Jennifer e a França fora da França

Nouméa, Nova Caledônia. Março de 2016.

Jennifer Colas-Raffaualt chegou a seu bar favorito, no Hotel Le Méridien, às 4 da tarde de uma quinta-feira. O corpo esbelto, o penteado impecável, a pele alva sem qualquer marca que não as sardas no rosto. As covinhas, a postura elegantemente ereta. A bebida que pede ao garçom, uma Orangina (refrigerante cítrico franco-argelino) com xarope de morango. O biquinho ao falar. Jennifer é francesa até o caroço, nascida no subúrbio de Paris e criada em Clermont-Ferrand, cidade industrial que abriga a sede da empresa de pneus Michellin. Desnecessário dizer que ela adora seu país. Necessário esclarecer, porém, que França é essa. “A França que eu li nos livros, que meus pais e meus avós falam com tanto amor, é maravilhosa, mas não está mais lá”. Com um sorriso largo, vestido em uma blusa azul royal, mira o por do sol que tinge de dourado o Oceano Pacífico embaixo da varanda. “A França de que meus pais falavam eu encontrei aqui, na Nova Caledônia. E é incrível”.

Pelo menos até 2018, quando está previsto um plebiscito que vai decidir se o arquipélago permanecerá sob a bandeira azul, branca e vermelha, a Nova Caledônia é um pedaço da França nos trópicos. Obviamente fala-se o idioma de Molière, mas também come-se deliciosos croissants e os restaurantes têm chefs formados na tradicional Cordon Bleu. No supermercado — Casino, como em Paris ou Clermont-Ferrand — há vasta seleção de foie gras e vinhos de Bordeaux e Borgonha. Cerca de 40% dos habitantes se dizem europeus (por nascimento ou descendentes), e ainda existem vilarejos/tribos brancas que se dizem Kanakis, uma vez que seus ancestrais foram assimilados pela cultura local. Não há, no entanto, nenhum sinal de filósofos existencialistas fumando nas praças, dançarinas libertinas (onde estão os cabarés?), queijarias ou vinhedos. “A França dos meus pais e avós não tinha tantos estrangeiros. Os verdadeiros franceses são cada vez mais uma minoria!”.

Há seis anos, então, Jennifer deixou para trás emprego, família e amigos para buscar sua felicidade na Nova Caledônia. “Deve ser uma decisão difícil para a maioria das pessoas, mas para mim foi muito fácil. Eu era muito infeliz”. Uma ex-colega de seu trabalho em uma farmácia mudou-se para Nouméa, a capital do território, e em uma conversa via Skype Jennifer se encantou com a vista da janela da menina. Empolgadíssima, convidou uma amiga para a aventura e alguns meses depois entrou em um avião pela primeira vez para tentar a vida numa ilhota do Pacífico. Ela queria se sentir livre. Mas liberdade, assim como felicidade, é uma palavrinha manhosa. Todo mundo a usa o tempo todo — ela até abre o famoso lema da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. “Hoje eu posso fazer quase tudo o que eu quero: curto a natureza a qualquer hora, o clima é bom o ano inteiro, estou a 20 minutos de qualquer lugar e é fácil encontrar meus amigos mesmo que o dinheiro esteja curto, porque a praia é grátis”. E tudo isso, claro, 'sem estrangeiros para estragar a diversão'. “Ser feliz é ser livre. Aqui eu sou livre”.

Aos 21 anos, em 2010 — a Europa ainda nocauteada pelo maremoto que varreu a economia mundial em 2007/2008 — Jennifer trabalhava como farmacêutica em sua Clermont-Ferrand, como uma mileurista. Este termo, cunhado no início do século na Espanha, define as gerações de europeus qualificados que não conseguem bons salários e/ou empregos condizentes com sua educação. Jennifer jamais cita o salário de 1 000 euros como o motivador para deixar a França. Evidentemente que arrumar um emprego que lhe pagava exatamente o dobro numa farmácia em Nouméa ajudou na aclimatação, mas a liberdade… difícil não tomar gosto uma vez que você experimenta. Por mais contente que Jennifer ficasse de perceber que seus colegas não eram mau humorados e competitivos como na França, mas simpáticos e prestativos, ela se sentia incomodada em cumprir horários e vestir uniforme. Passou os últimos anos deliberando com o namorado, que conheceu pouco depois de chegar à ilha, o melhor ponto para abrir o próprio negócio, um café. “Só tem uma coisa que eu sinto falta da França: um bom café. Vou resolver isso abrindo o meu próprio estabelecimento, e nunca mais vou ter um chefe na vida”.

Apesar do sorriso radiante e do discurso afiado, Jennifer jamais conseguiu convencer parentes e amigos a seguir seu caminho. A amiga que a acompanhou em sua primeira viagem de avião voltou para a França depois de um ano e meio. Sua própria mãe demorou cinco anos para fazer a primeira visita à filha. Os parentes e colegas continuam achando, depois de 6 anos e um empreendimento engatilhado, que qualquer hora dessas Jennifer cansa e toma o rumo Clermont-Ferrand. “Eles acham que minha vida é uma novela, é ficção em um cenário paradisíaco. Daí eu pergunto como vai a vida deles, e a resposta é sempre a mesma: ‘Continua a mesma coisa de sempre’. Eu odeio isso! Como podem querer viver 80 anos fazendo a mesma coisa, no mesmo lugar, e achar que a doida sou eu?”.

Há sete anos, Jennifer sequer pensava no assunto viagem, que dirá em se mudar de continente. Há seis meses, ela estava certa de que não teria filhos, pois a liberdade era mais importante. As coisas mudam, a felicidade muda. A liberdade muda. “Quando você tem um emprego, um chefe, você não tem tempo para criar um filho e ter uma vida própria. Agora eu vou ter meu próprio negócio, e quero dois filhos. E adotar um terceiro. Não vou trabalhar tanto, talvez 20 horas por semana. Vou curtir minha família”. Ela aprendeu com a própria experiência que os planos podem virar de cabeça para baixo de uma hora para a outra, mas uma certeza ela tem: “Minha mãe veio e finalmente entendeu que eu não volto, e prometeu voltar todo ano para uma temporada de 3 meses. Pode ser que eu me mude de novo, mas jamais, jamais!, para a França”.


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