Incêndio
Um poema sobre comoção seletiva do apagamento da memória

Lamenta a perda
Da memória material
Do colonizador.
Menospreza o sofrimento
Ancestral
Dos povos de depois do Bojador.
Criminaliza
A resistência maior,
A vida.
Tudo forja,
Armas, flagrantes, ideologias.
Tudo monetiza.
Corpos perfilados, amontoados,
Cobertos com sacos plásticos
E contados como se fossem
Peças,
Mercadoria,
Moedas
De troca
Por votos, licitações, condecorações,
Aumento de verbas,
Sensação de segurança.
Tudo vale.
Camburões-embarcações
Arrastam, asfixiam,
Disparam,
Queima-roupa, queima-de-arquivo,
Encarceramento…
E cadeias-senzalas completam
A missão.
Nos cemitérios-mares, covas rasas.
E do lado oposto das grades,
Tão oposto que às vezes não se sabe
Se nele há mesmo liberdade,
Os olhos que espelham o céu
Choram a morte
De um cachorro,
De uma calopsita,
De uma personagem de série da Netflix
Ou de alguém da família,
Que teve tudo na vida
O que gerações inteiras
De nossos ancestrais
Não puderam fruir.
Quanto desse sal se mistura com o nosso suor?
Quanto, senão por pilhagem,
O teu paço guarda de nossa imagem?
Não temos paço.
Guardamos memória nos corpos
Que fortalecem nossos ritos cíclicos
E laços
De resistência.

