O Fim de Alguma Coisa

Caio Geraldini
Nov 4 · 6 min read

Houve um tempo em que Horton Bay era uma cidade madeireira. Ninguém que vivia lá ficava livre do zumbido das grandes serras da beira do lago. Mas veio um ano em que faltaram toras para fazer tábuas. As escunas madeireiras entraram na baía e carregaram todas as tábuas da serraria que estavam empilhadas no pátio. Todas as pilhas de tábuas foram levadas. Toda maquinaria transportável do grande prédio da serraria foi retirada e levada para bordo de uma escuna pelos homens que haviam trabalhado lá. A escuna zarpou a baía para o lago aberto, levando as duas grandes serras, o equipamento rolante que levantava as toras para as serras circulares e todos os roletes, rodas, correias e ferragens empilhados sobre a carga de madeira. Com o porão coberto de lonas bem amarradas, as velas da escuna pegaram o vento e levaram-na para o lago aberto com tudo que tinha feito da serraria uma serraria e de Horton Bay uma cidade.

Os galpões enormes, o restaurante, a loja da companhia, os escritórios e mesmo a grande serraria ficaram desertos em hectares de serragem que cobria o terreno pantanoso da margem da baía.

Dez anos depois nada mais restava da serraria, a não ser a pedra branca dos alicerces no meio da vegetação secundária do pântano quando Nick e Gabriel remavam rente à praia. Remavam acompanhando a linha da amurada onde o fundo de repente mergulha para quatro metros de água escura. Iam para o promontório preparar linhas para pescar trutas arco-iris durante a noite.

— Nossa velha ruína, Nick — Disse Gabriel.

Remando, Nick olhou a pedra branca entre as árvores.

— É verdade — Disse ele.

— Se lembra de quando era serraria? — Perguntou Gabriel.

— Me lembro, claro.

— Parece mais um castelo — Disse Gabriel.

Nick ficou calado. Remaram até perder de vista a serraria, acompanhando a linha da praia. Depois Nick embicou para atravessar a baía.

— Não estão mordendo — Disse ele.

— Não — Respondeu Gabriel. Estivera atento à vara durante todo o percurso, mesmo quando falava. Ele adorava pescar. Adorava pescar com Nick.

Bem ao lado do barco uma truta enorme brotou na superfície. Nick fez força com um remo para o barco girar e a isca passar onde a truta comia. Quando o dorso da truta apareceu fora d’água, os barrigudinhos pularam adoidados. Espalharam-se pela superfície como um punhado de chumbo jogado na água. Outra truta apareceu comendo do outro lado do barco.

— Estão comendo — Disse Gabriel.

— Mas não estão mordendo. — Disse Nick.

Girou o barco para passar perto das duas trutas, depois aprumou para o promontório. Gabriel só enrolou a linha quando o barco tocou a praia.

Puxaram o barco para a areia, e Nick retirou um balde de perca vivas. As percas nadavam na água do balde. Nick pegou três com a mão. Cortou as cabeças e escamou os peixes enquanto Gabriel pescava com as mãos no balde até que pegou uma perca, cortou a cabeça e escamou. Nick olhou o peixe do Gabriel.

— Você não deve cortar a barbatana ventral — Disse — Para isca serve, mas é melhor com a barbatana ventral.

Espetou o anzol pelo rabo cada uma das percas escamadas. Havia dois anzóis presos por guia em cada vara. Gabriel remou o barco para a mirada do canal com a linha presa nos dentes e olhando para Nick, que estava em pé na praia com a vara na mão desenrolando a linha.

— Já chega! — gritou Nick.

— Posso soltar? — perguntou Gabriel com a linha na mão.

— Pode. — Gabriel soltou a linha fora do barco e ficou olhando as iscas afundarem na água.

Voltou com o barco e fez a mesma operação com a segunda linha. De cada vez Nick calçou o cabo da vara com um pedaço de pau apanhado na praia para fixar bem a vara e deu-lhe uma inclinação com um graveto menor. Enrolou o excesso de linha para ela ficar esticada desde a vara até a isca no fundo do leito de areia e ligou a catraca. Quando uma truta lá no fundo engolisse a isca, nadaria para longe levando a linha, que iria se desenrolando da carretilha com o barulho característico da catraca.

