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Fantasmas

Hoje eu decidi não sair de casa. Não deu. Não tive forças suficientes. Não tinha nada além de tristeza e solidão em meu peito. Liguei para o meu chefe e perguntei se poderia trabalhar de casa. Expliquei o motivo e ele concordou, disse que entendia perfeitamente. Liguei pra minha namorada, falei que não poderia passar na casa dela, não hoje.

Logo hoje, que decidi não sair de casa, alguém bate. Testemunhas de jeová. Aproveito que deixei tudo fechado pra fingir que a casa estava vazia. Teria dado certo, se não estivéssemos na época de chuva aqui no Nordeste. O resfriado me pegou e meu espirro me entregou. “Jesus é o senhor”, “o senhor é o senhor”, “é meu pastor”, “nada me faltará”, “100% jesus”. “Sim”, “sim” e “sim”. Não lembro o que eles falaram, apenas que concordei com tudo para que eles fossem embora rápido. Naquele dia, religião não se discutia.

Logo hoje, que decidi não sair de casa, decidi também que não cozinharia. Mal tinha forças para me levantar, tamanha minha desilusão com o dia. Era difícil suportar a dor. Pedi comida pelo telefone e rapidamente — pra minha surpresa — recebi. Paguei e, em um descuido, deixei a chave cair. Meu vizinho, que saía de casa no mesmo momento, puxou papo. “Você viu aquele negócio da PEC da menor idade? Ainda bem que aceitaram… tem que prender mesmo esses pirralhos!”. “Sim, petralhas, bandidos, cadeia neles”, concordei sem saber direito sobre o que ele falava. Naquele dia, política não se discutia.

Na internet, quanto mais eu tentava me afastar, mais precisavam de mim. Um amigo me enviou uma música nova de um artista desconhecido. “Pô, escuta aí, muito bom!”, “o som do cara é sensacional”, “UM GÊNIO!”. Não ouvi, mas para deixá-lo feliz apenas concordei. “Sim, gênio, maneiro”. Naquele dia, gosto não se discutia.

Voltei para minha peregrinação eremita em minha própria cama. Hoje, nada se discutia. Nada seria feito. Apenas lágrimas.

Não deu para sair de casa. Não hoje. Não no dia 8 de julho de 2015, um ano após o incidente de 8 de julho de 2014. Não no aniversário do 7x1, não com os fantasmas da vitória alemã batendo na porta das minhas memórias.

Hoje eu decidi não sair de casa. Não deu. Não tive forças suficientes. Não no aniversário do dia em que a seleção brasileira levou um gol do Khedira.

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