Unsprezece II

William Takeda chegou à redação da Unsprezece depois de uma viagem de meia hora em seu Dacia Sandero, desde o prédio onde morava, no bairro Vitan, no Setor 3, até o bairro Stefan cel Mare, no Setor 2, onde além da sede da revista é localizada a sede do Dinamo Bucareste. Ele sabia que pegar o metrô da estação Dristor até lá seria muito mais rápido, mas desde que perdeu a hora bêbado nos bares do centro histórico e teve que ir a pé até quase ser assaltado, preferia seu carro para evitar tais imprevistos. Ainda que isto implicasse em dirigir levemente embriagado.

O brasileiro saiu do elevador e deu de cara com a vasta redação de 20 repórteres, 4 diagramadores, 6 fotógrafos, 5 editores e 2 gestores de redes sociais trabalhando a todo vapor naquele ambiente que ele julgava branco e claro demais. Dali a uma hora, ele precisaria gravar o Unsprevlog com Raluca, que, aliás, estava concentrada na sua mesa, ao lado da dele, digitando o texto da coluna que ela assinava no principal jornal do país.

— Bom dia, Raluca, o que houve? — Cumprimentou o rapaz, bocejando.
— Puta que pariu, Takeda! — Berrou Raluca, batendo na mesa e girando sua cadeira para o colega.
— É tão bom ser querido no local de trabalho.
— Como você faz isso? Eu to aqui, trabalhando, normal, nem olhei pra você, e você sabe que tem algo errado. É uma merda isso, sério mesmo. — Reclamou, gesticulando. Quando terminou, olhou fixamente nos olhos do colega, com uma expressão de confusão.

Takeda esperou três segundos e percebeu que, embora sempre soubesse notar quando Raluca tinha algum problema, nunca conseguia prever sua gravidade. Respirou fundo, perdeu boa parte da cara de sono e começou a falar sério. Ironicamente, seus olhos não pareciam mais o de um asiático quando ele não tinha sono.

— Pra mim sempre me parece bem claro. Mas eu quero saber o que tá acontecendo, quero te ajudar.

Raluca também respirou fundo.

— Sabe Marcel Tudorie?
— O mala dono do time artificial e apelão em Mehedinti, sim.
— Veio aqui agora há pouco pedir mais exposição na Unsprezece e me oferecer um cargo de assessora de imprensa no clube dele.

Takeda levantou as sobrancelhas, levou as mãos à boca e disse “uou” sem voz.

— Puta merda. E dissesse o quê?
— O que eu diria? Expliquei sobre a exposição e recusei a oferta, que era muito muito muito boa.
— E o Razvan? — Perguntou Takeda, ligando o seu computador.
— Deixou tudo acontecer de boa. Aliás, a partir da semana que vem, a empresa vai mudar de operadora para a TudoTel, o próprio Razvan me disse.
— Que coisa bisonha. O cara é um dos maiores anunciantes, agora nós contratamos os serviços dele para a empresa e ele é o dono do melhor clube de futebol do país no momento? Isso é um…
— Conflito de interesses gigantesco, sim. — Completou Raluca. — Mas não foi só isso. Ele te mandou lembranças.

Takeda olhou com estranheza para a amiga.

— Ele nem me conhece, eu acho.
— Ele mandou lembranças justificando com a seguinte frase: “por todo o bem que ele fez ao esporte romeno há dois anos”.

O brasileiro engoliu em seco. Não deveria ser possível.

— Ele sabe que fui eu que escrevi sobre a Operação Tastoasa? — Perguntou em um sussurro, espantado.
— Sim.
— Mas os únicos que sabem dessa merda são…
— Eu, por ser a pessoa mais foda que você conhece e o Razvan porque é teu editor, sim. — Completou novamente a moça, de olhos fechados, médio e polegar entre os olhos.
— Então eu tenho que falar com o Razvan, se ele tá tão amiguinho do Tudorie assim, foi ele que contou, só pode ter sido.
— Ele já foi pegar o voo dele pra Cluj-Napoca, eu acho.
— Eu não gosto disso — Reclamou Takeda, com o punho fechado dando um soco em sua própria coxa. — Se ele sabe, outras pessoas devem saber, pessoas que estavam envolvidas no escândalo.

— Precisamos ter calma, assim que encontrarmos o Razvan, você pergunta. — Disse Raluca num suspiro. — Tenta não pensar nisso agora.

Takeda e Raluca ficaram em silêncio. Takeda procurava alguns últimos dados para embasar seus comentários no Unsprevlog. Raluca estava enviando sua coluna para o jornal.

— Eu revelei um esquema de jogos arranjados e derrubei a alta cúpula da Liga Profissional de Futebol numa série de cinco reportagens. Eu pisei no calo de gente poderosa.
— Você não vai resolver nada se preocupando desse jeito agora. Espera o Razvan. Agora se prepara que daqui a pouco vamos gravar.

William Takeda sentia saudades de casa quando se sentia vulnerável. Queria voltar para São José, onde tinha seus pais, sua irmã e seus melhores amigos. Mas só conseguia isto nas férias, que estavam a dois meses dali. Planejava deixar a Romênia dali a alguns anos para voltar ao Brasil definitivamente. Os planos travavam quando ele pensava na pessoa que mais lhe havia fascinado em seus 26 anos: Raluca Larie.

O brasileiro decidiu se distrair, e não conseguiu. Pesquisou “Radu Craioveanu” no Google. O primeiro resultado era uma coluna de domingo do jornal Adevarul:

O futebol romeno recebe mais uma sessão de exorcismo, e desta vez, o herói é completamente anônimo. Radu Craioveanu fez um excelente serviço ao esporte nacional desvendando uma farsa que ninguém imaginava. Se hoje Adalbert Fagaras está fora da presidência da LPF, é por causa deste pseudônimo da Unsprezece.

É irônico que, depois de termos ignorado a profecia de Hagi em 1998, vem um outro tipo de luz sobre o futebol romeno, desta vez o reconhecemos, mas não temos uma figura a quem agradecer. Resta agradecer pelo excelente trabalho da entidade ‘reportagem’ da Unsprezece, que desmantela a maior organização criminosa que já tomou conta do futebol romeno desde a Cooperativa”, lia-se no texto que ainda se prolongava.

A “profecia de Hagi” à qual o jornalista de Adevarul se referia remete a 3 de junho de 1998. Gheorghe Hagi, considerado o maior jogador romeno de todos os tempos, se irrita na coletiva de imprensa após a vitória por 3x2 sobre o Paraguai num amistoso em Bucareste. A seleção recebia muitas críticas da imprensa às vésperas da terceira Copa do Mundo consecutiva com participação romena. Hagi explode e, na discussão com os repórteres, diz que eles estão mal-acostumados. “Merecemos estátuas nossas, cara, pelo que fizemos em 10 anos, nas condições sociais e tudo mais em que a Romênia se encontra hoje, vocês tinham que nos fazer estátuas” e “acaba o futebol romeno. Zero. Em dois ou três anos, zero” foram apenas algumas das frases ditas pelo craque. Em 2000 e 2001, o futebol romeno começava a ruir de vez, como havia profetizado seu maior jogador.

A Cooperativa foi uma organização infratora formada por negociantes, líderes sindicais e donos de fábricas que dirigiam clubes de futebol. Jogos arranjados, árbitros comprados e passes de jogadores apostados em jogos de azar eram parte de suas atividades. Esta espécie de máfia de trapaceiros atuou nos anos 90 em diversos clubes, justamente no auge da seleção romena. Até mesmo a imprensa, que há menos de dez anos experimentava o sistema capitalista, havia sido amordaçada com ingenuidade, indulgência e suborno.

Eram seis horas quando Raluca e Takeda deixaram a redação. Não havia nada a ser feito sobre o fato de Tudorie saber que o brasileiro era quem estava por trás do pseudônimo Radu Craioveanu. Então haviam escrito algumas notícias para o site e gravado e publicado mais uma edição do Unsprevlog. Apesar de ser um projeto de certo sucesso, vários comentários continham diversos “elogios” à romena vindos dos trolls sobre a presença de uma mulher em posição de liderança no jornalismo esportivo. Por mais que ela dissesse a Takeda que nunca se incomodava com isso, ele conseguia ver uma raiva reprimida. Ela fazia graça do quanto incomodava os idiotas que a insultavam, mas ele via que sua amiga não conseguia ignorar todo o ódio.

Era sexta-feira, 13 de novembro. Já na calçada, após saírem da redação conversando sobre como a irmã mais nova de Raluca não conseguia desgrudar do seu videogame novo, Raluca perguntou:

— Não quer ir no Centru Vechi, tomar alguma coisa? Acho que nós dois precisamos desestressar um pouco.

Centrul Vechi (literalmente Centro Velho) é o centro histórico de Bucareste, um dos principais pontos turísticos da capital romena. Um lugar repleto de restaurantes e bares para todos os gostos e bolsos em ruas de calçadão. Era tudo que Takeda queria ouvir, e tudo que ele não tinha coragem de perguntar. Tinha sempre a impressão de incomodar todos à volta dele com sua presença, e a última pessoa que ele queria incomodar era Raluca.

— Claro. — Respondeu com um sorriso — Você veio de carro?
— Não seja ridículo, você sabe que eu nunca venho de carro.

Era verdade. Apesar de ter um carro e uma moto, ela sempre usava o metrô. Dizia brincar de antropologia e psicologia observando as pessoas no caminho e escutando suas músicas preferidas. Fora o fato de que era muito mais econômico e mais rápido.

— Você veio de carro. —Completou Raluca.
— Você sabe que eu sempre venho de carro. — Lembrou Takeda. Os dois já caminhavam para onde estava estacionado o Sandero.
— Retardado.
— Desculpe por te tirar das diversões do metrô.

