A escolha diária de Sherry Smith

Tamworth, Austrália. Abril de 2016.

Dois pirralhos passam zunindo entre os bancos da praça, em direção aos brinquedos do parquinho. Bem atrás, com os passos lentos e desengonçados de quem carrega uma barrigona de sete meses de gravidez, Sherry Smith leva uma bolsa de couro marrom, sua, e outra colorida, a dos pimpolhos. Senta-se perto da cancha de areia e, enquanto discorre sobre a própria vida, suas escolhas e assuntos mais etéreos, não tira os olhos dos meninos. Aqui e ali, ela tenta botar ordem com imperativos. Até que funciona. O pirulito desenterrado do chão sai da boca na mesma velocidade que entrou. Sherry nunca foi babona de criança, mas nos últimos anos isso mudou radicalmente. Foi antes de ter Toby, ruivo como ela aos 3 anos de idade, e Sebastian, loirinho de 2. Ela é professora, e começou a carreira em turmas de adolescentes no equivalente ao Ensino Médio brasileiro. Falta de mão de obra não é exclusividade das escolas brasileiras, e Sherry precisou fazer hora extra com as turmas dos pequenos. “Eu tinha medo deles, são tão imprevisíveis. Hoje eu me divirto com isso”. Sherry tem, hoje, 32 anos. Ou 31. Ela não tem mais certeza. À espera do terceiro filho — ou filha, ela não quis saber o sexo — , ela não se preocupa mais com uma bobagem dessas. Já está pensando é no quarto rebento, que nem encomendado foi ainda. “Eu não quero soar pretensiosa, mas eu sou uma influência muito positiva nas crianças, e isso me dá um prazer e uma felicidade, um preenchimento tão grande que não cabe em mim”.

Sherry não está sozinha. Por onde você olha em Tamworth, há crianças e bebês. Restaurantes e cafés em toda a cidade contam com áreas cheias de brinquedos para os pais poderem comer sem se preocupar. As praças vivem lotadas. Ainda é fresco na memória dos moradores um tempo que não era assim, não faz nem dez anos. Políticos, empresários e fazendeiros se preocupavam com uma população em queda, e um movimento econômico em declínio. A criação de gado, cavalos e o turismo trazido pelo festival anual de música country — um dos maiores do mundo! — não estavam dando conta da população de pouco menos de 50 000, e serviços básicos começaram a escassear.

Para uma simples consulta médica, por exemplo, a fila de espera era de semanas. A população se uniu e apresentou um plano de recuperação. O governo do estado de New South Wales encampou algumas das ideias, investiu na infra-estrutura — inclusive de lazer, para atrair famílias — , e foi mais longe: ofereceu dinheiro vivo (as cifras variam entre 7 e 10 000 dólares australianos) para quem quiser se mudar de Sydney, que sofre com a superpopulação, para lá ou uma das outras seis cidades que entraram no pacote. Deu tão certo que a cidadezinha caipira recebeu gente até de outros países. Sherry passou a dar aulas de inglês para os filhos de filipinos e indianos que se mudaram para trabalhar na indústria de alimentos.

A felicidade é uma escolha? Filósofos debatem sobre o assunto há milênios, os gregos já se dividiam. Os seguidores de Tales de Mileto acreditavam que era preciso uma boa dose de sorte para se alcançar a felicidade — a filosofia brasileiríssima de Nelson Rodrigues dizia que, sem sorte, sequer se chupa um chicabom; engasga-se com o palito, ou se é atropelado pela carrocinha. Aristoteles, Epicuro e os estóicos acreditavam, cada um a sua maneira, que cabia ao homem achar o caminho para a felicidade. Sherry também tem suas ideias sobre como se chegar lá como uma escolha pessoal. Nascida numa África do Sul ainda mergulhada no apartheid, ela migrou com a família pouco depois da ascenção de Nelson Mandela ao poder, em 1995. Tinha 11 anos de idade, e encarou a fuga dos pais de um país em convulsão social como uma grande aventura. “Foi a melhor coisa que meus fizeram na vida, a qualidade de vida, a segurança, as oportunidades que a Austrália proporciona não existem na África do Sul”. Mas nem todas as qualidades encontradas por Sherry no novo lar impediram que sua adolescência tenha sido mergulhada em uma depressão profunda, combatida com remédios tarja-preta, psiquiatras e a ajuda diária da mãe psicóloga. Seu marido também flertou com a melancolia, a vida inteira. A chamada doença da alma corre na família, e ainda hoje ele não se sente forte o bastante para encontrar o pai quando este passa por crises agudas. O maior medo de Sherry é ver os filhos tendo um encontro com o demônio do meio-dia. “Eu preciso tomar a decisão, dizer para mim mesma ‘Não, eu vou sair da cama, ver o sol. Vou sair e curtir meus filhos brincando, interagir om eles. Pôr um sorriso no rosto, ao invés de dar a meus filhos pais tristes e miseráveis”.

Na escolha cotidiana pela felicidade, um aliado poderoso é Ele, o Todo Poderoso. Sherry montou um grupo de estudos bíblicos que se reúne semanalmente às segundas. Ela, o marido e mais seis pessoas discutem o Evangelho, assistem a filmes com mensagens positivas, às vezes recebem um palestrante, e também os caminhos e descaminhos da vida. O arranjo é comum em Tamworth, e os padres se desdobram para orientar a quantidade de reuniões na cidade, mas Sherry garante que as aulas são o menos importante. Sente que conhece mais profundamente os amigos, e se sente feliz de cultivar essas relações. Também frequenta a igreja católica, no centro de Tamworth ou perto da casa dos pais, nos arredores da cidade. Não é de se admirar que ali também se aproximou das crianças: Sherry ensina o catecismo antes da missa. Entende que só é capaz de dedicar tanto tempo à religião porque mora numa cidadezinha do campo. Por isso teme que seus filhos queiram, quando crescerem, se mudar para Sydney ou para Melbourne. “Vou apoiá-los em qualquer decisão que tomarem, mas eu acho que as pessoas perdem Deus de vista nas grandes cidades. Não têm tempo para Deus, ou não querem ter tempo. O ritmo mais lento nas cidadezinhas deixam mais espaço para o cristianismo, e a Austrália foi construída sobre uma fundação cristã”.

Com tanto amor e dedicação às crianças, não existe um medo de ver a felicidade se esvair a medida que os pimpolhos crescem e vão para o mundo? Não para Sherry. “Você continua a achar felicidade todos os dias. Ao envelhecer, enquanto a vida se desenrola, você fica mais sábio, aprende. Existe uma porção de oportunidades para a felicidade no caminho, e diferentes níveis de felicidade. Vejo a alegria dos meus pais e meus sogros com os netos, e é uma felicidade diferente da minha felicidade com eles. Então vem novas experiências por aí, novos tipos de felicidade. Vai ser incrível”.