O que beleza e raça têm a ver com jornalismo?

Você clica em uma matéria sobre alguém preto? E sobre alguém fora dos padrões de beleza que você aceita?

Antes de mais nada, um aviso aos leitores que não estão familiarizados com o Gente Extraordinária. Meu nome é Bruna Talarico, sou jornalista e desde dezembro estou viajando as ilhas do Pacífico Sul entrevistando gente como a gente sobre o que faz a humanidade feliz. O projeto foi financiado coletivamente com sucesso por mais de 200 pessoas. O projeto tem o apoio da GoPro. O projeto é minha vida desde agosto de 2015, quando deixei meu emprego formal como editora na homepage do maior portal de notícias do país para tentar uma forma de jornalismo que empodera pessoas e forma leitores. Nestes dois meses no ar, demos vozes a todos os que cruzaram nossos caminhos e aceitaram ter suas histórias publicadas. Desde então, já publicamos 8 histórias de 4 países: Nova Zelândia, Samoa, Fiji e Vanuatu. São essas histórias que, há semanas, inspiram discussões internas aqui nos bastidores do projeto.

A mais perturbadora delas vem me perseguindo há um tempo: o que beleza e raça têm a ver com jornalismo?

Começamos o Gente Extraordinária com um idoso branco, banguela até dizer chega. No dia da nossa estreia, Felipe e eu ainda discutíamos e trazíamos para a pauta o exemplo da revista Trip, que em 1990, estampou na capa um homem negro e de sorriso encantador — mas igualmente sem dentes. Foi um dos maiores fracassos de venda da revista. Nas bancas, ninguém se sentia compelido a pagar por um produto que, por mais empatia que causasse, expusesse assim, tão livre, crua e ousadamente, um retrato da não-beleza estética tradicional. Abaixo, destaco um trecho do editorial publicado pelo Paulo Lima, editor da revista.



O conteúdo do Gente Extraordinária é gratuito e está livre nas redes sociais para quem quiser ler, o que invalida qualquer argumento econômico. Mas existe, nos dias de hoje, um custo tão alto quanto o dinheiro: o tempo.

Com tanta disponibilidade de conteúdo online aqui, agora, o tempo todo e em todos os lugares, é muito difícil decidir em que clicar. Este sempre foi o grande desafio dos grandes veículos de comunicação. Experiência própria: em todas as matérias que já fiz para todos os veículos em que trabalhei, uma orientação muito clara seguia a escolha do entrevistado ou fonte que seria fotografado. Precisa ser bonitão, gostosona, boa pinta. E, muitas vezes, ainda que preencha todos estes requisitos, pode não ser aprovado por conta da cor da pele. O que foge a este padrão opressor não rende foto — muito menos capa. O jargão usado nas redações — porque usar um nome técnico alivia consciência — é que gente feia não tem stopping power, o poder de fazer o leitor parar para ler.

Vocês podem imaginar o quanto isso limita o aprofundamento de um tema na hora de apurar uma reportagem. Os entrevistados e fontes interessantes, mas fora do padrão, ficariam restritos ao texto. E isso diz muito sobre problemas externos ao jornalismo, mas presentes na vida de todo mundo. Como fica a meritocracia, por exemplo? Todo mundo conhece alguém (ou já ocupou esse lugar) que teve uma oportunidade tolhida por ~não se encaixar nos padrões de beleza~.

Como mencionei mais pra cima, começamos o Gente Extraordinária com a história do Michael Colonna, o banguela. Ele foi o entrevistado de Auckland, na Nova Zelândia. Neste país, três entrevistados eram brancos; a eles se soma um Maori, que por definição tem raízes polinésias e traços indígenas. Desde a Samoa, no entanto, nossos entrevistados foram, sem exceção, pessoas negras. Além de negras, são pessoas que fogem ao padrão que a gente é levado a pensar a beleza. Suas histórias não são de grandes realizações. São apenas histórias, tão reais, ordinárias e surpreendentes como a vida pede. Todos estes tipos físicos representam a realidade a qual pertencem.

Esse é o mote do projeto, e sempre foi. Não somos um sucesso retumbante de audiência, mas temos leitores fiéis e uma qualidade invejável na interação com eles, que nos escrevem regularmente com críticas construtivas, sugestões e comentários. Agora, uma coisa é importante: nunca viralizamos. Nenhum post do projeto atraiu muita atenção de um público externo ao nosso, ou foi exaustivamente replicado. Reconhecemos nossas limitações de qualidade e sabemos que sempre temos onde melhorar. Mas uma coisa que eu fico pensando é… e se fosse uma entrevistada gostosona? E branca? Será que faria diferença?

Uma excessão a essa obsessão pelo branco e belo, eu acredito, é a matéria ‘chora leitor’. Não sei quem cunhou o termo, mas tive contato com ele pela primeira vez através de um querido editor com quem trabalhei no maior jornal do Rio de Janeiro. Este tipo de matéria abrange aquelas que falam de casos superação improváveis e emocionantes, do tipo ‘gari passa para a universidade após estudar com livros que achou no lixo’ — sabe? Elas invariavelmente vão bem em termos de audiência porque nos toca no ponto fraco: na esperança de que o mundo pode sim ser um lugar bom pra se estar.

Todo o cuidado foi pouco ao escrever este texto que, a partir do ‘publicar’, pode cair nas graças da intolerância e se voltar contra mim. Como uma leiga nas questões de raça e estética, posso não estar usando os termos mais apropriados para levantar este assunto que considero tão importante, e sei que estas poucas linhas não dão conta da complexidade do tema. Minha intenção é genuína: quero ajudar a construir um jornalismo — e um mundo — com mais representatividade e justiça. Por isso, peço a todos que se importam que me respondam ou alimentem o debate construtivo. Acho que só temos a ganhar.

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