Liberdade. Igualdade. Felicidade.

Na volta da pausa de duas semanas do Gente Extraordinária, publicamos a história de uma menina francesa que se mudou para a Nova Caledônia — mais ou menos 40% da população do arquipélago é de franceses ou descendentes diretos — em busca de sua felicidade. Ela nos disse que a França que ela conhecia não batia com a França que seus pais e avós celebravam, não correspondia ao que ela lia nos livros e via no cinema. Quando perguntamos o que causava esse estranhamento, ela não titubeou. Disse com a maior naturalidade que o problema era a presença maciça de estrangeiros.

Fiquei muito desconfortável. Em minha vida de repórter, já entrevistei dezenas, talvez centenas de pessoas que me disseram coisas abomináveis com um sorriso no rosto, tentando ganhar minha simpatia ou implicando uma cumplicidade que não existia. Na maioria das vezes, eu estava preparado para aquilo. Por vezes, era exatamente atrás daquilo que eu estava, queria entender — e explicar para os leitores — como alguém podia defender determinada ideia que me soava absurda.

Na Nova Caledônia, eu não estava preparado. Por isso, ao longo da hora e meia que conversamos, voltei ao assunto várias vezes, para ter certeza de que eu tinha entendido certo. Ela repetiu de novo e de novo: não gosta de estrangeiros, acredita que eles estão arruinando sua terra. A Nova Caledônia é legalmente um território francês, mas é óbvio que é um país diferente. Perguntei a ela se sentia na França, tentando explicitar a incongruência de se fugir de não-franceses indo para a terra dos Kanakis (povo nativo daquelas ilhas). Jennifer me respondeu que não se sentia na França: era até melhor, já que na Nova Caledônia não tinha estrangeiros. O subtexto era claro para mim. Já vi discursos e entrevistas da ultra-nacionalista francesa Marine Le Pen o suficiente para saber que a menina não se referia a qualquer estrangeiro, mas aos árabes. Aos muçulmanos.

Quando ainda discutíamos o Gente Extraordinária, muito antes de botar o pé na estrada, já nos perguntávamos: e quando nos depararmos com um discurso sobre felicidade que nos ofende? Ora, publicamos. Sempre batemos na tecla de que não estamos à procura da felicidade perfeita, em busca do segredo para a felicidade eterna. A ideia é, e sempre foi, tentar mostrar como é diversa essa busca, como as pessoas pensam diferente. E como podem chegar à felicidade, ou não, por caminhos os mais diversos. A Jennifer parece genuinamente feliz. Seus olhos brilham quando fala de sua vida, de seus planos, do lugar que escolheu para morar. Acreditamos piamente que contar sua história não nos faz corroborar o que ela diz.

(Nome e imagem borrados a pedido da leitora)

Mas, é claro, depende muito da forma como apresentamos o pensamento dela. O primeiro comentário negativo sobre o texto não demorou a aparecer. Encarei com naturalidade. Já esperava, até. Confundir mensageiro com mensagem é muito comum, e tentamos responder com delicadeza que não se tratava do nosso ponto de vista. Mas vieram outros. E vieram de pessoas próximas, que eu respeito o suficiente para me fazer repensar se o mensageiro errou desta vez. O atentado terrorista em Bruxelas, no dia seguinte à publicação, fez a associação entre xenofobia e felicidade soar ainda mais fora do tom.

Relemos o texto. Senti falta de uma referência ao crescimento do partido de Marine le Pen, o Front National (Frente Nacional), que contextualizasse esse sentimento de Jennifer quando ela saiu da França (de lá pra cá, o partido perdeu força e teve um desempenho pífio nas últimas eleições). É nosso objetivo mostrar como a busca individual pela felicidade molda o mundo, e a busca da Jennifer é/era reflexo (causa ou consequência?) de um momento político pelo qual a França, e seus territórios ultra-mar, estão passando. Mas, ainda assim, acredito que a história dela merece ser contada. Me fez lembrar da entrevista que o diretor José Padilha deu à revista Veja na semana passada:

“O diretor de Tropa de Elite, afinal, é de esquerda ou de direita?
Nem de esquerda, nem de direita. Minha trajetória no cinema reflete o que penso. Quando fiz Ônibus 174, contei a história do ponto de vista de Sandro Nascimento, um menino de rua convertido em bandido, As pessoas de esquerda adoraram o filme, mas fui criticado pela direita. Quando abordei a violência do ponto de vista de um policial, em Tropa de Elite, fiz questão de chamar o esse policial pelo mesmo sobrenome de Sandro — Capitão Nascimento. O subtexto era: a violência no Rio de Janeiro se explica pelo encontro entre esse tipo de policial com aquele tipo de criminoso, e o estado está produzindo ambos. A direita adorou Tropa de Elite, e a esquerda me chamou de fascista. (…)”

Mostrar um determinado ponto de vista não significa ratifica-lo. Precisamos conhecer o mundo em que vivemos, pois só assim podemos modifica-lo. Pedimos desculpas por ter ofendido alguns leitores, mas reafirmamos o nosso propósito de contar a busca pela felicidade de cada um. Com igualdade e liberdade. Sempre.