Unsprezece I

João Vítor Roberge
Nov 6, 2016 · 11 min read

Eram sete horas da manhã e ele havia acabado de acordar em seu pequeno apartamento depois de um sono de quatro horas. Só havia conseguido dormir depois de exercitar uma espécie de mania: com os fones de ouvido e os olhos fechados, escutava as músicas preferidas que mais condiziam com seu humor, geralmente fazendo um lipsync, às vezes arriscando uma dancinha deitado. Depois, passava para as músicas de abertura de seus animes preferidos, e no escuro total das pálpebras fechadas, projetava seu próprio clipe. Como se sua história e sua vida fossem um desenho, uma série, e ele fosse um dos protagonistas. Imaginava cenas de luta com os amigos, poses, tudo sincronizado com a música. Mas uma daquelas canções ele não conseguia mais ouvir sem chorar, e por isso a evitava.

Fez o que costumava fazer quando tinha menos de cinco horas de sono. Rolou da cama até cair de costas no chão, como se fosse pegar no tranco. Deu um gemido de resmungo, levantou-se, abriu a cortina e a janela do quarto. A brisa gelada do outono de Bucareste entrou. Os olhos de William Takeda estavam quase fechados, e com a cara amassada pareciam muito mais puxados do que realmente eram. Não arrumou a cama, foi para a sala, jogou a caixa de pizza no lixo depois de comer a última fatia fria e então foi para o banho.

Mais um dia de trabalho lhe esperava na Unsprezece, revista sobre esportes que havia revolucionado o futebol do país há dois anos, com uma série de reportagens sua que dissecou um esquema de corrupção entre patrões de clubes, algo jamais visto desde a Cooperativa. Em suas investigações, Takeda havia chegado a uma verdadeira máfia e, fazendo questão de se proteger, assinou tudo sob o pseudônimo Radu Craioveanu. Com as devidas proporções e quando tinha seus raros lapsos de excesso de auto-estima, Takeda chegava a se imaginar uma espécie de Mikael Blomkvist, da trilogia Millennium de Stieg Larsson. Já era 2020, e não só o futebol romeno demonstrava melhorias como os processos contra a revista não deram em nada e Takeda não havia recebido nenhuma ameaça. Quando parava pra pensar sobre o assunto, não conseguia acreditar direito no modo tão seguro como as coisas aconteceram.

Era 2015 quando Takeda havia decidido morar na Romênia, um país sem relação nenhuma consigo. Quando resolveu fazer do seu trabalho de conclusão de curso um documentário sobre a cultura da Transilvânia e os erros do senso comum causados pelo Drácula de Bram Stoker, se apaixonou pelo país e resolveu morar lá. Já conhecido por causa do TCC que alcançou mais de 50 mil visualizações no YouTube, conseguiu contatos de alguns jornalistas, incluindo Razvan Dumitriu, um dos mais experientes jornalistas esportivos da Romênia, que o contratou para a Unsprezece em 2016. Dois anos depois, Takeda, sob o pseudônimo Radu Craioveanu, deu ao futebol falido do país um pouco mais de seriedade e vergonha na cara.

Desde os 11 anos, o rapaz treinava regularmente karate e até um pouco de ninjutsu com a sua mãe, Laura Takeda. Sem demorar muito, começou a dominar as artes marciais que sua família domina há gerações, mas nunca foi um apaixonado por esta tradição. Sempre preferiu assistir a jogos de futebol com seu pai, Hugo Fournier, ou jogar videogame com sua irmã Júlia Fournier. Aliás, este era outro fato curioso numa família já não tão convencional: Júlia, dois anos mais nova, herdou apenas o sobrenome do pai, e William o da mãe, simplesmente porque Hugo e Laura decidiram assim.

Quando Takeda já estava vestido de preto dos pés até a jaqueta com cachecol azul no pescoço, o celular toca a versão em 8-bit de uma de suas músicas favoritas de animes. Só pelo toque, ele sabia que era Raluca Larie, uma das melhores jornalistas de todo o país e sua melhor amiga na Romênia. Takeda atende:

— Fala.
— Primeiro, bom dia, Disneylândia! Segundo, o Razvan queria saber se você poderia ser o comentarista do Unsprevlog, ele vai ter que cobrir o clássico em Cluj-Napoca.

