Eu não consigo escrever de novo

Eu provavelmente nunca escrevi algo estando tão triste. Difícil comparar com outros momentos, mas deve ser verdade.

Num momento em que o time que amo desde que nasci, o Vasco, está falido tecnicamente, eu resolvi abraçar a Chapecoense em 23 de novembro, no jogo de volta contra o San Lorenzo. Já simpatizava desde muito antes, sempre apoiei todos os times de Santa Catarina, e torcia pelo sucesso da Chapecoense. Mas desta vez foi abraçar de torcer mesmo. De levar susto, de xingar na TV. De vibrar.

A Chapecoense é muito maior que isso e jamais precisaria do apoio de um vascaíno amargurado com seu time naquele jogo. Mas eu insisti e emprestei minha torcida.

Acordei hoje às 10h40, com mensagens de amigos sugerindo cancelar nosso campeonato de futsal por “falta de clima”. Não entendi, perguntei o motivo, e me deram o motivo incontestável.

E as coisas perderam um pouco do sentido. Por “coisas”, entenda “tudo”. Tudo perdeu um pouco do sentido. Ontem eu estava pensando no campeonato, estava pensando em assistir ao primeiro jogo da final na quarta-feira. Estava lembrando que um título daria o direito à Chape de disputar uma copa com o campeão da Liga Europa. Estava procurando na internet mais sobre Caio Júnior, Bruno Rangel, Danilo, Ananias. Ananias que era o “Ananiesta” da Barcelusa de 2011, da Portuguesa que depois de crescido adotei.

Meu pai me liga e, notavelmente comovido, comenta o que aconteceu. A ficha não cai até eu ligar a TV.

Eu, nos meus pequenos dramas pessoais, me senti mais insignificante do que nunca. O choque foi gigantesco, me lembro dos torcedores e de quem realmente conhecia as pessoas que formavam a Chapecoense. E dos jornalistas que lá estavam. Se eu já estava destruído, como estariam estas pessoas? Impossível me arriscar a falar sobre isto.

Todas essas palavras pra dizer que não dá pra escrever. Não estou nem perto de ser adequado para escrever sobre perda, muito menos sobre a Chapecoense, os jornalistas e todos que estavam lá. Ainda assim, tive que tentar.

Eu não consigo escrever de novo.

garurului

Do garuru. Ficção, não-ficção, delírios e melancolias

João Vítor Roberge

Written by

jornalista, craiovano e digiescolhido

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