
Não sei se compartilhamos do mesmo espanto, mas é que 2020 realmente já está esmurrando a porta. Na memória, parece que nem faz tanto tempo assim que Gareth Bale trocou a 16 pela 3 (antes de vestir a 11) e Harry Redknapp reluzia como a face do futuro, mas muita água passou desde então.
Veja o melhor Tottenham da década aqui
Com a beirada da década se aproximando, demos uma escrafunchada nas equipes que foram à campo vestindo branco e azul de 2010 pra cá, a fim de definir os melhores e os piores jogadores do período. Depois de uma votação democrática realizada pela mais alta cúpula de integrantes deste portal, listamos os respectivos onze iniciais, técnicos e suplentes.
Leia, reflita e, é claro, dê seu pitaco:

Michel Vorm
O não tão bom filho tornou à casa para te lembrar de reabastecer o estoque de Neosaldina. Houve uma discussão de que talvez Vorm não merecesse esse posto por ter feito, em média, menos de dez jogos por ano durante sua primeira passagem pelo clube. A dúvida caberia se o holandês não tivesse sofrido literalmente 47 gols em 47 jogos vestindo lilywhite — pra não falar das patacoadas rotineiras, bolas nos pés de atacantes e saídas da meta como quem corre pra impedir que o gato entre no quarto.

William Gallas
Uma Tábata Amaral para chamar de nossa: se vendeu (e foi vendido) como o acerto de contas por Sol Campbell, mas acabou sendo o maior cavalo de Troia que o time de Woolwich desovou na história recente. É impossível esquecer de todas as bolas afastadas da entrada da área para a entrada da área, dos carrinhos que derrubaram dezenas de placas de publicidade e dos sorrisos irônicos que vinham como a cereja do bolo depois de cada bagreada.

Federico Fazio
Repito sempre que posso: o problema de Fazio nunca foi ele próprio. O argentino é corpulento, agressivo, tem senso de liderança e uma inteligência considerável pra tomada de decisões. O problema, na verdade, é que ele não perseguiu a carreira de segurança de festa ou mensageiro de hotel. A maior parcela de culpa sempre é de quem dá asa à cobra. Essa cobaia descartada, então, entra na lista por ter insistido no caminho errado ao longo de toda a vida. E por ser lerdo pra caralho.

Sebastien Bassong
Você não está sozinho se, na época, preferia sacrificar os últimos miúdos da cartilagem em volta do joelho de Ledley King, que já parecia um strogonoff de nervos, pra não ver esse platelminto em campo. Refinado como um potro recém-nascido, Bassong chegou antes da virada da década justamente para aliviar a barra do capitão e fazer sombra ao experiente Jonathan Woodgate e o pródigo Michael Dawson, mas falhou em absolutamente todas as missões às quais foi designado.

Kyle Naughton
Quem viu, viu. Saído da base do Sheffield United, Naughton queria repetir os passos de seu xará com sobrenome Walker (que na época foi o melhor jogador jovem do campeonato) na beirada oposta do gramado. Mas desde que Charles Darwin apareceu com o conceito de seleção natural, o universo sabia que as coisas não seriam fáceis para o jovem defensor. Nosso Australopithecus de proveta, Naughton adaptou-se de todas as formas possíveis visando a sobrevivência, mas foi engolido pela própria ineficiência até ser despejado onde outras formas de vida não tão bem desenvolvidas também tiveram seu destino final: Swansea.

Jake Livermore
Nem as mais criativas adjetivações são capazes de definir como era doloroso ver aquela camisa 29 em campo. Em muito tempo de futebol, vi pouquíssimos atletas tão bisonhos atuarem em uma equipe de (suposto) alto nível; Jake fazia qualquer Jumar parecer Fernando Redondo. Esse ser humano abjeto, além de excruciantemente ruim e assustadoramente burro, ainda era arrogante e sem vergonha. Dentre seus maiores defeitos, porém, o pior era ser titular com alguma frequência.

Benjamin Stambouli
Nunca dá pra confiar de bate pronto em nada que vem do futebol francês. Benji é aquele jogador que tentamos defender desde antes de entrar em campo, porque, sei lá, tem nome chique e cara de mafioso. Exibimos seus pontos fortes no WhoScored e um Vine de um lançamento contra o Angers em casa (que o Renato Cajá dá toda semana há 20 anos). Horripilante e problemático, Stambouli foi um fiasco total. Precisou voltar para o Torneio Interfarms o quanto antes para recuperar seu valor de mercado. Por aqui, porém, 7 milhões de euros nunca saíram tão caro.