Unsprevlog nada mais era que o canal do YouTube da revista, que apresentava programetes, informativos e comentários no formato para internet. Disneylândia foi o apelido criado por ela depois de o brasileiro ter apresentado a música Disneylândia nas versões do Titãs e de Jorge Drexler na semana anterior. O apelido fazia sentido, afinal William Takeda era brasileiro, tinha um nome inglês, sua família por parte de mãe é japonesa, os antepassados por parte de pai franceses, e ele morava na Romênia há quatro anos. Mas ele sabia que o apelido não iria pegar.

Takeda sorriu ao escutar a absurdamente linda voz de Raluca, como sempre fez.

— Pode ser. É bom pra sair um pouco da rotina. — Respondeu.
— A gente não pode expôr bandidos e salvar o esporte romeno todo dia, Disneylândia. Às vezes temos só que falar de transferências, placares e dos assuntos menores.
— É, eu acho que sim. E para de me chamar assim, Raluca. To indo pra Unsprezece daqui a pouco. Tchau.
— Tá, Disneylândia, tchau Disneylândia, nos vemos lá, Disneylândia.

Takeda desligou o telefone. “Palhaça”, murmurou com um sorriso. Escovou os dentes mais rápido do que deveria e já havia aberto a porta para sair quando avistou uma barata na pia da cozinha. Esticou o braço direito, os dedos indicador, médio e polegar também. Anelar e mínimo encolhidos. Fez uma pistola com a mão, basicamente. Um raio laranja saiu do “cano” da pistola e a barata se partiu em duas. Foi até a pia com um guardanapo e jogou a barata no lixo, como se nada demais tivesse acontecido. Saiu do apartamento, trancou a porta e desceu as escadas.

Raluca Larie já estava na redação da Unsprezece. A repórter especial da publicação tinha como principais funções cobrir a liga profissional de handebol feminino, as seleções de futebol masculina e feminina, e apresentar o Unsprevlog, que era um sucesso na internet. Ela havia conseguido ultrapassar o machismo presente na mídia romena a ponto de ter se tornado uma jornalista extremamente respeitada por seu trabalho. Algo quase impossível num país onde páginas de Facebook dos principais veículos de jornalismo esportivo compartilhavam alguns conteúdos semelhantes aos das mais vulgares revistas masculinas e onde o lugar mais comum de uma mulher no jornalismo esportivo era apresentando os telejornais. E ainda assim, lugar reservado apenas para as que conseguissem nota 11 de 10 nos padrões tradicionais de beleza. Raluca sabia que não era a única exceção e nem uma pioneira como mulher ajudando a destruir o sexismo do jornalismo esportivo romeno, mas tinha consciência de que era naquele momento o principal exemplo disto, aos 24 anos.

A romena estava em sua mesa, assistindo aos melhores momentos de Steaua 0x4 Real Turnu-Severin. Era impressionante como aquele time fundado em 2017 tinha crescido tão rápido a ponto de estar ali, na primeira divisão, massacrando o principal clube do país fora de casa. Financiada pelo bilionário Marcel Tudorie, a equipe de Drobeta Turnu-Severin, capital do distrito de Mehedinti, era alvo de críticas pelo modo nada claro sobre as atividades e empresas do seu financiador. E também pelo fato de ele ter criado um clube do zero quando poderia estar ressuscitando algum dos vários tradicionais times extintos entre 2005 e 2016. Apesar disso, o Real era o atual campeão da Liga, da Copa e da Copa da Liga, com um time formado majoritariamente por estrangeiros.

Raluca pretendia investigar Marcel Tudorie. Não porque era torcedora fanática do Steaua desde que nasceu, mas porque os rumores sobre a fortuna de Tudorie iam de fraudes em apostas a empréstimos enormes e nunca pagos feitos com bancos estatais. A única empresa no nome de Tudorie era a TudoTel, uma companhia telefônica nova com sede em Timișoara.

Eram oito horas da manhã quando a diagramadora Simona Andrieș chegou visivelmente perturbada até a mesa de Raluca.

— Raluca, desculpa te atrapalhar aí, mas eu acabei de chegar e vi Marcel Tudorie na recepção. E parece que ele quer falar com você. Só achei que devia saber.

