Por que eu cancelei meu contrato com uma editora e lancei meu livro de graça sozinha

Escrever e publicar um livro é um sonho que me persegue desde pequena. O cheiro do papel impresso, a sensação táctil do canto das páginas contra o dedo, a forma que eles são capazes de me transportar para outro universo e me mostrar novas formas de entender o mundo ao meu redor. Eu amava tudo a respeito de livros e mal podia esperar para eu também ser responsável por um deles. Escrevia sempre que possível, sobre todos os assuntos nos mais diversos formatos: poesia, conto, crônica, artigo…

Anos a diante, uma editora conceituada se ofereceu para publicar minha dissertação de mestrado. Finalmente o sonho virou realidade, exceto que agora, três anos depois, cancelei meu contrato com eles. Depois de considerar isso por no mínimo dois anos.

Comecei a abraçar a pesquisa acadêmica ao mesmo tempo em que desbravava o mundo da pesquisa em videogames e processos cognitivos. Escrevi um projeto de pesquisa e com ele fui aceita no mestrado em comunicação da Escola de Comunicação e Artes da USP. Foi insano, uma época cheia de novas descobertas e conhecimentos, regada de noites de jogatina, tardes desenvolvendo videogames e manhãs escrevendo sobre jogos. A base da minha pesquisa era criar um framework para entender o que compõe jogos tendo em vista o que o jogador percebe deles. Encontrei seis elementos principais: objetivos claros, feedback, nível de dificuldade, interação e sensação de controle, narrativa e estética, e socialização e imagem pessoal. A idéia era que partindo desses seis elementos e entendendo-os melhor, facilitaria-se a criação e desenvolvimento de jogos. Talvez até a pesquisa.

Depois de dois anos e meio de pesquisa incessante, tanto bibliográfica quanto prática, apresentei minha dissertação. A sala estava cheia de amigos e companheiros de profissão, até os professores que compunham a banca ficaram surpresos com o número de pessoas que compareceu naquele dia quente em uma sala sem ar condicionado da ECA. E como estava quente.

Fui aprovada. Finalmente ganhei o título de mestre e… Minha dissertação ia ser mais uma na mesma pilha de pesquisas diariamente depositadas nas universidades de todo Brasil. Três anos de árdua pesquisa nas frente bibliográfica, prática e científica para compor um framework de compreensão de jogos para ele cair no abismo do esquecimento da biblioteca e não ser mais útil para ninguém. O trabalho resumido e ordenado de quase três anos inteiros da minha vida para compor uma nova forma de se pensar e que não iria economizar tempo na vida de mais ninguém.

Isso seria um desperdício e não podia ficar assim.

Esse trabalho todo tinha que chegar ao público, às pessoas para quem esse conhecimento era importante. E para isso acontecer, certamente a melhor forma seria a publicação de um livro. Publicar um livro é um processo longo, cheio de pormenores técnicos que não domino, quem publica livros são os poucos gatekeepers conhecidos como editoras. Então comecei minha caça por editoras cheia dos meus valores pessoais: quero uma editora para o livro impresso pois a versão digital quero que seja distribuída gratuitamente na licença Creative Commons. Afinal, se tem uma coisa que a internet me provou é que o conhecimento deve ser gratuito.

Surpreendentemente para o ano de 2012, pouquíssimas editoras tinham site ou forma para contanto no site. Dentre as poucas que possuíam esse contato, menos ainda sequer respondiam esse contato nem que para dizer alguns dos inevitáveis "valeu mas não". Depois de alguns meses tentando sem nenhuma resposta positiva meus padrões começaram a baixar um pouco. Queria que minha pesquisa chegasse a pessoas interessadas, já não importava muito bem como. No meio de tanto silencio e alguns raros "nãos", um amigo me passou o email do editor de uma das editoras que eu já havia entrado em contato semanas antes sem obter resposta e dessa vez recebi um efusivo e-mail de aceite.

Eles me chamaram para visitar a editora. Ao chegar lá, me mostraram a coleção de livros que já publicavam sobre jogos e me explicaram as mudanças que eu deveria fazer, em especial obter permissão das desenvolvedoras para publicar imagens. Me prometeram a cópia impressa e digital e tudo parecia bem (isso é importante). Alguns dias depois, me enviaram o contrato.