Paulinho
José Paulo Bezerra Maciel Júnior nem de longe está entre os piores jogadores que já vestiram a camisa do Tottenham, mas foi, sem sombra de dúvidas, o maior flop da década. Enquanto a imprensa nacional fazia questão de colocar a culpa do insucesso do volante na rixa entre um craque brasileiro e um treinador argentino, Little Paul corria pelas intermediárias como uma barata presa no banheiro semana após semana. Testado em dezesseis posições diferentes, passou vergonha em dezessete. Saiu chutado pela porta dos fundos e foi votado pela torcida (em enquete da FourFourTwo) como o pior jogador da história do clube — um exagero simbólico.

Lewis Holtby
De bom, só sua música entoada pela torcida ao ritmo de “Just Can’t Get Enough”, do Depeche Mode. A enceradeira humana foi um tiro no escuro da diretoria; já que o time precisava de um volante e um meia, contrataram uma ameba loira que se perdia tentando falhar nas duas funções ao mesmo tempo. Seu ponto mais alto nos Spurs foi ter traído a namorada com uma aeromoça que conhecera no voo após a partida contra o Cardiff, em Gales. Ao Bild, a aeromoça confessou que a atuação do jogador na cama não foi ruim como as em campo.

Giovani dos Santos
O quase-craque mexicano chegou do Barcelona como uma das grandes promessas da década que viria. Quem viu seus clipes certamente se arrepiou com a incisividade e criatividade do meia, que traria mais entusiasmo à equipe de Juande Ramos. Virou o ano de 2010 e Gio ainda podia contar com os dedos de uma mão quantas jogadas tinha completado sem deixar a bola sair pela linha de fundo ou pela lateral. Assistir a seleção mexicana nas últimas Copas do Mundo faz parecer impossível imaginar como caralhos o autor de atuações tão magníficas possa ter sido um energúmeno tão irritante em seus dias vestindo branco e azul.

Vincent Janssen
O momento mais glorioso do holandês em sua passagem pelo Tottenham foi uma deixadinha desengonçada com o calcanhar numa bola rápida e rasteira. O toque, é claro, despontou errado de seus pés; o jeito que a bola percorre sua curta trajetória sugere que o passe quis ter sido mais cadenciado, mais colocado e menos torto. Acontece que, se tivesse saído como o planejado pelo camisa 9, o passe teria parado no primeiro zagueiro. Como não saiu, virou a assistência que decidiu o jogo nos acréscimos. Então, veja, parece que até o destino tentou ajudar, mas nem assim Vince conseguiu se desvencilhar do pântano de bosta no qual parecia estar preso e mergulhado até o nariz desde que chegou.

Técnico:
André Villas-Boas
Se hoje você reclama do Tottenham não gastar dinheiro, é para esse gajo que você deve apontar o dedo. O piloto de rally foi incumbido de reger o tão esperado passo adiante na elite do futebol inglês, mas em pouco tempo tornou-se o maior responsável pelos dois passos para trás que a equipe deu, já parecendo um Stoke City que não sabia bater laterais. Enquanto outros tiraram leite de pedra, Villas-Boas fez apodrecer um semi-desnatado de caixinha.
Banco de reservas:
Gomes, Yedlin, Fryers, Carroll, Pienaar, N’Jie, Soldado
Entre os suplentes, Heurelho Gomes é o que menos tinha cara de que estaria na lista, mas convenhamos: seus erros foram os que mais custaram caro nesse período. DeAndre Yedlin, o americano que ganhou do Messi na corrida, é outro que pegou a fila errada na hora de escolher o esporte na educação física e insistiu no erro. Já a cria de Alex Ferguson, Zeki Fryers, é a representação viva do termo “cagar de jaqueta”.
Tommy Carroll também não foi dos piores, mas pesou a frustração por vermos aquele que projetamos para ser novo Xavi tornar-se um Rodrigo Possebon desnutrido. Pienaar e N’Jie têm pouco a ser falado porque pouco fizeram, mas esse pouco foi o bastante para entendermos que os critérios de avaliação no recrutamento de atletas são pouquíssimo exigentes. Por fim, o matador Roberto Soldado é um homem que não precisa de introduções; termino esse texto com esse clipe tosco do espanhol errando o gol a um metro da trave com o jogo literalmente parado durante uma comemoração.