A jornalista levantou as sobrancelhas, surpresa. Nunca havia visto Tudorie pessoalmente. Diferentemente do clássico dono de clube de futebol romeno que adora aparecer, Tudorie ficava nas sombras. Financiava o time e, nas raras vezes em que concedia entrevista, dizia meia dúzia de frases confirmando ou negando especulações de transferências. Agora, coincidentemente, o dono do Real Turnu-Severin também a procurava.

— Você ouviu alguma coisa sobre o que ele queria falar comigo? — Perguntou.
— Não, mas o recepcionista já tinha pedido permissão para o Dumitriu. — Respondeu a designer ruiva. Raluca suspirou e fechou os olhos verdes.
— Então acho que o Dumitriu vai ter um pingo de bom senso e mandar esse cara embora. Se eu for conversar com ele, tem que ser porque eu fui procurar.
— Raluca, você tem visita! — Era a voz de Razvan Dumitriu, editor-chefe e sócio majoritário da Unsprezece. A jornalista se virou e viu o chefe, com colete preto e camisa social branca. A mesma cara amassada, os mesmos ralos cabelos grisalhos. Ao lado dele, um homem alto, aparentando quase 50 anos, com uma vasta cabeleira grisalha. Com um terno caríssimo, camisa preta e gravata na cor do clube: verde. — Este é Marcel Tudorie, dono do…
— Real Turnu-Severin. — Completou Raluca, com um suspiro. Simona tratou de voltar ao trabalho o mais rápido possível, mas não antes de disparar um olhar para a jornalista, implorando para que lhe contasse o desfecho daquela reunião bizarra.
— É um prazer finalmente conhecê-la em pessoa, Srta. Larie. — Tudorie beijou a mão direita de Raluca após o aperto de mão. Ela não pôde evitar a cara de nojo por frações de segundo.
— O prazer é meu. — Mentiu. — Com licença, Sr. Dumitriu, eu precisava antes falar a sós com você um minuto.
— Tudo bem. — Respondeu o editor-chefe, contrariado e indo para mais perto do elevador.
— Com todo o respeito, mas o que significa isso? É da política da Unsprezece não recebermos visitas de representantes de qualquer clube esportivo sem aviso prévio pra toda a redação. Por que o senhor não me avisou antes sobre isto?

Razvan Dumitriu respondeu com má vontade, sem abrir os dentes, como se tivesse que explicar o óbvio:

— É Marcel Tudorie, Raluca. Um dos homens mais poderosos do país. Além disso, a empresa dele é uma das nossas anunciantes, os telefones daqui são da operadora dele… — Raluca botou a mão nos olhos e jogou sua franja preta para o lado, irritada.
— Como é que é? Desde quando?
— A partir de semana que vem, fechamos o contrato ontem. Ainda estou para comunicar a redação. — Dumitriu começava a ficar cada vez mais impaciente.
— Isso é um conflito de interesse em tantos níveis diferentes…
— Está tudo sob controle.
— E o que diabos ele quer comigo?
— Vá até lá e descubra por você mesma. Ele faz questão de que você saiba por ele. Agora, se me der licença, eu preciso arrumar tudo para ir para Cluj-Napoca.
Raluca Larie respirou fundo, mordendo o lábio inferior de raiva, disse:
— Então tá. Obrigada pela transparência, e tomara que o CFR tome uma lavada no clássico. — E foi em direção a Tudorie.
— Desculpe por isso, eu precisava saber quando vou receber minhas horas extras. — Explicou Raluca a Tudorie com um sorriso.
— Sem problemas, Srta. Larie.
— Pode me chamar de Raluca. — Ela continuava a sorrir. Sentou-se, e fez sinal para que Tudorie fizesse o mesmo. — O que o traz aqui?
— Eu tenho algumas ofertas para lhe fazer. — Começou Tudorie, sorrindo e sentando-se na em frente à mesa de Raluca, que já não sorria mais. — Você sabe, melhor do que ninguém, que a mídia do nosso país só dá espaço para Steaua e Dinamo. Um time do interior como o Real não tem tido a atenção que merece depois de ter conquistado três títulos nacionais no mesmo ano. Então gostaria de ver com quem sabe melhor de futebol aqui, para ver se pudesse fazer algum tipo de reportagem especial sobre a nossa história e o que temos conquistado para o futebol do nosso município e também para o futebol romeno.