Uma coisa que devemos entender sobre o contrato diz respeito a uma das partes mais chatas: dinheiro. Na distribuição de videogames, estamos acostumados com a divisão do meio digital que é 70/30: 70% para a desenvolvedora e 30% para a loja. O meio impresso entretanto trabalha com números diferentes já que possui custos diferentes e embora haja muitas variações, em média a divisão é 10/90, 10% para o escritor e 90% para a editora.

Parece injusto ainda mais ao se ouvir primeiro as divisões do mercado digital de jogos, mas precisamos lembrar que um livro impresso possui o custo do material, da fabricação, da distribuição, da estocagem e os salários de todas as pessoas que estão nesse processo. No fim das contas, não é a melhor porcentagem mas também não é injusta, para livros impressos.

Um dos problemas para mim é que a mesma porcentagem reincidia para o livro digital. Porém, como me haviam prometido versões digitais e impressas, isso não me pareceu um problema.


Com o contrato assinado e enviado cai de cara na produção. Decidi, para o livro, reordenar toda a apresentação do material para deixar mais compreensível para o leitor. Também tentei deixar a linguagem mais informal, acrescentei conteúdo online e arte nova. Nessa época, também minha rede de contatos havia aumentado bastante e resolvi adicionar conteúdo linkando o conteúdo dos capítulos com jogos nacionais. Para isso, em geral fazia uma mini-entrevista com o desenvolvedor sobre o assunto em si ou então me guiava pelas experiências que tive jogando mesmo.

Que comece a jornada

Foi uma maratona fazer todas essas mudanças, mas consegui submeter o original para a editora em Janeiro de 2013, ou seja, em menos de seis meses depois da minha aprovação no Mestrado. Estava com pressa para enviar o original por que o processo da submissão até a impressão dura em média seis meses e queria lançar o livro entre junho e julho. Vamos anotar quando submeti os originais: Janeiro de 2013.

Em fevereiro a editora acusou o recebimento (lembrando que enviei por email, logo eles receberam automaticamente depois que enviei em Janeiro) e me sugeriu uma nova proposta: vamos fazer totalmente digital. Não fui convencida logo de cara mas o dono da editora me garantiu que seria um bom selling point: um livro de videogames 100% digital. Querendo que meu trabalho chegasse ao máximo de pessoas interessadas possível e sabendo a importância da cobertura da imprensa para qualquer coisa, eu cedi, mesmo

Não ouvi mais nada deles por semanas. Em abril entrei em contato novamente. Não houve resposta imediata mas alguns dias depois me mandaram um email pedindo os originais novamente, os mesmos que eles haviam até notificado o recebimento em fevereiro.

Meus planos iniciais eram de lançar em julho e em maio a editora entrou em contato mas não foi a respeito de lançamento não: era para enviar a correção ortográfica. Sim, depois de cinco meses. A correção em si era eficiente mas era evidente que a pessoa que a fez não entendia do assunto e não se deu ao trabalho nem de entender os conceitos básicos. Então, depois de corrigir a correção e trocar todos os árcades (o movimento literário) de volta para arcades (a máquina de fliperama) de todas as páginas em seis dias, enviei de volta. Afinal, ainda era possível lançar em julho mesmo com esse atraso agora que o livro era totalmente digital, certo?

Errado. Essa foi última vez que ouvi deles até setembro, quando eu fui cobrá-los do atraso e eles me avisaram que não tinham arte para a capa. Fiquei pasma afinal não recai a editora repensar toda a identidade visual do livro? Bom, para evitar mais problemas e a possibilidade de fazerem um trabalho péssimo, cedi toda a arte que eu fiz para a dissertação mas avisei que era amador.

Em meio a atrasos, em outubro, perguntei ao meu orientador o que fazer, se devia procurar outra editora ou algo do gênero. Ele disse que não, que por mais que eles estivessem fazendo um trabalho ruim, eles eram respeitados no meio acadêmico e ter um livro meu publicado por ela adicionaria muito ao meu curriculo.

