Quero fazer jogos. Por onde eu começo?

Nos últimos anos, já me fizeram essa pergunta aproximadamente 2.035.143.546 vezes. Não vou mais responder, só vou mandar esse texto.

Não importa se você tem 12 anos e está na escola, 16 e se preparando para o vestibular ou 35 e pronto para uma mudança de carreira: fazer videogames pode ser uma opção que já passou pela sua cabeça.

Mas antes, tenha certeza que não está entrando na área pelos motivos errados. Trabalhar com jogos é exatamente isso, trabalhar muito em algo que no final é um jogo. Não é jogar o dia inteiro. Nem ver Let’s play o dia inteiro. Muito menos ficar comprando promoções do Steam e fazendo streaming com os brother o dia todo.

Se você realmente quer entrar na área, vai ver que essas atividades fazem sim parte do seu dia sim, mas estão longe de serem suas atividades principais. Dependendo do papel que você tiver no desenvolvimento, vai ter atividades e responsabilidades completamente diferentes.

Videogames são “coisas” feitas de “coisinhas” muito diferentes. Ao mesmo tempo que eles rodam em um hardware digital, o que implica que eles são um software que foi programado usando lógica de computação, algo bem técnico e exato, eles também tem gráficos, músicas, histórias e outros elementos artísticos, extremante subjetivos, e se comportam com regras e objetivos próprios, totalmente sistemáticos. Além disso, eles tiveram de ser testados até atingirem um certo nível de qualidade, foram lançados e comunicados para o público. Logo se vê que algo que parece simples como fazer joguinhos na verdade não é nada simples não, é um trabalho complexo que envolve profissionais altamente treinados das mais diversas áreas.

Antes de saber como entrar no mercado de videogames, você precisa saber o que tem para oferecer para esse mercado. Para isso, vamos falar de algumas das principais posições e suas responsabilidades. Cada studio divide essa posições de forma diferente e dependo do tamanho da empresa você pode ser responsável por uma parte muito específica dessas áreas de conhecimento ou ser responsável por todas (olá mundo indie, mas falamos disso depois).

Quem faz jogos

Parece fácil mas não é não.

Programadores

A principal função dos programadores é trabalhar com a engine, ou seja, com o motor do jogo. Eles programaram tudo que funciona no videogame, todas as features, todos os sistemas. Para ser um programador, é bom ter uma boa noção matemática, lógica e gostar de exatas.

Existem outras coisas que um programador pode fazer em um estúdio (tools, backend, etc) mas isso você descobre depois. O essencial é que programadores usam seu poder de lógica e matemática para fazer tudo que existe no jogo acontecer.

Se você acha que deve ser programador, procure faculdades de ciências da computação, engenharia elétrica ou cursos técnicos na área. Há também cursos específicos para engines já prontas (como Unity ou Unreal), mas você realmente vai aproveitar mais eles se já tiver uma boa base de programação.

Artistas

Tudo que você vê no jogo é trabalho de um artista. Se o jogo é 3D, 2D ou 1D (é possível sim), alguém teve que criar os assets para ele. Aqui é importante lembrar que mesmo que alguém esteja responsável pelo design no jogo, se for design visual que estamos falando essa pessoa faz ARTE. Design é outra coisa que já vamos falar.

Mesmo jogos de texto precisam de estética, seja com o design do texto, seja com ASCII art. Diferentes jogos precisam de diferentes tipos de artistas; o cara que faz pixel art dificilmente é o mesmo cara que esculpe modelos 3D realistas.

Dependendo do tamanho da equipe, o departamento de arte pode ser uma pessoa generalista que faz um pouco de tudo ou um departamento com mais de 200 pessoas e que tem um profissional responsável apenas por cabelos. Se seu forte é artístico, é legal aprender um pouco de tudo (desenho, concept, 3d, pixel art) mas se especializar em uma área específica.

Não há muitos cursos superiores em arte especifica para jogos e em geral faculdades são muito engessadas para se preocupar de forma efetiva com qualidade artística e se manterem atualizadas com as novas ferramentas da área, então o ideal é fazer cursos com profissionais bons. Fique atento, entretanto, para o portfolio do professor! O mundo está cheio de caras que "dominam" a ferramenta mas não tem nem nenhum trabalho bom para mostrar nem que a vida deles dependesse disso.

Game Designers

É difícil explicar a área de design para quem nunca trabalhou em um estúdio de jogo mas eu uso uma metáfora que costuma funcionar. O Game Designer está para o videogame assim como o arquiteto está para um prédio. Ele planeja os fluxos baseado nas necessidades das pessoas, entende o comportamento humano o suficiente para colocar os cômodos nos lugares mais propícios e sabe das métricas o suficiente para dar tamanhos adequados para tudo. O arquiteto não faz o calculo estrutural, quem faz isso tem que saber mais de exatas como engenheiros (na metáfora, são os programadores), e o arquiteto também não faz a decoração de cada cômodo por que em geral não tem a sensibilidade artística para isso (aqui entram os artistas).

Da mesma forma, cabe ao designer definir como o jogo funciona, as regras que ordenam esse mundo, as mecânicas principais do jogo, quais as vantagens e punições para determinados comportamentos, etc. Se é disso que você gosta, há várias faculdades por aí com cursos de Game Design. Mas não se empolgue tão rápido! Muitas delas ensinam mais arte ou código do que realmente design, observe a grade curricular do curso antes de prestar vestibular.

Independentemente se você resolveu fazer faculdade de jogos ou não, nenhum curso vai adiantar se vocês não seguir três regras: 1. Fazer muitos jogos, participar de jams, ver pessoas jogando seu jogo; 2. Jogar muitos jogos; 3.Fazer mais jogos ainda, entender o que funcionou e o que não funcionou, adaptar suas estratégias. Senso crítico é importante para todos os profissionais de qualquer área, mas em Game Design ele é fundamental.

Sonoplastas e Compositores

O profissional de som é o responsável por absolutamente tudo que você escuta no jogo, mas isso compreende várias coisas diferentes como as músicas, o som dos menus, os sons ambiente, a dublagem dos personagens, entre outros. Em estúdios grandes, temos uma pessoa para cada uma dessas áreas, mas na maioria dos estúdios é um cara para fazer tudo isso e muitas vezes ele não está em só um projeto ao mesmo tempo.

Se você quer trabalhar com som, seja com sonorização, SFX, composição ou tudo isso, o ideal é que você procure formação específica nessa área (seja formal ou não) e depois se especialize em games. Nenhuma faculdade de jogos irá te preparar para as necessidades específicas do som, mas saber apenas como compor som digitalmente te torna um profissional incompleto para a indústria já que o ideal é que você saiba ao menos colocar seus sons na engine do jogo.

Produtores

Já reparou como para fazer jogos temos pessoas das mais diferentes áreas e com os mais diversos backgrounds? E todos eles trabalham juntos, automaticamente e na paz? Não. Não mesmo. É aí que entra o time de produção, que vai organizar cada uma das áreas, planejar o trabalho a ser feito, estimar prazos e cobrar todo mundo.

Produtores geralmente são pessoas que já trabalharam em algumas das outras áreas por algum tempo e tem também alguma formação gerencial e organizacional. Mesmo que você tenha todo o pacote para ser produtor na sua opinião, o ideal não é você cair de para-quedas como um sem nunca ter trabalhado com jogos. Você precisa entender como funciona as partes do estúdio, como as áreas interagem, o que é responsabilidade de quem.

QAs

Quality Assurance ou QA é facilmente uma das áreas mais importantes no processo de desenvolvimento de um jogo. O QA é a pessoa que deve jogar o jogo inteiro, centenas de vezes no dia, repetindo todos os comportamentos mais idiotas e insanos, só para encontrar e reportar bugs. Parece fácil mas não é, é um dos trabalhos mas excruciantes do desenvolvimento de jogos pois o QA tem que sentar lá, repetindo a mesma fase, o mesmo movimento, o mesmo problema até encontrar a falha e o pior: o que é que desencadeia ela.

As vezes, o gatilho da falha nem está onde a falha acontece. Por exemplo, um bug no final da fase pode ser desencadeado por apertar a seta de back no começo da fase. Ainda sim, o QA tem que achar esses padrões para poder reportar os bugs (que serão corrigidos pelos programadores) e garantir que o jogador tenham uma boa experiência jogando.

É comum empresas de jogos contratarem para QAs jovens aspirantes que querem entrar na indústria de jogos, sem nenhuma formação específica, desde que gostem de jogar. É uma ótima área para se começar a trabalhar com jogos e você pode aprender um pouco de tudo muito cedo, mas vai precisar se formar como Engenheiro de Testes ou afins se quiser progredir na profissão.

Comunicadores

Parece exagero mas não é. Se o estúdio não está fazendo advergames ou jogos de encomenda, se o jogo é autoral e depende de um público para jogar e/ou comprar, alguém tem que fazer esse público saber que o jogo existe. A pessoa de comunicação mantém o site, blog e medias sociais atualizados, contata jornalistas e público sempre que há novidades e muitas vezes também faz o community managing. Nem sempre um estúdio tem alguém dedicado para essa função mas ou alguém tem que assumir essas responsabilidades ou se contrata uma empresa terceirizada para cuidar dessa área, caso contrario o jogo pode nunca sair do limbo.

