Tá sentindo essa raiva nas ruas?

Franquia clássica Streets of Rage ganhará novo game e esse é o momento perfeito para recapitular um pouco dessa história toda

Lucas Oliveira
Aug 31, 2018 · 7 min read

Início dos anos 1990. A rivalidade entre Sega e Nintendo estava tomando formas cada vez mais acentuadas e cada uma tentava fazer seu melhor dentro do possível. Seja com investimentos em novos chips de processamento que pudessem superar os da concorrência ou com funcionalidades que não seriam encontradas no rival (só como exemplo, a versão do Mega Drive de Mortal Kombat tinha sangue, mas as dos consoles da Nintendo, não), é certo que essa treta toda contribuiu muito para o que a indústria de videogames seria anos mais tarde.

Nessa época Final Fight estava fazendo um baita sucesso lá no Japão (sobretudo a versão caseira para Super Nintendo) e a produtora do jogo, a Capcom, estava bastante clara de que lado estava nessa briga. Ela queria ver seus jogos ao lado de Mario, Link, Donkey Kong e companhia. A casa do Sonic já tinha uns bons beat-’em-ups pra chamar de seus — Golden Axe e Alien Storm rendiam boas conversas nos intervalos de aula — mas a maior parte eram ports de versões arcade, e aquilo não estava dando o retorno esperado. A Sega viu ali que já era hora de ter um jogo próprio nos moldes de Final Fight: urbano, sujo, com gangues e símbolos que traduzissem em tela toda aquela carga oitentista de onde o mundo estava vindo. Chamaram esse jogo de Streets of Rage.

Bom, não exatamente. No Japão o game se chamava Bare Knuckle: Furious Iron Fist e, por mais que você pudesse pegar uns canos e facas no meio do caminho, o título dizia muito sobre o jogo. O título ocidental, mais simples e bruto, parecia fazer ainda mais alusão ao estado em que se encontrava algumas regiões dos Estados Unidos (a própria cidade do jogo foi diretamente inspirada em Nova Iorque). O fato de que os três personagens jogáveis — Blaze, Adam e Axel — eram policiais não foi uma escolha gratuita, claro, mas sim uma tentativa de espelhamento das ansiedades de uma sociedade que via na brutalidade policial a resposta para a situação de abandono na qual as ruas pareciam se encontrar. Policiais que estavam dentro da lei, e que em um momento máximo de senso de justiça poderiam contar com um ataque especial que ali era o ápice do fetiche militar — uma rajada de metralhadoras ou bazucas.

Vendo hoje em dia, a ambientação não foi o único elemento inspirado na mídia e cultura dos anos 1980. Axel, o menino dos olhos da franquia, apresentava cabelo loiro, olhos azuis, calça jeans e regata, enquanto Blaze usava saia curta e blusa decotada. A cultura da hiper sexualização de personagens femininas em jogos estava só começando, assim como a imagem do homem musculoso, padrão de beleza e símbolo de liderança ainda teria muito o que mostrar. Essa caracterização é bem estranha contando que eles são, bem… policiais. O personagem que fecha o trio original, do primeiro game, é Adam, um jovem negro que se destacou no boxe e que curiosamente não volta para o segundo jogo da franquia. Em entrevista concedida ao shmuplations, Ayano Koshiro, uma das principais responsáveis pelos jogos, afirmou que Adam “não tinha nenhuma especialidade que o destacasse dos outros personagens”, ainda que, se a gente ver, a jogabilidade dos três personagens não tinha muita diferença. Sei lá do que você estava falando, dona Koshiro :P

Falando na continuação, Streets of Rage 2 foi muito maior que o primeiro. Mais animações, cenários mais bem trabalhados, mais chefes… Dois novos personagens jogáveis: Sammy (irmão do sumido Adam) e Max. Koshiro afirmou que a equipe sempre tentava colocar “características marcantes da época” nos personagens, daí o gosto de Blaze por lambada (!) e a paixão de Sammy pelos skates. Enquanto isso, cabia à Max ser o power house do grupo, com visual e golpes retirados diretamente do pro wrestling estadunidense. O segundo capítulo da saga fez um baita sucesso e colocou Streets of Rage na lista dos maiores beat-’em-ups da história. O gameplay, os gráficos, os personagens, tudo era tão acertado que é até impossível não relevar a despirocada que a produção deu ao desenhar fases super diferentes umas das outras sem contexto algum, como um navio pirata e uma caverna que parece ter sido retirada diretamente dos filmes de Alien.

