O melhor da Austrália é o… brasileiro!

Uma carta aberta de agradecimento

Em quase cinco meses de viagem foram muito poucas as vezes que ouvimos alguém falando português. Pudera. Samoa, Vanuatu e Nova Caledônia não costumam constar no roteiro turístico do brasileiro — e esse desconhecimento sobre as ilhas do Pacífico Sul foi um dos nossos argumentos para as mais de 20 horas de voo rumo a uma vida permeada de falta de sono, refeições que consistiam no infalível combo miojo+atum em lata e cenários paradisíacos.

Na Austrália tudo foi diferente.

Chegamos aqui por Brisbane, em Queensland, a menos de duas horas de Gold Coast, o cenário da entrevista da semana. O detalhe engraçado é que tanto Felipe quanto eu fomos estudantes de intercâmbio na cidade quando éramos adolescentes. Um ano separou a experiência de cada um de nós, e tínhamos altas expectativas com o reencontro. Passamos a primeira semana de folga do Gente Extraordinária lá, surfando, lendo e tomando açaí. Eu cheguei a reencontrar a minha host mother — a mãe da família que me acolheu quando eu tinha só 16 anos. Almoçamos juntas na véspera da viagem dela para… o Brasil. As coincidências da vida são maravilhosas.

É por Gold Coast que muito brasileiro vem tentar a vida na Austrália. Tentamos achar números oficiais que comprovassem isso, mas na Prefeitura os dados de imigração ressaltavam a presença asiática por aqui — nada de brasileiros. A constatação fica, então, só na nossa percepção. Um grupo no Facebook chamado Brasileiros em Gold Coast é um festival de ofertas de acomodação, comidinhas brasileiras e festas. Quando estávamos voltando da viagem pelo sul da Austrália, onde fizemos entrevistas em Nimbin, Sydney, Melbourne e Tamworth, foi a ele que eu recorri para pedir um sofá para passarmos uma semana em busca de um entrevistado que representasse bem o espírito da costa dourada.

Essa foto é só pra dizer eu estudei com o Mineirinho no intercâmbio, hahaha

Ana Clau me enviou um inbox. Paulista de São José dos Campos, ela vive há seis na Austrália e hoje já é cidadã daqui. Na mensagem, ela oferecia um quarto na casa em que vive com o marido e a filhinha de um ano. "Vocês podem ficar aqui sem custo", reforçava ela. A gente foi, e foi incrível.

Outro dia, minhas costas travaram. Eu não conseguia me mexer, e uma bola dura tinha se formado na minha costela. Postei o problema no mesmo grupo e pedi ajuda; logo me indicaram o Ícaro. Ele é fisioterapeuta do Ceará, e está tentando migrar pra Austrália por conta da profissão (o país oferece residência a estrangeiros qualificados em profissões com falta de mão de obra). Ícaro me atendeu depois do trabalho, de noite, no mesmo dia. Em sua casa, ele realinhou minha coluna em uma hora de estalos e pressões específicas. A dor foi embora, e eu consegui respirar de novo. "Você pinçou um nervo", ele me explicou, "não dá pra ficar trabalhando na postura que você tem ficado". Na hora da despedida, Ícaro não aceitou o pagamento pela consulta. Insisti muito, mas ele sorriu. "Não precisa, o importante é que você está bem agora".

Estamos em Hervey Bay. De domingo a terça estávamos em Sunshine Coast, e lá fomos recepcionados pela Claudia. Ela é carioca, mora com o marido, e tem 9 anos de Austrália. Claudia entrou em contato quando ainda estávamos em campanha de financiamento coletivo pelo Catarse, se oferecendo para nos hospedar. Quando chegamos em sua casa tinha Caetano Veloso no rádio e feijão no jantar. "Imaginei que vocês estariam com saudades da comidinha do Brasil".

Ana Clau, Ícaro e Claudia fazem parte dos bastidores do Gente Extraordinária. E, como muita coisa que acontece do lado de cá do computador — e do mundo — , eles foram fundamentais pra que a gente conseguisse fazer nosso trabalho. Eles nos deram, acima de tudo, carinho e aconchego. Amor mesmo. Sentimentos que a gente não costuma receber de estranhos, seja em viagens ou nas ruas da cidade onde cresceu. Mas tem uma coisa que a gente aprendeu nesse tempo todo de projeto e perrengue: às vezes as coisas não acontecem porque não nos mostramos disponíveis pra elas. Se abrir e abraçar a vulnerabilidade pode ter um efeito colateral que vai mudar a sua vida. Ana Clau, Ícaro e Claudia mudaram as nossas. Muito obrigada ❤

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