No final, é por isso que as editoras ainda existem, mesmo fazendo um péssimo trabalho: pelo tal dito "nome" de confiança que conferem aos que publicam nelas. Não é o dinheiro, não é a projeção, muito menos a dispersão do conteúdo entre o público. É só o status, só o selinho invisível que diz "a editora X publicou o meu livro, isso confere nível X de credibilidade ao que eu escrevi".

Em novembro eles mandaram um novo email. Boas notícias sobre o lançamento, eu esperava. Pelo preview do email deu para a ver que era sobre a capa do livro, ok, não era o lançamento mas já era algo proximo. Ao abrir o arquivo me deparei com um corte mal feito da minha já amadora capa. Eles levaram dois meses para abrir o photoshop e cropar minha capa original. Dois meses para um trabalho ruim que eu sozinha não levaria nem dez minutos. Mas ainda com as palavras do meu orientador ressoando em minha mente, resolvi deixar quieto. Afinal, eles eram a editora, eles deviam saber algo sobre o mercado.

Em dezembro eles disseram que eu não tinha assinado o contrato, que precisava enviar outro. Eu havia enviado o contrato um ano antes, antes mesmo de começar o processo mas em algum momento nesse tempo eles perderam o contrato e não perceberam. Enviei as pressas um sedex.

Um ano depois…

Em janeiro de 2014 meus amigos da imprensa começaram a me questionar sobre o livro. Alguns deles sabiam desde o aceite, quando toda a historia ainda parecia promissora. Pedi que eles contactassem a editora diretamente já que eu claramente não era informada com precisão do que estava acontecendo. No dia 28 de fevereiro a editora respondeu um de meus amigos avisando que a pessoa responsável pela comunicação entraria em contato com eles. Não entrou, claro.

Cobrei explicações em fevereiro, notando que fazia mais de um ano que o processo estava correndo. Cobrei novamente em março. Em abril, eles responderam, me prometeram que o livro poderia ser disponibilizado dentro de um mês, estava quase tudo pronto. Pedi mais informações na estratégia de comunicação (mesmo mal exercendo, ainda sou formada em jornalismo, né) e uma prévia do ePub.

Me enviaram a prévia do epub em maio e nem traços da estratégia de comunicação. O livro digital possuía crimes hediondos contra o bom senso, como erro da contagem nas páginas, links quebrados, números errados para as notas, texto bagunçado… Não consegui revisa-lo por inteiro por isso e avisei os problemas e aguardei para a resolução. No final de maio, uma nova versão chegou, dessa vez com os links totalmente desabilitados. Avisei novamente e esperei as correções.

Em junho uma nova versão chegou e nessa era possível ver o livro inteiro, com os links. Seria melhor não ter visto pois o conteúdo estava exatamente igual ao entregue, o original da minha dissertação. Os gráficos não foram refeitos, as tabelas eram printscreens do excel. Imagens com texto estavam ilegíveis, afinal foram pensadas e feitas para o formato A4 e não para a tela de um celular. O index mostrava o número errado para as páginas e os links ainda estavam quebrados. As cores não faziam nenhum sentido com a linguagem visual do livro, que alias, era a mesma da minha dissertação original. Isso for no começo de junho, enviei todo o feedback e esperei a resposta.

"professora Thais" tornou-se epítome de desespero, se eu lesse isso na previa de qualquer email já sabia que não era coisa boa.

Esperei junho, esperei julho, agosto, setembro, outubro. Me retornaram apenas em novembro, mesmo eu enviando emails mensais perguntando sobre as mudanças. No máximo, recebia uma resposta evasiva sobre algum imprevisto, como essa a esquerda.

A cópia enviada em novembro ainda tinha muitas das falhas que apontei inicialmente, mas eu já não tinha mais forças nenhuma para brigar.

Eles venceram no cansaço.

Sem forças, aprovei a publicação, esperando que agora ia. Repeti comigo, agora vai.

Dois anos depois…

s-o-c-o-r-r-o, tem mais tipografias aqui do que razões para ansiedade nesse texto.

Não foi.

Ao menos, não até fevereiro e com essa monstruosidade a esquerda de press release. Efetivamente, mais de dois anos após assinar o (primeiro) contrato (que eles perderam), o livro (inteiramente digital) saiu. Saiu em algumas das lojas prometidas, não todas. "Elas virão em seguida" fui informada.

Bom, agora tudo valeu a pena, certo? Após a provação do personagem, vem a redenção, quando tudo que ele passou por vale a pena.

Vamos falar de números

Durante todo esse tempo, minha vida continuou. Eu continuei trabalhando com jogos, continuei lançando jogos. Por isso talvez pode dar a impressão que eu poderia ter sido mais firme com a editora e cobrado mais, afinal algumas respostas demoram mais de mês. Sim, eu podia mesmo, mas todo o resto da minha vida estava acontecendo e o lançamento do livro era a uma coisa que eu pensei que tinha "tercerizado" a resposabilidade para os profissionais. Afinal, eu estava pagando 90% da vendas para eles.

O lançamento do livro foi pífio. Alguns professores receberam cópias antes do lançamento, os jornalistas não. Não houve nenhum follow-up com imprensa ou jornalistas. Não houve nenhum contato da editora comigo até maio, quando eu perguntei sobre as lojas pendentes e como eu poderia acompanhar as vendas do livro.

Acontece que, diferente de apps no Google Play ou App Store que qualquer um de nós mortais pode acompanhar as vendas pelo AppAnnie, os números de livros digitais nesses mesmo portais não é público, então eu, você e qualquer escritor depende apenas e exclusivamente da sua editora para reportar as vendas. Ainda bem que minha editora era boa mantendo a palavra.

Ao menos Sra. Thais não é Professora Thais

Trinta e um exemplares. Trinta e um, não é nem piada isso aqui. Então ninguém está interessado no resumo de que três anos de pesquisa, jogos suor e lágrimas? Muito pelo contrario, queridos.

A USP também disponibiliza minha dissertação para ser baixada, e dá uma olhada nisso:

Trivia: a dissertação não teve press release.

2246 pessoas estavam interessadas sim. Isso coloca minha dissertação entre as 10% mais baixadas do banco inteirinho da USP.

Outro número interessante: depois que resolvi mandar eles a merda e lançar sozinha o livro, sabe quanto tempo eu levei para fazer meu próprio epub? Começando do zero, que nem o cara que era profissional nisso que a editora contratou. O que esse cara levou um pouco mais de um ano eu fiz em dois dias. Dois dias, um sábado e um domingo. E, modéstia a parte, ficou bem melhor. Nesses dois dias, alias, não só fiz o ePub mas também toda uma nova identidade visual para o livro, com uma nova paleta de cores e uma capa nova também (com uma ajudinha de uma hora do Danilo).

Tem comparação?

Nesses dois anos, só com o tempo que perdi lidando com a editora, poderia ter escrito outro livro. Poderia ter feito um jogo. Poderia ter mudado de vida, como mudei duas vezes, saindo de São Paulo e indo morar no Sul e depois no Norte. Perdi esse tempo, perdi esse jogo ou esse livro que poderia ter feito, mas estou aqui escrevendo esse texto para que você não perca o seu.

A verdade é que as editoras ainda estão no modelo antigo de negócios, publicando para um público de vinte anos atrás que não existe mais.

Mesmo quando usam palavras contemporâneas para descrever seu modelo de negócios, como "epub", "appstore", "livro digital", a única forma que eles pensam em distribuir esse conteúdo é a mesma forma ultrapassada de descarrega-lo na loja (com preço de livro impresso), arremessar uns press release mal feito na cara de uns poucos jornalistas (que já devem receber outros 20 iguais por dia) e torcer pelo melhor. Hoje, o público não engole mais esse emplasto, o leitor não paga o preço cheio de qualquer tipo de conhecimento baseado em um título e na esperança de esse conteúdo tornar-se o conhecimento que ele espera.

O conhecimento tá todo aí, de graça, só esperando para ser achado. Em uma época que as maiores mentes do mundo publicam em Creative Commons e as maiores faculdades do mundo disponibilizam cursos gratuitamente online, colocar um muro de cifrões entre o conhecimento que você quer compartilhar e sua audiência é limitar o alcance dele. Eu acho que eu posso fazer melhor do que isso. E você também.

[Você pode baixar meu livro aqui ou acompanhar meu blog sobre jogos aqui]