O céu estava nublado e escuro, e o início da noite de outono em Bucareste anunciava que as próximas horas seriam ainda mais frias. Caía uma leve garoa e havia uma pequena névoa. Raluca vestiu o gorro do seu casaco vermelho para se proteger das gotículas. Takeda e ela andavam lado a lado, ambos com as mãos nos bolsos. O rapaz, no entanto, tinha a mão direita no bolso da jaqueta, e a esquerda do da calça.

Eles viraram à esquerda, na estreita Rua Paul Greceanu, onde Takeda havia estacionado seu carro: na calçada. Ele havia notado, em suas primeiras semanas de TCC, há anos, que romenos estacionam na calçada indiscriminadamente e ninguém tem nada com isso. Não era algo exclusivo de Bucareste. Havia percebido o mesmo em Pitesti, Cluj-Napoca e Craiova. Logo o brasileiro pegou o hábito e passou a estacionar seu carro com as quatro rodas na calçada.

A rua estava deserta, e ainda havia vários carros estacionados. Do outro lado da calçada, Raluca avistou um homem sem sobrancelhas com uma espécie de gorro ninja, mas a parte que ocultaria seu rosto estava aberta por um zíper. Mal-encarado e corcunda, o homem olhou para os dois e seguiu caminho. A jornalista apressou o passo.

— Falta muito? — Perguntou, incomodada
— Não, já tá ali. — Respondeu Takeda, apontando para o Sandero a dez metros.

Raluca gritou alto de pavor, e Takeda escutou um som seco, como se algo tivesse batido na parede. Sem tempo de falar, apenas se virou. Viu m homem sem sobrancelhas com uma espécie de gorro ninja, fechado com um zíper. Mal-encarado e corcunda, ele apertava o pescoço de Raluca, que estava contra a parede, apavorada, com as mãos no braço do agressor. A mão direita tinha um pequeno canivete pressionado na bochecha da vítima.

— Eu só quero o dinheiro e o celular, rápido, agora! — Gritou o homem. Raluca fechou os olhos, chorando e buscando o celular na bolsa.

Takeda foi esticar seu braço direito para tentar impedir o assaltante, mas logo foi impedido por outros dois homens desmascarados. Eles apontavam, cada um, um facão para o rapaz, que pôs as mãos para o alto.

— Não tenta fazer nada, a gente só quer o dinheiro e o celular! Se fizer merda, a gente vai fazer merda também.

O repórter respirou fundo. Viu Raluca chorando, entregando carteira e celular. O mascarado corcunda afastou o canivete do rosto de Raluca. Takeda respirou fundo de novo.

— Passa a merda do celular, filha da puta! — berrou um dos assaltantes de Takeda, que pareciam ser capangas do que havia acabado de roubar os pertences de Raluca.
— Calma… — Pediu Takeda. — Vai dar tudo certo.

O mascarado deixou a moça, que ficou de joelhos na calçada, em choque, e foi até Takeda. Deu um soco no rosto do rapaz, que se apoiou na calçada.

— Eu tenho que fazer tudo sozinho nessa merda, vocês não impõem respeito! — reclamou o mascarado. — Passa tudo antes que a gente mate a namoradinha!

William Takeda bufou e contraiu os lábios. Voltou a ter as mãos para o alto.

— Vocês não poderiam ter escolhido gente pior pra assaltar hoje, seus ladrõezinhos de merda!

Um dos capangas, de cabeça raspada e tatuagem da bandeira confederada no pescoço, tentou pôr a mão no bolso esquerdo da jaqueta de Takeda. O repórter segurou a mão do assaltante e deu um soco com a mão direita, levando o bandido ao chão.

— Filho da puta! — Gritou o mascarado. Ele correu de volta para Raluca, para fazê-la como refém. Antes, com a faca do capanga nocauteado, Takeda esfaqueou o outro no estômago e o jogou no chão. Esticou o braço direito, fez uma “pistola” com a mão, apontou para o mascarado.

— Hoje não! — Um grande raio laranja, com uns 2 cm de espessura, iluminou a escura rua Paul Graceanu e atingiu o líder dos criminosos. Ele é lançado por alguns metros e cai, inconsciente.

Cinco segundos de silêncio total na rua, não fosse os gemidos do capanga esfaqueado e imobilizado.

— Que porra foi essa? O que foi isso, Takeda? — Gritou Raluca Larie, ainda de joelhos, no chão, com lágrimas e garoa molhando o rosto.

William Takeda vai até a amiga e estende a mesma mão que fez o assaltante voar para ajudá-la a se levantar. Envergonhado e sem conseguir olhá-la nos olhos, ele ainda tenta quebrar o constrangimento com sarcasmo, humor leve, ou qualquer coisa assim.

— Não quer ir no Centru Vechi, tomar alguma coisa? Acho que nós dois precisamos desestressar um pouco. Tem algo que eu preciso te contar.

garurului

Do garuru. Ficção, não-ficção, delírios e melancolias

João Vítor Roberge

Written by

jornalista, craiovano e digiescolhido

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Do garuru. Ficção, não-ficção, delírios e melancolias

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