Gabriel remou o barco um pouco mais para diante para não atrapalhar a linha. Remou forte, e o barco embicou na praia. Uma série de ondadinhas acompanhou o barco. Gabriel desembarcou, e Nick tirou o barco completamente da água.

— O que é que você tem, Nick? — perguntou Gabriel.

— Não sei — respondeu ele, catando gravetos para fazer um fogo.

Acenderam o fogo. Gabriel foi ao barco e apanhou um cobertor. A brisa do fim da tarde soprava a fumaça para o promontório. Então Gabriel estendeu o cobertor entre o fogo e o lago.

Ele se sentou no cobertor de costas para o fogo e ficou esperando Nick. Ele chegou e sentou ao lado dele. Atrás deles ficava a mata secundária do promontório, e na frente a baía com a foz de Horton Creek. Ainda não tinha escurecido de todo. As chamas da fogueira iluminavam o lago até certo ponto. De onde estavam, viam as duas varas metálicas inclinadas na água escura. As chamasse refletiam na carretilhas.

Gabriel destampou o cesto de comida.

— Não tenho vontade de comer — Disse Nick.

— Coma assim mesmo, Nick.

— Está bem.

Comeram calados olhando as varas e o reflexo das chamas na água.

— Vamos ter lua — Disse Nick. olhou para os morros do outro lado da baía, que começavam a se destacar contra o céu. Atrás dos morros vinha nascendo a lua.

— Eu sei — Disse Gabriel contente.

— Você sabe tudo.

— Oh, Nick, pare com isso! Não fique assim.

— Mas é mesmo. Você sabe. Você sabe tudo. Aí é que está. E você sabe que sabe.

Gabriel não disse nada.

— Eu lhe ensinei tudo. Você sabe. Aliás, o que é que você não sabe?

— Ah não amole. Olhe a lua.

Sentados no cobertor sem se tocarem, olharam a lua subindo.

— Não precisa fazer rodeios — disse Gabriel. — O que é que você tem?

— Nao sei

— Sabe, sim.

— Nao sei.

— Vamos desembuche.

Nick olhou a lua surgindo atrás dos morros.

— Não tem mais graça.

Nao teve coragem de olhar para o Gabriel. Depois olhou. Ele estava sentado de costas para ele. Nick olhou para as costas dele.

— Nao tem mais graça. Nenhuma mesmo — Ele não disse nada. Ele continuou. — É como se tudo tivesse se desmanchando dentro de mim. Nao sei, Biel. Não sei mesmo o que dizer. — Olhou de novo para as costas dele.

— Amor não tem graça? — perguntou ele.

— Não — respondeu ele. Gabriel levantou-se. Nick ficou sentado com a cabeça entre as mãos.

— Vou levar o barco — disse Gabriel. — Você vai a pé rodeando o promontório.

— Está bem. Vou pôr o barco na água para você.

— Não é preciso. — Ele já flutuava no barco sobre a água com a lua iluminando-o. Nick voltou e deitou-se com o rosto no cobertor perto do fogo. Ouvia as remadas do Gabriel se afastando.

Ficou deitado assim por muito tempo. Ainda estava assim quando ouviu os passos de Bill na clareira. Percebeu Bill se aproximando do fogo. Bill não tocou nele.

— Ele foi embora fácil? — perguntou Bill

— Foi — disse Nick mentindo, o rosto ainda no cobertor.

— Não fez drama?

— Não, não houve drama.

— E você como se sente?

— Não amole, Bill. Me deixe por um tempo.

Bill escolheu um sanduíche no cesto de comida e foi dar uma olhada nas varas.

*Texto adaptado do conto “O Fim de Alguma Coisa” do autor Ernest Hemigway*

Gostou desse texto? Clique em quantos aplausos — eles vão de 1 à 50 — você acha que ele merece e deixe seu comentário!❤

Redes sociais: Instagram

Gay Lovers

Histórias e conteúdo LGBT

Caio Geraldini

Written by

Escritor

Gay Lovers

Histórias e conteúdo LGBT

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade