Ficção e eu

Aos 13 anos, dois anos após continhos para as aulas de redação que traziam a história de um policial australiano chamado Rick Ballabellon nos anos 7800, eu decidi escrever um livro de ficção. Um livro policial. Com 13 anos. E queria publicar, queria porque queria ser escritor. O roteiro do fracasso estava escrito. Era óbvio, estava ali, mas a criança tem muita esperança e otimismo.

Então eu comecei a escrever “O Passado de Ramón Sutton”. Em cerca de 150 páginas de livro, um policial vingava a morte do seu parceiro e descobria que estava na trama de uma máfia multinacional. Ele matava e fazia interrogatórios a torto e a direito, até chegar ao objetivo principal: matar o chefão. Uma bobagem absurda, de criança. No fundo, era como se eu estivesse brincando de polícia com meus bonecos, escrevendo o que eu fazia e imaginando as cenas.

No fundo, aquilo devia ser uma maneira de externar a minha admiração pelo videogame Max Payne. Com aquele clima noir, as graphic novels, as frases filosóficas de efeito, e as metáforas, eu havia me apaixonado pelo jogo e havia resolvido brincar de “faça você mesmo”. Adoro o jogo até hoje, mas… Enfim.

Livro escrito, lido apenas pelo meu pai, que fingia ser algo muito legal, como os desenhos que eu mostrava pra ele no jardim de infância. A empolgação passa, e passam-se dois anos até que eu decida voltar a escrever um livro.

Desta vez, influenciado pelos universos de Harry Potter e Matrix, e ainda com resquícios de Max Payne, escrevi Husky. Uma confusa história de fantasia, onde adolescentes são herdeiros de poderes mágicos de grupos da Idade Média. O enredo possuía elementos históricos e remontava a Guilherme Tell e as lendas da independência da Suíça e continha fatos da Primeira Guerra Mundial. Era revelado um verdadeiro assassino de Francisco Ferdinando, e outras coisas mais. A história se desenrola em Florianópolis e em países como Inglaterra, Itália, Romênia (claro) e Suíça. Com sobrenomes bizarríssimos e inventados, os personagens travavam batalhas com muita arte marcial e magia. Algumas coisas eram claramente importadas de histórias como Harry Potter e até mesmo Dragon Ball Z. E no meio disso tudo, romances e melações adolescentes.

Escrevi 50 páginas. Não gostei. Excluí tudo. Tava uma merda. Comecei do zero, com uma história mais sólida e algumas narrativas. Tirei da primeira pessoa, coloquei na terceira. Era infinitamente melhor escrito do que “O Passado de Ramón”, mas ainda muito ruim. ou seja, era muito ruim ainda. Pior do que os textos publicados aqui, para ter uma ideia.

Foram um ano e dez meses até que eu conseguisse escrever as 153 páginas de Word que compunham Husky. Comecei aquela primeira versão em janeiro de 2009, terminei a versão final em outubro de 2010. Meu pai e minha amiga Júlia liam. Acho que Júlia realmente gostava, não tanto quanto dizia. Mas gostava. Meu pai cumpria o papel de pai, dizendo que estava legal e corrigindo erros de digitação.

Eu adorava Husky. Adorava. Era meu primeiro projetinho “grande”. E era o que deveria ser o primeiro volume de uma trilogia, que seria seguido por “Vira-Lata” e “Felino”. Eu tinha grandes arquivos com tópicos a serem escritos, ideias de conflitos, eventos e diálogos. Eu fantasiava. Eu sonhava publicar a trilogia. Via trailers de filmes, e reescrevia as falas, como se fossem das adaptações cinematográficas de Husky.

Comecei a escrever “Vira-Lata”.

Estava tudo escrito nas estrelas. Era um bom livro. Eu seria um escritor.

Porra nenhuma.

Enviei os originais para várias editoras. Novo Século e Objetiva me responderam rejeitando. Achei a carta da Objetiva esses dias. As outras nem deram resposta.

Tentei publicar de forma independente. Não tinha dinheiro, era caro. Pedi ajuda para minha escola. Não tinha dinheiro, era caro.

Entrei no terceiro ano do Ensino Médio. O foco foi mudando, eu fui desanimando. Meu último conto completo foi o do vestibular. Escrevi sobre como um cientista japonês volta no tempo e impede que as bombas atômicas fossem inventadas. E Husky morreu ali. Eu tentei ignorar, mas sempre que me sentia mal, fazia vir à tona que eu tive um sonho e falhei.

Entrei no curso de jornalismo. Agora, eu escrevia sobre fatos, desenvolvia pautas. Havia perdido completamente a imaginação, a inspiração e a vontade para escrever ficção. Tentei mais ou menos voltar com os capítulos sobre Ingrid Weinmann, mas só.

Husky serviu, de alguma forma, pras minhas aventuras com o TCC. Havia prometido a mim mesmo que este sonho iria se realizar, que eu não poderia deixar escapar como fiz no Ensino Médio. Cumpri a promessa.

Um dia, quando for mais fácil, eu volto de vez com a ficção. Hoje não.

garurului

Do garuru. Ficção, não-ficção, delírios e melancolias

João Vítor Roberge

Written by

jornalista, craiovano e digiescolhido

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