Meus primeiros 10 dias sem emprego

Ou porque pedi demissão para trabalhar o dobro sem garantias.
~Apesar da crise~


Segunda-feira, 10 de agosto, 5h da manhã. O aeroporto Santos Dumont já estava acordado, e nós também. Antecipamos nosso voo para o primeiro rumo a São Paulo, às 6h15. Queríamos estar em casa quando nossa campanha de financiamento coletivo entrasse no ar pelo Catarse, às 9h.

A ponte aérea da madrugada: o Rio acorda sem filtro

Havíamos ido dormir depois de 1h da manhã, perpetuando uma rotina de privação do sono que nos persegue há 4 meses, desde que começamos a pensar o Gente Extraordinária. Na ponte aérea, apagamos. Em Congonhas, passei mal.

Chegamos em casa às 8h, mas não conseguimos trocar de roupa ou tomar café da manhã. Abrimos nossos computadores e voltamos a revisar tudo o que havíamos escrito no rascunho de nossas redes sociais. Quando respiramos, eram 8h59. Apertamos o publicar.

O tempo ganha contornos muito loucos quando se está nervoso ou ansioso ou apaixonado, que talvez seja uma junção dos dois primeiros. Nós estávamos vivendo os três ao mesmo tempo. O momento pelo qual a gente tanto tinha esperado estava ali, acontecendo. Estávamos no ar, e estávamos juntos pela primeira vez em nossa empreitada independente: nós, as cadeiras duras de madeira e a mesa de jantar de tampo de vidro que não tem altura para se trabalhar.


Esse foi meu primeiro dia sem emprego.


Voluntariamente. ~Apesar da crise~. No dia 7 de agosto, às 17h, cruzei pela última vez a catraca da TV Globo, em SP. Deixei meu cargo de editora sênior no maior portal de notícias do país para me dedicar integralmente a um sonho. Essa foi a 11ª vez que deixei um emprego, mas a 1ª que saí sem procurar o próximo.

Jovem e estagiária no Jornal do Brasil aos 21 anos: ele não existe mais

Alguma coisa engraçada acontece quando você conta por aí que pediu demissão. E que é jornalista. E que, sendo jornalista, pediu demissão para se dedicar a um projeto que não tem absolutamente nenhuma garantia de que vai ser rentável. Um grande amigo me disse outro dia: "O jornalismo está perdendo uma boa repórter". Outro me disse: "Um dia eu também consigo largar tudo pra viajar o mundo".

A má notícia — pra mim, claro — é que não é nada disso. Eu não larguei tudo para viajar o mundo: troquei trabalhar com o conforto de um emprego com salário e carga horária bonitinha para me afundar em 80 horas semanais de pura loucura e dor nas costas. E também não abandonei o jornalismo. Ao contrário, só o amor por ele me faz apostar tão alto em uma nova forma de produzir conteúdo.

Despedida da Veja Rio, em 2014: mudança para SP para trabalhar no iG, que também não existe mais

Trabalhar em casa é uma fonte absurda de prazer. Cozinhamos nossas refeições e comemos juntos, e às vezes até cochilamos depois do almoço.

Podemos ouvir música durante o expediente e tomar umas cervejas durante a tarde. Deitar na rede bebendo chá e lendo a extensa bibliografia sobre felicidade que preparamos também faz parte do nosso trabalho.

Nesses 10 dias me senti muito mais realizada do que em qualquer emprego que tive — e ainda nem caímos na estrada. Acontece que trabalhar em casa também tem seu lado exaustivo. Meu expediente foi das 8h às 23h todos os dias, sábado e domingo incluídos, mas me sinto menos cansada do que quando trabalhava as regulamentares 40 horas por semana. Só saímos de casa para ir ao mercado comprar comida, e só paramos de trabalhar para comer e para fazer yoga. Ainda assim, não lembro de encontrar tanto propósito e realização em uma atividade profissional.

Como resultado, muita coisa aconteceu. Pela primeira vez nossos nomes saíram em um jornal, e não foi assinando uma matéria. Pela primeira vez um vídeo de projeto de financiamento coletivo virou trailer de cinema durante a campanha de arrecadação: e foi o do Gente Extraordinária, que está em cartaz nas salas Cine Santa Teresa, Cine Cândido Mendes e Cine Museu da República.

Gente Extraordinária nos cinemas e na coluna Gente Boa do Jornal O Globo

Nesse tempo, vimos também a força que tem uma corrente formada por pessoas com os mesmos ideais. Em uma semana de campanha no Catarse, conquistamos mais de 30% da meta de arrecadação. Muita gente curtiu e compartilhou o Gente Extraordinária, e alcançamos 15 mil pessoas com a nossa vontade de investigar a felicidade pelo mundo.

É verdade que o jornalismo passa por um momento delicado. A crise nas redações é real, e é com muita tristeza que a gente acompanha amigos perderem seus empregos em jornais, revistas, TVs e portais de notícia. O Felipe mesmo foi uma das baixas desse processo: foi saído da Veja em um passaralho em abril.

Repórter no Jornal O Dia, ia da cobertura policial ao noticiário do cotidiano do Rio de Janeiro: outro veículo que está mal das pernas

Mas não é verdade que a profissão está em decadência. A gente acredita que não há momento melhor pra ser jornalista, com tantas ferramentas e formas de atingir os leitores. É por isso que aposto todas as minhas fichas no projeto Gente Extraordinária.

Tenho 28 anos e já passei por 11 empresas. Quatro delas fecharam as portas. E nós seguimos aqui. Sem emprego, mas não sem trabalho.


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