A expressão de Raluca ficou séria. Ela se sentia ofendida, e ainda mais convencida de que Tudorie tinha muito de errado.

— Sr. Tudorie, meu trabalho não é assessoria de imprensa. Dou-lhe os parabéns pessoalmente pelo seu clube, mas o máximo que posso fazer é sugerir a pauta para algum dos repórteres. E permita-me dizer que este pedido é um tanto esquisito, quando a primeira edição especial de campeão que fizemos foi justamente no fim da última temporada, com os três títulos do Real.
— Entendo. — Disse Tudorie, sem teimar. — Então, eu gostaria de lhe fazer uma oferta para ser a assessora de imprensa do Real Turnu-Severin.
— Como é que é, senhor? — Raluca não acreditava no que estava acontecendo. Há uma semana, ela havia decidido elaborar uma pauta sobre Marcel Tudorie. Agora, ele estava diante dela, pedindo jabás e oferecendo emprego. Era como se ele soubesse o que estava acontecendo e até mesmo estivesse disposto a tirá-la da redação em benefício do seu clube.
— Sete mil leus por mês. E você não vai pagar nada nas viagens que fizer daqui para Severin e de Severin para cá.
— Por que eu?
— Eu gosto dos melhores profissionais trabalhando comigo. Gosto das estrelas. Tanto que tenho poucos romenos no elenco do Real, o técnico é estrangeiro. E convenhamos, sabemos que você receberá muito mais do que recebe aqui, e com muito menos trabalho.

Toda esta conversa só tornava o início de uma investigação sobre Tudorie mais necessária e mais difícil. Recusar seus convites e pedidos era algo que certamente pesaria contra se Raluca precisasse fazer uma entrevista reveladora com o bilionário.

— O senhor vai ter que me desculpar, Sr. Tudorie, mas não tenho interesse. Não tenho uma carreira muito longa como jornalista e gostaria de crescer mais na profissão. — Raluca tentava passar a impressão de que recusava uma proposta extremamente tentadora, ainda que do ponto de vista financeiro fosse mesmo. Ela esboça um sorriso e joga a franja para o lado com a cabeça — Talvez num futuro…

Marcel Tudorie encolhe os lábios, visivelmente contrariado, até triste. Mas logo depois dá o mesmo sorriso forçado que tinha quando entrou na redação e levanta-se da cadeira.

— Bom, parece que vim até aqui em vão. Não vou conseguir convencê-la, não hoje. E sim, talvez num futuro. — Ele estende a mão para Raluca, e é correspondido.

— Obrigado pela compreensão. — Ela se levanta e acompanha o empresário até o elevador. A conversa muda bruscamente de assunto.

— Então, teremos o Unsprevlog hoje? Me parece que o Razvan não vai participar.
— É, ele faz questão de ir cobrir o clássico de Cluj-Napoca ao vivo.
— Quem irá substituí-lo?
— William Takeda, conhece? É brasileiro, apesar do sobrenome. Repórter nosso há algum tempo.
— Claro, já li algumas reportagens dele. Adoro quando ele traz histórias do Brasil.

O elevador chega, e Tudorie entra sozinho.

— Manteremos contato. — Avisa o dono do Real Turnu-Severin, arrumando a gravata verde.
— Certamente. — Responde Raluca, que dá as costas para voltar ao trabalho. Tudorie coloca a mão no caminho da porta do elevador, que se abre novamente.
— Ah, e por favor, mande minhas lembranças ao brasileiro. Por todo o bem que ele fez ao esporte romeno há dois anos.

Os olhos de Raluca Larie se arregalaram. Só ela e Razvan Dumitriu sabiam que William Takeda era o autor das reportagens que desvendaram o maior escândalo de corrupção no esporte romeno desde a Cooperativa.

— Nos vemos. — Encerra o homem.

A jornalista se vira de volta para Tudorie, disfarçando o espanto. A porta do elevador fecha, a seta do painel aponta para baixo e Marcel Tudorie deixa a redação da Unsprezece.

garurului

Do garuru. Ficção, não-ficção, delírios e melancolias

João Vítor Roberge

Written by

jornalista, craiovano e digiescolhido

garurului

garurului

Do garuru. Ficção, não-ficção, delírios e melancolias

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade