Processos de edição
Uma reflexão sobre ser editada
A edição é um processo doloroso. Por melhor e mais delicada que possa ser a proposta de edição. Por muitos motivos.
Não sabemos como foram elaborados, quantas vezes foram reescritos, repensados e como foram editados os textos que amamos, de escritores experientes, premiados e consagrados. Essa parte do processo de publicação raramente é exposta quando se trata de livros. Tem making off de filme, série, clipe de música e até mesmo de vídeos engraçados on-line, mas não de livros.
Temos apego ao nosso texto. Textos podem ser escritos como construção do pensamento, como um momento de reflexão, ou de inspiração, de desejos, de motivações muito pessoais. Pode ser uma construção racional ou passional. Mas, para ser publicado, é necessário um sério trabalho de edição e revisão.

Acredito que qualquer tipo de texto que não seja acadêmico tem uma certa carga emocional, seja pela sensação de insegurança em relação a ele, seja por gostarmos muito dele. Então, entendo que, quando sugestões editoriais são feitas, nossa primeira reação é a negação e o incômodo: ou por acharmos que elas reafirmam a nossa incapacidade de escrever bem, ou por acharmos que os editores não entenderam o que queríamos escrever.
Portanto, a primeira reação de quem nunca foi editado tende a ser o distanciamento da tentativa de publicar ou a recusa das sugestões editoriais, sem reflexão. Apenas a sensação de rejeição ou de não ter um texto bom. O que não é produtivo nem pra quem escreve, nem pra quem edita. A edição é (e precisa ser) baseada na troca, no diálogo e tende a ser enriquecedora pra ambos. Aprender a pensar em perspectivas que vão além da inspiração e do apego ao momento em que o texto foi escrito pode ser doloroso, mas também pode ser desafiador e instigante. É um processo muito interessante, ao qual não estamos acostumados. Alguma professora de redação sentou com você pra dizer como seu texto poderia melhorar, ou como você poderia dizer melhor o que tentou dizer? Ou apenas rabiscou seus erros de português e fez um elogio/reclamação sobre a sua letra ou dobre sua criatividade? Mencionou seu esforço ou falta dele, sem considerar as questões pelas quais você estava passando na época? Em geral, escolas apenas assinalam certo e errado, atribuem pontuações que para os alunos parecem aleatórias, avaliam os acertos e erros baseados em regras jogadas sobre os alunos durante as aulas. São desconsiderados estilos, processos criativos, experiências e até os tais significantes e significados que eles tanto fingem tentam ensinar.
Há outros motivos para o incômodo com a edição: psicológicos, históricos, sociais e, especialmente, individuais.
Obviamente, estou falando aqui de escritores iniciantes e sua relação com o processo de edição como experiência nova. Não posso afirmar impressões sobre os processos de autores publicados quanto à edição e processos editoriais pelos quais passam, nem a relação de pessoas que possuem alguma experiência, seja profissional, seja de estudos (incluindo estudos não-formais). Acredito que a experiência traga uma bagagem que ajude a adaptação a este processo. Mas, como disse, isso não é publicizado, então, não temos muito como saber.
Nós, da Literatura de Gaveta esperamos que a edição não seja um processo doloroso, mas um trabalho colaborativo entre escritores e editores.
Não há aqui um esgotamento do assunto, ou uma definição fechada, apenas elementos para pensarmos juntos esta relação com a edição de textos de ficção/poesias/etc.
Voltaremos a tratar desse assunto em outros textos, mas quem quiser deixar uma colaboração ou um contraponto, esse espaço é, também, pra esse debate. É preciso falar sobre edição no Brasil, sobre romantização da escrita e de processos que impossibilitam certos atores de falar e publicar.
Se você concorda ou discorda desse texto, comente aqui ou entre em contato conosco e exponha seu ponto de vista. Vamos adorar!