Foi ainda este segundo jogo que consolidou a carreira de Yuzo Koshiro, o cara que compôs a trilha sonora do game. Aaaah, a trilha sonora de Streets of Rage… Koshiro já havia trabalhado no áudio de vários jogos, como The Revenge of Shinobi, Misty Blue e The Scheme. Em uma entrevista concedia à Red Bull Music Academy, ele disse que eventualmente foi escolhido para compor a trilha do tal Streets of Rage, mas a Sega não explicou bem o que eles queriam, e coube a Yuzo apresentar suas ideias. Na época o Mega Drive estava fazendo um baita sucesso nos Estados Unidos, mais até que no Japão, assim como uma batida um tanto quanto gostosa chamada MÚSICA DE BOATE (ou como Koshiro chama, “club music”), que deixou o compositor atônito assim que a descobriu em uma viagem à Los Angeles.

“(A club music) não era tão conhecida no Japão naquela época. Mas especialmente na América do Norte, onde o Mega Drive estava vendendo, a club music tocava direto na MTV e tal. Então eu sabia que eles amavam club music e pensei em colocar isso nas músicas de jogos, o que os deixaria bem felizes. Acho que foi a primeira vez que compus música para o mercado estrangeiro em vez do mercado japonês.”

Yuzo acabou convencendo a galera da Sega de que aquele estilo ali seria perfeito para o novo jogo deles, e ele não poderia estar mais certo. A trilha do jogo não só ficou ÓTIMA, como ajudou a consolidar toda uma legião de fãs de game music. Koshiro também ficou responsável pela composição das trilhas de Streets of Rage 2 e 3, embora o último game apresentasse uma trilha bem diferente daquilo que os dois primeiros tinham, e os fãs tenham torcido o nariz.

“Em 1994, o motivo pelo qual eu tentei fazer este tipo de faixa foi porque eu queria reproduzir o som que eu escutava no (clube noturno) Yellow. (…) Não sabia como seria aceita, mas pelo menos a Sega aceitou. A música não foi bem recebida pelos ouvintes. Lembro de escutar algumas pessoas dizendo que aquilo nem era música. (…) Até hoje escuto algumas delas dizendo que não a entendem muito bem.”

Tá tudo bem, Yuzo, tá tudo bem. Você não precisa se sentir mal pela trilha sonora de Streets of Rage 3, até porque depois disso tudo você ficou super famoso, continua compondo para jogos e tocando em festivais de música. Você é o cara.

Inclusive, a trilha sonora não foi o único passo errado de SoR3. Um canguru e um velho ciborgue como personagens jogáveis e uma trama sci-fi ATÉ DE MAIS não fizeram com que o terceiro jogo estourasse tanto quanto os outros. Streets 3 bebia direto de filmes como Exterminador do Futuro e RoboCop, que estavam com tudo na época, e pretendia levantar um debate ~futurista e questionador~ sobre a presença de máquinas nos universos dos crimes e da justiça. O chefe final mais uma vez era Mr. X, líder do Sindicato do crime. Só que depois de tanto levar pancada de policial, ele aqui nada mais era do que um cérebro dentro de um vidro que comandava tudo só com o pensamento. No geral, a causa toda é até nobre, vá lá. Mas não rolou, né.

A gente ficou com esse gostinho amargo na boca por muito tempo, mas esse momento é nosso! Foi preciso VINTE E QUATRO anos para que Streets of Rage 4 fosse anunciado, e a gente tá como? Estamos aqui só esperando pra jogar com os policiais menos parecidos com policiais da história dos games. Axel e Blaze são os únicos personagens jogáveis em todos os títulos da franquia, e o novo trailer já mostrou o retorno dos dois que, por bem ou por mal, não mudaram nem um pouco. Beleza, talvez fosse pedir demais um Axel um pouco mais barrigudo, mas uma Blaze menos fetichizada cairia bem aos tempos de hoje. De qualquer forma, resta esperar para ver o papel dessa franquia em tempos onde a polícia age como juíza, júri e carrasco. Tem muito pano pra manga aí, DotEmu ;)

Lucas Oliveira é aluno do curso de graduação em Estudos de Mídia, na Universidade Federal Fluminense. Você pode segui-lo no Twitter e no Instagram.

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