bebê Lucy. O 12º Doutor também uma ótima desenvoltura com crianças.

Essa cena e todo o começo do episódio é muito divertido. O clima investigativo, com o Doutor e Clara ajudando Rigsy a descobrir onde ele conseguiu a mortal tatuagem com contagem regressiva. Temos aí algumas referências interessantes, como a cena do “lembre-se: 82”, citada acima, a volta dos cartões do Doutor, vistos em Under the Lake, além de menções à retcon, a droga de amnésia recorrente em Torchwood.

Clara vivendo no limite.

Este começo do episódio alivia um pouco a tensão, mas ao mesmo tempo coloca as apostas da história no máximo. A vida do Rigsy está em risco. Da mesma forma, o destino da Clara é prenunciado, mostrando a companion cada vez mais imprudente, se pendurando na TARDIS — como o Doutor em The Day of the Doctor.

A partir do ponto que o Rigsy consegue se lembrar da rua ilusória (outro conceito muito interessante da história, ao melhor estilo beco diagonal), o episódio vai se distanciando do clima de aventura de seu começo e começa a explorar tons de tragédia e tensão.

Na rua ilusória, o episódio começa a se conectar com o arco da temporada, com a volta de Ashildr — a Prefeita “Eu” — e presença de muitos alienígenas refugiados na Terra, mas isolados do resto da população. Ao contrário dos Zygons, como a Prefeita menciona. Vemos aí a presença de Oods, Judoon, Sontaran e Cybermen. Também são citados circuitos de desorientação, uma possível evolução do conceito de filtros de percepção, citados na série anteriormente.

Contudo, a sociedade que Ashildr criou para os refugiados está longe da ideal. Qualquer violação às regras significa a pena de morte. Significa encarar o Corvo. Mas existe uma maneira de sobreviver:

A morte já está travada. Você pode passá-la em frente, mas não pode enganá-la.

Clara decide tentar ganhar tempo, pedindo para que Rigsy lhe passe a sua pena de morte. Infelizmente, não existe mais como acompanhar a série sem ter visto a notícia de que a Jenna Coleman deixaria Doctor Who. Assim, fica claro já aí que a morte da companion era inevitável.

A princípio, não havia nada de errado com o plano da Clara. Afinal a companion de fato estava sob proteção de Ashildr. Ela foi esperta, seguiu os ensinamentos do Doutor e colocou o plano do inimigo contra ele mesmo. Além disso ela pensou na segurança dos outros antes da sua própria. Clara fez o que o Doutor, em circunstâncias diferentes, fez muitas vezes. Mas como o próprio Senhor do Tempo mencionou, ele não tem nada de especial, é apenas menos quebrável do que ela.

O ponto alto deste episódio foi proporcionar uma saída de companion sem ser no final da temporada, permitindo muito mais tempo para fazer a despedida digna e sem roubar tempo dos muitos eventos aguardados para Heaven Sent e Hell Bent.

Desta forma, a despedida da Clara foi executada com maestria, com um roteiro excelente e atuações fantásticas dos dois protagonistas. Logo após saber o destino de sua companion o Doutor sai dos trilhos e liberta toda a ira de um Senhor do Tempo sobre Ashildr. Mas o 12º Doutor conta com uma compostura que faz com que suas explosões de raiva sejam ainda mais assustadores do que com os Doutores anteriores.

“Não corra. Fique comigo.”

Mas então, assim como o fez durante quando o Senhor do Tempo estava prestes a destruir Gallifrey, Clara pediu para para que ele fosse um Doutor, não um guerreiro. Mesmo em seus últimos instantes de vida, Clara Oswald nunca deixou de estar lá pelo Doutor.

A morte de Clara Oswald foi uma das mais tristes e bonitas da história da série. Seus gritos foram abafados pela música triunfante de Murray Gold, que após bastante tempo adotando trilhas mais minimalistas, volta a criar uma faixa épica para a trilha sonora de Doctor Who.

Outra característica técnica que merece ser elogiada é a fotografia do episódio, que desde a primeira cena foi muito bonita, chegando ao ápice nas composições de cena dentro da rua ilusória. Também vale citar a figurino do Doutor. O casado bordô deste episódio combina perfeitamente com o 12º Doutor e espero que entre em definitivo no guarda-roupa desta encarnação, que ainda não teve uma roupa tão emblemática como os anteriores (até agora).

Esse excepcional episódio se encerra com o Doutor sendo teletransportado para um destino não conhecido, conforme “eles” mandaram Ashildr fazer. Toda a situação, dado o contexto da temporada e as sinopses dos próximos episódios, grita Gallifrey. Ao que tudo indica o Senhores do Tempo estão por trás de tudo e terão que lidar com um Doutor muito irritado.

Recomendo fortemente que você fique fora do meu caminho. Você vai descobrir que este é um universo muito pequeno quanto estou bravo com você.

Como isto tudo irá se relacionar com as profecias do Híbrido e confissão do Doutor, temos que esperar para ver o que Moffat nos preparou para este finale.

Sobre o este episódio episódio, é seguro concluir que a estreante Sarah Dollard fez com Face the Raven marcasse de forma digna a saída de uma companion incrível — que enfrentou o corvo com bravura.


PS: Para aqueles achando que o Doutor deixou o corpo da Clara caído na rua, recomendo que leiam o roteiro original do episódio, liberado pela BBC.

PPS: O título Face the Raven é uma referência ao poema “O Corvo” (“The Raven”, no original) de Edgar Allan Poe, que conta a história de um homem que enlouquece por causa da morte da mulher que amava.


Ficha técnica

  • Roteiro: Sarah Dollard
  • Direção: Justin Molotnikov
  • Elenco principal: Peter Capaldi (12º Doutor) e Jenna Coleman (Clara Oswald)
  • Exibição original: 21 de novembro de 2015