Se você quer se especializar só nisso, as faculdades de Ciências da Comunicação (Publicidade, Jornalismo, Relações Públicas, Assessoria de Imprensa) dão uma boa base, mas você ainda vai ter que aprender muito sozinho sobre a imprensa de jogos. Participar de encontros com desenvolvedores e jornalistas de jogos ajuda muito para troca de experiências e para fazer contatos.

Administradores, Contadores, Analistas de RH etc.

Se o estúdio é grande o suficiente para ser uma empresa, ele precisa de profissionais comuns a toda empresa, como executivos, departamento pessoal, contadores etc. Cada um desses profissionais tem uma formação específica de sua própria área e ter interesse em games é só um extra.


Fazer videogames exige pessoas que têm conhecimentos em áreas muito diversas, o que impede que apenas uma formação cubra todos esses conhecimentos. Ainda sim, existem pessoas que são o estúdio todo.Agora que você já sabe o que pode ser, falta entender como ser.

Por onde começar

Isso é literalmente tudo o que você precisa para começar a fazer videogames: um computador e ser capaz de usa-lo.

Faculdade ou Cursos Técnicos

Se você está na época de vestibulares e tudo mais, tente encontrar o perfil que mais se encaixa com você nas posições ali em cima e veja qual faculdade é a melhor para essa área. Mas tenha em mente que nenhuma faculdade vai te dar todos os conhecimentos que você vai precisar para começar na área, nem mesmo as faculdades de Game Design. Muito dos conhecimentos necessários só vêm com a prática e a prática você pode conseguir de outras formas:

Hobbie

Você pode começar a fazer jogos no seu tempo livre, tanto videogames como jogos de tabuleiro. Há várias engines grátis ou bem baratas por aí e até a engine mais usada atualmente no Brasil, a Unity, agora tem um plano grátis na sua última versão. Mesmo que você não ache que programação é o seu forte, engines como Construct 2 e Game Salad tornam fazer jogos razoavelmente fácil e possuem até algumas mecânicas padrão prontas para serem usadas. A melhor forma de aprender fazer jogos é fazendo jogos, não acredite em ninguém que te fale o contrário disso. Mesmo que você já esteja fazendo cursos ou faculdade na área, conhecimento teórico não vai te levar a lugar algum se você não coloca-lo em prática.

Emprego e Estágio

Não entre nessa área se você acha que a Ubisoft vai te contratar para trabalhar no proximo Ass Cred, ou que a Square Enix te quer muito no próximo FF. Embora isso seja sim possível, com certeza não vai acontecer nos seus primeiros cinco anos de indústria, talvez nem nos seus primeiros dez. Se você vai começar em algum lugar, vai ser de baixo.

Muita gente começa como QA e isso é especialmente verdade se você não tem cursos superiores provando suas habilidades nas outras áreas. Como vimos, QA é efetivamente uma das áreas mais importantes de qualquer jogos, mas na prática é também a área menos burocrática para se entrar por ser (injustamente) uma das menos respeitadas na indústria. Tenho vários amigos Game Designers que começaram como QA e são excelentes profissionais, muito da visão analítica e pragmática que você aprende no QA é especialmente útil para designers.

Montar sua própria empresa

Se você já tem alguma experiência fazendo jogos (e só nesse caso!) mas não está fazendo exatamente os jogos que queria, talvez seja a hora de começar a fazer os seus próprios jogos como profissão. Eu pessoalmente recomendo não abandonar seu emprego até ter certeza que o jogo que você está trabalhando é lucrativo o suficiente para te manter.

Já vi muitas historias de gente que entrou de cabeça no desenvolvimento abandonando emprego e tudo e seus jogos não rentabilizaram tão rápido quanto esperado. Quando o dinheiro começa a acabar, a pessoa entra em desespero, procura outro emprego e desiste do sonho. Só por que seus jogos não se tornaram rentáveis na velocidade esperada não quer dizer que eles nunca seriam uma fonte de renda suficiente para te manter, mas ter apressado a situação acaba matando seu saco para tudo isso.

Fazer jogos é uma carreira viável, é um emprego legal para caramba e é uma profissão maravilhosa. Começar de forma errada ou tentar precipitar eventos que levariam mais tempo para ocorrer podem fazer você acreditar no contrário então pense bem antes de escolher seus passos e…

Boa sorte!

(Pixel art do começo por Danilo Dias)