O que um mergulho com tubarões pode ensinar sobre felicidade

Quando eu entrei no mar para fazer meu mergulho com os tubarões, ainda não estava preparado para o que estava para acontecer. Não seria a primeira vez que eu veria o predador de perto. Na véspera, fazendo um snorkel em Namotu Island, eu vi de longe um tubarão de recife. Gritei pra Bruna ver o bicho, e mergulhei em velocidade pra chegar perto e tirar uma foto dele. Fiquei me sentindo o bonzão, cheio de coragem pra nadar atrás da fera de pouco mais de um metro de comprimento. Minutos depois, ainda apareceu mais um, e lá fui eu tentar uma selfie com o devorador de peixes e tartarugas.

Mas em Beqa foi diferente. Eu entrei no mar, sinalizei que estava tudo bem para a tripulação do barco, e comecei a nadar para trás, como manda o protocolo. Foi a Bruna que deu a dica: “Olha pra baixo”. Sério. É inimaginável. Dezenas de tubarões, grandes, pequenos, médios, cinzas, azuis, bigodudos, lisos, de tudo que é jeito, nadando em todas as direções. Se fosse um desenho animado, eu teria pulado alguns metros, eu teria corrido sobre as águas.

Mas eu fiquei. E afundei. Os tubarões são enormes, são ferozes, e ficam ali rodando no meio de centenas de peixes que parecem não ter medo do grandão. Um malandro abre a caixa com os pedaços de atum e mahi-mahi e os tubarões vêm enlouquecidos comer. Passam a poucos centímetros da sua cabeça. Alguns mergulhadores ficam de guarda-costas atrás dos turistas, com uma espécie de lança com as pontas arredondadas (ninguém quer machucar e irritar um animal com tantos dentes), mas a verdade é que se eles entrarem numa de arrancar sua cabeça, eles vão fazer isso. É muito perto, não daria tempo de tentar se defender.

Depois de uns 15 minutos lá embaixo, você até acostuma. A Bruna se encantou por uma estrela do mar, e passou uns cinco minutos brincando com o bichinho de 5 cm, enquanto bichões de 3 metros passavam à distância de um braço dela.

Numa segunda etapa do mergulho, subindo de 30 para 12 metros de profundidade, onde ficam os tubarões limão, de recife e ponta cinza, fiz algo parecido: estiquei o braço pra fazer um close-up em uma moreia, e um tubarãozinho passou nadando entre minha mão e meu rosto — cheguei a tomar uma rabada no braço.

A sensação final, então, não é a de que você sobreviveu a uma experiência de morte iminente. Você se sente como tendo ido a um show sensacional, privilegiado por ter podido assistir aquilo tudo. É muito bom, mas não é natural.

Uma semana depois, fomos eu e Bruna novamente para debaixo da água, dessa vez na Purple Wall, na ilha de Taveuni. Lá voltamos a encontrar os tubarões. Dessa vez, sem ninguém pra dar atum morto pra eles. Estavam à caça. Não eram dezenas, mas quatro ao mesmo tempo sem guarda-costas é mais emocionante. No mesmo mergulho, fui atacado por um peixe-porco. Aparentemente cheguei perto demais de seus ovos — juro que foi sem querer! — e ele veio com tudo pra cima de mim, tentando me morder.

Estaria mentindo se dissesse que fiquei com medo de morrer, mas me senti bem mais em contato com a natureza ali, no mar aberto, do que entre os tuba-touros.

Depois de tudo isso, fiquei cá eu refletindo sobre o Ratu. Às vezes as pessoas dizem para a gente que são felizes, mas ficamos meio desconfiados se são mesmo ou se tem vergonha de dizer que não. Ou até duvidamos que a pessoa saiba que a vida pode ser muito melhor, fechada que é no seu mundinho. O Ratu não. Ele exala felicidade de todos os poros, sorri com os olhos, contagia quem está perto.

Aos 27 anos, ele não quer mais nada da vida além do que já tem. No máximo voltar para a vila onde nasceu, pra ficar ainda mais relaxado do que já é. O cara trabalha ao ar livre, no meio dos tubarões. Tubarão, inclusive, que é um deus para seu povo, então pode botar aí na conta que há certa fé e religiosidade envolvida nessa ligação diária com a natureza. Ele trabalha com turismo, e conhece gente nova o tempo todo. Trabalha com pesquisa de biologia marinha, ajuda a expandir as fronteiras do conhecimento humano. É guarda-marinho, mantém os pescadores longe da Reserva Marinha — e vê o resultado do trabalho no aumento da população de tubarões, mas também de peixes, o que acaba sendo ótimo para os próprios pescadores de fora da reserva, muitos deles seus conhecidos e parentes. Por fim, mora com a família (pais, irmãos, cunhados, sobrinhos) e está sempre perto de seus amigos, tomando sua kava para falar bobagem a noite toda.

Botando em termos mais genéricos, o cara faz o que gosta diariamente, se sente útil para a sociedade, está sempre aprendendo, está em contato com sua fé, e tem o conforto de estar sempre entre os que ama. Não acredito muito em receita ideal para a felicidade, mas que bela mistura esse rapaz arrumou.